Jornal Brasil de Fato RS é lançado em ato político-cultural em Porto Alegre

Lançamento da edição regional do Brasil de Fato no RS ocorreu no Memorial Luiz Carlos Prestes. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A versão regional impressa do jornal Brasil de Fato no Rio Grande do Sul foi lançada na noite desta terça-feira (17), com um ato político-cultura que lotou o Memorial Luiz Carlos Prestes, em Porto Alegre. A edição impressa gaúcha do jornal é a quinta do país, somando-se agora às edições regionais de Pernambuco, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro. A redação do Brasil de Fato no Rio Grande do Sul será tocada pela jornalista Katia Marko e pelos jornalistas Ayrton Centeno, Marcos Antonio Corbari e Marcelo Ferreira.

Em um primeiro momento, a edição do BF-RS será quinzenal, com 12 páginas e uma tiragem de 25 mil exemplares. A distribuição será gratuita e feita por militantes do Levante Popular da Juventude, do MST, do MPA e de sindicatos. O primeiro número já começou a ser distribuído em estações do Trensurb e em terminais de ônibus no centro de Porto Alegre.

Segundo a jornalista Katia Marko, toda a produção da redação será regional e, além do jornal impresso, ficará disponível no site do Brasil de Fato.  As principais editorias do BF-RS serão as de Cidades, Terra, Cultura, Lazer e Esportes. O primeiro número foi pré-lançado no último final de semana, em Santa Maria, durante a 25ª Feira Internacional Jubilar do Cooperativismo (Feicoop) e 3ª Feira Mundial de Economia Solidária (EcoSol).

Frei Sérgio Görgen e João Pedro Stédile no ato de lançamento.
(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O ato de lançamento oficial, ontem, em Porto Alegre, reuniu representantes de partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais, professores, jornalistas, estudantes e leitores do Brasil de Fato. Entre outros, participaram do ato no Memorial Luiz Carlos Prestes, João Pedro Stédile, Olívio Dutra, Raul Pont, Claudir Nespolo, Frei Sérgio Görgen, Wadih Damous, Edegar Pretto, Pedro Ruas, Paulo Pimenta, Raul Carrion, Henrique Fontana, Berna Menezes, Dionilso Marcon, Pedro Munhoz, Moisés Mendes, Cedenir de Oliveira e Grupo Unamérica, entre outros.

O jornalista Ayrton Centeno disse que o lançamento da edição impressa regional do Brasil de Fato no Rio Grande do Sul representa, entre outras coisas, uma volta às origens, pois a edição nacional do jornal foi lançada em Porto Alegre, em 2003, durante o Fórum Social Mundial. Centeno lembrou que o lançamento foi marcado por um grande ato no auditório Araújo Viana, que reuniu nomes como Noam Chomski, Eduardo Galeano e Sebastião Salgado. “O objetivo do nosso trabalho com o BF-RS será falar com as pessoas machucadas, não só pelos governos Temer, Sartori e Marchezan, mas, de modo mais geral, pela crise econômica e social que está afetando todo mundo”, assinalou.

Integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, João Pedro Stédile destacou a importância do jornal para “recuperar as boas práticas de formação política e de trabalho de base”. “A gente estava em dívida com a classe trabalhadora gaúcha de ter aqui também um tabloide impresso. Faltava um instrumento para a militância fazer agitação e propaganda das ideias. Neste período tão difícil que estamos vivendo, é fundamental que a classe trabalhadora tenha um instrumento de diálogo, de intercâmbio e de formação política. As pessoas já estão cansadas de panfletos e carros de som”.

O lançamento da próxima edição do Brasil de Fato RS está previsto para o dia 1° de agosto.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Anúncios
Publicado em Mídia | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário

A linguagem está ingressando na clandestinidade

(Público/Esquerda.Net, em “As histórias das mulheres na clandestinidade (durante a ditadura em Portugal)”

Está difícil falar abertamente sobre o que se tornaram as instituições que, em tese, deveriam zelar pela democracia e pelo chamado Estado Democrático de Direito no Brasil sem correr o risco de ser oprimido ou mesmo destruídos pelas mesmas. Associações de pessoas que afrontam a lei em nome de interesses privados escusos recebem, muitas vezes, a denominação de organizações criminosas, quadrilhas, entre outros nomes. Mas, na conjuntura atual, há que domar a vontade de esbravejar, colocar o fígado na mesa, dar nomes aos bois, na verdade, aos homens e mulheres que vêm operando para a destruição de algo que mereça ser chamado de país ou nação como preferem alguns. Muita gente está fazendo isso nas redes sociais e fora delas. Mas o solo por onde esses desabafos transitam está perigosamente minado.

Qual o espaço de interlocução que pode haver com quem despreza e conspira contra a Democracia, o Direito e a Justiça? O que esperar dessa gente? O que esperar quando juízes e integrantes da Polícia Federal, cinicamente, se sentem autorizados a não cumprir decisões do próprio Judiciário, utilizando-se dos subterfúgios mais escandalosos? O que dizer dessa gente? Que nome dar? Cabe lembrar aqui uma observação de Albert Camus. Ele disse, certa vez, algo mais ou menos assim: não chamar as coisas pelo seu nome correto aumenta o grau de infelicidade e de injustiça no mundo. Qual será a colheita de uma sociedade que semeia a infelicidade e injustiça?

