Arquivo mensal: agosto 2014

Inspirada em Paulo Coelho

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A senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) revelou nesta segunda-feira (25) que se inspira em uma frase do escritor e mago Paulo Coelho na hora de tomar algumas decisões. A revelação foi feira aos jornalistas Juremir Machado da Silva e Taline Oppitz, durante entrevista no programa Esfera Pública, da rádio Guaíba. Ao falar sobre questão de gênero, a senadora travou o seguinte diálogo:

Ana Amélia: Sobre o ingrediente do gênero, no caso da mulher, minha cara Taline, tem a ver…uma vez eu falei com um grande e famoso autor, Paulo Coelho, na Suíça. Eu estava fazendo uma cobertura e encontrei o Paulo Coelho na rua…

Juremir: Olha só…

Taline: Ele adora o Juremir…

Juremir: É, ele gosta de conversar comigo no Twitter – ironizou o jornalista que certa feita chamou o mago-escritor de “minha anta predileta”, recebendo uma resposta do mesmo.

Ana Amélia: Que bom. Vê a minha sorte, Juremir. Eu como repórter encontrar o Paulo Coelho na rua.

Juremir: Ah, isso é bom. É sorte de repórter…

Ana Amélia: Exatamente. Falamos algumas coisas e ele disse que esse século é o século da intuição e a intuição é um sentimento feminino…Eu sempre penso nesta frase do Paulo Coelho. Quando no partido (PP), eles dizem: vamos fazer isso…eu digo não, não é hora. O que a intuição está me dizendo não é bem isso.

Editorial de ZH revela: Ana Amélia retoma propostas de Antônio Britto, da década de 90

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A influência da RBS na vida política do Rio Grande do Sul não é novidade para ninguém. Em 2014, quando dois de seus principais comentaristas políticos na última década disputam o governo do Estado e o Senado, essa influência adquire um caráter inédito. O principal aqui nem são os nomes em questão – Ana Amélia Lemos e Lasier Martins -, mas sim as ideias e propostas com as quais eles disputam o voto da população. Ideias e propostas que, não por acaso, coincidem com posições defendidas historicamente pelo grupo midiático. Quando, por exemplo, a senadora do PP defende a redução do tamanho do Estado, com a extinção de secretarias, demissão de servidores em cargos de confiança e corte de gastos, está repetindo propostas defendidas em incontáveis editoriais dos veículos da RBS, e em governos passados de ex-funcionários da RBS, como foi o de Antonio Britto.

É possível constatar isso, por exemplo, no editorial do jornal Zero Hora de 22 de setembro de 1996, intitulado “Socorro ao Estado”, que comemora o acordo da dívida firmado pelo então governador Antônio Britto que, segundo ZH, teria “liquidado a dívida do Estado e limpado a ficha dos gaúchos”. O editorial destaca que:

“O governador Antônio Britto vem extinguindo, na medida do possível, cargos em comissão e cargos vagos com o objetivo de enxugar uma folha que tem consumido em torno de 80% da receita líquida…”

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“…os esforços do governo gaúcho para reduzir as rotinas dos gastos da administração em particular aqueles com pessoal”

Não é um acaso, portanto, que cerca de 20 anos depois, Ana Amélia Lemos retome essas ideias procurando apresentá-las com uma roupagem nova associando-as a palavras como “esperança”. Não é casual, tampouco, que a senadora se esforce diariamente para esconder suas relações umbilicais com a ideologia do Estado mínimo que habita os editoriais dos veículos da RBS e que governou o Rio Grande do Sul com os governos de Antônio Britto e de Yeda Crusius. Ana Amélia garante que não tem nada a ver com Britto e Yeda embora suas ideias coincidam em pontos essenciais no que diz respeito à administração do Estado.

Quase vinte anos depois, outro editorial de ZH aponta

“… as deficiências de gestão da administração pública, que colocam o Rio Grande do Sul entre os Estados retardatários na adoção de reformas que resultem em austeridade, com a adequação do tamanho do governo às demandas da economia, o enxugamento de estruturas obsoletas e, por consequência, maiores ganhos de produtividade”. (O Estado alquebrado, 22/08/2014)

O que é mais ardiloso na relação de Ana Amélia com a RBS é que a associação entre a senadora e a empresa não é necessariamente algo ruim para ela do ponto de vista eleitoral. Pelo contrário, para alguns setores da sociedade, é até algo positivo emprestando uma aura de respeitabilidade pela convivência diária com a comentarista política nos canhões midiáticos que são a rádio Gaúcha, a RBS TV e o jornal Zero Hora. Ela se elegeu, aliás, fundamentalmente, graças à essa visibilidade midiática diária massiva, numa evidente distorsão que ainda atinge o sistema político brasileiro.

