“Nos negamos a desaparecer. Não vamos abandonar a nossa terra”, diz embaixador palestino

Ibrahim Alzeben: “Os que cometeram crimes contra o povo palestino serão levados a tribunais internacionais”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A morte de 59 pessoas na véspera da Nakba, data em que os palestinos lembram o dia em que foram expulsos de suas terras após a criação do Estado de Israel em 1948, representou um fato corriqueiro na vida do povo palestino nas últimas décadas. “Trata-se de uma renovação, de um testemunho vivo do que o povo palestino vem vivendo nestes 70 anos, desde 1948 até o dia de hoje”, disse o embaixador do Estado da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, ao comentar o resultado trágico de mais um dia de protestos na fronteira da Faixa de Gaza com Israel. O diplomata esteve em Porto Alegre, segunda-feira (14), para participar de um seminário, realizado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, para marcar a passagem dos 70 anos da Nakba e debater a situação atual do povo palestino.

Em entrevista ao Sul21, Ibrahim Alzeben falou sobre essa realidade e sobre o significado da decisão dos Estados Unidos de transferir sua embaixada em Israel para Jerusalém. Segundo ele, com essa medida, os Estados Unidos deixam “cair a máscara” e assumem sua posição de apoiadores da ocupação militar da Palestina. “Os Estados Unidos sempre quiseram aparentar uma postura de mediador e de um parceiro para a paz. Com a transferência de sua embaixada para Jerusalém demonstra que é um aliado indiscutível dos israelenses, aliado e apoiador da ocupação militar”. Ao lamentar a morte de 59 palestinos na segunda-feira e “dos outros milhares de palestinos que caíram ao longo desta caminhada pela libertação”, ele assegurou: “Seguiremos resistindo. É um momento para reafirmar a nossa resistência. Nós nos negamos a desaparecer. Essa terra é nossa. Vivemos nela há mais de 10 mil anos e não vamos abandoná-la”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Anúncios
Publicado em Mundo | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário

Famílias kaingang realizam retomada de terra em Passo Fundo

Famílias estavam em acampamentos na região de Passo Fundo (Divulgação).

Um grupo de famílias kaingang, reunindo cerca de 60 pessoas, iniciou na manhã de sábado (12) um processo de retomada de uma área localizada entre os municípios de Passo Fundo e Carazinho, no norte do Rio Grande do Sul. As famílias vieram de acampamentos Kaingang instalados na região que vêm sofrendo repetidas ameaças e operações de despejo. No dia 15 de fevereiro deste ano, um grupo de 12 famílias kaingang foi alvo de uma violenta operação de despejo por parte da Brigada Militar, que resultou em vários feridos por balas de borracha e motivou uma nota de repúdio por parte do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

A comunidade de famílias kaingang decidiu dar o nome de “Goj jur” (rio nascente) para a retomada. “Estamos só retomando o que já foi nosso, o que é nosso de direito, pra não deixar a nossa cultura morrer. Queremos uma escola dentro da aldeia para as nossas crianças que, na cidade, são deixadas de lado e sofrem muito preconceito”, diz Nilvo Dias. Letícia Dias também destaca a intenção de abrir uma escola na área retomada para ensinar às crianças tanto o português quanto a língua kaingang.

“Estamos aqui para fazer essa retomada das terras que pertenceram a nós no passado. Estamos aqui pelas nossas crianças, pelos nossos pais que estão aqui lutando junto com nós e para que possamos um colégio e um posto de saúde aqui. Com a nossa luta, pretendemos ficar neste lugar”, acrescenta Lucimara Mariano.

Os kaingang são um povo originário dessa região que é hoje um dos principais focos de conflitos fundiários do Estado. Eles foram sendo expulsos de suas terras pelo processo de colonização e expansão da agricultura. No século XVII, viviam na área que viria a se tornar o Rio Grande do Sul cerca de 40 povos indígenas diferentes. Quatro séculos depois, restam pouco mais de 30 mil indígenas e apenas quatro grupos de povos indígenas vivendo no Estado: Kaingang, Gurani, Charrua e Xokleng. Os kaingang representam o grupo mais numeroso, totalizando cerca de 30 mil pessoas vivendo divididas em várias áreas do Rio Grande do Sul.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Direitos Humanos | Marcado com , , | Deixe um comentário

Em meio à kamanchaka

“A desconfiança generalizada põe em questão não só os partidos, mas as próprias instituições”. (Foto: Ramiro Furquim)

Manuel Castells (*)

 A “kamanchaka” é um termo aymara que o grande sociólogo boliviano Fernando Calderon, atualmente catedrático em Cambridge, utiliza metaforicamente para conceitualizar a situação na América Latina. Creio que ele é relevante para o conjunto do mundo, incluindo nosso país e nossas vidas. A kamanchaka, fenômeno natural dos Andes, é uma bruma obscura e espessa que invade tudo, impedindo que se veja algo e gerando incerteza, angustia, ansiedade. Algo assim ocorre no momento atual. O que era já não é e o que pode vir a ser não se vislumbra. A confusão se estende ao do pessoal ao global.

Por exemplo, ainda que os governos dêem por superada a crise, na realidade, o emprego que se cria não é o mesmo, sobretudo para os jovens. Seu futuro fica obscurecido. Há pouco emprego estável. O salário médio na Espanha é de 20 mil euros anuais, com maioria de “mileuristas” [1]. 54% das pessoas entre 18 e 34 anos vivem com seus pais por não poder pagar um aluguel. A situação não é menos incerta para as pessoas idosas que são constantemente lembradas que suas pensões não são sustentáveis. Resta a família, mas em uma situação gravemente ferida porque os homens não se acostumaram ao fato de que as mulheres já não se deixam dominar. Cerca de 40% dos casamentos acaba em divorcio ao chegar à “cuarentena”. E ainda que a religião persista no mundo, no nosso entorno a Igreja Católica cambaleia, incapaz de se adaptar às novas gerações.

Como não há inferno, como sugere o Papa, não nos resta nem o temor. Além disso, temos dois papas, e Francisco, o único que tenta recuperar as origens cristãs, está entrincheirado no convento de Santa Marta porque não confia na Cúria vaticana. Enquanto nós não acreditamos nas instituições que governam nossa vida. Começando por uma magistratura que vê violência onde a justiça alemã não a vê e, em troca, não vê violação quando uma manada de bestas violentam uma adolescente. Temos perdido confiança nas instituições políticas, na Espanha e no mundo, em porcentagens superiores a 50% e, no nosso caso, a 75%.

