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‘Numa democracia, precisamos sair da nossa zona de conforto para falar com os outros’

Thomas Fischermann: “Hoje em dia está mais fácil acreditar em uma mentira. Ela entra, por exemplo, em seu grupo de amigos no Facebook, onde todo mundo já compartilhava certo preconceito”. Foto: Guilherme Santos/Sul21

A proliferação de “fake news” e a formação de bolhas de interesse na internet estão configurando um novo cenário para o debate público. O debate político em um ambiente democrático, em particular,  está sendo desafiado por essa nova realidade. “Hoje em dia está mais fácil acreditar em uma mentira. Ela entra, por exemplo, em seu grupo de amigos no Facebook, onde todo mundo já compartilhava certo preconceito. E quando você quer acreditar em uma coisa é muito difícil não acreditar. Ler uma declaração que discorda do teu ponto de vista ou uma declaração de alguém que você não gosta provoca um certo desconforto. Mas, numa democracia, nós precisamos sair um pouco da nossa zona de conforto e entrar numa zona de desconforto para falar com os outros”, diz o jornalista alemão Thomas Fischermann, correspondente do jornal Die Zeit para a América do Sul, que esteve em Porto Alegre essa semana para participar de um debate sobre mídia, poder e democracia, promovido pelo Instituto Goethe, em parceria com o Sul21.

Em entrevista ao Sul21, Thomas Fischermann fala sobre os desafios que estão colocados para os sistemas públicos e privados de comunicação diante desse novo cenário, marcado pelo crescimento exponencial dos produtores de informação, pelo surgimento de novas formas de mídia e também por uma nova mentalidade entre os consumidores de informação. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Goethe e Sul21 iniciam parceria com debate sobre mídia, poder e ameaças à democracia

Primeiro debate reunirá a jornalista Cristina Charão (TVE/Fundação Piratini), o cineasta Jorge Furtado e o jornalista alemão Thomas Fischermann. (Divulgação)

O Goethe-Institut Porto Alegre promove dia 30 de maio, em parceria com o Sul21, a primeira edição do ciclo “Conversas Cidadãs”, uma série de encontros com convidados especiais que debaterão grandes temas que desafiam hoje a democracia brasileira, tais como educação, violência, espaços urbanos, desigualdade social e o papel da mídia. O tema do primeiro encontro será “Mídia, Poder e as ameaças à Democracia” e reunirá o cineasta Jorge Furtado, o jornalista alemão Thomas Fischermann, editor para a América do Sul do jornal alemão Die Zeit, e a jornalista Cristina Charão, da TVE/Fundação Cultural Piratini. O debate iniciará às 19h30min, no auditório do Goethe (rua 24 de Outubro, 112), com entrada franca. Haverá distribuição de senhas a partir das 18h45, no dia do evento, no Goethe-Institut.

O ciclo “Conversas Cidadãs” pretende falar dos desafios do presente e do futuro a partir da fala de agentes diretamente engajados nos temas que serão tema de debate. A parceria com o Sul21 nasce com o objetivo de envolver a sociedade neste debate no momento em que o país atravessa uma séria crise institucional que coloca em xeque o próprio futuro da democracia brasileira.

Sobre os debatedores

Jorge Furtado – Diretor e roteirista dos longas “Houve uma vez dois verões” (2002), “O homem  que copiava” (2003), “Meu tio matou um cara” (2005) Saneamento Básico, O Filme (2007), além de vários curtas-metragens premiados no Brasil e no exterior, como “O dia em que Dorival encarou a guarda” (1986), “Barbosa” (1988), “Ilha das Flores” (1989), “Esta não é a sua vida” (1991), “Angelo anda sumido” (1997) e “O sanduiche” (2000). Também é diretor dos documentários “O Mercador de Notícias” (2014) e “Quem é Primavera das Neves” (2017).

Thomas Fischermann – Nascido em 1969, é correspondente no Rio de Janeiro para América do Sul do jornal alemão Die Zeit. Estudou Economia e Ciências Políticas e foi previamente correspondente em Londres e Nova York para o Die Zeit. Entre 2006 e 2013, coordenou a Editoria de Economia do jornal em Hamburgo.

Cristina Charão – Jornalista, trabalha como editora na TVE/Fundação Piratini. Como repórter, trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo e Folha Online, nas revistas Galileu e Veja, além de colaborar para diversos veículos. Participou da criação da agência Repórter Social, projeto voltado à produção de conteúdo jornalístico independente. Trabalhou também como assessora da Aliança Social Continental e como editora do Observatório do Direito à Comunicação, projeto do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação. É mestre em Estudos da Linguagem pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Podridão, a carne como metáfora

A mídia e Michel Temer estão inapelavelmente juntos perante a história dos últimos e terríveis anos. (Beto Barata/PR)

Ayrton Centeno (*)

A carne brasileira está podre. Diz a Polícia Federal e promete provas. Mais gente, à esquerda e à direita, diz que não, que a PF dinamitou um segmento crucial da economia, seja para atender ao cabo de guerra pelo mando na instituição, seja por uma mistura de burrice, prepotência e sedução pelos holofotes. Verdade ou mentira? Não importa. O que importa é que o estrago está feito e as penas do travesseiro estão voando mundo afora. Mas o que me interessa mesmo, aqui e agora, é o poder da metáfora: o Brasil caindo de podre. Não pela carne, que se desconfia mas não tem certeza, mas pela força da alegoria que infecta, enoja e se espalha pelas instituições que, em tese, deveriam proteger a boa saúde do organismo democrático.

O Brasil começou a apodrecer ainda em 2014 quando o candidato vencido nas eleições não aceitou a rejeição das urnas. E, com aliados no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal, na plutocracia e, obviamente, contando com as divisões Panzer do baronato midiático, iniciou sua marcha da insensatez. Contra aquela que o derrotou e contra o país. Não era possível aguardar até 2018. Urgia destruir o governo reeleito nem que, para tanto, fosse necessário antes destroçar o Brasil. E assim foi feito: no segundo mandato, Dilma esteve todo o tempo nas cordas, fustigada por fatos ou factoides. Hostilizada por manchetes e denúncias, estas oriundas de vazamentos produzidos para gerar aquelas. Ambas turbinadas para fabricar consensos e ódios.

O abcesso veio a furo naquele baile de monstros do dia 17 de abril de 2016. Quando a nação perplexa viu-se face a face com o horror: uma pantomima mambembe de causar assombro até no universo do cancioneiro brega. O parlamento enquanto picadeiro. A tomada do circo pelos palhaços convertendo o país em chacota do planeta. Corruptos contra a corrupção. As vestais da hora, entre elas seu guru Eduardo Cunha. Corrupção, do latim corruptio, carrega o sentido de deterioração. Um exame microbiológico já detectaria no recinto o crescimento exponencial da taxa de coliformes fecais. Podridão.