Estamos sendo empurrados nesta direção, espremidos entre uma crescente e, em certo sentido, necessária auto-censura e o silêncio imposto pelo Estado de Exceção, capitaneado pelo Judiciário em parceria com uma grande mídia nefasta, na qual a Globo é a principal protagonista, mas não a única (a lista é extensa: Veja, Folha de S.Paulo, Zero Hora, Globo, Estadão, RBS, Bandeirantes, etc., conspiram contra as ideias mais generosas que o jornalismo pode carregar). Temos um jornalismo dominante (feito por jornalistas assalariados), paradoxalmente, alimentando silêncios, censura e injustiça.

Não chega a ser uma novidade. Esse silêncio, vale dizer, para não ser injusto, já é uma atitude bem conhecida por quem vive nas regiões de periferia, no campo e na cidade. Sobre esse ponto, recomendo uma entrevista que será publicada nesta segunda-feira no Sul21, feita pelo Luís Eduardo Gomes com o rapper Eduardo Taddeo, cujo titulo ilustra muito bem essa questão: “Quando a gente fala de democracia, a periferia nunca teve. Não conheço direitos humanos, ouvi falar”.

Chamar as coisas pelo seu nome correto hoje virou um ato subversivo. A linguagem, ela própria, está ingressando na clandestinidade e em uma situação de exílio dentro de seu próprio país. Virou uma condição de sobrevivência e de resistência para que ele possa seguir falando sobre o que está acontecendo sem ser trancafiada e/ou exterminada. Em uma conversa há alguns anos, em um Fórum Social Mundial, sobre uma possível hierarquia de direitos vítimas do neoliberalismo, o jornalista Bernardo Kucinski disse que a primeira vítima não eram os direitos humanos, mas sim a verdade. Desta violação, as demais se seguiam em um efeito dominó. É nisso que estamos.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Luta contra mineração no Camaquã entra no mapa de conflitos socioambientais de atenção mundial

O Atlas Global de Justiça Ambiental já reúne 2477 conflitos socioambientais em diferentes regiões do mundo. (Reprodução)

A luta das comunidades da bacia do rio Camaquã contra o projeto Caçapava do Sul, da Votorantim Metais, para extrair chumbo, zinco e cobre em uma área localizada às margens do rio Camaquã, foi aceita e registrada como Conflito Socioambiental de Atenção Mundial no Atlas Global de Justiça Ambiental. O EJAtlas é uma plataforma virtual interativa de mapeamento de conflitos ambientais no mundo que busca disponibilizar informações e dar mais visibilidade aos mesmos.

O “Projeto Caçapava do Sul” prevê a implantação de uma mina para a produção de 36 mil toneladas de chumbo contido, 16 mil toneladas de zinco e cinco mil toneladas de cobre contido, por ano. As empresas garantem que o projeto é sustentável e não oferece nenhum risco para o meio ambiente. Moradores da região, no entanto, desconfiam dessa promessa de segurança, lembrando os efeitos do vazamento de mercúrio nas instalações da antiga Companhia Riograndense do Cobre, nas Minas do Camaquã, que ocorreu em 1981, deixando sequelas em diversas cidades.

Leia também:

A luta de Palmas contra a mineração: ‘Para nós, sair daqui é um atestado de morte’
Projetos em curso podem fazer do RS um canteiro de mineração, alertam pesquisadoras
Projeto de mineração ameaça uma das últimas áreas preservadas do Pampa, advertem entidades
“Projetos de mineração provocarão colapso social e ambiental na metade sul do RS

A área onde a Votorantim pretende minerar é uma das regiões mais preservadas do Rio Grande do Sul e a mais preservada do bioma Pampa. Ela é habitada por comunidades tradicionais que tem um modelo de desenvolvimento baseado na pecuária familiar, na agricultura familiar, no artesanato de lã e na produção de doces coloniais, entre outras atividades.

Esse território possui dois sítios considerados de alta relevância em termos de patrimônio geológico, que figuram na lista “Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil” e fazem parte do patrimônio geológico brasileiro. Moradores da região criaram a União pela Preservação do Camaquã (UPP) que vem procurando articular várias comunidades na luta contra a implementação do projeto minerador.

“Nós conhecemos de perto o que significam essas promessas. Tivemos uma experiência direta. A CBC (Companhia Brasileira de Cobre) contaminou o Camaquã em 1988 e 1989 e o rio sofre até hoje os prejuízos. Foi uma tristeza ver os peixes desaparecendo. Nós vamos lutar até o fim, enquanto tivermos uma gota de sangue, contra esse projeto”, diz Márcia Collares, moradora de Palmas e integrante da UPP (veja abaixo vídeo produzido pelo Sul21, em 2017, sobre a mobilização de moradores da região contra o projeto de mineração).

