Arquivo mensal: outubro 2013

Consulta pública debate criação de Refúgio da Vida Silvestre em Porto Alegre

refugiopoa A Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre está promovendo uma consulta pública para ouvir a população sobre a criação de uma Unidade de Conservação (UC) no morro São Pedro, em Porto Alegre, ( refúgio da vida silvestre).  Refúgio da Vida Silvestre é uma categoria de Unidade de Conservação da Natureza de Proteção Integral, que permite apenas usos indiretos na área, como pesquisa, atividades de educação ambiental, ecoturismo e caminhadas, não sendo permitido em seu interior coleta de materiais, nem construção de moradias. A visitação pública a uma área deste tipo também está sujeita às normas e às restrições estabelecidas no plano de manejo de cada unidade, bem como às normas estabelecidas pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente, no caso de Porto Alegre.

Esta categoria tem como objetivo “proteger ambientes naturais nos quais se asseguram condições para a existência ou a reprodução de espécies, ou comunidades da flora local, e da fauna residente ou migratória”. Segundo a Smam, o Refúgio que está sendo criado tem como principais objetivos proteger as nascentes e as espécies da fauna silvestre, em especial o Bugio-ruivo, espécie ameaçada de extinção.

Trata-se de uma demanda antiga da comunidade acadêmica, do movimento ambientalista e de moradores da zona sul, uma vez que este morro constitui o maior remanescente de mata nativa de Porto Alegre. O link da consulta pública segue abaixo. O prazo encerra-se hoje (30)

http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smam_consultapublica/default.php

Leitura e cultura digital

jefersonassumcao Jéferson Assumção (*)

Que a cultura digital e a ação cidadã em rede têm revolucionado a maneira como se participa da vida pública, do mercado e da política em geral, não é mais novidade para praticamente ninguém neste já bem entrado século XXI. Observamos como elas são potentes instrumentos para se diminuir a distância entre Estado e sociedade e como colocam governos, empresários e políticos mais próximos do que pensam e vivem os cidadãos da imensa, multifacetada e transnacional pólis contemporânea. Com a expansão da internet, mudanças enormes tem ocorrido na política, na cultura – às vezes, de maneira bastante violenta como no Egito, Libia, Tunisia etc ou apenas como uma silenciosa transformação dos costumes – e ocorrerão, se já não estão em pleno curso, nas nossas bibliotecas públicas e, talvez, em nossa prática leitora.

Uma importante questão, em nosso entender, não é apenas saber como as ferramentas de comunicação tem ajudado a estabelecer uma era da informação, mas como essas mudanças tecnológicas têm feito a sociedade atual mais informal. E a informalidade sempre foi a manifestação das subjetividades. O jeito de alguém, um comportamento “inadequado”, um gesto não convencional sempre foram expressão daquilo que se convencionou como formas-padrão de se viver. As formalidades, no entanto, nas roupas, nos cumprimentos, no uso da língua, travam uma luta contra essas formas orgânicas e subjetivas.

A formalidade, a manifestação da objetividade, racional, de valores etc se estabelece em espaços formais de educação, de comunicação, de indústria cutural, e espaços que hoje em dia têm abalada a centralidade do monopólio que exerciam e que já não tem mais a mesma força de antes para vertebrar a sociedade a partir de seus valores acumulados por séculos e séculos. Será que esta faceta da vida contemporânea não afeta também a biblioteca de nossos dias?

Pois bem, com cada vez mais tecnologia à disposição e possibilidade de as pessoas se conectarem entre si, o espaço para a subjetividade tornou-se gigantesco. E com ele cresceu a importância da subjetividade e da informalidade na sociedade contemporânea. Governos abertos estão buscando menos formalidade e mais horizontalidade na relação com os cidadãos, publicidades surgem com até pouco tempo inaceitáveis palavrões, apresentadores de telejornal usam gírias, camelôs 2.0 aparecem na web, junto com a economia solidária e a economia colaborativa/economia do comum etc, a universidade livre, a mídia livre.

No Brasil, e provavelmente em outros países, a formalidade na política, na comunicação, na educação, no mercado, está sendo bastante impactada desde a expansão da internet e abrindo espaço para uma maneira cada vez mais informal de se viver. Provavelmente, esta informalidade impactará cada vez mais, daqui para a frente, o mundo da cultura, da educação e a forma como nos relacionamos com equipamentos culturais tradicionais. Dentre todos os equipamentos culturais, as bibliotecas, são as que mais risco correm de ser vistas como as mais conservadoras, símbolo da guarda, do depósito de conhecimentos do passado, mais que do presente, quase nada do futuro. Mais formais que casas de cultura, centros culturais ou espaços culturais, em geral, muito atrás da diversidade dos pontos de cultura e pontos de leitura. A atenção deve ser redobrada nesses espaços para que o indubitável valor que carregam possa ser apreciado, utilizado, valorizado na nossa sociedade de hoje. E parece que o caminho para tal é enxergar os benefícios da informalidade e articulá-los ao seu cotidiano valoroso. Fazer com que a leitura solidária das redes se articule com a leitura solitária dos livros pode ser um caminho.

