Das fake news à terra plana: pesquisador estuda ‘epidemia’ de ideias falsas que ameaçam o conhecimento e a democracia

Ernesto Perini Santos: “A dinâmica de produção do conhecimento tem que funcionar livre de constrangimentos”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

 A universidade está sob ataque. E não é só no Brasil. Centros de produção de conhecimento e comunidades de valores éticos e políticos que defendem a democracia, a liberdade de pensamento e o respeito às diferenças, elas se tornaram alvo da onda conservadora e de extrema-direita que atinge diversos países no mundo. A munição desse ataque conjuga o uso de fake news, informações falsas e crenças desprovidas de qualquer evidência, mas que funcionam como critérios identitários, com um mesmo objetivo: desmoralizar as universidades como centro produtores de conhecimento e de diversidade.

Para o pesquisador Ernesto Perini Santos, professor do Departamento de Filosofia, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o resultado conjugado desses ataques é desastroso para a produção do conhecimento. “Se a universidade perde a liberdade e passa a não funcionar mais com a sua própria dinâmica, nós perdemos a produção do conhecimento. A dinâmica de produção do conhecimento tem que funcionar livre de constrangimentos”, afirma.

Preocupado com o avanço obscurantista sobre a democracia, as universidades e contra a própria ideia de conhecimento, Ernesto Perini vem pesquisando alguns processos relacionados com o mundo das fake news, da pós-verdade e de crenças desprovidas de base evidencial como o terraplanismo, utilizando-se de conceitos da Filosofia da Linguagem, Espistemologia e Filosofia da Mente, suas áreas preferenciais de pesquisa. Em entrevista ao Sul21, ele avalia, entre outros temas, por que as pessoas passaram a tomar como verdadeiras coisas sobre as quais elas não têm evidência nenhuma e são completamente implausíveis. Para Ernesto Perini, essa proliferação pode ser comparada a uma epidemia: “O nosso problema em relação a coisas como o terraplanismo, o criacionismo ou o negacionismo em relação ao aquecimento global é quase um problema de epidemiologia de ideias”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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Manuela D’Ávila: ‘Acredito na nossa unidade em Porto Alegre’

Manuela D’Ávila: “eleições municipais vão jogar um papel muito grande na construção da resistência ao governo Bolsonaro”. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)

Na noite de segunda-feira, dia 18 de novembro, Manuela D’Ávila participou de um assembleia popular com moradores da Lomba do Pinheiro, um dos bairros mais populosos de Porto Alegre, localizado na região leste da cidade. Organizada em conjunto com o deputado estadual Edegar Pretto (PT), com a Rede Soberania, o jornal Brasil de Fato RS e Conselho Popular da Lomba do Pinheiro, a assembleia procurou ouvir moradores sobre os principais enfrentados na região e dialogar com lideranças políticas de partidos e movimentos sociais tendo em vista a construção de uma frente o mais ampla possível e de um programa para as eleições municipais de 2020. A iniciativa exemplifica o tipo e a dinâmica de campanha que Manuela pretende imprimir caso seja confirmada sua candidatura à Prefeitura de Porto Alegre.

Faltando pouco menos de um ano para as eleições municipais de 2020, a ex-deputada federal do PCdoB e candidata a vice-presidente na chapa de Fernando Haddad, nas eleições presidenciais de 2018, fala, em entrevista ao Sul21, da sua disposição em concorrer à Prefeitura da capital gaúcha. Manuela conta que esteve reunida, recentemente, com o PT e o PSOL, para conversar sobre a eleição do ano que vem. “Disse a eles que tenho disposição de concorrer à Prefeitura de Porto Alegre se esses partidos considerarem que o meu nome é aquele que reúne melhores condições de aglutinar mais setores da sociedade civil e de partidos políticos para vencer as eleições”. E acrescenta: “Eu não quero que o meu nome seja um obstáculo à aglutinação de forças políticas, mas se esses partidos considerarem que o meu nome pode aglutinar mais atores e setores sociais estou à disposição da minha cidade”.

Manuela D’Ávila propõe a realização de um Congresso da Cidade, que reúna não só partidos, mas a sociedade civil, para debater a construção de um programa e de uma frente unitária para disputar a Prefeitura. “Eu acredito na nossa unidade em Porto Alegre. Acho que os nossos partidos, o PCdoB, o PT e o PSOL, devemos nos sentar para conversar, junto com a sociedade civil, em busca dessa unidade. Eu tenho defendido a construção de um congresso da cidade, um espaço onde o debate ocorra não só entre os partidos. Não existe mais espaço para só os partidos debaterem entre si, sem a participação da sociedade civil”, defende. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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A ancestralidade como resistência: aldeias guarani cultivam sementes, mudas, cultura e conhecimento

Cacique José Cirilo, da aldeia Anhetengua, localizada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Foto: Luiza Castro/Sul21

Um grupo de aldeias indígenas Guarani vêm desenvolvendo, no Rio Grande do Sul, um projeto que tem como objetivo principal a conservação, a recuperação e o aumento da biodiversidade em suas aldeias. Implementado em parceria com o Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM), com apoio da Petrobras, o Projeto Ar, Água e Terra – Vida e Cultura Guarani, envolve a construção de viveiros de plantas nativas, intercâmbio de saberes, sementes e mudas entre as aldeias e a recuperação e reconversão de áreas degradadas por meio do plantio de espécies de uso tradicional na alimentação, medicina, arte e rituais.

Coordenado pelo cacique guarani José Cirilo e pela bióloga Denise Wolf, do IECAM, o projeto vem sendo implementado em uma área de mais de três mil hectares de biodiversidade da Mata Atlântica e dos Campos Sulinos (Pampa). Em sua terceira fase, a iniciativa já alcançou resultados como o cultivo e plantio de mais de 80 mil mudas para consumo alimentar do povo indígena, manejo e plantio de mais de 130 diferentes espécies vegetais e 50 hectares de terras degradadas recuperadas, entre outras ações.

Conheça as redes sociais do Projeto:
www.projeto.iecam.org.br 
facebook.com/ProjetoArAguaETerra/

A experiência de Denise Wolf com o povo guarani iniciou por volta de 1994 quando ela teve contato com alguns guaranis que viviam na aldeia Cantagalo, na divisa de Viamão com Porto Alegre. Bióloga de formação, ela diz que, a partir desse contato, se apaixonou pela cultura guarani, por sua visão espiritual e pela relação que eles mantinham com a natureza. Ela começou, então, de forma voluntária, a participar de oficinas sobre temas como uso de plantas medicinais e cultivo de plantas alimentícias. Um trabalho que acabou se desdobrando em outros projetos. Começaram a ser dados aí os primeiros passos para a construção do Projeto Ar, Água e Terra, implantado hoje em nove aldeias guarani no Rio Grande do Sul, abrangendo uma área de mais de três mil hectares.

Viveiro de mudas e sementes na aldeia Anhetengua. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Em 1997, o Instituto de Estudos Culturais e Ambientais, criado na época da conferência ECO92 e que, até então, só tinha realizado trabalhos no Rio de Janeiro, começou a atuar também em Porto Alegre, voltado para o estudo e desenvolvimento de projetos socioambientais, valorizando a recuperação de saberes tradicionais e da biodiversidade. Na época, os guarani manifestaram à equipe do instituto interesse em projetos para a valorização de sua cultura e de sua arte e também para garantir a sua segurança alimentar. Começaram a surgir projetos pequenos, com duas, três aldeias, voltados inicialmente mais para o artesanato, para a arte guarani. O projeto Ar, Água e Terra, relata Denise, começou a ser pensado a partir de relatos dos guarani sobre problemas como a indisponibilidade de matéria-prima dentro do próprio território.