O Atlas Global de Justiça Ambiental possibilita a pesquisa de conflitos ambientais por país, por tipo de material explorado e por empresas envolvidas. A plataforma já reúne 2477 conflitos socioambientais em diferentes regiões do mundo. No Brasil, até o momento, há 104 conflitos registrados. A iniciativa tem o apoio de movimentos sociais, organizações civis e pesquisadores que contribuem para preencher o mapa com mais casos de conflitos e informações sobre os mesmos.

Essa plataforma faz parte do projeto Environmental Justice Organisations, Liabilities and Trade (EJOLT), do qual participam mais de 100 especialistas e pesquisadores de 23 universidades e organizações não-governamentais de 18 países pelo mundo. O projeto é coordenado no Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) na Espanha pela pesquisadora Leah Temper e pelo professor Joan Martinez Alier.

(*) Publicada originalmente no Sul21.

Publicado em Meio Ambiente | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Nota da Ocupação Mulheres Mirabal

Facebook/Ocupação Mulheres Mirabal

Em plena campanha pelo fim da violência contra as mulheres, a Entidade Salesianos solicita a “legalização” da violência por parte do Estado. Apesar da existência de um GT para negociações que verificam as possibilidade de continuidade do trabalho de acolhimento para mulheres violentadas, garantindo a negociação de outros imóveis para transferência das Mulheres Mirabal, a intransigência dos Salesianos foi muito maior, pois os mesmos, sempre indispostos a estarem presentes no GT, no qual lhes foi oferecida até a permutação de outros imóveis para conciliação, acabam de peticionar a Reintegração de posse da Ocupação Mulheres Mirabal, reafirmando sua falta de interesse na busca de uma negociação.

Cabe lembrar a forma como a Brigada Militar trata os indivíduos em processos de reintegração de posse, à exemplo da Ocupação Lanceiros Negros em 2017, em que mais de 70 famílias foram expulsas violentamente de um prédio abandonado, sob ataque de cerca de 200 brigadianos armados, bombas de gás e balas de borracha durante uma madrugada gélida. Desta forma sabemos que novamente as mulheres correm risco de vida, quer seja pela falta de alternativa de continuidade do serviço, quer seja pela violência policial que estarão sujeitas.

Temos como perspectivas a intenção de agilizar o processo de negociação e exigimos uma posição definitiva do Estado (prefeitura, estado federado, entre outros) para garantir a manutenção da casa, o acesso a rede de saúde, de acompanhamento jurídico e de relação com a comunidade; coisas que atualmente são possibilitadas pela localização central da Ocupação de Mulheres Mirabal.

Em síntese, o Estado não nos dá nenhum tipo de contrapartida para realizar um trabalho de saúde pública que como mencionamos deveria ser feito pelos mesmos. Nossas reivindicações são justas pois neste um ano e meio de existência já abrigamos mais de 70 mulheres na Ocupação e já totalizamos mais de 200 atendimentos sendo muito desses casos encaminhados pelas delegacias e redes de acolhimento da cidade, que legitimam a importância do serviço que prestamos à sociedade, um trabalho de Políticas Publicas, pautada pela Lei Maria da Penha, que o Estado não cumpre.

A continuidade do nosso trabalho garante que centenas de mulheres e seus filhos não passem mais por violência, é um serviço indispensável, visto que, hoje, a cidade de Porto Alegre possui apenas uma casa abrigo com 12 vagas e um Centro de Referência que não conseguem suprir a demanda de uma cidade com mais de 700 mil mulheres.

PELA VIDA DAS MULHERES!

Publicado em Direitos Humanos, Política | Marcado com | Deixe um comentário

Inspiradas pela Argentina, brasileiras preparam ‘onda verde’ pela legalização do aborto

Ato pela legalização do aborto foi seguido por caminhada pelo centro de Porto Alegre. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“Cadê o homem que engravidou? Por que a culpa é da mulher que abortou?”. A palavra de ordem entoadas por algumas centenas de mulheres, no início da noite desta sexta-feira (22), em uma caminhada pela avenida Borges de Medeiros, centro de Porto Alegre, indicou que a mobilização das mulheres argentinas atravessou a fronteira e chegou ao Brasil. E será para valer, garantem as organizadoras do ato pela legalização do aborto, realizado na Esquina Democrática.

Convocado simultaneamente em várias cidades brasileiras, o ato pretende ser o primeiro passo para a organização de uma mobilização massiva em todo o país, a exemplo do que está acontecendo na Argentina e também no Chile, onde estudantes ocuparam escolas e universidades em defesa de uma educação não-sexista, do fim do assédio e do abuso sexual.

O ato no centro de Porto Alegre foi convocado pelas redes sociais por um grupo de coletivos e ativistas feministas. A partir das 17h, um microfone foi aberto na Esquina Democrática para que as mulheres pudessem se manifestar sobre o tema. A presença do lenço verde utilizado pelas mulheres argentinas em sua luta pela legalização do aborto indicou o caráter internacionalista do movimento feminista que vem se articulando em vários países da América Latina. As palavras de ordem da manifestação também bateram na mesma tecla. “Te cuida, te cuida, te cuida seu machista, a América Latina será toda feminista”, dizia uma delas.

