Dos acampamentos na beira de estradas às retomadas: a luta do povo guarani pelo ‘lugar onde se é’

Na Aldeia Mata Sagrada, em Maquiné, guaranis lutam pela preservação de sua cultura e do seu modo de ser. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Todos os dias, uma cena se repete nas margens de rodovias gaúchas, mostrando um lado sonegado da história da colonização do Estado. Famílias de indígenas guarani mbya e kaingang vivem acampadas em pequenas faixas de terra na beira de estradas ou em pequenas porções de terras e matas em uma situação de extrema vulnerabilidade. No artigo “Demarcação das terras e os direitos dos povos indígenas”, publicado no Relatório Azul 2017 (da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha), o professor João Mauricio Farias e Roberto Liebgott, coordenador do CIMI Sul, apresentam uma síntese sobre a realidade de 25 comunidades indígenas que estão vivendo em acampamentos ou áreas degradadas. Essas famílias convivem diariamente com a fome, falta de moradia, de saúde, educação, de terra para plantar e cultivar sua cultura, além de outros riscos como o da ameaça de atropelamento em rodovias de intenso movimento.

A maioria das terras indígenas no Rio Grande do Sul, apontam ainda João Mauricio Farias e Roberto Liebgott, não estão demarcadas. De um total de 90 áreas, apenas 14% estão regularizadas. As restantes estão envolvidas em processos paralisados ou em estudos de identificação que ainda nem começaram. Mesmo que a soma dessas áreas não atinja 1% do território gaúcho, fazendeiros e seus representantes políticos trabalham contra as demarcações. O esquecimento a que essas comunidades são relegadas parece andar de mãos dadas com a tentativa de esconder a história de como essas famílias indígenas chegaram ali, vivendo na beira das estrada, espremidas entre o asfalto e a cerca das fazendas. Neste processo, as terras indígenas foram divididas entre as oligarquias regionais e loteadas por empresas de colonização. É um capítulo da história do Estado que muita gente prefere não conhecer ou fingir que não existe. No século XVII, viviam aqui pelo menos 40 povos indígenas diferentes. Quatro séculos depois, restam pouco mais de 30 mil indígenas vivendo no Estado.

Durante dois dias, o Sul21 visitou quatro acampamentos de guaranis mbya localizados na beira de movimentadas rodovias do Rio Grande do Sul e a primeira retomada guarani no Estado, que é um símbolo de esperança e resistência para os indígenas. Todos os dias, uma parte importante da economia gaúcha passa em alta velocidade por esses acampamentos que reúnem os descendentes de povos originários que foram massacrados e expulsos de suas terras e que lutam até hoje um pedaço de terra inferior a 1% do território do Estado. Mas a luta guarani não se resume à terra. Na aldeia Tekoà Ka Aguy Porá, que surgiu da retomada em Maquiné, no litoral norte do Estado, desenrola-se também uma luta silenciosa pela sobrevivência da língua, da cultura e da espiritualidade guarani. (Leia aqui a íntegra da matéria)

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Corrida por terras ameaça comunidades tradicionais e áreas indígenas, diz professor da UnB

Sérgio Sauer: “Os fundos de pensão estão mais preocupados com o tema dos juros e da valorização da terra, ou seja, da especulação”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A demanda crescente por terras, em nível nacional e internacional, está aumentando a pressão de grandes investidores sobre territórios de comunidades tradicionais, unidades de conservação e terras indígenas. Há uma corrida mundial por terras em curso pelo menos desde 2008, que se reproduz também no Brasil por meio de projetos de investimentos produtivos e especulativos. O governo Temer vem trabalhando com a lógica de acelerar esses investimentos alimentando a pressão exercida por interesses do agronegócio, da indústria de mineração, de energia e de fundos de pensão internacionais.

“Os fundos de pensão estão menos preocupados com a produção e muito mais preocupados com o tema dos juros e da valorização da terra, ou seja, da especulação. As linhas de fronteira entre o que é um investimento produtivo e um investimento especulativo acabaram se mesclando muito”, diz Sérgio Sauer, professor da Universidade de Brasília e pesquisador de temas relacionados à Reforma Agrária, terra e território. Sauer esteve em Porto Alegre na última sexta-feira (14), participando de um debate sobre a lei 3465/2017, batizada de “Lei da Grilagem”. O encontro foi promovido pela Rede de Advogados e Advogadas Populares (Renap), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Fórum Justiça, movimentos populares e outras entidades.

Em entrevista ao Sul21, Sérgio Sauer fala sobre os interesses que estão por trás dessa lei, sobre a possibilidade dela aumentar a concentração de terras no país e aponta outras propostas que estão tramitando, como a de liberar a mineração em terras indígenas e a de transferir para o Congresso Nacional a prerrogativa de aprovar a demarcação de terras indígenas e quilombolas, que atualmente é responsabilidade do Executivo. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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A necessária unidade da esquerda

“Temos que aprender e evitar processos anteriores”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Raul Pont (*)

As últimas eleições no Rio Grande mostram que precisamos aprender com elas e não cometer erros que são evitáveis.

Polarizações iniciais nem sempre chegam ao final e surgem terceiras vias, alternativas disfarçadas e alavancadas pela mídia, com o mesmo programa e objetivos conservadores, mas que se apresentam como algo diferente, como o novo.

Foram assim que candidaturas como Rigotto, Yeda e, na última eleição, Sartori, aparecendo por fora da polarização na época, elegeram-se como alternativas novas, contra o “radicalismo” e pela “unidade do Rio Grande”. No último pleito, o “Rio Grande” chegou a virar partido no discurso do gringo que – agora está provado – NÃO deu certo!

Esse discurso prospera porque, apesar de ser meramente ideológico, enganador e oportunista, é alavancado pela mídia que ao longo dos anos cria estereótipos e inventa versões dos fatos que se transformam em verdades.