Há uma distorsão mais grave, porém, que é o ocultamento sistemático das relações entre as ideias defendidas editorialmente pela RBS e as propostas de seus ex-funcionários transformados em candidatos. Yeda Crusius apresentou-se disfarçada de “novo jeito de governar”. Ana Amélia, agora, apresenta-se como porta-voz da “esperança”. Quando indagada a respeito de uma de suas principais propostas de campanha – extinção de secretarias e demissão de servidores em cargo de confiança – ela evita dar detalhes. Evita por que não pode, pois, no momento em que o fizer, estará fragilizando seu disfarce.

Essas relações são perversas em vários níveis. A RBS afirma que não tem candidatos, embora haja uma proximidade carnal entre as ideias que defende em seus editoriais e as defendidas por seus ex-funcionários candidatos. Estes aproveitam-se da massiva visibilidade midiática construída durante muitos anos e apresentam-se ao eleitor como “novidades”, sempre embaladas em um disfarce diferente. Mas, em algum momento, aparecem as propostas de cortes, demissões e enxugamento do Estado, e aí fica evidente que estão falando a mesma língua. Essas distorções e perversidades talvez ajudem a explicar parte das dificuldades políticas e econômicas enfrentadas pelo Rio Grande do Sul nas últimas décadas.

A RBS e seus candidatos, é claro, não tem nada a ver com elas, pois vivem em uma esfera a-histórica, apresentando-se permanentemente como o novo sem passado, sem memória e sem responsabilidade por suas escolhas. Quem lê o editorial de 22 de setembro de 1996 perceberá essas relações e o esforço diário de seus autores para escondê-las. A sua verdadeira esperança é que elas permaneçam ocultas e consigam regularmente reaparecer no debate público como uma novidade retumbante.

ZH em 1996: Britto fez reformas necessárias e liquidou a dívida. Liquidou?

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Em editorial intitulado “O Estado alquebrado”, publicado nesta sexta-feira (22), o jornal Zero Hora defende que o “o colapso das contas públicas do Rio Grande do Sul decorre do acúmulo de deficiências estruturais que os governantes se negam a enfrentar”. As causas mais profundas dos problemas financeiros do Estado, acrescenta o editorial, “são estruturais e se acumulam, sucessivamente, a cada governo”. E apresenta a sua receita para o problema, que é fundamentalmente a mesma defendida pela senadora Ana Amélia Lemos (PP):

“A principal está nas deficiências de gestão da administração pública, que colocam o Rio Grande do Sul entre os Estados retardatários na adoção de reformas que resultem em austeridade, com a adequação do tamanho do governo às demandas da economia, o enxugamento de estruturas obsoletas e, por consequência, maiores ganhos de produtividade”.

A memória não parece ser o forte do editorialismo de Zero Hora. O que o editorial desta sexta aponta como “as causas mais profundas” do problema e a receita para resolvê-lo já teriam sido enfrentadas e resolvidas, segundo o próprio pelo jornal, em setembro de 1996 pelo governo de Antônio Britto (na época, PMDB). Entre os dias 20 e 22 de setembro de 1996, o jornal Zero dedicou várias páginas, entre matérias, colunas, anúncios e editoriais saudando o acordo da dívida firmado por Britto com a União (governo Fernando Henrique Cardoso, na época) como a solução para o problema da dívida do Rio Grande do Sul.

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Na edição do dia 21 de setembro, a manchete de ZH destaca: “Rio Grande liquida a dívida”. A principal foto da capa mostra Britto e o então ministro da Fazenda Pedro Malan, sorridentes, comemorano o acordo que, segundo ZH, estaria “limpando a ficha dos gaúchos”. Quem lê o editorial de 2014, surpreende-se com a afirmação de que “nenhum governante enfrentou até hoje os problemas estruturais”. Foi a própria ZH que afirmou, em 1996, que esses problemas tinham sido enfrentados pelo governo Britto. O editorial de 22 de setembro de 1996 afirma:

“O refinanciamento da dívida do governo do Rio Grande do Sul, cujo total chega a R$ 8 bilhões, mereceu consideração especial (do governo FHC) por conta dos esforços do governo gaúcho para reduzir os gastos de rotina na administração, em particular aqueles de pessoal. O Rio Grande foi pioneiro na implantação de um programa de demissões voluntárias.

Ademais, o governador Antonio Britto vem extinguindo, na medida do possível, cargos em comissão e cargos vagos com o objetivo de enxugar uma folha que tem consumido em torno de 80% da receita líquida. Outro fator importante, incluído nas exigências válidas para todas as unidades federativas, é a disposição de privatizar empresas estatais“.