Volátil, a patogenia alastrou-se ao vizinho Planalto. Consumada a patuscada trágica, encarapitou-se no poder, sem voto nem vergonha, a mais deplorável chusma que as entranhas políticas do Brasil excretaram nas últimas décadas. Era a “ponte para o futuro”, que um dos comparsas de golpe, Fernando Henrique Cardoso, encarregou-se de escrachar, rebaixando-a à condição de “pinguela”. Hoje, nem isso. Somente uma tropa disposta a executar, a mando do mercado, uma encomenda de pistolagem, emboscando e assassinando os direitos da maioria em troca da salvação do próprio couro.

Infectado, o STF rendeu-se. Enquanto a nação ardia e a besta se arrastava para nascer, limitou-se a tricotar os rendilhados do protocolo, os arabescos da liturgia, os fricotes do formalismo, as piruetas jurídicas, até o grand finale do balé das capas esvoaçantes. Conforme a freguesia, decisões poderiam ser tomadas em vapt-vupt ou serem proteladas por ano e meio. A quem reclamava da tarantela, limitava-se a agitar seu leque como uma frágil e lânguida Dama das Camélias. Antes, porém, o bodum já se esparramara pelos escalões inferiores. Através do chorume dos grampos e das delações premiadas, escoado regular e seletivamente do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, apascentando jornalões, rádios e TVs.

Enquanto poderes e corporações adoeciam, engalfinhando-se em contendas insalubres internas ou externas, a pestilência ulcerou o tecido social, minando sua resistência. Propagou-se um ressentimento sem travas, vizinho da psicopatia. Rancores encobertos vieram à tona, sobretudo entre certa classe média, sempre vivendo entre a inveja do patriciado e o pavor da plebe. O flerte com o fascismo arreganhou o preconceito contra mulheres, negros, índios, nordestinos, homossexuais, pobres, explodindo nas redes sociais e caixas de comentários. Almejar a morte do outro, bater palmas para o câncer, incitar o homicídio tornaram-se práticas banais. Os imbecis perderam a modéstia.

Nada disso ocorreria, porém, se não houvesse um vetor. Que reproduziu, no século 21, sua conduta recorrente demonstrada em 1954, 1964, 1989 e outras datas menos emblemáticas. E contagiou os espíritos. Alimentados dia e noite com a mesma gororoba tóxica, muitos caíram doentes. A baixa imunidade deixou-os à mercê de microorganismos que tumultuam o raciocínio, impedem o discernimento e exasperam a intolerância. Então, brotam os zumbis do pensamento único, incapazes de responder a qualquer questão de baixa complexidade a não ser com os lugares comuns da xenofobia, do racismo, da misoginia.

Quem semeia esse apodrecimento em vida — impondo o regresso do país aos parâmetros políticos e econômicos da República Velha – é o oligopólio da mídia. Embora reitere a ladainha do pluralismo e do compromisso com a sociedade, a ela entrega mercadoria danificada. Constrói santos ou pecadores exclusivamente regulado pelo termômetro dos negócios. Apesar do derretimento como picolé ao sol, o mais grotesco dos presidentes e sua popularidade de 10% ganham avaliação bastante caridosa na imprensa hegemônica. Mas há um problema.

Assim como as boas práticas de higiene ensinam a não misturar carne suspeita com outros cortes para evitar a contaminação de todas as peças, a mídia e Michel Temer estão inapelavelmente juntos perante a história dos últimos e terríveis anos. Partilham o mesmo repertório de bactérias, toxinas, vermes, protozoários e fungos. Faminta, a putrefação progride através da contiguidade. Não há escapatória. Ambos exalam o mesmo fedor inexcedível que engolfa, contamina e degrada o país.

(*) Jornalista

Os especialistas e o sequestro do esclarecimento

Por Katarina Peixoto

Em O Desentendimento, Jacques Rancière fala da presença dos “especialistas” na mídia com um certo desconforto. Para ele, a crença em que especialistas saberiam mais do que o cidadão, sobre a experiência que o afeta, guarda um truque obscuro, que promove menos, não mais, entendimento e esclarecimento. O que justifica que especialistas tenham um lugar privilegiado para se discutir questões do cotidiano, da vida em comum, entre vizinhos, de percepções e experiências? De onde vem que conhecer a filosofia prática de Kant seja credencial para esclarecer uma crise hídrica ou uma briga sobre o cercamento de um parque? Por que precisamos, nas televisões, jornais e mídia em geral, que um psicanalista nos esclareça que a dor faz parte e que sentimos medos nem sempre justificados?

Vejam, especialistas, por definição, lidam com objetos de tal maneira que se tornam, justificadamente, bastante alheios ao entorno. Eu tive algumas sortes no meu processo de sociabilidade, mas há dias em que me sinto muito estranha, argumentando como se estivesse entre pares da filosofia. O resultado é meio catastrófico: oscilo entre uma nerd maluca, ou entre uma idiota que problematiza coisas simples e evidentes, ou que não consegue deixar passar o que parece óbvio.

Psicanalistas de jornal e professores universitários de tevê e de jornal sempre me causaram um certo desconforto. Mesmo Chomsky.

Há uma necessária coerência entre teoria e prática, que se impõe, a despeito de nossas certezas. A gente pode parecer razoável, mas o fato é que estudar a sério alguma coisa não te ajuda a falar do cotidiano. Acredito que o mesmo se aplica à clínica.

Como uma pessoa que se trata há muitos anos, afirmo que não curtiria ver meu ou minha psica em jornal. Isso prejudica a minha transferência, um quesito sem o qual não rola tratamento, simplesmente.

Mas peraí: estou defendendo a guetização das intervenções em esferas públicas? Sim e não. Sim, estou defendendo a formação de laços intra-estamentos e estruturas burocráticas e cognitivas. Isso enriquece e constitui representações sem as quais as esferas públicas, elas mesmas, não se constituem, com potência de iluminarem setores fora das bolhas. E, não: estou defendendo que a cidadania fale, qua cidadania, como vizinhos, usuários de bicicletas, frequentadores de feiras, subidores de árvores com bisavós, tomadores de sorvete sem lactose.

A substituição da cidadania, nas esferas públicas, pelas figuras dos especialistas, promove desentendimento e obscurantismo. Eventualmente, não raro, desvelam pouco profissionalismo desses especialistas, que, no mais das vezes, são sequestrados pelos holofotes. E isso, no caso da clínica, pode implicar mais que pouco profissionalismo, porque tem impacto no cuidado com o outro, o paciente.

Para a cidadania e o exercício democrático, há um outro problema, aí: a promoção de gurus, sempre, de araque. Esses gurus de araque, além de xaropaldos de plantão, não acrescentam nada senão dinheiro aos próprios bolsos em memes compartilhados com seus truísmos ignorantes e arrogantes. Numa sociedade conflagrada como está a nossa, isso só tende a piorar.

Nada contra psicanalistas comentando padecimentos mentais ou imunologistas comentando as últimas do tratamento do câncer.

Tudo contra o sequestro do debate e da discussão da cidadania e seu destino por gurus de araque. Ninguém precisa disso, nem deve precisar. Olhemos para o lado, olhemos para as coisas, de novo.

Jornalista de direita, praga que ameaça a democracia

jornalistasdedireita570

Por Caco Schmitt

“Vergonha dos companheiros da imprensa que ajudaram a ferver esse caldeirão para desestabilizar o Brasil e promover o caos, disseminando meias verdades, verdades transversas, dados manipulados, insinuações cínicas”, jornalista Hildegard Angel.