Nesta eleição, a bola da vez é o preferido da RBS que o vem cevando há anos como exemplo de moderação, simpatia e equilíbrio. O moço é tão equilibrista que se apresenta na TV como sendo de esquerda e de direita, simultaneamente. Um verdadeiro fenômeno da ciência política. Na realidade, não passa do velho oportunismo, do disfarce tucano para esconder a política real praticada. Ele e seu partido estão no governo golpista com Temer e apoiaram, votaram e são responsáveis por todas as políticas anti-povo trabalhador (salários, previdência, leis trabalhistas) e anti-nação (entrega das reservas do pré-sal, liquidação da Petrobrás, negociata da Embraer, privatizações). Ele e seu partido estão juntos com Sartori no governo e na Assembleia Legislativa. Votaram juntos todas as matérias que prejudicam os funcionários, aposentados e a estrutura administrativa do Rio Grande.

A excelência administrativa como prefeito, só existe nas colunas da mídia pois TODAS as obras relevantes em Pelotas são fruto da forma republicana que o Governo Dilma tratava as Prefeituras em todo o país. As responsabilidades do município, porém, já não eram tão republicanas como provam os contratos criminosos com as terceirizações nos exames de saúde.

Não vamos esquecer que o PSDB do Marchezan Júnior, do ex-prefeito de Pelotas e o PMDB do “gringo que NÃO deu certo” são os formuladores, os responsáveis pela política da “Ponte para o Futuro” que é o programa do governo Temer e do governo Sartori e seus aliados.

Nesse momento, portanto, temos que aprender e evitar processos anteriores. Em 2016, nas eleições me Porto Alegre, apesar da soma das candidaturas da esquerda no primeiro turno chegarem aproximadamente a 30%, nenhuma delas foi para a disputa final. O tucano que se apresentava como o novo, o anti-política e que ia revolucionar a administração com seus novos métodos, está agora fazendo a população e, em especial, os servidores públicos pagarem o preço por sua arrogância, autoritarismo e total incompetência como gestor público.

As pesquisas eleitorais publicadas nos últimos dias, com as ressalvas e cuidados que exigem em sua análise, apontam para uma evidência. Não há clara definição de quem chegará no segundo turno.

Assim, a resposta exigida pela conjuntura política é a de construção da unidade em torno do programa e da candidatura que expressa a garantia da disputa final. Esse é o desafio colocado para a esquerda com compromisso com o conjunto do povo trabalhador que é quem vem pagando a conta desses desastres nacional e estadual.

Uma ampla unidade do campo da esquerda, ainda no primeiro turno, não prejudicaria as nominatas proporcionais e significaria um grande impulso, uma novidade para desequilibrar a campanha e colocar todas as forças do campo popular e socialista contra o inimigo comum: o neoliberalismo rentista e entreguista que governa o país e o Estado, liquidando com os serviços públicos e enriquecendo banqueiros e especuladores.

Este é o grande desafio para o campo de esquerda. Ampliar a unidade já alcançada com o PT e o PCdoB, com os verdadeiros socialistas que não se renderam à traição programática de apoio a Sartori-Cairoli, com os (as) companheiros (as) do PSOL, do PSTU, do PCB e PCO.

O compromisso maior com os setores sociais que representamos exige de todos nós, nessa conjuntura diante de um inimigo comum, a grandeza política de somarmos forças para garantir uma saída popular à crise que o Estado vive.

Temos certeza que os setores trabalhistas que estiveram no combate ao governo Sartori nestes últimos anos também se somarão a este desafio histórico que estamos vivendo. Essa compreensão já é uma realidade na iniciativa supra partidária que organiza intelectuais, professores e trabalhadores sem vínculo partidário no apoio à Chapa Rosseto-Ana Affonso.

A iniciativa está tomada. Vamos conversar e construí-la.

(*) Ex-prefeito de Porto Alegre

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A carta de Lula ao povo brasileiro: “Haddad será Lula para milhões de brasileiros”

Foto: Ricardo Stuckert

Curitiba, 11 de setembro de 2018

Meus amigos e minhas amigas,

Vocês já devem saber que os tribunais proibiram minha candidatura a presidente da República. Na verdade, proibiram o povo brasileiro de votar livremente para mudar a triste realidade do país.

Nunca aceitei a injustiça nem vou aceitar. Há mais de 40 anos ando junto com o povo, defendendo a igualdade e a transformação do Brasil num país melhor e mais justo. E foi andando pelo nosso país que vi de perto o sofrimento queimando na alma e a esperança brilhando de novo nos olhos da nossa gente. Vi a indignação com as coisas muito erradas que estão acontecendo e a vontade de melhorar de vida outra vez.

Foi para corrigir tantos erros e renovar a esperança no futuro que decidi ser candidato a presidente. E apesar das mentiras e da perseguição, o povo nos abraçou nas ruas e nos levou à liderança disparada em todas as pesquisas.

Há mais de cinco meses estou preso injustamente. Não cometi nenhum crime e fui condenado pela imprensa muito antes de ser julgado. Continuo desafiando os procuradores da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro e o TRF-4 a apresentarem uma única prova contra mim, pois não se pode condenar ninguém por crimes que não praticou, por dinheiro que não desviou, por atos indeterminados.

Minha condenação é uma farsa judicial, uma vingança política, sempre usando medidas de exceção contra mim. Eles não querem prender e interditar apenas o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Querem prender e interditar o projeto de Brasil que a maioria aprovou em quatro eleições consecutivas, e que só foi interrompido por um golpe contra uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu crime de responsabilidade, jogando o país no caos.

Vocês me conhecem e sabem que eu jamais desistiria de lutar. Perdi minha companheira Marisa, amargurada com tudo o que aconteceu a nossa família, mas não desisti, até em homenagem a sua memória. Enfrentei as acusações com base na lei e no direito. Denunciei as mentiras e os abusos de autoridade em todos os tribunais, inclusive no Comitê de Direitos Humanos da ONU, que reconheceu meu direito de ser candidato.

A comunidade jurídica, dentro e fora do país, indignou-se com as aberrações cometidas por Sergio Moro e pelo Tribunal de Porto Alegre. Lideranças de todo o mundo denunciaram o atentado à democracia em que meu processo se transformou. A imprensa internacional mostrou ao mundo o que a Globo tentou esconder.