Com essas medidas e a renegociação da dívida feita por Britto, o Rio Grande do Sul estaria, segundo ZH, “liberado para novos empréstimos e investimentos”. O jornal comemorava nas manchetes da época: “Os gaúchos limpam a ficha”, “Negociação acaba com o pesadelo dos juros altos. José Barrionuveno, principal colunista político do jornal na época, escreveu (na edição de 22 de setembro de 1996):

“A renegociação da dívida obtida pelo governo Britto liberta o Estado do maior obstáculo ao seu desenvolvimento (…) É uma obra que restabelece o crédito e a credibilidade do Rio Grande, com reflexos nas próximas administrações. Graças à reforma do Estado, considerada modelo pela imprensa nacional, o RS é o primeiro a renegociar a dívida. Não poderia haver data mais oportuna para o anúncio do que o dia em que se comemora a Revolução Farroupilha”.

Como se sabe, ao contrário do que ZH apregoou, o acordo da dívida feito por Britto não só não resolveu como acabou agravando a situação financeira do Estado. Hoje, depois de pagar mais de R$ 15 bilhões, o Estado ainda deve cerca de R$ 47 bilhões.

O jornal Zero Hora faz de conta que não disse o que disse e que não defendeu o que defendeu, apostando na falta de memória da sociedade. Não chega a ser uma novidade. Um dos traços ideológicos mais recorrentes da linha editorial dos veículos da RBS consiste em ocultar a memória e o passado, e em sonegar as suas escolhas políticas e econômicas no Estado.

Em 1996, ZH disse que Britto havia adotado a receita certa e liquidado a dívida e limpado a ficha dos gaúchos. Agora, em 2014, o mesmo jornal diz que nenhum governante adotou a receita certa de enxugamento do Estado e que é por isso que o problema se agravou. E fica o dito pelo não dito.

O que ZH parece desconhecer e não diz: Quem fez mais contra a crise financeira do RS?

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Tarso Genro (*)

É importante ressaltar, para uma boa leitura da ZH de hoje, no que concerne a dívida do Estado, medidas fundamentais, de natureza estrutural, que o atual governo teve a coragem de tomar para combater este legado de décadas, consolidado com o acordo feito pelo Governo Britto em 98:

1. Parece incrível, mas o jornal não sabe que o atual governo – com maioria na Assembleia – já aprovou o Fundo de Aposentadoria, que vincula todos os novos servidores públicos, vencendo as resistências das altas corporações que tentaram brecar o projeto no Legislativo; repito, o jornal desconhece que esta questão está solucionada, por iniciativa do atual Governo;

2. Não é verdadeira a afirmativa de que a modificação dos indexadores só tem efeitos “no longo prazo”: imediatamente, nós abateremos da dívida do Estado mais ou menos R$ 15 bilhões, abrindo um espaço de financiamento imediato de US$ 1 bilhão! Ora, se isso não é considerado uma conquista extraordinária (reduzir a dívida e abrir novo espaço fiscal!), é porque o olhar sobre o tema é ideológico e distorcido.

E esse olhar está revelado na crítica aos aumentos dados aos funcionários públicos, que sofriam um brutal arrocho salarial. Ou seja, abater da dívida R$ 15 bilhões não é nada, mas voltar ao arrocho é uma boa solução. Trata-se, na verdade, de passar como mercadoria-notícia uma “tese” sobre o Estado: para ter solução é preciso pagar mal os servidores e, portanto, rebaixar a qualidade dos serviços públicos.

De outra parte, convém lembrar que uma das maiores pressões sobre o caixa do tesouro são as requisições de valores e os precatórios. Originários de onde, principalmente? Dos aumentos dados pela famosa “Lei Britto”, que não foram pagos pelos sucessivos Governos e que estouraram agora. Essa deve ser a qualidade de gestão recomendada pelo Editorial de ZH.

Venho dizendo – desde o início do meu Governo – que não temos divergência sobre o fato de que existe uma crise financeira estrutural no Estado. A divergência é sobre como sair dela. O nosso Governo, com o Fundo de Aposentadoria já aprovado e com a reestruturação da dívida, já acordada, deu dois passos fundamentais para uma saída de médio e longo prazo. Quem não reconhece isso, ou está em campanha eleitoral, ou não gosta de lidar com o mundo real, porque ele desmente suas utopias de direita fundadas na ideologia do Estado Mínimo.

(*) Governador do Rio Grande do Sul

Mendelski, sobre a pesquisa Methodus: Esses números circulam há muito tempo nos bastidores

O jornalista Rogério Mendelski achou curiosos os números da pesquisa divulgada pela revista Voto, segunda-feira (18), que apontam a senadora Ana Amélila Lemos (PP), em primeiro lugar na disputa para o Palácio Piratini, com 42% das intenções de voto, contra 30% do atual governador Tarso Genro. Ao comentar a pesquisa com o jornalista Juremir Machado da Silva, no programa Bom Dia, da rádio Guaíba, Mendelski disse que esses números circulam pelo menos há dois meses e que ouviu esses mesmos números da boca de Celso Bernardi, presidente do PP, em um restaurante do Barra Shopping. Mendelski considera a hipótese dos números terem se repetido, mas apontou o fato curioso. Veja áudio e texto abaixo do comentário do jornalista da rádio Guaíba:

“Essa pesquisa, esses números, circulou durante muito tempo pelos bastidores. Eu não sei se essa pesquisa é nova, se não é, mas esse número, exatamente esse número, quem me deu esse número, no mínimo há dois meses, foi o Celso Bernardi, numa quarta-feira, lá no restaurante Bah, no Barra Shopping. O Celso passou ali, estava junto com o Marco Peixoto, com o deputado Westphalen. Eu perguntei: Escuta, Celso, alguma novidade, alguma pesquisa? E ele disse: Olha, está circulando aí esse número e me passou esse número, 42 a 30. Talvez tenha se repetido. Talvez a revista Voto não usasse uma coisa tão antiga”.

O RS e o fundo do poço

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Em entrevista ao jornal Metro, nesta segunda-feira (18), a senadora Ana Amélia diz que “o Estado está como um poço que secou”. Cabe perguntar, como um “Estado que está como um poço que secou” cresce acima da média nacional, tem uma das menores taxas de desemprego do país, recupera os salários dos servidores, recompõe carreiras do Estado e constroi o maior parque eólico da América Latina? E como a reprise do filme do choque de gestão pode ajudar o Estado?

O Estado do Rio Grande do Sul vive um dos melhores momentos de sua história recente. Não é nenhum ufanismo acrítico afirmar isso e tampouco implicar negar a existência de muitos problemas que são reais, como o do endividamento crônico do Estado. E, mesmo para este, avizinha-se um início de solução com a votação do projeto de reestruturação da dívida, que deve ocorrer em novembro no Senado.

Alguns números e dados sobre o presente do RS:

A Região Metropolitana de Porto Alegre apresentou o menor índice de desemprego do país em 2014: 3,5%. O PIB do RS teve uma alta de 3,2% no primeiro trimestre de 2014 em comparação com o mesmo período do ano anterior. O Rio Grande do Sul é hoje referência nacional na capacitação de mão de obra. Em três anos foram qualificados mais de 184 mil trabalhadores em 350 municípios gaúchos. Pela primeira vez, o Estado está investindo 12% na Saúde, como pede a Constituição. O Complexo Eólico Campos Neutrais, que está sendo construído no extremo Sul do Estado, será o maior da América Latina.

Apesar do problema da dívida, o Estado recuperou sua capacidade de investir, após o desastroso período de quatro anos onde o governo de Yeda Crusius aplicou o choque de gestão do déficit zero. Além de recuperar a capacidade de investir, o atual governo começou a recompor os salários arrochados do funcionalismo público e a realizar concursos em diversas áreas.

Outro dado da realidade é que uma parte significativa da população do Estado não tem acesso a essas informações.

Pesquisas recentes mostram a senadora Ana Amélia Lemos em primeiro lugar na preferência do eleitorado. A população do Rio Grande do Sul estaria disposta a aguentar mais um governo partidário do Estado mínimo e do choque de gestão? A candidata do PP vem tentando se distanciar do governo de Yeda Crusius (PSDB), do qual seu partido participou ativamente. Mas está ficando difícil para a candidata sustentar esse disfarce. A cada nova entrevista, Ana Amélia reforça que pretende diminuir o tamanho do Estado, demitir funcionários e extinguir secretarias.

Em entrevista ao jornal Metro, nesta segunda-feira (18), a senadora repete essas promessas, dizendo que “o Estado está como um poço que secou”. Cabe perguntar, como um “Estado que está como um poço que secou” cresce acima da média nacional, tem uma das menores taxas de desemprego do país, recupera os salários dos servidores, recompõe carreiras do Estado e constroi o maior parque eólico da América Latina?

O que a candidata do PP oferece é a reedição das fórmulas já tentadas nos governos de Antonio Britto e Yeda Crusius. Para o seu sucesso eleitoral, é fundamental que ela negue isso e procure se apresentar como porta-voz do “novo”, da “mudança” e da “esperança”, palavras lançadas ao vento de modo vago e paradoxal. Considerando seus antecedentes históricos, o novo não é novo, a mudança é repetição do que não funcionou e a esperança é a promessa de retrocesso.