A mídia golpista tem nas mãos o rabo da maioria dos parlamentares, golpistas ou não, e vem ditando a pauta rumo ao golpe. Se um deputado não seguir o roteiro, a reação é imediata e em cadeia: reportagens são veiculadas e trazem à tona parte dos rolos em que ele está metido. Um leve toque! Mas, enquanto o parlamentar servir ao jogo, ao golpe, nada é veiculado. Uma espécie de tácito acordo… Foi assim com o Cunha, sujo, cheio de contas no exterior e processos, “poupado” e transformado em fonte diária e confiável da Globo, que fecha os olhos para as manobras escandalosas que retardam a sua cassação. É que ele serve ao golpe. Assim que cumprir o seu papel, tudo contra ele será liberado.

Foi assim na saída do PMDB do Governo. Diariamente, toda a mídia golpista publicava matérias antecipando o rompimento. No dia da convenção, as reportagens anunciavam que “todos os ministros” entregariam os cargos. Mas, a maioria ficou. Então, a mídia passou a atacar um por um, inclusive antigos aliados. Na sequência, os telejornais golpistas passaram a falar que “fontes” (inventadas, inexistentes…) garantiam a saída do PP do governo. Como o Partido Progressista não saiu, passaram a acusar que ficou por conta de cargos na administração. A Globo levanta esta hipótese porque tem passado sujo. Durante o vergonhoso e escondido processo para permitir a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, com a maior compra de votos de todos os tempos, tornou-se cúmplice porque a amante de FCH trabalhava na Globo, engravidou e, para se livrar do problema, mandaram a repórter para o exterior. FHC usou contas no exterior para pagar em dólar um “mensalinho”, reforçando o salário da repórter da Globo. No mesmo período, liberou verba pública do BNDES para salvar os negócios da Globo. Uma mão lavou a outra e nada foi noticiado na época.

Que os jornais e tevês golpistas trabalhem a favor do golpe, apesar de criminoso e lesa-pátria, não chega a causar espanto porque eles representam enormes interesses contrariados e há muito tempo assumiram uma postura de extrema direita e explícita na luta contra o governo popular. O que causa espécie é a postura de muitos “jornalistas” que não só absorvem o discurso golpista como jogaram no chão a ética profissional e dão ares de “verdade” às posições obscuras da mídia golpista. Então, porque hoje é sete de abril, Dia do Jornalista, vou citar o sociólogo e cientista político Emir Sader: “que jornalistas defendam os jornais, é normal. Defendem o prato em que comem. Mas não deixam de ser bastardos”.

É a mais absoluta verdade. Até pouco tempo, cheguei a pensar que muitos “jornalistas” estavam sendo pressionados pelos patrões, mas hoje concluí: eles são de direita, mesmo, e apoiam o golpe! Nos tempos da ditadura, minha geração começou a exercer a profissão e sempre questionava internamente a censura militar, tentava passar um contrabando aqui outro ali, nas chamadas entrelinhas. Uma resistência interna e sindical. Jamais incorporamos o discurso de direita. Muitos foram perseguidos, demitidos e até tiveram que trocar de estado para trabalhar.

Mas, hoje, o que vemos são os repórteres, “colunistas”, âncoras, todos trapaceando, inventando “fontes seguras”, passando o recado dos golpistas, as pressões dissimuladas e ameaças veladas, concedendo a elas ares de reportagem e não sórdidos editoriais. Hoje, estes “jornalistas” são meros garotos de recados, lambe-botas de empresários ricos, fuxiqueiros, fofoqueiros, e… mentirosos! Deve ser duro entrevistar o Cunha e colocar no ar uma reportagem como se ele fosse alguém honrado.

Os fatos de abril são reveladores e definitivos. Da Globo, não vou falar do “suposto” jornalista agente do Tio Sam, William Waack, cão raivoso da direita; nem do outro William, o Bonner, pavãozinho manipulador da nave-mãe do golpe, o Jornal Nacional; nem daquela turma da Globo News, com os Camarottes e os Mervais da vida. Falo dos repórteres do segundo escalão que estão se revelando (quem sabe pensando na ascensão profissional), Julio Mosquera, por exemplo, candidato a WW. Ele subiu o tom nos últimos dias e é quase o editorialista do discurso golpista dos patrões. Após a saída do PMDB, natural que o governo vá recompor a base aliada e retirar, sim, dos cargos os filiados do partido que não é mais governo. Mas a Globo e a mídia golpista ditam a pauta para criminalizar a troca. Jogar a população contra… Aí, o candidato a WW, diz no stand up: “é um toma lá e da cá… cargos em troca de votos…” Depois, sai atrás de depoimentos de idôneos parlamentares como Paulinho da Força, que acusa gratuitamente…

Como afirma Umberto Eco em sua derradeira obra, Número Zero, eles saem atrás de alguém que pense como eles, ou diga aquilo que eles querem dizer, e colocam no ar. Manipulação de quem produz notícia de acordo com seu editorial e seus interesses.

Na Band, então, é uma corrida para ver qual jornalista é mais direita para conquistar o prêmio futuro de substituir “aquele que não se pode dizer o nome” (Boris Casoy, dos movimentos de caça aos comunistas da ditadura militar…). Um tal de Cauã Messina está conseguindo suplantar Fábio Pannunzio, e corre por fora Valteno de Oliveira. Nas matérias chegam a ser ridículos.

Anunciaram como certa a saída do PP governo, segundo suas “fontes”; como os “progressistas” ficaram, eles ironizam dentro do editorial golpista, e afirmam como se fosse fato sem contestação: “foi por cargos”. E, desesperados, tentam passar o editorial patronal, afirmando: “o governo ganhou uma vantagem aparente”, ou seja; pode ser revertida amanhã… ameaças, ameaças…

O Pannunzio, que já envergonhara a profissão de jornalista ao viajar até Roraima pra defender os fazendeiros contra a Reserva Raposa do Sol, agora trata como inimiga a sua amiga ministra da Agricultura, Kátia Abreu, só porque ela ficou no governo. Onde estão as tais “fontes” que afirmavam categoricamente que todos os ministros do PMDB deixariam seus cargos no day after?

Poderia citar uma série de jornalistas que assinam matérias, fazem reportagens etc., mas quero alertar para uma dura constatação: nenhum destes jornalistas está sendo pressionado pelos patrões; eles são de direita, sim; golpistas, sim, como seus patrões. Vivemos hoje um fenômeno inverso ao dos anos 70 e 80, quando surgiu a Imprensa Alternativa, chamada de Nanica.

Quando exercer o jornalismo de resistência, contra a ditadura, contra armas e tortura, era arriscado. Não tinha o glamour da exposição nas telinhas de hoje. E sob pressão, várias gerações de jornalistas se formaram defendendo a verdade, a liberdade, a justiça, os direitos humanos, o fim da opressão e da repressão. Wladimir Herzog, assassinado nos porões da tortura, é o nosso símbolo imortal. E toda esta geração, com a abertura democrática e a volta da normalidade, continuou a seguir o ideário do bom jornalismo. Apesar de sermos, por formação humanística, de esquerda, nunca saímos por aí pregando a revolução, apenas defendendo os mais fracos, os oprimidos, as minorias… O resultado dessa postura ética que entrou para a história foi a volta da democracia, da liberdade, da valorização do ser humano e dos menos favorecidos.