E mesmo assim os tribunais brasileiros me negaram o direito que é garantido pela Constituição a qualquer cidadão, desde que não se chame Luiz Inácio Lula da Silva. Negaram a decisão da ONU, desrespeitando o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos que o Brasil assinou soberanamente.

Por ação, omissão e protelação, o Judiciário brasileiro privou o país de um processo eleitoral com a presença de todas as forças políticas. Cassaram o direito do povo de votar livremente. Agora querem me proibir de falar ao povo e até de aparecer na televisão. Me censuram, como na época da ditadura.

Talvez nada disso tivesse acontecido se eu não liderasse todas as pesquisas de intenção de votos. Talvez eu não estivesse preso se aceitasse abrir mão da minha candidatura. Mas eu jamais trocaria a minha dignidade pela minha liberdade, pelo compromisso que tenho com o povo brasileiro.

Fui incluído artificialmente na Lei da Ficha Limpa para ser arbitrariamente arrancado da disputa eleitoral, mas não deixarei que façam disto pretexto para aprisionar o futuro do Brasil.

É diante dessas circunstâncias que tenho de tomar uma decisão, no prazo que foi imposto de forma arbitrária. Estou indicando ao PT e à Coligação “O Povo Feliz de Novo” a substituição da minha candidatura pela do companheiro Fernando Haddad, que até este momento desempenhou com extrema lealdade a posição de candidato a vice-presidente.

Fernando Haddad, ministro da Educação em meu governo, foi responsável por uma das mais importantes transformações em nosso país. Juntos, abrimos as portas da Universidade para quase 4 milhões de alunos de escolas públicas, negros, indígenas, filhos de trabalhadores que nunca tiveram antes esta oportunidade. Juntos criamos o Prouni, o novo Fies, as cotas, o Fundeb, o Enem, o Plano Nacional de Educação, o Pronatec e fizemos quatro vezes mais escolas técnicas do que fizeram antes em cem anos. Criamos o futuro.

Haddad é o coordenador do nosso Plano de Governo para tirar o país da crise, recebendo contribuições de milhares de pessoas e discutindo cada ponto comigo. Ele será meu representante nessa batalha para retomarmos o rumo do desenvolvimento e da justiça social.

Se querem calar nossa voz e derrotar nosso projeto para o País, estão muito enganados. Nós continuamos vivos, no coração e na memória do povo. E o nosso nome agora é Haddad.

Ao lado dele, como candidata a vice-presidente, teremos a companheira Manuela D’Ávila, confirmando nossa aliança histórica com o PCdoB, e que também conta com outras forças, como o PROS, setores do PSB, lideranças de outros partidos e, principalmente, com os movimentos sociais, trabalhadores da cidade e do campo, expoentes das forças democráticas e populares.

A nossa lealdade, minha, do Haddad e da Manuela, é com o povo em primeiro lugar. É com os sonhos de quem quer viver outra vez num país em que todos tenham comida na mesa, em que haja emprego, salário digno e proteção da lei para quem trabalha; em que as crianças tenham escola e os jovens tenham futuro; em que as famílias possam comprar o carro, a casa e continuar sonhando e realizando cada vez mais. Um país em que todos tenham oportunidades e ninguém tenha privilégios.

Eu sei que um dia a verdadeira Justiça será feita e será reconhecida minha inocência. E nesse dia eu estarei junto com o Haddad para fazer o governo do povo e da esperança. Nós todos estaremos lá, juntos, para fazer o Brasil feliz de novo.

Quero agradecer a solidariedade dos que me enviam mensagens e cartas, fazem orações e atos públicos pela minha liberdade, que protestam no mundo inteiro contra a perseguição e pela democracia, e especialmente aos que me acompanham diariamente na vigília em frente ao lugar onde estou.

Um homem pode ser injustamente preso, mas as suas ideias, não. Nenhum opressor pode ser maior que o povo. Por isso, nossas ideias vão chegar a todo mundo pela voz do povo, mais alta e mais forte que as mentiras da Globo.

Por isso, quero pedir, de coração, a todos que votariam em mim, que votem no companheiro Fernando Haddad para Presidente da República. E peço que votem nos nossos candidatos a governador, deputado e senador para construirmos um país mais democrático, com soberania, sem a privatização das empresas públicas, com mais justiça social, mais educação, cultura, ciência e tecnologia, com mais segurança, moradia e saúde, com mais emprego, salario digno e reforma agrária.

Nós já somos milhões de Lulas e, de hoje em diante, Fernando Haddad será Lula para milhões de brasileiros.

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Nova medicina do câncer traz esperança e um dilema: estamos preparados para prever o futuro?

Siddhartha Mukherjee: “Já sabemos que cada caso de câncer é único. Não há doença como esta”. (Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz)

Uma pesquisa realizada em 1986 nos Estados Unidos perguntou a um grupo de pessoas quais eram as palavras que elas mais temiam. As duas palavras mais citadas foram “tubarão” e “câncer”. O medo relacionado à primeira palavra foi, em grande medida, alimentado pelo filme de Steven Spielberg, de 1975. Já o medo em relação ao câncer se projeta bem mais longe no passado e, muito provavelmente, também no futuro. O medo do câncer está diretamente ligado à ameaça da morte, da nossa própria morte ou de entes queridos. Mas esse medo tem também outras dimensões. Uma delas é a possibilidade de tomarmos conhecimento, por meio de novas tecnologias médicas, da presença atual ou potencialmente futura de doenças em nosso corpo ou de alguém que amamos. Conhecer o futuro também abre espaço para o medo.

“No final da minha fala hoje aqui quero que vocês tenham um pouco menos de medo”, disse o médico oncologista e escritor Siddhartha Mukherjee no início de sua fala, segunda-feira à noite, no salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em mais uma edição do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. “Genes, câncer e o futuro da Medicina”, foi o tema da conferência do autor de “O Imperador de todos os males – uma biografia do câncer”, obra vencedora do Prêmio Pulitzer em 2011, e de “O Gene – uma história íntima”. Durante aproximadamente 45 minutos, Mukherjee falou sobre estamos agora na pesquisa sobre o câncer e quais os principais desafios para o futuro.