“Eles iam cada vez mais longe para buscar taquara para fazer sua cestaria, já não tinham mais árvores como guajuvira ou cedro, cujos ramos também eram utilizados no artesanato. A partir desses relatos, pensamos a construção de um viveiro, algo que não faz parte da tradição guarani. Começamos a desenvolver, então, um projeto arquitetônico com padrões de construção sustentáveis. Minha irmã, que é arquiteta, desenvolveu voluntariamente junto com eles um projeto que incorporou elementos da cultura guarani, como a direção, os deuses e a orientação não só solar mas também espiritual. Também queriam que não fosse só um viveiro para multiplicar as plantas, mas um espaço onde pudessem realizar oficinas e outras atividades”.

A partir da implantação do viveiro, surgiu um novo desafio, conta Denise. “A gente não podia, em primeiro lugar, utilizar, para recompor ambientes degradados, espécies que não fossem importantes para eles. Fizemos então um levantamento das 90 espécies mais importantes para eles na alimentação, no artesanato, na medicina, na construção de instrumentos musicais e nas suas cerimônias sagradas. Todas elas são espécies nativas que eles usam tradicionalmente. Junto com isso, veio o tema da segurança alimentar. A gente não podia trabalhar com a recuperação de áreas degradadas sem pensar a questão da alimentação, sem plantar milho, mandioca, batata doce e outras espécies. Um dos eixos do projeto, assim, foi o fortalecimento das roças tradicionais familiares, algo que eles fazem há milhares de anos e continuam fazendo”. As sementes são conservadas pelos próprios indígenas e trocadas entre as aldeias. Além disso, o projeto também envolve temas como etnomapeamento, gestão territorial, compostagem, reciclagem e adubação verde.

Em sua terceira fase, o projeto é realizado com nove aldeias guarani em oito municípios do Rio Grande do Sul: Teko’a Anhetengua (Aldeia da Verdade), em Porto Alegre; Teko’a Nhuu Porã (Aldeia Campo Bonito, Campo Molhado), em Caraá, Maquiné e Riozinho; Teko’a Ka’aguy Pau (Aldeia Vale das Matas), em Caraá e Maquine; Teko’a Kuaray Rese (Aldeia Sol Nascente), em Osório; Teko’a Nhuu Porã (Aldeia Campo Bonito), em Torres; Teko’a Yriapu (Aldeia Som do Mar), em Palmares do Sul; e Teko’a Nhuundy (Aldeia do Campo Aberto, Capinzal), em Viamão.

Denise Wolf, do IECAM: “as sementes são conservadas pelos próprios indígenas e trocadas entre as aldeias”. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Um conhecimento ancestral milenar

O cacique José Cirilo, da Teko’a Anhetengua, conta que o projeto nasceu, por volta do ano 2000, da inspiração dos mais velhos, dos líderes espirituais do povo guarani. “Eles sonharam que tem campo onde dá pra plantar ou dá pra fazer semente e reflorestamento. Procuramos algumas entidades para nos ajudar a conseguir financiamento e aí começamos essa construção do reflorestamento. Hoje, todas as aldeias estão plantando. Alguma planta que não tem aqui, podemos trazer de outra aldeia. Plantamos frutas nativas como guavira, pitanga, araçá e várias outras que também servem como remédio. A gente come as frutas e ao mesmo tempo faz chá com as folhas e com a casca do tronco para curar dor de barriga, tosse e outras doenças”.

Além da questão ambiental e alimentar, esse trabalho envolve também a preservação e reprodução de conhecimentos ancestrais do povo guarani. “Esse projeto nos ajudou a trazer de novo a espiritualidade e um conhecimento ancestral milenar. Também ajudou a trazer muitos passarinhos que a gente nunca via. Agora estamos preocupados em garantir a continuidade desse projeto. Muitas vezes, o não indígena trabalha com prazos de um ano, dois anos, para fazer esses projetos. Quando a gente quer fazer mais, terminou o projeto. Estamos lutando para poder garantir a continuidade do que estamos fazendo aqui”, diz Cirilo, mostrando o viveiro de mudas de sua aldeia, onde trabalham dois monitores guarani cuidando das sementes e das mudas que depois são trocadas em outras aldeias.

Ao falar sobre o sentido mais amplo desse projeto, o cacique Cirilo destaca que não se trata exatamente de um trabalho de resgate de cultura e de conhecimentos ancestrais. “Não é resgatar. Resgatar é quando você perde e depois traz de novo. Na verdade, não é isso que fazemos. Nós guardamos tudo isso na nossa mente e quando tem espaço a gente larga tudo pra fora. Por isso eu não uso a palavra “resgatar”. É uma ancestralidade contínua”. Esse sentido de continuidade de um conhecimento ancestral ajuda o povo guarani também a enfrentar as conjunturas adversas sob as quais vivem desde a chegada do homem branco em suas terras, que resultou em morte, destruição e perda de territórios. Questionado sobre o impacto da atual conjuntura na vida dos povos indígenas, Cirilo fala sobre a importância da preservação do conhecimento ancestral como fator de resistência:

“É difícil mas a gente vive. Continua vivendo fortalecendo nossos costumes, nossa tradição e nossa língua. Procuramos manter nossa cultura. Se a gente fica pensando só na conjuntura política, acaba ficando enfraquecido, deprimido. Não é de agora que a gente sofre esse ataque. Desde que os brancos chegaram na América, começaram a matar o índio com armas de fogo e com doenças. Agora matam com a ponta da caneta. Mas a gente não fica pensando nisso o tempo todo, senão fica doente”.

Na Teko’a Anhetengua, vivem 22 famílias, com 102 pessoas. Foto: Luiza Castro/Sul21

Os guarani procuram colocar essa visão em prática na vida cotidiana da aldeia. Na Teko’a Anhetengua, localizada na região da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, vivem 22 famílias, com 102 pessoas. “Vivemos aqui há 23 anos numa área de 25 hectares. Temos uma escola bilíngüe, de ensino fundamental e médio, onde o diretor é guarani. Também temos um postinho de saúde. Agora estamos enfrentando o problema da moradia. Vivemos do artesanato e de algumas outras fontes de renda. Alguns professores já têm renda. A merendeira é guarani. O agente de saúde também é guarani. A gente vive assim, nunca perdendo o costume de viver e a língua materna. Devagarinho estamos conquistando algumas coisas”.

Esse trabalho de preservação e fortalecimento da cultura e dos conhecimentos ancestrais do povo guarani envolve também uma relação particular com animais considerados sagrados por eles. A aldeia Anhetenguá obteve autorização para criar, de forma tradicional, um casal de queixadas (koxi), animal sagrado para os Mbyá Guarani. “Conseguimos dois filhotes (oriundos do Parque Zoológico da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul). A gente lutou bastante pra isso. Tivemos que fazer uma cerca e cumprir uma série de regras para que o Ibama liberasse”, conta o cacique Cirilo, destacando o simbolismo desses animais para a vida da aldeia. “É um animalzinho sagrado pra nós. Ele é uma força da nossa espiritualidade que traz felicidade, ânimo, luz e harmonia para a aldeia”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Assembleia do CPERS lota Praça da Matriz e promete greve histórica no RS

Assembleia Geral do CPERS lotou Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)

O governador Eduardo Leite disse que não contribuímos com o pacote. Tu não pede para quem está sendo enforcado que contribua para o enforcamento. Não pede para o professor pagar o próprio salário. Não pede para o educador ajudar com a destruição e privatização da escola pública. O governador quer guerra. É greve que ele vai ter! Eles verão a maior greve que esse Estado já teve”. Com essas palavras, a professora Helenir Aguiar Schürer, presidente do CPERS Sindicato, resumiu o espírito da categoria para enfrentar as políticas do governo Eduardo Leite (PSDB). Se a assembleia geral realizada na manhã desta quinta-feira (14), em frente ao Palácio Piratini, servir como indicativo da mobilização da categoria, a greve convocada para iniciar na próxima segunda-feira (18) promete iniciar forte. A Praça da Matriz e os arredores do Palácio Piratini e da Assembleia Legislativa foram tomados por trabalhadores em educação vindos de dezenas de municípios do Estado.

