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Para entender a lógica e o timing da Lava Jato

O destino do país e da Presidência da República depende fundamentalmente do povo nas ruas. (Foto: Catiana de Medeiros/MST)

Antonio Lassance (*)

Os destinos do país em 2018

Primeiramente, a crise está de volta às ruas. “Fora, Temer!” e “eleições diretas, já!” são as palavras de ordem.

Para aprovar as diretas, é preciso uma Proposta de Emenda à Constituição. Uma PEC, mesmo que aprovada a jato, cumprindo rigorosamente a Constituição e o regimento das duas casas do Congresso, demandaria de 4 a 6 meses. A PEC do teto de gastos (PEC 55/2016), aprovada a toque de caixa e com forte pressão do governo Temer, então com amplo respaldo congressual, foi votada em 6 meses.

A organização das eleições pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode ser feita em 70 dias. Esse foi o prazo informado pelo TSE, em 2013, quando se cogitou fazer, às pressas, um plebiscito da reforma política. Mas se essa organização, preventivamente, for feita de forma concomitante à tramitação da PEC das diretas, as eleições poderiam ser realizadas quase imediatamente após a promulgação da emenda. Com sorte e, principalmente, muita pressão popular, teríamos um novo presidente em dezembro de 2017. O eleito governaria por cerca de um ano.

Enquanto isso, o país seria governado por um presidente interino, por 30 dias, e, em seguida, por um presidente com mandato tampão, até dezembro de 2018 ou até que um novo presidente seja eleito, se houver emenda das diretas aprovada. Na prática, a emenda das diretas reduziria o mandato desse presidente tampão. Ele saberia que não tem legitimidade nem tempo para promover grandes reformas, principalmente, sendo escolhido pelos deputados e senadores que passarão para a história por terem elegido Cunha, derrubado Dilma, empossado Temer e sido denunciados na Lava Jato.

Como se sabe, o presidente interino, que governaria por trinta dias, pode ser, conforme a linha de sucessão, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e se esse não vier a assumir, o presidente do Senado, Eunício Oliveira. Maia e Eunício estão totalmente metidos em denúncias. Se um dos dois resolver pagar a aposta e assumir, pode ser rapidamente impedido, caso vire réu no Supremo. Para isso acontecer, basta o Procurador-Geral pedir e o ministro Fachin aceitar, ou levar a decisão ao pleno do STF. Fachin tem mostrado que age muito facilmente sob a pressão das ruas e da imprensa – o que for mais forte.

Caso nem Maia nem Eunício assumam, a Presidência da República seria ocupada pela atual presidenta do Supremo, Carmem Lúcia. Quem passaria a comandar o Supremo seria seu vice, Ministro Dias Toffoli, até o retorno de Carmem após a eleição indireta de um novo presidente.

Duas coalizões se digladiam pelo poder. Nenhuma delas é popular

O destino do país e da Presidência da República depende fundamentalmente do povo nas ruas, mas, neste momento, há duas coalizões principais que se digladiam na disputa pelo poder. Nenhuma delas é popular. Nenhuma cogita eleições diretas já.

Uma coalizão é a do grande acordo nacional. Essa é a coalizão comandada por Temer, que assumiu o comando do país com o afastamento de Dilma e que tem como base política o PMDB, o PSDB e o DEM, e como base jurídica o grupo do Supremo conformado por Gilmar e Alexandre de Moraes. Essa coalizão tinha como programa “estancar a sangria” dos políticos e do mercado. Estancar a sangria política seria encerrar a Lava Jato, controlar o Supremo, o Ministério Público e a Polícia Federal. Estancar a sangria econômica seria estabilizar a economia do País e aplicar um programa de reformas que transfira renda dos trabalhadores para as empresas, por meio de duras reformas.

O sonho dessa coalizão seria implantar o parlamentarismo no país. Desmoralizada perante a opinião pública, sobretudo pela presidência de Cunha e Renan, pelas reformas da Previdência e Trabalhista e pelas sucessivas denúncias de corrupção, essa coalizão esperava no mínimo preparar o terreno para a eleição de um candidato em 2018 que continuasse esse programa impopular – Alckmin ou Doria.

A outra coalizão é a da Lava Jato, que tem como agenda principal fortalecer o poder do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário sobre os destinos do País. O que quer essa coalizão? O mesmo que os políticos, guardadas as devidas proporções: poder, prestígio e dinheiro. O mote principal desse projeto é o combate à corrupção, mas o interesse fundamental desses grupos é garantir o controle sobre decisões essenciais ao país e a remuneração de suas corporações em níveis que, internacionalmente, não têm paralelo.

Ambas as coisas estão interligadas. Quanto mais poderosas essas corporações se tornam, impulsionadas pela agenda do combate à corrupção, maior a justificativa para que elas sejam muito bem remuneradas e blindadas inclusive quanto a relações promíscuas que estabelecem com o setor privado.

O caso de juízes que vendem sentenças; a prisão de um dos procuradores, descoberto por vender segredos da Lava Jato para a JBS; dos procuradores cujos parentes têm escritórios cuidando de investigados e a situação, quase inimaginável, de procuradores licenciados para advogarem para empresas denunciadas por eles mesmos demonstra o quanto o poder absoluto que o Ministério Público ambiciona abre espaço para práticas espúrias, tão corruptas quanto as que denuncia.

O mercado, comandado pelos bancos e outras grandes corporações, é sócio da maioria dos políticos. Financia suas campanhas e compra suas decisões a peso de ouro. Se alinha facilmente a qualquer grupo no poder que queira fazer política como negócio. O mercado esteve com Temer até que ele começou a falhar em entregar as reformas.

A velha mídia, cuja força hegemônica é das organizações Globo, segue a lógica do mercado, de quem faz parte. A velha mídia é composta por grandes empresas, não tão grandes quanto as que lhe financiam, e vende seus produtos (notícia e entretenimento) com base em sua audiência e na aderência à defesa dos interesses do mercado.

Para entender a lógica e o timing das revelações sobre Temer e Aécio

As revelações contra Temer e Aécio têm como propósito principal fortalecer a posição do Ministério Público e a manutenção de seu Procurador-Geral, Rodrigo Janot, no momento em que era ameaçado nas três frentes – Executivo, Legislativo e Judiciário.

Janot tem até o final deste mês para decidir se concorre ou não a um novo mandato. A votação dos procuradores deve ocorrer ao final de junho. Só faz sentido para Janot entrar na lista se for para ganhar. Para isso, precisa se manter em evidência entre os procuradores e ter força suficiente para intimidar o Congresso e o presidente da República a aceitá-lo goela abaixo.

A fratura exposta de Temer e Aécio veio, coincidentemente – se é que alguém ainda acredita em coincidências -, no dia seguinte em que o presidente revelou que não estava disposto e comprometido a indicar o primeiro da lista de procuradores para ser o chefe do Ministério Público. Ou seja, Temer insinuou que iria rifar Rodrigo Janot.

Também por coincidência, a revelação contra Aécio veio uma semana depois de Janot ter trocado farpas com o ministro Gilmar Mendes. Gilmar é quem manda hoje no Supremo, e não Carmem Lúcia, que se tornou mera figura decorativa e cujo principal papel é produzir gafes e jantares.

Mais do que isso, é público e notório, e é assim entendido no Ministério Público, que Gilmar é quem dá a linha no PSDB sobre como tourear procuradores e as demais instâncias do Judiciário. Se, como dizia Jucá, Temer é Cunha; Gilmar é Aécio. Gilmar é, no STF, a figura central do “grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”, e costurava a estratégia de recolocar o MP sob controle, como nos velhos tempos de Geraldo Brindeiro – conhecido como o engavetador-geral da República.

O PSDB, sócio principal do governo Temer e com um presidente de partido que, por baixo dos panos, costurava ativamente contra o Ministério Público, confiava em Gilmar para servir de anteparo. Esqueceram apenas de combinar o jogo com os russos, no caso, Fachin, que se indispôs com Gilmar e foi criticado por ser um juiz pouco interessado na lei e na Constituição e mais em obedecer ao MP. Fachin acabou de provar que é isso mesmo. Está lá à disposição para cumprir esse papel.

