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Ato na Esquina Democrática expõe frágil unidade da esquerda e dilema de 2018

Manifestação na Esquina Democrática virou uma vigília em apoio ao ex-presidente Lula, por Diretas Já e o afastamento de Michel Temer da presidência. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Há cerca de um ano e meio, a Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre, vem sendo palco de manifestações que iniciaram com palavras de ordem em defesa do mandato da presidenta Dilma Rousseff e contra o golpe parlamentar que começou a se acelerar no primeiro semestre de 2016 e prosseguiram denunciando esse golpe e sua agenda política de reformas que vem eliminando direitos sociais e trabalhistas conquistados nas últimas décadas. Na noite desta quinta-feira (13), esse tradicional território de manifestações políticas na capital gaúcha viveu mais uma manifestação que expôs algumas das principais dificuldades e dilemas colocados para a esquerda brasileira na atual conjuntura política.

Inicialmente, a manifestação desta quinta na Esquina Democrática foi convocada pelo coletivo Juntos, ligado ao PSOL, juntamente com o PCB e a Juventude Pátria Livre, com uma agenda calcada no #ForaTemer e contra as suas reformas. Com a promulgação da sentença do juiz Sérgio Moro contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na quarta-feira, o PT, o PCdoB, sindicatos e movimentos sociais ligados à Frente Brasil Popular convocaram seus militantes para irem para a Esquina Democrática no mesmo horário. A confluência de convocações e agendas bastou para abalar a frágil unidade constituída por partidos e organizações de esquerda.

No final da tarde, o coletivo Juntos RS divulgou um comunicado em sua página no Facebook, informando que estava marcando uma nova data para o seu ato, 18 de julho, e criticando a agenda proposta pela Frente Brasil Popular para o ato desta quinta. “A Frente Brasil Popular presta um papel lamentável para a vanguarda brasileira que se mobiliza, tentando confundir a pauta urgente da luta contra as reformas e do Fora Temer com a defesa cega de Lula”, afirma o a nota do Juntos RS. O racha, como ocorreu em outras situações recentes, manifestou-se na Esquina Democrática com uma presença de militantes menor do que a registrada em manifestações anteriores. A juventude do PCB marcou presença no ato, mas a militância do Juntos não apareceu.

As diferenças sobre o “fator Lula” e os cenários projetados para 2018 acabaram solapando a unidade que, nos últimos meses, vêm sendo defendida por representantes de diferentes organizações de esquerda. O ato desta quinta reuniu cerca de 400 pessoas na Esquina Democrática e teve como centro a defesa do ex-presidente Lula contra a sentença do juiz Sérgio Moro. Desta vez não houve caminhada. O ato foi transformado em uma vigília, com manifestações de representantes de partidos, organizações sindicais e movimentos sociais.

A fala de Ezequiel Morais, do Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), tocou na ferida da divisão entre as forças políticas e organizações sociais que estão unificadas pela bandeira do #ForaTemer, mas que começam a se dividir por questões relacionadas ao cenário eleitoral de 2018. Ele falou sobre o esforço que está acontecendo em Porto Alegre neste momento, envolvendo diferentes movimentos sociais de luta por moradia, para construir uma unidade de lutas e de pautas. Roberta Coimbra, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também falou da importância da unidade diante das crescentes ameaças que vem se materializando como retirada de direitos.

Poucas horas antes do ato, em entrevista ao Sul21 que será publicada neste final de semana, o cientista político Juarez Guimarães, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), antecipava alguns dos desafios que estão colocados para a esquerda brasileira neste momento. O desafio da unidade, assinalou, está sendo confrontado pela perspectiva do que vai acontecer em 2018. E aí, Lula é uma presença incontornável.

O racha no ato desta quinta, em função da sentença anunciada por Moro no dia anterior, é um dos elementos deste cenário, mas não o único. Não existe nada mais desmobilizador hoje, disse Juarez Guimarães, do que apostar que 2018 resolverá os problemas. O problema nesta aposta, sustentou, é que entre hoje e 2018 existe um abismo que, entre outras coisas, é formado por limites e contradições da própria esquerda. O ato desta quinta,na Esquina Democrática, em Porto Alegre, evidenciou as bordas deste abismo para quem quiser ver.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

 

Prefeitura quer que políticos do PSOL paguem prejuízo de empresas de ônibus

Prejuízo teria como causa uma ação judicial movida pelo PSOL em 2016 para barrar aumento da passagem.(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“Esta ação do governo Marchezan é a coisa mais surreal e absurda que já vi nos últimos anos. PSDB advogando para defender empresários de ônibus”. Essa foi a reação da vereadora Fernanda Melchionna (PSOL) ao comentar a decisão da Prefeitura de Porto Alegre que entrou na Justiça contra cinco lideranças do partido no Rio Grande do Sul – Luciana Genro, Fernanda Melchionna, Pedro Ruas, Alex Fraga e Roberto Robaina – querendo que elas sejam responsabilizados por um prejuízo de R$ 5 milhões que teria sido causado às empresas de ônibus da capital gaúcha no ano passado. Esse prejuízo teria como causa uma ação judicial movida pelo PSOL que congelou a tarifa em R$ 3,25 por um período de 33 dias, até entrar em vigor o novo aumento que elevou o preço da passagem para R$ 3,75.

Em dezembro de 2016, dois consórcios de ônibus de Porto Alegre entraram na Justiça cobrando que a Prefeitura pagasse os prejuízos que teriam sido causados pelo congelamento de 33 dias do preço da passagem. A Procuradoria Geral do Município entrou, então, com uma ação contra os políticos do PSOL, querendo que eles “paguem a conta” para as empresas.

