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Deixe-me ir pro Brasil acordar

Renato Dalto

Circula por aí, pelas redes, os acordes lindos de violão, bandolim e as vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte interpretando a belíssima “Preciso me Encontrar”, de Candeia. Samba do morro feito pelo homem do povo, desses que passam na rua e quase ninguém percebe. Gente assim como Cartola, que um dia foi visto lavando carros pra ganhar uns trocados e provocou uma crônica indignada de Sérgio Cabral. Cabral tinha dito que aquilo lhe dava a sensação que o país tinha acabado. Cartola, o das rosas que não falavam mas que exalavam um perfume roubado da mulher amada. Como o Candeia que suplica, que dilacera. “Deixe-me ir, preciso andar…… diga que eu só vou voltar quando me encontrar”.

Toda vez que ouço isso penso nos versos dormidos que andam por aí, nas calçadas, nos botecos, nas esquinas, nos campos de futebol, nos morros.  Penso no país que segregou um Cartola, um Noel Rosa, que pouco enxergou Candeia. No país que não tinha jeito e um dia trucidou inconfidentes. No pais dos corvos e das conspirações. No pais que jamais soube ler a si mesmo. Ontem mesmo  à noite a TV Brasil exibia um documentário sobre Darcy Ribeiro e muita gente descrevendo o script do golpe- o clima da corrupção insustentável, a conspiração orquestrada dos donos do capital e a mídia, a onda de boatos. O filme antigo que se repete enquanto o país esquece Cartola, Candeia, Noel e parece que nunca vai lembrar quem é.

Deixe-me ir.  O solo que ouvi dizia de certa forma que este país tem jeito. Que não é a soberba dos piratas do poder que nos roubará a identidade. Um poeta fugido da Espanha assolada pela guerra civil recusou-se, no exílio, a recitar seus próprios versos. Dizia que a essência da palavra havia ficado com os camponeses, com os combatentes que lutavam por um país melhor.  Aconteça o que acontecer, há vozes que resistem. Não na lógica da passeata, do protesto ou do embate. Mas no trono encantado onde nunca habitará um rei ilegítimo.  Porque lá só a pureza da poesia é capaz de conduzir os olhares generosos que miram a vida  lá do morro, dos pés descalços que batucam a poeira dos terreiros, da feijoada e do olhar maroto da sedução domingueira. É esse olhar que estará sempre erguendo outro país – brejeiro, tolerante, alegre e tão plural.

Então não canso de ouvir Candeia e seus toques da mais profunda filosofia.  O homem em busca de si mesmo. O país também perdido em si mesmo. Do topo de um golpe os urubus não identificam esse canto. Porque o que buscam não está em qualquer lugar.  Buscam o poder pelo poder. Sem voz, sem melodia, sem a sincera canção que nos afaga de pureza e encanto. Quem faz o país só quer isso: Deixe-me ir. Em algum lugar, estamos mais livres, na essência do que esse povo tem melhor. As rosas que não falam. Os caminhantes que procuram. Ninguém impede esses passos. Ninguém cala as rosas. Deixe-me ir que um dia o Brasil real vai acordar.

A balada dos golpistas inconfessáveis

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Renato Dalto

São irônicos ou enfezados moralistas. Leem em geral o Estadão e posam com um ar blasé como se fossem íntimos dos Mesquita. As falcatruas dos Marinho não interessam. Alguns tratam simplesmente por Jorge o empresário do alto do pódio da Operação Zelotes.  Outros tem parentescos e relações de cama e mesa com os partidos golpistas, mas isso não vem ao caso. Tem filho e nora de deputado do PMDB, por exemplo, ensaiando finas ironias na rede como paladinos dos bons costumes políticos. Tem filho de prefeito do PP, o campeão da Lava Jato, que se arvora de jurista e defende com ferozes argumentos que Dilma cometeu crime de responsabilidade. O partido de papai atolado na Lava Jato não vem ao caso. Como a verdade só vale para um lado, a mentira também pode valer. Então eles não precisam dizer que tem partido, lado e, digamos assim, uma mágoa familiar com o PT. Estão irônicos e felizes, como aquele enforcado que confundiu a corda com uma gravata nova.

O que bombou na rede foi a foto de capa do jornal do seu Mesquita, aquele protagonista de 64 e de agora, com o rosto de Dilma parecendo em chamas diante do fogo olímpico. Os golpistas blasé, em geral, preferiram elogiar a estética e o espetáculo jornalístico da foto. Como disse certa vez um setorista sacana do governo do PT no estado, as redações sempre gostaram de governos petistas pelo convite à maldade permanente orientado pelos editores. Afinal, que importa a verdade diante do que o editor quer.

Essa foto chegou na minha rede através de uma moça jornalista, militante de redação e nora de um deputado peemedebista que jamais confessa seus laços de parentesco. A moça elogiava a estética, num ato que lembrava os brilhantes apupos das redações, esses lugares onde repórteres não saem mais à rua com medo do contágio da realidade. Ao ver a vibração da moça, tive que responder:

“Tecnicamente perfeita. Editorialmente canalha. Desumana diante de tudo o que essa mulher sofreu. Entre a ética, o humanismo e a estética fico com as duas primeiras. Jornalistas de redação sempre me parecem os prisioneiros da caverna de Platão. Enxergam sombras e pensam que viram a realidade. E absolutizam todos os valores pelo trono de uma foto ou reportagem. E a vida real fica em segundo plano. Infelizmente. Ah, a estética não é maior que o caráter. A história espúria do Estadão fala por si”.