Para entender a Globo

A Globo, como ela própria confessou em editorial, era entusiasta do governo Temer por sua agenda de reformas e também, isso inconfessado, pelas generosas verbas de publicidade que Temer liberou para as mídias decadentes e que tanto precisavam de dinheiro nesse momento de crise.

A reviravolta das revelações contra Temer e a opção editorial da Globo pela renúncia ou impeachment se dá por duas razões claras. Em primeiro lugar, a Lava Jato é hoje a principal notícia do país. A Globo, desde o início, é o veículo preferencial dos vazamentos. Essas notícias rendem grande audiência e verbas que ampliam sua publicidade.

Recusar os vazamentos levaria a Globo a perder sua preciosa fonte. A entrega das informações do MP ao jornal O Globo e à emissora de tevê foi feita na ofensiva de Janot contra Temer e Aécio para derrotar esses dois adversários. Os vazamentos são inseparáveis da estratégia do Procurador-Geral, pois são por ele controlados. Para a Globo, era pegar ou largar. Ela precisava dar sustentação a Janot em sua briga ou perderia a primazia nos vazamentos.

Outro fator essencial é dado pelo mercado financeiro. A situação de Temer frustrou qualquer expectativa de que o governo consiga levar as reformas adiante. Ao contrário, já se considerava que Temer estava enfraquecido no Congresso e demonstrando grandes dificuldades na tramitação da reforma Previdenciária e mesmo em aprovar a reforma trabalhista no Senado.

Temer não interessa mais à Globo porque, no mercado, é considerado incapaz de entregar o que prometeu.

O “gran finale”: condenar Lula

Outro propósito essencial das revelações é o de fazer crer que a Lava Jato é baseada em provas, e não em convicções, e que seria isenta e apartidária, atingindo a todos indiscriminadamente, sejam eles o presidente da República ou até mesmo o senador tucano queridinho de delegados da operação – aqueles que lhes fizeram declarações de amor no Facebook – e com quem Moro trocou conversas ao pé do ouvido. Esse propósito é fundamental para o passo seguinte e mais importante da Lava Jato: condenar Lula.

A convivência pacífica costurada por Lula com o mercado, em seus dois mandatos, acabou rompida no governo Dilma, quando Unibanco, Santander, Fiesp, montadoras de automóveis, os conglomerados de comunicação e tantas outras grandes corporações passaram abertamente a atacar o PT, a financiar Cunha e a conspirar pelo impeachment.

A condenação de Lula é líquida e certa desde quando o inquérito foi remetido a Moro. Estamos há um mês para o dia D da Lava Jato, quando ocorrerá a condenação de Lula pela suposta propriedade de um triplex, apenas com base em delações.

Em seguida, o processo seguirá para a segunda instância, dessa vez colegiada, e que selará a pá de cal sobre a candidatura Lula em 2018, tirando do páreo quem é, disparado, o candidato mais popular em todas pesquisas.

A coalizão da Lava Jato já decidiu: Lula precisa ser condenado, e o será. É uma questão de honra e de autoafirmação. A única dúvida é se ele será conduzido a um presídio ou se será determinada a prisão domiciliar e a aplicação de uma tornozeleira eletrônica. Essa segunda opção proporcionaria um ar de ponderação e isenção à Lava Jato, em vista da idade de Lula e de sua condição de ex-presidente.

O relevante para a coalilzão da Lava Jato é desmoralizá-lo e mitigar o risco de transformá-lo em vítima pelo encarceramento, cumprindo o essencial: evitar que ele dispute 2018.

Pós-Lula

Não há hoje uma coalizão democrática e popular devidamente articulada, com lideranças com suficiente protagonismo para conduzir uma solução capaz de ser institucionalizada e tornar o país mais democrático, mais justo e menos corrupto. A Lava Jato também demonstrou que não tem projeto de país e sequer é capaz de combater efetivamente as práticas corruptivas. Mesmo Cunha, preso, conforme reconhecem os procuradores, continuava atuando.

As mobilizações de rua e a articulação de movimentos populares são a única possibilidade de surgir um fermento social capaz de implodir a lógica do atual sistema político, provocar mudanças e romper com os riscos de um país tutelado por uma burocracia judicial que, se não for controlada, pode se tornar um poder autoritário e corrupto que não deixa nada a dever aos atuais partidos dominantes.

Mas as forças populares estão fracas e dispersas. Apesar do retorno das mobilizações e da unificação das lutas em torno das bandeiras do “Fora, Temer!” e “Diretas, Já!”, o fato é que não há nem coalizão popular, nem comando e nem projeto devidamente coerente, consistente e articulado.

O país precisaria não só barrar a reforma da Previdência, reverter a reforma trabalhista e a PEC dos gastos. Para rivalizar com a coalizão do “grande acordo nacional”, seria preciso um projeto capaz de reformar o atual sistema partidário e eleitoral e reconstruí-lo em novas bases, mais democráticas, mais participativas, de maior controle sobre os eleitos e renovação de seus quadros.

Boa parte das lideranças sociais que despontaram na crise deveria formar uma nova geração de políticos intimamente conectados às suas bases, superando o descolamento atual que se vê nos partidos, e com uma agenda de reformas de controle social sobre a política.

Para rivalizar com a coalizão da Lava Jato, seria importante um programa para fortalecer o Estado, “desmamar” as corporações de seus privilégios e criar instrumentos para blindar o Estado rigorosamente da promiscuidade com o setor privado. Para tanto, é preciso que surja uma maior coordenação com juízes, procuradores e policiais federais que fortaleça, sem mordaça, o propósito democrático e republicano dessas corporações.

Do contrário, o país continuará à mercê de seus predadores, sejam eles políticos, empresários, burocratas ou mídia. Como se vê, o Brasil tem sido vítima da ação perversa desses quatro cavaleiros do apocalipse. Enquanto isso persistir, o poço continuará sem fim.

(*) Antonio Lassance é cientista político. Artigo publicado originalmente na Carta Maior.

‘O Judiciário vai pagar muito caro por esse momento de atração pelos holofotes da mídia’

Rogério Favreto: “Há uma quebra desses preceitos que está nos levando para um caminho muito perigoso”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

No dia 22 de setembro de 2016, a Corte Especial do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) manteve, por 13 votos a um, o arquivamento de uma representação contra o juiz federal Sérgio Moro encaminhada por um grupo de advogados contra o magistrado que conduz os processos da Operação Lava Jato. Na avaliação desses advogados, Moro teria cometido ilegalidades ao violar o sigilo de gravações de conversas telefônicas envolvendo a então presidenta Dilma Rousseff e vazar essas conversas para meios de comunicação. Além disso, questionaram a realização de interceptações telefônicas sem autorização judicial. Na ocasião, o relator do processo, desembargador Rômulo Pizzolatti, rejeitou o pedido alegando que a Lava Jato constituía “um caso inédito no Direito brasileiro, com situações que escapam ao regramento genérico destinado aos casos comuns”.

O voto isolado contra esse entendimento majoritário partiu do desembargador Rogério Favreto que criticou a invocação da teoria do estado de exceção para defender a conduta de Moro. “O Poder Judiciário deve deferência aos dispositivos legais e constitucionais, sobretudo naquilo em que consagram direitos e garantias fundamentais. Sua não observância em domínio tão delicado como o Direito Penal, evocando a teoria do estado de exceção, pode ser temerária se feita por magistrado sem os mesmos compromissos democráticos do eminente relator”, assinalou Favreto em seu voto. Mais de oito meses depois, o debate levantado pela decisão do TRF da 4a. Região prossegue atual, com o avanço do argumento do estado de exceção, em especial no crescente processo de retirada de direitos e de criminalização de movimentos sociais.

Em entrevista ao Sul21, o desembargador Rogério Favreto fala sobre o voto que em novembro de 2016 e o contextualiza no presente que ele qualifica como muito perigoso para o futuro da Democracia e do Estado Democrático de Direito no país. Além disso, critica o protagonismo exacerbado que o Judiciário teria assumido, invadindo atribuições de outros poderes e contribuindo para desestabilizar o sistema político do país. Favreto também critica a transformação de magistrados em super heróis ou salvadores da pátria, mantendo uma relação íntima com a mídia e com outras instancias do sistema de Justiça que não possuem as mesmas atribuições, como o Ministério Público e a Polícia Federal. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Frente de Juristas defende direito de defesa de Lula gravar depoimento a Moro

Registro da audiência ao vivo é garantia para ampla defesa e contraditório, diz nota de juristas. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A Frente Brasil de Juristas pela Democracia divulgou nota oficial, segunda-feira (8), defendendo o direito da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de gravar o depoimento que o mesmo concederá na Justiça Federal de Curitiba nesta quarta-feira (10). O juiz Sérgio Moro proibiu que os advogados de Lula gravem o depoimento. Na nota, os juízes afirmam que “o registro audiovisual dos atos processuais de forma ampla, irrestrita, capaz de transmitir o momento da audiência na sua totalidade, é garantia para ampla defesa e contraditório”.  Veja abaixo a íntegra da nota:

Registro das audiências como garantia dos justo processo

A Frente Brasil de Juristas pela Democracia – FBJD – intransigente na defesa do Estado Democrático de Direito e reiterando preocupação com o resguardo do “justo processo” para todos e, em especial, para o ex-Presidente Lula no âmbito da Operação Lava Jato, vem a público ALERTAR sobre a necessidade de que a gravação do depoimento remarcado para o dia 10/05 seja ampla de modo a proteger a defesa e não frustrar o propósito legal de dar a conhecer a totalidade da dinâmica da audiência, formada por acusação, defesa e juízo. 

A forma pela qual as gravações têm sido feitas, centrando o registro apenas na imagem fixa e nas respostas do depoente, somando-se aos vazamentos seletivos, fere o sentido da prerrogativa legal do registro fidedigno e pode dar azo a alegações de cerceamento de defesa.

O registro audiovisual dos atos processuais de forma ampla, irrestrita, capaz de transmitir o momento da audiência na sua totalidade, é garantia para ampla defesa e contraditório, com o fim de evitar que as audiências sejam instrumento de abuso contra o próprio acusado em posição vulnerável, maculando o rito processual e o sentido de justiça.

Brasil, 8 de maio de 2017.

FRENTE BRASIL DE JURISTAS PELA DEMOCRACIA

‘A Constituição é um remédio contra maiorias. Moro extrapolou seu poder de juiz’

Lenio Streck: “O Direito é que deve filtrar os juízos morais e não o contrário”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A atuação do juiz Sérgio Moro, na condução dos processos relacionados à Operação Lava Jato, vem sendo alvo de muitos questionamentos no meio jurídico pela adoção de “medidas excepcionais” que, na avaliação da maioria do Tribunal de Justiça Federal da Quarta Região, estariam justificadas por lidarem com uma “situação excepcional”. Até que ponto essa suposta excepcionalidade justifica “deixar de lado” a Constituição? E quem decide o que seria “excepcional”?

Membro catedrático da Academia Brasileira de Direito Constitucional, professor titular da Unisinos e Unesa, o advogado Lenio Luiz Streck é um dos principais críticos da postura de Sérgio Moro e dos argumentos que justificam a infração de leis e dispositivos do Código de Processo Penal. A divulgação pela mídia de conversas telefônicas obtidas ilicitamente, conduções coercitivas ilegais, a extrapolação do prazo de prisões preventivas e a condução autoritárias de audiências são algumas das infrações apontadas por ele. Em entrevista concedida por e-mail ao Sul21, Lenio Streck fala sobre a condução da Lava Jato por Sérgio Moro e defende o respeito à lei e à Constituição contra a vontade de maiorias eventuais que se formam na sociedade.

“Mesmo que a maioria queira esfolar alguém, se a Constituição protege essa pessoa, deve-se conceder o direito. Vou me permitir um chiste: Entre o Merval Pereira e a Constituição, prefiro ficar com a Constituição. O direito é que deve filtrar os juízos morais e não o contrário. Por isso é importante que a Suprema Corte brasileira seja o guardião das garantias e mostre que a Constituição é um remédio contra maiorias”. (Clique aqui para ler a íntegra da entrevista)

O sacramento da confissão hoje em dia

“A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame se sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior”.

Flavio Aguiar

Quando eu estudava no Colégio Anchieta de Porto Alegre, escola jesuíta de calado profundo (e naquele tempo os jesuítas gaúchos eram profundamente reacionários, na maioria), eu era católico ferrenho, ainda que não carola. Praticava religiosamente os sacramentos cabíveis. As exceções eram o batismo, só de entrada neste vale de lágrimas, a extrema-unção – vôte cobra tutufum treis veiz – o casamento – tutufum seis veiz – a crisma, que a gente faz uma vez só também – e a ordenação sacerdotal, com aqueles votos de caridade, obediência (argh!) e castidade (AAARRGH!). Ou seja, eu praticava a confissão e a posterior comunhão.

A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame de sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior. De manhã, tomar só água, pra evitar desmaios vergonhosos, no nosso caso de machinhos que consideravam essas coisas dignas de mulher, apenas. Nem pasta de dente a gente podia engolir: vai que o hálito perfumado, que só Colgate ou Kolynos lhe davam, espantasse o Senhor! Depois, lá na missa, ajoelhados na frente do altar, o sacerdote, com o coroinha colocando uma bandeja no nosso queixo (vá que a gente babasse o Senhor!), o padre colocava a hóstia – um pãozinho branquela e ázimo, sem fermento, o Senhor não podia inchar nem no forno,  e sem gosto – na boca, e a gente não podia tocar Aquilo com os dentes. O diabo é que às vezes o raio da hóstia grudava no céu da boca e dava uma coceira danada, mas a gente não podia nem sonhar em tirá-la com a unha, ai deus e o diabo não na terra do sol, mas na tua boca! Tinha que fazer contorcionismo de circo, digno de dança do ventre, com a língua mesmo, até que Aquilo descolasse e seguisse o rumo natural das entranhas agora abençoadas.

Fui algumas vezes tomado por dúvidas teológicas cruciais. Por exemplo, a gente expeliria os restos da hóstia junto com as outras coisas que a gente engole, pelas vias naturais? Oh, dúvida cruel! Só me acalmei ao considerar que o espírito que estava dentro da hóstia se transmitia para outras partes de nosso corpo, como o pulmão e o coração, ou o cérebro, e o que ia para o intestino era apenas o resto mortal e ázimo da hóstia. Embora não houvesse nela, o fermento se fazia presente em fomentar dentro de nós a presença da fé. Ai caramba, quantas noites tais questões me atormentaram!

Antes, havia a confissão. A gente se achegava ao confessionário, se ajoelhava, com a treliça de madeirinha escondendo nosso rostos (o meu e o do confessor) e dizia:

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.
– Deus te abençoe, meu filho, que buscas o perdão de teus pecados.

Daí a gente enfileirava os pecados. Fiz isto, fiz aquilo, deixei de fazer aqulioutro, etc. Momento mais complicado era sempre o dos pecados contra a castidade. Vinham as perguntas:

– Meu filho, foi em obra ou pensamento?

Ambas as respostas eram bronca. Mas o mais difícil era quando a gente respondia “obra”.

– Foi sozinho ou com alguém mais?

Barbaridade, aí doía. O “sozinho” era chato, mas revelava apenas o que hoje chamo de seguidor de Onan, este seguidor apequenado de Ouranos, o deus grego que fecundava Gaia sem parar, e que jaz em todos nós. Agora, o “alguém mais” implicava a confissão da natureza do ato. E era inevitável que a gente, além de falar das vergonhosas vergonhas, fosse pela frente, por trás ou por todos os lados, se sentisse uma espécie de dedo-duro perante Deus, pois mesmo que nomes não fossem pronunciados, Ele, como está em toda a parte, adivinharia de quem se tratava. Só me acalmei diante desta excruciante questão quando considerei, Supra Sumo Teológico, que, se Deus estava em toda parte, Ele tinha visto o próprio pecado no ato, e assim já sabia do que e de quem se tratava.

Depois da completar a lista de pecados, vinham os conselhos do confessor, a promessa (que ambos sabíamos ser mentirosa, mais um pecado para a próxima confissão) de que nos esforçaríamos para não fazer mais aquilo, nem aquiloutro, nem aquiloloutro, etc. E a confissão terminava com a penitência – xis ave-marias, ipsilones padres-nossos, pois naquele tempo não havia o pós-moderno pai-nosso, e zês salve-rainhas).

– Ego te absolvo in nomine Domini. (Ou algo assim, meu latim nunca foi muito bom). Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado!

E a gente saía com a alma mais alva e zerada que lençol lavado com Rinso e pronta para acolher mais pecados.

Fico pensando na confissão hoje em dia, tão avacalhada! o confessor e o pecador se assentam frente a frente, olho no olho, como se fosse consultório de psicanalista laico. Mas e se a gente pegasse algum daqueles padres reacionários como os de então?

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.

– Confessa, meu filho, e pede perdão pelos teus pecados.

– Aí a gente desfilaria os pecados.

– Depois viria a pergunta.

– Meu filho, foi sozinho ou com o Lula?

– Sozinho. Ou com outras pessoas.

– Então, seu pecador miserável, tua confissão não vale nada, vais arder pela eternidade nas profundas de Curitiba!

– Não, não, padre, perdoai-me, foi com o Lula. E no triplex dele no Guarujá. Ou no sítio em Atibaia.

– Ah bom. Então reza aí meia Ave-Maria, assina o Globo, assiste o Jornal Nacional, e fim de papo. Estás perdoado.

– Obrigado, padre.

– Ah sim, e assina o manifesto em favor da Lava Jato e da Opus Dei.

– Mas padre, aquele procurador famoso, o do power-point, ele não é da Opus Dei. Ele é evangélico.

– Meu filho, o condomínio do Senhor tem várias filiais, como uma franchise, entendeu? Louvado seja o Nosso Sacrossanto Juiz, que há de julgar os mortos e o Lula, porque os vivos e os vivarachos serão perdoados.

– Para sempre seja louvado!

E a gente sai com a alma pronta. Para o quê? Bom, isto é outro assunto.

Mas felizmente agora está aí o Papa Francisco I para assegurar que isto não passa de ficção científica. Pelo menos em relação à Igreja Católica.

Não há democracia que sobreviva à tirania do Judiciário

O juiz federal Sérgio Moro e o apresentador Luciano Huck em cerimônia comemorativa ao Dia do Exército, no Quartel-General do Exército. (Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)

Paulo Pimenta (*)

O Brasil hoje gira em torno das chamadas “delações premiadas” deflagradas no âmbito da operação Lava Jato. Especialmente o depoimento de Marcelo Odebrecht chocou o país por mostrar a articulação de décadas entre empresas e políticos que agiram de forma criminosa e se beneficiaram mutuamente de recursos públicos para formar fortunas, muitas delas depositadas em contas no exterior.

Porém, o que mais chocou nesse depoimento não foi exatamente o fato de se descobrir que há corrupção, e sim a forma descarada, debochada, acobertada com que o diretor de uma das maiores empresas do país revelou em rede nacional que a construtora criou um departamento de propina e institucionalizou um esquema de compra de pareceres com uma espécie de “advocacy” que mais que defender seus interesses patrocinava vantagens e se aproximava de pessoas a fim de obter benefícios.

Pelo que tudo indica desvelou-se uma história de golpes bilionários que teve como escudo o financiamento privado de campanhas eleitorais, desvirtuado para servir aos interesses de indivíduos e grupos poderosos. É evidente a relação enraizada entre a construtora e os políticos do PMDB e do PSDB, que a mídia se esforça para acobertar, e a amplitude desse esquema, o qual parece impossível de se realizar sem a omissão deliberada, também, de setores do judiciário.

Os depoimentos poderiam ser vistos como positivos se a operação comandada pelo juiz Sérgio Moro confirmasse a intencionalidade de combater a corrupção e fizesse essa investigação de forma séria, isenta e guiada por objetivos públicos, não partidários. A farsa da Lava a Jato é tamanha que, enquanto as investigações estão em curso, as dependências da Polícia Federal, seus agentes e equipamentos são colocados à disposição de um filme que tem por finalidade promover a operação e cujos financiadores são mantidos em sigilo.

É nítida a ausência de compromisso com os fundamentos republicanos e democráticos, como a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político em todo esse processo. O que tem caracterizado a “Lava a Jato” é o populismo e o comportamento autoritário do juiz Sérgio Moro que desrespeita os direitos e faz a incitação ao ódio.

Isso se observou na condução coercitiva do ex-presidente Lula, no vazamento seletivo e ilegal de depoimentos e também na manipulação de delatores com vistas a proteger o presidente ilegítimo Michel Temer e outras figuras, especialmente do PSDB, ou forjar provas contra o PT a qualquer custo.

Todos sabem que os depoimentos de delatores exigem cautela e que a legislação requer a confirmação com provas, no entanto, a imprensa tradicional, principalmente a Rede Globo, tratou corruptores como heróis e tornou as peças da investigação um show midiático. A fórmula encontrada para maquiar as informações foi ungir a fala dos chefes da construtora com o dom da verdade e criar generalizações sobre tudo que disseram.

A Globo cria o estereótipo de que todos os políticos são iguais, oculta quem de fato beneficia e é beneficiado por essas e outras empresas. Ao mesmo tempo, esse noticiário perversos mantém ileso o governo ilegítimo que está atolado em corrupção, incluindo o próprio Michel Temer, que acelera a votação de medidas que liberam as terceirizações e retiram os direitos previdenciários e trabalhistas.

A falsidade da notícia é algo gravíssimo. Um crime contra a democracia. A Rede Globo é parte desse golpe e sua estratégia de tratar como iguais a quem recebeu doações legais de campanha, quem recebeu recursos de caixa dois e quem recebeu propina e se favoreceu de fraudes serve apenas para enfraquecer a política e minar a possibilidade do país reestabelecer a democracia. Da mesma forma, as práticas de setores do Ministério Público e da Polícia Federal são não apenas controversas, mas absolutamente comprometedoras.

Não há democracia que sobreviva à tirania de um judiciário que se empenha em arrancar delações contra um líder político como Lula pelo fato dele representar um projeto de esquerda no país, para tentar calar a sua voz e impedir que seja eleito, uma vez que detém 45% das intenções de voto, segundo as últimas pesquisas.

O teor do comando da “Lava a Jato” se revelou fascista e mostrou que não busca punir quem fraudou contratos públicos, exigir a devolução integral dos recursos ilegais ou fechar empresas que formam quadrilha para operar a corrupção. Estão mais interessados em “caçar as bruxas”, e com apoio da mídia, a irao repor o selo da honestidade em empresários corruptos,  que serão “presos” em suas mansões e depois vão trocar a fachada de suas construtoras para seguir operando.

Na lógica em que se desenrola do golpe no país, contando com a conivência de grandes empresas, da imprensa tradicional e do judiciário, os partidos de direita cujos velhos líderes foram pegos em corrupção comprovada vão se reinventar com outros nomes tidos como “não políticos” para atender aos interesses do capital que precisa deles e exige que façam a chamada “modernização”. Enquanto isso os partidos de esquerda terão que lutar para não terminar criminalizados pelo abuso de poder que se instaurou e que ganha espaço quando se consegue intimidar os investigados, torturar e destruir suas trajetórias.

Eugenio Aragão, ex-ministro da Justiça, sintetiza esse mal quando diz que “o mal da tortura é que não oferece provas sólidas da verdade, mas apenas provas sólidas da (in)capacidade de resistência do torturado”, lembrando  que a tortura que não é apenas física, do pau de arara, do choque elétrico, mas também é psicológica.

Tem ficado evidente que esses depoimentos passam por uma combinação prévia sobre o que  interessa ser dito na deleção e para estabelecer a garantia de medidas especiais de proteção aos delatores, assegurando-lhes uma “nova vida”, sem máculas, em algum paraíso, de preferência um paraíso fiscal.

É preciso estar atento, o golpe não chegou com militares dando tiros dentro de um tanque de guerra. As estratégias do golpe iniciado em 2016 no Brasil são mais subjetivas e de difícil percepção.