Hoje, as novas gerações de jornalistas (a maioria…) são formadas nos braços da burguesia, não sabem da história e não se interessam por ela. Sequer conhecem o povo. Incorporam o discurso liberal porque se acostumaram a ouvir empresários, grandes investidores, latifundiários e reproduzem, sem crítica, a opinião deles que é a opinião dos patrões. E não é por que são obrigados, a maioria pensa assim, infelizmente. E não é problema não ser de esquerda, o que não pode é (conscientemente ou não) tratar a matéria-prima informação dentro desta ótica perversa e aderir ao lado golpista por estar próximo do pensamento dos patrões. E do seu, também. Esta postura é um ultraje à função histórica do jornalista.

Então, neste 7 de abril, dia do jornalista que segundo a versão mais aceita é em homenagem ao médico e jornalista Giovanni Battista Libero Badaró (assassinado por inimigos políticos, em 1830, porque lutava pelo fim da monarquia portuguesa e independência do Brasil), quero homenagear os jornalistas do século 21. Uma legião de militantes, de todas as idades que, sem as redes de tv poderosas e sem o espaço dos jornalões golpistas, até sem diploma, faz de tudo para manter a tradição de luta da verdadeira imprensa nas redes sociais, no embate diário dos blogs, dos sites, comentários, textos. Verdadeiros jornalistas resistentes que rompem o bloqueio nojento e impatriótico da mídia golpista e seus jornalistas de direita. A todos vocês, jornalistas do século 21, o meu forte e sincero abraço.

Aos jornalistas de direita, serviçais do golpe, um conselho: usem o dia de hoje para refletir sobre o trabalho que estão fazendo e que consequências ele deixará para o futuro.

(*) Caco Schmitt é jornalista.

Basta!

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Basta de governos de esquerda, em todas as esferas, seguirem financiando, com milhões de reais de patrocínio, grandes corporação de comunicação que atuam como partidos políticos antidemocráticos com uma agenda vinculada aos negócios do grande capital nacional e internacional, especialmente nos setores financeiro, imobiliário, de telecomunicações e do agronegócio.

Basta de sindicatos de esquerda seguirem financiando programas de grandes corporações de comunicação e divulgando peças publicitárias em horários nobres de televisão destes grupos e em espaços nobres de seus jornais e rádios, sob o argumento de que é preciso “chegar à toda a base da categoria”. Esse método de comunicação é ineficaz, fortalece o que deveria ser enfraquecido e enfraquece o que deveria ser fortalecido.

Basta de parlamentares e dirigentes de esquerda, em todas as esferas, procurarem manter “relações privilegiadas” com formadores de opinião dessas grandes corporações de comunicação, alimentando uma relação promíscua de informações privilegiadas, futricas internas ou paroquiais e entrevistas especiais que fortalecem o que deveria ser enfraquecido e enfraquece o que deveria ser fortalecido.

Basta de os escassos veículos de comunicação de esquerda ou com uma pauta independente seguirem sendo tratados, na melhor das hipóteses, sob a rubrica da “ajuda” por parte daqueles que deveriam tratar a comunicação como uma questão absolutamente estratégica. Sem uma estrutura de comunicação forte, qualificada e profissionalizada, não há como enfrentar minimamente a potentíssima máquina que opera do outro lado.

Basta de tratar a comunicação como um tema separado de cada entidade, cada uma cultivando a sua horta, o seu jornal, o seu site, as suas contas nas redes sociais, o seu aparato próprio de comunicação, sem uma estratégia de caráter mais amplo e articulado para tratar das (muitas) questões que são disputadas diariamente na sociedade.

Basta de considerar, na prática, as grandes corporações de comunicação como algo dissociado da agenda do grande capital e de seus braços políticos.

Basta de reconhecer a pertinência de todas essas questões, mas seguir empurrando com a barriga a construção de soluções mais consistentes para as mesmas.

Todos os amigos de Lula

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Ayrton Centeno

A imprensa não confia na nossa memória e, diariamente, nos informa que o pecuarista José Carlos Bumlai é o “amigo de Lula”. Fez ontem, faz hoje e, por certo, fará o mesmo amanhã. E depois e depois e depois. É inescapável. Talvez Bumlai tenha que incorporar a expressão ao seu sobrenome.

– Bumlai? O amigo de Lula?, indaga o escrivão no cartório.

– Isso mesmo. Ponha aí depois do Bumlai senão ninguém mais irá me reconhecer. Dirão que sou um falso Bumlai, um Bumlai qualquer.

Pela vida afora, Bumlai repetirá personagens também perseguidos pelo seu apodo. Seguirá conduzindo de arrasto as três palavras, como uma cauda de vestido de noiva, um rabicho ostentatório. Após Alexandre, o Grande, Felipe, o Belo e Houdini, o Homem Miraculoso haverá Bumlai, o Amigo de Lula.

Nem a morte evitará o destino. “Morreu Bumlai, o amigo de Lula” estará nas capas, quem sabe em título discreto ao pé nas páginas internas ou, se não houver mais nenhum interesse na figura e na sua amizade com Lula, no necrológio. Comovida, a família mandará gravar no mármore eterno “Aqui jaz Bumlai, o amigo de Lula”.

Se for de morte morrida, haverá boataria de que morreu de desgosto. “Estava no ostracismo, abatido, na pior. Sua mágoa era que ninguém mais o chamava de amigo de Lula”, dirá um parente aos repórteres. No dia seguinte, o país saberá que “Família acusa Lula de esquecer Bumlai, seu amigo”. Se for de morte matada, em seguida seremos informados de que “Lula é suspeito da morte de seu amigo Bumlai”.

Sob o olhar dos hereges, as marteladas midiáticas matinais, vesperais e noturnas seriam somente uma tentativa de enroscar Lula nas atribulações de Bumlai com a Lava-Jato. A obsessão de barrar, nem que seja a tiro, um terceiro mandato de Lula em 2018. Quanta maledicência! É aquela incapacidade jurássica de captar o encanto de uma proposta que casa a informação com a apologia da fraternidade universal. Lula e Bumlai é uma deferência aos protagonistas de estima tão invejável. A cruzada do amor até poderia ter começado antes.

Veja-se, por exemplo, o caso Bush, o George W. Ele gostou do cabeça chata de Garanhuns e ficaram amigos. Quem leu a manchete “Amigo de Lula invade o Iraque e mata 500 mil”? Com aquele seu jeitão expansivo, Lula também virou amigo de Obama. Perdemos a chamada “Drones de amigo de Lula trucidam crianças no Afeganistão”.

Dono de tanta verve e intensidade, tivesse Lula o dom de viajar no tempo e visitar eras passadas seria, do ponto de vista midiático, um dínamo fomentando camaradagens. De volta para o futuro, as manchetes estariam a sua espera: “Nero, amigo de Lula, mata a mãe e põe fogo em Roma”. Ou “Lula convenceu Sócrates, seu amigo, a beber cicuta”. No relato das gazetas, César apunhalado ainda gritará, mão na túnica ensangüentada, outra crispada no ar: ”Até tu, Lula, amigo meu!”

São elocubrações até mesmo porque, aqui e agora, no capítulo das afetividades lulistas resta percorrer extenso caminho. Lula pediu votos para Fernando Henrique Cardoso, então candidato ao Senado em 1978. Foi à rua distribuir santinhos de FHC, algo que só mesmo um amigaço faria. Nestor Cerveró, um dos gargantas profundas da Petrobras, afirma que um poço de suborno perfurado pelo governo FHC jorrou 100 milhões de dólares em jabaculês. Deu-se na aquisição da petroleira argentina Perez Companc. A plebe rude bem poderia ser aquinhoada com a manchete “Amigo de Lula pegou US$ 100 milhões em propina”. A feitiçaria que aprovou a emenda da reeleição custou R$ 200 mil per capita. Os deputados foram adquiridos pelo feiticeiro-mor, operador político, sócio e, sim, amigo de FHC, o então ministro Sérgio Motta. Faltou a manchete “Amigo de Lula, FHC comprou sua reeleição”.

Mas Lula e seu amigo Bumlai devem ser apenas o piloto da série. É lícito aguardar a exaltação de outros chamegos. A começar pelos mais antigos e que resistiram impávidos ao embate dos anos. Aécio Neves e Zezé Perrela são mineiros, cruzeirenses e, sobretudo, amigos de longa data. Egresso do pefelê, agora no PDT, o senador Perrela fecha mesmo é com Aécio. Ternura acima das querelas partidárias. Aécio ajudou o velho Perrela em muitas e profícuas perreladas.

E por Perrela foi ajudado. Era de esperar que, quando 450 quilos de pasta de cocaína foram descobertos no helicóptero de Perrela após incursão ao Paraguai para comprar bugigangas e ouvir guarânias, o populacho tivesse direito à manchete “Amigo de Aécio, Perrela tem helicóptero apreendido com cocaína”.

Porém, o mais instigante despontará quando a imprensa for, ela mesma, magnetizada pela espiral de afeições que engendrou, e descrever seus próprios xodós. “Amigo da RBS, Nardes é suspeito de maracutaia”. Ou “Amiga de Nardes, RBS é suspeita de corrupção”. Quando Médici pensou em alguém para coordenar a imprensa da ditadura foi buscá-lo exatamente onde? Sim, na chefia de redação de Zero Hora. Que, orgulhosamente, anunciou a escolha. Poderia tê-la noticiado assim: “Amigo de ZH, ditador nomeia nosso funcionário para chefiar sua imprensa”.

As Organizações Globo se agigantaram como monopólio a partir do momento em que Costa e Silva chutou um escândalo para debaixo do tapete e arrumou um empréstimo maternal para a empresa comprar a parte dos americanos no acordo Time-Life, aliás pago com propaganda do regime militar. “Amigo da Globo, ditador financia e salva empresa” seria um título justo? Do grupo Folhas, a Folha da Manhã cedia suas camionetes de distribuição de jornais para a polícia política campanar e aprisionar pessoas, depois levadas aos antros de tortura. Seria correto titular “Amiga de Médici, Folha ajuda a prender adversários da ditadura”? Inimigos de Dom Hélder Câmara, o Estadão e O Globo montaram uma bateria de difamações contra o cardeal que, em 1970, era favorito para receber o Prêmio Nobel da Paz. Médici fez o mesmo. Os ataques deram certo e o Brasil, que ganharia seu primeiro Nobel, até hoje não recebeu nenhum. “Amigos da ditadura, jornais sabotam Dom Hélder e impedem Nobel brasileiro” seria uma descrição interessante, não?

Os exemplos seriam infinitos porém, por enquanto, o que cabe é aguardar. Sentar na varanda, cevar um mate, enrolar um palheiro e, pitando, fitar o horizonte à espera do raiar do novo dia. Sem grandes expectativas. Pode ser que a alvorada surpreenda o Cristo Redentor de vestes levantadas e dançando o cancã no Corcovado. Na escala das probabilidades, seria um evento mais plausível. Ao menos se comparado com algumas práticas mais refratárias à mudança do que a solidez do cimento armado. Por isso mesmo, o amanhecer trará algo bastante familiar nas manchetes:

— Amigo de Lula, Bumlai…

‘Sartori está partindo o Rio Grande ao meio com uma política mais radical que a da Yeda’

“O governador Sartori tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“O governador Sartori tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Flavio Koutzii nos recebeu em seu apartamento, no Bom Fim, na tarde cinzenta e abafada do último dia de 2015. Uma data apropriada para falar sobre a conjuntura política de um ano extremamente conturbado e repleto de acontecimentos. A poucas horas da passagem de ano, diminuía a possibilidade de uma nova surpresa. O final de ano foi alucinante. Koutzii confessa que estava muito pessimista até o início de dezembro, quando a retomada da capacidade do campo de esquerda de levar gente para a rua, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o rito do processo de impeachment e a conduta de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, jogaram um balde de água fria na ânsia oposicionista de derrubar a presidenta Dilma Rousseff.

“Houve certa surpresa com algumas decisões muito recentes e essa surpresa precisa ter uma explicação”, diz Koutzii. Na entrevista ao Sul21, ele apresenta alguns elementos para construir uma explicação sobre o estado das coisas no cenário nacional e também no cenário estadual. Para tanto, utiliza com fio condutor comparativo uma realidade que acompanha de perto há décadas: a da política argentina. Além de lutar contra a ditadura brasileira, Flavio Koutzii participou também da luta armada contra a ditadura argentina, sendo preso em Buenos Aires, em 1975. Ficou quatro anos preso, sofrendo torturas físicas e psicológicas. A comparação com a situação da política argentina não é gratuita.

Para Koutzii, os governos Kirchner fizeram algo que faltou aos governos nacionais do PT, a saber, uma disputa mais sistemática do sentido político das realizações e dos conceitos do governo e a disposição para assumir alguns confrontos, como fizeram no tema da mídia, por exemplo. Mesmo com a derrota eleitoral agora, defende, essa postura produz outro tipo de educação política na sociedade, o que deverá dificultar os planos do novo presidente, Mauricio Macri.

No plano estadual, o ex-chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra enxerga o governo de José Ivo Sartori (PMDB) adotando a mesma lógica de “fazer todo o mal de uma só vez”, aplicada por Macri. E seguindo uma mesma agenda neoliberal também, de diminuição do papel do Estado e de ataque aos servidores públicos. Mas, para Koutzii, Sartori não tem apenas uma “cara de Macri”. “Ele também tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. Essa política, afirma, “está partindo o Rio Grande ao meio”. (Leia aqui a íntegra da entrevista ao Sul21)

Arbítrio e arbitragem na crise da democracia

11/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS - Evento do PDT junto a estátua de bronze em homenagem a Leonel de Moura Brizola - entre a Catedral e o Palácio Piratini. Foto: Guilherme Santos/Sul21

11/12/2015 – PORTO ALEGRE, RS – Tarso Genro em evento em defesa da democracia e contra a tentativa de golpe contra Dilma Rousseff, junto a estátua de bronze em homenagem a Leonel Brizola, ao lado do Palácio Piratini. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Tarso Genro

(Aos e às jovens juristas e advogad(a)os, de todas as instituições)

O poder de arbitragem política, que o Poder Judiciário vem exercendo sobre o processo político nacional, não é determinado exclusivamente pela vontade “ativista” de alguns ministros do Supremo, nem é uma deformação republicana decidida pela instituição. A arbitragem política é uma das funções do Poder Judiciário em momentos de instabilidade material do Estado de Direito e, através dela, as categorias jurídicas solucionam questões de Estado que a política não resolveu. A Suprema Corte Americana, no turbilhão das lutas pelos direitos civis naquele país e em eleições decisivas, em momentos de tensão política e militar, assumiu arbitragens extremamente importantes para a nação. No caso dos direitos civis, ouvindo as ruas, prioritariamente; no caso da eleição de George Bush, fazendo a contagem de votos, mais influenciada pela poderosa indústria armamentista do que pela voz constituinte do povo. Esta arbitragem política é mais “consequência” de uma desordem política, ou de uma falta de ordem, em determinados momentos da história, do que propriamente a “causa” de uma crise política ou institucional.

No seu clássico “Homem sem qualidades”, Robert Musil apresenta Urlich, seu personagem título, de uma forma muito significativa: “A gente pode fazer o que quiser” – disse o homem sem qualidades para si mesmo, dando de ombros, “que isso não tem a menor importância nesse emaranhado de forças!” Eram os dias que precederam o início da Primeira Guerra Mundial, do capitalismo clássico, sociedade verticalizada, conflitos de classe com sujeitos visíveis. Partidos definidos e Estados fortes, capazes de serem coerentes com um domínio já existente na hierarquia social, com a implementação forçada dos seus padrões “patrióticos”. Tudo para justificar a mortandade que se seguiu, com seus créditos de guerra aprovados pelos Parlamento.

Duvido que Musil falasse, pela boca de Urlich, as mesmas palavras referindo-se aos dias de hoje: de relações em rede, conflitos de classe entre sujeitos com difícil visibilidade pública, hierarquia social mascarada pelo acesso ao consumo da obsolescência programada, ausência completa de sentido identificador da nação e dispensabilidade da Constituição (e mesmo da ruptura da constituição), para suprir as necessidades do capitalismo financeiro global. Creio que Urlich diria, talvez o seguinte: “tudo que fizermos terá sempre muita importância nesta desordem sem centro.” Aparentemente sem “centro” – diga-se de passagem -, pois quem joga o jogo mais forte sobre o Estado nos dias que correm é o capital financeiro. Ele controla a dívida pública e arbitra os seus juros, no momento em que a força da política não é mais expressa pelos partidos, tais quais se firmaram na modernidade, mas pela grande mídia, com seu vasto poder manipulatório e tutela da política.

É com estas preocupações que Zaffaroni, luminar da Suprema Corte Argentina -penalista de referência em todo o mundo- fala da “midiatização” do processo penal. É o método pelo qual a mídia coloniza as categorias jurídicas do Estado de Direito formal -como por exemplo a “presunção da inocência”- e transforma-as numa mercadoria noticiosa. Através desta transformação interpreta os conflitos, o comportamento dos políticos, a corrupção, da forma com que é desejada pelos grandes grupos de pressão que a controlam. Como diz Maria Rita Kehl, o capitalismo liberal consolida assim “sua aliança com as forças do inconsciente” na pulsão do consumo -já como informação manipulada- e solidifica-se “como modo de dominação mais eficiente da história do planeta”: a nova mercadoria, de fácil acesso pela mídia, é a interpretação manipulada do Direito do Estado. Ele se transforma em execração, julgamento não especializado e “torção” do direito de defesa, invertendo o ônus da prova. E o “povo” gosta e frui. Até que um dia o sofrimento se alastra e sai do controle, tonando a vida um programa orientado pelo espetáculo.

Este “modo de vida orientado pelo espetáculo” vai se capilarizando dentro das instituições do Estado e formando novas mentalidades, pois é natural que dentro das suas próprias instituições corporativas, os agentes públicos -pelo menos aqueles mais sensíveis à sedução pela justiça sumária- passem a disputar protagonismos. Não para prestigiar e valorizar a sua instituição dentro do Estado de Direito Justo, mas para amealhar prestígio pessoal na cena pública. A cena interpretada pela grande mídia, cujos valores são repassados como se fossem valores da Humanidade. Assim, o Direito e a distribuição de Justiça, pelos órgãos do Estado, tornam-se tributários da notícia como mercadoria e os cidadãos passam a ser atores de uma cena sem diretor aparente, mas cuja finalidade é simplificar o entendimento: a simplificação é para ser compreendida por um povo sempre exausto, podando a sua capacidade de refletir e transformando a política num vasto repositório de criminalidade e medo.

Recentemente, aqui no Estado – para não falar de assuntos que me envolvem ou envolvem meu partido – uma diligência do Ministério Público Estadual na casa de um parlamentar, foi transformada num espetáculo deprimente. Nele, um repórter, logo um representante de uma instituição privada (que integrava com exclusividade a comitiva de agentes públicos que cumpriam funções de Estado) interrogou o indiciado, na frente da sua família. O interrogatório já era um libelo acusatório, pois, pelas perguntas que o repórter formulava, o “réu” – inocente ou não no futuro – já estava “julgado” pela execração pública. Foi uma verdadeira “privatização” de uma diligência preparatória ao processo penal, no qual ele, acusado, poderia exercer a sua defesa, sabendo concretamente qual o delito que lhe estava sendo imputado e sobre o que deveria defender-se.

Faço estes comentários, não para criticar as pessoas que participaram do episódio, que devem explicações aos seus superiores. Mas para mostrar um sintoma de morbidez do sistema de “pesos e contrapesos”, como diz Bobbio, do Estado de Direito concreto que vivenciamos. Ao lado de uma grande ofensiva contra a corrupção que o país atravessa e que, certamente, trará frutos importantes para a consolidação da República e da Democracia, começam a aparecer comportamentos alarmantes: inversão do ônus da prova, privatização e direcionamento das informações para favorecer grupos midiáticos, vazamento de depoimentos, prisões arbitrárias para estimular e pressionar delações, declarações e procedimentos “justiceiros” de agentes públicos, tudo como uma gigantesca metástase que nos ameaça devolver ao “estado da natureza”. As regras jurídicas perdem sua eficácia e vão sendo interpretadas a “fórceps”, de acordo com as necessidades da conjuntura, que também é interpretada para o senso comum principalmente pelos especialistas midiáticos, em cujos espaços “têm vez”, predominantemente, os que concordam com seus editoriais.

Não pensem, os que estão fruindo desta situação, que gozarão sempre dos benefícios políticos do que está acontecendo hoje. Quando as burocracias do Estado se tornam uma força autônoma fora das prescrições do direito positivo e substituem o apreço ao cidadão comum pelo amor abstrato a uma cidadania ideal, elas deixam de se comportar de acordo com as suas finalidades institucionais, juridicamente reguladas.

No trânsito do Estado moderno absolutista para o Estado de Democrático de Direito -esforço iluminista de implementação da democracia política dentro do regime do capital- foram construídas instituições formais e princípios, que tem por objetivo aproximar o “direito legislado” da concepção do “direito justo”, que é sempre um ideal a ser atingido: uma utopia democrática. O princípio da neutralidade formal do Estado é uma das pontes estratégicas deste curso. Ele é sempre buscado e jamais atingido completamente, mas quando este roteiro é interrompido por formas diretas de punição decididas na mídia, previamente às decisões dos Tribunais, a democracia começa a secar e um dia a “exceção” – que sempre convive com a democracia- torna-se “regra”, fazendo do direito uma mera retórica de justificação do fato.

É o momento em que o Estado pode transitar do autoritarismo para o totalitarismo, no qual ela, a burocracia, se torna a força predominante. Por um certo tempo ela até mesmo se desprende das classes sociais, dotando-se de uma lógica própria de poder
por um período suficientemente largo, para compor os seus “gulags” e os seus campos de extermínio pós-modernos. Hoje, estas forças são minoritárias, mas o sintoma de que agentes públicos do Ministério Público e do Judiciário não estão se colocando no lugar do “outro”, para decidir e diligenciar, já liga um sinal amarelo na democracia. É bom lembrar -guardadas as proporções devidas- a frase premonitória de Danton, quando ele vai sendo conduzido para a guilhotina, prevendo o destino trágico do terror e os seus desenlaces fora da razão: “Tu me seguirás Robespierre”.

A concentração da mídia e a fragilidade da nossa democracia

midiademocracia

Por Josué Franco Lopes

A predominância do sistema privado comercial na comunicação eletrônica brasileira, fortalecido pelo sistema de concessão sem regulação e concentrado na mão de uma meia dúzia de famílias, privatiza o direito de liberdade de expressão, tornando homogêneo o processo de formação da opinião subordinado a um projeto liberal conservador.

No que se refere à política, a falta de pluralidade de opinião nos meios de comunicação vem historicamente comprometendo a nossa democracia. O oligopólio da mídia apoiou o golpe militar de 1964, convivendo pacificamente com a ditadura , fez oposição sistemática a todos governos populares, sempre tentou criminalizar os movimentos sociais progressistas. O oligopólio midiático é um grande defensor das políticas neoliberais. Na campanha realizada este ano, na qual houve um grande acirramento da luta de classes na polarização da disputa presidencial, foi evidenciada uma das coberturas mais sórdidas da história, com o oligopólio midiático sempre defendendo o projeto que representa o projeto das elites conservadoras deste país.

A participação golpista dos oligopólios dominantes nos meios de comunicação no processo eleitoral de 2014 coloca novamente o tema da comunicação no centro do debate da nossa democracia. O processo de concentração dos meios de comunicação é um dos mais concentrados do mundo e seu marco regulatório, além de anacrônico, não regulamenta artigos fundamentais da Constituição de 1988, como a proibição da formação de monopólios, oligopólio e da propriedade cruzada dos meios de comunicação. E utiliza todo o seu poder para promover como atentado a liberdade de expressão qualquer tentativa de discutir a sua regulamentação e inclusive de dispositivos constitucionais que visam impedir a concentração.

Considerando a grande influência que os meios de comunicação têm na formação da opinião pública e, consequentemente, na cultura, na economia e principalmente na política, a sua concentração na mão de poucos inviabiliza o desenvolvimento e o exercício da nossa democracia. Portanto, é um grande desafio para o segundo governo o da Presidenta Dilma recolocar o debate sobre este tema, já que requer uma ampla discussão na sociedade iniciada institucionalmente pela 1ª CONFECON. Sendo assim, necessitamos dar continuidade a fim de garantir a construção de um marco regulatório. Ele deve dispor de mecanismos transparentes e democráticos para o processo de concessão e renovação de outorgas, além de uma política que garanta a complementariedade dos sistemas público, privado e estatal de comunicação conforme a Constituição brasileira, que na prática hoje nos submete a uma brutal predominância do sistema privado comercial sem regulação pública.

O novo marco regulatório precisa também dispor de mecanismos que garantam o direito de resposta como forma de não permitir a violação dos direitos humanos. Esse ponto é preponderante no que diz respeito à liberdade de expressão por parte dos meios de comunicação, bem como levar para o sinal aberto de TV a legislação que atualmente garante na TV por assinatura o fomento a produção regional, independente e nacional. É fundamental que os meios de comunicação contemplem em sua programação a diversidade cultural, étnico/racial, bem como não permitam nenhum tipo de preconceito e intolerância e violação dos direitos humanos em sua programação.

O regime e a política

tagarela Por Lena Annes (*)

Viver de regime, na minha modesta opinião deve, de alguma forma, afetar o raciocínio. Explico: o que leva a editora de uma revista dominical do jornal ZH sempre às voltas com seus detox e outra receitas clássicas do que parte do establishment ainda chama de comportamento feminino (moda,beleza e toques de auto ajuda) a enveredar pela crítica política na edição desta semana?

Explico melhor para quem não leu a tal crônica dominical em que os cachorros da mesma editora fazem papel de interlocutores. Ao invés de relatos engraçadinhos do cotidiano ela cita a decisão do STF que autorizou José Dirceu, condenado a pena de sete anos de prisão a cumprir o restante da pena em regime domiciliar. Todo mundo conhece o caso que foi e continua sendo amplamente divulgado na mídia, mas aproveitar esse episódio para destilar maldades a la Lobão e se sentir “aterrorizada com essa e outras cenas horripilantes da cena brasileira” me parece um tanto fora do contexto usual das suas crônicas. Ou não? Estamos falando de política não?

E se é para colocar mais água na fervura é claro que ela pode dizer o que pensa no espaço que é dela e eu posso não gostar e dizer isso como leitora e jornalista ou não?

Acho que a política tem episódios lamentáveis sim mas esse já foi julgado e condenado.

Meus medos são de outra monta. Temo gente que não respeita uma eleição democrática e vai à rua pedir a volta de uma ditadura que prendeu, matou e torturou pessoas, que não tiveram sequer um julgamento justo ou direito a defesa. Tenho medo do passado sob censura e restrições.

Aliás onde está toda esse “gente de bem” que não usa os espaços que dispõe para criticar essa sandice? Talvez seja esperar muito de um jornal que tem como venda casada aos domingos a parceria de uma ex-publicação jornalística, agora porta voz de golpistas e de quem quer voltar ao poder de qualquer jeito e apela até para golpes sujos.

Disso eu tenho muito medo, mas não vamos deixar que nos amedrontem distorcendo a realidade e usando porta vozes que se prestam a esse jogo. Nossa democracia é recente mas está se solidificando e vamos continuar defendendo-a.

Eu temo as mudanças climáticas, a falta de água e o uso indiscriminado de agrotóxicos. Mas são medos diferentes. Tem gente que tem medo de engordar e do José Dirceu e dúvidas entre uma bolsa de píton e de crocodilo. E quando fala de política diz merda.

(*) Jornalista

Das advertências que vem de lá: sobre como a mídia e a direita promovem a intolerância

Tarso-Genro504
Por Tarso Genro (*)

O colunista Arnaldo Jabor no jornal Estado de São Paulo (06.05), termina uma coluna política da sua lavra, com o seguinte apelo: “O Brasil está sofrendo uma mutação gravíssima e nossas cabeças também. É preciso tirar do poder esses caras que se julgam ‘sujeitos da história’. Até que são mesmo, só que de uma história suja e calamitosa”. Este texto foi publicado no curso de uma campanha da mídia tradicional, não somente contra o governo da Presidenta Dilma, mas já combinada com uma campanha contra o Estado e contra os partidos em geral, especialmente contra tudo que cheira esquerda. Esta cruzada já está contaminando, igualmente, a suposta isenção da cobertura eleitoral, bem como a importância das eleições presidenciais. Já festejam que quase 70% dos eleitores não gostariam de votar em 2014. De outra parte, a campanha contra Petrobrás e a favor de uma CPI, como se esta tivesse interesse em investigar corrupção e ilegalidades -de resto já sob análise do MP e da Polícia Federal- alcançou um paroxismo inédito.

Não há mais noticiário político, nas televisões, com um mínimo de equilíbrio. Aliás, os informativos tratam, principalmente,de crimes (assassinatos em especial), incêndios de ônibus nas grandes capitais; tratam de deficiências na prestação dos serviços públicos ( com fatos singulares, como se fossem característicos das prestações dos serviços estatais); tratam de pequenas e grandes corrupções, com acompanhamento (para humilhar) do cumprimento da pena do ex-Ministro José Dirceu ( já privilegiando a visita da sua filha!); tratam da impropriedade do BNDES subsidiar investimentos que promovem empregos. Certamente o fazem para que esqueçamos um fato já notório, atestado por juristas insuspeitos: Dirceu e Genoíno foram condenados sem provas, depois uma formidável pressão, promovida para desgastar a memória positiva, no meio popular, dos governos do Presidente Lula.

Nem tudo que é publicado é inverdade ou manipulação. Inclusive sobre a esquerda em geral e sobre o próprio partido que pertenço, como se vê de casos recentes. Mas a grande mensagem que está sendo passada, de forma abrangente e totalitária não é, na verdade, destinada a criticar o sistema político, melhorar a vida interna e os procedimentos dos partidos ou mesmo as instituições públicas do Estado. A grande mensagem é outra e a questão de fundo está contida no texto de Jabor, que diz com todas as letras: “O Brasil está sofrendo mutação gravíssima e as nossas cabeças também.”

À medida que é dado tratamento distorcido ao Governo -seus problemas e suas conquistas-, à medida que não se contrastam os problemas econômicos e financeiros do país com o cenário da crise global; à medida que é promovida uma propaganda massiva do privatismo e do antiestatismo -relativizando ou deixando de lado todas as incompetências e corrupções do polo neoliberal, desde a crise da água em São Paulo até o “mensalão mineiro”; à medida que se omite que a corrupção aparece mais, porque os nossos Governos instituíram a Controladoria da União e aparelharam os demais órgãos de controle e a própria Polícia Federal; à medida que se coloca como regra que os políticos e os partidos, em geral, são ineficientes e corruptos, o que está se tratando, meticulosamente, é de promover uma disputa de fundo sobre o futuro. Esta “mutação gravíssima” do Brasil e das “nossas cabeças”, como disse Jabor, vai para que direção? É isso que está em disputa e das suas respostas vai ser instituída uma democracia mais, ou menos substantiva, mais, ou menos receptiva das desigualdades brutais que o nosso país ainda mantém.

Como as políticas de desenvolvimento e as políticas de redistribuição de renda promoveram a redução das diferenças, internamente ao mundo trabalho -diminuindo os espaços entre os assalariados de baixa e alta renda- mas não atingiram as desigualdades que ocorrem na apropriação desigual entre capital e trabalho (para reduzir a diferença entre a “renda do capital” e “renda do trabalho”), fica claro que o Brasil, para avançar com mais estabilidade, terá de enfrentar agora um outro conflito: entre a totalidade dos assalariados que querem mais renda e mais Estado social, de um lado e, de outro, o grande capital quer mais “renda”, através do sistema financeiro privado, e menos Estado social, com redução dos gastos públicos especialmente na área social,.

O artigo de José Luís Fiori “A miragem mexicana” (Carta Maior, 01.05.14) faz uma síntese perfeita do que está em disputa entre as grandes correntes políticas que incidem sobre as eleições de 2014. A saber, entre os entusiastas do modelo mexicano, de corte liberal não-intervencionista (depreciadores da capacidade regulatória do Estado) e os que entendem que a capacidade regulatória do Estado pode criar uma sociedade mais coesa ( corrente neo-keinesianista social-democrata), própria para atenuar as brutalidades do capitalismo e abrir à sociedade, perspectivas de emancipação social.

Ressalto esta contradição porque é voluntarista entender, hoje, que o debate principal no país é entre socialistas e não socialistas. Esta análise gera divisões artificiais no campo popular e democrático, já que o debate real foi bem colocado e com intenções muito claras, pelo estrategista Jabor: a mutação gravíssima das “nossas cabeças” embarcará na tolerância do caminho aberto da “tradição da dúvida” -como diz Maria Rita Kehel-, ou se fixará na a “tradição da certeza”. Ficará com esta visão do caminho único, defendida pelo estrategista Jabor, que querem nos impingir (de mais desigualdades, guerras e intolerância), ou se abrirá para o caminho da utopia democrática, que contém o socialismo ( não como repartidor de carências) como democracia realizada no seu sentido pleno.

Na verdade, lamentavelmente, a História tem sido sempre “suja e calamitosa” e ela revela, em todos os campos políticos, não somente as imperfeições humanas, mas também as grandezas, as escolhas morais, as capacidades do indivíduos se posicionarem nos grandes conflitos sociais e econômicos, de um lado ou de outro. Mas ela também revela a capacidade de cada um escolher o seu desempenho ético, naquilo que Lukács designou como “centralidade ontológica do presente”.

No Brasil, hoje, o que está sendo preparado pela grande mídia e pela direita -que é beneficiária conjuntural das suas manipulações- é a intolerância, não somente com os movimentos sociais, com os comunistas ou com o PT, mas sobretudo com a democracia e com as instituições republicanas. Como disse, recentemente, aqui no meu Rio Grande, o líder empresarial Jorge Gerdau, um dos homens mais ricos do mundo: “Os gaúchos estão felizes, mas por acomodação” (Zero Hora 04. 05). Se o texto não foi editado para prejudicar o entrevistado, o que parece improvável pelo posicionamento político tradicional do referido jornal, Gerdau quer dizer que aqueles que não forem ricos como ele, não tem direito à felicidade dentro da democracia. Mesmo que seja num momento de pleno emprego e de funcionamento razoável do Estado Democrático de Direito.

(*) Governador do Rio Grande do Sul