E como não fazê-lo quando a presidenta da Comunidade de Madri e sucessora in pectore de Rajoy dedica-se a falsificar seu título universitário e rouba creme de 20 euros para ocultar seu envelhecimento? E quando os dirigentes do PP, em Madri, ajustam as contas como mafiosos.

A desconfiança generalizada põe em questão não só os partidos, mas as próprias instituições, obscurecendo a identidade cidadã. No estado espanhol, tenta-se silenciar a golpes da Guarda Civil o fato de que milhões de catalães, bascos, galegos e muitos outros não se reconhecem nesta Constituição que já viveu seu tempo. Quem somos então? Estamos em curso para nos tornarmos apátridas? Porque milhões de europeus tampouco se sentem representados pela União Europeia. Os britânicos já se foram e na Polônia, Hungria, República Checa e inclusive na Itália partidos eleitoralmente majoritários querem renegociar tudo.

Se estendemos a visão para além de nosso horizonte seguimos envoltos pela kamanchaka. Com a América Latina dominada pela corrupção que correu democracias conquistadas a duras penas até destruí-las na mente das pessoas, com um presidente após outro forçados a sair, com bandos criminosos penetrando as instituições, dissolvendo estudantes em ácido ou assassinando impunemente aqueles que denunciam sua cumplicidade com o Estado, como a vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro. E, em meio à névoa, se vislumbra a sombra de uma Casa Branca habitada por um psicopata com um botão nuclear, que diz se opor à globalização que o promoveu, que reúne tropas de fieis racistas e xenófobos e que trata de ocultar a colusão de sua campanha com a Rússia. Mesmo que a advogada Veselnikskaya, que participou da reunião de junho de 2016 na Trump Tower, onde foram trocadas informações sobre Hillary em troca de favores, tenha acabado de declarar que é informante do Kremlin. Sombras sobre sombras até gerar uma obscuridade global onde se movem estratégias ocultas e poderes fáticos que operam nas trevas.

Em meio a esta confusão se acelera a revolução tecnológica sem que saibamos como nem para que, movida pela dinâmica de novos mercados e pregada por encantadores de serpentes. A inteligência artificial está penetrando todas as dimensões da vida, induzindo uma transformação da produção e do emprego sem que saibamos como substituir o que está sendo destruído. O automóvel auto-guiado “uberiza” os motoristas do Uber, assim como estes fazem com os taxistas. Nossa sexualidade está sendo transformada por inovações como a que reportou este diário há pouco tempo, da empresa Abyss, de San Diego, que produz bonecas e bonecos dotados de avançadas capacidades sexuais e emocionais. A síntese da engenharia genética e computacional chegou à fronteira de clonar humanos e espera somente pela oportunidade legal. Busquem na internet o premiado documentário “DNA Dreams”, da cineasta Bregtje Van der Haak, sobre a empresa chinesa que já está armazenando genes de milhares de crianças selecionadas por sua inteligência, para produzir clones com estes genes no futuro.

A penetração das redes sociais, nas quais estamos todos, por multidões de robôs que amplificam e difundem falsas informações sobre qualquer coisa está questionando a promessa de transparência e participação que a internet representava. Enquanto a kamanchaka obscurece toda a paisagem do humano, estamos perdendo qualquer bússola para nos guiar rumo à saída. Nossas categorias intelectuais são obsoletas. Enquanto não dispusermos de um paradigma cognitivo adequado para o mundo que temos criado sem ser conscientes deste processo, não sairemos dos labirintos da kamanchaka onde a angústia nos deriva para as drogas, legais ou não, opiáceas ou sintéticas.

[1] Pessoa jovem, normalmente entre os 25 e 30 anos de idade, que possui uma sólida formação acadêmica, com pós-graduação e domínio de mais de um idioma, mas que desempenha uma atividade que se encontra muito abaixo de sua capacidade e formação, recebendo pela mesma um pagamento que não supera os mil euros por mês. (Fonte: Definición ABC)

(*) Doutor em sociologia pela Universidade de Paris, é professor nas áreas de sociologia, comunicação e planejamento urbano e regional e pesquisador dos efeitos da informação sobre a economia, a cultura e a sociedade. Artigo publicado originalmente em La Vanguardia.

Tradução: Marco Weissheimer

Publicado em Cultura, Economia, Meio Ambiente, Mundo, Política | Marcado com , | Deixe um comentário

Centrais sindicais celebram unidade inédita e querem ampliar luta por Lula livre e revogação da Reforma Trabalhista

Ato do dia primeiro de maio, em Curitiba, reuniu milhares de pessoas na Praça Santos Andrade. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Uma das perguntas repetidas com frequência nos últimos dias em Curitiba foi: como será daqui pra frente, após o 2 de maio? A referência simbólica da data está relacionada ao desafio de manter e ampliar a intensidade das mobilizações em favor da libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde o dia 7 de abril no prédio da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. No dia 1o de maio, os movimentos sociais, partidos, centrais sindicais e demais organizações que participam destaca campanha deram uma demonstração de força levando milhares de pessoas para os atos realizados durante todo o dia na capital paranaense. Após a caminhada e o ato na Vigília Lula Livre, pela manhã, uma nova manifestação lotou a praça Santos Andrade, no centro da cidade.

Leia também:
Movimentos sociais e sindicatos querem ampliar ocupações e greves por Lula livre

A decisão de realizar um ato unificado em Curitiba foi tomada pelos dirigentes das seis centrais sindicais – CUT, Força Sindical, CTB, UGT, NCST e Intersindical – quatro dias depois da prisão de Lula, com o objetivo de aumentar a pressão sobre o Judiciário em favor da libertação do ex-presidente. Somaram-se a essa decisão, as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, que reúnem movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e União Nacional dos Estudantes (UNE). A expressão da força desta unidade apareceu nas ruas de Curitiba nos últimos dias.

Manter e fortalecer a unidade construída até aqui, enfatizam os dirigentes dessas organizações, é uma condição indispensável para o êxito dessa mobilização. Na abertura do ato realizado na praça Santos Andrade, Wagner Gomes, secretário geral da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), destacou que a campanha pela libertação de Lula conseguiu unificar as centrais sindicais e está tornando mais claro, para a população, o sentido do que vem acontecendo no Brasil nos últimos anos. “Esse golpe não tem nada a ver com pedalada. Este golpe tem tudo a ver com o projeto de governo iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva. A elite nunca admitiu que o governo do Brasil estivesse nas mãos de uma frente partidária que defendesse a camada mais humilde da população, a soberania nacional e os trabalhadores”.

Na mesma linha, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, chamou a atenção para o fato de, pela primeira vez, ocorrer um ato de 1o. de maio unitário, desde o surgimento de todas as centrais sindicais. “É importante destacar isso porque somente Lula foi capaz de nos unificar. Estão todos aqui unidos em defesa de Lula, em defesa da classe trabalhadora. A única chance de retomar a democracia no país e resgatar os direitos trabalhistas é garantir a liberdade de Lula para que ele se torne novamente o presidente do Brasil”. A mesma mensagem de unidade foi proclamada por representes da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA) e da UWA, dos Estados Unidos: “Lula hoje não é brasileiro, é de toda America, de todo o mundo, porque nós todos somos Lula hoje”.

O ato em Curitiba contou com a presença também de Guilherme Boulos, líder do MTST e pré-candidato à presidência da República pelo PSOL, e de Manuela D’Ávila, pré-candidata à presidência da República pelo PCdoB. Em sua fala, Boulos destacou o duplo sentido político do ato: “Estamos aqui em defesa dos direitos dos trabalhadores e em defesa da democracia. Não há democracia plena quando não temos democracia econômica e social. E não há democracia quando prendem Lula sem provas para tirá-los das eleições”. Manuela D’Ávila, por sua vez, disse que Curitiba é hoje “o novo símbolo da nossa unidade e da nossa resistência porque aqui está preso o maior líder popular do Brasil”. A pré-candidata do PCdoB também defendeu a realização de um referendo revogatório da Reforma Trabalhista para que a população possa se manifestar sobre as alterações da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), votadas pelo Congresso Nacional em 2017.

Sem poder estar presente fisicamente ao ato, o ex-presidente Lula enviou uma carta que foi lida pela presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann. Na carta, Lula diz que “a esperança que retomamos neste 1o de maio unificado não é apenas um desejo, é algo que buscamos em nossa luta democrática em todos os dias. Ela nos fortalece para superarmos o triste momento presente e para construir um futuro de paz e solidariedade” (ver, ao final desta matéria, a íntegra da carta de Lula).

O ato de 1o. de maio no centro de Curitiba também teve uma dimensão de festa. No palco, os destaques ficaram por conta do raper Flávio Renegado, da cantora Ana Cañas e da sambista Beth Carvalho. Mas as manifestações musicais não se restringiram ao palco. No meio da praça, grupos de manifestantes promoveram as suas próprias atrações como a de uma banda de percussão que arrastou um verdadeiro bloco de carnaval com a adaptação de um clássico nos estádios de futebol no Brasil. Um trecho da letra embalada pela percussão dizia: “Lula, não importa o que digam, sempre estarei contigo/A bandeira vermelha, a estrela na mão/Curitiba te espera, pra vencer essa guerra”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Movimentos sociais e sindicatos querem ampliar ocupações e greves por Lula livre

Caminhada em direção à vigília Lula Livre reuniu milhares de pessoas em Curitiba. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O início das mobilizações do dia 1o de Maio em Curitiba, no início da manhã desta terça-feira, foi marcado por uma caminhada que reuniu milhares de pessoas e se dirigiu para as imediações da Superintendência da Polícia Federal, onde Lula está preso desde o dia 7 de abril. A caminhada percorreu cerca de um quilômetro e meio até o local onde ocorre diariamente o ato “Bom dia, presidente Lula”. Nesta terça, o bom dia foi entoado pelos manifestantes em, pelo menos, quatro línguas diferentes. Além do “bom dia” em português, o ex-presidente também recebeu saudações em espanhol, francês e inglês, vindas de representantes de outros países que também participaram da caminhada e da manifestação.

Acompanhada por algumas viaturas da Polícia Militar do Paraná, a caminhada transcorreu sem qualquer incidente. Ao longo do percurso, os manifestantes receberam manifestações de apoio, por meio de acenos de janelas de prédios e de buzinas de automóveis, e também alguns xingamentos que partiram de alguns moradores de prédios localizados no trajeto. No cômputo geral, não houve um clima de hostilidade aos participantes da marcha. Na chegada ao bairro Santa Cândida, onde está localizado o prédio da PF, uma verdadeira multidão tomou as ruas em direção ao local da vigília. Todo mundo queria chegar perto e formou-se uma massa humana, no meio da qual era difícil transitar. Manifestantes de outros estados perguntavam onde estava localizado o prédio da Polícia Federal. Queriam ao menos dar uma olhada onde Lula está preso.

O ato de bom dia ao presidente Lula contou com a manifestação de parlamentares e lideranças sindicais do Brasil e de outros países. A fala mais importante foi de Roberto Baggio, coordenador estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Paraná e integrante da direção nacional do MST. Baggio propôs três compromissos aos movimentos sociais, partidos, sindicatos, centrais sindicais e demais organizações que participam da mobilização pela libertação de Lula. O primeiro deles é manter a mobilização para garantir a libertação e a candidatura de Lula às eleições presidenciais deste ano.

O segundo compromisso é a ampliação das ocupações, greves e outras formas de luta por todo o país até que Lula seja libertado. Baggio propôs a organização de uma greve geral no dia em que o Supremo Tribunal Federal julgar o recurso para a libertação do ex-presidente. O terceiro compromisso apresentado pelo dirigente do MST é de natureza organizativa. Ele propôs a criação de comitês populares em todos os municípios do Brasil para organizar as lutas da cidade, se preparar para eleger Lula e para, a partir de 2019, governar junto com ele. Esses comitês, detalhou Baggio, devem funcionar sob um regime de democracia participativa e priorizar não só as tarefas de mobilização, mas também de formação política dos participantes. Por fim, defendeu que esses comitês estimulem a militância a mandar cartas para o ex-presidente.

Após a caminhada e o ato de bom dia a Lula, ocorreu um culto ecumênico com a participação de representantes de várias confissões religiosas. A próxima etapa da mobilização é o ato do 1o. de Maio na praça Santos Andrade que, após muito tempo, reunirá representantes de todas as centrais sindicais do país. Além da defesa dos direitos que vêm sendo atacados pela reforma trabalhista aprovada no Congresso Nacional, essa unidade pretende aprofundar, dentro do movimento sindical, a luta pela libertação de Lula. O desafio que está colocado para as direções das centrais sindicais é fazer com que a mobilização que ocorre em Curitiba e em outras cidades do Brasil neste 1de Maio se amplie por todo o país a partir de quarta-feira (2).