Contudo alguns líderes de esquerda estão presos, alguns serão injustamente punidos, a ameaça de jorrar sangue é iminente sempre que a população se organiza e usa o direito legítimo de se manifestar. A derrubada da Presidenta Dilma era apenas o início do golpe, e não seu fim, que, entre outros, prossegue com a retirada de direitos e o uso político do sistema de justiça. Mas, não podemos calar e submetermo-nos ao regime de força que vem se desenhando, o golpe ainda está em curso no Brasil e nós precisamos detê-lo.

(*) Paulo Pimenta é jornalista e deputado federal pelo PT-RS.

A estranha pedagogia da Lava-Jato, e o futuro por armar

“Passa da hora, portanto, a formação de uma grande Mesa de Diálogo Nacional pela Democracia, que ofereça uma alternativa contra-hegemônica ao país.” (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marcelo Danéris

Em tempos de raciocínios binários e julgamentos sumários, o país, em estado de transe coletivo, procura entender o que ocorre nas entranhas da política nacional. O filtro do “Grande Irmão”, no entanto, turva a vista. A criminalização indistinta do mundo da política e o maniqueísmo simplista que orienta as condenações instantâneas, a partir das listas Janot-Fachin e de vídeos de delações cuidadosamente selecionados por empresas de comunicação em nada desinteressadas, encobre ambições políticas e econômicas, e procura direcionar a indignação popular.

Veja um exemplo, entre tantos. Em recente editorial o jornal O Globo procurou tratar o tema com pretensa profundidade, “Uma ideologia a serviço da corrupção”, anunciava o título. Deduziria um incauto tratar-se do capitalismo, ao lembrar que um dos seus grandes representantes nacionais, Emílio Odebrecht, afirmou nas delações que o pagamento de propinas é prática usual no país há mais de trinta anos.

Mas para surpresa geral, a ideologia em questão era o “lulopetismo” (?), seja lá o que isso signifique no arcabouço das ideologias correntes. Dizia o editorial: “a proliferação de empresas estatais e a ideologia lulopetista estão na base do maior assalto já praticado aos cofres públicos”. Um exercício extraordinário de seletividade jornalística e dissimulação política. O periódico sublimou solene, e propositalmente, tanto o dito pelo patriarca Odebrecht, quanto as inúmeras delações que remontam a Era FHC, passando por Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, Paulo Skaf e Michel Temer, apenas para citar alguns dos próceres de patos e paneleiros.

Com suposta isenção, sentenciou: “o conteúdo da videoteca da Odebrecht aponta para a conclusão de que a ideologia foi usada para a rapinagem de dinheiro do Tesouro”. O uso cínico dos fatos no texto tropeçou na matemática e se equivocou na história. Nos mais de 30 anos de relações promíscuas entre Estado e capital, pelo menos da parte delatada pela Odebrecht, o tal “lulopetismo” foi responsável por um terço deste tempo. O mesmo ocorrendo com as estatais, que conforme o próprio jornal, apoiado em estudo do Instituto tucano, Teotônio Villela, desde o início do governo Lula foram criadas 41 estatais, diga-se, das mais de 150 existentes, sendo que destas, 34 foram de responsabilidade do então príncipe das privatizações, Fernando Henrique Cardoso.

Se é verdade que o PT não detinha o monopólio da ética – uma dolorosa realidade para seus militantes –, para infelicidade do reacionarismo, também não detinha o monopólio da corrupção – histórica, endêmica, e ao que tudo indica, sistêmica. Inerente ao capitalismo sem risco afiançado pelo Estado, um produto tipicamente nacional, tristemente mantido nos governos Lula e Dilma.

De todo modo, a cobertura e a análise tendenciosas não são privilégios de um jornal, mas uma tácita orientação política da aliança conservadora replicada na grande mídia. Interessa, então, reconhecer as intenções inconfessas dos que roteirizam a narrativa pública e detém o monopólio das versões publicáveis. Reconhecer a escalada da crise que justifica a excepcionalidade política e naturaliza processos judiciais de exceção, prenunciando perigosas soluções antidemocráticas futuras. Como largamente testemunhado pela história, a política, na sua pior acepção, sobrevive sem democracia, sem partidos, sem liberdades.

Interessa, ainda, identificar a subordinação do Estado aos interesses do capital, seja pelas formas lícitas – privatizações, entrega de ativos, renúncias fiscais; seja pela sujeição aos organismos financeiros internacionais, que determinam políticas macroeconômicas a favor do rentismo, por cima dos estados nacionais e por fora da democracia; seja pelos canais criminosos da corrupção. Em todos os casos o capital acumula contra Estado e sociedade.

A cada novo capítulo do thriller político da crise brasileira as alternativas da cruzada conservadora oscilam entre o elitismo reacionário e midiático do prefeito João Dória, embalado por tucanos, e a violência protofascista do deputado Jair Bolsonaro, escudado pelo MBL. O neoliberalismo ilustrado com verniz modernizador, antes representado por Fernando Henrique Cardoso, não está atualmente na estante de opções da direita brasileira.

Enganam-se, assim, os que imaginam que o corpo agonizante exposto à execração pública seja o da política, lato sensu, esta sobrevive sob outra forma, em endereços nobres distantes do teatro de operações. A política como dimensão da manifestação humana, como serão tantas outras, reflete a medida das forças dos interesses conflitantes de diferentes comunidades e suas visões de mundo, sejam esses interesses lícitos ou não. A política é ideológica e economicamente motivada, em permanente tensão entre grupos, entre as partes da sociedade partida. A democracia é seu epifenômeno, não sua essência, muito menos condição para sua realização. Como tal, as condições para a qualificação e eficiência da democracia são determinadas pela política, não o contrário.

Logo, sob grave ameaça, figura de fato a democracia, ou mais precisamente, o Estado Democrático de Direito. E com ele, os partidos, sindicatos, movimentos sociais, a imprensa livre e independente, o devido processo legal, as conquistas civilizatórias, a política tal qual a idealizamos.

Pois, se não estamos em uma ditadura clássica, é certo que não vivemos mais uma democracia plena. E o histórico recente de politização da justiça e criminalização da política é motivo suficiente para guardarmos severas reservas quanto ao futuro. Há pouco mais de um ano as eleições de 2014 foram golpeadas por um impeachment sem crime; em 2016, as eleições municipais foram vergonhosamente manipuladas quinze dias antes do seu término por uma onda de delações vazadas, prisões, conduções coercitivas e coletivas de imprensa espetacularizadas da Lava-Jato; e hoje, especula-se a própria realização das eleições de 2018, em que condições e sistema.

Enquanto a direção petista tateia a conjuntura, dedicada a própria sobrevivência, a esquerda sangra em movimentos desconexos sem perceber a perigosa aproximação de uma longa diáspora. Cientes de que o tempo das conciliações se esgotou, passa da hora, portanto, a formação de uma grande Mesa de Diálogo Nacional pela Democracia, que ofereça uma alternativa contra-hegemônica ao país, com o objetivo de restaurar o pacto democrático, formular um novo programa de desenvolvimento soberano para o Brasil e constituir uma ampla frente de forças progressistas e de esquerda. Uma Frente que reúna os mais diversos quadros políticos de diferentes matizes com grande representatividade social, a partir do ativo preservado em meio a barbárie.

Pessoas como Guilherme Boulos, Marcelo Freixo, Olívio Dutra, Luíza Erundina, João Pedro Stédile, Jean Willys, Tarso Genro, Alessandro Molon, Roberto Amaral, Roberto Requião, Jandira Feghali, Bresser Pereira, Randolfe Rodrigues, Ciro Gomes, mas também, os milhões de militantes e simpatizantes da esquerda, parlamentares, intelectuais e artistas, sindicatos e movimentos sociais, e a nova juventude engajada nas diversas lutas por direitos, contra o golpe. Uma gente libertária e democrática, “animada e inspirada pela perspectiva da igualdade” – nas palavras de Bobbio –, e com um “futuro por armar”, nas de Tarso Genro.