O vereador Roberto Robaina disse que o prefeito Nelson Marchezan Jr. quer processar o PSOL para defender os empresários. “A prefeitura dirigida por Marchezan declarou que vai entrar na justiça contra o PSOL para que os seus líderes paguem para os empresários os cinco milhões que os patrões privados dos transportes de ônibus alegam terem perdido quando conquistamos por algumas semanas, no ano passado, o congelamento das tarifas”. Para Robaina, a medida representa “luta de classes pura”: “o governo a serviço dos patrões x nossa posição em defesa dos interesses dos trabalhadores”. Em nota publicada em sua página no Facebook, o vereador acrescentou:

“Não temos medo de ações judiciais do PSDB. Já enfrentamos o governo corrupto de Yeda Crusius do PSDB. Não hesitamos em enfrentar o PSDB novamente, agora o governo Marchezan, que assume neste caso os interesses diretos de uma patronal que atuou durante décadas na ilegalidade. Foi a Justiça que nos deu ganho de causa quando denunciamos a ilegalidade dos aumentos”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

 

Justiça manda Câmara respeitar proporcionalidade e empossar vereadores do PSOL e do PT

O pedido para o cumprimento do critério da proporcionalidade foi protocolado pela Oposição, quinta-feira, no Foro Central de Porto Alegre. (Foto: Divulgação)

O pedido para o cumprimento do critério da proporcionalidade foi protocolado pela Oposição, quinta-feira, no Foro Central de Porto Alegre. (Foto: Divulgação)

O juiz Sandro Silva Sanchotene, da 17ª Vara Cível do Foro Central de Porto Alegre, determinou, no final da tarde de quinta-feira (5), que a Câmara Municipal dê posse imediata ao vereador Professor Alex Fraga (PSOL) no cargo de 3º Secretário da Mesa Diretora, conforme requerido pela bancada de oposição.

Na mesma decisão, o juiz também determinou a posse do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) no cargo de presidente da Comissão de Defesa do Consumidor e Direitos Humanos e Segurança Urbana (Cedecondh) e do professor Alex Fraga no cargo de vice-presidente da mesma comissão.

Sanchonete afirma no despacho que a decisão judicial que deferiu a medida liminar é bastante clara ao determinar o respeito à proporcionalidade dos partidos ou dos blocos partidários na composição da mesa diretora e das comissões permanentes da Câmara de Vereadores. O pedido para o cumprimento do critério da proporcionalidade foi protocolado no Foro Central de Porto Alegre pela líder da bancada da oposição na Câmara, vereadora Fernanda Melchionna (PSOL).

(*) Publicado originalmente no Sul21.

PSOL e PT denunciarão descumprimento de liminar na eleição da mesa da Câmara Municipal

02/01/2017 - PORTO ALEGRE, RS -  Votação da Reforma Administrativa na Câmara Municipal de Porto Alegre. Foto: Maia Rubim/Sul21

Fernanda Melchionna: “É um autoritarismo sem tamanho descumprir a proporcionalidade prevista em regimento e ainda desrespeitar uma decisão judicial”. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Os vereadores e vereadoras do PSOL e do PT, que formam a bancada de oposição na Câmara Municipal de Porto Alegre, reuniram uma série de provas para comprovar que ocorreu o descumprimento da decisão judicial que determinava o cumprimento da regra da proporcionalidade na eleição da mesa diretora e das comissões permanentes da Casa, realizada no último domingo (1°). Essas provas serão entregues nesta quinta-feira (5), às 15h, no Foro Central de Porto Alegre.

Segundo a nova líder da oposição, Fernanda Melchionna (PSOL), os partidos da situação não respeitaram a decisão judicial, que determinou o respeito à proporcionalidade dos partidos ou dos blocos partidários na composição da mesa diretora e das comissões permanentes, prejudicando os partidos da oposição destes postos. “É um autoritarismo sem tamanho descumprir a proporcionalidade prevista em regimento e ainda desrespeitar uma decisão judicial, por isso vamos seguir denunciando esta ilegalidade cometida na Câmara de Vereadores para que a Justiça se restabeleça e não tenhamos uma patrola da maioria”, disse Fernanda.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Base do governo Marchezan extingue SEDA e outras pastas, mas rejeita redução de 30% dos CCs

Militantes da defesa animal compareceram em peso ao plenário da Câmara, mas manutenção da Secretaria foi derrotada por 17 votos a 14. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Militantes da defesa animal compareceram em peso ao plenário da Câmara, mas manutenção da Secretaria foi derrotada por 17 votos a 14. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

A Câmara Municipal de Porto Alegre tomou, nesta segunda-feira (2) suas primeiras decisões do ano e da gestão de Nelson Marchezan Jr. (PSDB) a frente da Prefeitura da capital gaúcha. Em uma sessão tensa, com as galerias lotadas, a Câmara deliberou sobre o Projeto de Lei Complementar do Executivo n° 012/16, que propôs a extinção de 16 secretarias municipais, a criação de nove secretarias e estabelece as finalidades e competências dessas novas pastas. Entre as primeiras medidas da “era Marchezan”, as que causaram maiores protestos foram a retirada da coordenação do licenciamento ambiental do âmbito da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) e a extinção da Secretaria Especial dos Direitos Animais (Seda).

A tática de dividir as galerias em dois blocos iguais de apoiadores e críticos ao projeto enfrentou problemas. Os defensores da manutenção da Smam e da Seda estavam em maior número e lotaram rapidamente as cadeiras destinadas a eles. Com folga de espaço no lado dos defensores do projeto, houve uma pressão para que esses lugares também pudessem ser ocupados. Muitos não conseguiram entrar no Plenário Otavio Rocha que teve o acesso controlado por homens da Guarda Municipal e de uma empresa privada de segurança.

Na metade da tarde, ocorreu um conflito entre manifestantes e os seguranças que chegaram a trocar empurrões. A sessão foi interrompida mais de uma vez e o presidente da Câmara, Cassio Trogildo (PTB), ameaçou terminar com a sessão e convocar outra sem a presença de público. Após ameaçar expulsar manifestantes das galerias, o vereador foi homenageado com os gritos de “Cassio, cassado”.

A ameaça de extinção da Smam provocou uma grande mobilização da área ambiental. Além de representantes de entidades e ativistas, vários ex-secretários da pasta, de diferentes partidos, foram para o plenário ajudar no trabalho de defesa da manutenção da secretaria. Lá estavam Caio Lustosa, Beto Moesch e Gerson Almeida, entre outros que já trabalharam com a política ambiental de Porto Alegre. A pressão teve sucesso parcial. Um acordo, costurado em torno de uma emenda apresentado pelo vereador Airto Ferronato (PSB), alterou o texto original do projeto de Marchezan, que criava a Secretaria Municipal de Sustentabilidade, para Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade.

Mais importante do que a mudança de nome da Secretaria, porém, foi a votação de uma emenda que determina quem é o responsável pela coordenação do processo de licenciamento ambiental. A Câmara rejeitou, por 25 votos a 9, a emenda da vereadora Sofia Cavedon (PT), que transferia da Secretaria de Desenvolvimento Econômico para a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade a coordenação e acompanhamento dos processos de licenciamento ambiental. No início da noite, os vereadores aprovaram, por 35 votos a 0, outra emenda, do vereador Mauro Pinheiro (Rede) prevendo que a concessão do licenciamento ambiental deve ficar a cargo da Secretaria do Meio Ambiente e Sustentabilidade, e não na de Desenvolvimento Econômico, como previa o projeto original.

