A balada dos golpistas inconfessáveis

mascaras

Renato Dalto

São irônicos ou enfezados moralistas. Leem em geral o Estadão e posam com um ar blasé como se fossem íntimos dos Mesquita. As falcatruas dos Marinho não interessam. Alguns tratam simplesmente por Jorge o empresário do alto do pódio da Operação Zelotes.  Outros tem parentescos e relações de cama e mesa com os partidos golpistas, mas isso não vem ao caso. Tem filho e nora de deputado do PMDB, por exemplo, ensaiando finas ironias na rede como paladinos dos bons costumes políticos. Tem filho de prefeito do PP, o campeão da Lava Jato, que se arvora de jurista e defende com ferozes argumentos que Dilma cometeu crime de responsabilidade. O partido de papai atolado na Lava Jato não vem ao caso. Como a verdade só vale para um lado, a mentira também pode valer. Então eles não precisam dizer que tem partido, lado e, digamos assim, uma mágoa familiar com o PT. Estão irônicos e felizes, como aquele enforcado que confundiu a corda com uma gravata nova.

O que bombou na rede foi a foto de capa do jornal do seu Mesquita, aquele protagonista de 64 e de agora, com o rosto de Dilma parecendo em chamas diante do fogo olímpico. Os golpistas blasé, em geral, preferiram elogiar a estética e o espetáculo jornalístico da foto. Como disse certa vez um setorista sacana do governo do PT no estado, as redações sempre gostaram de governos petistas pelo convite à maldade permanente orientado pelos editores. Afinal, que importa a verdade diante do que o editor quer.

Essa foto chegou na minha rede através de uma moça jornalista, militante de redação e nora de um deputado peemedebista que jamais confessa seus laços de parentesco. A moça elogiava a estética, num ato que lembrava os brilhantes apupos das redações, esses lugares onde repórteres não saem mais à rua com medo do contágio da realidade. Ao ver a vibração da moça, tive que responder:

“Tecnicamente perfeita. Editorialmente canalha. Desumana diante de tudo o que essa mulher sofreu. Entre a ética, o humanismo e a estética fico com as duas primeiras. Jornalistas de redação sempre me parecem os prisioneiros da caverna de Platão. Enxergam sombras e pensam que viram a realidade. E absolutizam todos os valores pelo trono de uma foto ou reportagem. E a vida real fica em segundo plano. Infelizmente. Ah, a estética não é maior que o caráter. A história espúria do Estadão fala por si”.

Houve há algum tempo uma famosa discussão por aqui, publicada nas páginas do jornal, entre Luis Fernando Veríssimo e Augusto Nunes. Veríssimo dizia que a primeira coisa que o leitor devia saber era a posição política de quem escrevia. Nunes discordou citando como exemplo de isenção um repórter de uma rede de TV americana que descrevia com absoluta isenção e frieza, ao vivo, um bombardeio sobre Bagdá. Ao que Veríssimo respondeu:” Quem descreve com frieza uma matança pode ser um ótimo jornalista mas é um péssimo ser humano”.

Sempre penso isso ao ver o regozijo dos golpistas ressentidos – ressentidos por estarem perdendo há quatro eleições, ressentidos com o povo nas universidades e aeroportos, ressentidos dentro do consumismo mesquinho e individualista-  destilando risos e ironias desejando que o linchamento político do PT vá as últimas consequências.

Mas eles não tem partido, nem lado, nem rosto. Talvez por isso vibrem com o rosto de Dilma sob as labaredas. Só para lembrar: rosto pra bater e fogo pra queimar só pra quem tem caráter e coragem. Caráter e coragem. Quem tem mostra. Quem não tem esconde. E ri como as hienas.

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