No curto prazo, no Brasil, um dos principais objetivos desse movimento é criar uma mobilização massiva para acompanhar a audiência pública que ocorrerá no Supremo Tribunal Federal nos dias 3 e 6 de agosto. A audiência foi marcada pela ministra Rosa Weber, relatora da ação que pede a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação.

“Hoje, essa não é uma luta entre aborto sim ou aborto não, mas entre aborto seguro, para quem tem dinheiro, e aborto clandestino. É uma mobilização em defesa da vida das mulheres”, disse Mariam Tessah, que ajudou a convocar o ato. Na mesma linha, Maria do Carmo, integrante da Marcha Mundial de Mulheres, disse que, hoje, só tem acesso a um processo seguro de interrupção da gravidez aquelas mulheres que podem pagar por ele. “Podemos estar numa conjuntura adversa para fazer esse debate, mas esse é o tempo que temos, é o tempo da vida das mulheres”, afirmou. A vereadora Fernanda Melchionna (PSOL) participou do ato e convocou todas as mulheres e homens presentes a se comprometerem com a construção de uma mobilização massiva, a exemplo do que aconteceu e segue acontecendo na Argentina.

Após o ato na Esquina Democrática, as mulheres saíram em caminhada pela Avenida Borges de Medeiros em direção ao Largo Zumbi dos Palmares. Panfletos foram distribuídos à população falando sobre o sentido e os objetivos do movimento. “O aborto é uma prática definida como ilegal perante a lei que vitima as mulheres pobres. Queremos acabar com a hipocrisia que tanto nos mata. Legalizar o aborto é urgente”, dizia o material de divulgação da mobilização.

O ato desta sexta-feira, destacaram as organizadoras, foi o primeiro passo para isso. Será criada uma página, anunciaram, para servir como referência informativa dos próximos passos dessa mobilização. Enquanto ela não é criada, a página 8M Porto Alegre RS – Greve Internacional de Mulheres, no Facebook, trará informações sobre o movimento.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Clemente Ganz: ‘Custo do desmonte dos sindicatos será muito alto para a sociedade’

Clemente Ganz Lúcio: “A Reforma Trabalhista quer quebrar os sindicatos”. Foto: Guilherme Santos/Sul21

A recente greve dos caminhoneiros e as mudanças que estão acontecendo na estrutura produtiva do país, além de explicitar bem o que é o mercado, mostraram o alto custo que pode ter para a sociedade brasileira o desmonte dos sindicatos. A combinação da submissão da Petrobras à lógica do mercado, por um governo sem legitimidade e capacidade de negociação, com uma representação questionada pela própria categoria protagonista da greve paralisou o país. Na avaliação do sociólogo Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a greve dos caminhoneiros evidenciou as graves consequências de um dos principais objetivos dos defensores da Reforma Trabalhista, que é o enfraquecimento dos sindicatos.

“A Reforma Trabalhista quer quebrar os sindicatos. Veja o que aconteceu na greve dos caminhoneiros. O que é conduzir uma greve como esta, com locaute junto, quando se tem dúvida sobre a legitimidade da representação dessa categoria? Um governo incompetente na negociação com uma liderança do jeito que está posta resulta no caos que tivemos. O custo do desmonte dos sindicatos será muito alto para a sociedade”, diz Clemente Ganz, que alerta para o fato de que o problema não foi resolvido. “O governo fez um acordo por dois meses. E daqui a dois meses, o que ele fará? Os caminhoneiros vão ficar quietos?”.

Em entrevista ao Sul21, o diretor técnico do Dieese fala sobre os efeitos que já podem ser sentidos a partir da aprovação da Reforma Trabalhista e sobre as mudanças profundas que estão ocorrendo na estrutura produtiva brasileira e mundial. “Nós temos uma mudança de organização do patrimônio das empresas. Cada vez mais, as médias e grandes corporações estão mudando de propriedade. Isso significa que o dono tradicional familiar transfere a propriedade para fundos de investimento que têm outra lógica de organização”.

No caso do Brasil, assinala, o Estado, ao permitir que as nossas empresas sejam transferidas para o capital internacional do jeito que estão sendo transferidas, faz com que a economia nacional perca capacidade. “O capitalista nacional, que estrutura a base do sistema produtivo do país, não é mais nacional. Os novos proprietários dessas empresas querem segurança e liberdade para agir do jeito que bem entenderem(…). Os interesses que estão por trás destes negócios e que apoiaram o impeachment da presidenta Dilma são os mesmos interesses fazem guerra no Oriente Médio, matam, destroem países, acabam com a democracia, fazem o que for necessário. Não há negócios no mundo como os que estão sendo feitos no Brasil. É muito sério e grave o que está acontecendo”, afirma o sociólogo. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Publicado em Economia, Política | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Seminário debate relações entre alimentação, câncer e conflitos de interesse

Seminário ocorre dia 9 de junho no Salão de Atos da UFRGS. (Divulgação)

O Núcleo Interdisciplinar de Prevenção de Doenças Crônicas na Infância da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) promove, dia 9 de junho, em Porto Alegre, a VII edição do Seminário Universidade e Escolas, que terá como tema “Alimentação, câncer e conflito de interesses”. O evento será realizado no Salão de Atos da UFRGS (Campus Central), a partir das 9h, com previsão de término para as 17h30min.

