Onde estavas naquele 2015?

cada um lembrará  em que lado da rua estava quando o bloco da conflagração passou.

Daqui a algum tempo, a história nos fará essa pergunta e cada um lembrará em que lado da rua estava quando o bloco da conflagração passou.

Renato Dalto

Onde estavas naquele 2015? Daqui a algum tempo a história nos fará essa pergunta, e cada um lembrará em que lado da rua estava quando o bloco da conflagração passou. Recordarei sem dúvida uma tarde, em Pelotas, Stela e eu sentados numa sala e, em nossa frente, mestre Schlee sentenciou: “Hoje essa camiseta da seleção é usada pelos detratores do governo, contra a Dilma e pelo impeachment, a camisa da seleção brasileira com o moralismo mais barato que se pode imaginar. Essa camiseta é o símbolo da corrupção, da miséria, da pobreza e da situação que foi colocado miseravelmente o futebol brasileiro.” Schlee, antes de ser o escritor magistral que é, tinha vencido um concurso, em 1953, para desenhar a camiseta da Seleção brasileira. Ele é o pai da camiseta amarela, a mesma que, em 2015, foi usada pelos que pediram, nas ruas, o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Curiosidade: o homem que mandava na entidade da camiseta amarela estava preso na Suíça por corrupção. Mas em 2015 não se podia falar em coerência.

Havia uma metralhadora verbal, midiática e indignada contra a presidente da República. Ninguém tinha provas de algum crime dela. Enquanto isso o presidente da Câmara dos Deputados tinha uma inexplicável conta milionária na Suíça, mas contra ele eram muito poucas as manifestações de indignação. Porque em 2015, recordaremos, a indignação era seletiva. Havia as falcatruas coniventes e as falcatruas indignantes. As maiores empresas do país haviam comprado fiscais do fisco para se livrarem de multas, mas muitos amigos dos donos dessas empresas iam às ruas protestar contra a corrupção.

2015 um dia será passado. Eu lembrarei de algumas solidões. Numa delas, em frente à estante de livros, à procura de “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich. Precisava rever aquele manifesto do homem indignado e condenado pelo fascismo. Ele falava que havia chegado a era do homem comum, do pensamento fundamentalista alçado ao rés do chão traduzido no preconceito de classe, de raça e de gênero. Falava no homem que não acreditava em si mesmo nem nos que são iguais a ele: como poderia um trabalhador chegar ao poder? Como um homem simples estaria num lugar reservado apenas aos doutores? Reich, que a vida toda havia tentado mostrar a esse homem comum que ele poderia se libertar com as próprias forças, já esmorecia diante de tanta indignidade. Sentenciava a Zé Ninguém que seu futuro seria terrível. E já não se continha, até chegar a uma frase fatídica: tu assassinas tua própria liberdade.

Olhava para o passado em 2015 porque o futuro pertencia à incerteza. Lembrava daqueles tempos do Colégio Julinho e da faculdade, da apaixonada discussão entre duas formas da esquerda chegar ao poder: se pela revolução permanente ou pela política de alianças. E no PT emergente se discutia se seria um partido para atuar junto à sociedade ou um simples disputante de poder com os partidos convencionais. Venceu a segunda alternativa. Lembro então de um colega: nós dois sentados no DCE da PUC, e ele falando quase com indiferença: “Um dia esse burocrata vai acabar com o PT”. Perguntei quem era. E ele falou: “Zé Dirceu”. Em 2015, lembrarei sempre, esta frase soou como profecia enquanto eu buscava o manifesto contra um outro Zé, aquele que traía a si mesmo, que sepultava toda generosidade, que matava num pragmatismo vil todo o sonho de liberdade. Mas as coisas se confundem. Só sei que era Zé. E não me perguntem que Zé é.

Vasculhava outras memórias, para tentar ver em que lugar do mundo, em que época, a esquerda havia conseguido governar sem traumas aliada aos donos do poder econômico. Nunca deu certo. Tentou-se no Brasil, mas infelizmente não foi aqui que se inventou a roda. Mas foi no Brasil que uma certa esquerda acreditou em Papai Noel.

Lembrarei do ódio das moças bem nascidas fazendo selfie nos protestos que começavam no Moinhos de Vento e terminavam no Bonfim, bem longe da periferia, dos pobres e das ruas sem saneamento. Elas tinham revolta e glamour. Tinham um juiz como herói, um partido pra condenar, um boneco de vento e queriam derrubar um governo eleito. Para um lado ou para outro a memória tem suas armadilhas. E dependendo em que lado da calçada a gente andar, ou a escolha com que passeata seguir, pode significar muito. Num de seus livros sobre o regime militar Elio Gaspari registra que no primeiro momento o golpe de 64 teve um apoiador: Ulysses Guimarães. Logo ele que depois viraria o símbolo da luta pela democracia. Mas enfim, se num determinado momento o Doutor Ulysses escolheu o lado torto da história, quem não teria esse direito?

Em 2015 havia também sinais de uma nova Idade Média, onde as pessoas mais teclam do que conversam, onde as superexposições de uma felicidade cosmética tragam a fumaça da felicidade real. Nesse ano de muitos atores, os farsantes também tomam a mesa e anunciam que a democracia faliu, que não são necessários programas sociais, que há o grave alerta da sociedade estar consumindo menos automóveis.

Uma coisa que jamais poderá se dizer é que pouca gente falou em política em 2015. Todos têm opinião, e os indignados voltam a pedir que prendam e arrebentem. O ídolo é um juiz que prende antes de saber, que presume a culpa antes da inocência, que identifica todos os criminosos de um único lado – todo o que tiver a estrela vermelha no peito é mais suspeito que os outros. Lembro que no auge da ditadura falavam num fascínora travestido de policial que era o sinônimo da ordem: o delegado chefe do DOI Codi, Sergio Paranhos Fleury. Tinha gente que enchia o peito para dizer: o Fleury atira antes de perguntar. Alguém deve encher o peito pra dizer o mesmo do juiz que primeiro prende pra depois tentar saber por que prendeu. É bem anterior a isso a música do Nei Lisboa, mas as vezes me pego cantarolando ela: cada povo tem o novo que merece.

Choveu bastante na primavera de 2015. Parece que houve muitos agostos e poucos outubros. Perto dos agouros de agosto um partido fez um programa de TV com uma estética lúgubre, negro por tudo, homens de fatiota preta, taciturnos, dizendo que estavam prontos para salvar o país. Um deles, vice-presidente da República, tinha uma semelhança incrível com o conde Drácula, o vampiro. O país sangrava na crise quando o conde e seus partidários anunciavam a salvação. De preto, como o corvo – o apelido que, nos anos 60, remetia a Carlos Lacerda, o senhor de todos os golpes. O corvo, o vampiro e o PMDB. Alguém um dia fará um filme sobre isso. Não me perguntem de que gênero.

De minha parte, direi que andei por 2015 atrás de alguma esperança. Que pensei até onde a ambição desmedida pode sepultar os sonhos. Pensei muito num Zé, o odioso. E no outro, o ambicioso. O ódio e as consequências de uma ambição cega pelo poder tomavam conta dos dias. Ás vezes o sol aparecia. Choveu muito aqui no sul em 2015. Espero que daqui a algum tempo possa dizer que algo germinou daqui. Ou que a gente aprendeu, ou que sobreviveu. Mas posso dizer que não odiei em 2015. O ódio corrói a imaginação, soterra a esperança, calcina o olhar. Mas lembrarei que muitos Zés andavam por aí. E o futuro temia por eles.

Sobre maweissheimer

Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalho com Comunicação Digital desde 2001, quando foi criada a Agência Carta Maior, durante a primeira edição do Fórum Social Mundial. Atualmente, repórter no site Sul21 e colunista do jornal Extra Classe.
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2 respostas para Onde estavas naquele 2015?

  1. Neltair disse:

    Muito bommmmmmmmm!!!

  2. Jesus Giovanil Vidal disse:

    Caramba, Angelina! Caramba Fifa! Um texto assim, minha amiga, mesmo lido em 2016 é algo que vou lembrar quando falarem naquele 2015!

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