A assembleia serviu para definir a composição do comando de greve e discutir estratégias de mobilização. A proposta da greve já havia sido aprovada, dia 8 de novembro, na reunião do Conselho Geral do CPERS que contou com a participação de representantes dos 42 núcleos do sindicato. Além de protestar contra a política de arrocho e parcelamento salarial, a mobilização dos educadores também repudia as propostas de alteração do Plano de Carreira do Magistério, do Estatuto dos Servidores e da Previdência Estadual.

“É impensável que o Estado, após cinco anos promovendo uma brutal política de arrocho, queira cortar mais fundo na carne dos educadores e educadoras, aposentados e na ativa. O governo pretende destruir a carreira, prorrogar o arrocho salarial por anos, retirar direitos e confiscar o dinheiro dos aposentados que recebem menos”, diz uma carta assinada por diretores e vice-diretores de escolas da rede estadual encaminhada ao governador Eduardo Leite.

Na assembleia desta quinta-feira, a presidenta do CPERS lembrou que o governador Eduardo Leite, justo no dia de uma das maiores mobilizações de servidores públicos dos últimos meses, decidiu viajar para Nova York. O sindicato contestou a fala de Leite defendendo que o governo sempre esteve aberto ao diálogo com a categoria. O CPERS assinala que cobrou por diversas vezes a retomada da mesa de negociações iniciada no dia 29 de abril e interrompida pelo governo após dois encontros. Essa mesa começou a debater o pagamento dos salários em dia, a reposição emergencial de 28,78% e a realização de concursos públicos.

“Leite sequer respondeu o último ofício enviado pelo Sindicato, que solicitava um retorno até 3 de julho, rompendo efetivamente as tratativas. Passados três meses, convocou o Sindicato não para tratar da pauta acordada, mas para apresentar medidas diametralmente opostas às reivindicações originais”, critica o CPERS.

Helenir Aguiar Schürer, presidente do CPERS Sindicato. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)

Tramitação dos projetos na Assembleia

Deputados da base do governo Eduardo Leite protocolaram, na tarde de quarta-feira, na Assembleia Legislativa, os projetos do Poder Executivo que tratam da reestruturação da Previdência e das carreiras do funcionalismo público. Na manhã do mesmo dia, o governador Eduardo Leite apresentou aos deputados e lideranças partidárias a versão final do conjunto de propostas. São oito projetos, sendo uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), um Projeto de Lei (PL) e seis projetos de lei complementar (PLC). Todos os projetos foram protocolados em regime de urgência, exceto a PEC, que tem tramitação diferenciada e exige votação em dois turnos. O regime de urgência exige a tramitação e votação em plenário em prazo de 30 dias após a realização do protocolo. Como as sessões plenárias ocorrem apenas nas terças, quartas e quintas-feiras, a data prevista para votação destas matérias seria a partir de 17 de dezembro. Já a PEC tem prazo mínimo de 45 dias para votação, e deve ser apreciada apenas no início de 2020.

A partir de segunda-feira, o CPERS pretende intensificar as conversas com a Assembleia Legislativa e com câmaras de vereadores para alertar sobre as consequências do pacote de Eduardo Leite para a educação e outros setores do serviço público. Até quarta-feira (13), Câmaras Municipais de 68 cidades gaúchas já tinham debatido e aprovado moções de apoio aos educadores ou de repúdio às alterações no Plano de Carreira do Magistério, no Estatuto dos Servidores e na Previdência do Estado. Em Caxias do Sul, por exemplo, a moção foi aprovada por 19 votos a zero com o apoio de siglas como PSB, PTB, PP, PSD, MDB e Solidariedade.

Nota da Atempa

A Associação dos Trabalhadores em Educação de Porto Alegre (Atempa) divulgou nota manifestando apoio à mobilização dos professores da rede pública estadual contra o pacote do governo Eduardo Leite. A nota afirma que o funcionalismo público vem sendo atacado de forma brutal em todos os níveis de administração pública. “Marchezan, Leite e Bolsonaro querem acabar com os nossos direitos. Precisamos nos organizar coletivamente, para barrar esses ataques. Precisamos ser solidários”, afirma a nota. E acrescenta: “Este pacote significa o desmonte do serviço público estadual e aprofunda a precarização na vida das e dos trabalhadoras/es públicas/os, que vêm sofrendo, com salários parcelados, atrasados e sem reajustes”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Flavio Koutzii: “A balança mudou na America Latina e isso não é pouca coisa”

Flavio Koutzii: “Estamos sendo contemporâneos dos primeiros e valiosíssimos sinais de uma nova virada política na América Latina”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O resultado das recentes eleições na Argentina e na Bolívia e a rebelião popular que explodiu no Chile contra as políticas neoliberais aplicadas no país há algumas décadas fizeram o tabuleiro político e geopolítico da região se mover. Após acumular pesadas derrotas nos últimos anos, especialmente no Brasil e na Argentina, a esquerda da região vê o renascimento de possibilidades que pareciam soterradas pelos escombros deixados pelo avanço do conservadorismo na região, em especial pela eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. O movimento tectônico foi acusado pela própria direita. Na semana passada, Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, ameaçou a esquerda brasileira de reeditar políticas como a do Ato Institucional n.5 (AI-5), que marcou o recrudescimento da repressão, da censura e da tortura na ditadura pós-64, caso ela pretenda “seguir o exemplo chileno”.

Acuado por novas denúncias envolvendo o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ), o governo Bolsonaro, seja pela voz do presidente ou de um seus filhos, vem elevando o tom de suas manifestações favoráveis a medidas autoritárias que nem mais buscam algum disfarce. A raiva do discurso da extrema-direita brasileira só cresceu a partir dos recentes acontecimentos na Argentina e no Chile. “O encontro entre os surtos autoritários do governo Bolsonaro e a nova onda política e social na América Latina, representada pelas vitórias eleitorais na Argentina e na Bolívia e pela rebelião popular no Chile, indica que o que está em curso nesta etapa é a disputa por um cenário maior. Estamos sendo contemporâneos dos primeiros e valiosíssimos sinais de uma nova virada política na América Latina”, avalia Flavio Koutzii, ex-deputado estadual, pelo PT, ex-chefe da Casa Civil do Governo Olívio Dutra e ex-preso político na Argentina, onde participou da luta armada contra a ditadura.