Ao abordar esses temas, o médico e professor da Universidade Columbia, citou uma crítica ao livro “O Imperador de todos os males” publicada na revista The New Yorker (Cancer World08/11/2010Escrita por Steven Shapin, um historiador da ciência, a resenha toca num ponto considerado fundamental por Mukherjee. Um mundo onde o câncer é normalizado como uma condição crônica, mas administrável, seria uma coisa maravilhosa, mas um mundo de risco onde todos nós vivemos pensando nós mesmos como pré-cancerosos não seria nem um pouco maravilhoso, questiona Shapin. Essa situação de vigilância permanente, acrescenta, pode diminuir a incidência de algumas formas de malignidade, enquanto aumenta enormemente o número de pessoas saudáveis sob tratamento médico. Seria uma estranha vitória em que o preço a ser pago para identificar, o mais cedo possível, a presença de câncer no corpo seria a sua disseminação descontrolada pela cultura da sociedade, diz o historiador da ciência.

É importante ter essa reflexão em mente, assinalou Mukherjee, pois os avanços da pesquisa e da medicina estão nos colocando nesta direção. “Já sabemos que cada caso de câncer é único. Não há doença como esta. Estamos começando a entender o câncer em nível celular e molecular e avançando nas tecnologias de detecção precoce e tratamento preciso. Mas não estamos preparados para a disseminação cultural do câncer, referida por Steven Shapin, que esses avanços provocarão. E precisamos nos preparar para esse mundo que vai chegar muito mais cedo do que pensamos”.

Mukherjee citou três exemplos da gramática que já começa a descrever esse mundo. A palavra “previvente”, observou, não existia há dez anos e define as pessoas que ainda não tiveram a doença mas podem vir a ter.  Outra palavra recente é “scananxiety”, que é a ansiedade vivida por quem realiza exames de pet scan. Uma terceira expressão dessa nova realidade é “haircut party”, um encontro que reúne amigos e familiares de alguém que vai se submeter a um processo de quimioterapia.

“Não estamos preparados para a disseminação cultural do câncer” Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz

Essas palavras e expressões, acrescentou, apontam também os marcos do novo plano global de luta contra o câncer. Esse plano tem três características centrais. A primeira delas é a ênfase em prevenção, por meio da identificação de novos estados carcinogênicos, como obesidade e inflamações, por exemplo. Esses estados carcinogênicos podem ser modificados por mudanças de comportamento (a redução do tabagismo é um exemplo disso). A segunda é a detecção precoce para identificar os primeiros sinais de câncer no corpo usando novas tecnologias como as biópsias líquidas. A terceira é o uso da genética e da fisiologia do próprio organismo para elaborar tratamentos individualizados.

As novas possibilidades de detecção precoce, por outro lado, trazem alguns problemas que precisaremos enfrentar, destacou Mukherjee. Como poderemos saber se não estamos fazendo diagnósticos em excesso, de forma desnecessária? Qual o custo para fazermos isso de forma massiva e sistêmica? Essa mesma questão se coloca para a possibilidade de tratamentos individualizados. “Cada câncer tem suas próprias digitais. A diversidade de casos de câncer é igual à diversidade de seres humanos. A diversidade da doença espelha a diversidade dos pacientes. Esse é um dos maiores desafios que temos que enfrentar”, acrescentou, referindo-se às novas possibilidades abertas pelas medicinas personalizadas com técnicas de imunoterapia, que utilizam o próprio sistema imune para atacar o câncer.

A partir da década de 1990, assinalou ainda, começou a ser possível não somente fazer essa personalização, mas também fazer isso o mais cedo possível. Isso significa abrir o debate sobre como reduzir o risco antes de ter câncer. “Estamos nos afastando da lógica do tratamento ‘daqueles que têm câncer’ para a lógica do ‘todos’. Esse é um deslocamento cultural muito importante. Passamos a pensar a questão do risco sob novas formas”. Hoje, nos Estados Unidos, relatou, é possível sequenciar a parte relevante do genoma de uma pessoa por aproximadamente 1.000 dólares. Esse preço deve cair significativamente nos próximos anos. De posse desse sequenciamento, é possível identificar riscos potenciais de se ter um câncer no futuro. Além das possibilidades de detecção precoce e de tratamento mais eficaz, isso também traz algumas questões incômodas. Mukherjee fez alguns questionamentos ao público para ilustrar esse ponto.

“No futuro, será possível prever a altura de seu filho ou filha a partir do código genético do feto. Quem aqui gostaria de ter essa informação? Também será possível saber o risco de sua filha, por exemplo, ter câncer de mama, a partir do código genético do feto durante a gravidez? E se um exame desse tipo mostrar que seu filho terá 50% de chances de ter uma grave doença neuro-degenerativa quando tiver entre 10 e 15 anos, você levará a gravidez adiante mesmo assim? Quantos aqui fariam alguma coisa com essas informações. Esse é o mundo que estamos inventando e ele vai chegar mais cedo que imaginamos. É um mundo um tanto assustador”.

O médico contou que viveu esses dilemas quando sua obstetra perguntou se ele queria fazer o sequenciamento genético de seus filhos. “Tenho um histórico de doença mental em minha família. E se o sequenciamento genético mostrasse que uma delas corria esse risco, de que forma isso mudaria o meu relacionamento com elas. Uma delas teria essa marca e a outra não. A minha obstetra disse que isso era verdade, mas que havia outro elemento a considerar: se daqui a cinco anos nós tivermos um tratamento para essa doença, você não gostaria de saber que ele poderia curar sua filha?”.

Mukherjee comparou essa nova realidade que está emergindo aquilo que o sociólogo Erwin Goffman chamou de “instituição total”: “um local de residência e de trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por um período considerável de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada”. Ele retornou, aqui, ao questionamento feito por Steven Shapin, na New Yorker: em que medida ingressaremos em um mundo sob uma situação de permanente vigilância e angústia, onde acordaremos de manhã e pensaremos: é hoje que vou detectar meu câncer? É hoje que meu filho vai receber um diagnóstico da doença?”.