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Golpe recrudesce no Brasil com o desejo de aniquilar a esquerda

O acampamento Marisa Leticia, no bairro Santa Cândida em Curitiba, foi alvo de ataque a tiros na madrugada deste sábado (28). Duas pessoas ficaram feridas e uma delas está hospitalizada. Foto Gibran Mendes

Por Katarina Peixoto

Tem muita gente com certeza a respeito da própria bondade e bom caráter, que acredita que estamos em uma democracia. Para muitos, enquanto não houver OBAN e DOPS, não há ditadura. Um juízo generoso sobre essas crenças depende da atribuição de ignorância e ou de uma certa complacência quanto às próprias certezas sobre si mesmos. Está claro que os fascistas são ignorantes.

Fascismo é isto: uma grande ignorância irascível, mortal, organizada militarmente e inimiga de toda institucionalidade. O que muita gente não vê ou se recusa a ver, é que não estamos diante da violência estatal, transmutada em golpistas clássicos, fardados, vociferando as imbecilidades paranoides de sempre.

O processo de desestabilização brasileiro começou e depende do veneno na sociedade, da paranoia insidiosa e da mentira. Com esse expediente, as famílias midiáticas cevaram o ódio que se alastra, armado, com a certeza psicótica de que estão a extirpar um furúnculo, enquanto disseminam uma septicemia.

Hoje, uma mulher e um homem foram baleados. O homem teve uma bala atravessada em seu pescoço. Lula segue preso acusado e condenado por uma mentira na qual é preciso uma dose cavalar de imbecilidade e ódio de classe para acreditar.

A justiça do inimigo disseminou censura, paranoia, perseguições, demissões, crise política e agravamento da crise econômica. Só entregam miséria moral, violência, impunidade e falta de perspectiva. Ruíram com o arcabouço constitucional e comandam um governo sem voto, sem apoio, sem legitimidade, que acredita se sustentar nos seus canais de propaganda televisivos e radiofônicos.

Já há dezenas de mortos na conta do golpe. O campo está um açougue. Marielle e Anderson segue insepultos na impunidade e Marisa Letícia, idem. Quem não está pior, para quem não piorou? Quem, em sã e tranquila consciência, pode afirmar que haverá eleição para presidente no Brasil, neste ano?

O que os fascistas adestrados pela mídia familiar e protegidos pelo aparato golpista querem é uma reação. Querem uma desculpa, querem que alguém, com indignação o suficiente e nervos, de menos, mostre-lhes, na sua linguagem, o que eles são. Querem um sacrifício ainda maior que aquele a que submeteram o Lula. Não lhes é suficiente dilacerar a sociedade e marcar gerações com ódio e desconfiança mútua, um expediente que nem o stalinismo mais militante foi capaz de promover. Não lhes é suficiente desempregar aos milhões e aniquilar com o investimento estatal. Não lhes é suficiente transformar o campo em um açougue impune. Não lhes é relevante a próxima geração de famintos que está com um ano.

O golpe brasileiro recrudesce com o desejo irrefreável de aniquilar a todos e a cada um de nós, da esquerda. É disso que se trata e é isso o que está em jogo. Por trás da carcaça dos delinquentes golpistas e de seus protetores togados e do aparato judicial e corporativo, está uma necessidade cada vez mais evidente: a sua sobrevivência depende da nossa aniquilação. Seria um jogo da galinha não estivéssemos fora de qualquer jogo.

Nem sei por que estou escrevendo isso. Não adianta, mas eu preciso. Eu só queria que minhas amizades e anexades saíssem da zona perceptiva que nos protege, nas classes médias para cima, para perceber que o veneno é ecumênico. E que é preciso resistir, em cada consciência, em cada minuto de atenção, em cada aperto de mão, em cada notícia que se lê. Em cada juízo que fazemos.

Eu pensava, em fins de 2015, que um cenário chileno 73′ era a fantasia golpista. Eu estava errada. O que estamos vivendo, ceteris paribus (que ironia, como se cláusulas houvesse), é um cenário muito parecido com o argentino, nas vésperas de 76. E, com um agravante: a partir de setores organizados dentro da sociedade, com o cinismo e a proteção do aparato golpista, que repudia no atacado e protege no varejo, o extermínio e a perseguição dos inimigos do regime. Em um cenário como esse, OBAN e DOPS não são requeridos. E ninguém está protegido, por incrível que pareça. Está em curso uma guerra suja.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

PT critica omissão e silêncio de autoridades e da mídia “ante a barbárie crescente”

Foto: Gibran Mendes

Além de ferir duas pessoas, disparos atingiram um banheiro químico dentro do acampamento. (Foto: Gibran Mendes)

A direção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou nota, na manhã deste sábado (28) denunciando o ataque a tiros contra o acampamento Marisa Letícia como “mais um episódio de violência política contra a democracia”. Esse ataque, assinala a nota, acontece um mês depois de tiros terem atingido ônibus da caravana Lula Pelo Brasil no interior do Paraná. “Até agora não foram presos os autores dos disparos feitos no mês passado e tampouco os desta madrugada”, diz ainda a nota que critica a “omissão conivente das autoridades e da mídia golpista que silencia ante a barbárie crescente”. E acrescenta:

“Depois do golpe de Estado que derrubou a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff, aumentaram os ataques e assassinatos contra lideranças sociais no campo e na cidade (…) O assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro continua impune”.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Paraná, os disparos de arma de fogo contra o acampamento Marisa Letícia foram feitos com uma pistola 9mm, arma de alto poder letal. Os peritos encontraram cápsulas de pistola 9mm no local. Um manifestante foi atingido no pescoço e está em estado grave na UTI. Outros disparos atingiram um banheiro químico dentro do acampamento.

O secretário nacional de Comunicação da Central Única dos Trabalhadores CUT), Rotina Barbosa, informou que a programação da Vigília Lula Livre e do 1o. de Maio unificado em Curitiba está mantida, apesar do ataque desta madrugada ao acampamento. “O objetivo desse ato fascista era desmobilizar nossas manifestações democráticas. Não conseguiram”.