Houve há algum tempo uma famosa discussão por aqui, publicada nas páginas do jornal, entre Luis Fernando Veríssimo e Augusto Nunes. Veríssimo dizia que a primeira coisa que o leitor devia saber era a posição política de quem escrevia. Nunes discordou citando como exemplo de isenção um repórter de uma rede de TV americana que descrevia com absoluta isenção e frieza, ao vivo, um bombardeio sobre Bagdá. Ao que Veríssimo respondeu:” Quem descreve com frieza uma matança pode ser um ótimo jornalista mas é um péssimo ser humano”.

Sempre penso isso ao ver o regozijo dos golpistas ressentidos – ressentidos por estarem perdendo há quatro eleições, ressentidos com o povo nas universidades e aeroportos, ressentidos dentro do consumismo mesquinho e individualista-  destilando risos e ironias desejando que o linchamento político do PT vá as últimas consequências.

Mas eles não tem partido, nem lado, nem rosto. Talvez por isso vibrem com o rosto de Dilma sob as labaredas. Só para lembrar: rosto pra bater e fogo pra queimar só pra quem tem caráter e coragem. Caráter e coragem. Quem tem mostra. Quem não tem esconde. E ri como as hienas.

O reaprender da batalha

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Renato Dalto

Hoje me deu vontade de falar de alguma coisa que não sei direito o que é. Mas é apenas isso de estar vivo, inteiro e lutando. De estar neste tempo, neste agora, com tanta gente legal do lado. Rosas e sangue mas também abraços e partilhas. Vejo os dentes ensarilhando ódios antigos, desdéns seculares de quem acha que a ostentação da Casa Grande é a ordem natural das coisas. Vejo que muita coisa se perdeu pelo caminho e, apesar de cínico, Nelson Rodrigues tinha razão quando falava de complexo de vira-lata.

As liturgias do poder fizeram com que se assumisse uma lógica de Casa Grande sim. O vira-lata achou que seu jeito simples não merecia tudo aquilo. E se fantasiou pateticamente de Senhor. Muito triste ver que um ex-operário tirou pra amigos os compradores do rei. Triste ver que nos pequenos gestos – na roupa, na fala, no olhar e no consumo – muita gente repetiu a empáfia descomprometida da classe dominante. E navegou com ela embriagada na nau dos sabujos, nos afagos para ganhar conta, no frisson publicitário que servia clericot com ouro em mansões bregas de novos ricos. Eu vi um pouco esse espetáculo do canto da sereia. E vi que por aí nos perdemos.

De certa forma, agora, todos tivemos que baixar o tozo ( é isso mesmo, baixar a cabeça com humildade em busca de sabedoria) e perguntar de novo de onde viemos, o que somos e que país queremos. Venho à exaustão repetindo onde posso e orando pra mim mesmo que as ideias são maiores que os nomes, inspirado no mestre Mujica. O problema é que aceitamos, internamente, que os altos dirigentes eram os senhores  e a base que os sustentava era de apenas serviçais. Sim, mea culpa, nossa culpa. E quando se aceita o senhor e sua vontade se abdica também da capacidade de pensar. E de questionar. E de se rebelar. E de lutar.

A verdade é que houve um caldo complacente que se criou nos gabinetes de presidentes, governadores, prefeitos, deputados e assim por diante onde se ergueu o totem pra quem manda e o tarefismo pra quem obedece. Cansei de ver gente correndo pelos corredores dos palácios dizendo: “Faz assim porque o chefe quer assim”. E quando a vontade particular do chefe, num cargo público, vale mais do que tudo, o pecado original está plasmado. O privado venceu o público. E se o chefe pode, imagina o que o presidente não pode.

Pode ser até simplório esse parágrafo aí de cima, mas ele exige a outra reflexão mais profunda, aquilo que Gramsci chamou de hegemonia. Ou seja, o dominado que repete infinitamente o comportamento do dominador internalizando que essa é a ordem natural das coisas. E quanto mais se achar que isso é natural, maior está sendo a eficiência do dominador sobre você. Gramsci chamou isso de causa eficiente da ideologia. A dominação sem dor, na subliminaridade de sentimentos como o autoritarismo, a insegurança e a propriedade privada de um segredo ou a força de um cargo.

O poder nos tirou a capacidade de pensar e elaborar, O pragmatismo nos surrupiou a mais doce poesia da vida, que é a da partilha, da generosidade e da igualdade. E se nos tornamos menores e mesquinhos ficamos do tamanho de tudo aquilo que contestamos. E a guerra vai para a planície do plenário, pra estratégia do toma lá da cá, pro achincalhamento dos nossos melhores sentimentos. E a política torna-se o vazio do vale tudo.

Não sei o que será dessa batalha que é quase guerra civil. Não sei o que será de tanta gente que deu a vida por um país melhor e mais justo. Foram sinceros nos propósitos, acredito. Mas em muitos deles a prática os traiu. As mãos do pragmatismo puxando o gatilho pra abater a utopia. Talvez estivéssemos surdos. E quando ouvimos o estampido era tarde.

Por isso só posso declarar nesta tarde cinza é que a gente precisa aprender de novo. Humildemente tirar o mofo das roupas da batalha que deixamos lá no fundo. E reaprender, entre restos e rubores, que o trunfo é tão somente este: estar vivo, estar inteiro, estar pronto. E, urgentemente, reaprender a lutar.

Carta à Tia Clemir. E aos bons corações como ela

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Por Renato Dalto (*)

Quero te dizer, Tia Clemir, que vi de tudo no dia 4 de março de 2016. E que vi o teu post com a bandeira brasileira vibrando com este dia histórico. O dia que, pelo senso comum, pegaram o Lula. O dia da vingança dos que acham que a policia, o juiz, a porrada e a cadeia resolvem todos os problemas do país. Gostaria que fosse assim: era só botar uma tropa de choque na rua e prender e arrebentar quem atrapalha a vida da gente. Mas infelizmente não é assim e a gente, antes de torcer pela força, deve tentar alimentar outra força: a força das ideias e do cérebro.

Lembro de nossa origem comum. Habitantes de um pueblito fronteiriço, desgarrados dos farrapos do latifúndio, cheios de dificuldades pra levar a vida. Pouca grana, famílias grandes, campo despovoado e tendo que vender tudo pra manter um pouco de dignidade. A vida hoje, é verdade, nos dá alguns confortos. Sei, por exemplo, de filhos adolescentes de amigos que entram na universidade sem sobressalto na conta bancária. Sei de alguns que cruzam o oceano para viver o ciência sem fronteiras.

Às vezes ando por aí e vejo gente já com casa, pátio e carro na garagem graças a políticas de governo. E sei, também, de todos os nossos pecados. Que cada um quando pode arruma uma boquinha com um político. Que se aceita favores, E que se trata sempre a política como coisa de doutores, sábios ou endinheirados. Uma vez vi uma frase: trabalhador não vota em doutor. Era só um desejo. Trabalhador, nesse país, sempre foi o que ganhou só pra sobreviver e servir. E que acreditou sempre no que o doutor lhe dizia: come, trabalha e serve os mais ricos.

Eis que um deles desponta do sertão e vem peleando contra tudo. Pra não morrer severinamente antes dos cinco anos, pra sobreviver de peão de fábrica antes dos 20, pra aprender que patrão é patrão e peão é peão. Ponto. Vieram sindicatos fortes, os milicos voltaram pra casa, o Brasil se democratizou e esse sertanejo virou um símbolo de um novo pais que vem se construindo de baixo com regras simples como casa para quem precisa e educação pra todos. Teus filhos e netos tem escolas melhores, Tia Clemir. Foste professora de campanha e sabes o que é o frio, a geada e a dificuldade. Acho que isso te fez essa beleza humana que és, terna e forte e incapaz de perder a alegria.

Eu acho que sei a fonte disso, talvez simplesmente na tua capacidade de observar e sorrir. Mas sei também que isso as vezes se embaça pela truculência dos lugares, pela ignorância da volta, pela província que impede a gente de ver o mundo. Eu também gostaria de acreditar que o problema do país é a roubalheira. Mas não é: é a distribuição de renda. Ou o complexo de vira-lata: gente do povo não acredita que um igual possa lhe governar. E então outorga sua vida à malemolencia cívica dos doutores engravatados. E segue na senzala idolatrando seus senhores.

Hoje vi uma frase que gostei muito num post, assinada por Tatiana Lima: “A filha da faxineira e do nordestino que é camelô hoje está no doutorado. Isso não tem volta. E não estou sozinha. Tenho o trabalho de uma empregada que se formou na universidade e ainda escreveu sobre empregadas na academia. A Senzala partiu pra cima ao ver uma janela. Casa Grande precisa ruir”. Assim como vi, nessa rede, teu post com a bandeira verde-amarela dizendo que foi um dia histórico na política brasileira.

Tinha euforia nisso. De minha parte, que venho como tu do latifúndio que ruiu e tive que arregaçar mangas na vida, te confesso que não há euforia. Há muito fui expulso da Casa Grande e aprendi a vida com o povo simples, sincero e sábio da Senzala. Me orgulho disso e foi com esse povo que segui pensando que meu país poderia ser melhor. Com outra bandeira. Com outro olhar. Com a ternura e a solidariedade dos que constroem.

Vi a biografia de um juiz bem nascido filho de pai tucano e da tradicional família paranaense. Vi também a de um nordestino que venceu a fome e a morte. Caráter e honestidade talvez não se meça só pela tábua simples de valores que a gente nem sabe direito o que é. Caráter e honestidade, muitas vezes, são apenas regras de sobrevivência. Mas há uma regra de convivência acima de todos nós que se chama simplesmente de democracia. Aquela que começa com singelos direitos civis como o que diz que todos são inocentes até prova em contrário. E que, sem provas, ninguém pode entrar a força num camburão. Mas o juiz bem nascido anda por aí prendendo pra depois saber porque prendeu. Virou ídolo nacional. O vingador. E, como na arena dos gladiadores, o povo quer sangue.

Eis que, pouco depois da tua bandeira eufórica, chega outro recado. Diz assim: “A classe dominante não tem ódio. Tem astúcia. O ódio ela terceiriza”. Hoje uma parte do país vibra por ódio. Ódio do Lula. A luz da janela cegou parte da senzala. Eu só pensei no dia que tive que abandonar minha cidade porque nela só tinha lugar para os bem nascidos. E que fui as ruas e vi nascer um outro país. Não foi a bandeira cujo lema começa por “ordem” que me moveu. A palavra era outra: esperança.

Essa esperança eu não terceirizo a nenhum juiz nem a qualquer policia. Porque sonho com um país onde todos os severinos possam vencer a fome, ultrapassar a linha de pobreza e, no mínimo, ter casa e escola. Eu já vi essa multiplicação acontecer. Só torço pra que , neste momento, o país não esqueça disso. Porque trocar o avanço da política pela força da policia não liberta ninguém. Só posso concordar contigo numa coisa, Tia Clemir. O 4 de março de 2016 foi mesmo um dia histórico. Tristemente histórico.

Quanta generosidade com um fascista

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Renato Dalto (*)

A política brasileira é pródiga em caricaturas prontas: já produziu Jânio Quadros, Fernando Collor e agora esse tal de Bolsonaro, que em vez de substantivo próprio virou adjetivo. Trata-se apenas de um fascista caricato, tentando amealhar o que mais torpe há no senso comum: a ideia de que a ordem substitui a política e que diálogo e direitos civis são coisas de democracias falidas. Apenas isso. Ele é a exacerbação pornográfica da direita que, se for preciso, mantêm a ordem com sangue. Como pornografia é o sexo dos outros (pego emprestado do Millôr Fernandes), há gente tentando levar a sério essa caricatura fingindo dotes democráticos e direito ao contraditório. Como na pornografia, deixam o desejo sórdido para o escurinho da sala e fingem a moral democrática em público. Afinal, pornografia fascista é algo inconfessável.

O problema está nas entrelinhas, onde todos exibem aquele pudor britânico de dialogar com o fascismo, deixam nas entrelinhas uma certa sedução por ele, mas o tom blasé e aparentemente democrático esconde a simpatia pelos adeptos dos tanques na rua. São pessoas aliás que tem uma raiva alojada no fígado da esquerda mas em nome da tolerância tratam respeitosamente o fascismo- aquela ideia odiosa de ordem que terminou em holocausto.

E assim que um Bolsonaro vive seus dias de celebridade, ouriça aeroportos e plenários, ganha mídia, arrasta alguns fanáticos descerebrados e ganha o sutil apoio de quem vê qualquer inimigo da esquerda como um aliado – ou mesmo um aliado de ocasião. Para quem abraça a mesma causa de um Eduardo Cunha, cabe até um Bolsonaro no cardápio.

A passagem da caricatura por Porto Alegre teve ares de espetáculo. Chamou atenção uma entrevista dele à Rádio Guaíba e o debate com o jornalista Juremir Machado da Silva. Esse debate dividiu opiniões e o interessante é que teve gente atacando Juremir, por questionar e polemizar os dotes fascistoides de Bolsonaro, e esboçando uma sutil defesa do herdeiro da treva da ditadura militar, que entre outras coisas sonha com um general como Ministro da Educação.

O problema não é o Juremir. Ele serviu apenas de pretexto para esses cavalheiros e senhoras de ar britânico confessarem, digamos assim, uma certa sedução por Bolsonaro. Pornografia é coisa de quarto escuro, mas vale uma piscada de olho no salão iluminado para palmilhar o escaninho das perversidades não reveladas.

Há divisores de água no curso da história e nisso se inscrevem alguns princípios básicos, como abominar tortura e assassinatos. Mais do que uma questão política é uma questão humana. Como a pornografia. Sexo perverso e pau de arara não se mostram em público. Bolsonaro ao menos é sincero em explicitar sua pornografia política traduzida no fascismo exacerbado. O difícil é entender tanto democrata magnânimo defender generosamente um fascista em nome de desejos inconfessáveis.

(*) Jornalista

Guevara, Chauí e merda na cabeça

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Renato Dalto

Aquele rosto na camiseta e aquele olhar miravam o que há de mais generoso e libertário em cada ser humano. Sobre o Che, Eduardo Galeano escreveu uma frase muito simples: “Ele acreditava que a vida era se dar. E se deu”. Sobre ele também o pensador argentino Atílio Boron refletiu o seguinte: o significado daquele rosto não é o espirito de uma revolução, mas apenas o que todas as almas boas desejam– um mundo mais justo, com menos desigualdade e mais solidariedade. Foi isso, basicamente, que fez milhares de pessoas, em todos as partes do mundo, se identificarem com ele. O rosto e o olhar distante e visionário de Guevara significa os sonhos que nunca podemos perder.

A professora Marilena Chauí chegou as minhas mãos, primeiro, num pequeno livro chamado “O que é ideologia”. Interessante quando ela se referia a um conceito de Antonio Gramsci chamado a “causa eficiente” da ideologia, ou seja: quanto mais você reproduzir o comportamento do seu dominador achando que isso é natural, maior o poder da visão de mundo dele sobre você. A professora Chauí parece ter passado um primeiro alerta que o gosto de uma certa turma do PT pelo mundo burguês, com seus luxos e alianças espúrias de negócios, era a causa eficiente da ideologia corrompendo por dentro um partido que, como o rosto do Che, não poderia perder o essencial: o sonho de um mundo melhor. Venceu a causa eficiente dos odebrechts da vida – o PT sepultou os sonhos em nome do poder.

Eis então que o Che e a Chauí se encontram num lamentável clip que está circulando pelas redes, uma chacota à esquerda e ao governo onde a imagem de Guevara e Marilena Chauí são espinafradas numa privada, assim como as de Lula, Dilma e Fidel Castro. Ou seja, mais explicitamente: a história e o saber reduzidos à merda. Interessante é que tem gente espalhando, curtindo e dando gargalhadas disso como se um achaque de tão baixo nível criativo e intelectual fosse apenas uma tirada de humor. Não é.

Jacques Lacan costumava dizer que todo o inconsciente se traduz em linguagem, e é revelador que esses jericos tenham escolhido a privada como cenário. Dos emblemas da política escolhidos para adornar o mau gosto, alguns se explicam pelo puro ódio de classe, outros pelo preconceito, mas, no caso da professora Chauí o grave é que ela representa, sobretudo, uma coisa: a originalidade e a ousadia do pensamento. Mais: posicionar o pensamento ao lado de uma visão de mundo. Mais: dar braços e pernas para que essas idéias caminhem em direção a uma causa generosa e libertadora.

Não se trata aqui de concordar ou discordar dela, mas de respeitar a origem de tudo isso que se molda na filosofia e na inteligência. O sinal dos roqueiros retardados é, acima de tudo, que a professora Marilena incomoda. Que eles não querem ser fustigados a pensar. Porque para eles pensar e cagar, tanto faz. E é aí que, lacanianamente, mostram o lado do mundo onde estão.
Volta e meia lembro de uma máxima dos franquistas gritada volta e meia nos ambientes públicos numa Espanha conflagrada pela Guerra Civil: “Abaixo a cultura, viva a morte”. Os roqueiros renovaram a frase: “Abaixo o pensamento, viva a merda”. O triste dessa treva é que ela representa um retrocesso para antes da Revolução Francesa, onde se inauguram valores republicanos como o respeito ao contraditório, o direito de opinião, a fraternidade social.

Chegamos ao inferno dantesco, à escatologia do entendimento, ao endeusamento da idiotice.
Isso acontece porque, de um lado, a professora Chauí tinha razão – a causa eficiente da ideologia é mais forte e, afinal, num mundo pragmático, pra que pensar? De outro lado está a figura do Che, retratada magistralmente no filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles. Na comovente cena final, o jovem Ernesto descobre a dor das pessoas com lepra e entende, enfim: o sofrimento humano impõe a todos que têm consciência uma outra travessia. A travessia sobre si mesmo para rever valores e olhar o outro. Com respeito. Com dignidade. Guevara entendeu isso e saiu pelo mundo em busca da revolução. Aos que não entendem isso só resta procurar a privada. E mostrar, lacanianamente, o que são.

Abaixo a merda, viva a inteligência.

(*) Renato Dalto é jornalista.

Sobre jornalismos, gongorismos e cinismos

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Bombou esta semana a capa do jornal Estado de Minas mancheteando que era sujeira pra todo lado e finalizando com a pergunta: “Que país é este?” Também circulou pela rede a dita cuja, como exemplo de jornalismo bom, ousado e coisas do gênero. Desde os tempos da faculdade, e até antes disso, sempre aprendi o óbvio: jornalismo é noticia. Mais: bom jornalismo é o que traz a notícia nova ou traz a noticia velha com outra cara, com outro olhar, com uma interpretação do fato. Mas parece que jornalismo e fato são seres de planetas estranhos que poucas vezes se encontram. Ou, o que é pior: o fato de uma única versão, o jornalismo que joga só para um lado e que julga, culpa, denuncia muito antes da justiça. Certa vez o professor Ruy Carlos Ostermann, numa palestra, revelou uma preocupação: é que toda vez que entrava numa redação de jornal ela estava cheia de gente. O professor Ruy era de um outro tempo: repórteres na rua, portanto redação vazia.

Pois o vazio agora parece em outro lugar. É nas ideias mesmo. Na falta de apropriação do fato vale sempre o jogo de palavras. Lembro que por aqui, certa vez, um certo diretor de redação vindo de São Paulo escreveu o perfil dos presidenciáveis sem entrevistá-los, com textos que eram uma aula de estilo gongórico, frases sinuosas e conclusão nenhuma. Afinal, de que vale a reta se a curva pode levar a lugar nenhum?

Pois bem, a capa do Estado de Minas fala da lama e pergunta. Poderia começar respondendo de onde vem a lama da barragem de Mariana, que atende pela memória da famosa Vale, privatizada no governo de FHC a preço vil, sob a qual pairam muitas dúvidas, nenhuma apuração e nenhuma responsabilidade. Mas, enfim, com uma capa dessas o jornalismo talvez não precise de memória. O leitor também não.

Mas enfim, são esses os tempos. A sinuosidade do verbo se sobrepõe ao fato. Esses tempos, na séria Oficio em Cena, da Globo News, conduzido pela competente Bianca Ramoneda, apareceu um entrevistado: Pedro Bial. Aquele que construiu um texto ode à queda do Muro de Berlim, mas que também usa seu texto bem articulado para odes aos heróis do Big Brother. É apenas a personificação até onde a palavra sem compromisso pode chegar. Enfim, cinismo não dá manchete mas garante emprego.

Do dito jornal e sua capa, bebida na fonte do extinto Jornal da Tarde, há os parnasianos de plantão batendo palmas: a forma pela forma superou a noticia. E como o Jornal da Tarde entrou na história, sempre lembro uma capa do dia em que Jânio Quadros venceu a eleição para a prefeitura de São Paulo. A foto mostra a expressão tresloucada do novo prefeito e seus olhos revirados. A manchete diz: “É isso aí”. Bebendo nessa fonte, quando daqui a algum tempo nos perguntarem como era o jornalismo desta época, talvez seja bom mostrar a capa sem fato, sem noticia mas com uma boa estética e chamadas atrativas. Alguém talvez pergunte pela noticia. E aí a resposta já está pronta na chamada do JT: É isso aí.

Onde estavas naquele 2015?

cada um lembrará  em que lado da rua estava quando o bloco da conflagração passou.

Daqui a algum tempo, a história nos fará essa pergunta e cada um lembrará em que lado da rua estava quando o bloco da conflagração passou.

Renato Dalto

Onde estavas naquele 2015? Daqui a algum tempo a história nos fará essa pergunta, e cada um lembrará em que lado da rua estava quando o bloco da conflagração passou. Recordarei sem dúvida uma tarde, em Pelotas, Stela e eu sentados numa sala e, em nossa frente, mestre Schlee sentenciou: “Hoje essa camiseta da seleção é usada pelos detratores do governo, contra a Dilma e pelo impeachment, a camisa da seleção brasileira com o moralismo mais barato que se pode imaginar. Essa camiseta é o símbolo da corrupção, da miséria, da pobreza e da situação que foi colocado miseravelmente o futebol brasileiro.” Schlee, antes de ser o escritor magistral que é, tinha vencido um concurso, em 1953, para desenhar a camiseta da Seleção brasileira. Ele é o pai da camiseta amarela, a mesma que, em 2015, foi usada pelos que pediram, nas ruas, o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Curiosidade: o homem que mandava na entidade da camiseta amarela estava preso na Suíça por corrupção. Mas em 2015 não se podia falar em coerência.

Havia uma metralhadora verbal, midiática e indignada contra a presidente da República. Ninguém tinha provas de algum crime dela. Enquanto isso o presidente da Câmara dos Deputados tinha uma inexplicável conta milionária na Suíça, mas contra ele eram muito poucas as manifestações de indignação. Porque em 2015, recordaremos, a indignação era seletiva. Havia as falcatruas coniventes e as falcatruas indignantes. As maiores empresas do país haviam comprado fiscais do fisco para se livrarem de multas, mas muitos amigos dos donos dessas empresas iam às ruas protestar contra a corrupção.

2015 um dia será passado. Eu lembrarei de algumas solidões. Numa delas, em frente à estante de livros, à procura de “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich. Precisava rever aquele manifesto do homem indignado e condenado pelo fascismo. Ele falava que havia chegado a era do homem comum, do pensamento fundamentalista alçado ao rés do chão traduzido no preconceito de classe, de raça e de gênero. Falava no homem que não acreditava em si mesmo nem nos que são iguais a ele: como poderia um trabalhador chegar ao poder? Como um homem simples estaria num lugar reservado apenas aos doutores? Reich, que a vida toda havia tentado mostrar a esse homem comum que ele poderia se libertar com as próprias forças, já esmorecia diante de tanta indignidade. Sentenciava a Zé Ninguém que seu futuro seria terrível. E já não se continha, até chegar a uma frase fatídica: tu assassinas tua própria liberdade.

Olhava para o passado em 2015 porque o futuro pertencia à incerteza. Lembrava daqueles tempos do Colégio Julinho e da faculdade, da apaixonada discussão entre duas formas da esquerda chegar ao poder: se pela revolução permanente ou pela política de alianças. E no PT emergente se discutia se seria um partido para atuar junto à sociedade ou um simples disputante de poder com os partidos convencionais. Venceu a segunda alternativa. Lembro então de um colega: nós dois sentados no DCE da PUC, e ele falando quase com indiferença: “Um dia esse burocrata vai acabar com o PT”. Perguntei quem era. E ele falou: “Zé Dirceu”. Em 2015, lembrarei sempre, esta frase soou como profecia enquanto eu buscava o manifesto contra um outro Zé, aquele que traía a si mesmo, que sepultava toda generosidade, que matava num pragmatismo vil todo o sonho de liberdade. Mas as coisas se confundem. Só sei que era Zé. E não me perguntem que Zé é.

Vasculhava outras memórias, para tentar ver em que lugar do mundo, em que época, a esquerda havia conseguido governar sem traumas aliada aos donos do poder econômico. Nunca deu certo. Tentou-se no Brasil, mas infelizmente não foi aqui que se inventou a roda. Mas foi no Brasil que uma certa esquerda acreditou em Papai Noel.

Lembrarei do ódio das moças bem nascidas fazendo selfie nos protestos que começavam no Moinhos de Vento e terminavam no Bonfim, bem longe da periferia, dos pobres e das ruas sem saneamento. Elas tinham revolta e glamour. Tinham um juiz como herói, um partido pra condenar, um boneco de vento e queriam derrubar um governo eleito. Para um lado ou para outro a memória tem suas armadilhas. E dependendo em que lado da calçada a gente andar, ou a escolha com que passeata seguir, pode significar muito. Num de seus livros sobre o regime militar Elio Gaspari registra que no primeiro momento o golpe de 64 teve um apoiador: Ulysses Guimarães. Logo ele que depois viraria o símbolo da luta pela democracia. Mas enfim, se num determinado momento o Doutor Ulysses escolheu o lado torto da história, quem não teria esse direito?

Em 2015 havia também sinais de uma nova Idade Média, onde as pessoas mais teclam do que conversam, onde as superexposições de uma felicidade cosmética tragam a fumaça da felicidade real. Nesse ano de muitos atores, os farsantes também tomam a mesa e anunciam que a democracia faliu, que não são necessários programas sociais, que há o grave alerta da sociedade estar consumindo menos automóveis.

Uma coisa que jamais poderá se dizer é que pouca gente falou em política em 2015. Todos têm opinião, e os indignados voltam a pedir que prendam e arrebentem. O ídolo é um juiz que prende antes de saber, que presume a culpa antes da inocência, que identifica todos os criminosos de um único lado – todo o que tiver a estrela vermelha no peito é mais suspeito que os outros. Lembro que no auge da ditadura falavam num fascínora travestido de policial que era o sinônimo da ordem: o delegado chefe do DOI Codi, Sergio Paranhos Fleury. Tinha gente que enchia o peito para dizer: o Fleury atira antes de perguntar. Alguém deve encher o peito pra dizer o mesmo do juiz que primeiro prende pra depois tentar saber por que prendeu. É bem anterior a isso a música do Nei Lisboa, mas as vezes me pego cantarolando ela: cada povo tem o novo que merece.