As relações entre a indústria alimentícia, a alimentação e o câncer serão debatidas em duas mesas redondas: “Alimentação x Câncer: você já pensou nisso?” e “Conflito de interesses: alimentação, nutrição, pesquisa e indústria. Como isso afeta você?”. Um dos principais eixos de atuação do Núcleo Interdisciplinar é a alimentação na primeira infância, que é quando se forma o hábito alimentar.

A programação também prevê uma palestra sobre “Os novos paradigmas de Comer, brincar e educar”, uma Tenda da Rotulagem, que prestará esclarecimentos sobre a nova proposta sobre a rotulagem dos alimentos que está sendo proposta para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Duas oficinas estão confirmadas: uma sobre “Alimentos Vivos” e outra sobre “Os vilões ocultos: açúcar e sal”.

Estão confirmadas as participações dos seguintes debatedores e debatedoras: Ana Paula Bortoletto, da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, do Idec; João Peres, do site O joio e o Trigo; José Roberto Goldim, Medicina -UFRGS; Tânia Ramos Fortuna da Pedagogia – UFRGS; Maria Laura Louzada, da UNIFESP; Ronaldo Correa, do INCA – RJ; Sandra de Deus, da PROREXT – UFRGS.

As inscrições podem ser feitas no link https://goo.gl/4bWoCS ou, presencialmente, no dia do seminário, das 8 às 9 horas. Não será cobrada taxa de inscrição e será emitido certificado pela Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS.

Publicado em Meio Ambiente, Saúde Pública | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Filosofia africana: a luta pela razão e uma cosmovisão para proteger todas as formas de vida

ean Bosco Kakozi é professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), em Foz do Iguaçu. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Em suas Lições sobre a Filosofia da História, Hegel diz que a África não tem interesse histórico próprio e é um local em que os homens “vivem na barbárie e na selvageria, sem se ministrar nenhum ingrediente da civilização”. A África, para Hegel, não é um lugar habitado pela História nem pela Razão (“os africanos são crianças eternas, envoltos na negrura da noite sem a luz da história consciente”, diz ainda). Tratada hoje como um preconceito datado e anacrônico, a visão hegeliana sobre a relação do continente africano com a razão permanece viva na prática filosófica do presente, avalia o professor de Filosofia Jean Bosco Kakozi, natural da República do Congo, que esteve em Porto Alegre nesta última semana para fazer uma conferência na 6a Semana da África na UFRGS.

Doutor em Filosofia e Ciências Humanas, Kakozi tem pós-doutorado em Direito (na área de direitos humanos) pela Unisinos e atualmente é professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), em Foz do Iguaçu. Além disso, é um pesquisador da filosofia africana (Ubuntu) e latino-americana, da escravidão africana, movimentos sociais afrodescendentes, racismo e exclusão social, e relações inter-étnicas entre indígenas e afrodescendentes da América Latina e Caribe. O tema de sua conferencia na UFRGS foi “Ubuntu e Ukama: uma cosmovisão africana de inclusão e interdependência vital”.

Em entrevista ao Sul21, Jean Bosco Kakozi falou sobre os conceitos de Ubuntu e Ukama, fundadores de uma filosofia africana que, ao contrário do antropocentrismo que marca a tradição ocidental, caminha na direção de uma cosmovisão biocêntrica, que está sempre voltada para fortalecer, cuidar, gerar e transmitir a vida, respeitando todos os seres vivos, humanos e não humanos e tratando os ancestrais como elo de ligação entre os vivos, os mortos e os que ainda não nasceram. Lembrando a passagem de Hegel, ele fala por que o problema da Filosofia na África é o problema da luta pela razão, uma luta que se aplica também aos povos indígenas e outros povos excluídos pela civilização ocidental moderna na África, na América Latina e na Ásia. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Publicado em Cultura, Direitos Humanos, Justiça, Política | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

“Nos negamos a desaparecer. Não vamos abandonar a nossa terra”, diz embaixador palestino

Ibrahim Alzeben: “Os que cometeram crimes contra o povo palestino serão levados a tribunais internacionais”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A morte de 59 pessoas na véspera da Nakba, data em que os palestinos lembram o dia em que foram expulsos de suas terras após a criação do Estado de Israel em 1948, representou um fato corriqueiro na vida do povo palestino nas últimas décadas. “Trata-se de uma renovação, de um testemunho vivo do que o povo palestino vem vivendo nestes 70 anos, desde 1948 até o dia de hoje”, disse o embaixador do Estado da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, ao comentar o resultado trágico de mais um dia de protestos na fronteira da Faixa de Gaza com Israel. O diplomata esteve em Porto Alegre, segunda-feira (14), para participar de um seminário, realizado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, para marcar a passagem dos 70 anos da Nakba e debater a situação atual do povo palestino.