O principal capital dessa candidatura é a sua visibilidade midiática via RBS. A empresa nega ter simpatias programáticas por seus jornalistas-candidatos, mas a afinidade ideologica é gritante, e sistematicamente ocultada. O que a população sabe sobre as escolhas, políticas, candidatos e governantes defendidos pela RBS nas últimas décadas que defenderam o Estado mínimo, as privatizações, a sacralização do mercado e a criminalização do setor público? Qual a responsabilidade da RBS e de seus candidatos pela situação do Rio Grande do Sul? Segundo eles, nenhuma. São, na acepção literal da palavra, irresponsáveis.

O mesmo mantra do Estado mínimo é repetido agora, prometendo economizar recursos, diminuir os gastos com o custeio da estrutura administrativa, enxugar a máquina, cortar secretarias e demitir funcionários. Mais uma vez, como ocorreu recentemente com o “novo jeito de governar” de Yeda Crusius, essa proposta é apresentado como sinônimo do “novo ” e da “mudança”. Esse filme foi exibido durante quatro anos, entre 2007 e 2010, e revelou-se um fracasso de crítica e público, indicando que o fundo do poço sempre pode ser mais fundo.

Por que o DataFolha falha – comentários sobre as discrepâncias entre as pesquisas no RS

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Por Vinicius Wu

1. A discrepância entre os resultados apresentados pelas mais recentes pesquisas eleitorais divulgadas pelo grupo RBS chamaram a atenção de analistas e políticos gaúchos e suscitaram uma série de dúvidas a respeito dos motivos que levaram à apresentação de números tão distintos em duas sondagens realizadas no intervalo de apenas uma semana.

2. As diferenças metodológicas são o principal motivo da discrepância entre as duas pesquisas. Tem sido recorrente a apresentação pelo Instituto DataFolha de resultados de pesquisa bem diferentes de outros institutos. O Datafolha, controlado pela família Frias – dona do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL – tem sido pródigo em produzir pesquisas “controversas”. Vem se tornando, cada vez mais, um Instituto de ação política e não de pesquisas.

3. Em 2010, o DataFolha insistiu em “manter” Serra na liderança da corrida presidencial mesmo depois de todos os principais Institutos do país – Ibope, Vox Populi e Sensus – apontarem a liderança de Dilma.

6. Na ocasião, o DataFolha atribuiu, em suas pesquisas, um peso maior para as regiões Sul e Sudeste, onde Serra mantinha maior simpatia junto à classe média. O Instituto chegou a aumentar as amostras em oito estados do centro-Sul, que concentraram 9.750 entrevistas, num total de 10.730. E, assim, “sobraram” 908 questionários para outros 19 estados! Com essa amostragem distorcida, o resultado acabou favorecendo José Serra.

5. A distorção foi tamanha que até mesmo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) aceitou o pedido do PRTB para abrir os dados das pesquisas do DataFolha visando a “verificação e fiscalização da coleta de dados, incluindo as identificações dos entrevistadores, para conferir e confrontar os dados do instituto”.

6. Para quem não se lembra, em março de 2010, enquanto os Institutos Vox Populi e Sensus já apontavam empate técnico entre Serra e Dilma, o DataFolha dava 10 pontos de vantagem para Serra! Em Abril o instituto ampliou a vantagem de Serra para 12 pontos.

7. Logo após esse episódio, no início de Maio de 2010, a Procuradoria-Geral Eleitoral aceitou uma representação do Movimento dos Sem-mídia e determinou à Polícia Federal a instalação de inquérito para apurar eventuais crimes eleitorais por falsificação de pesquisas. E após esse acontecimento, subitamente, na pesquisa seguinte – já no final de Maio de 2010 – o DataFolha surge com uma nova pesquisa na qual a diferença de 12 pontos a favor de Serra havia desaparecido.

8. Mesmo assim, o Dafafolha insistiu na apresentação de pesquisas favoráveis à Serra, que divergiam, principalmente, das realizadas pelo Insituto Vox Populi. O resultado já conhecemos e sabemos quem estava com a razão.

9. A pesquisa DataFolha/RBS da ultima semana pode ter aberto a “guerra das pesquisas” no RS e é fundamental que o eleitor, militantes e dirigentes das campanhas tenham consciência do quanto as “opções metodológicas” podem influenciar resultados e beneficiar determinados candidatos. Os Institutos sabem muito bem disso e, não raro, acabam favorecendo determinadas posições políticas deliberadamente.

10. O Datafolha faz pesquisas em pontos de fluxo (corredores comerciais), enquanto outros institutos (como o Ibope) realizam pesquisa domiciliar. O aconselhável, segundo estatísticos, é que, no primeiro caso, a amostra seja duplicada ou mesmo triplicada em relação a uma pesquisa residencial. E não foi o que ocorreu com a pesquisa realizada pelo DataFolha, que contou com apenas 1248 questionários. A pesquisa do Ibope – realizada em amostra domiciliar – foi feita com 812 questionários.

11. O Instituto da Família Frias reduz custos com sua opção de pesquisa em pontos de fluxo e consegue preencher muito mais questionários em um tempo muito menor. Vejamos: na ultima pesquisa Ibope/RBS foram respondidos 812 questionários entre os dias 02 e 07 de agosto (6 dias). Na pesquisa DataFolha/RBS, foram 1248 questionários em apenas 3 dias! (De 12 a 14 de agosto).

12. Pesquisas realizadas em “pontos de fluxo” tendem a captar as parcelas da sociedade mais ativas economicamente e com maior mobilidade. Com isso, as vilas e comunidades periféricas são precariamente alcançadas por estas pesquisas. E assim, os candidatos que têm uma proporção maior de votos entre os mais pobres tendem a registrar uma pontuação abaixo do que realmente têm. E os candidatos que têm uma proporção maior de votos na classe média marcam acima do que, de fato, têm.

13. Pesquisas realizadas em domicílios são muito distintas daquelas feitas em pontos de fluxo e não são comparáveis. E, a essa altura da campanha, a história e a teoria indicam que as primeiras costumam ser mais confiáveis.

14. Os erros acumulados pelo DataFolha nas ultimas eleições, em especial, nas eleições de 2010 atestam empiricamente que esse instituto insiste em apoiar suas pesquisas em um método que pode servir a distorções. O uso de pesquisas para incidir sobre os processos eleitorais não é novidade no Brasil. A discrepância entre os números do Ibope e do DataFolha no Rio Grande do Sul indicam que a disputa pelo Piratini, de fato, começou.

O retrato do momento: em 6 dias, duas pesquisas muito diferentes

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Seis dias depois de publicar uma pesquisa Ibope apontando um empate técnico na disputa eleitoral no Rio Grande do Sul, o grupo RBS publicou uma nova pesquisa, do Datafolha, com um resultado bem diferente. A diferença entre Tarso Genro e Ana Amélia Lemos, que no Ibope era de apenas um ponto, pulou para nove pontos, seis dias depois, no levantamento da Datafolha.

Como o instituto do Grupo Folha não revelou os critérios da amostragem realizada no Estado, é impossível analisar o significado desta diferença tão grande em tão pouco tempo. Ainda mais quando o único fato político novo neste período foi favorável a Tarso, a saber, o anúncio feito pela presidente Dilma de que o projeto de renegociação da dívida do Estado será votado em novembro deste ano.

Erros grosseiros em pesquisas já obrigaram grupos de comunicação a vir a público dar explicações e pedir desculpas. Os precedentes históricos no Rio Grande do Sul são mais do que suficientes para recomendar cautela com pesquisas. Mais ainda quando dois dos principais institutos de pesquisa do país apontam números tão diferentes em tão pouco tempo.

Considerando os números de Ibope e Datafolha, e levando a sério o chavão “pesquisa é um retrato do momento”, fica difícil entender mudanças drásticas de retrato num curto espaço de tempo. Principalmente quando não se tem acesso à metodologia usada na pesquisa. Essa falta de transparência no momento da divulgação das pesquisas é o principal combustível que alimenta a desconfiança em relação às mesmas.

Seja como for, campanhas eleitorais não devem ser escravas de pesquisas, nem quando elas são boas nem quando são ruins. A campanha nas ruas e os debates estão no início e na próxima semana iniciam os programas de televisão e rádio. A população poderá, assim, conhecer, as ideias e propostas dos candidatos para o Estado. E terá também, finalmente, acesso a informações, sonegadas até aqui, sobre o que foi feito no RS nos últimos três anos e meio. Esse é o melhor caminho para ver o “retrato do momento” no Rio Grande do Sul.

Reestruturação da dívida e transição no RS

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Por Tarso Genro (*)

O que me separa dos meus dignos adversários que concorrem ao Governo do Estado não é o diagnóstico sobre a situação financeira do Rio Grande. É a estratégia para enfrentá-la. Tenho dito que vou continuar reestruturando o nosso espaço fiscal para obter mais financiamentos, continuar usando dentro da lei os depósitos judiciais e prosseguir alavancando o crescimento, com atração de investimentos privados e aumento dos investimentos públicos do Estado e da União.

Ao longo dos debates eleitorais foi colocada sob suspeição, como é previsível vindo de uma oposição sem rumo, a capacidade do nosso Governo liderar este momento de reestruturação do pagamento da dívida, com a mudança dos seus índices de correção. Mudança que, por si só “mata” quinze bilhões de reais do nosso passivo: ou seja, reduz a dívida pública que recebemos em quinze bilhões!

A Presidenta confirmou, não só que honra o acordo feito sob nossa liderança, como também fundamentou -com o mesmo discurso que tenho feito- a necessidade desta reestruturação. Presidenta de palavra que entende de Rio Grande e de Brasil.

O alinhamento conceitual e político, entre Estado e União, (com realismo e clareza estratégica), mostra a força política que o nosso Rio Grande readquiriu nos últimos anos, mas convida que as distintas forças políticas que concorrem ao Governo, finalmente digam com clareza qual é a sua transição em direção a 2027. Nós já apresentamos a nossa concepção de transição. Os nossos principais adversários ainda não.

Eles apenas criticam os “gastos”, os concursos para a contratação de servidores, são contra a obtenção de financiamentos para investimentos e se opõem às correções salariais que concedemos, para extirpar um arrocho salarial que imobilizava a máquina pública. O debate agora vai ficar mais claro.

(*) Governador do Rio Grande do Sul. Publicado originalmente na página de Tarso Genro no Facebook.

 

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sobre o meu pai

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Meu pai morreu no dia 7 de julho de 1986, aos 47 anos. Não lembrava direito dessa data. Pedi ajuda à minha irmã, que mora em Passo Fundo, onde estão todas as minhas lembranças sobre meu pai. Nunca escrevi muito sobre elas, mesmo que a presença dele seja constitutiva da minha infância. Inseparável. Uma foto retrata isso. Não lembro o ano em que ela foi tirada. Eu devia ter uns 10 anos, algo assim. O lugar é Pulador, um distrito de Passo Fundo. Carlos Walber Weissheimer era jornalista e trabalhava na assessoria de imprensa da prefeitura de Passo Fundo. O período era a ditadura. O prefeito de Passo Fundo, na época,  era, na verdade, um interventor militar, o tenente-coronel Edu Vila de Azambuja, o Tio Edu, como foi apresentado para nós na sucursal da ditadura em Passo Fundo.

Eu costumava acompanhar meu pai em suas atividades de fim de semana, indo a inaugurações da prefeitura por todo o município. Na foto em questão, meu pai está com os olhos voltados para o horizonte, com um olhar entre distraído e perdido. Eu olho diretamente para a câmara, posando com as mãos entrelaçadas junto à cintura. É uma das raras fotos juntas que temos, o que é bizarro, pois éramos muito próximos. Essa foto retrata essa proximidade. Acompanhei inúmeras de suas agendas como assessor de imprensa, me criei em redações de rádio onde ele e minha mãe trabalharam em Passo Fundo. Esse ambiente animava brincadeiras de infância. Lembro que produzia meus próprios noticiosos de rádio, imitando a voz dramática de locutores sobre bombardeios no Líbano.

Éramos muito próximos. Em plena ditadura. E, desde sua morte, eu nunca mais falei sobre ele. Meu luto foi rápido, demasiadamente rápido. talvez. Talvez nem mereça ser chamado de luto. Eu vi seu corpo desnudo sem calor no morgue do hospital. Por uma exigência burocrática tive que fazer o reconhecimento do corpo  e aquilo ficou marcado na minha memória.

Era isso, então, a morte. Segui em frente, sem falar publicamente de meu parceiro de anos, de redação, de inaugurações de obras no interior de Passo Fundo, de incontáveis jogos de futebol do 14 de Julho e do Gaúcho no Vermelhão da Serra e no Wolmar Salton, de pescarias no rio Passo Fundo, de assados feitos nos fundos de casa com churrasqueiras improvisadas com cacos de tijolos e pedras.

Nas poucas vezes em que pensei em escrever sobre o meu pai, após a morte dele, sempre questionei: mas o que vou dizer, o que vou contar? Os anos finais foram difíceis. Mas foram uma  parte minoritária do período em que convivemos. E quando decidi escrever essas linhas, foi para, sobretudo, falar sobre as coisas boas que ele me deixou: amizade, presença, companheirismo, cuidado, amor, lealdade. Éramos grandes parceiros. A morte dele doeu muito e  eu não me dei o direito de fazer o luto que deveria ter feito.

Ele segue vivo na memória. Decidi falar e escrever sobre ele depois de tanto tempo. Ao não lembrar, inicialmente, do ano da morte do meu pai, fui para o Google fazer um experimento. Cliquei: “Carlos Walber Weissheimer”. Apareceu uma referência apenas, relacionada à morte de minhã irmã Angélica, vitimada nessa máquina de moer carne que são as nossas estradas. Lá dizia: locutor e redator. Era isso. Meu pai foi locutor e redator. Tinha uma voz possante, que, entre outras coisas, comandava a Ave Maria, às 18 horas, na rádio Municipal.

Foi locutor, redator e um ótimo pai. Só tenho a agradecer pelos momentos que passamos juntos. Como as longas caminhadas que fazíamos, junto com meu irmão, de nossa casa até o rio Passo Fundo, onde passávamos o dia pescando, espantando os mosquitos e preparando algo para comer em alguma coisa improvisada como churrasqueira. Eram momentos aguardados e cultivados com simplicidade, intimidade e cerimônia.

A foto que tiramos juntos no distrito de Pulador me acompanha até hoje. Não lembro direito daquele dia, mas ela me lembra de te agradecer, pai, por todas as horas que dedicou a me cuidar e acompanhar e te pedir perdão pelo silêncio desses anos. Não foi por ausência de memória, mas por um outro tipo de ausência que se instalou na minha vida a partir da tua morte. Esse pequeno texto serve apenas para interromper o silêncio, preencher um pouco essa ausência e dizer que tu segue presente em mim. Feliz Dia dos Pais!

Aécio, Ana Amélia e o “novo jeito de governar”. Novo?

Ana-Amécio

Desde o início da campanha eleitoral, a senadora Ana Amélia Lemos (PP) vem tentando se distanciar do governo de Yeda Crusius (PSDB), do qual seu partido participou ativamente, estando, inclusive, no centro do escândalo do Detran, que envolveu importantes quadros do PP no Estado, entre eles, o deputado federal José Otávio Germano. Mas está ficando difícil para a candidata sustentar essa amnésia. Agora, o candidato tucano à presidência da República, Aécio Neves, apoiado pela senadora, escolhe como slogan de sua campanha exatamente o mesmo adotado por Yeda Crusius: “novo jeito de governar”.

No Rio Grande do Sul, esse “novo jeito” acabou se traduzindo em uma sucessão de escândalos, autoritarismo, arrocho, redução do tamanho do Estado e denúncias partindo de próprios integrantes do governo. A reprovação da população ao “novo jeito de governar” tucano foi de tal ordem que Yeda Crusius ficou num distante terceiro lugar na eleição de 2010.

As semelhanças entre as ideias de Aécio Neves, Yeda Crusius e Ana Amélia Lemos não estão apenas no slogan. Há propostas comuns entre os três que são definidoras da ideia de choque de gestão, defendida historicamente pelo PSDB:  cortar recursos, diminuindo os gastos com o custeio da estrutura administrativa e de serviços públicos; enxugar a máquina do Estado e distribuir melhor os recursos; demitir funcionários em cargo de confiança e diminuir secretarias.

Logo que assumiu, em 2007, Yeda determinou um corte linear de 30% nos gastos de custeio de todas as secretarias. Uma medida com impacto negativo direto na qualidade dos serviços públicos oferecidos à população, especialmente nas áreas da educação, saúde e segurança. Na época, a governadora não explicou como era possível ampliar e melhorar a qualidade dos serviços públicos cortando gastos de custeio, uma das medidas fundamentais da chamada política de déficit zero.

Ana Amélia Lemos repete o mantra do Estado mínimo anunciando que pretende economizar recursos, diminuir os gastos com o custeio da estrutura administrativa e enxugar a máquina. Tudo isso, segundo ela, para colocar o governo e o Estado à serviço da sociedade. Aécio Neves ecoa essas mesmas ideias e chama isso de “novo jeito de governar”.

Bem, ao menos no Rio Grande do Sul, dificilmente alguém vai achar isso novo. Esse filme foi exibido durante quatro anos, entre 2007 e 2010, e revelou-se um fracasso de crítica e público.

Foto: Divulgação/Site de Ana Amélia Lemos

 

Operação Solidária: TRF4 recebe denúncia contra Marco Alba, prefeito de Gravataí

marcoalba Do portal do TRF  4ª Região

A 4ª Seção do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) recebeu ontem (31/7) denúncia contra o prefeito de Gravataí (RS), Marco Aurélio Soares Alba (PMDB), acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) nos autos da Operação Solidária. Ele responderá pelos crimes de fraude à licitação, corrupção passiva e formação de quadrilha ou bando.

Em 2007, quando foi deflagrada a operação pela Polícia Federal, Alba atuava como secretário estadual de Habitação, Saneamento e Desenvolvimento Urbano do Estado do Rio Grande do Sul (no governo Yeda). A pasta é responsável pela Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), na qual teriam ocorrido desvios de verba pública provenientes do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) do Governo Federal.

Segundo o MPF, há fortes indícios de que Alba seria membro do grupo que fraudou licitações conduzidas pela CORSAN para execução de obras de saneamento básico na Região Metropolitana de Porto Alegre.

FOTO: Divulgação/Prefeitura de Gravataí