Barbosa disse ainda que ocorrerá ainda neste sábado uma reunião com a governadora do Paraná, Cida Borgheti, para exigir a investigação do crime e cobrar o cumprimento do acordo assinado entre a Frente Brasil Popular e autoridades paranaenses, para a mudança de local do acampamento, que incluía rondas da Polícia Militar nos arredores.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Acampamento Lula Livre é atacado a tiros. Duas pessoas ficam feridas, uma em estado grave

Acampamento Marisa Letícia, em Curitiba. (Foto: Neudicleia de Oliveira/Brasil de Fato)

As organizações que coordenam a vigília Lula Livre, em Curitiba, divulgaram nota, na manhã deste sábado (28), repudiando o ataque a tiros contra o acampamento Marisa Letícia, ocorrido nesta madrugada. O ataque deixou duas pessoas feridas, uma delas de forma grave, com um tiro no pescoço. A nota cobra da Secretaria Estadual de Segurança do Paraná uma investigação para identificar os autores do ataque e garante que o ocorrido não intimidará os movimentos que estão organizando um ato massivo para o dia 1o. de maio na capital paranaense. Segue a íntegra da nota:

A vigília Lula Livre e as diversas organizações que a integram repudiam de forma veemente o ataque a tiros contra o acampamento Marisa Letícia, ocorrido na madrugada de hoje (28) e que resultou em duas pessoas feridas, uma delas de forma grave, com um tiro no pescoço.

 A sorte de não ter havido vítimas fatais não diminui o fato da tentativa de homicídio, motivada pelo ódio e provocação de quem não aceita que a vigília é pacífica, alcança três semanas e vai receber um Primeiro de Maio com presença massiva em Curitiba. Não nos intimidarão!

 No fundo, é uma crônica anunciada. Desde o dia quando houve a mudança de local de acampamento (17), cumprindo demanda judicial, integrantes do movimento social haviam sido atacados na região. Desde aquele momento, a coordenação da vigília já exigia policiamento e apoio de viaturas, como foi inclusive sinalizado nos acordos para mudança no local do acampamento.

 “Nós desmanchamos o acampamento cumprindo ordem oficial. Fizemos a opção de ir para um terreno e seria garantida a segurança. Agora o que cobramos da Secretaria de Segurança Pública é investigação, que identifique o atirador”, enfatiza Dr Rosinha, presidente do PT estadual e integrante da coordenação da vigília.

Seguiremos com nossas atividades, lutas, programação e debates da vigília. A cada dia vai se tornando cada vez mais impressionante como, mesmo preso, a figura do ex-presidente Lula, a força moral que ganha, as denúncias contra a injustiça de sua prisão, tudo isso causa desespero nos seus algozes.

 Por isso, estamos no caminho certo e venceremos! Em repúdio contra a violência, realizamos o trancamento da rua na região e seguiremos lutando.

Convocamos a sociedade e as pessoas que prezam pela democracia, pelo livre direito à expressão, pela diversidade de vozes na política, que somem-se a nós na vigília. Não aceitaremos tentativas de retrocesso que já nos custaram muitas lutas e vidas. 

Vigília Lula Livre, 28 de abril de 2018.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário

Flávio Koutzii: ‘Há uma engrenagem de destruição física e psíquica de Lula na PF em Curitiba’

Flavio Koutzii: “A estrutura dela (da cela de Lula) é exatamente igual a do sistema prisional que a ditadura argentina usou para destruir seus opositores. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Flávio Koutzii passou quatro anos preso, entre 1975 e 1979, em cinco prisões da ditadura argentina. Foi preso por integrar a Fracción Roja do PRT e do ERP (Partido Revolucionário dos Trabalhadores – Exército Revolucionário do Povo), que participou da resistência armada à ditadura. Após sair da prisão, Koutzii foi para a França, onde se diplomou em Sociologia na “École des Hautes Études en Sciences Sociales”, onde defendeu a tese “Système et contre-système carceral pour les prisonniers politiques en Argentine” – 1976-1980”, que serviu de base para o livro “Pedaços de Morte no Coração”, publicado no Brasil em 1984 pela L&PM. Koutzii citou essa pesquisa, durante debate realizado segunda-feira (23) à noite no auditório do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, para falar da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Promovido pelos mandatos da deputada estadual Stela Farias e do deputado federal Henrique Fontana, do PT, o debate, que lotou o auditório do SindBancários, reuniu Flávio Koutzii e Lenio Streck, convidados para falar sobre o “colapso da democracia e a ascensão do conservadorismo no Brasil”. Koutzii lembrou do estudo baseado na vivência direta que teve nas prisões da ditadura argentina, para falar da prisão de Lula.

“Tenho uma certa experiência sobre isso. Passei quatro anos preso na Argentina e depois, em liberdade, escrevi um trabalho sobre o sistema prisional em que vivi. Passei por cinco prisões e procurei sistematizar o modelo que cada uma usava para tentar coagir e destruir física e psiquicamente os prisioneiros. Quando olhei o desenho da cela onde Lula foi colocado na Polícia Federal em Curitiba, que é apenas um pouquinho maior daquelas em que fiquei na Argentina, vi que a estrutura dela é exatamente igual a do sistema prisional que a ditadura argentina usou para destruir seus opositores, uma ditadura, cabe lembrar, que ‘desapareceu’ 30 mil pessoas”.

Flávio Koutzii disse que ficou pasmo com o que os meios de comunicação estavam reproduzindo sobre os supostos “privilégios” que Lula estaria usufruindo no prédio da Polícia Federal em Curitiba. “Havia coisas que tínhamos, como um período para tomar sol, que não está claro se Lula está tendo. Estou cada vez mais convencido que há uma engrenagem de destruição física e psíquica de Lula em Curitiba”.

O diagnóstico de Koutzii acerca do tratamento ao qual Lula vem sendo destinado foi acompanhado de uma advertência sobre a duração desse processo: “Isso não vai se resolver em seis meses. É preciso ter isso em mente na luta de resistência. Eles não conseguiram a imagem que queriam na prisão de Lula. Pelo contrario, a imagem que ficou foi ele sendo carregado nos braços do povo”. Para o ex-deputado estadual e ex-chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra, a prisão de Lula representa uma virada na história do Brasil. “Parece o momento de uma derrota, mas não é uma derrota irreversível”. Mais uma vez, ele lembrou da Argentina, mais especificamente do peronismo. “Desde os anos 50, com tudo o que aconteceu, é impossível fazer política na Argentina sem o peronismo. Resguardadas todas as diferenças, não tenho dúvida em dizer que não haverá política no Brasil sem Lula. Eles têm a Globo, o Moro e aquele dono de puteiro, mas nós temos uma figura gigantesca”.

Para Lenio Streck, o sistema judicial dos azembe, na África do Sul, ofereceria maiores chances de justiça a Lula do que o sistema brasileiro. No sistema azembe, assinalou, os pajés preparam um veneno que é ingerido por um pintinho. “Se o pintinho morre, o réu é condenado; se ele vive, é absolvido. Neste sistema, Lula teria pelo menos 50% de chances de ser absolvido”. Streck classificou como extremamente grave o que em acontecendo no sistema judicial brasileiro. O item 9 do acórdão da sentença contra Lula, assinalou, diz que não se pode exigir do Ministério Público uma postura isenta no processo. “Adverti meus colegas do MP que eles não poderiam aceitar isso, mas descobri que eles próprios eram os autores dessa formulação”.

Lenio Streck: “Aquilo que nós desprezamos está nos destruindo”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Essa situação, ressaltou, se fortaleceu graças à postura da própria esquerda brasileira que negligenciou coisas que não deveria ter negligenciado. “Aquilo que nós desprezamos está nos destruindo. Uma parcela da esquerda desdenhou o Direito e agora que precisa dele ele não está mais lá”. Lenio Streck disse acreditar, por outro lado, que o STF está metido em uma ‘sinuca de bico’, especialmente apos a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC), impetrada pelo PCdoB, pedindo a declaração de constitucionalidade do artigo 283 do Código de Processo Penal e a proibição da execução antecipada da pena. Essa ADC, observou Streck, tem a ver com um ponto levantado por Gilmar Mendes, segundo o qual, o voto do falecido ministro Teori Zavaski apontou a possibilidade de prisão após decisão em segunda instância e não obrigatoriedade.

Lenio Streck ironizou o caminho adotado pelo ministro Edson Fachin, dizendo que ele está fazendo exatamente o percurso contrario de São Paulo. “Fachin faz o caminho inverso ao feito por Saulo, faz o caminho contrário de Damasco”. E apontou a parcela de responsabilidade da esquerda em relação ao que está acontecendo hoje.

“A ministra Rosa Weber aplicou o drible da vaca em seu voto ao adotar a tese da colegialidade, mas é bom lembrar que essa tese foi defendida em passado recente pela esquerda. A tese de que você tem que ser coerente mesmo no erro e que a soma dos votos de um colegiado vincula o seu voto. Esse foi o fator principal da prisão de Lula e de várias outras pessoas. Nós deixamos passar batido muitas coisas que não deveríamos ter deixado passar, inclusive em episódios como os da prisão do Delcídio do Amaral e do Eduardo Cunha, esta última uma prisão para esquentar o golpe. Caímos na armadilha do discurso fácil contra o foro privilegiado. Primeiro aconteceu isso, depois aconteceu aquilo e depois não tem mais nada. O objetivo maior de todo esse processo é a criminalização da política”, alertou.

Streck criticou a lógica que vem imperando nas faculdades de Direito. “As faculdades de Direito não estão formando apenas analfabetos funcionais, estão formando fascistas. O professor de Direito Constitucional, hoje, é um subversivo. Ao dar aula de Direito Constitucional ele pode ser acusado de obstrução de justiça”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Política | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

‘Todas as opressões estão conectadas. Veganismo é uma extensão lógica da luta anti-opressão’

Sandra Guimarães: todas as formas de opressão têm uma coisa em comum: a exploração, discriminação e violência contra o ser mais vulnerável. (Foto: Anne Paq)

Existe uma hierarquia da opressão? Deve existir uma hierarquia entre as diferentes lutas contra diferentes formas de opressão? Essas questões entraram na vida de Sandra Guimarães desde cedo. Nascida em uma família vinda do Sertão nordestino, ela nasceu e cresceu em Natal, Rio Grande do Norte. O seu pai entrou no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) quando ela tinha 12 anos de idade e a reforma agrária passou a fazer parte de seu cotidiano. Estudar no exterior era o seu maior sonho e, desde os 14 anos, passou a economizar dinheiro para realizá-lo. Aos 20 anos, foi estudar em Paris onde morou por seis anos, formando-se em Linguística. Em 2007, decidiu fazer um trabalho voluntário de duas semanas na Palestina. Acabou ficando cinco anos lá trabalhando como voluntária no campo de refugiados de Aida, em Belém. Ao longo dessa trajetória, Sandra tornou-se chef vegana, escritora, ativista e guia política na Palestina.

Editora do blog Papacapim, Sandra Guimarães vem levando, desde 2004, grupos de brasileiros para tours político-ativista-veganos na Palestina. Para ela, o veganismo não é uma escolha alimentar, mas sim política. “Embora a opressão tenha várias faces”, assinala, “cada uma com as suas particularidades, todas elas tem uma coisa em comum: a exploração, discriminação e violência contra o ser mais vulnerável pelo ser que tem mais poder”. Em entrevista concedida por e-mail ao Sul21, Sandra Guimarães fala sobre essas escolhas, suas raízes e implicações políticas, e sobre o trabalho que vem realizando na Palestina. Os valores principais do veganismo, defende, são os mesmos pelos quais a esquerda luta: justiça, solidariedade e igualdade. “Se dizer vegana e de direita me parece uma contradição”, afirma. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Publicado em Política | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Como o Rio Grande do Sul se tornou uma trincheira do atraso no Brasil

Ana Amélia Lemos, Aécio Neves e José Ivo Sartori. (Foto: Divulgação/Igo Estrela)

O Rio Grande do Sul não cansa de passar vergonha na cena nacional. O mais recente capítulo desta saga vexaminosa foi protagonizada pela senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS). A ex-colunista política e ex-chefe da sucursal da RBS em Brasília ficou incomodada com uma entrevista que a presidenta nacional do PT, a senadora Gleise Hoffmann (PT-PR), concedeu à rede Al Jazeera, onde, entre outras coisas, definiu a condição de Lula como a de um preso político, trancafiado na carceragem da Polícia (política) Federal, em Curitiba. “Que essa exortação não tenha sido para convocar o Exército Islâmico a vir ao Brasil proteger o PT!” – disse Ana Amélia Lemos em sua conta no Twitter. O imaginário da senadora não hesitou em associar a Al Jazeera ao Estado Islâmico.

Não se tratou de um deslize ou escorregão verbal. Em ano eleitoral, Ana Amélia Lemos vem flertando abertamente com a extrema-direita gaúcha que saiu definitivamente do armário. Recentemente, rasgou elogios, durante uma convenção estadual do PP (partido que, nunca é demais lembrar, é herdeiro da nada gloriosa Arena, principal sustentáculo da ditadura civil-militar criminosa instalada no país apos o golpe de 1964), Ana Amélia Lemos fez uma homenagem às cidades que “botaram a correr a caravana de Lula”. “Atirar ovo, levantar o relho, para mostrar onde estão os gaúchos”, bradou a patriótica senadora no encontro que definiu a pré-candidatura do deputado federal Luiz Carlos Heinze ao governo do Estado nas eleições (se é que ocorrerão) de 2018.

Heinze tem o mesmo DNA de Ana Amélia Lemos. Em uma audiência pública realizada em novembro de 2013 no município de Vicente Dutra, região norte do Estado, o atual pré-candidato do PP alinhou seus adversários na categoria do “tudo que não presta”: quilombolas, índios, gays, lésbicas…”. Na mesma ocasião, ele sugeriu a ação armada dos agricultores para enfrentar a turma do “tudo que não presta”. “O que estão fazendo os produtores do Pará? No Pará, eles contrataram segurança privada. Ninguém invade no Pará, porque a Brigada Militar não lhes dá guarida lá e eles têm de fazer a defesa das suas propriedades”, disse o parlamentar. Pará, Estado de Eldorado de Carajás, onde 19 sem terra foram assassinados pela Polícia Militar no dia 17 de abril de 1996.

Luiz Carlos Heinze e Ana Amélia Lemos não são pontos fora da curva. Fazem parte de um mecanismo (para usar uma palavra da moda) que ganhou espaço no Rio Grande do Sul nas últimas décadas, graças, entre outras coisas, à máquina de propaganda construída pela RBS, uma das corporações midiáticas filiadas à rede Globo, que se agigantaram durante a ditadura. Ana Amélia Lemos, aliás, foi Cargo em Comissão (CC) do próprio marido, já falecido, o senador biônico Octávio Omar Cardoso, em 1986, acumulando essa função com o cargo de chefe da Sucursal da RBS, em Brasília.  Na época, Ana Amélia era diretora da sucursal da RBS, em Brasília, assinando uma coluna no jornal Zero Hora. A jornalista mudou-se para Brasília em 1979, acompanhando seu então marido Octávio Omar Cardoso, suplente do senador biônico Tarso Dutra (falecido em 1983), e efetivado no cargo em 1983, exercendo-o até 1987. Na capital federal atuou como repórter e colunista do jornal Zero Hora, da RBS TV, do Canal Rural e da rádio Gaúcha. Em 1982, foi promovida à diretora da Sucursal em Brasília.

Em agosto de 2003, em um artigo profético, o então deputado estadual Flavio Koutzii afirmou: “a extrema-direita brasileira mora nos Pampas”. Em sua introdução, o artigo lembrou uma antiga (e atual) lição de Albert Camus: “denominar incorretamente alguma coisa aumenta o grau de infelicidade no mundo”. Em tempos, onde o absurdo se combina com o surrealismo e a mentira, é saudável o esforço por denominar corretamente as coisas. O hino rio-grandense, entoado nos estádios de futebol do Estado com um ufanismo irrefletido e catatônico, diz “sirvam as nossas façanhas de modelo à toda terra”. Quais são as nossas façanhas mesmo? Fazer apologia do racismo, do escravagismo, do machismo, da homofobia, da xenofobia?

Neste mesmo momento, o Rio Grande do Sul é governado por um governador e um partido obscurantistas que propõem como caminho para o desenvolvimento do Estado a extinção de todas as fundações responsáveis pela produção de inteligência. Então, não parece exagero dizer, a partir desta combinação de obscurantismo, preconceito, intolerância e ignorância, que o RS se tornou a vanguarda do atraso no Brasil.

Os “gordos de caminhonete” – na feliz expressão cunhada por Vanessa Patriota – que abundam no Rio Grande do Sul e em outros estados onde o agronegócio deitou suas raízes, gostam de apontar os estados do Nordeste e do Norte como expressão do atraso no país. Na verdade, é a expressão de um mundo invertido. O lugar mais atrasado e retrógado do Brasil situa-se hoje no extremo sul do País. Não expressa, necessariamente, a consciência da maioria da população, mas é o reflexo de uma cultura de autoritarismo, oportunismo e ignorância quem vem sendo alimentada com regularidade nas últimas décadas. Essa cultura não é motivo de orgulho nem de comemorações. As verdadeiras façanhas desta terra ainda estão soterradas por um entulho de ignorância, truculência, machismo e racismo.

Publicado em Política | Marcado com , , , , , | 21 Comentários

Mineração: empresas e órgãos ambientais não vão à audiência pública debater com comunidades atingidas

Marcia Collares, moradora de Palmas: “Nós vamos lutar até o fim, enquanto tivermos uma gota de sangue, contra esse projeto”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O plenarinho da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul ficou quase lotado na tarde de segunda-feira (9) para a audiência pública que debateu projetos de mineração em curso no Estado. A maioria da audiência foi composta por moradores dos territórios impactados por esses projetos, em especial das regiões da Bacia do Camaquã e do município de São José do Norte. Algumas ausências, por outro lado, foram marcantes, como a das empresas mineradoras e dos órgãos ambientais responsáveis pelo licenciamento desses projetos. Convidados, o Ibama, a Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema-RS) e a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) não enviaram nenhum representante para debater com as comunidades envolvidas.

Coordenador da audiência pública, o deputado estadual Zé Nunes (PT), criticou a postura das empresas e dos órgãos públicos de se recusar a participar de um debate sobre empreendimentos que têm um forte impacto ambiental. As ausências, assinalou ainda o parlamentar, reforçam as reclamações das comunidades da bacia do Camaquã e de São José do Norte sobre o fato de não estarem sendo ouvidas pelos órgãos licenciadores. Vereador em São José do Norte, Luiz Bravo Gautério (PT) lembrou que essa ausência se repetiu na audiência pública realizada em 2017 naquele município. Naquela ocasião, relatou, o Ibama justificou sua ausência dizendo que não tinha como enviar representantes a São José do Norte em função de cortes orçamentários na instituição. “Se não tem recursos para participar de uma audiência pública, como é que eles vão fiscalizar depois as obras?” – questionou Gautério. Para o vereador, essa não participação é estratégica: “não querem conversar com a população”.

As ausências dos órgãos ambientais enfraqueceram um dos principais argumentos apresentados pelos dois defensores dos projetos de mineração que participaram da audiência: os prefeitos de Caçapava do Sul, Giovani Amestoy (PDT), e de Santana de Boa Vista, Ito Freitas (PT). Os dois municípios estão na área abrangida pelo projeto Caçapava do Sul, da Votorantim Metais, quer extrair chumbo, zinco, cobre, prata e talvez ouro em uma área localizada às margens do rio Camaquã.

Ambos os prefeitos apontaram os problemas econômicos enfrentados por seus municípios como justificativa para aprovar os empreendimentos de mineração. “Santana de Boa Vista tem 8.400 habitantes, o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Rio Grande do Sul e uma taxa de emprego negativa. Eu defendo a posição da ampla maioria da população que é favorável ao projeto. Em relação às outras questões, acredito nos órgãos ambientais”, disse Ito Freitas. Na mesma linha, Giovani Amestoy disse que a metade sul permanece uma região pobre e subdesenvolvida, ao contrário dos municípios do norte do Estado. “Temos que pensar o lado econômico. Precisamos gerar emprego e renda para a nossa população. Deixo o lado ambiental para os órgãos ambientais. A esfera técnica deve ser restrita a estes órgãos”.

No entanto, a confiança manifestada pelos prefeitos nos órgãos ambientais não se traduziu na presença dos mesmos na audiência pública para debater uma série de questionamentos e problemas técnicos apontados por moradores, pesquisadores de universidades e pelo Ministério Público Estadual.

Elizete Amorim, de São José do Norte: “não estamos na beira do oceano, somos parte do oceano”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Moradora de Palmas e integrante da União Pela Preservação do Camaquã, Márcia Collares questionou as promessas de progresso das mineradora, lembrando o que aconteceu recentemente em Mariana, Minas Gerais, e em Barcarena, no Pará. “Nós também conhecemos de perto o que significam essas promessas. Tivemos uma experiência direta. A CBC contaminou o Camaquã em 1988 e 1989 e o rio sofre até hoje os prejuízos. Foi uma tristeza ver os peixes desaparecendo. Nós vamos lutar até o fim, enquanto tivermos uma gota de sangue, contra esse projeto. Não queremos que o Rio Grande do Sul se torne um canteiro de mineração.

Elizete Amorim, da Cooperativa de Agricultores Familiares de São José do Norte, também fez um relato da posição contrária de agricultores e pescadores artesanais daquela região ao projeto da empresa Rio Grande Mineração S/A que pretende explorar titânio e outros metais pesados numa região de restinga localizada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico. “São José do Norte não quer essa mineradora. Vivemos em um solo oceânico. Não estamos na beira do oceano, somos parte do oceano. Não acredito que o estudo que acompanha esse projeto tenha saído de dentro das universidades. Para onde irão os pescadores, os agricultores, os nossos animais? Onde vamos plantar, pescar, colocar nossas vacas de leite e criações de galinhas?” – perguntou a agricultura.

Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Francisco Milanez, também questionou as promessas de desenvolvimento das empresas mineradoras. “Estamos muito preocupados com o que está acontecendo aqui no Estado. Empresas como a canadense I Am Gold são famosas piratas da mineração. A Votorantim está entre as empresas que mais provocaram destruição ambiental em São Paulo e agora quer vir destruir aqui. Nós queremos fornecer minérios para um mundo que está desperdiçando minérios? Esses projetos de mineração tem uma vida de 15 a 20 anos e depois vão embora deixando, muitas vezes, um rastro de contaminação e destruição ambiental”.

Doutor em educação ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e pesquisador do Observatório dos Conflitos Urbanos e Socioambientais do Extremo Sul do Brasil, Caio Floriano dos Santos chamou a atenção para os inúmeros problemas e erros técnicos envolvendo o projeto Retiro. Ele citou alguns exemplos: “Os dois processos (Camaquã e São José do Norte) têm erros graves e grosseiros. Precisaria de uns dois dias para falar de todos eles. Eles fizeram, por exemplo, uma amostragem de fauna em uma área de pinus, o que significa que não queriam encontrar nenhuma fauna. Além disso, a definição de área direta e área indireta a serem impactadas é totalmente aleatória. O projeto diz que os pescadores não serão afetados. O seu Dinarte, que está aqui na audiência, pode contar como a lavra vai chegar na porta da casa dele. Um princípio básico do licenciamento é ouvir a população, o que não aconteceu. Um senador deste Estado (Lasier Martins) se reuniu em um gabinete com o Ibama e, dias depois, saiu a licença prévia para a mineradora”.

Promotora Anelise Grehs: “Nossa posição é que tem que se começar tudo de novo”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Márcio Zonta, integrante da coordenação nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), veio a Porto Alegre participar da audiência pública e fez um relato de sua experiência de dez anos vivendo em zonas de conflito de mineração no Brasil, em outros países da América do Sul e na África. Zonta foi enfático em sua avaliação sobre a atividade das empresas desse setor. “A mineração tem implantado a barbárie em nível mundial. É a atividade econômica que mata quatro vezes mais do que qualquer outra no Brasil. Em geral são grandes empresas transnacionais que acabam seqüestrando os estados e seus órgãos ambientais como está ocorrendo agora com o Ibama. Como estamos vivendo um estado de exceção no Brasil, as mineradoras querem se aproveitar dessa situação para implementar seus projetos de qualquer jeito. Historicamente no Brasil, assim como em outros países da América do Sul e da África, sempre foi uma mineração de saque, sem a participação da população”.

A coordenadora do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais do MPE, Anelise Grehs, chamou a atenção para o Plano Estadual de Mineração que está sendo elaborado pelo governo José Ivo Sartori, sem a participação da sociedade até aqui. “Eu me convidei para participar para conseguir ter acesso a algumas informações. É um plano dividido em vários eixos que estão sendo construídos pelas próprias empresas. Seria bom que esse plano fosse objeto de audiências públicas como esta”, assinalou. A promotora relatou que, na última reunião sobre o Projeto Caçapava do Sul, realizada em dezembro de 2017, foi recomendada a reelaboração do termo de referência visando o licenciamento, em função de vários problemas.

“Nossa posição é que tem que se começar tudo de novo. Há um consenso entre o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal que a área de influência do empreendimento tem que abarcar todos os municípios que podem sofrer influências negativas indiretas deste empreendimento”, afirmou Anelise Grehs.

O deputado federal Henrique Fontana (PT) anunciou que encaminhará um requerimento para a convocação do presidente do Ibama e do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, para que eles apresentem e justifiquem os critérios técnicos que embasaram a concessão da licença prévia para o projeto de mineração em São José do Norte. “A mineração é uma atividade de altíssimo impacto ambiental e de risco. Por isso, recomenda que apliquemos ao limite o princípio da precaução. Compreendo o drama do gestor que luta para gerar empregos, mas isso não pode ser um vale conduto para qualquer atividade. Os empregos de Mariana se tornaram uma tragédia mundial”, disse o deputado.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Publicado em Meio Ambiente | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário