Arquivo da tag: Revolução Farroupilha

A segunda morte dos Lanceiros Negros

 

(Rafuagi – Manifesto Porongos. Direção: Thiago Koche)

Marcelo Danéris

Na madrugada do dia 14 de novembro de 1844, nos estertores da Revolução Farroupilha, os Lanceiros Negros, após quase dez anos de batalhas ao lado dos farroupilhas, acampados no cerro de Porongos, desarmados e separados do restante das tropas, foram covardemente atacados e dizimados por tropas imperiais. A traição havia sido perpetrada pelo comandante farroupilha, David Canabarro, e o comandante imperial, Duque de Caxias, com apoio de fazendeiros latifundiários. Um dos episódios mais infames da história brasileira, que maculou profundamente os ideais revolucionários de igualdade, fraternidade e humanidade. Para assinar a “Paz de Ponche Verde” era preciso resolver a questão dos “negros em armas” e a promessa de liberdade ao final da guerra, que incomodava os escravocratas e o Império. As tropas de Lanceiros, integradas também por índios e brancos, era formada majoritariamente por negros. Estima-se que mais de 600 pessoas foram assassinadas, 80% delas eram negras.

Mais de 170 anos depois, na madrugada fria de 15 de junho de 2017, presenciamos outra vez as cenas brutais da invasão de tropas do governo na “Ocupação Lanceiros Negros” no centro de Porto Alegre, a Mui Leal e Valerosa capital do Rio Grande do Sul. Mais uma vez a covardia da hora traiçoeira, de uma força militar descomunal contra pessoas desarmadas, famílias inteiras, crianças, todas postas na rua, presas, feridas, agredidas, mas, principalmente, desrespeitadas na dignidade humana. Largadas a própria sorte, sem moradia ou destino, dependendo da solidariedade da sociedade gaúcha que, felizmente, não lhes faltou. Mais uma vez a justificativa vil e falaciosa: “é preciso desocupar para realizar a reforma no prédio que irá abrigar, futuramente, a Casa Civil do governo do estado”.

Mais uma vez a complacência da imprensa oficial, que na ânsia de proteger governo e governador, justificam a violência com argumentos pueris, submetendo a razão da justiça às formalidades e interesses políticos. Afinal, “a questão da moradia é complexa e não pode ser tratada superficialmente”, ou “como dar a 60 famílias um bem que é de milhões?”. Respondo: da mesma forma que se dá milhões em benefícios fiscais a uma só família, sob os aplausos de alguns colunistas. Desconfie dos que dizem isto apenas para tentar aplacar a indignação da população.

A questão da escravidão durante a revolução farroupilha também era complexa, mas a solução estava na abolição e não no assassinato dos Lanceiros Negros, como agora a solução para a complexidade do tema habitacional está na construção de moradias populares e no aproveitamento de prédios públicos abandonados, não no despejo violento de mais de 60 famílias em uma noite de inverno.

Mais uma vez a traição de um comandante que se diz “governador de todos os gaúchos” surpreende sua própria gente. Como no passado foram os comandantes farroupilhas, hoje, o governador Ivo Sartori é o grande responsável pela ação, mas este sequer teve a coragem de falar ao Rio Grande, escondendo-se atrás dos seus secretários.

A memória dos Lanceiros Negros foi mais uma vez agredida. Mas a resistência e a bravura dessa gente forte que luta por moradia mais uma vez orgulha gaúchos e gaúchas e homenageia os combatentes negros.

Grupo de hip hop lança clipe para lembrar massacre de Porongos

Música lembra o massacre de negros escravizados ocorrido durante a Revolução Farroupilha. (Foto: Divulgação)

Música lembra o massacre de negros escravizados ocorrido durante a Revolução Farroupilha. (Foto: Divulgação)

O grupo de hip hop de Esteio, Rafuagi, lançou um clipe intitulado “Manifesto Porongos” para lembrar o massacre de negros escravizados ocorrido durante a Revolução Farroupilha. Na música, utilizando versos do poeta negro Oliveira Silveira, a letra do Hino do Rio Grande do Sul é alterada e o trecho “povo que não tem virtude acaba por ser escravo” dá lugar a “povo que não tem virtude acaba por escravizar”.

Além do clipe, o grupo produziu também o minidocumentário “Manifesto Porongos”, que traz a colaboração de diversos líderes do movimento negro nacional, historiadores e artistas como Leandro Karnal, Juremir Machado, Odete Diogo (Unir Raças), Jorge Euzébio Assumpção, Naiara Oliveira (filha do poeta Oliveira Silveira) e o quilombola Ségio Fidelix, entre outros.

O vídeo tem direção, edição e câmera de Thiago Köche, produção de Karen Lose, roteiro de Rafa Rafuagi, Karen Lose e Thiago Köche, e animações de Marcel Trindade e Mamau. A letra é de Rafa Rafuagi, Ricky Rafuagi e Manoel Soares.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

20 de setembro: nem belas façanhas nem modelo a toda a terra

A ilustração é de Sandro Andrade e faz parte do livro "Sepé Tiaraju e a guerra guaranítica", escrito por Luis Rubira e iIustrado por Sandro Andrade (Editora Callis, 2012)

A ilustração é de Sandro Andrade e faz parte do livro “Sepé Tiaraju e a guerra guaranítica”, escrito por Luis Rubira e iIustrado por Sandro Andrade (Editora Callis, 2012)

Jacques Távora Alfonsin

O interesse de se conhecer as causas e os efeitos de alguns acontecimentos do passado é sempre motivado pela conveniência de seus protagonistas serem lembrados como exemplo a ser seguido ou rejeitado pelas gerações do presente e do futuro, conforme o juízo de quem conta a sua história. A verdade pode ser então provada, mas também pode ser vítima de algum desvio consciente ou inconsciente. O dia 20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul e os motivos para isso até hoje ainda servem de assunto para muita conjetura e debate, ora de louvação, ora de crítica acerba.

Conforme alguns relatos, o povo deste Estado celebra o 20 de setembro como a data da tomada de Porto Alegre, em 1835, por forças contrárias ao império naquela época governando o Brasil. De inspiração liberal, o levante teria sido motivado também pela carga tributária abusiva, cobrada pelo Império sobre a venda do charque e do couro, base da economia da então chamada província de São Pedro. Festas em muitas cidades, desfiles de carros alegóricos e cavaleiros ao trote de animais domados no capricho, portanto bandeiras, exibindo bombacha, faca embainhada, segura por cintos com guaiacas, bota e espora nos pés, chapéu de aba larga, lenços coloridos no pescoço, tudo aprumado para “manter a tradição do gaúcho”, à vista de um publico numeroso e animado com tanto jeito de se provocar admiração por um passado geralmente considerado heroico. Cabe serem examinadas com cuidado as razões dessa lembrança.

O Instituto Humanitas da Unisinos publicou dia 19 deste setembro, em edição já disponível na internet, o número 493 da sua revista, reunindo opiniões de historiadoras/es, em parte dedicada a essa história, com uma chamada de capa expressiva: “Gauchismo: a tradição inventada e as disputas pela memória.”

Duas entrevistas chamam bastante a atenção, a primeira (feita com Mario Maestri) por criticar, de modo contundente, os méritos atribuídos à guerra dos farrapos e a segunda (feita com o Irmão Marista Antonio Cecchin) por mostrar como a revolução do índio Sepé Tiaraju, deflagrada muito antes, no mesmo solo do Rio Grande, foi inspirada em motivação de muito maior valor e significado histórico do que a dos farrapos.

Maestri, depois de contrariar os vícios presentes na formação da própria cultura responsável pela identificação do verdadeiro gaúcho, um homem pobre muito diferente da que passou à história, denuncia:

“A chamada Revolução Farroupilha foi um movimento dos grandes criadores escravistas do meridião do Rio Grande do Sul e do norte do Uruguai. O projeto farroupilha dominante era a fundação de uma república pastoril-latifundiária que ultrapassava a fronteira rio-grandense.” {..}” Os principais líderes farroupilhas eram proprietários de enormes extensões de terras e de cativos no meridião rio-grandense e no norte do Uruguai. Para conseguir seus objetivos, arrolaram nas tropas republicanas peões, minuanos, libertos e muitos cativos – sobretudo dos rio-grandenses monarquistas.” {…} “Bento Gonçalves morreu senhor de muitos cativos; o general Neto, de muito mais!” {…} “Hoje, festejam-se os lanceiros negros como exemplo da participação popular e negra no “Decênio Heróico”. Eles foram massacrados em Porongos e os que não morreram foram reescravizados e enviados ao Rio de Janeiro” {…}”Razão tinham os cativos que fugiram numerosos para os quilombos e para fora da província. Eles não precisavam de historiadores para saber quem eram realmente os chefes farroupilhas.”

E Antonio Cecchin assinala:

“Esse falso tradicionalismo gaúcho, filho adotivo da ditadura, teve todos os meios possíveis e imagináveis ao alcance da mão, com a finalidade de tornar-se avassalador, como de fato aconteceu. Foi internalizado à força como cultura de raiz nossa, graças ao poder principal dessa nossa fase do capitalismo financeiro quando, na realidade, é uma grande mentira. A mídia conservadora se encarregou de consagrar como real aquilo que era apenas fruto da imaginação, pois se trata de algo que acabou absorvido também pela elite dominante no nosso Estado e como tal continua se impondo. A ditadura e o farroupilhismo se sentem bem ao gosto da colonização portuguesa que durou quatro séculos ininterruptos, no Brasil, desde o ano de 1500 até o ano de 1888 quando, apenas teoricamente, foi suprimida a escravatura. Hoje, vivemos ainda sob a hegemonia das elites escravocratas ou do conservadorismo brasileiro, filhote do colonialismo dos “descobridores” da terra brasilis. Haja vista o golpe que esse Brasil conservador acaba de infligir à nossa presidente Dilma , como exemplo atualíssimo de mais um bote certeiro promovido contra as classes populares.”

Sobre o índio Sepé, Antonio afirma: “Sepé Tiaraju é um dos poucos, talvez até o único herói-santo popular deste nosso Rio Grande do Sul. Para a opinião pública hegemônica, que é a do conservadorismo das elites no poder, como sucessoras que são das elites escravocratas portuguesas da colonização inicial, Sepé é um herói muito perigoso porque, desde que surgiram no Brasil, particularmente na Igreja Católica, a opção pelos pobres, as Comunidades Eclesiais de Base, a catequese e a Teologia da Libertação, aproveitamos nosso herói-santo-popular para o empoderamento dos nossos Movimentos Sociais tais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra – MST, a Via Campesina, os movimentos de mulheres, o Levante da Juventude, os catadores etc.”

20 de setembro, portanto – tomada de Porto Alegre – e 7 de fevereiro de 1756 – morte de Sepé Tiaraju, em combate contra tropas portuguesas e espanholas armadas para exterminarem as missões da Igreja aqui no continente – são datas incomparáveis em seus motivos, na coragem revelada pelos índios por força da desproporção das armas e combatentes, no heroísmo da defesa da terra por amor a ela e ao seu povo e não por interesse em manter um tipo de exploração desse bem dependente de um povo escravo, assim mantido mesmo depois de 1845 quando terminou a guerra.

O hino rio-grandense, até hoje entoado em solenidades as mais diversas exemplifica aquela “tradição inventada” do gauchismo, referida por Mario Maestri. A sua letra insiste num estribilho visando passar a guerra farroupilha como verdadeira defensora da liberdade, assim enchendo de ardor cívico o povo do Rio Grande do Sul, como herdeiro dela: “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra.”

Algum poder futuro, legitimado para tanto, talvez consiga modificar esse hino, salvando a história de perpetuar façanha e modelo como palavras de sentido duplo, a primeira para disfarçar mentira e a segunda para esconder hipocrisia.

O sul perdido em nós

pampa

Renato Dalto

O sul, este lugar do mundo onde embriões libertários nasceram e sumiram, quase sem rastro. Aqui se dizimaram inimigos nas lonjuras, aos quais deram o nome genérico de gaúchos – gaucho, gauche , sem terra e sem destino. Homens livres que se viraram contra a miséria e o abandono e que, segundo nosso maior poeta, Jorge Luis Borges, não legaram à história um só caudilho embora tenham servido sempre a chefes de ocasião sem saber direito por que causa lutaram. É este sul, anárquico em sua relação de classes, cartorial pelo carimbo de oligarcas, cruel contra os inimigos e benevolente aos amigos, que permanece em nós como uma névoa onde, historicamente, nos perdemos. Benedetti falou de um lugar para onde foram os desaparecidos, os esquecidos, os que a história tentou relegar ao nada. “Estan aja en el sur del alma”.

O sul, este lugar continental que em seu garrão se estende numa grande planície onde se estendem terras, posses e barões de folhetim mas também índios vagos, gente sem terra, nome ou destino. Os barões se pintam como nobres montados em exuberantes cavalos, os índios vagos são pintados por outras mãos que os identificam nos botecos, nas cercas à beira de corredor, numa diversão domingueira. Foram personagens de Blanes, de Debret, de Molina Campos, de Guiraldes, de Erico Veríssimo, de Hernandez mas nenhum deles pegou o pincel ou a pena para escrever a própria história. E estão então nesse lugar mais longe, ajá, lejos, onde a alma não identifica nomes, posses ou títulos.

Todo setembro, toda primavera, se celebra um aparente orgulho de toda essa gente – barões e peões – em nome de uma guerra cuja metáfora é maior que a realidade, mas enfim a figura do homem em andrajos, em farrapos, pode ser mais que um sinal. Pode ser orgulho de uma bandeira cujas insígnias indicam ideais que lembram a Revolução Francesa mas também práticas medievais que antecedem a república. Nesse sul que se divide entre amigos e inimigos, entre ódios e paixões cegas, entre privilégios e masmorras, o telurismo e a teimosia as vezes são maiores que a razão. O que talvez explique isso é o sentido de um sul que perdemos há muito tempo. E que nos escraviza como um espelho distorcido que quer nos fazer acreditar na imagem deturpada que reflete.

Projecto Sur era aquilo que, no filme de Solanas, se falava no ideal que não pode se prender, nos sonhos impossíveis de explicar – “el sueño de los sueños”– , utopia sem nome que nos levaria a um lugar, a um estar no mundo, a enfim um regaço onde a alma não tivesse sempre no sul distante, mas dentro de nós e enfim chegasse a uma identidade real dentro de si mesma. Mas este sul, sempre distante, nos toca sempre o clarim de uma guerra perdida.

Aqui se resistiu ao império e ao golpe militar. Aqui também se forjou uma gema digna de um partido que enfim representaria os trabalhadores, os excluídos, os que nunca chegaram ao palácio. Mas um dia, um certo povo que vivia no centro do país, acostumado a pelear com os barões da indústria, achou que podia ir ao palácio e participar do jantar do baronato. Definharam de indigestão.

Ainda caminho aqui pela beira do Guaíba e penso que essa vastidão de terra e águas talvez nos faça diferentes não só pela alma, mas pelo desenho que a geografia fez dela. Mas esse sul que nos faz sempre exilados de nós mesmos não permite pensar que podemos forjar “el sueño de los sueños” e enfim construir uma utopia maior e “mas aja”de nós mesmos. Continuamos perdidos em identidades falsas. Não somos o que pensamos que somos. Nossa bússola está sempre voltada para o outro lado. Perdemos o norte e o sul. Um estado à deriva. Um país náufrago. Nossos pés em lugar nenhum. E absolutamente exilados da terra e da raiz que nos forjou.