Koutzii acompanha há algumas décadas a política brasileira e argentina em especial, seja como militante político, seja como um analista que não costuma deixar suas preferências políticas iludir seus prognósticos. Em entrevista ao Sul21, ele atualiza um balanço sobre a atual conjuntura política, à luz dos mais recentes acontecimentos no Brasil e na América do Sul. E a balança da análise pende para um discreto otimismo: “Eu tenho estado bastante cético a respeito dos cenários de futuro, pois perdemos muito e tivemos uma grande regressão no código de valores. Estamos assistindo, de certa maneira, a uma revalorização da política, a uma volta da política. No centro do desenlace dos processos que vemos hoje em países como a Argentina ou o Chile está a política em seu sentido social e não o perigo do Satanás”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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O que fazer quando a sensação é de que o futuro acabou? Escritor resgata o papel da arte em situações-limite

Flavio Aguiar: “A arte pode nos ajudar a lidar com essas situações-limite de modo a transformá-las em um horizonte”. (Foto: Marco Weissheimer)

Em diferentes momentos da história da humanidade, a arte revelou-se capaz não só de superar situações-limite de extrema adversidade, mas também de transformá-las em horizontes de criação, de liberdade e de resistência contra situações opressivas. Escritor e professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), Flavio Aguiar escolheu três desses momentos para refletir sobre o papel da arte no horizonte das situações-limite. Vivendo em Berlim desde 2007, Flavio Aguiar esteve em Porto Alegre no início de outubro e apresentou essa reflexão em uma palestra realizada no Studio Clio. Em entrevista ao Sul21, ele falou sobre a natureza dessas intervenções artísticas e sobre os aprendizados que elas trazem em um momento onde o Brasil atravessa não uma, mas uma sucessão de situações-limite.

Para fazer essa reflexão, o escritor escolheu três situações que giram em torno da ascensão, do apogeu e do declínio do nazismo, na Alemanha. A escolha tem um olhar também no presente, destaca: “Penso que essas situações podem nos ensinar coisas relacionadas à situação que estamos vivendo, cujo pior efeito (que a nossa geração viveu durante o período da ditadura pós-64) é a sensação de que o futuro acabou, de que não há mais futuro e que essa situação limite vai perdurar pra sempre. Vivemos isso no período pós AI-5, com a destruição de toda a oposição à ditadura, inclusive da luta armada. Houve anos, no início da década de 70, em que parecia que mais nada iria acontecer no Brasil. No entanto, não foi assim. Muita coisa rolou e, agora, chegamos de novo a uma situação limite”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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Neoliberalismo e contra-insurgência: como a era digital, com nossa colaboração, constroi regime de vigilância e repressão

Bernard Harcourt: Sistemas de coleta de dados não nos dão a verdade, mas um sistema de exercício de poder e de dominação. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Em março de 1968, após a publicação de “As Palavras e as Coisas”, Michel Foucault falou em uma entrevista sobre como estava em curso a criação de uma sociedade de notação e de monitoramento. Algumas décadas antes do surgimento da internet e das redes sociais, Foucault identificou traços de um fenômeno que acabou assumindo dimensões globais e, hoje, atravessa as nossas vidas de modos que sequer percebemos bem. No final da década de 60, o filósofo francês identificou o surgimento de uma sociedade onde tudo estava sendo registrado, o inconsciente, a sexualidade, sonhos, desejos, praticamente todas as dimensões da vida diária das pessoas. Uma das características da cultura contemporânea, assinalou, era o desenvolvimento de um sistema de notação universal.

Professor de Direito e de Ciência Política na Columbia University, de Nova York, Bernard Harcourt iniciou sua conferência, segunda-feira à noite (21), no 10º Congresso Internacional de Ciências Criminais, citando essa reflexão de Foucault que, em certo sentido, antecipou características que hoje se tornaram marcas de uma sociedade cada vez mais digital. O regime de datação universal vem sendo potencializado ao máximo pelas novas possibilidades tecnológicas. Trata-se de saber tudo, sobre cada um de nós, o tempo todo. Com o Teatro do prédio 40 lotado, Harcourt abriu o ciclo de conferências do Congresso promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUC/RS, que tem como tema “Memória e Ciências Criminais”.

O mundo que está sendo construído nesta nova era digitalizada, no entanto, ao invés de promessas de emancipação, vem se apresentando com um horizonte sombrio onde a vigilância e a repressão por parte do Estado são práticas cotidianas e crescentes. Essa nova era digitalizada, afirmou Bernard Harcourt, capturou os circuitos políticos, sociais e profissionais, embutindo uma nova tecnologia de notação que permite uma exploração de dados pessoais permanente, insidiosa e invasiva. Todos, rigorosamente todos os nossos movimentos na internet, destacou, são anotados e organizados. Do mais simples ‘like’ de uma postagem no Facebook às pesquisas que fazemos no Google, tudo está sendo registrado, gerando dados, perfis e algoritmos.

Muita gente, assinalou o professor e pesquisador da Columbia University, descreve essa era como uma via que amplia os nossos acessos à verdade. Para Harcourt, porém, estamos longe disso. Pior, talvez na direção oposta. Esses sistemas de coleta de dados, defendeu, não nos dão a verdade, mas um sistema de exercício de poder e de dominação. A situação se agrava na medida em que tudo isso ocorre com a nossa entusiasmada colaboração. Vivemos uma sociedade expositiva, onde nós expomos livremente nossas informações mais íntimas e pessoais a um complexo sistema de segurança. Citando mais uma vez Foucault (“A Sociedade Punitiva, 1973) e Guy Debord (“A Sociedade do Espetáculo”), Harcourt observou que um dos traços definidores da modernidade é a transformação do espetáculo em vigilância.

Abertura do 10º Congresso Internacional de Ciências Criminais lotou Teatro do prédio 40, da PUC-RS. Foto: Luiza Castro/Sul21

No final da década de 1970, Foucault começou a trabalhar com as ideias de biopolítica, biopoder e pesquisas novas formas de vigilância e segurança. Hoje, apontou ainda Harcourt, temos uma nova forma de poder, o poder expositivo, concedido por nós mesmos generosamente. Não somos mais forçados a entrar numa arena ou numa cela para sermos vigiados. “Estamos nos expondo de forma espontânea. Nós, sujeitos digitais, nos expomos em frenesi”, disse o pesquisador. Cada clique no computador, cada site visitado, conteúdo curtido ou compartilhado está alimentando um complexo sistema de segurança onde os interesses de empresas privadas e do Estado estão entrelaçados. Quando a Microsoft colabora com a NSA (agência nacional de segurança dos Estados Unidos) ou com o FBI, observou, não estamos lidando apenas com o Estado. Este amálgama de interesses forma uma concentração oligárquica com um poder que desafia todos os limites democráticos construídos ao longo do século 20. Cada vez mais essas tecnologias alimentam um sistema de segurança e de vigilância.

Autor do livro “The Counterrevolution. How Our Government Went to War Against Its Own Citizens”, Bernard Harcourt vem pesquisando sobre como essa sociedade de exposição digital permanente representa o primeiro passo para a construção de uma nova política de contra-insurgência nos Estados Unidos e em outros países, que já está orientando a ação das forças de segurança. Estamos assistindo, defendeu, ao surgimento de um novo modelo de governo baseado na teoria e na prática da contra-insurgência. Não se trata apenas de uma passagem do Estado de Direito para um Estado de Exceção, alertou, mas da construção de um regime onde o campo de batalha onde se dá a aplicação de táticas de guerra de contra-insurgência não tradicionais é a própria população.

Esse modelo, afirmou ainda Harcourt, vem sendo construído desde antes dos atentados de 11 de setembro e tem nos serviços de inteligência seu alicerce principal. O alvo potencial desses serviços de inteligência é qualquer habitante do planeta. E as táticas de contra-insurgência envolvem desde o uso de drones para eliminar inimigos, militarização crescente do policiamento, distrações digitais de toda ordem e táticas de convencimento para ganhar corações e mentes.

Com o governo de Donald Trump, o desenvolvimento desse novo modelo de governo anda de mãos dadas com o que o pesquisador chamou de “contra-revolução americana”, uma mistura tóxica de supremacia branca, fascismo tradicional e grupos inspirados em novos movimentos europeus de extrema-direita. O pesquisador chamou a atenção para o fato de o discurso de Trump estar direcionado a alimentar essa nova direita americana, com ideias simples como a de que a heterossexualidade dos brancos estaria em perigo. Trump, como vem ocorrendo também no Brasil com Bolsonaro, se dirige a essa base de direita que está cada vez mais radicalizada. “Estamos assistindo nos Estados Unidos, em tempo real, supremacistas brancos definirem a agenda da presidência da República”, resumiu.