A rejeição da emenda de Sofia Cavedon ocorreu por ampla maioria, mas em vários momentos a base de apoio do prefeito Nelson Marchezan apresentou divergências e dificuldades para aprovar as propostas do Executivo. Um exemplo disso foi a votação da emenda apresentada pela vereadora Fernanda Melchionna (PSOL) propondo a supressão do artigo 3° do projeto do Executivo, que autorizava a o prefeito a decidir por decreto a integração e agrupamento de órgãos da administração municipal. Diante da forte resistência à proposta, manifestada por vereadores de vários partidos, o governo recuou e a emenda acabou sendo aprovada por 35 votos a zero.

Por outro lado, a base do governo fez valer sua maioria para rejeitar, por 24 votos a 9, a emenda das bancadas do PT e do PCdoB, propondo a extinção de 30% dos cargos em comissão (CCs) do Executivo em até 120 dias. Um dos votos contrários à extinção de 30% dos CCs partiu do vereador estreante Felipe Camozatto, do Partido Novo, até então um crítico contumaz dos cargos em comissão. Camozatto justificou seu voto em nome da “independência dos poderes”. A vereadora Sofia Cavedon cobrou coerência da base do governo Marchezan que, na campanha eleitoral, prometeu reduzir justamente em 30% o número de CCs na Prefeitura de Porto Alegre (conforme o então candidato publicou em sua conta no Twitter).

Uma das votações mais apertadas ocorreu em torno da emenda do vereador Rodrigo Maroni (PR) que excluía do projeto o item que previa a extinção da Seda. A emenda foi derrotada por 17 votos a 14, com cinco abstenções, provocando muitos protestos de militantes da defesa animal que acompanharam em grande número a sessão. Após a votação, indignado, Rodrigo Maroni disse que, naquele momento, sentia vergonha de fazer parte da Câmara de Porto Alegre e que os vereadores que votaram pela extinção da Seda serão responsáveis pela morte de muitos animais. A principal articuladora da secretaria no governo Fortunati, Regina Becker Fortunati, esteve na Câmara participando dos esforços pela manutenção da pasta e deixou o plenário logo após a votação da emenda de Maroni.

Mais apertada ainda foi a votação da emenda que mantinha a Secretaria Municipal de Esportes, Recreação e Lazer. A emenda foi derrotada por apenas um voto (17 a 16), o que levou a oposição a pedir uma nova votação. A apreciação das demais emendas ao projeto do Executivo entrou noite adentro.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

PT e PSOL denunciam golpe e descumprimento de decisão judicial na Câmara de Porto Alegre

Vereadora Fernanda Melchionna (PSOL) abriu faixa com os dizeres “Fora Sartori” ao ser empossada neste domingo na Câmara Municipal de Porto Alegre. (Foto: Reprodução/Facebook)

Vereadora Fernanda Melchionna (PSOL) abriu faixa com os dizeres “Fora Sartori” ao ser empossada neste domingo na Câmara Municipal de Porto Alegre. (Foto: Reprodução/Facebook)

As bancadas do PT e do PSOL denunciaram neste domingo (1o) um golpe na eleição da mesa diretora da Câmara Municipal de Porto Alegre. Os partidos da situação não respeitaram a decisão judicial, que determinou o respeito à proporcionalidade na composição da mesa diretora e das comissões permanentes, e alijaram os partidos da oposição destes postos.

Os quatro vereadores do PT e os três vereadores do PSOL impetraram mandado de segurança contra o presidente da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, Cássio Trogildo (PTB), para que a Lei Orgânica do Município e o regimento do Legislativo fossem respeitados, garantindo a proporcionalidade da composição da mesa diretora e das comissões permanentes. Cássio Trogildo, ignorou a decisão judicial.

Cássio Trogildo (PTB) foi eleito, por 28 votos contra 8 e uma abstenção (Cassiá Carpes), presidente da Câmara. Os oito votos contrários foram dados pelos vereadores do PT e do PSOL que votaram em Alex Fraga (PSOL) para a presidência da Casa.

As vereadoras Fernanda Melchiona e Sofia Cavedon anunciaram que os dois partidos da oposição devem ingressar na Justiça para anular a sessão deste domingo por descumprimento de ordem judicial. É a primeira vez que o acordo de proporcionalidade não é cumprido na Câmara Municipal de Porto Alegre. “O presidente da Câmara, Cássio Trogildo, deu um golpe na votação, passando por cima de uma decisão judicial e promovendo uma verdadeira farsa, tentando repetir o que fez Renan Calheiros no Senado quando este decidiu não cumprir uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Não aceitamos essa decisão da Mesa e vamos denunciar em todas as esferas”, afirmou Fernanda Melchiona em vídeo publicado nas redes sociais.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Saída do PDT pressiona governo Sartori. Sindicatos pedem que trabalhistas votem com trabalhadores

Todos os Projetos de Lei e Projetos de Lei Complementar foram encaminhados em regime de urgência, o que significa que eles trancarão a pauta de votações no dia 22 de dezembro. (Foto: Marcelo Bertani/ Agência ALRS)

Todos os Projetos de Lei e Projetos de Lei Complementar foram encaminhados em regime de urgência, o que significa que eles trancarão a pauta de votações no dia 22 de dezembro. (Foto: Marcelo Bertani/ Agência ALRS)

A possível saída do PDT da base do governo José Ivo Sartori (PMDB) pode abrir um novo cenário político na Assembleia Legislativa e tornar mais difícil a aprovação do pacote de medidas publicadas nesta quarta-feira (23), no Diário Oficial da Assembleia. Pela manhã, o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, deixou clara sua posição favorável ao desembarque do governo após o anúncio do pacote feito na segunda-feira pelo governador Sartori. Para Lupi, o pacote fere princípios trabalhistas inegociáveis e não há como permanecer no governo.

A posição pela saída do governo já é unânime na Executiva Nacional, mas ainda enfrenta resistências entre alguns integrantes da bancada estadual. O PDT, hoje, ocupa as secretarias da Educação e de Obras, além de diretorias na Corsan, Detran e Badesul. A tendência, porém, é que prevaleça a decisão pela saída do governo, até porque o PDT pensa também no lançamento de uma candidatura própria ao Piratini com o possível ingresso do atual prefeito de Canoas, Jairo Jorge, que se desligou do PT há alguns dias.