Choveu bastante na primavera de 2015. Parece que houve muitos agostos e poucos outubros. Perto dos agouros de agosto um partido fez um programa de TV com uma estética lúgubre, negro por tudo, homens de fatiota preta, taciturnos, dizendo que estavam prontos para salvar o país. Um deles, vice-presidente da República, tinha uma semelhança incrível com o conde Drácula, o vampiro. O país sangrava na crise quando o conde e seus partidários anunciavam a salvação. De preto, como o corvo – o apelido que, nos anos 60, remetia a Carlos Lacerda, o senhor de todos os golpes. O corvo, o vampiro e o PMDB. Alguém um dia fará um filme sobre isso. Não me perguntem de que gênero.

De minha parte, direi que andei por 2015 atrás de alguma esperança. Que pensei até onde a ambição desmedida pode sepultar os sonhos. Pensei muito num Zé, o odioso. E no outro, o ambicioso. O ódio e as consequências de uma ambição cega pelo poder tomavam conta dos dias. Ás vezes o sol aparecia. Choveu muito aqui no sul em 2015. Espero que daqui a algum tempo possa dizer que algo germinou daqui. Ou que a gente aprendeu, ou que sobreviveu. Mas posso dizer que não odiei em 2015. O ódio corrói a imaginação, soterra a esperança, calcina o olhar. Mas lembrarei que muitos Zés andavam por aí. E o futuro temia por eles.

O sul perdido em nós

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Renato Dalto

O sul, este lugar do mundo onde embriões libertários nasceram e sumiram, quase sem rastro. Aqui se dizimaram inimigos nas lonjuras, aos quais deram o nome genérico de gaúchos – gaucho, gauche , sem terra e sem destino. Homens livres que se viraram contra a miséria e o abandono e que, segundo nosso maior poeta, Jorge Luis Borges, não legaram à história um só caudilho embora tenham servido sempre a chefes de ocasião sem saber direito por que causa lutaram. É este sul, anárquico em sua relação de classes, cartorial pelo carimbo de oligarcas, cruel contra os inimigos e benevolente aos amigos, que permanece em nós como uma névoa onde, historicamente, nos perdemos. Benedetti falou de um lugar para onde foram os desaparecidos, os esquecidos, os que a história tentou relegar ao nada. “Estan aja en el sur del alma”.

O sul, este lugar continental que em seu garrão se estende numa grande planície onde se estendem terras, posses e barões de folhetim mas também índios vagos, gente sem terra, nome ou destino. Os barões se pintam como nobres montados em exuberantes cavalos, os índios vagos são pintados por outras mãos que os identificam nos botecos, nas cercas à beira de corredor, numa diversão domingueira. Foram personagens de Blanes, de Debret, de Molina Campos, de Guiraldes, de Erico Veríssimo, de Hernandez mas nenhum deles pegou o pincel ou a pena para escrever a própria história. E estão então nesse lugar mais longe, ajá, lejos, onde a alma não identifica nomes, posses ou títulos.

Todo setembro, toda primavera, se celebra um aparente orgulho de toda essa gente – barões e peões – em nome de uma guerra cuja metáfora é maior que a realidade, mas enfim a figura do homem em andrajos, em farrapos, pode ser mais que um sinal. Pode ser orgulho de uma bandeira cujas insígnias indicam ideais que lembram a Revolução Francesa mas também práticas medievais que antecedem a república. Nesse sul que se divide entre amigos e inimigos, entre ódios e paixões cegas, entre privilégios e masmorras, o telurismo e a teimosia as vezes são maiores que a razão. O que talvez explique isso é o sentido de um sul que perdemos há muito tempo. E que nos escraviza como um espelho distorcido que quer nos fazer acreditar na imagem deturpada que reflete.

Projecto Sur era aquilo que, no filme de Solanas, se falava no ideal que não pode se prender, nos sonhos impossíveis de explicar – “el sueño de los sueños”– , utopia sem nome que nos levaria a um lugar, a um estar no mundo, a enfim um regaço onde a alma não tivesse sempre no sul distante, mas dentro de nós e enfim chegasse a uma identidade real dentro de si mesma. Mas este sul, sempre distante, nos toca sempre o clarim de uma guerra perdida.

Aqui se resistiu ao império e ao golpe militar. Aqui também se forjou uma gema digna de um partido que enfim representaria os trabalhadores, os excluídos, os que nunca chegaram ao palácio. Mas um dia, um certo povo que vivia no centro do país, acostumado a pelear com os barões da indústria, achou que podia ir ao palácio e participar do jantar do baronato. Definharam de indigestão.

Ainda caminho aqui pela beira do Guaíba e penso que essa vastidão de terra e águas talvez nos faça diferentes não só pela alma, mas pelo desenho que a geografia fez dela. Mas esse sul que nos faz sempre exilados de nós mesmos não permite pensar que podemos forjar “el sueño de los sueños” e enfim construir uma utopia maior e “mas aja”de nós mesmos. Continuamos perdidos em identidades falsas. Não somos o que pensamos que somos. Nossa bússola está sempre voltada para o outro lado. Perdemos o norte e o sul. Um estado à deriva. Um país náufrago. Nossos pés em lugar nenhum. E absolutamente exilados da terra e da raiz que nos forjou.

Sartori: o ilimitado discurso do nada

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Renato Dalto

Vou fazer o que precisa ser feito. Essa frase acaciana, proferida dezenas de vezes pelo governador José Ivo Sartori, é uma metáfora da enrolação, do dizer nada, da mais constrangedora obviedade. Lembra o Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz que diz pomposamente obviedades que beiram às raias do ridículo. Ouvi várias vezes o governador dizer essa frase na campanha eleitoral e, parece, se apaixonou por ela. Acácio Sartori é Narciso às avessas: mira-se no espelho da ridicularidade e se embriaga pela própria imagem que nada mais é do que uma solene ausência de ideias dourada por palavras. Pobre governador, pobre governo. Com uma frase dessas, pobre Rio Grande. Ai de nós.

Dá pra brincar com esse tão pomposo dizer nada do governador que nada disse a que veio. Por exemplo: eu gostaria de fazer uma pergunta ao governador, perguntar se ele vai fazer o que deve ser feito o que fará com o que não deve ser feito? Convidaria o governador a brincar de lógica primária, de vocabulário vazio, mas diria a ele que há muita gente já cansada com suas aulas de simploriedade.

Vou fazer o que precisa ser feito. Pois essa frase, surprendentemente, também foi o titulo da entrevista do governador publicada na edição do dia 25 de agosto em Zero Hora. A frase vazia usada como título é reveladora. O governador é vazio, mas ao repetir sua frase vazia, há um sinal de que há gente querendo levar outros a acreditarem em frases que nada dizem, em ações demonstram a ausência de programa e uma constrangedora indigência intelectual.

Certa vez um amigo meu falou o seguinte: com uma ditadura a gente se sente oprimido, mas com um governo enrolador a gente se sente burro. O escárnio à inteligência, o elogio ao óbvio, a aparente simplicidade que encobre a simploriedade do governador Sartori me fazem, como cidadão, me sentir chamado de burro. O Acácio da ficção é até divertido. O Acácio real do palácio não é divertido, é trágico.

Talvez o governador brinque de esfinge. Decifra-me ou te devoro: Vou fazer o que precisa ser feito. Frase feita para quem não tem cérebro. O nada indecifrável que vira manchete. O registro definitivo, impresso para as páginas da história. Daqui a um tempo lembraremos disso com uma triste memória. Recordaremos um governo que nada tinha a dizer ou fazer. E nos perguntaremos, talvez: como chegamos a esse ponto? Esse nada tem limite?

Coitado do Rio Grande. Ai de nós.

É só o começo do desconto do cheque em branco

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Renato Dalto (*)

Passou a campanha eleitoral para o governo do estado e, como era previsto, José Ivo Sartori, que é do PMDB mas que na campanha escondia o partido, foi o eleito. Chegou a ser constrangedora a falta de propostas, as evasivas do candidato e o sentido acaciano de afirmações como esta: “Vou fazer o que precisa ser feito”. Num exercício de dialética do absurdo, poderia se fazer a seguinte pergunta ao candidato: “E o que o senhor vai fazer com o que não precisa ser feito?”. Mas, enfim, os eleitores preferiram atropelar a razão, esquecer a política e votar dizendo não ao PT. Assinaram o cheque ao homem que ia fazer o que precisa ser feito. É uma frase lapidar, tão sabia como aquela que ensina que pra viver é preciso respirar.

O Rio Grande respira agora o ar da incógnita. E nem foi preciso começar o governo para o cheque em branco que a população passou a Sartori começar a ser descontado. Começa com o primor dos deputados da base do novo governo votarem sem vergonha e sem rubor o auto-benefício da aposentadoria especial. Entre eles estava a primeira-dama do novo governo, deputada estadual Maria Helena Sartori(PMDB), que seguindo a máxima do marido fez o que precisava ser feito: votou pelo próprio privilégio.

Escrevi há algum tempo neste espaço sobre o cansaço de estar sendo tratado como idiota por esse partido pródigo em vazio programático e oportunismo marqueteiro, que já elegeu governador com música de creche falando em coraçãozinho e que repete o tom da política infantilizada servindo à população um lero lero de bom gringo que, sorrateiramente, pegou a esteira do ódio ao PT. Foi esse ódio que catapultou o gringo bonzinho ao governo. Ódio cego, surdo e mudo. E, obviamente, destruidor.

O ciclo do governo que está se inaugurando é o do não sabemos, vamos ver, pode ser ou não e um rosário de indefinições. Revelam-se, sub-repticiamente nas notícias, alguns traços da antiga liturgia política do governador que ouve nomes, fala na prerrogativa das escolhas e manda recados sutis, como o de que a melhor maneira de queimar um nome é começar a falar nele. O que se vê, no fundo, é muita claque e pouca música. É bom avisar que depois de primeiro de janeiro, quando o governo começar, vai ter que acabar esse sambinha de uma nota só: a nota que sola resmungos de não sei e vamos ver.

No chão de realidade, o primeiro aviso: este é um governo da velha política de apropriação do Estado, da manutenção dos privilégios, da cara de pau de quem sorri ao público mas tem uma faca no bolso. No outro bolso, um cheque em branco. Descontado em suaves parcelas de frustração à população ao longo de 48 meses. O prazo nem começou a contar e parte do cheque já sai do bolso para dar soldo a deputados oportunistas e irresponsáveis. O preço de votar no vazio é caro. Muito caro.

(*) Jornalista