O médico não encerrou sua conferência, porém, com um tom pessimista “O mundo não é dividido entre cientistas e não cientistas. Se escondermos da sociedade esse mundo que estamos criando, teremos problemas ainda maiores. Por isso, entendo que devemos falar sobre isso e nos prepararmos para viver essa realidade que está surgindo”. Se fosse possível resumir a conclusão de sua conferência, ela poderia ser: não saber é pior.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Frei Sérgio: ‘O que não queríamos no Império se preservou no Judiciário. Precisamos enfrentar essa casta’

Frei Sérgio saiu de Brasília com uma visão “muito dura” sobre o que viu no STF: “perderam a sensibilidade humana”. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

Pela quinta vez em sua vida, Frei Sérgio Antonio Görgen adotou a greve de fome como uma forma de luta e de protesto. Desta vez, o frade franciscano e integrante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) integrou um grupo de sete militantes de movimentos populares (além dele, Jaime Amorim, Zonália Santos, Rafaela Alves, Luiz Gonzaga, Vilmar Pacífico e Leonardo Soares) que foi a Brasília fazer uma greve de fome cujo alvo de protesto foi o núcleo duro do Judiciário do país, o Supremo Tribunal Federal. A escolha do método da greve de fome para realizar esse protesto foi resultado de uma avaliação política. Frei Sérgio resume a lógica que regeu essa escolha.

“Em toda a sua história no Brasil, o movimento social nunca tinha colocado o Judiciário como centro de suas reivindicações e de sua pressão. Até então, era sempre o Legislativo, o Executivo ou os dois juntos. Agora, foi a primeira vez que as baterias dos movimentos sociais se voltaram para o Judiciário. Escolhemos o método da greve de fome porque ele é um protesto silencioso não ofensivo, mas apelativo. Avaliamos que qualquer outro instrumento de pressão que costumamos adotar para o Executivo ou o Legislativo poderia se voltar contra nós”.

Na chuvosa manhã de sexta-feira (31), Frei Sérgio recebeu o Sul21 na sede provincial dos franciscanos no Rio Grande do Sul, na zona sul de Porto Alegre, para fazer um balanço da greve de fome de 26 dias, a mais longa da qual já participou. Ele considera que o protesto cumpriu o papel a que se propunha: sensibilizar a população, confrontar o Judiciário e demonstrar que ele é o responsável principal pelo que esta acontecendo no país e pela continuidade do golpe. O frade franciscano saiu de Brasília com uma visão que define como “muito dura” sobre a experiência que teve no STF e sobre o papel que o Judiciário desempenha hoje no país:

“O que não queríamos no Império se preservou no Judiciário. Um dos motivos que nos levou a criar a República hoje se preserva no Judiciário. Temos um grupo de famílias que se reproduzem lá dentro. Um exemplo disso é o desembargador Thompson Flores, presidente do TRF4. Temos aí uma relação de pai para filho que vem desde o golpe de 1964 e vai mais para trás ainda. O bisavô de Thompson Flores chefiou as últimas expedições para destruir Canudos. É uma família de elite anti-povo. Precisamos enfrentar essa casta”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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Na volta a Porto Alegre, Frei Sérgio fala em nova etapa da luta: ‘agora é na rua’

Frei Sérgio Görgen com outros militantes e familiares durante recepção no aeroporto Salgado Filho. (Foto: Júlia Flôres/Brasil de Fato)

Após permanecer 26 dias em greve de fome, em Brasília, juntamente com seis militantes de movimentos populares do país, Frei Sérgio Görgen retornou nesta segunda-feira (27) a Porto Alegre, afirmando que o fim do protesto não representa o fim de nada, mas sim marca o início de uma nova fase da luta pela democracia e por direitos no país. Os militantes, familiares e apoiadores que foram ao Aeroporto Internacional Salgado Filho receberam Frei Sérgio aos gritos de “Lula Livre”, com muitos abraços e manifestações de apoio. Visivelmente mais magro, mas sem demonstrar abatimento, o integrante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) desceu acompanhado por Ronald Wolff, um dos médicos populares que esteve com os grevistas de fome durante todo o protesto.

Na chegada, Frei Sérgio disse à Rede Soberania que o movimento da greve de fome não conseguiu mexer com os brios dos ministros do Supremo Tribunal Federal, porque “lá não tem mais brio”. “Brio é palavra, é compromisso, é cumprir o que se promete. Eles estão descumprindo a Constituição e rasgaram o artigo 3º da Constituição. Eu tive a oportunidade de dizer isso a todos os ministros com quem nos encontramos. A fome, a mortalidade infantil, doenças já erradicadas e o desemprego estão voltando em função do descalabro total do Estado brasileiro. Nós dissemos isso com todas as letras: vocês do Supremo Tribunal Federal são coniventes com isso e estão deixando o país seguir à deriva. Mas o pior é que vocês estão desmoralizando um dos poderes da República. A desmoralização do Executivo e do Legislativo é possível de resolver, mas uma desmoralização do Judiciário seria terrível para o país”.

Frei Sérgio não voltou muito otimista após o contato que teve com os ministros e ministras do Supremo no período da greve de fome. “O que senti lá”, relatou, “é que aquelas paredes frias do Supremo acabaram esfriando também o sangue de quem foi lá para dentro”. Após o encontro no aeroporto, amigos e companheiros de militância de Frei Sérgio prepararam um almoço especial de recepção para ele. Ainda ingerindo pouca quantidade de alimento, em função dos efeitos da greve de fome, o frei franciscano agradeceu todas as manifestações de apoio e solidariedade que recebeu nas últimas semanas e anunciou os próximos passos da luta que, destacou, entra numa nova etapa. “Agora, a luta é na rua, na conversa com a população e na mobilização da sociedade pela defesa da democracia e dos direitos”.

O ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro participou do almoço e agradeceu a Frei Sérgio pelo exemplo que deixou a toda militância que está lutando pela libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo direito do mesmo ser candidato à presidência da República na eleição deste ano. O militante do MPA agradeceu as palavras de apoio e destacou que, embora a greve de fome não tenha conseguido seu objetivo principal ela deixou um símbolo de esperança, unidade e da resistência popular no Brasil.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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A utopia, o horizonte e o caminhar (considerações a partir da #GreveDeFome por #JustiçaNoSTF)

“As vitórias simbólicas são tão relevantes quanto aquelas que empreendemos no campo concreto”.
(Foto: Divulgação/MPA)

Marcos Antonio Corbari (*)

Vivemos dias intensos de luta e aprendizado. Uma luta que não cessa, um aprendizado que segue, ambos para além do alcance de nosso olhar. O cenário que nos envolve e funda as condições deste tempo é nebuloso e opressivo, não faltando elementos que nos conduzam ao abraço claustrofóbico da ansiedade, da desesperança, do tombo entre o nada e o nada. Dia a dia tentam rasgar nossos sonhos e criminalizar nossa luta. Em meio a estes ataques cruéis somos desafiados a seguir sorridentes, altivos, esperançosos, certos de uma vitória que ainda não está ao alcance de nossas mãos, mas reside esplendida em cada instante do nosso caminhar.

Galeano, citando Birri, nos ensinou o sentido da Utopia. Essa mania tão bonita que nós, que seguimos pelo lado canhoto da história, respiramos como se fosse o próprio ar, consumimos sem moderação como se fosse o alimento mais vital. Caminhamos, sonhamos, lutamos por uma utopia que está sempre posta horizonte. Cada passo em sua direção, um passo ela também se distancia. E se não a podemos tocar com as mãos, de que nos serve? Gracias, Galeano, por nos ensinar esse sentido, ela serve para nos fazer caminhar.

Sete camaradas de sonho passaram 24 dias em um ato extremo, onde colocaram a própria vida como instrumento de luta. Greve de fome, por justiça no STF! Ou, como convencionamos dizer, “fome contra a fome”. Vislumbraram objetivos coletivos, lançaram perspectivas de justiça e liberdade, firmaram punhos cerrados e renegaram o alimento do corpo para fortalecer a certeza da causa: não é justo que uns lambuzem-se de fartura e opulência enquanto muitos outros subsistem a partir do quase nada, ou até mesmo perecem, carentes do alimento e do sentido de ser. Não faltarão, com toda certeza, as aves de rapina de plantão para tentar desdizer suas verdades. Nós, porém, que caminhamos ao seu lado nestes dias tão intensos, somos testemunhas de vitórias que se construíram a cada dia e se solidificaram passo a passo no lado correto da história.

Nestes dias nos reafirmamos como cidadãos e cidadãs com consciência de classe na cara da corte, enfrentamos o ódio irracional dos toscos com a força da fraternidade de quem sabe que o SER sempre há de ser mais forte que o TER. Firmamos uma narrativa a partir do campo popular, ajudamos a escrever a história de nossa gente e fizemos o judiciário – até então um poder inacessível aos mais simples – olhar para o povo e envergonhar-se de sua covardia cerimonial. Encontramos eco em sonhos outros que se multiplicaram a partir dos sete guerreiros iniciais e chegaram às dezenas seguintes e, rapidamente, se fizeram centenas, milhares, milhões… E ao arrematar, se torna impossível não relembrar o Che, em resposta a um questionamento de como seria se fosse abatido em combate. Olhar altivo o comandante profetizou a própria queda, enunciando que a morte seria bem vinda desde que seu grito fosse ouvido e outras mãos disponíveis se propusessem a empunhar suas armas na continuidade do combate.

Vencemos, camaradas. Ainda não a guerra, é verdade, mas especificamente nessa batalha, temos muitas vitórias a serem saudadas. As vitórias simbólicas são tão relevantes quanto aquelas que empreendemos no campo concreto. Algumas vezes até mais. A vitória maior se construirá a partir de muitas conquistas como estas. Fizemos nossa pequena parte no grande embate que nos cobra posição, dedicação, consciência e espírito de sacrifício.

Vencemos, porque nosso grito foi ouvido e muitas mãos se propuseram a empunhar nossas “armas” para seguir o bom combate. Muita gente que se mantinha em silêncio manifestou a voz. Muitos irmãos e irmãs que se julgavam sufocados pela opressão dos mais fortes voltaram a encontrar confiança para cerrar os punhos e erguer a voz. Bem-vinda seja o tombo que nos derruba no instante, mas fortalece a linha dorsal do nosso corpo para seguir adiante. Estamos em pé, fortes e convictos, prontos para dar uma passo a mais.

Obrigado Rafaela, Zonália, Gegê, Leonardo, Vilmar, Jaime e Sérgio, por nos fazerem olhar adiante e reencontrar no horizonte a utopia que nos faz caminhar e no instante compartilhado a certeza de que sim, é preciso seguir adiante. Um passo de cada vez, até a vitória, sempre!

(*) Jornalista, Militante do MPA

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Situação de saúde de grevistas de fome preocupa médicos. Movimentos cobram sensibilidade do STF

Fotos: Adilvane Spezia/MPA e Rede Soberania

A repercussão dos atos públicos programados para a terça-feira (21), com a participação dos sete grevistas de fome que representam organizações e movimentos populares vinculados à Frente Brasil Popular e Via Campesina, bem como os dois grevistas que utilizam a mesma técnica de ação individualmente, em frente a Supremo Tribunal Federal, ficaram em segundo plano por conta de um problema de saúde envolvendo uma das manifestantes. A grevista Zonália Santos passou mal no final do primeiro ato e precisou ser atendida inicialmente pelos médicos Ronald Wolff e Maria da Paz, que integram a Rede de Médicos e Médicas Populares e, depois, também pelos paramédicos do SAMU.