Hoje, o núcleo duro da oposição ao governo Sartori, formado pelas bancadas do PT, PCdoB e PSOL, conta com 14 votos certos. O bloco de oposição pode contar também com votos da bancada do PTB (5 deputados) e da deputada Regina Becker, da Rede. Caso o PDT saia do governo, serão mais sete votos que podem ir para a oposição, o que já dificultaria muito a aprovação das sete Propostas de Emendas à Constituição (PECs) encaminhadas pelo governo Sartori à Assembleia, que exigem uma maioria qualificada de três quintos, entre os 55 parlamentares da Casa, para aprovação. Os projetos de lei complementar exigem aprovação da maioria absoluta dos deputados (28 votos) e os projetos de lei podem ser aprovados por maioria simples, com quórum mínimo de 28 deputados.

Além das sete PECs, o governo encaminhou 11 projetos de lei e quatro projetos de lei complementar. Com a perspectiva da saída do PDT da base, o Piratini enviou emissários à Assembleia para conversar com integrantes do PTB para tratar de um possível ingresso da legenda no governo.

Todos os Projetos de Lei e Projetos de Lei Complementar foram encaminhados em regime de urgência, o que significa que eles trancarão a pauta de votações no dia 22 de dezembro, data da última sessão plenária antes do recesso parlamentar, que começa no dia 23 de dezembro. Para evitar que essa votação ocorra entre o Natal e o Ano Novo. Em uma convocação extraordinária, está em discussão a possibilidade de um acordo para que todos esses projetos fossem votados entre os dias 20 e 22 de dezembro. A definição desse calendário pode ocorrer nos próximos dias.

Além dos 22 projetos enviados terça-feira para a Assembleia, o Executivo também solicitou regime de urgência de outros dois projetos que já tramitam na Casa: o PL 301/2015, que extingue a Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (FEPPS), e o PL 214/2015, que estabelece uma redução de até 30% nos Créditos Fiscais Presumidos nos exercícios de 2016 a 2018. A partir da publicação dos projetos no Diário Oficial da Assembleia, durante dez dias úteis, eles podem receber emendas parlamentares. No caso das PECs, esse prazo é de 15 dias úteis.

Os sindicatos de servidores devem intensificar nos próximos dias as conversas com parlamentares de todas as bancadas tentando convencê-los a votar contra as propostas que extinguem fundações, demitem trabalhadores e abrem caminho para a privatização de empresas públicas. Na terça-feira, diretores do Sindicato dos Técnicos-Científicos do RS (Sintergs), visitaram vários gabinetes com esse objetivo. Juntamente com o Sindicato dos Engenheiros (Senge-RS), o Sintergs realizou uma reunião com as bancadas do PDT e do PTB. Os deputados do PDT e do PTB disseram aos sindicatos que votarão contra a PEC que retira a necessidade de plebiscito para a privatização de estatais e que não votarão a favor de qualquer medida que retire direitos trabalhistas e prejudique os servidores.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Derrotas da esquerda: o que 2016 tem a nos ensinar?

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Levante Popular da Juventude

O ano de 2016 será marcado profundamente pelas derrotas das forças progressistas no Brasil. A primeira derrota por fora das urnas, com a consumação do Golpe em 31 de Agosto, a segunda derrota por dentro das urnas, nas eleições de 2 de Outubro. Tais derrotas são importantes em si mesmas, mas mais do que isso elas apontam para a reconfiguração política que está em curso em nosso país. Portanto, é fundamental que todas e todos os militantes de esquerda tiremos as lições delas.

1. Não podemos explicar a derrota eleitoral sem o Golpe

Muitas das avaliações sobre o pleito municipal de 2 de Outubro, tanto de intelectuais progressistas, mas principalmente dos analistas da grande mídia, tem atribuído a derrota eleitoral do PT, aos equívocos cometidos pelo próprio partido. Contudo, essa é uma análise um tanto superficial, pois ignora a conjuntura latino-americana de ofensiva neoliberal, e o contexto de linchamento político e de criminalização que o PT disputou essas eleições. A triangulação entre a grande mídia, o sistema jurídico-policial e direita partidária construiu um “consenso anti-petista” que inviabilizou a maior parte de suas candidaturas e de seus aliados. Isso significa que qualquer força política que estivesse no lugar do PT nessa correlação de forças estaria igualmente estrangulada por essa ofensiva neoliberal.

2. Não podemos reduzir essa derrota eleitoral ao Golpe

Ao mesmo tempo, não podemos justificar essas derrotas somente pelos méritos do inimigo. Não podemos isentar o PT, pelos erros que levaram ao Golpe, e consequentemente, as derrotas eleitorais nessas eleições municipais. O PT deixou de ser um instrumentos de organização política dos setores populares para a disputa de hegemonia na sociedade, e tornou-se mais uma máquina eleitoral para a disputa de espaços institucionais. Deixou um programa de reformas estruturais do Estado, pela gestão de políticas públicas que melhorassem a vidas das pessoas, desde que não gerassem conflitos. Nesse esforço foi mais amoldado pela lógica da administração pública, do que conseguiu moldá-la. Fez alianças pragmáticas, mas não construiu ao longo de sucessivos governos correlação para que pudesse prescindi-las, ao contrário, foi tornando-se cada vez mais refém dessas alianças. De modo que ao término de 13 anos de governos petistas qual o saldo de organização popular e consciência política que essa experiência legou? Portanto, a derrota de ontem não foi construída somente a partir do Golpe, ela foi consequência de uma estratégia equivocada. As responsabilidades sobre as derrotas de 2016 devem ser divididas entre os méritos do inimigo e os limites da estratégia hegemônica da esquerda.