Com a cultura de rede, colaborativa e digital, nosso tempo vê e age na emergência de novos sujeitos políticos, de novas formas e maneiras de se viver, assim como de novas soluções e um verdadeiro mundo de arranjos e alternativas oxigenadoras. É um tempo rico, em que o mundo industrial se modifica fortemente em suas bases e um outro pós-industrial aos poucos ganha status de realidade incontornável ao nosso redor. Por algum tempo, talvez não muito, conviveremos com as contradições desses dois paradigmas, opostos às vezes, em muitos pontos anuladores e em diversos outros de enorme riqueza de complementaridade. No caso em tela, a informalidade pós-moderna pode complementar, arejar a formalidade moderna, até que consigamos sínteses abertas, disjuntivas para nosso uso atual e futuro.

Claro que há perigos. Muitos. Inclusive o de a dose de informalidade ultrapassar a medida certa e transformar-se em hiperinformalidade, em ácido destruidor de acúmulos, de resultados de esforços coletivos a que toda a humanidade ajudou a construir. No mundo da leitura e da escrita, sem dúvida este embate entre o formal e o informal que o uso das novas tecnologias propicia nos traz pontos de atenção. De um lado, a riqueza das ruas, da oralidade, da diversidade, da espontaneidade. De outro, códigos importantíssimos para fixar o passado, para propiciar longos encadeamentos lógicos e possibilitar a comunicação de questões as mais profundas de nosso ser e existir. Exageros de qualquer lado podem ser prejudiciais: o aparato racional não pode suplantar o vital. Nem o contrário. Nem racionalismo, nem vitalismo, alertava Ortega y Gasset há cerca de 100 anos, propugnando um Raciovitalismo equilibrado, de que, em meu entendimento não podemos prescindir hoje. Nem moderno, nem pós-moderno, mas ultramoderno, neomoderno, ou o que se queira denominar como hipermoderno, supermoderno, ubermoderno etc – neologismos para todos os gostos e modas.

Seja pelo uso das redes sociais, seja pelo acesso aos inúmeros blogs, sites e nuvens, cresce o número de pessoas que, por meio de ambientes pós-massivos, constroem uma nova esfera pública, ponto a ponto, pessoa a pessoa. Também trazem o vitalismo das culturas urbanas, suburbanas, rurais e populares valores e elementos que talvez fizessem falta ao mundo construído pela racionalidade.

E como se dá isso? Por que, em vez do que muitos pensavam, ou seja, que a internet apenas acentuaria o consumo e as garras do mercado, tanta gente vem utilizando essas ferramentas com autonomia (comum) em vez de apenas de forma heterônoma (massa)? Porque como explicam os militantes da cultura digital, junto ao usual download, em termos de cultura de rede e colaborativa, o mais importante é o upload. Mais que do que se consome, o fundamental em nossos tempos de “prossumidores” (consumidores-produtores) é o que se produz e se disponibiliza: ideias, arte, política.

Pelas possibilidades de se produzir ponto a ponto, de se consumir o que se produz na própria troca da cultura de rede, colaborativa e de se invisibilizar as culturas populares urbanas é que se deveria medir a riqueza desta cultura digital. Antes de sua vigência, a centralidade da indústria cultural e dos meios de comunicação impossibilita com que se entrasse em contato com a diversidade cultural de um país ou do mundo, sem que esta diversidade não houvesse sido formatada (formalizada) pela indústria cultural criadora de estereótipos e formalidades abstratas para rápido consumo.

No Brasil, as favelas, os sertões, a Amazônia, o Cerrado, o Pampa, vem fazendo uso da internet para dizer sua própria palavra, para fazer se ouvir a voz de comunidades e indivíduos que antes não existiam para o Mercado ou para o Estado. Contagiar-se com esta potencialidade do comum é fazer da biblioteca um lugar muito mais aberto para o diálogo da diversidade, para a cultura colaborativa, recombinatória e ampliadora de visões do mundo.

Estado, Mercado e Comum

Esta é, conforme Michel Bawens, da P2P Foundation, a tríade de instâncias sob a qual a vida em coletividade se desenvolve no mundo contemporâneo. Na sociedade pré-industrial, o Estado (e a religião) era praticamente o único legitimador da arte, da educação e dos usos. Na sociedade industrial, o Mercado junta-se ao Estado como grande legitimador em termos de educação, cultura e comunicação. E é na sociedade pós-industrial, que a legitimação de seguidores, curtidas, visualizações e compartilhamentos junta-se à primeira e à segunda como força legitimadora do “comum”. É esta instância do comum que vem emergindo dia após dia com as novas tecnologias. Ao fazer uso da internet e das ferramentas online para ampliação de seus repertórios e para dizer o que pensa do mundo à sua volta, além de gerar ação em rede, o comum ganha espaço como força mais importante e ativa que a categoria passiva de “massa”, referência da era industrial.

Vivemos num mundo ao mesmo tempo arcaico, pré-moderno, moderno, pós-moderno e ultramoderno. Às vezes em um único dia essas dimensões podem ser vividas na rua de qualquer cidade do planeta. Da mesma forma, habitamos um mundo ao mesmo tempo agrário, artesanal, industrial e pós-industrial, daí que já não podemos prescindir, em um mundo tão complexo, das ferramentas mais avançadas para compreendê-lo. A biblioteca, menos ainda. Não que se deva ignorar a realidade do mundo concreto, mas sim gerar um ambiente de mais participação do cidadão na vida pública a partir de novas potencialidades.

A presencialidade das grandes mobilizações, no Brasil, no Chile, na Espanha, no Norte da África etc, ao mesmo tempo que o uso das novas tecnologias, são traços da vida de nosso tempo. Talvez esteja nascendo daí uma nova ideia de democracia. Não uma democracia analógica, presencial e representativa, mas também não uma apenas digital. Uma síntese das duas: uma democracia digitalógica, talvez, nesse nosso tempo de neologismos tão profusos quanto passageiros (a propósito, alguém conhece palavras mais antiquadas que “informática” ou “cibernética”?). De qualquer maneira, nosso tempo e circunstância são estes e dentro deles apesar da equiprobabilidade do ambiente digital (em que os valores são todos os mesmos, basta clicar um site em vez de outro) a diferença necessária para dar conta deste novo mundo, mais que tudo, será de leitura. E de cultura digital.

Engana-se quem pensa que cultura digital seja o mero uso de sites, redes sociais, blogs ou microblogs. Ela é o modo como utilizamos essas ferramentas e ambientes na web, como a lemos. Se de forma utilitária e pragmática, para a simples repetição dos padrões de consumo e produção da era industrial, massificamo-nos da mesma forma com esses meios pós-massivos do que no ambiente massificador e massificado dos meios de comunicação e entretenimento de mercado.

Assim como podemos diferenciar uma leitura funcional de uma leitura cultural, ou seja heterônoma da autônoma, utilitária da estética, ensimesmada da ampliadora de repertórios, a cultura digital, ou seja, este que é o F5 da história da leitura, é o uso não-passivo, não-consumista, não-funcional dos meios digitais, mas autônomo, criativo, estético, ético e político. E aí existe uma contiguidade entre o mundo da leitura e o da cultura digital. Ler na tela de um tablet é apenas a maneira atual de ler, desde o ponto de vista da decodificação de símbolos e de interpretação de materiais de leitura em textos escritos ou não. A questão é, no mundo da leitura de textos escritos, como se lê: de maneira utilitária, consumista, funcional ou estética e cultural.

Assim como o livro impresso, a cultura digital é potencializadora da democracia real e com ainda mais ganhos, afinal a cultura colaborativa possibilitada pelas tecnologias serve para aprofundar e dar mais consistência à democracia institucionalizada, representativa. Ela promove o “diagonalismo”, ou seja, o encontro dos pontos positivos entre as estruturas verticais com as horizontais e o “digitalógico”, o do digital e analógico (movimentos, ações, presencialidades, para além da falsa dicotomia entre eles), o do papel e da tela. Vivemos a Era do E – era das conjunções, das convergências, das superações dos binarismos 1 ou 2 e das dicotomias digital x analógico, real x virtual. Do papel ou da tela. Encontrar diagonais férteis e inovadoras é um belo exercício de leitura sistêmica, complexa, em busca de novos pontos de vista para velhos e novos problemas da humanidade.

Em nosso entendimento, a biblioteca de hoje que, além de propiciar acesso aos livros e a outros suportes de leitura, deve promover o olhar curioso, criativo, aberto ao mundo, crítico, em vez do olhar ensimesmado promotor do tecnicismo, do formalismo, do pragmatismo, utilitarismo e a leitura funcional com respeito a fins, o conformismo e a a formação alienadora do mundo. E para isso a cultura digital e a leitura cultural no ambiente digital é campo de imensas potencialidades.

Quanto mais a biblioteca promover, não a mera inclusião digital, passiva e repetidora de padrões, mas a cultura digital, mais poderá se abrir para o comum, para a riqueza da cultura do comum, como espaço de encontros de sujeitos em vez de indivíduos vazios da massa passiva. A informalidade arejará a formalidade e a formalidade ajudará a potencializar e dar concretude às inspirações e criatividades da informalidade? Talvez. Há já inúmeros exemplos de práticas criativas nas bibliotecas brasileiras, vindas da riqueza da informalidade da cultura brasileira e sul-americana. Esta informalidade pode ajudar a promover mais que a leitura solitária (formal, funcional) a leitura solidária (informal, cultural) de que nos fala a professora Eliana Yunes, uma leitura modificadora, não apenas formatadora do sujeito.

“Leitura Digitalógica” é a leitura digital-analógica, com oralidade-escrita, vital-racional, talvez como queria Ortega y Gasset com outras palavras em seu Misión del Bibliotecário ou Misión de La Universidad, em que denunciam um esvaziamento vital da biblioteca e da universidade e a necessidade de religarmos os saberes. Para religar os saberes, a informalidade e a vitalidade precisam ser elementos a mais de como somos, fazemos, vivemos, e não apenas como elementos negativos que precisam ser cimentados por uma ilustração abstrata, funcional e utilitária. Para isso, as bibliotecas devem aprender com os usos progressistas que coletivos e redes de jovens fazem da internet. Devem aproveitar a potencialidade do comum e constantemente alimentar-se dessa energia com enorme potencial de desmassificação, mas que ainda não utilizamos a pleno. Estamos apenas começando.

(*) Secretário Adjunto da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Texto da conferência feita no Chile, a convite do governo espanhol, nos 200 anos da Biblioteca Nacional chilena.

Médicos cubanos começam a chegar ao Rio Grande do Sul neste sábado

medicoscubanos2 Os profissionais do programa Mais Médicos que virão trabalhar no Rio Grande do Sul começam a chegar ao Estado neste final de semana. A chegada do primeiro grupo, com 32 médicos(as) está prevista para este sábado (por volta das 10h25min) e a do segundo na segunda-feira, em dois horários: 70 profissionais às 10h30min e outros 31 às 23 horas. Fazem parte desses grupos os médicos cubanos e de outras nacionalidades formados na Universidade de Cuba. A Associação Cultural José Marti está preparando uma recepção aos médicos no aeroporto Salgado Filho, como uma demonstração de agradecimento por sua participação no programa do governo federal. A recepção quer ser também um contraponto às agressões feitas por médicas cearenses contra o primeiro grupo cubano que chegou em Fortaleza.

Agricultura familiar poderá abastecer presídios no Rio Grande do Sul

agroecologia150 Cooperativas da agricultura familiar do Rio Grande do Sul podem passar a abastecer presídios do Estado com hortifrutigranjeiros e outros alimentos. O deputado estadual Jeferson Fernandes (PT) entregará quinta-feira (24) ao secretário de Administração e Recursos Humanos do Estado, Alessandro Barcellos, um documento solicitando que sejam feitas Chamadas Públicas para a aquisição de produtos da agricultura familiar por meio do programa Compra Coletiva/RS. Jeferson Fernandes e o deputado federal Elvino Bohn Gass (PT-RS) articularam várias reuniões nos últimos meses, com representantes de cooperativas da agricultura familiar e diretores de presídios para tratar do programa de compras governamentais, Compra Coletiva/RS, que virou lei estadual de janeiro de 2012.

Esse programa estimula a descentralização das compras governamentais e diminui custos na aquisição de alimentos para órgãos públicos, além de fortalecer sistemas econômicos locais e regionais. O documento que será entregue pelo deputado propõe que os dez presídios estaduais da Fronteira Noroeste e Missões, passem a ser abastecidos por produtos da agricultura familiar. A população carcerária desses estabelecimentos é de cerca de dois mil presos, que necessitam de três refeições diárias. Os diretores dos presídios de Santa Rosa, Santo Cristo, Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga e Cerro Largo já manifestaram interesse em adquirir os alimentos produzidos pelas cooperativas locais e regionais.

A Rede Missioneira da Agricultura Familiar (REMAF), orientada pelos cardápios nutricionais dos presídios, organizou uma lista de produtos que, inicialmente, teriam condições de abastecer os presídios de Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga e Cerro Largo. A REMAF congrega as cooperativas Coopacel (Cerro Largo), Coopas Vida Nova (Salvador das Missões), Cooperg (Roque Gonzales), Coopersãoluiz (São Luiz Gonzaga), e a Cooperativa de São Miguel das Missões.

Já a Cooperativa Central da Agricultura Familiar Ltda(UNICOOPER), que reúne as cooperativas Coopersol (Santa Rosa), Coopasc (Santo Cristo), Coperagro (Horizontina), Coopovec (Porto Vera Cruz) e Cooperae (Cândido Godói), pode fornecer alimentos para os presídios de Santa Rosa e Santo Cristo.

Essas cooperativas têm experiência de fornecimento ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Para Raul Pont, minirreforma eleitoral representa suicídio da democracia

raulpont O deputado estadual Raul Pont (PT) criticou duramente esta semana as propostas aprovados pelo Senado e pelo Grupo de Trabalho da Câmara Federal. “Estamos sendo cúmplices de um processo de desmoralização da democracia brasileira”, disse Pont, no plenário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Na avaliação do ex-prefeito de Porto Alegre, a manutenção das mesmas regras eleitorais na disputa de 2014 marcará o cenário político com “mais uma rodada de escândalos e denúncias de corrupção”.

“O mesmo Congresso que não conseguiu votar proposta alguma de reforma eleitoral, mesmo tendo todo um trabalho que resultou no relatório do deputado federal Henrique Fontana (PT), organiza um grupo de trabalho e nos surpreende a cada dia com invenções e propostas que, em momento algum, passaram por discussões partidárias”, acrescentou. “Quem este Grupo de Trabalho representa? Quem discutiu essas propostas”, questionou. A proposta de minirreforma foi aprovada pelo Senado, em dois turnos, mas ainda depende da votação da Câmara dos Deputados.

Pont citou como exemplos de decisões que representam um suicídio do sistema democrático brasileiro a manutenção das normas de financiamento das campanhas, que permitem a participação de pessoas jurídicas como doadores. Este esquema, criticou, se transfere para o interior dos partidos, fazendo com que projetos pessoais prevaleçam sobre os projetos programáticos. O parlamentar rechaçou ainda o que chamou de “casuísmo da época da ditadura”, a saber, o direito de acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda na televisão para partidos criados por até 26 deputados. O GT da Câmara também aprovou a redução da exigência de assinaturas para criar um partido de 0,5% para 0,25% do total de eleitores (de 493 mil para 245 mil eleitores).

Em 1980, lembrou Pont, o regime militar implantou uma regra que permitiu o surgimento de partidos a partir da adesão de 10% de parlamentares eleitos. “O partido nascia pronto, não precisava de um percentual mínimo de eleitores. O PT, na época, foi o único a cumprir presença de no mínimo 20% dos municípios e em 11 estados”, assinalou. Contra essas regras, o deputado petista defendeu a posição já expressa pela Executiva Nacional do PT, contrária às propostas da minirreforma eleitoral. Além disso, defendeu o projeto de lei de iniciativa popular, capitaneado pela Ordem dos Advogados do Brasil e pelo Movimento Contra a Corrupção Eleitoral, contrário à participação de pessoas jurídicas no financiamento de campanhas.

A Terra Prometida e a identidade perdida da “América”

terraprometida A história é bem conhecida em praticamente todos os cantos do mundo hoje. Funcionários de uma grande corporação são enviados a uma pequena cidade do interior, de base agrícola e em decadência econômica, para fazer uma proposta aparentemente irrecusável. No caso do filme “A Terra Prometida” (Promised Land, EUA, 2012), dirigido por Gus van Sant, ela se passa no interior dos Estados Unidos. Steve Butler e Sue Thomason (interpretados, respectivamente, por Matt Damon e Frances McDormand) são funcionários de uma grande corporação da área de energia e desembarcam em McKinley, uma pequena cidade rural dos grotões dos EUA, para tentar negociar com os moradores os direitos de perfuração de suas propriedades para a exploração de gás natural. Esse é o ponto de partida do filme.

A salvação oferecida pela grande corporação está baseada, porém, em um polêmico processo de extração de gás natural: a fratura hidráulica (“fracking”), processo que consiste na utilização de água sob altíssima pressão com produtos químicos para extração de gás xisto. Esse método de extração de gás vem sendo muito combatido nos Estados Unidos por ambientalistas. Um estudo divulgado em agosto deste ano pelo Serviço Geológico dos EUA e do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA adverte que fluidos derramados no meio ambiente por esse processo estão causando a morte de diversas espécies aquáticas na região de Acorn Fork, no estado de Kentucky. Esses resíduos, segundo o estudo, estariam provocando lesões nas guelras, fígado e baço dos peixes. Além disso, fizeram o pH da água cair de 7,5 para 5,6, tornando-a mais ácida.

Esse é o pano de fundo para Gus Van Sant falar de vários temas: as fontes energéticas e seus impactos ambientais, a relação de fidelidade dos vendedores com as suas empresas e a ausência de limites da manipulação corporativa. Mas, na avaliação do diretor, o tema central do filme está ligado à identidade norte-americana e à progressiva dissolução de um modo de vida comunitária que ajudou a construir o país. As pequenas comunidades rurais empobrecidas são convidadas a ingressar no paraíso do capitalismo corporativo que oferece ganhos milionários e uma nova vida. Mesmo assim, há quem resista e desconfie de propostas tão generosas. No filme, o personagem vivido por Matt Damon carrega consigo a experiência de ter saído de uma dessas comunidades empobrecidas e assume a postura do novo rico que luta desesperadamente contra seu passado.

Já Sue Thomason, interpretada pela extraordinária Frances McDormand, procura fazer seu trabalho do modo mais rápido e eficiente possível, e mostra um olhar que mistura cinismo e melancolia sobre os personagens da cidade, seu colega de trabalho e ela mesma. Ela está ali para cumprir uma missão e não economizará nenhum meio para isso, inclusive tentar corromper os adversários do projeto com alguma propina. Entre o idealismo corporativo de Steve e o cinismo melancólico de Sue, aparece um terceiro personagem que desempenhará um papel fundamental no filme. Além da resistência de membros da comunidade, o projeto para a exploração de gás encontra a oposição de um militante ambientalista que desembarca na cidade com esse único propósito. Assim como as promessas de prosperidade da corporação não são o que parecem, outras fachadas da história terminarão desabando até o fim.

Ao apresentar o filme, no início deste ano, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, Gus van Sant disse que o tema central da história é a identidade dos Estados Unidos e de sua população. A problemática ambiental, em si mesma, é secundária. “Quis fazer um filme sobre a identidade americana. Quis mostrar como podemos tomar decisões difíceis em determinadas alturas e como os Estados Unidos estão se afastando de um tradicional sentido de comunidade”. A destruição de modos e formas de vida e de economia comunitária pelo avanço do capitalismo global e seus empreendimentos não chega a ser novidade. A destruição ambiental que muitas vezes acompanha esse processo também não. Mas o filme não parece interessado em contar novidades, mas sim colocar uma lupa sobre uma pequena comunidade para tentar ver com mais clareza como se dá essa dissolução de identidades.

Uma dissolução marcada por um paradoxo significativo: na terra do capitalismo, o desaparecimento de formas de vida comunitárias, próximas da natureza e adeptas de um modo de vida mais simples, é apresentado como uma ameaça à própria ideia de uma “América” como terra da liberdade e da felicidade. Em um determinado momento do filme, o personagem de Matt Damon faz um discurso irritado em um bar para moradores locais que estavam provocando-o. Diz o quanto eles são estúpidos e atrasados por não quererem ganhar muito dinheiro com o negócio da exploração do gás. Recebe como resposta um soco na cara. O encontro da “América decadente” com a “América corporativa” coloca a perspectiva da Terra Prometida como um projeto a ser resgatado contra o capitalismo.

O que é a Terra Prometida, afinal de contas? É o aceno de uma nova vida, com dinheiro, feito pela grande corporação da área de energia? Ou é a terra que já se perdeu pelo modo de desenvolvimento do próprio capitalismo que não concede lugar para formas de vida idílicas e comunitárias, especialmente se elas estiverem assentadas sobre alguma grande fonte de energia. Como assinala Gus van Sant, o debate ambiental aí é secundário, não no sentido de ser menos importante, mas sim no de ser derivado de uma premissa anterior que estabelece uma relação direta entre modo de vida e escolhas econômicas. A vida nos bosques, experimentada por Thoreau, há algum tempo soa inocente, ingênua e impraticável aos olhos da máquina ideológica do capitalismo que funciona 24 horas por dia.

Co-autor do roteiro, Matt Damon reserva um final generoso para o seu personagem que vive um processo catártico em relação ao seu próprio passado de morador de uma dessas comunidades que ele queria agora destruir. Há uma paixão no meio que o ajuda nesta travessia de rompimento com a lógica corporativa e o reaproxima da terra prometida, uma ideia que está presente na “América” desde a chegada dos primeiros peregrinos vindos da Europa. É sintomático que ela ainda tenha força e seja confrontada com o atual estágio do capitalismo norte-americano.

Visões idílicas de comunidades vivendo em harmonia com a natureza são cada vez mais incompatíveis com esse capitalismo hegemônico hoje em todo o planeta. Por outro lado, quando o modo de vida engendrado por esse modelo começa a se tornar incompatível com a sobrevivência do próprio planeta, a ideia de uma terra prometida parece ganhar atualidade em um duplo sentido: em um sentido negativo, pelas promessas não realizadas do capitalismo, e em um sentido positivo como a necessidade de libertação de um sistema opressor e inimigo da vida.

Levante denuncia Lasier Martins e a RBS por propaganda eleitoral antecipada

lasiermartins O Levante Popular da Juventude protocolou na manhã desta quinta-feira (10), no Ministério Público Eleitoral, em Porto Alegre, representação contra o jornalista Lasier Martins por propaganda eleitoral antecipada e contra o Grupo RBS, por uso indevido de veículo de comunicação para fazer campanha eleitoral indevida. Na ação, o Levante acusa o então comentarista do Jornal do Almoço de, no programa veiculado dia 7 de outubro de 2013, “não apenas comunicar o desligamento do Grupo RBS em função de sua futura candidatura ao Senado, como também utilizar o tempo e o espaço para apresentar, por mais de seis minutos, suas plataformas eleitorais de forma ilegal”.

Segundo nota divulgada pelo Levante, a denúncia também se dirige ao Grupo RBS por infringir a Lei Complementar n. 64/90, utilizando indevidamente os veículos da empresa para promover a candidatura de Lasier ao Senado pelo PDT. Na avaliação da entidade, o Grupo concedeu espaço à propaganda eleitoral antecipada no Jornal do Almoço e divulgou, em seus veículos, as intenções de Lasier no pleito eleitoral.

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Lucio Centeno, militante do Levante Popular da Juventude, explica o sentido da denúncia apresentada ao MP Eleitoral nesta quinta-feira:

“Denunciamos o que é evidente há anos, o uso indevido de veículo de comunicação. A RBS TV, está se conformado nestas eleições uma legenda eleitoral, um partido político que não atua somente irradiando uma política conservadora e retrógrada em seus veículos, mas que também usa seu alcance para promover seus candidatos.  Isso ficou evidente no caso denunciado, em que Lasier Martins discorreu por mais de seis minutos sobre suas qualidades, como se estivesse em um palanque eleitoral, e não em um veiculo de comunicação que é uma concessão pública e, portanto, não deve servir politicamente a interesses de determinados grupos. O Levante Popular da Juventude está entrando com esta representação, na expectativa de que o MPE investigue judicialmente a postura desta empresa e do candidato Lasier Martins”.

A aliança Campos-Marina e o desafio do realismo

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A opção de Marina Silva pelo PSB se deu nos marcos da “política tradicional” e seus seguidores mais identificados com a dinâmica das redes certamente chegarão a essa conclusão. Não se trata de fazer qualquer julgamento moral, mas sim de uma constatação. Falar em “nova política” se referindo à decisão de Marina é, no mínimo, um alheamento profundo em relação à realidade. Por diversos motivos, Marina se viu diante do imperativo de “jogar o jogo”. E assim o fez. Com isso, ela altera sua condição de “outsider” da política.

Por Vinicius Wu (*)

O grande acontecimento político do final de semana não é a adesão de Marina ao PSB e sim sua saída (a confirmar) da corrida presidencial. O acordo político firmado aponta para uma chapa encabeçada por Eduardo Campos. Portanto, a segunda colocada nas pesquisas até aqui se retirou da disputa. Essa é a grande novidade da política nacional. Temos, assim, uma alteração significativa do cenário pré-eleitoral, mas o sentido dessa mudança e os eventuais prejuízos aos demais candidatos é incerto. Ainda é cedo para assertivas definitivas e análises políticas precipitadas costumam custar caro.

Assim, cumpre observar com alguma cautela os últimos acontecimentos, algo impensável para boa parte dos articulistas da grande mídia, em função de sua inebriante torcida para que tudo sirva ao propósito fundamental de derrotar o PT. Essa turma, por sinal, já errou inúmeras vezes ao longo dos últimos anos.

O fato é que há elementos suficientes para, no mínimo, problematizarmos a tese de que Eduardo Campos operou uma “jogada de mestre” no último sábado. Claro que o episódio, em si, foi relevante. Mas isso não quer dizer que terá um efeito decisivo sobre o processo eleitoral do ano que vem. Afinal, em primeiro lugar, é preciso lembrar o obvio: Marina não traz para a chapa de Campos partidos, tempo de TV ou palanques regionais relevantes. Não há vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores ou um número significativo de candidatos com viabilidade eleitoral acompanhando a adesão de Marina, pelo menos por enquanto. Ela carrega consigo seu carisma, seu recall e alguns quadros de sua Rede. E além de não carregar nenhum partido para a chapa de Campos, a ex-Ministra do Meio-Ambiente vai encontrar também um partido de porte médio, que não se caracteriza exatamente enquanto um grande “partido nacional”.

Partidos nacionais no Brasil, por sinal, são poucos: PT, PSDB, PMDB e mais alguns. O PSB – apesar de sua relevância – não está nessa lista. Tem força no Nordeste, pouca representatividade no sul do país, é frágil no Centro-Oeste e acaba de perder quadros importantes no sudeste. E Marina, cumpre lembrar, não logrou organizar uma estrutura que sequer viabilizasse a coleta de assinaturas para a formação de sua Rede.

Desde as eleições de 1994 as movimentações dos “partidos nacionais” tem sido decisivas para o desfecho das eleições presidenciais no Brasil. Aliás, chega ser cômico ver a ingenuidade de alguns articulistas da grande mídia incomodados com a “polarização” entre PT e PSDB. Ora, trata-se, simplesmente, do embate político entre os dois partidos que efetivamente reuniram – até então – condições reais de disputa num país continental, consolidando-se enquanto polos divergentes em torno dos grandes temas nacionais. Não se trata de uma invenção maquiavélica do PT ou um desejo do PSDB.

O fato é que, caso nenhum partido nacional venha a aderir ao consórcio Campos-Marina, a dupla estará diante do risco real de protagonizar um fiasco em 2014. E as movimentações dos partidos mais importantes como PDT, PTB, PC do B, PR e PP, indicam que, pela responsabilidade e a identificação com o atual projeto político, representado por Lula e Dilma, devem seguir no atual bloco governista. E o PPS de Roberto Freire parece ter saído bastante magoado das negociações com Marina.

Portanto, por enquanto, faltam a Marina e Eduardo estrutura partidária, base de apoio com palanques regionais fortes e tempo de TV para se tornarem competitivos. E, goste-se ou não, eleições no Brasil se decidem, em grande medida, pelo somatório desses elementos.

Além disso, cumpre registrar que a “cultura do voto” no Brasil é essencialmente presidencialista. Ninguém vota para Vice-Presidente. A transferência de votos de Marina para Eduardo, evidentemente, não é automática. O mais provável é que, num primeiro momento, seus votos se dividam entre Dilma, Campos e Aécio. Mas haveria ainda outra hipótese, qual seja, a desistência de Eduardo Campos em favor de Marina. Nesse caso, o Governador de Pernambuco correria o risco de explodir o PSB. E, além disso, é cedo para avaliar os efeitos da movimentação de Marina sobre sua própria imagem. O certo é que, no mínimo, ela arranhou seu principal capital político, que era sua condição de “outsider” da política.

Deve-se respeitar a decisão de Marina, mas a opção pelo PSB se deu nos marcos da “política tradicional” e seus seguidores mais identificados com a dinâmica das redes certamente chegarão a essa conclusão. E não se trata de fazer qualquer julgamento moral. Essa é apenas uma constatação. Falar em “nova política” se referindo à decisão de Marina é, no mínimo, um alheamento profundo em relação à realidade. Por diversos motivos, Marina se viu diante do imperativo de “jogar o jogo”. E assim o fez.

Por outro lado, o reingresso de Marina no cenário eleitoral, com apoio de Campos, poderia forçar uma inflexão nos debates sobre o país e um amplo conjunto de questões poderiam levar Dilma e Aécio a uma mudança de postura. Seguramente, Marina – e não Campos – é quem reúne melhores condições de encarnar o desejo de mudança nas estruturas de representação política manifesto pelos protestos de junho no Brasil.

Neste cenário – Marina encabeçando a chapa do PSB – as dificuldades estruturais descritas acima permaneceriam, mas, certamente, a capacidade de enfrentá-las seria outra. De qualquer forma, esses seriam alguns dos desafios imediatos colocados diante da aliança Campos-Marina. A forma como a dupla os enfrentará é o que vai definir qual o efeito concreto dessa união sobre a sucessão presidencial de 2014.

Por fim, vale a advertência de que boa parte das análises que temos visto desde sábado oscilam entre especulação e torcida. A ideia do fim da polarização entre PT e PSDB, por exemplo, ainda é uma possibilidade, mas não há nenhuma garantia de que venha mesmo ocorrer. Campos e Marina deram um passo – inteligente e arrojado – para consolidarem uma alternativa aos dois polos da política nacional. Mas foi apenas o primeiro passo e os demais não dependem apenas de suas vontades e habilidade política. PT e PSDB podem seguir polarizando a política nacional. Quem viver verá.

(*) Secretário-Geral do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e coordenador do Gabinete Digital.

Foto: José Cruz/ABr

Os heróis de Amarildo

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Os 10 sádicos não são uma exceção como se vai querer dizer. Eles não fugiram à cultura e tradição de sua instituição e não fizeram menos do que são estimulados a fazer, cotidianamente apoiados pelos discursos e pensamentos da sociedade brasileira. A sociedade brasileira legitima e aplaude a Guerra, afinal são pobres e negros a maioria dos 60 mil mortos por ano, a maioria inclusive com ficha policial, como é o costume dizer para se provar de que não se matou nenhum inocente.

Por Alberto Kopttike (*)

Nesse momento dez 10 policiais militares do Rio de Janeiro estão sendo injustamente punidos por torturarem e matarem Amarildo. Não que faltem provas para imputar cada um deles, um nexo concreto com os acontecimentos, afinal inclusive uma testemunha presenciou a sessão de tortura (e por isso teve que se mudar com toda a sua família para outro estado, protegida pela Polícia Federal). A injustiça reside no fato de que eles não poderiam ser punidos por fazerem aquilo para o que foram treinados e por terem executado exatamente o que a sociedade esperava que eles fizessem.

Ao invés de punidos, expulsos da PM e talvez até presos, deveria se erguer estátuas em homenagem aos 10 policiais que se expuseram ao risco de enfrentar os traficantes. Notícias deveriam estar sendo publicadas em suas defesas, discursos enfáticos deveria estar sendo proclamados nos Parlamentos país a fora, e alguns programas de TV, especializados no assunto, deveriam dedicar um programa especial para homenageá-los, com seus performáticos apresentadores descendo lágrimas em sua memória. Ruas e praças, ou melhor, Avenidas e Parques, deveriam receber os seus nomes e bustos, exatamente como se fez com os seus predecessores, os ditadores militares.

Como pode alguém ser punido por executar a sua missão?! Afinal no que pensavam enquanto faziam o corpo daquele negro se destroçar? Obviamente excluindo qualquer possibilidade de interesses escusos (o que seria por demais fantasioso) e pressupondo a boa fé dos policiais, pensavam eles que estavam cumprindo sua missão em nome da sociedade carioca e brasileira, de que estavam fazendo o que deles se esperava que fizessem, um teste de fogo para os mais novos demonstrarem que estavam aptos a vestirem aquela farda.

Os 10 sádicos não são uma exceção como se vai querer dizer. Eles não fugiram à cultura e tradição de sua instituição e não fizeram menos do que são estimulados a fazer, cotidianamente apoiados pelos discursos e pensamentos da sociedade brasileira. A sociedade brasileira legitima e aplaude a Guerra, afinal são pobres e negros a maioria dos 60 mil mortos por ano, a maioria inclusive com ficha policial, como é o costume dizer para se provar de que não se matou nenhum inocente.

O caso Amarildo, como tantos outros, não mudará em nada a hipócrita Guerra contra as Drogas. Seguirá a idéia de que se enchermos os cemitérios e presídios com os “vagabundos” vamos diminuir o número de pessoas que consomem às substâncias proibidas. Vamos continuar educando os jovens da periferia com safanões, tapas, coronhadas ou, quando necessário, choques, pauladas e tiros, para que eles saibam qual é o caminho certo a seguir.

Amarildo foi simplesmente mais um das dezenas que somem nas madrugadas das favelas do Brasil, torturados e mortos pelos seus desafetos com ou sem farda. O azar dos 10 policiais é que fizeram isso num raro momento de consciência da sociedade brasileira, em que o humanismo até pareceu se tornar uma realidade naquelas ruas cheias de jovens em junho.

Todos se mostrarão comovidíssimos com o bárbaro crime perpetrado pelos 10 policiais e exigirão a mais dura punição, mas continuarão defendendo a Guerra, na qual os algozes de Amarildo continuarão se considerando heróis, e não são?!

(*) Vereador (PT) em Porto Alegre