Zeynep Gambetti: “Deixar alguém morrer pode ser exprimido hoje por meio de um discurso moralista que afirma que certas pessoas não merecem viver”. Foto: Luiza Castro/Sul21

Segunda conferencista da noite, Zeynep Gambetti, professora de Teoria Política na Ubiversidade de Bogazici, em Istambul, Turquia, também abordou a emergência de discursos e práticas racistas, sexistas e xenófobas, que alimentam e estimulam o ódio, e a crescente presença delas em governos como os de Erdogan, na Turquia, Trump, nos Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil. A xenofobia, destacou, está alimentando políticas baseadas no medo e no ressentimento e aumentando a repressão contra aqueles grupos sociais que são apontados como inimigos. As políticas e discursos desses governos, acrescentou, estão descartando as contenções jurídicas e éticas e justificando ‘limpezas’ internas e expansões externas.

Para a pesquisadora, que teve o livro “Agir em Tempos Sombrios” recentemente publicado no Brasil pela editora Criação Humana, estamos assistindo também à emergência de um pós-fascismo, que não é meramente uma reedição do fascismo histórico com outra roupagem. Esse pós-fascismo, defendeu Zeynep Gambetti, é plenamente compatível com a antropologia neoliberal que prega a competitividade baseada no mérito e a destruição dos ‘fracos’ e ‘fracassados’. Os perdedores, resumiu, são a nova categoria dos não-humanos. Ela levantou algumas interrogações para refletir sobre a natureza do pós-fascismo: Por que é mesmo que o fascismo precisa de um Estado para funcionar hoje? Será que esse regime precisa que as massas participem de grandes marchas nas ruas quando há um exército de trolls à disposição nas redes sociais? “Trump foi levado ao poder graças à fama que construiu na TV e não por um movimento fascista. A comparação aqui é mais com Berlusconi do que com Mussolini”, afirmou.

Os processos de limpeza étnica, acrescentou, não precisam mais usar gás venenoso. Podem adotar práticas de check-point, como na Palestina, de detenções indefinidas, como ocorre em Guantánamo, ou de incêndios em florestas como está ocorrendo na Amazônia, como forma de deslocar populações tradicionais e abrir novos territórios de exploração. Em todas essas práticas, destacou Zeynep, há um nexo entre biopolítica, segurança e neoliberalismo. Para ela, a criação de inimigos existenciais é um traço definidor desse nexo, que pode se expressar por matanças diretas ou por massacres terceirizados, como é o caso dos incêndios na floresta amazônica. “Deixar alguém morrer pode ser exprimido hoje por meio de um discurso moralista que afirma que certas pessoas não merecem viver”.

O desenvolvimento do neoliberalismo no século 21, defendeu ainda, vem sendo marcado pelo avanço da terceirização e da individualização generalizada do risco, que não é só econômico, mas se manifesta em ampla gama de incertezas que passam a fazer parte do cotidiano das pessoas. Na opinião da pesquisadora, há fenômenos semelhantes ocorrendo em diferentes regiões do planeta. Ela comparou, por exemplo, as realidades vividas hoje na Turquia e no Brasil. “Vejo muitas semelhanças. As noções de igualdade e de solidariedade firam retiradas dos nossos códigos de conduta e fomos contaminados por noções como a de os fracos não valem a pena”.

Zeynep citou três episódios ocorridos na Turquia que, para ela, ilustram o caráter do pós-fascismo no século 21. Em setembro de 2015, o governo impôs uma regra de emergência à população curda que vive na Turquia e bombardeou suas cidades. A Europa, lembrou a pesquisadora, endossou esses ataques onde ocorreram muitas mortes e violações de direitos. Ao mesmo tempo que promovia esse ataque, o governo turco anunciou um plano de US$ 4 bilhões para reconstruir as cidades que estavam sendo destruídas. Os curdos foram removidos de seus lares para dar lugar a refugiados sírios. O negócio da guerra aconteceu praticamente ao mesmo tempo em que as bombas caíam na região.

O segundo episódio ocorreu em agosto de 2016, quando houve uma tentativa fracassada de golpe de Estado. Isso provocou uma grande ofensiva do governo turco contra opositores que, entre outras coisas, atingiu mais de 4.500 professores e fechou 15 universidades. As perseguições a professores envolveram demissões, confisco de passaportes e mesmo de propriedades. Cerca de 800 acadêmicos (Zeynep entre eles) que assinaram um manifesto em defesa da paz foram processados e acusados de terrorismo, entre outras coisas. Por outro lado, acrescentou, hoje há uma proliferação de universidades privadas na Turquia, pertencentes a homens de negócios aliados do partido no poder.

O terceiro exemplo é o que está ocorrendo agora com a invasão do norte da Síria por tropas turcas. Segundo ela, deve-se olhar esse movimento, não só como uma ação política, mas também como um negócio. “O que justifica essa ação neste momento? Não houve nenhum ataque terrorista vindo dessa região curda na Síria. Por que atacar então? Na verdade, não há necessidade de uma justificação. A ação se justifica por si mesma. Se a Turquia entrou na Síria é porque deve haver alguma razão. A regra foi inventada pelo próprio ato”. Ao mesmo tempo que invade a Síria, Erdogan tem um projeto imobiliário gigantesco para colocar cerca de 2 milhões de refugiados sírios naquela região. Estimado em cerca de US$ 53 bilhões de dólares, o projeto quer construir 140 vilas e dez cidades no território onde hoje estão os curdos. E esse projeto, destacou Zeynep, foi planejado antes da incursão militar, constituindo-se em mais um exemplo da tática neoliberal de usar guerras e desastres como meio para obter novos lucros.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Governadora relata mortes, prisões, desaparecidos, repressão e censura no Equador

Paola Pabón, governadora da província de Pichincha (Divulgação)

O Equador vive uma situação de convulsão social que foi detonada pelo anuncio feito, há onze dias, pelo presidente Lenin Moreno, de um pacote de medidas resultantes de um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que incluem, entre outras coisas, um aumento de 120% do preço do diesel e da gasolina. Os protestos, que iniciaram com trabalhadores do setor dos transportes e estudantes ganharam apoio dos povos indígenas que convocaram uma grande mobilização nacional e uma caminhada em direção a Quito. A resposta do governo de Lenín Moreno foi uma dura repressão que já resultou na morte de pelo menos sete pessoas, centenas de feridos e mais de mil pessoas presas.

 “Se há um responsável pelos protestos ele é o regime de Moreno que deu às costas à cidadania ao anunciar essas medidas para satisfazer um acordo com o Fundo Monetário Internacional. Os únicos responsáveis por esse caos, instabilidade e forte convulsão social são o regime do presidente Moreno e o Fundo Monetário Internacional”, diz Paola Pabón, governadora da província de Pichincha, localizada no norte do país. Advogada e professora de Políticas Públicas, Paola Pabón participou do governo de Rafael Correa como Secretaria Nacional de Gestão da Política e integra hoje o Movimento Revolución Ciudadana (MRC). Em conversa com o Sul21, por meio do Whatsapp, a governadora relata um clima de repressão brutal patrocinada pelo governo de Lenín Moreno e de bloqueio informativo sobre o que está acontecendo no país. Ela relata:

 “Após onze dias de paralisação e protestos, o saldo que temos é de 1070 pessoas presas, das quais se calcula que aproximadamente 55% são menores de 30 anos e 13% são adolescentes. Há 885 feridos. O governo reporta a morte de cinco pessoas, mas as organizações sociais falam que há sete mortos já. A resposta do governo nacional a essa grave convulsão social foi a de decretar estado de exceção, toques de recolher e uma desmesurada violência”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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‘Sem terrinha’ defendem direito à educação pública de qualidade no campo

Sem Terrinha lotaram auditório do Memorial do legislativo em defesa do direito de ter uma educação pública de qualidade no campo. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)

A educação no campo é um direito, não uma esmola. Essa frase atravessou todo o ato em defesa do direito das crianças à escola do campo pública e de qualidade, realizado na manhã desta sexta-feira (11), no Memorial do Legislativo do Rio Grande do Sul, pelo Setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O salão localizado no primeiro andar no prédio do Memorial ficou lotado de sem terrinhas que estão participando do 19° Encontro Regional das Crianças Sem Terrinha, no Assentamento Capela, em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Os sem terrinha que participam desse encontro já representam a terceira geração de sem terra desde que o movimento começou a se organizar no Rio Grande do Sul.

O ato no Memorial foi marcado por muita emoção e simbolismos. As crianças protagonizaram uma pequena peça teatral na abertura do encontro, onde um cabo de guerra opôs representantes do capital que tentavam destruir as escolas públicas do campo e alunos e professoras das escolas defendendo as escolas e o direito de as crianças terem uma educação pública de qualidade no campo. Os sem terrinha participaram ativamente da disputa e celebraram a vitória das escolas. Em seguida, as crianças ouviram o testemunho de Zoia Prestes, convidada especial para o evento. Filha de Luiz Carlos Prestes, Zoia é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em pedagogia e psicologia pré-escolar pela Universidade Estatal de Pedagogia de Moscou e doutora em educação pela Universidade de Brasília (UnB).

Zoia Prestes, filha de Luís Carlos Prestes, contou para as crianças um pouco de sua história de vida. Foto: Giulia Cassol/Sul21

A educadora contou para as crianças a origem do seu nome, pouco usual para os padrões da língua portuguesa. “Foi uma homenagem que meus pais decidiram fazer a uma guerrilheira soviética de 18 anos que morreu na Segunda Guerra Mundial. Ela explodiu um depósito de munições dos alemães, foi presa, torturada e enforcada pelos alemães. Ela se chamava Zoia, um nome que é comum na Rússia”. Zoia viveu muitos anos na antiga União Soviética, onde Luis Carlos Prestes e Maria Prestes viveram anos exilados, e foi alfabetizada em russo. Ela também contou um pouco da história da Coluna Prestes, da qual seu pai foi principal protagonista. “Uma das demandas da Coluna era justamente a educação pública, gratuita e de qualidade. E nossa luta pela educação não está desvinculada da luta pela terra. Uma das lições que trago da minha trajetória é nunca desistir da luta. Estudar e conhecer é fundamental para essas lutas e para as nossas vidas”.

Em seguida, sem terrinha de vários assentamentos do Estado falaram um pouco dos problemas que enfrentam em seu cotidiano escolar. Em praticamente todos os relatos, um problema apareceu de modo recorrente: as más condições das estradas no interior e como isso impacta o transporte escolar. Felipe, de Nova Santa Rita, disse que uma das principais dificuldades que sua escola enfrenta são as estradas ruins para o ônibus do transporte escolar. Vitor Angelo de Bortoli, de Pontão, contou que sua escola está organizada em núcleos de pesquisa e núcleos de trabalho que têm na agricultura familiar um dos principais temas de atuação. Além dos problemas envolvendo o transporte escolar, as crianças expressaram sua vontade de seguir vivendo no campo e defenderam a melhoria das condições gerais de infraestrutura e de equipamentos das suas escolas.

Foto: Giulia Cassol/Sul21

Maria, do Assentamento Ibicuí, fez a leitura da carta dos sem terrinha, por “Terra, Escola e Dignidade”, que foi entregue para representantes da Assembleia Legislativa (deputado Edegar Pretto e deputada Sofia Cavedon, ambos do PT), representantes do Ministério Público Estadual, da Defensoria Pública, do Conselho Estadual de Educação, do CPERS Sindicato e de outras entidades que participaram do ato. Na carta, as crianças defendem o direito a uma educação pública de qualidade no campo, a melhoria das condições das estradas e da infraestrutura para o funcionamento das escolas, acesso à internet, instalação de laboratórios, melhores salas de aula e o direito a ter um currículo que dialogue com a realidade do campo. Segue abaixo a íntegra da carta:

Carta das Crianças Sem Terrinha

“Nessa historia nos somos os sujeitos, lutamos pela vida e o que é de direito!”

Nós, crianças Sem Terrinha do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra/RS, juntamente com toda a família do MST, neste 19º Encontro Estadual, debatemos o Direito à Infância, a educação pública de qualidade e a realidade das Escolas do Campo nas áreas de Reforma Agrária.

Somos filhos e filhas de uma história de luta. Nossos pais nos ensinaram que a terra onde produzimos nossos alimentos, a casa onde moramos a escola onde estudamos foram conquistados com muita luta coletiva. Completamos 25 anos de realização de Encontros das Crianças Sem Terrinha.

Ainda não temos as condições necessárias nos nossos assentamentos; nosso direito a escola de qualidade é negado!

Nossa vida escolar é prejudicada pelas más condições das estradas que quando chove o transporte escolar não circula. Por vezes ficamos 3 dias da semana sem aulas em vista das situações das estradas. Também faltam infraestrutura nas escolas e não temos biblioteca, laboratórios e até sala de aula; não temos rede de internet, chove dentro da escola.

Os nossos assentamentos não recebem manutenção nas estradas o que acarreta a perca da produção; faltam incentivo a espaços culturais, esportivos, postos de saúde, bem como, falta incentivo para a produção orgânica e agroecológica.

Queremos viver no campo e para isso a escola precisa ter condições de estudo e ensino com qualidade e que o trabalho e a produção do campo seja valorizado.

Nossas escolas necessitam ter melhores condições:

– Reformar os prédios existentes e construir quadras de esportes (cobertas) para termos espaço para diversas atividades; refeitórios; aumentar as salas de aula pois não dão conta da demanda

– Garantir um currículo que dialogue com a realidade do campo, que valorize o trabalho camponês e que desenvolva as diversas linguagens artístico- culturais;

– Ter formação para os educadores das escolas do Campo;

– Garantir a contratação de professores para suprir a demanda de o trabalho nas escolas, bem como o quadro de funcionários: secretária, bibliotecário;

– Rever o valor de contrato de transporte escolar com as prefeituras municipais; Fiscalizar as condições do transporte escolar; aumentar a linhas de transporte;

– subsidiar projetos de experiência agroecológica e cuidado com o meio ambiente;

SEM TERRINHA EM MOVIMENTO: POR TERRA ESCOLA E DIGNIDADE!

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Lançada Frente em Defesa da Soberania Nacional: ‘nossas diferenças são secundárias’

Ato de lançamento da Frente em Porto Alegre reuniu partidos, entidades sindicais, estudantis e movimentos populares. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Construir a unidade de todas as forças democráticas, movimentos populares e organizações da sociedade civil para enfrentar o desmonte do Estado brasileiro e da Constituição de 1988, pelo governo Jair Bolsonaro, e defender a soberania nacional e os direitos que estão sendo destruídos neste processo. Esse é o objetivo estratégico da Frente em Defesa da Soberania Nacional que foi lançada na noite desta segunda-feira (7), em Porto Alegre, em um ato que lotou o auditório da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras (Fetrafi-RS) e contou a participação de lideranças e militantes de cinco partidos que fazem oposição ao governo Bolsonaro (PT, PCdoB, PSOL, PDT e PSB), das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, de entidades sindicais, estudantis e de movimentos populares do campo do senado. O ato também contou com um representante do MDB, o ex-senador e ex-governador do Paraná, Roberto Requião.

Todas as falas destacaram a necessidade de fortalecer a unidade política e social em torno dessa agenda e levar para as ruas, de modo mais massivo, a oposição às medidas que vêm sendo implementadas pelo governo Bolsonaro. “Estamos vivendo um momento histórico aqui. Esse é o caminho certo. Essa frente pode ser um espaço estratégico para levar a oposição ao governo para as ruas”, disse a jornalista Katia Marko, representando a Frente Povo Sem Medo. Falando pela União Nacional dos Estudantes (UNE), Gabriela Silveira também destacou a importância da construção de uma frente ampla em defesa da soberania nacional para enfrentar as políticas de desmonte em curso como aquelas que atingem as universidades públicas e os institutos federais.

Dois ex-governadores do Rio Grande do Sul participaram do ato. Olívio Dutra (PT) foi mais um a defender a necessidade de levar a oposição para as ruas. “A nossa democracia foi golpeada em agosto de 2016. Temos que resgatar a democracia golpeada, mas precisamos qualificá-la também, construindo uma democracia radical que vá às raízes dos problemas que enfrentamos no Brasil. Essa frente tem um caráter estratégico e não meramente tático e deve incorporar todas as forças que lutam pela democracia e pela soberania”, defendeu. Tarso Genro (PT) fez uma saudação especial a Roberto Requião e ao músico Nei Lisboa que, para ele, simbolizam o caráter plural, amplo e diverso que a frente deve ter. “Estamos enfrentando novas formas de dominação, marcadas pela simbiose entre o capital financeiro, o autoritarismo e uma ideologia fascista que está presente no Brasil hoje. Enfrentar essa articulação perversa é a nossa tarefa prioritária”, afirmou o ex-governador e ex-ministro da Justiça.

Auditório da Fetrafi ficou lotado para lançamento da Frente em Porto Alegre. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

O cineasta Jorge Furtado também participou do ato de lançamento da frente e destacou o clima que se instalou no auditório da Fetrafi. “É uma alegria ver aqui pessoas de vários partidos e políticos em que já votei e para os quais já fiz campanha. Eu nunca me arrependi de nenhum de meus votos. Só o fato de estar numa sala onde ninguém acha que a terra é plana já é um alento. Nós vamos reerguer o Brasil a partir das cidades. Ontem já tivemos uma boa notícia com o resultado da eleição para o Conselho Tutelar. Ano que vem vamos vencer a eleição municipal e começar a reconstruir o país”, afirmou.

Vice-presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, o deputado federal Henrique Fontana (PT) destacou que o elemento unificador de todas as forças políticas e sociais que estão participando da frente, e que deve estar acima de qualquer diferença entre elas, é a defesa da soberania nacional que está ameaçada. Roberto Requião relembrou que o atual processo de desmonte teve uma de suas origens na agenda da chamada Ponte para o Futuro, abraçada pelo PMDB. Com ela, afirmou, o Brasil passa a ser um país de segunda categoria, completamente submisso. O ex-senador criticou a escolha do slogan “Fora, Bolsonaro!” para definir qual deve ser o centro da atuação política da oposição no próximo período. Para ele, Bolsonaro é apenas “um palhaço que distrai”. “O Brasil é governador hoje pelo capital financeiro representado pelo Paulo Guedes, no Ministério da Economia, e pelo Rodrigo Maia, no Congresso Nacional. O fundamentalismo de Bolsonaro representa apenas cerca de 6% da população”.

Requião citou o exemplo de Portugal, onde uma aliança entre socialistas, comunistas e Bloco de Esquerda, garantiu uma nova vitória eleitoral, como inspiração para a frente que deve ser construída no Brasil. “Precisamos de uma frente política para se opor ao neoliberalismo econômico e para encaminhar um referendo revogatório para reverter tudo o que Bolsonaro está destruindo”, defendeu.

Na mesma linha de Requião, o presidente estadual do PDT-RS, deputado federal Pompeo de Mattos destacou que, apesar das diferenças políticas existentes entre as forças presentes no ato, uma coisa muito sólida as unifica: a defesa da democracia e da soberania nacional. “Não somos partidos iguais, mas todos temos a mesma convicção sobre esse tema. Ou nós nos unimos ou não restará nada no país para defendermos. O PDT não vai faltar nesta hora de ação e luta pela soberania”, assegurou. Representando a direção nacional do PSB, Vicente Selistre, também manifestou apoio à criação da frente e anunciou que os socialistas estão comprometidos com essa agenda em nível nacional.

Ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, definiu o ato de criação da frente como expressão da resistência e da esperança. “Representamos a esperança do povo brasileiro. Precisamos ter isso em mente, resgatar a nossa autoestima e a dignidade das palavras soberania, nacionalismo e patriotismo, que foram sequestradas. Temos um anti-presidente que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos”.

Manuela D’Ávila: : “Nossas diferenças são secundárias diante do desafio que temos pela frente”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Acompanhada pela filha Laura, Manuela D’Ávila (PCdoB) chamou a atenção para o valor da unidade expressa no auditório da Fetrafi. “Temos representantes de seis partidos juntos aqui esta noite. Não é pouca coisa. É um grande desafio construir essa unidade e conseguimos nos reunir aqui hoje em torno da defesa da soberania nacional”. Para a candidata a vice-presidente nas eleições de 2018, o que está acontecendo no Brasil deixa mais claro do que nunca a ausência de qualquer vocação da elite brasileira para construir um projeto de nação. “O que estamos vendo, mais uma vez, é a construção de um governo colonial”, resumiu.  Além do espírito colonial, Manuela também apontou outra característica da elite brasileira: o ódio ao povo brasileiro.

Para Manuela, o ato de lançamento da Frente concretizou dois pressupostos necessários para enfrentar o governo Bolsonaro: uma unidade ampla e real e a aceitação das diferenças entre as forças que estão construindo essa unidade. “Essas diferenças são secundárias diante do desafio que temos pela frente e nós devemos estar à altura desse desafio”, concluiu.

A deputada federal Fernanda Melchionna falou pelo PSOL e também destacou a necessidade de construir uma ampla unidade de ação em defesa das liberdades democráticas e da Constituição de 1988. Mas defendeu também a importância de avançar na direção de um programa em defesa dos interesses dos trabalhadores que, para ela, deve ter um caráter anti-capitalista. Melchionna chamou a atenção para os ventos de revolta que começam a soprar na América Latina, citando os protestos que eclodiram nos últimos dias no Equador e no Peru. “Neste momento está ocorrendo uma insurreição no Equador contra o governo de Lenin Moreno e, no Peru, o regime está em crise envolvido em um processo de corrupção generalizada. A esquerda está nas ruas e não deixou espaço para a extrema-direita crescer. Isso deve servir de exemplo para nós”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Mapa mostra avanço de queimadas em terras indígenas com incidência mineral na Amazônia

De um total de 9.072 focos recentes de queimadas na Amazônia (áreas em vermelho), 5.112 ocorreram em áreas indígenas com incidência mineral. (Foto: Divulgação/MAM),

No dia 1° de outubro, o presidente Jair Bolsonaro recebeu, em Brasília, uma comitiva de representantes da Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada, do Pará, que foram pedir proteção contra investidas da Vale em uma área explorada por eles. Neste encontro, Bolsonaro proferiu uma frase que acabou ganhando repercussão internacional. “O interesse na Amazônia não é no índio, nem na porra da árvore, é no minério”, disse. O presidente brasileiro também reafirmou o interesse de seu governo em liberar a mineração em terras indígenas. Bolsonaro já defendeu a abertura de várias “mini Serras Peladas” na região. O Ministério das Minas e Energia anunciou que pretende concluir até o fim deste mês a proposta que prevê mineração em terras indígenas. Essas áreas, na verdade, já vêm sendo objeto de cobiça do setor minerador que vê nos territórios indígenas um obstáculo para ampliar a exploração de uma série de minérios, entre eles o ouro.