Segundo Ronald Wolff, Zonália apresentou uma hipotensão postural bastante acentuada, foi acometida por uma síncope e perdeu os sentidos. “Colocamos ela ao chão, elevamos as pernas e passamos afazer manobras para que ela recuperasse os sentidos”, acrescentou, explicando ainda que a grevista estava com o pulso fraco. Ainda segundo o médico, aos poucos ela foi retomando os sentidos até que chegasse o atendimento pré-hospitalar móvel, a ambulância. “Quando chegaram ela já havia acordado, conseguimos pegar um acesso venoso, colocar soro e ela reagiu relativamente bem, então foi conduzida de ambulância para o hospital”.

Após receber atendimento médico no Hospital Regional Asa Norte, Zonália retornou ao Centro Cultural de Brasil, onde permanece em repouso e segue sob observação da Equipe de Saúde da Greve de Fome.

A situação de risco de saúde dos grevistas têm sido alertada pelos médicos que se revezam para acompanhá-los em tempo integral, desde que o movimento foi deflagrado, em 31 de julho. Embora já tenham sido alertados para os riscos, os sete seguem irredutíveis em seus propósitos e prometem ir até as últimas consequências. Dirigentes ligados ao movimento mostraram-se revoltados com a insensibilidade dos ministros do Supremo, que até o momento, em sua maioria, resistem inclusive a receber os grevistas para conversar.

Para Maria Kazé, dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), a culpa dessa situação é do STF, “que não demonstrou até agora um mínimo sinal de sensibilidade para com estes companheiros e companheiras que estão há 22 dias esperando dolorosamente para serem recebidos por um ministro, por uma ministra”. Até o momento o único ministro que recebeu pessoalmente os grevistas foi Ricardo Lewandowski, enquanto Cármen Lúcia conversou com apenas um dos sete, prometendo que atenderia o grupo, sem efetivar a agenda até o momento.

(*) Com informações da equipe de Comunicação de apoio ao movimento da Greve de Fome. Publicado originalmente no Sul21.

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Guardiões das sementes sem veneno enfrentam ameaças de Temer

Juarez Antonio Felipe Perreira cultiva sementes de arroz crioulo em Barra do Ribeiro / Foto: Leandro Molina

Os guardiões e guardiãs de sementes crioulas vêm resgatando e preservando não só sementes, mas também saberes e práticas agroecológicas que buscam diminuir a dependência da agricultura em relação aos atuais pacotes tecnológicos das grandes empresas transnacionais do setor, marcados pelo uso intensivo de agrotóxicos e outros insumos químicos.

Um dos princípios que orienta o trabalho dos guardiões de sementes crioulas é a busca da autossuficiência nas propriedades agrícolas, condição necessária para uma maior independência econômica e para assegurar a qualidade do que está sendo produzido. Franciele Menoncin Bellé, cuja família tem propriedade em Antonio Prado, destaca a importância desse trabalho de resgate e plantio de sementes para garantir a autossuficiência. “O que é fundamental na agricultura, principalmente quando se trata de sementes, é buscar a autossuficiência, garantindo à propriedade tudo o que ela necessita para produzir. Isso é importante porque aí você sabe exatamente o que está usando e tem a noção do que está produzindo.”

A família de Franciele Bellé resgata e planta sementes crioulas de milho, feijão, melancias, melões, abóboras, pimentas, alfaces, tomates, flores comestíveis e diversas plantas alimentícias não convencionais (as PANCs), entre outras. Ela destaca o caso do tomate para ilustrar o valor do que é produzido com essas sementes. “Uma das nossas principais sementes são as de tomate. São poucas as propriedades que ainda preservam e plantam as suas sementes. A maioria compra esses híbridos, que são aqueles tomates durinhos que a gente encontra em mercados. A minha mãe chama esses tomates de plástico. Eles são durinhos e não tem sabor. O crioulo, em compensação, apesar de ser um pouquinho mais mole, é carregado de sabor. A qualidade dele é completamente diferente”.

Sementes de arroz crioulo

Juarez Antonio Felipe Perreira cultiva sementes de arroz crioulo em Barra do Ribeiro. Neste trabalho, já resgatou algumas variedades que estavam praticamente extintas. Ele descobriu uma diversidade de sementes e variedades nas mãos de pequenos agricultores que as cultivavam para seu próprio sustento. “Esse agricultor, na nossa região, nunca se preocupou em purificar uma semente. Ele cultiva o que gosta de comer. Havia um verdadeiro banco genético na mão desses agricultores”, conta.

Por meio desse trabalho de pesquisa nas propriedades de pequenos agricultores, ele foi resgatando diversas variedades de arroz crioulo. Algumas foram descartadas, relata, mas outras se multiplicaram e deram uma resposta muito boa em termos de adaptação, produção e satisfação no prato do consumidor. “Essas variedades têm mais sabor pois, normalmente, são adaptadas ao cultivo sem fertilizantes, sem adubos. Elas têm ainda muita inteligência de se relacionar com o meio onde vivem. A minha família cultiva o arroz farroupilha (uma dessas variedades) há mais de 85 anos. Pelo que sei, há pelo menos duas variedades, o farroupilha e o japonês, que estão aqui no estado há mais de cem anos”.

Ameaças no horizonte

O conhecimento envolvido no cultivo das sementes crioulas vem sendo passado de geração para geração e representa um movimento de resistência diante do modelo de produção proposto pelo agronegócio. Esse trabalho, porém, está ameaçado.  Um parecer jurídico assinado pelo Procurador da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Ricardo Augusto de Oliveira, proíbe e impede que sementes crioulas sejam utilizadas no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, que vem ocorrendo desde 2004.

Caso isso ocorra, alertou a Via Campesina em nota oficial, “muitas toneladas de sementes produzidas se transformarão em grão para consumo e milhares de famílias pobres do campo, entre elas indígenas e quilombolas, ficarão sem sementes para produzir sua subsistência”. Essa proposta, acrescenta a nota, representa “mais um rosto da fome se expressando no campo: impedir de plantar o que comer”.

Na avaliação das entidades que integram a Via Campesina, o objetivo real dessa proposta é extinguir o PAA. O governo Temer, assinalam, “serve aos grandes proprietários rurais e às multinacionais das sementes que querem extinguir o controle popular da biodiversidade agrícola. E assim, com aparência de legalidade, o golpe atingiu as sementes crioulas e quem as produz e utiliza”.

Uma ameaça similar paira sobre as chamadas cultivares. O Projeto de Lei 827/2015 propõe o pagamento de royalties sobre espécies de plantas que foram alteradas, como as híbridas. Essa proposta ameaça a troca, a livre distribuição e o armazenamento de sementes em comunidades tradicionais. Caso aprovado, o PL, de autoria do deputado ruralista Dilceu Sperafico (PP-PA), passaria o controle sobre o uso de sementes, plantas e mudas modificadas para grandes empresas do setor agropecuário.

(*) Publicado originalmente no Brasil de Fato.

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Quem tem coragem?

Foto: Adilvane Spezia/MPA

Foto: Adilvane Spezia/MPA

Marcos Antonio Corbari (*)

O título deste texto remete a uma canção. O poeta e cantador Pedro Munhoz é autor desse tributo aos que lutam. São 8 perguntas cantadas, intercaladas por uma resposta que se faz refrão. Nestes dias de turbulência onde se espera do povo que assuma o protagonismo da luta e a escritura das linhas de seu destino, resgatar esse canto se faz urgente.

*“Quem tem coragem de virar a página para escrever tudo de novo? Quem tem coragem de soltar a voz na língua do povo?”*

Desde 31 de julho sete guerreiros e guerreiras estão em greve de fome em Brasília. Alimentam-se de esperança. O corpo, há quase três semanas recebendo apenas água e soro ressente-se da falta do alimento físico e se torna mais frágil; o espírito, reforçado a cada dia na certeza de um ideal, firma-se em resistência e torna-se um grito silencioso de alerta para mim, para ti, para nós todos e todas.

“Quem tem coragem de negar Deus diante do espelho? Quem tem coragem pelo menos uma vez pintar o mundo de vermelho?”

Sérgio, Gegê, Rafaela, Léo, Jaime, Vilmar e Zonália irmanam-se não em torno de um sonho, mas de uma necessidade. É fome contra fome. Mais que a falta de alimento da qual ressentem-se no radicalismo de sua ação, o que os move é o sentimento de indignação contra as injustiças que nos últimos dois anos se institucionalizaram no Brasil pelas mãos de um presidente sujo, de um parlamento omisso e de um sistema judicial que perdeu o rumo. È pelo povo mais simples, pelo pobre que voltou a sentir fome, frio e medo.

“Somos um, seremos mais, lado a lado e em frente. Um mais um nunca é demais, é poesia, é gente!”

Uma greve de fome é um ato pacífico, jamais um ato passivo. Representa a radicalidade daqueles que colocam a própria vida como objeto de um ideal justo, como meio de mobilização para fazer despertar um povo que não pode mais se comportar como “massa”. Repito: é um grito silencioso que percorrer nossos sentidos mais pessoais e nos chama à organizar e lutar.

”Quem tem coragem de assumir com firmeza os próprios atos? Quem tem coragem de abrir mão para ser anonimato?”

O que move a greve de fome não é o nome de um candidato ou a sigla de um partido. É a indignação repleta de santidade que os faz perplexos frente às entrelinhas do noticiário que transformam as gentes em números e tantas vezes não dão nome nem rosto aos que morrem de frio e de fome, aos que são fuzilados pelas costas, aos que tem seus sonhos rasgados pela violência e pela indiferença.

“Quem tem coragem de dizer não perante o que há de vir? Quem tem coragem se preciso for ser o primeiro a cair?”

Se as manchetes dos grandes jornais ou as emissões das redes de televisão não lhes dão voz nem vez, é pela boca do povo que seu grito ganhará a sonoridade marcante para chegar até cada casa e até cada coração. Se os covardes que se escondem atrás da conveniência do anonimato das redes os atacam, é no abraço do povo que serão acolhidos, protegidos e multiplicados. Hoje eles são sete, amanhã seremos milhões.

“Somos um, seremos mais, lado a lado e em frente. Um mais um nunca é demais, é poesia, é gente!”

Sim, é como na resposta que Pedro Munhoz canta às perguntas que faz na canção: somos todos um só. Somos a fome deste sete que lutam em nosso nome. Seremos mais, organizados, pareados em esperança, caminhando lado a lado e seguindo em frente. Somados, cada um a seu modo, cada um de seu espaço, comporemos a poesia de nossos dias, escreveremos a história de nosso tempo e aos filhos dos nossos filhos legaremos a certeza de que com coragem colorimos esse tempo cinza. Obrigado guerreiros e guerreiras, sua fome não será em vão.

(*) Jornalista, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

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Documentário que mostra impacto da pecuária na Amazônia será exibido na UFRGS

Documentário faz parte de um projeto de jornalismo investigativo que já dura dois anos. (Divulgação)

O Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, promove, dia 31 de agosto, às 18h, no auditório Poente da Faculdade de Engenharia da UFRGS, a exibição do documentário “Sob a Pata do Boi” (Como a Amazônia vira pasto). Dirigido por Marcio Isensee e Sá, o filme é uma produção do site ((o)) eco, de jornalismo ambiental, e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O documentário faz parte de um projeto de jornalismo investigativo que já dura dois anos.  As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no local. A atividade faz parte da disciplina DER402 – Seminário em Desenvolvimento Rural.

O documentário mostra o impacto da atividade pecuária sobre a floresta amazônica. Hoje, aponta o filme, a Amazônia já tem cerca de 85 milhões de cabeças de gado em áreas que, até bem pouco tempo, eram cobertas por floresta. Na década de 1970, o rebanho era um décimo desse tamanho e o desmatamento tinha atingido apenas 1% da área de floresta (hoje esse índice está na casa dos 20%). De lá para cá, a expansão da atividade pecuária veio acompanhada pelo aumento acelerado do desmatamento na região. Como resultado dessa expansão, uma área de floresta equivalente ao território da França desapareceu neste período. Cerca de 66% dessa área virou pastagem. Isso ocorreu, mostra ainda o documentário, com incentivo governamental, o que atraiu milhares de fazendeiros de outras partes do país para a região.

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