3. A derrota do PT não favoreceu outras forças políticas de esquerda

A crise do PT tem estimulado as forças políticas de esquerda a se assanharem para assumir o lugar de força hegemônica no campo progressista. Contudo, o resultado das eleições de ontem não demonstra que o espólio eleitoral do PT esteja sendo capitaneado por alguma sigla. É certo que PC do B e PSOL tiveram candidaturas de destaque em centros políticos importantes. Mas as suas conquistas foram mínimas frente ao tamanho da derrota do PT. Analisando o número de vereadores eleitos, enquanto PC do B cresceu 4,8% (46 vereadores a mais), e o PSOL cresceu 8,2% (4 vereadores a mais), o PT perdeu 44% de sua representação nas câmaras municipais, o que significa 2.272 vereadores a menos. Ou seja, não está em curso a transição de um polo político de esquerda a outro, está em curso a perda de terreno institucional das forças progressistas. Portanto, essa derrota não deve ser vista somente como a derrota do PT, mas é uma derrota do campo progressista, que em muitos locais não conseguiu se apresentar como alternativa viável, deixando a disputa política entre frações burguesas. É uma derrota que se apresenta no plano institucional, mas suas raízes são mais profundas. De modo geral essa derrota é a expressão da incapacidade de todas as forças políticas progressistas constituírem força social, centrando suas energias no trabalho subterrâneo de formação política e organização do povo.

4. A Direita sai fortalecida em todas as suas matizes

O terreno perdido pelo PT tem sido conquistado por partidos conservadores. Em primeiro lugar destaca-se, na fumaça da fragmentação partidária que virou o sistema político brasileiro, o crescimento das siglas menores (PSD, SD, PSC, PRB, etc). Essa pulverização só favorece a Direita, na medida em que os partidos conservadores maiores tem muito mais capacidade e afinidade política para agenciá-los na conformação de alianças eleitorais estaduais e nacionais.

Nesse emaranhado de siglas duas forças políticas conservadoras se fortalecem. A primeira é a direita fundamentalista, associada às Igrejas pentecostais, que já vinha numa curva ascendente no cenário político, mas com as restrições de financiamento e com campanhas mais curtas, tendem a se consolidar cada vez mais como uma força decisiva, convertendo seus fieis em milhares de cabos eleitorais. O destaque fica com o PRB, sigla vinculada a Igreja Universal, que apresentou candidaturas altamente competitivas em SP, e está no segundo turno no RJ.

A segunda força que despontou, foi a extrema-direita ideológica que embora não tenha assumido centralidade nas disputas, ganhou um terreno que não havia no histórico recente da política nacional. Esteve presente não só na votação expressiva do filho de Bolsonaro, na disputa a prefeitura do RJ, mas também em dezenas de candidaturas bem sucedidas à vereadores encarnadas por lideranças coxinhas do MBL, do Vem pra Rua e do Partido Novo.
Por fim, entre os partidos grandes, o PSDB saiu muito fortalecido, em especial, pela vitória surpreendente em São Paulo, e pela presença no segundo turno em várias capitais. O anti-petismo, de modo geral, fortaleceu a Direita em todas as suas matizes.

5. A rejeição ao sistema político foi capturada pela Direita

As jornadas de junho de 2013 constituíram-se num fenômeno que até hoje suscita várias interpretações. Contudo, é inegável que dentre as motivações daquelas mobilizações estava o sentimento de inconformidade com o atual sistema político, em especial na juventude. Não é por menos que entre as palavras de ordem mais entoadas estava o grito de “Não me representa”.

Esse sentimento de não representação, que permaneceu desde então, não necessariamente é um caldo conservador. De modo geral todas as pessoas progressistas não se vem representados no Congresso Nacional, sabem dos vícios do nosso sistema político, da ausência de participação popular direita, de como ele é vulnerável ao poder econômico, etc. Portanto, há uma dimensão potencialmente emancipatória na crítica a essa institucionalidade da democracia burguesa.

Contudo, de 2013 pra cá essa rejeição as instituições políticas foi sendo capturada pela Direita. Principalmente através da campanha midiática e das mobilizações “Fora Dilma”, foi se fortalecendo essa associação entre um sistema político corrupto e o PT, que inicialmente se consolidou na classe média, mas atualmente transbordou para praticamente todos os segmentos da sociedade. O fato de o PT estar encabeçando o governo federal, e a incapacidade dessa experiência representar uma nova institucionalidade política, reproduzindo práticas do sistema ao invés de superá-las, favoreceu enormemente a ancoragem desse discurso.

Nessa eleição a rejeição ao sistema político ficou evidente em pelo menos dois aspectos. O primeiro foi no crescimento das abstenções, votos nulos e brancos, chegando a mais de 40% no RJ e em SP. O que representa claramente um ceticismo crescente com relação a efetividade do voto. O segundo aspecto foi no discurso das candidaturas conservadoras. Aqui se destaca a narrativa construída por Dória em São Paulo, que se afirmava como gestor e não como político. Não há como explicar o sucesso de sua candidatura, a não ser por essa capacidade de dissociar-se da política e dos políticos (e do imaginário a eles vinculado: corrupção, mentira, ineficiência). A mágica de Dória foi a de negar o status quo político, sendo ele um representante desse status quo.

A exceção desse processo de sequestro de discurso político, foi a campanha de Freixo no Rio de Janeiro. Esta foi uma das poucas candidaturas que conseguiu canalizar à esquerda essa subjetividade de alternativa ao modus operandi da política, que infelizmente não se apresentou em outras disputas.

6. Desafios para a construção de um novo ciclo da esquerda no Brasil

Essas derrotas anunciam o encerramento de um ciclo na esquerda brasileira. Isso não significa a dissolução do PT, mas significa que ele não terá mais o mesmo papel protagônico de antes. Esse processo de reorganização da esquerda nos coloca um conjunto de desafios.

O primeiro desafio é o da unidade. Estas eleições demonstraram a incapacidade da esquerda se unificar mesmo sob as condições políticas mais adversas. Para evitarmos o pior cenário que é o da dispersão da esquerda, será necessário superarmos o sectarismo e o hegemonismo.

O segundo desafio é de projeto. O fim da experiência neodesenvolvimentsta, e a implementação do neoliberalismo que tende a se aprofundar, exige que formulemos um novo projeto que seja uma alternativa popular para as crises que estão em curso. Esse novo projeto deverá apresentar além de um programa econômico e social, uma resposta à esquerda para a crise de legitimidade do atual sistema político. Por isso que a luta por uma Constituinte se coloca como uma bandeira essencial na perspectiva de refundarmos as instituições políticas no Brasil, garantindo efetivamente a participação popular no controle do Estado.

O terceiro desafio é organizativo. Diante da mudança do papel que o PT passará a exercer na esquerda, precisamos de uma nova engenharia organizativa que assuma o comando político. Na atual conjuntura nenhuma força isolada tem essa capacidade. Precisamos de um novo arranjo político que congregue partidos, correntes, movimentos populares e militantes sociais. O embrião desse instrumento vem se forjando nas lutas desde 2015, e chama-se Frente Brasil Popular. Contudo, esta experiência permanece muito aquém das nossas necessidades. A Frente deverá se tornar um espaço de organização política e social de todos aqueles que se opõem ao programa neoliberal, capilarizado por todo território nacional.

Perdemos todos, vamos renovar

“A lição das urnas mostra que a ausência de um partido hegemônico – pela esquerda, com um programa autêntico de construção da nação e capaz de consolidar o Estado Social de Direito – é a principal barreira que devemos superar”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“A lição das urnas mostra que a ausência de um partido hegemônico – pela esquerda, com um programa autêntico de construção da nação e capaz de consolidar o Estado Social de Direito – é a principal barreira que devemos superar”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Tarso Genro (*)

Um brilhante artigo do Professor Roberto Amaral, “Os desafios das esquerdas fragmentadas”, oferece um roteiro excepcional para o debate que devemos abrir, em defesa da democracia e da república, no momento em que as urnas sinalizam, não somente o fim da hegemonia petista, no âmbito da esquerda, mas eficácia das novas formas de luta – já assumidas em todo o mundo – pela direita conservadora rentista. Esta, aliada com os centros de inteligência neoliberais, pautada pelo oligopólio da mídia, que exige as “reformas” no Estado Social,  conta, de um lado, com a decadência das formas tradicionais de fazer política – assumidas pelo PT – como partido hegemônico, e, de outro, com o “cansaço” da democracia, que não consegue mais dar estabilidade a conquistas sociais, nem vitalidade às liberdades políticas.

O PT teve muitas candidaturas dignas e autênticas, como as de Raul Pont e Fernando Haddad – para mencionar apenas duas capitais – e outras tantas por este Brasil afora, mas, em regra, teve um desempenho pífio ou dissolveu-se em alianças regionais de conveniência, sem se dar conta que, na verdade, esta eleição seria um pleito de recomeço e não de continuidade da política de resistência contra o impedimento da Presidenta. Este, de resto, já era (e é) fato político consolidado, mesmo grande parte da população tendo consciência que foi enganada sobre os propósitos da sua derrubada, que ocorreu para que seja feito um “ajuste” profundo, na economia, não para combater a corrupção.

Toda a falência do nosso sistema de alianças pode ser sintetizada num dos exemplos, entre os vários dados pelo professor Amaral, no texto referido: como explicar que o PT, em Olinda, não tenha apoiado Luciana Santos, presidenta nacional do PCdoB, e este partido – em Recife – tenha apoiado o candidato da direita, contra João Paulo do PT, sabidamente um homem do campo da esquerda?  Quando se levanta esta perplexidade, não está se buscando “responsabilidades” locais, pois, de resto – em momentos eleitorais – as forças políticas locais se movem pragmaticamente, quando não ocorre uma intervenção de um centro dirigente legítimo. O que está se buscando é visualizar quais as estratégias nacionais, que estes partidos adotam, para “naturalizar” tal fragmentação, bem como o sentido de responsabilidade histórica, que definem na conjuntura atual, para permitir que os seus agentes políticos se movam com esta leveza sem estratégia.

Na verdade, parece que estes partidos do campo da esquerda agem como se o país não transitasse por um processo político de “exceção”, como se o Estado Social de Direito não estivesse sendo desmantelado, como se a hidra do fascismo não estivesse levantando uma das suas cabeças, como se o “ajuste” em curso – que integra de forma definitiva o Brasil na tutela do “rentismo” global – (e faz a sua própria base social sólida), fosse um mero acidente de percurso. Na verdade, todavia, é sabido que estes ajustes só são aplicáveis quando as corrupções contingentes, de qualquer Estado, tornam-se modo estrutural definitivo de governabilidade, como está correndo no Brasil.

Não vou dar exemplos da falta de estratégia democrática de outros partidos, mais além do que pontuais, porque a finalidade deste artigo não é, neste momento, travar uma polêmica com os que se colocam “à esquerda”, desta aliança do PT com o PCdoB, que deveria informar um sistema de alianças mais amplo, tanto à esquerda como à sua “direita”. A ideia é refletir sobre os erros – principalmente do PT como partido hegemônico – no campo que defendeu a ilegitimidade do golpe contra a Dilma e foi o alvo principal de uma sistemática campanha de destruição, pelo oligopólio da mídia, inclusive nos dias próximos à eleição.

Coloco na minha breve abordagem a seguinte pergunta: o que faz o PT – por exemplo -lançar a candidatura  em Belém, de Regina Barata (1,71%) – paralela à candidatura de Edmilson, do PSOL (30%) – , numa eleição em que este, homem de esquerda e gestor excelente enfrentava, já no primeiro turno, um forte candidato do PSDB, que hoje é o principal repositório do golpismo pós-moderno, no país?  Reputo que com esta postura -independentemente das suas intenções nobres – o PT reflete a mesma concepção de fundo do PSOL (embora o faça com viés burocrático), pela qual ele se avoca o mais importante representante da esquerda,  deixando de lado a melhor candidatura, para enfrentar o adversário comum.

Esta posição exclusivista, seja do PT, que chega nela pela via burocrático eleitoral, seja do PSOL – que a defende em vários lugares como uma estratégia socialista – retira do centro do conflito eleitoral a questão democrática, que tinha sido superada na Constituição de 88, agora golpeada por um Congresso sem legitimidade. Se a questão democrática não for, hoje, no país, a questão mais decisiva a ser enfrentada por uma frente política novo tipo – que passe inclusive por dentro dos processos eleitorais – meu raciocínio está errado. Mas, se estou certo, os resultados eleitorais nos centros políticos mais importantes do país consolidaram o Governo Temer, reforçaram o PSDB e atrasaram a unidade popular para enfrentar a exceção.

Quero lembrar, ainda, outro aspecto que me parece extremamente relevante. Trata-se de um fato histórico de alta complexidade, através do qual a questão democrática e nacional, foi retomada pela direita por outra via, pela qual a suposta defesa da nação (contra o comunismo) não se tornou em nenhum momento dominante. Isso permitiu falsear ao extremo os interesses de classe tradicionais, que envolveram os surtos autoritários de períodos anteriores: a soberania popular foi revogada no país, em nome da luta contra corrupção, mas o seu propósito era e é – com ou sem corrupção – aplicar um programa claro de natureza econômica, para integrar de forma profunda o Brasil no domínio do “rentismo” global. Este faz e amplia a sua própria base social e política no processo de reformas, que tem o apoio de diversos partidos e frações de partidos e que tinha se aninhado inclusive dentro do próprio PT.

Em suma, a lição das urnas mostra que a ausência de um partido hegemônico – pela esquerda, com um programa autêntico de construção da nação e capaz de consolidar o Estado Social de Direito – é a principal barreira que devemos superar, para que o campo popular e democrático no país recupere a iniciativa e enfrente o golpismo amplamente vitorioso nas eleições deste ano.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Pesquisa Ibope aponta empate técnico entre quatro candidaturas em Porto Alegre

O Ibope ouviu 602 eleitores entre os dias 6 e 9 de setembro. A pesquisa tem uma margem de erro de 4 pontos percentuais para mais ou para menos.

O Ibope ouviu 602 eleitores entre os dias 6 e 9 de setembro. A pesquisa tem uma margem de erro de 4 pontos percentuais para mais ou para menos.

O Grupo RBS divulgou, no início da noite desta sexta-feira (9), a segunda pesquisa Ibope de intenção de votos para a prefeitura de Porto Alegre, que apontou empate técnico entre quatro candidaturas. O atual vice-prefeito Sebastião Melo (PMDB) aparece em primeiro com 22% das intenções de voto, sendo seguido por Raul Pont (PT) com 19% e por Luciana Genro (PSOL) e Nelson Marchezan Júnior (PSDB), com 17%.

Em relação à pesquisa anterior, divulgada no dia 22 de agosto, Melo passou de 10 para 22%, Pont de 18% para 19%, Luciana caiu de 23% para 17% e Marchezan subiu de 12 para 17%. Como a pesquisa tem margem de erro de quatro pontos percentuais, para mais ou para menos, as quatro candidaturas estão tecnicamente empatadas.

A pesquisa Ibope também projetou seis cenários de segundo turno. Segundo esse levantamento, Melo venceria a disputa contra Pont, Luciana Genro e Marchezan. Marchezan venceria contra o candidato do PT e a candidata do PSOL. Luciana Genro, por sua vez, venceria caso a disputa fosse com Raul Pont.  O Ibope ouviu 602 eleitores entre os dias 6 e 9 de setembro.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Candidato do PP acusa coligação e militantes de esquerda de “preconceito de classe” e crime eleitoral

Representação acusa coligação e dois militantes de divulgar um panfleto anônimo “com a intenção de difamar a pessoa de Leonardo Pascoal e de denegrir a imagem do candidato”.

Representação acusa coligação e dois militantes de divulgar um panfleto anônimo “com a intenção de difamar a pessoa de Leonardo Pascoal e de denegrir a imagem do candidato”.

A Coligação Mudança de Verdade (PP/PRB/PTN/PRTB/PHS/PSB/PROS/PEN/PTC), do candidato à prefeitura de Esteio, Leonardo Pascoal, ingressou com representação na Justiça Eleitoral contra a Coligação Juntos Fazemos Mais (PT/PTB/Rede/PV,PSD e PCdoB) e contra Rodrigo Carvalho dos Santos e Eduardo Chittolina dos Santos, acusando-os de divulgar um panfleto anônimo “com a intenção de difamar a pessoa de Leonardo Pascoal” e de “denegrir a imagem do candidato a prefeito nas eleições de 2016”, promovendo “preconceito de classe”. Na representação, a coligação encabeçada pelo candidato do PP solicitou a cobrança de uma multa, que pode chegar a R$ 25 mil, e uma operação de busca e apreensão dos referidos panfletos.

A juíza Jocelaine Teixeira, da 97ª Zona Eleitoral do Rio Grande do Sul, recebeu a representação dando prazo de cinco dias para os citados apresentarem sua defesa em relação à acusação de divulgação de material anônimo, mas negou o pedido de busca e apreensão, considerando “insuficientes os elementos acerca da autoria do material juntado”. A juíza eleitoral também considerou que o panfleto em questão, em princípio, “não fere a liberdade de expressão e o direito de crítica e a liberdade de fazer referência a fatos históricos, ainda que isso vincule um dos candidatos a prefeito no pleito municipal”.

Panfleto, anexado na representação, relaciona candidato do PP à ditadura e aos nomes de Paulo Maluf, Jair Bolsonaro e Marcel van Hattem.

Panfleto, anexado na representação, relaciona candidato do PP à ditadura e aos nomes de Paulo Maluf, Jair Bolsonaro e Marcel van Hattem.

O panfleto em questão, de duas páginas, foi distribuído no dia 12 de agosto em frente à Casa de Cultura de Esteio por militantes do grupo #EsteiodaEsquerda, que se apresenta como um movimento político cultural “crítico dos partidos tradicionais da cidade, como o PMDB, o PP e o PSB”.

Uma das páginas traz em destaque no alto “Fora Temer” e denuncia a decisão do “governo ilegítimo de Michel Temer” de extinguir o Ministério da Cultura e de cortar investimentos no setor. A outra página critica o que chama de “a nova (velha) política de Leonardo Pascoal”, sustentando que o mesmo é candidato do PP, “partido cuja origem remete à ditadura militar” e que tem entre seus quadros nomes como Paulo Maluf e Jair Bolsonaro, associando este a práticas de machismo, racismo e preconceito contra LGBTs. O material também relaciona Pascoal ao deputado estadual Marcel van Hattem e à defesa de “cortes de direitos sociais e trabalhistas”.

A representação movida pela Coligação liderada pelo PP sustenta que esse conteúdo “possui nítido caráter e intenção de difamar a pessoa de Leonardo Pascoal, não restando dúvidas que o material distribuído procura denegrir a imagem do candidato à prefeito nas eleições de 2016, ao passo que o vincula a palavras baixas e incitações preconceituosas, por fim o definindo como nada mais do que a velha política”. Além disso, aponta como indícios que relacionariam a autoria do mesmo à coligação da qual o PT faz parte, a presença da expressão “Primeiramente, Fora Temer!” e da hashtag #esteiodaesquerda, argumentando que “é de conhecimento que o partido/coligação que se apresenta/defende tal ideologia hoje encontra-se representado pelo Partido dos Trabalhadores (PT)”. E registra que Rodrigo Carvalho dos Santos e Eduardo Chittolina publicaram palavras semelhantes em redes sociais.

Em nota divulgada nesta terça, em sua página no Facebook, Eduardo Chittolina classificou a ação como “pura perseguição política e ideológica”, que sequer o identificou corretamente, pois seu nome é Eduardo Santos Chittolina e não “Chittolina dos Santos”. Eduardo diz que sequer esteve na atividade de panfleteação, embora tenha dado apoio à mesma. E acrescenta: “Tudo o que fizemos no corpo do texto foi apontar as estreitas relações que o PP, partido de Pascoal, mantém com o período de regime ditatorial brasileiro. Mesmo que tente esconder o sinistro passado do partido a que pertence, a verdade é dura: o PP apoiou a ditadura! Não há nada de inverídico nessa afirmação. Por que Pascoal tem vergonha do próprio partido?”.

Ele também rechaça a ligação feita na representação com a coligação do PT: “Nunca, nem mesmo por um dia, fui filiado ao Partido dos Trabalhadores. Muito pelo contrário, aliás: desde que comecei a me manifestar politicamente, há quase 10 anos, faço oposição ao PT e qualquer pessoa minimamente informada sabe disso. A bem da verdade, sou filiado ao e militante do PSOL há mais de três anos”. O PSOL não integra a coligação citada na representação.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

As eleições municipais e a “normalização” do golpe

normalidadeDe desatenção também se morre. Nas últimas semanas, lenta e mais ou menos silenciosamente, o golpe patrocinado por Michel Temer e seus aliados começou a ser alimentado por um processo de “normalização” que, aos poucos, foi se alastrando também entre os combatentes do golpismo. Alguém já disse que, muitas vezes, os grandes acontecimentos são silenciosos e sutis. As massivas manifestações de rua para denunciar o governo ilegítimo e espúrio de Temer diminuíram de intensidade nas últimas semanas. Várias razões são apontadas para isso: ninguém aguenta tanta mobilização por tanto tempo, necessidade de uma reavaliação da conjuntura, bombardeio midiático em favor de uma retomada da “normalidade” no país, proximidade das eleições municipais, entre outros.

O fato é que os dias foram se passando e a denúncia do golpe começou a ser sutilmente substituída por propostas de novas eleições, plebiscito e, de maneira cada vez mais visível, pela agenda das eleições municipais deste ano. Aliados até há bem pouco tempo na denúncia do golpe nas ruas, começaram a trocar farpas e ofensas nas redes sociais como se o centro da conjuntura neste momento fosse, por exemplo, a disputa entre o PT e o PSOL nas eleições municipais. Há quem ache que seja mesmo, obviamente. Em páginas nas redes sociais convocando eventos contra o golpe, disputas eleitorais diretamente ligadas ao pleito deste ano começaram a minar a unidade que, até há bem pouco tempo, garantiu mobilizações massivas nas ruas. O culpado, é claro, é sempre o “lado de lá”, acompanhado de acusações de sectarismo, traição, etc.

O fato é que os dias foram se passando e a unidade contra o golpe e em defesa da democracia começou a ser minada por disputas relacionadas às eleições municipais deste ano, entre outras coisas. A dificuldade em perceber que o centro daquilo que está ameaçado é a democracia e um conjunto de direitos conquistados arduamente nos últimos anos ajuda a entender também a relativa facilidade com que o espúrio e ilegítimo governo de Michel Temer foi se instalando. A ausência de direção política sempre cobra o seu preço e a fatura pode ser bem alta. A dificuldade em entender que o centro da conjuntura política hoje não é a disputa envolvendo partidos como PT, PCdoB e PSOL, mas sim a defesa da democracia, de direitos humanos sociais e trabalhistas e de políticas públicas como o Mais Médicos ou o Bolsa Família é o maior indicador de ausência de uma direção política à altura dos problemas e desafios do presente.

Essa ausência é um dos principais trunfos com que Temer conta para dar continuidade ao seu governo espúrio e ilegítimo. Quanto mais as disputas eleitorais municipais dividirem aqueles que estavam juntos na rua contra o golpe, mais ganha a força o processo de “normalidade” que, a cada dia, ganha novos ingredientes. Quanto mais as disputas eleitorais centralizarem o debate e as energias dos envolvidos, mais “normalidade” teremos. É uma falsa normalidade, obviamente. Temos professores sendo afastados e demitidos pela expansão do embuste ideológico fascista chamado “Escola Sem Partido”, um físico argelino naturalizado francês sendo deportado do país por uma acusação de “terrorismo” extremamente frágil e duvidosa, para dizer o mínimo, militantes do MST sendo presos acusados de integrarem uma “organização criminosa”, jornalistas sendo presos e acusados por estarem realizando seu trabalho como aconteceu recentemente com Mateus Chaparini em Porto Alegre. Tudo isso, e muito mais, está acontecendo agora, por todo o país. Não há nenhuma normalidade, portanto, a não ser aquela que o governo espúrio de Temer e seus serviçais midiáticos tentam vender ao país.

O debate central, portanto, não é “a cidade que queremos” ou quem é o portador da novidade para as eleições deste ano, ou quem tem mais condições eleitorais de vencer. O que está em jogo é a democracia, a liberdade, a liberdade de expressão, a distribuição de renda, o combate à desigualdade social, a integração dos povos latino-americanos, as nossas empresas públicas e seu patrimônio, entre outros temas, não menos importantes. A dimensão de tudo isso é suficientemente grande e importante para subordinar disputas eleitorais e rivalidades que se tornam quase irrelevantes diante de tudo o que está em jogo. De desatenção também se morre. A arte da atenção não é simples, de fato. Ela exige práticas e valores que nem sempre encontram a desejável acolhida na política: visão de longo prazo, grandeza, generosidade, espírito de unidade e de agregação.

Muita gente que viveu 64 olha preocupado para o presente, identificando a presença de velhos fantasmas. Esses fantasmas também se alimentam da nossa desatenção que pode se manifestar de muitas maneiras. Uma delas é colocar aquilo que nos separa acima daquilo que nos une. É uma escolha simples que costuma ser feita silenciosamente. O que vamos privilegiar: o que nos separa ou o que nos une? A resposta a esta pergunta dirá o que pensamos sobre a natureza do enrosco em que estamos metidos. A trajetória da Frente Ampla, no Uruguai, já nos deixou alguns ensinamentos sobre isso. Nunca é demais ouvir e “reouvir”…

“Lo que importa es lo que nos une, no lo que nos separa” (Um dos lemas da campanha da Frente Ampla, no Uruguai, em 2009)