Em entrevista ao Sul21, Ibrahim Alzeben falou sobre essa realidade e sobre o significado da decisão dos Estados Unidos de transferir sua embaixada em Israel para Jerusalém. Segundo ele, com essa medida, os Estados Unidos deixam “cair a máscara” e assumem sua posição de apoiadores da ocupação militar da Palestina. “Os Estados Unidos sempre quiseram aparentar uma postura de mediador e de um parceiro para a paz. Com a transferência de sua embaixada para Jerusalém demonstra que é um aliado indiscutível dos israelenses, aliado e apoiador da ocupação militar”. Ao lamentar a morte de 59 palestinos na segunda-feira e “dos outros milhares de palestinos que caíram ao longo desta caminhada pela libertação”, ele assegurou: “Seguiremos resistindo. É um momento para reafirmar a nossa resistência. Nós nos negamos a desaparecer. Essa terra é nossa. Vivemos nela há mais de 10 mil anos e não vamos abandoná-la”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Publicado em Mundo | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário

Famílias kaingang realizam retomada de terra em Passo Fundo

Famílias estavam em acampamentos na região de Passo Fundo (Divulgação).

Um grupo de famílias kaingang, reunindo cerca de 60 pessoas, iniciou na manhã de sábado (12) um processo de retomada de uma área localizada entre os municípios de Passo Fundo e Carazinho, no norte do Rio Grande do Sul. As famílias vieram de acampamentos Kaingang instalados na região que vêm sofrendo repetidas ameaças e operações de despejo. No dia 15 de fevereiro deste ano, um grupo de 12 famílias kaingang foi alvo de uma violenta operação de despejo por parte da Brigada Militar, que resultou em vários feridos por balas de borracha e motivou uma nota de repúdio por parte do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

A comunidade de famílias kaingang decidiu dar o nome de “Goj jur” (rio nascente) para a retomada. “Estamos só retomando o que já foi nosso, o que é nosso de direito, pra não deixar a nossa cultura morrer. Queremos uma escola dentro da aldeia para as nossas crianças que, na cidade, são deixadas de lado e sofrem muito preconceito”, diz Nilvo Dias. Letícia Dias também destaca a intenção de abrir uma escola na área retomada para ensinar às crianças tanto o português quanto a língua kaingang.

“Estamos aqui para fazer essa retomada das terras que pertenceram a nós no passado. Estamos aqui pelas nossas crianças, pelos nossos pais que estão aqui lutando junto com nós e para que possamos um colégio e um posto de saúde aqui. Com a nossa luta, pretendemos ficar neste lugar”, acrescenta Lucimara Mariano.

Os kaingang são um povo originário dessa região que é hoje um dos principais focos de conflitos fundiários do Estado. Eles foram sendo expulsos de suas terras pelo processo de colonização e expansão da agricultura. No século XVII, viviam na área que viria a se tornar o Rio Grande do Sul cerca de 40 povos indígenas diferentes. Quatro séculos depois, restam pouco mais de 30 mil indígenas e apenas quatro grupos de povos indígenas vivendo no Estado: Kaingang, Gurani, Charrua e Xokleng. Os kaingang representam o grupo mais numeroso, totalizando cerca de 30 mil pessoas vivendo divididas em várias áreas do Rio Grande do Sul.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Direitos Humanos | Marcado com , , | Deixe um comentário

Em meio à kamanchaka

“A desconfiança generalizada põe em questão não só os partidos, mas as próprias instituições”. (Foto: Ramiro Furquim)

Manuel Castells (*)

 A “kamanchaka” é um termo aymara que o grande sociólogo boliviano Fernando Calderon, atualmente catedrático em Cambridge, utiliza metaforicamente para conceitualizar a situação na América Latina. Creio que ele é relevante para o conjunto do mundo, incluindo nosso país e nossas vidas. A kamanchaka, fenômeno natural dos Andes, é uma bruma obscura e espessa que invade tudo, impedindo que se veja algo e gerando incerteza, angustia, ansiedade. Algo assim ocorre no momento atual. O que era já não é e o que pode vir a ser não se vislumbra. A confusão se estende ao do pessoal ao global.

Por exemplo, ainda que os governos dêem por superada a crise, na realidade, o emprego que se cria não é o mesmo, sobretudo para os jovens. Seu futuro fica obscurecido. Há pouco emprego estável. O salário médio na Espanha é de 20 mil euros anuais, com maioria de “mileuristas” [1]. 54% das pessoas entre 18 e 34 anos vivem com seus pais por não poder pagar um aluguel. A situação não é menos incerta para as pessoas idosas que são constantemente lembradas que suas pensões não são sustentáveis. Resta a família, mas em uma situação gravemente ferida porque os homens não se acostumaram ao fato de que as mulheres já não se deixam dominar. Cerca de 40% dos casamentos acaba em divorcio ao chegar à “cuarentena”. E ainda que a religião persista no mundo, no nosso entorno a Igreja Católica cambaleia, incapaz de se adaptar às novas gerações.

Como não há inferno, como sugere o Papa, não nos resta nem o temor. Além disso, temos dois papas, e Francisco, o único que tenta recuperar as origens cristãs, está entrincheirado no convento de Santa Marta porque não confia na Cúria vaticana. Enquanto nós não acreditamos nas instituições que governam nossa vida. Começando por uma magistratura que vê violência onde a justiça alemã não a vê e, em troca, não vê violação quando uma manada de bestas violentam uma adolescente. Temos perdido confiança nas instituições políticas, na Espanha e no mundo, em porcentagens superiores a 50% e, no nosso caso, a 75%.

E como não fazê-lo quando a presidenta da Comunidade de Madri e sucessora in pectore de Rajoy dedica-se a falsificar seu título universitário e rouba creme de 20 euros para ocultar seu envelhecimento? E quando os dirigentes do PP, em Madri, ajustam as contas como mafiosos.

A desconfiança generalizada põe em questão não só os partidos, mas as próprias instituições, obscurecendo a identidade cidadã. No estado espanhol, tenta-se silenciar a golpes da Guarda Civil o fato de que milhões de catalães, bascos, galegos e muitos outros não se reconhecem nesta Constituição que já viveu seu tempo. Quem somos então? Estamos em curso para nos tornarmos apátridas? Porque milhões de europeus tampouco se sentem representados pela União Europeia. Os britânicos já se foram e na Polônia, Hungria, República Checa e inclusive na Itália partidos eleitoralmente majoritários querem renegociar tudo.

Se estendemos a visão para além de nosso horizonte seguimos envoltos pela kamanchaka. Com a América Latina dominada pela corrupção que correu democracias conquistadas a duras penas até destruí-las na mente das pessoas, com um presidente após outro forçados a sair, com bandos criminosos penetrando as instituições, dissolvendo estudantes em ácido ou assassinando impunemente aqueles que denunciam sua cumplicidade com o Estado, como a vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro. E, em meio à névoa, se vislumbra a sombra de uma Casa Branca habitada por um psicopata com um botão nuclear, que diz se opor à globalização que o promoveu, que reúne tropas de fieis racistas e xenófobos e que trata de ocultar a colusão de sua campanha com a Rússia. Mesmo que a advogada Veselnikskaya, que participou da reunião de junho de 2016 na Trump Tower, onde foram trocadas informações sobre Hillary em troca de favores, tenha acabado de declarar que é informante do Kremlin. Sombras sobre sombras até gerar uma obscuridade global onde se movem estratégias ocultas e poderes fáticos que operam nas trevas.

Em meio a esta confusão se acelera a revolução tecnológica sem que saibamos como nem para que, movida pela dinâmica de novos mercados e pregada por encantadores de serpentes. A inteligência artificial está penetrando todas as dimensões da vida, induzindo uma transformação da produção e do emprego sem que saibamos como substituir o que está sendo destruído. O automóvel auto-guiado “uberiza” os motoristas do Uber, assim como estes fazem com os taxistas. Nossa sexualidade está sendo transformada por inovações como a que reportou este diário há pouco tempo, da empresa Abyss, de San Diego, que produz bonecas e bonecos dotados de avançadas capacidades sexuais e emocionais. A síntese da engenharia genética e computacional chegou à fronteira de clonar humanos e espera somente pela oportunidade legal. Busquem na internet o premiado documentário “DNA Dreams”, da cineasta Bregtje Van der Haak, sobre a empresa chinesa que já está armazenando genes de milhares de crianças selecionadas por sua inteligência, para produzir clones com estes genes no futuro.

A penetração das redes sociais, nas quais estamos todos, por multidões de robôs que amplificam e difundem falsas informações sobre qualquer coisa está questionando a promessa de transparência e participação que a internet representava. Enquanto a kamanchaka obscurece toda a paisagem do humano, estamos perdendo qualquer bússola para nos guiar rumo à saída. Nossas categorias intelectuais são obsoletas. Enquanto não dispusermos de um paradigma cognitivo adequado para o mundo que temos criado sem ser conscientes deste processo, não sairemos dos labirintos da kamanchaka onde a angústia nos deriva para as drogas, legais ou não, opiáceas ou sintéticas.

[1] Pessoa jovem, normalmente entre os 25 e 30 anos de idade, que possui uma sólida formação acadêmica, com pós-graduação e domínio de mais de um idioma, mas que desempenha uma atividade que se encontra muito abaixo de sua capacidade e formação, recebendo pela mesma um pagamento que não supera os mil euros por mês. (Fonte: Definición ABC)

(*) Doutor em sociologia pela Universidade de Paris, é professor nas áreas de sociologia, comunicação e planejamento urbano e regional e pesquisador dos efeitos da informação sobre a economia, a cultura e a sociedade. Artigo publicado originalmente em La Vanguardia.