De um total de 9.072 focos recentes de queimadas na Amazônia, 5.112 ocorreram em áreas indígenas com incidência mineral, mostra um mapa elaborado por Victor Salgueiro, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e mestrando em Desenvolvimento Territorial da América Latina na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Na avaliação do MAM, há uma corrida pelo ouro em curso globalmente que ajuda a entender os ataques à floresta e aos povos indígenas.

“Com a crise de 2008 no sistema capitalista financeiro, os bancos centrais passaram a comprar muito ouro. No caso do Brasil, há o ouro que sai do país contabilizado pelas transnacionais, que é declarado oficialmente, mas também há um mercado clandestino. Segundo um estudo do Ministério Público, somente da região da Bacia de Tapajós, no Pará, nos últimos oito anos, saíram clandestinamente 670 mil toneladas de ouro do país”, assinala Márcio Zonta, da coordenação nacional do MAM.

Não há, acrescenta Zonta, um controle sistemático, do ouro extraído nesta região. “Não há fiscais ou um controle organizado. É algo totalmente esdrúxulo. Parte desse ouro está sendo comprado por bancos centrais e parte está indo para países como China e Estados Unidos. Se olharmos para o mapa das queimadas recentes, veremos que uma grande quantidade delas está localizada em áreas que hoje são vedadas à mineração, como territórios indígenas, áreas de preservação ambiental e áreas de nascente. A maioria desse fogaréu, portanto, atingiu essas áreas com incidência mineral, sobretudo de ouro”, destaca.

Márcio Zonta, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Cerca de 50% dos pedidos de mineração, hoje, no mundo, sobretudo na América Latina e África, estão relacionados ao ouro. Márcio Zonta lembra que, com as legislações que existem hoje, sobretudo em relação à Amazônia, um projeto leva, em média sete ou oito anos para ser liberado. “As empresas não querem se submeter a isso. Um exemplo disso é o projeto da Belo Sun, no Pará, que está atropelando todas formas de legislação e violando direitos de povos indígenas para implantar uma mineração de ouro”, exemplifica.

O militante do MAM lembra outros ciclos de exploração mineral que já ocorreram na região, chamando a atenção para o mais recente deles, envolvendo a extração de ouro:

“A região amazônica teve um primeiro pico mineral, impulsionado pelos Estados Unidos, na região da Serra do Navio, no Amapá, nos anos 50. O ferro daquela região foi enviado para as fábricas da Ford, em Detroit, em um processo de exploração marcado por conflitos com povos indígenas e uma destruição ambiental gigantesca”.

Depois, prossegue Zonta, houve a dobradinha Estados Unidos-Vale na região de Carajás. “Na década de 70, havia mais de 225 geólogos norte-americanos na região, que fizeram um mapa mineral da Amazônia brasileira. Também tivemos capitais coligados ao Japão que implantaram a indústria de alumínio na região de Barcarena. Essa indústria depois passou para o capital norueguês e, recentemente, tivemos o episódio dos dutos clandestinos que lançavam rejeitos tóxicos toda vez que a barragem enchia. Agora, temos essa corrida pelo ouro na região patrocinada por empresas transnacionais, mas também por essa via do mercado clandestino com o recrutamento de garimpeiros da região”.

Mais recentemente, aquele sistema de garimpagem tradicional, do garimpeiro com a sua bateia, passou a ser disputada também por verdadeiras máfias, associadas a milícias, grupos paramilitares e do narcotráfico. Esse fenômeno, destaca ainda o integrante da coordenação do MAM, é mais intenso em países como Venezuela, Brasil, Peru, Colômbia e Equador, que têm o maior número de áreas interditadas para a mineração na região amazônica.

“A bateia começou a ser substituída por dragas que perfuram os rios e utilizam uma grande quantidade de mercúrio para extrair o ouro, ocasionando uma grande quantidade de doenças na região. Grupos de garimpeiros passam a ser recrutados para trabalhar nesta cadeia de produção do ouro que sai do país de maneira lícita e ilícita. Esses cinco países que citei são os mais prejudicados com essa exploração de ouro. Imagine o que o Estado do Pará deixou de recolher em impostos nos últimos anos?”, questiona Zonta. Ele adverte, por fim, que a intenção do setor minerador avançar sobre territórios indígenas deve aprofundar o quadro de conflitos, de destruição ambiental e de violação de direitos na região.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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‘Vamos usar autobots, fazendas de likes ou hackers russos? Nossa relação com a tecnologia precisa mudar’

Jesús Sabariego: “Estão anulando a capacidade humana para resolver conflitos, para estabelecer escolhas, construir imaginários alternativos”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Inteligência artificial, internet das coisas, tecnologia 5G, um admirável mundo novo está batendo à nossa porta. Será mesmo? Há quem desconfie de toda essa euforia tecnológica e chame a atenção para dois “detalhes”. Primeiro: qual é mesmo a indústria que está por trás dessa revolução tecnológica e quais seus interesses? Segundo: qual a nossa relação com essa tecnologia? Temos alguma soberania ou ela é totalmente submissa? Jesús Sabariego, professor da Universidade de Sevilha e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra é um dos céticos a advertir uma dose de desconfiança e alerta em relação ao mundo novo prometido.

“O problema é que estão anulando a capacidade humana para resolver conflitos, para estabelecer escolhas, construir imaginários alternativos. Nossas máquinas com inteligência artificial vão resolver todos os problemas. Mas, por enquanto, o que vemos, porém, é uma profusão de conflitos bélicos e de outros conflitos que não considerados bélicos, com guerras civis encobertas, relações profundamente predadoras e coloniais de novo, guerras comerciais…É um cenário meio apocalíptico. Toda essa tecnologia está servindo para isso. Não é um espaço de libertação nem de emancipação”, afirma o pesquisador, que veio a Porto Alegre para fazer uma conferência na PUCRS e para participar 10º Congresso Internacional de Ciências Criminais – Memória e Ciências Criminais, que ocorrerá de 21 a 23 de outubro, também na PUC.

Historiador, Jesús Sabariego vem pesquisando a relação entre direitos humanos, tecnopolítica, violência e movimentos sociais na era das redes sociais. Em entrevista ao Sul21, ele defende a necessidade de uma mudança radical no modo pelo qual nos relacionamos com a tecnologia. Diante do uso que a extrema-direita vem fazendo dessas novas tecnologias para implementar sua estratégia política, Sabariego diz que o caminho para a esquerda e as forças progressistas não é simplesmente dominar essas ferramentas para fazer um contra-ataque:

“Se eles estão lançando fake news o tempo todo, vamos lançar mais do que eles, dizendo que os reaças estão comendo crianças ou algo assim, usando autobots, fazendas de likes, contratando hackers russos? Não é por aí. Precisamos de uma mudança radical na nossa relação com a tecnologia. A primeira coisa que precisamos entender é que precisamos nos apropriar da ferramenta. Precisamos nos apropriar dos modos de produção e dos meios de produção que, hoje, são os meios digitais.” (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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