Podridão, a carne como metáfora

A mídia e Michel Temer estão inapelavelmente juntos perante a história dos últimos e terríveis anos. (Beto Barata/PR)

Ayrton Centeno (*)

A carne brasileira está podre. Diz a Polícia Federal e promete provas. Mais gente, à esquerda e à direita, diz que não, que a PF dinamitou um segmento crucial da economia, seja para atender ao cabo de guerra pelo mando na instituição, seja por uma mistura de burrice, prepotência e sedução pelos holofotes. Verdade ou mentira? Não importa. O que importa é que o estrago está feito e as penas do travesseiro estão voando mundo afora. Mas o que me interessa mesmo, aqui e agora, é o poder da metáfora: o Brasil caindo de podre. Não pela carne, que se desconfia mas não tem certeza, mas pela força da alegoria que infecta, enoja e se espalha pelas instituições que, em tese, deveriam proteger a boa saúde do organismo democrático.

O Brasil começou a apodrecer ainda em 2014 quando o candidato vencido nas eleições não aceitou a rejeição das urnas. E, com aliados no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal, na plutocracia e, obviamente, contando com as divisões Panzer do baronato midiático, iniciou sua marcha da insensatez. Contra aquela que o derrotou e contra o país. Não era possível aguardar até 2018. Urgia destruir o governo reeleito nem que, para tanto, fosse necessário antes destroçar o Brasil. E assim foi feito: no segundo mandato, Dilma esteve todo o tempo nas cordas, fustigada por fatos ou factoides. Hostilizada por manchetes e denúncias, estas oriundas de vazamentos produzidos para gerar aquelas. Ambas turbinadas para fabricar consensos e ódios.

O abcesso veio a furo naquele baile de monstros do dia 17 de abril de 2016. Quando a nação perplexa viu-se face a face com o horror: uma pantomima mambembe de causar assombro até no universo do cancioneiro brega. O parlamento enquanto picadeiro. A tomada do circo pelos palhaços convertendo o país em chacota do planeta. Corruptos contra a corrupção. As vestais da hora, entre elas seu guru Eduardo Cunha. Corrupção, do latim corruptio, carrega o sentido de deterioração. Um exame microbiológico já detectaria no recinto o crescimento exponencial da taxa de coliformes fecais. Podridão.

Volátil, a patogenia alastrou-se ao vizinho Planalto. Consumada a patuscada trágica, encarapitou-se no poder, sem voto nem vergonha, a mais deplorável chusma que as entranhas políticas do Brasil excretaram nas últimas décadas. Era a “ponte para o futuro”, que um dos comparsas de golpe, Fernando Henrique Cardoso, encarregou-se de escrachar, rebaixando-a à condição de “pinguela”. Hoje, nem isso. Somente uma tropa disposta a executar, a mando do mercado, uma encomenda de pistolagem, emboscando e assassinando os direitos da maioria em troca da salvação do próprio couro.

Infectado, o STF rendeu-se. Enquanto a nação ardia e a besta se arrastava para nascer, limitou-se a tricotar os rendilhados do protocolo, os arabescos da liturgia, os fricotes do formalismo, as piruetas jurídicas, até o grand finale do balé das capas esvoaçantes. Conforme a freguesia, decisões poderiam ser tomadas em vapt-vupt ou serem proteladas por ano e meio. A quem reclamava da tarantela, limitava-se a agitar seu leque como uma frágil e lânguida Dama das Camélias. Antes, porém, o bodum já se esparramara pelos escalões inferiores. Através do chorume dos grampos e das delações premiadas, escoado regular e seletivamente do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, apascentando jornalões, rádios e TVs.

Enquanto poderes e corporações adoeciam, engalfinhando-se em contendas insalubres internas ou externas, a pestilência ulcerou o tecido social, minando sua resistência. Propagou-se um ressentimento sem travas, vizinho da psicopatia. Rancores encobertos vieram à tona, sobretudo entre certa classe média, sempre vivendo entre a inveja do patriciado e o pavor da plebe. O flerte com o fascismo arreganhou o preconceito contra mulheres, negros, índios, nordestinos, homossexuais, pobres, explodindo nas redes sociais e caixas de comentários. Almejar a morte do outro, bater palmas para o câncer, incitar o homicídio tornaram-se práticas banais. Os imbecis perderam a modéstia.

Nada disso ocorreria, porém, se não houvesse um vetor. Que reproduziu, no século 21, sua conduta recorrente demonstrada em 1954, 1964, 1989 e outras datas menos emblemáticas. E contagiou os espíritos. Alimentados dia e noite com a mesma gororoba tóxica, muitos caíram doentes. A baixa imunidade deixou-os à mercê de microorganismos que tumultuam o raciocínio, impedem o discernimento e exasperam a intolerância. Então, brotam os zumbis do pensamento único, incapazes de responder a qualquer questão de baixa complexidade a não ser com os lugares comuns da xenofobia, do racismo, da misoginia.

Quem semeia esse apodrecimento em vida — impondo o regresso do país aos parâmetros políticos e econômicos da República Velha – é o oligopólio da mídia. Embora reitere a ladainha do pluralismo e do compromisso com a sociedade, a ela entrega mercadoria danificada. Constrói santos ou pecadores exclusivamente regulado pelo termômetro dos negócios. Apesar do derretimento como picolé ao sol, o mais grotesco dos presidentes e sua popularidade de 10% ganham avaliação bastante caridosa na imprensa hegemônica. Mas há um problema.

Assim como as boas práticas de higiene ensinam a não misturar carne suspeita com outros cortes para evitar a contaminação de todas as peças, a mídia e Michel Temer estão inapelavelmente juntos perante a história dos últimos e terríveis anos. Partilham o mesmo repertório de bactérias, toxinas, vermes, protozoários e fungos. Faminta, a putrefação progride através da contiguidade. Não há escapatória. Ambos exalam o mesmo fedor inexcedível que engolfa, contamina e degrada o país.

(*) Jornalista

Há um previsível horizonte de avanço do Estado policial no Brasil, diz “anticandidata” ao STF

Beatriz Vargas Ramos: “O sentido dessa proposta da anticandidatura foi ocupar a cena política e debater qual é o papel do Supremo, o que se espera de um ministro do Supremo, neste momento difícil que o país atravessa”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

No dia 15 de fevereiro, especialistas do meio jurídico, representantes de movimentos sociais e de mulheres lançaram, no Senado, a “anticandidatura” de Beatriz Vargas Ramos, professora de Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). O objetivo da iniciativa foi protestar contra a indicação do ex-ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para a vaga de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal e também debater qual é o papel do STF e o que se espera de um ministro do tribunal constitucional no atual momento que o Brasil vive.

Beatriz Vargas Ramos este em Porto Alegre, na semana passada, participando de um debate promovido pela Associação Gaúcha dos Advogados Trabalhistas (Agetra), juntamente com a Themis. Em entrevista ao Sul21, a professora da UnB falou sobre o sentido da anticandidatura, o papel do STF e do Judiciário de um modo em geral no momento político vivido pelo país. Para Beatriz Vargas, o Supremo agiu muito aquém da sua competência no processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, “ficando muito longe daquilo que poderia ter examinado e que não diz respeito ao mérito do processo”. E acrescenta: “O STF tem, de fato, dado algumas demonstrações de um certo protagonismo na cena política que impressionam. Temos visto não só declarações de ministros fora dos autos como comportamentos exagerados que extrapolam até certos limites do decoro”.

A “anticandidata” ao STF critica também a “mistura” que há hoje entre as atuações do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal e os excessos cometidos por essas instituições. Na avaliação de Beatriz Vargas, o estado de exceção, que já estava presente penal para os mais pobres, está sendo replicado agora para uma parcela mais “empoderada” da sociedade como políticos e empresários. Ela adverte para os riscos dessa situação e projeta um cenário perigoso para a democracia brasileira. “Há um previsível horizonte de mais rigor, recrudescimento e de um avanço do Estado policial”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

O lawfare do guarda na esquina

"O lawfare do guarda na esquina pode chegar na sua casa. É preciso, portanto, prestar atenção a essa expressão de censura, perseguição, destruição de reputação e violação de privacidade". (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

“O lawfare do guarda na esquina pode chegar na sua casa. É preciso, portanto, prestar atenção a essa expressão de censura, perseguição, destruição de reputação e violação de privacidade”. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Katarina Peixoto

O advogado Cristiano Zanin, que representa o ex-presidente Lula, introduziu no debate esclarecido do país o conceito de Lawfare, analisado por Orde F. Kittrier. O expediente de usar o arcabouço processual e legal para perseguir, censurar e desmoralizar, é apontado como mais eficiente e menos custoso, para quem o pratica. O custo da Operação Lava Jato para a economia e a vida institucional do Brasil, no entanto, não é mensurável. Se a operação fosse um expediente legal, não haveria razão para se pensar nesses prejuízos. Mas não é disso que se trata e hoje, três anos após o início da operação midiático-judicial e política que minou a democracia brasileira, os seus resultados começam a ficar mais claros. Enquanto escrevo este texto, Alexandre de Moraes é sabatinado para o STF, após a morte, em circunstâncias não esclarecidas, do ministro do Supremo Teori Zavascki, responsável pela Lava Jato, no tribunal.

Uma das características dessa operação, que consagrou o uso do expediente de lawfare, de maneira reivindicatória, é a defesa do revisionismo do Processo Penal brasileiro. Não há mais uma separação, elementar, entre direito processual penal e direito penal. Há uma zona indiferenciada, cinzenta, cuja determinação não é dada pelos limites dos direitos fundamentais e pela teoria da prova recepcionada em nossa dogmática, mas pelas convicções do MP e do Judiciário.  Assim, pessoas passaram a ser presas e soltas sem o menor critério, vazamentos de procedimentos à mídia familiar se tornam elementos de chantagem para presos delatarem quem o juiz aguarda ser delatado e procuradores da república se tornam militantes místicos numa cruzada contra o que seria o maior problema do Brasil, a corrupção.

Não há novidade no que estou dizendo. Quem estuda sabe disso. Há no entanto um elemento, subterrâneo, sobre o qual quase ninguém fala. É o Lawfare do guarda da esquina. A expressão de Pedro Aleixo, vice-presidente do outro golpe, disse, em 1968, por ocasião da publicação do Ato Institucional N. 5, que ele não temia as ações do presidente, mas do guarda na esquina. E o terror, as prisões, as mortes, a tortura, as perseguições, a barbárie perpetrada no contexto pós-AI 5 contribuíram para consolidar essa percepção, diante do que podem os guardas na esquina. Vejam, ele falava de guardas nas esquinas. Imaginem juízes, ministros da corte constitucional, agindo sem o menor respeito à separação entre processo e direito material e sustentando ou protagonizando o grau de violações que estão em curso, contra os direitos fundamentais, no Brasil. O professor Marcelo da Costa Pinto Neves fala em desconstitucionalização e essa é a expressão mais próxima da degradação que estamos vivendo, no Brasil.

procuradores da república se tornam militantes místicos numa cruzada contra o que seria o maior problema do Brasil, a corrupção. (Foto: Divulgação)

Procuradores da república se tornam militantes místicos numa cruzada contra o que seria o maior problema do Brasil, a corrupção. (Foto: Divulgação)

E quem são os novos guardas das esquinas? São ex-colegas, ex-amigos, alunos, ex-alunos, vizinhos, familiares. Eles não denunciam comunistas, que ameaçam a ordem e o progresso. Eles denunciam, perseguem e investigam bandidos, delinquentes, porque estão convencidos de que a esquerda é bandida, ladra, delinquente. Este é o saldo do processo golpista, nas mentalidades estamentais, das burocracias judiciais, com salários assimétricos, nenhuma accountability e vinculada ao pacto espetacular levado a cabo pela operação Lava Jato, com a mídia. Não é apenas a aberração de se ter juiz e procuradores da república convertidos em celebridades de programas de auditório, é o impacto disso nos juízes e promotores e procuradores “das esquinas”. A degradação estamental, no rebaixamento do nível jurídico das instituições judiciais brasileiras, levadas a cabo por esses rapazes, está para a ordem constitucional de 1988 como estão as peripécias das Forças Armadas e seus lacaios policiais para a reputação da Defesa Nacional, do país, após a ditadura.

Mas a truculência mudou de domínio e de vestimenta e aí está o aspecto mais insidioso e medonho, do que estamos vivendo, no Brasil. O manto da normalidade institucional e do respeito às regras já caiu. O que não veio à tona, ainda, é o estrago que o lawfare dos guardas nas esquinas está promovendo, contra agentes públicos, servidores públicos, professores universitários, artistas, consultores, jornalistas, escritores, produtores.

Ontem, fiquei sabendo que um dos maiores cineastas do Brasil foi denunciado e está sob investigação, com base numa denúncia na vibe lawfare guarda da esquina. Então resolvi enumerar o que sei e quantas pessoas e casos de lawfare do guarda da esquina estão em curso, entre pessoas que conheço. Os nomes quase todos estão omitidos, porque é da perversão desse expediente o medo de expor o lawfare, já que o que você disser pode e vai ser usado contra você. A censura social, derivada da paranoia e do ódio ressentido que contaminou as classes médias brasileiras, no processo do golpe de estado, não autoriza a crítica e não dá cabimento à autocrítica. Há gerações, já, de procuradores, promotores e juízes convencidos de que estão numa cruzada moralista. Pessoas vermifugadas, psiquicamente bem castradas, alimentadas, vitaminadas, com dentes íntegros, que estudaram direito constitucional e processo penal e aplaudem as tais medidas contra a corrupção, como se houvesse ali algum lastro de legalidade ou de estado de direito. Esse tipo de ignomínia cultural e política não se constitui da noite para o dia e nem será superado no médio prazo.

Mas o lawfare do guarda na esquina pode chegar na sua casa. É preciso, portanto, prestar atenção a essa expressão de censura, perseguição, destruição de reputação e violação de privacidade, derivadas dessa prática antijurídica. Como ocorreu no caso do aluno que denunciou uma professora, que, por motivos profissionais, viaja bastante, e que é uma militante dos direitos humanos, de “ser agente do comunismo internacional”. O fato de um aluno de universidade ler Olavo de Carvalho e ser por ele convencido é digno de nota, quanto ao nível de exigência desse vestibular, mas, ainda assim, não fosse um diretor de centro e um reitor conscientes do que está ocorrendo no país, a professora poderia ter de enfrentar processo administrativo e outras mazelas. A mesma sorte dela não teve um advogado proeminente, que cometeu a suprema ousadia de criticar juízes em sua página no Facebook.

"É preciso denunciar e barrar o lawfare. Esse expediente ameaça a todos e a cada um e, sobretudo, ameaça a ordem constitucional."

“É preciso denunciar e barrar o lawfare. Esse expediente ameaça a todos e a cada um e, sobretudo, ameaça a ordem constitucional.”

Críticas políticas, dentro da legalidade, que hoje são objeto de ação judicial. Ação judicial não é o que a procuradora tem de responder, mas uma advertência administrativa, sim, porque, vejam só, andou se posicionando contra o se dizente impeachment de Dilma Rousseff, numa rede interna, interna corporis. Suas chances de transferência para a cidade onde realmente pretende viver são próximas do zero, enquanto o experimento de usurpação aí estiver.

E tem mais. Agente pública tem a vida devassada, a casa invadida, computadores e documentos apreendidos, após décadas de serviço público. Proba, impoluta, tem de dizer a filha de 10 anos que o pai foi preso, mas não está morto, nem de roupa de listras, atrás das grades, como no desenho animado. A psicoterapeuta aconselha a mãe a levar a filha para ver o pai, na cadeia. Antes, a mãe tem sua vagina escaneada, na frente da filha, por uma polida policial federal. É uma violação que somente quem vive é capaz de descrever. É destruidor, insidioso, e visa a quebrar e a desmoralizar pessoas. A diminuí-las. É isso o que professores universitários gravados em sala de aula por alunos ou alunas têm de enfrentar, sob a acusação de doutrinação ou de assédio moral, em aulas sobre devido processo legal, lógica de predicados de primeira ordem ou história da escravidão.

Esse é o estrago que uma mídia oligopólica, golpista, sem nenhum controle e protegida por estamentos autoritários, causou, nas mentalidades de estudantes de baixa formação, no mais das vezes, que se sentem diminuídos no ambiente universitário e buscam guarida para o seu ressentimento nos sites e nos grupos de ódio, fundamentalismo religioso e grande elenco de chorume da extrema direita.

Na iniciativa privada, não é diferente. É, vale dizer, mais agressiva e destruidora, a prática do lawfare do guarda na esquina. Professores são sumariamente demitidos. Basta um post os denunciando em rede social ou uma reunião de pais, onde o professor é acusado de doutrinar os filhos ensinado-os história e literatura. Professor é acusado de doutrinar alunos com Habermas, professor convida o aluno que se retira, dizendo que não será doutrinado por marxista. Cartas são enviadas questionando com que dinheiro professores estão fazendo viagens para denunciar “um suposto golpe de estado no Brasil”. Em Curitiba, em São Carlos, em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, em Caruaru, em Porto Alegre, em Brasília, em Fortaleza e no Recife essas coisas estão acontecendo.

Há professores demitidos, servidores processados, escritores, jornalistas, artistas, processados. Basta uma representação e um promotor ou um procurador que acredite na cruzada mística, ou um auditor. Não há limites, não há accountability. Não há, concretamente, o que um juiz, um policial e um promotor ou procurador não possam fazer, no Brasil. E eles agem sabendo disso, que podem fazer o que quiserem. Entraram na casa de um ex-presidente da república, rasgaram o colchão do casal, apreenderam tablets de seus netos. A mulher dele faleceu de um aneurisma e, segundo ele, ela jamais se recuperou dessa violação. O que vocês acham que aconteceria a um professor gay, que foi denunciado de assédio sexual, por ser o único membro fora do armário de uma comunidade? Vocês acham que ele seria respeitado, aceito, assim, em pleno gozo de suas prerrogativas de direito? Ele existe, ganha hoje menos de um quarto do que ganhava e aguarda, em silêncio, pelas sentenças que levarão anos para desfazerem o estrago que fizeram em sua vida.

Agora, o mais notável caso de law fare do guarda na esquina ocorre contra um dos grandes cineastas brasileiros. Não bastando a censura por parte do Ministério da Cultura do experimento usurpador, o cineasta também teve de enfrentar o ódio ressentido e demencial, ignorante e perverso, de ex-colegas. Um deles, um sujeito gravemente doente e sem tratamento, produziu uma representação espalhafatosa, algo parecido com os pedalinhos Marx e Hegel, e um procurador da república aceitou, salvo melhor juízo (a matéria não deixa isso claro). Seria somente ridículo, mas vamos aos fatos, porque lawfare, num país como o nosso, não é brincadeira.

Nosso judiciário não tem accountability, nem nossos parquets. E atuam numa temporalidade geracional, as ações levam vidas e arruínam outras tantas, até saírem as sentenças transitadas em julgado. Nesse ínterim, há bloqueios de bens, violações de sigilos fiscais, telefônicos, eletrônicos, bloqueios de contas e de CNPjs. Vidas são prejudicadas, famílias arruinadas, suspeições disseminadas. Advogados não trabalham de graça e não é fácil se defender de lawfare. Não há corpo de delito de lawfare. É uma tortura da imagem social da pessoa que entra em jogo, uma suspeição que não se desfaz facilmente. Ah, mas as denúncias são ridículas! São. Por acaso alguém acha que Dallagnol não é ridículo? Imaginem o guarda da esquina, o idiota ressentido compartilhando antas agonistas em rede social.

Quando a democracia for recuperada, e se for conosco, em vida, muitas dessas histórias virão à tona. Eu acredito que milhares virão à tona. Estou convencida de que levaremos anos para superar esse problema, essa doença que contagiou as classes médias brasileiras e contaminou as burocracias jurídicas do país de ódio reivindicatório de classe, contra os desafetos. Os membros sérios dos Ministérios Públicos, os juízes que não se renderam ao horror e os advogados que não são cúmplices do golpe têm de estar à altura da tarefa de resgatar a juridicidade processual, no Brasil.

É preciso denunciar e barrar o lawfare. Esse expediente ameaça a todos e a cada um e, sobretudo, ameaça a ordem constitucional. Está claro que a solução é política, mas disso não se segue que seja uma política partidária. É preciso se recuperar a zona de legitimidade da luta política, do desacordo, da diferença, da crítica, sem predar o outro, sem aniquilar instituições, empresas, famílias, infâncias, aparelhando os instrumentos judiciários para tanto. Estado de direito não é instrumento de guerra.

“O golpe não terminou. A segunda etapa pode ser muito mais radicalizada e repressora”

Dilma Rousseff: “O que está em jogo hoje é o que vai ser a eleição de 2018. Essa será a pauta a partir da metade do ano (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Dilma Rousseff: “O que está em jogo hoje é o que vai ser a eleição de 2018. Essa será a pauta a partir da metade do ano (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Quase seis meses depois da votação da última etapa do impeachment no Senado Federal, Dilma Rousseff olha para esse período não como uma página virada na sua história de vida ou na história política do país, mas sim como um processo em andamento. “O golpe não acabou”, afirma, advertindo para os riscos que a democracia brasileira corre com o desenrolar do processo golpista. Em entrevista ao Sul21, concedida em seu apartamento em Porto Alegre, Dilma Rousseff fala sobre as raízes profundas e aparentes do golpe, denuncia o desmonte de políticas sociais e de setores estratégicos para o país, como as indústrias naval e petrolífera, e aponta as tarefas que ela considera prioritárias para a esquerda e para todas as forças progressistas do país:

“A questão democrática é fundamental para nós. Sempre ganhamos quando a democracia se aprofundou e sempre perdemos quando ela foi restringida. O que está em jogo hoje é o que vai ser a eleição de 2018. Essa será a pauta a partir da metade do ano. Acho que o Lula, nesta história, cumprirá um papel muito importante, concorrendo ou não. A segunda etapa do golpe pode ser muito mais radicalizada e propensa à repressão. Nossa missão é garantir o maior espaço democrático possível, denunciar todas as tentativas de restrição das liberdades democráticas e tentar garantir em 2018 um processo que seja construído por baixo”, defende. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Golpe, estado de exceção e repressão nas ruas: a democracia brasileira em 2016

Uma cena que se repetiu em 2016: a presença constante dos batalhões de choque das polícias militares nas ruas do país reprimindo protestos e cercando parlamentos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Uma cena que se repetiu em 2016: a presença constante dos batalhões de choque das polícias militares nas ruas do país reprimindo protestos e cercando parlamentos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Estado de exceção, golpe, delação, criminalização, impeachment, grampos, vazamentos, condução coercitiva, prisões… Essas foram algumas das principais palavras que frequentaram o cenário político brasileiro em 2016. Esse cenário, de janeiro a dezembro, foi dominado por uma crise que parece longe de acabar e que teve na derrubada da presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2014 com mais de 54 milhões de votos, o seu fato principal e mais grave. Uma denúncia percorreu os doze meses do ano: a violação do Estado Democrático de Direito e a instalação de um estado de exceção no país.

A ruptura da ordem democrática no Brasil em 2016 teve como consequência também a implementação de uma política de criminalização de movimentos sociais, articulada por setores do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Um dos casos mais emblemáticos dessa ofensiva foi a prisão de militantes e dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sob a acusação de integrarem uma “organização criminosa”.

Esse processo de criminalização também atingiu as mobilizações estudantis, que envolveram a ocupação de escolas e universidades por todo o país, e movimentos sociais de luta por moradia e outros direitos. Se as palavras “estado de exceção”, “golpe” e “criminalização” marcaram o cenário político brasileiro em 2016, elas tiveram como contrapartida imagética a presença constante dos batalhões de choque das polícias militares nas ruas do país reprimindo protestos, cercando parlamentos e garantindo a efetivação da agenda que iniciou o ano com o processo de impeachment e chegou a dezembro com o país mergulhado em um clima de insegurança e incerteza quanto ao futuro. (Leia aqui a íntegra da Restrospectiva Política Nacional de 2016, no Sul21)