Tradução: Marco Weissheimer

Publicado em Cultura, Economia, Meio Ambiente, Mundo, Política | Marcado com , | Deixe um comentário

Centrais sindicais celebram unidade inédita e querem ampliar luta por Lula livre e revogação da Reforma Trabalhista

Ato do dia primeiro de maio, em Curitiba, reuniu milhares de pessoas na Praça Santos Andrade. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Uma das perguntas repetidas com frequência nos últimos dias em Curitiba foi: como será daqui pra frente, após o 2 de maio? A referência simbólica da data está relacionada ao desafio de manter e ampliar a intensidade das mobilizações em favor da libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde o dia 7 de abril no prédio da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. No dia 1o de maio, os movimentos sociais, partidos, centrais sindicais e demais organizações que participam destaca campanha deram uma demonstração de força levando milhares de pessoas para os atos realizados durante todo o dia na capital paranaense. Após a caminhada e o ato na Vigília Lula Livre, pela manhã, uma nova manifestação lotou a praça Santos Andrade, no centro da cidade.

Leia também:
Movimentos sociais e sindicatos querem ampliar ocupações e greves por Lula livre

A decisão de realizar um ato unificado em Curitiba foi tomada pelos dirigentes das seis centrais sindicais – CUT, Força Sindical, CTB, UGT, NCST e Intersindical – quatro dias depois da prisão de Lula, com o objetivo de aumentar a pressão sobre o Judiciário em favor da libertação do ex-presidente. Somaram-se a essa decisão, as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, que reúnem movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e União Nacional dos Estudantes (UNE). A expressão da força desta unidade apareceu nas ruas de Curitiba nos últimos dias.

Manter e fortalecer a unidade construída até aqui, enfatizam os dirigentes dessas organizações, é uma condição indispensável para o êxito dessa mobilização. Na abertura do ato realizado na praça Santos Andrade, Wagner Gomes, secretário geral da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), destacou que a campanha pela libertação de Lula conseguiu unificar as centrais sindicais e está tornando mais claro, para a população, o sentido do que vem acontecendo no Brasil nos últimos anos. “Esse golpe não tem nada a ver com pedalada. Este golpe tem tudo a ver com o projeto de governo iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva. A elite nunca admitiu que o governo do Brasil estivesse nas mãos de uma frente partidária que defendesse a camada mais humilde da população, a soberania nacional e os trabalhadores”.

Na mesma linha, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, chamou a atenção para o fato de, pela primeira vez, ocorrer um ato de 1o. de maio unitário, desde o surgimento de todas as centrais sindicais. “É importante destacar isso porque somente Lula foi capaz de nos unificar. Estão todos aqui unidos em defesa de Lula, em defesa da classe trabalhadora. A única chance de retomar a democracia no país e resgatar os direitos trabalhistas é garantir a liberdade de Lula para que ele se torne novamente o presidente do Brasil”. A mesma mensagem de unidade foi proclamada por representes da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA) e da UWA, dos Estados Unidos: “Lula hoje não é brasileiro, é de toda America, de todo o mundo, porque nós todos somos Lula hoje”.

O ato em Curitiba contou com a presença também de Guilherme Boulos, líder do MTST e pré-candidato à presidência da República pelo PSOL, e de Manuela D’Ávila, pré-candidata à presidência da República pelo PCdoB. Em sua fala, Boulos destacou o duplo sentido político do ato: “Estamos aqui em defesa dos direitos dos trabalhadores e em defesa da democracia. Não há democracia plena quando não temos democracia econômica e social. E não há democracia quando prendem Lula sem provas para tirá-los das eleições”. Manuela D’Ávila, por sua vez, disse que Curitiba é hoje “o novo símbolo da nossa unidade e da nossa resistência porque aqui está preso o maior líder popular do Brasil”. A pré-candidata do PCdoB também defendeu a realização de um referendo revogatório da Reforma Trabalhista para que a população possa se manifestar sobre as alterações da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), votadas pelo Congresso Nacional em 2017.

Sem poder estar presente fisicamente ao ato, o ex-presidente Lula enviou uma carta que foi lida pela presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann. Na carta, Lula diz que “a esperança que retomamos neste 1o de maio unificado não é apenas um desejo, é algo que buscamos em nossa luta democrática em todos os dias. Ela nos fortalece para superarmos o triste momento presente e para construir um futuro de paz e solidariedade” (ver, ao final desta matéria, a íntegra da carta de Lula).

O ato de 1o. de maio no centro de Curitiba também teve uma dimensão de festa. No palco, os destaques ficaram por conta do raper Flávio Renegado, da cantora Ana Cañas e da sambista Beth Carvalho. Mas as manifestações musicais não se restringiram ao palco. No meio da praça, grupos de manifestantes promoveram as suas próprias atrações como a de uma banda de percussão que arrastou um verdadeiro bloco de carnaval com a adaptação de um clássico nos estádios de futebol no Brasil. Um trecho da letra embalada pela percussão dizia: “Lula, não importa o que digam, sempre estarei contigo/A bandeira vermelha, a estrela na mão/Curitiba te espera, pra vencer essa guerra”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário