Arquivo da tag: Agroecologia

MST produz mais de 30 variedades de feijão sem veneno no Rio Grande do Sul

Produção é da Associação de Produtores Ecológicos Conquista da Liberdade (Apecol), que organiza famílias em torno da produção e comercialização de alimentos saudáveis. (Foto: Divulgação/MST)

Por Catiana de Medeiros – MST

Gerações passadas de agricultores e agricultoras talvez nem souberam em sua totalidade o bem que fizeram à saúde do planeta ao incentivarem seus filhos a permanecerem no campo e a continuarem desenvolvendo uma agricultura limpa. Seu José Elpídio da Silva, 62 anos de idade, conhece bem esta realidade, que parece estar tão distante dos dias atuais, mas não está: ele não sabe o que é produzir alimentos com o uso de venenos.

Assentado há 27 anos no Assentamento Conquista da Liberdade, constituído em Piratini, na região Sul do Rio Grande do Sul, Silva conta que herdou de seus pais, “grandes defensores do meio ambiente”, como faz referência, a prática de produzir alimentos saudáveis. “Lá em casa nós nunca sentimos dificuldade de produzir sem venenos, porque eu e minha companheira nos criamos no meio de um modelo de produção que respeita a vida. Nossos pais produziam sementes crioulas e alimentos saudáveis, então já viemos para o assentamento com este alicerce, sem dificuldade alguma. A produção agroecológica está no nosso sangue”, destaca.

Seu José acrescenta que, além de toda a produção de seu lote, de pouco mais de 20 hectares, ser 100% orgânica, há a preocupação de manter a diversidade e de colocar uma alimentação de qualidade na mesa da sua família. “Teve um ano que produzimos 38 tipos de alimentos sem usar uma gota de veneno, apenas com compostos orgânicos. A gente gasta pouco dinheiro com comida, só compra sal, café e outras coisinhas que não conseguimos produzir. Podemos dizer que 98% dos alimentos que consumimos vêm do nosso próprio lote”, declara.

Entre as variedades produzidas pela Apecol estão: expedito, pampeano, caravelas, guerreiro, campeiro, macanudo, carioca vermelho, guapo brilhante, mourinho, paisano, rajado e feijão-arroz.

Segundo o assentado, a apicultura é a principal fonte de renda da família. Nos últimos anos ele plantou mais de cinco mil mudas de árvores nativas para o desenvolvimento das colmeias. Ainda no lote de Silva são produzidas sementes de hortaliças para a Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida (Conaterra), que foi constituída há 20 anos pelo MST em Candiota, na região da Campanha, e detém a marca comercial Bionatur. Mas o popular feijão também faz parte da diversidade da produção da família, que destina uma área de quatro hectares para o cultivo de seis variedades.

Produção para a cidade

A produção de diversas variedades de feijão no lote de seu José começou há três anos, quando a Associação de Produtores Ecológicos Conquista da Liberdade (Apecol), que envolve agricultores do Assentamento Conquista da Liberdade e Assentamento Conquista da Luta — Rubira I, localizados em Piratini, se tornou o principal instrumento de organização das famílias em torno da produção e comercialização de alimentos saudáveis.

Com o passar do tempo, recorda seu José, os Sem Terra, com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), da Conaterra e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ampliaram a produção em outros lotes e já estavam vendendo feijão uma vez por semana na cidade. “Nós começamos com 13 variedades, hoje produzimos mais de 30”, complementa. Entre as variedades produzidas pela Apecol estão: expedito, pampeano, caravelas, guerreiro, campeiro, macanudo, carioca vermelho, guapo brilhante, mourinho, paisano, rajado e feijão-arroz.

A iniciativa deu tão certo que as famílias, por meio do trabalho coletivo, nos últimos três anos já realizaram três edições da Feira do Feijão Orgânico no Centro de Piratini — a última edição aconteceu nesta quarta-feira (17), na Praça Inácia Machado da Silveira, também conhecida popularmente como Praça do Palanque. Lá, ao lado de seu José, estava a assentada Dauraci da Rosa Tavares, 46 anos de idade, que também herdou de seus pais a produção de alimentos sem o uso de venenos.

De acordo com Dauraci, uma hectare de seu lote, localizado no Assentamento Conquista da Luta – Rubira I, em Piratini, é destinada para o cultivo de duas variedades de feijão (expedito e paisano), que abastecem a Apecol e o banco de sementes da Conaterra. A agricultora revela que a produção de sementes é o que garante a renda familiar e que em seu lote somente há espaço para o modo agroecológico de desenvolver a agricultura. “Meus pais nunca plantaram com veneno, e quando eu e meu esposo conseguimos um pedaço de chão seguimos nessa linha. Muitos pensam que não, mas é possível produzir sem veneno. É só insistir que dá. Plante e use o adubo que tem em casa, que é o esterco e a urina de vaca. Não tem necessidade de usar essas porcarias do pacote do agronegócio”, explica.

A assentada levou 30 quilos de feijão, malhados de manguá e selecionados à mão, para comercializar na 3ª Feira do Feijão Orgânico. Ela diz que pretende ampliar o espaço de produção do alimento, especialmente para as variedades que ‘são de cor’ — expressão utilizada pelos agricultores para se referir os feijões que não são da cor preta. Esta meta de Dauraci se insere nos planos da Apecol, conforme explica o assentado José Gabriel Venâncio, presidente da associação. Mas, segundo ele, aumentar a área plantada para conseguir atingir um público maior de consumidores requer o envolvimento de mais produtores do alimento. “Hoje, as 16 famílias que fazem parte da Apecol conseguem produzir para abastecer a população de Piratini, mas não para comercializar o alimento em outras cidades. O nosso grande objetivo é chegar ao mesmo volume de produção de arroz que há no estado [Atualmente o MST é considerado o maior produtor de arroz orgânico da América Latina]. Queremos oferecer feijão e arroz para o povo, que os dois alimentos estejam lado a lado. Para isto, quando mais pessoas dispostas a se inserir na Apecol e a cultivar de forma agroecológica, melhor”, argumenta. 

De acordo com Venâncio, a Apecol mantém uma área plantada de 20 hectares e todos os associados possuem seus lotes certificados como orgânicos por meio da Associação de Certificação Instituto Biodinâmico (IBD) — Conaterra e do Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (Opac) — Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (Coceargs). A proposta, para aumentar a produção, é inserir todos os grupos de agricultores da Conaterra, que já produzemsementes, também no cultivo de feijão. “Daríamos um salto no volume de produção de todas as variedades a curto prazo. Os agricultores ligados à Bionatur já estão organizados e produzindo de maneira agroecológica, o que garantiria a qualidade do nosso alimento”, salienta.

Onde comprar os alimentos da Apecol

Os alimentos saudáveis da Apecol podem ser adquiridos nas segundas e quartas-feiras na Praça Inácia Machado da Silveira, no Centro de Piratini. A feira acontece das 8 às 17 horas e comercializa feijão, hortaliças, queijos, ovos e panifícios, entre outros tipos de produção. A associação também conta com uma banca diária de alimentos nas margens da BR-293, entre os quilômetros 76 e 77, no sentido Pelotas-Bagé da rodovia.

Da lona preta ao ‘melhor pão do mundo’: uma visita aos caminhos da luta pela terra

A primeira parada da visita da Associação Juízes para a Democracia foi no acampamento Unidos pela Terra, localizado em Charqueadas, em uma área abandonada da CEEE. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

O caminho da luta pela terra, percorrido há décadas no Brasil, por trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra, junto com suas famílias, foi visitado no último sábado (4) por um grupo de advogados, procuradores e juízes ligados à Associação Juízes para a Democracia (AJD). A visita a um acampamento, dois assentamentos e uma cooperativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) marcou a retomada das atividades da AJD no Rio Grande do Sul. A entidade pretende organizar ao longo do ano uma série de ações e debates com movimentos sociais que sofrem hoje um processo de criminalização de suas lutas. A ideia é aproximar juízes e outros operadores do Direito de atores e realidades sociais sobre as quais têm que decidir no seu cotidiano.

O ponto de partida da atividade de sábado foi um café da manhã na sede da Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (Coceargs). Representantes da direção estadual do MST receberam os convidados e informaram o roteiro da visita que começou por um acampamento e terminou em um dos assentamentos mais antigos e estruturados do Estado.

Esse tipo de visita é uma prática que já faz parte da história do MST. Ao longo dessa trajetória, explicou Cedenir de Oliveira, da coordenação estadual do movimento no Rio Grande do Sul, o MST sempre procurou estabelecer relações com a sociedade, com os demais movimentos sociais,  partidos,  igrejas e outras organizações. “A nossa luta é legítima. Nunca escondemos nossos objetivos e nossa forma de luta. Essa visita está dentro dessa política que o MST já executa há muitos anos, convidando pessoas que não conhecem a realidade dos acampamentos e dos assentamentos. Para nós, é um contato muito importante pois envolve pessoas que, no dia-a-dia, irão dialogar, no seu espaço de trabalho e na sua área de influência, expondo o que estão vendo e experimentando aqui”, assinalou Cedenir. (Leia aqui a íntegra da cobertura sobre a visita da AJD ao MST)

Assentados investem na produção de melancia orgânica no RS

Associação de Produtores Orgânicos Renascer Oeste estimam colher 30 toneladas do alimento nesta safra. (Foto: Divulgação)

Associação de Produtores Orgânicos Renascer Oeste estimam colher 30 toneladas do alimento nesta safra. (Foto: Divulgação)

Catiana de Medeiros – MST

São Gabriel, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, é um município que carrega em seu legado grandes lavouras de soja transgênica e o uso indiscriminado e contrabandeado de veneno. Porém, indo na contramão desta realidade, assentados da Reforma Agrária da região mostram que é possível superar a reprodução do modelo do agronegócio em pequenas áreas de terra e apostar na produção de alimentos saudáveis.

Há cinco anos, por meio da Associação de Produtores Orgânicos Renascer Oeste, um grupo de dez famílias do Assentamento Conquista do Caiboaté organiza sua produção de frutas e hortaliças – todas em processo de certificação orgânica – para comercialização. Conforme o assentado Jair Amaral, somente nesta safra, numa área plantada de 2 hectares, serão colhidas mais de 2,5 mil unidades de melancia, o que corresponde a cerca de 30 toneladas do alimento.

“Vivemos numa região que tem muita produção de soja, mas devagarinho vamos conseguindo superar esta realidade. Agora estamos em processo de construção do mercado local, pois já há público interessado nas melancias. Aliás, quem quiser comprar é só nos procurar, pode ir até na roça escolher a fruta que quiser levar para casa”, argumenta.

Os assentados vêm na produção orgânica uma saída para a agricultura camponesa diante do modelo do agronegócio. (Foto: Divulgação)

Os assentados vêm na produção orgânica uma saída para a agricultura camponesa diante do modelo do agronegócio. (Foto: Divulgação)

Os assentados vêm na produção orgânica uma saída para a agricultura camponesa diante o modelo do agronegócio, que tem comprometido a vida de diversas espécies e o meio ambiente como um todo na região. Para viabilizar esse modelo saudável de agricultura, eles recebem assistência técnica da Cooperativa de Trabalho em Serviços Técnicos (Coptec) e buscam se fortalecer no trabalho coletivo, por meio da inserção de mais agricultores na associação. “Ela é aberta, quem quiser se juntar a nós na produção limpa de alimentos será muito bem-vindo”, acrescenta Amaral.

Benefícios da melancia orgânica

Além de propiciar renda aos agricultores nesta época do ano, a melancia orgânica é uma ótima opção para quem deseja colocar na mesa uma alimentação mais saudável. Segundo a nutricionista Cristina Araújo, a fruta é rica em vitaminas A, C e B6, conhecidas por fortalecerem o sistema imunológico, é fonte de fibras, potássio e magnésio e uma ótima aliada para a hidratação do corpo humano.

“92% da melancia é composta de água, então, consumi-la é garantia de hidratação. Ela tem a cada 100 gramas somente 30 calorias. O ideal é aproveitar a safra e consumi-la muito no verão”, complementa Cristina.

A nutricionista partilha ainda uma receita fácil e rápida de preparar: “É só bater duas fatias de melancia com água a gosto no liquidificador. Não precisa adoçar porque a fruta já contém frutose, que é o seu açúcar natural”, orienta. Quem quiser aproveitar 100% do alimento, Cristina explica que com a casca pode ser feito doce e com a parte branca um saboroso refogado com carne.

MPA promove terceira edição da Festa da Semente Crioula

A festa será realizada na sede da Cooperbio, durante todo o dia 29 de janeiro, na Linha Tesoura, Seberi.

A festa será realizada na sede da Cooperbio, durante todo o dia 29 de janeiro, na Linha Tesoura, Seberi.

O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) promove dia 29 de janeiro, na sede da Cooperbio, na Linha Tesoura, Seberi, a terceira edição da Festa da Semente Crioula. Cooperativa camponesa formada por famílias da base do MPA, a Cooperbio promove essa festa para celebrar a relação com a terra e o respeito ao ciclo natural da vida, representado na seleção e partilha de sementes.

Além do tradicional cardápio camponês, incluindo muitos pratos a base de milho crioulo e grande variedade de saladas orgânicas, estão previstas inúmeras atrações festivas, culturais e simbólicas como: troca de sementes crioulas, rodas de prosa e debates, apresentações musicais, feira de produtos agroecológicos e artesanatos. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone (55) 999634234 ou pelo email cooperbio.alimergia@gmail.com.

Cooperativa do MST se torna mantenedora de 7 variedades de sementes agroecológicas

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. (Foto: Divulgação)

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. (Foto: Divulgação)

Por Catiana de Medeiros

A Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida (Conaterra), responsável pela marca Bionatur, aprovou na última semana junto ao Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura (Mapa) a condição de mantenedora de sete variedades de hortaliças: repolho louco de verão, couve manteiga da geórgia, BRS tortéi, rúcula cultivada, moranga de mesa, abobrinha de tronco redonda e abobrinha de tronco caserta.

A partir de 2018, por meio desta conquista, a cooperativa estará apta a produzir de acordo com a legislação vigente as próprias sementes de estas setes cultivares, que, posteriormente darão origem aos campos de produção de sementes comerciais da Bionatur.

De acordo com a agrônoma Patrícia Martins, além de romper com a dependência da aquisição das sementes junto a outras empresas mantenedoras, a Bionatur espera a partir de agora completar o ciclo de produção das sementes em sistemas de produção orgânicos e agroecológicos, visando atender as expectativas dos agricultores que produzem para a cooperativa e a demanda dos consumidores de sementes livres de venenos.

“Trata-se de um importante passo para alcançar a autonomia na produção de sementes de geração superiores, considerando o prazo estabelecido pelo Ministério da Agricultura, que se encerra a partir da safra 2018/2019, para utilização de sementes de categoria S2”, complementa Patrícia.

Segundo o coordenador da Conaterra, Alcemar Adílio, há pelo menos dois anos se buscava através de pesquisas e experimentos a condição de mantenedora, conquista que, para ele, é fundamental por se tratar de sementes que geram alimentos saudáveis e estão no cardápio da maioria das famílias brasileiras.

“Esse novo passo garante, junto a outros fatores, nossa permanência na produção de sementes, o que vai minimizar a dependência de terceiros. Enquanto Bionatur nosso intuito é, até o final deste ano, registrar pelo menos cinco outras variedades”, explica Adílio.

Rede Bionatur também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. (Foto: Divulgação)

Rede Bionatur também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. (Foto: Divulgação)

Bionatur

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. A sua produção, feita por mais de 200 famílias, é enviada para todos os estados do Brasil e à Venezuela. Ela também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores.

Com sede em Candiota, na região da Campanha gaúcha, a cooperativa tem a meta de passar a produção de 4 para 8 toneladas de hortaliças na próxima safra de verão. Para forrageiras, e estimativa é aumentar das atuais 40 toneladas para 70.

MST inaugura loja de produtos agroecológicos em São Paulo

O espaço irá abranger todo o território nacional, porque centralizará a distribuição de produção agroecológica de todo país na cidade de São Paulo. (Foto: Divulgação)

O espaço irá abranger todo o território nacional, porque centralizará a distribuição de produção agroecológica de todo país na cidade de São Paulo. (Foto: Divulgação)

A agricultura familiar surge como processo de produção e consumo saudáveis. É dentro dessa perspectiva que nasce o Armazém do Campo, uma loja que contará com centenas de produtos vindos de assentamentos da Reforma Agrária, de pequenos produtores e de fabricação orgânica e agroecológica. A inauguração ocorre neste sábado a partir das 10h, na Al. Eduardo Prado, 499.

Para Rodrigo Teles, coordenador executivo da loja, “o Armazém do Campo surge como alternativa de produção e comercialização em um momento em que a sociedade está cada vez mais preocupada com o que tipo de alimento que coloca em suas mesas”.

Ainda segundo Teles, o espaço irá abranger todo o território nacional, porque centralizará a distribuição de produção agroecológica de todo país na cidade de São Paulo.

Apesar da produção atual de comida ser suficiente para alimentar toda a humanidade, uma em cada sete pessoas no mundo passa fome, segundo informações do Relatório anual da Agência da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Soma-se a isso o fato do Brasil ser o maior consumidor de agrotóxicos do planeta – são ingeridos em média 5,2 kg de veneno agrícola por habitante.

Esse cenário de crise alimentar pede a urgência de um modelo alternativo, que não se limite apenas à produção, mas atente para problemas sociais e estruturais.

Dessa forma o projeto da agroecologia passará a ser atuante na cidade de São Paulo através da inauguração deste espaço, que possibilitará ainda maior disseminação da produção do campo.

A inauguração acontece sábado (30/07) das 10h às 19h, com atividades culturais e gastronômicas durante todo o dia.

Prefeitura faz consulta pública sobre uso de agrotóxicos e riscos à saúde em Porto Alegre

Equipe da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde foi à Feira Agroecológica da Redenção para divulgar a iniciativa.

Equipe da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde foi à Feira Agroecológica da Redenção para divulgar a iniciativa.

A Equipe de Vigilância em Saúde Ambiental e do Trabalhador (EVSAT), da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde (CGVS), da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), está promovendo uma consulta pública pela internet sobre o uso e os riscos associados aos agrotóxicos em Porto Alegre. A iniciativa visa recolher informações e propostas para a construção do Plano Municipal de Vigilância de Exposição aos Agrotóxicos e seus Danos sobre a Saúde Humana. A população pode acessar e preencher o formulário da consulta no endereço cgvsconsulta.tk. Na manhã deste sábado, uma equipe da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde foi à Feira Agroecológica da Redenção para divulgar a iniciativa e pedir que a população participe da consulta.

A iniciativa tem o apoio da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Observatório da Cidade de Porto Alegre e do Centro Estadual de Vigilância em Saúde.

Seminário debate educação em agroecologia nas escolas do campo, no RS

Encontro quer iniciar a construção de orientações para um programa de estudos sobre agroecologia nas escolas do campo. (Foto: Eduardo Aigner/MDA)

Encontro quer iniciar a construção de orientações para um programa de estudos sobre agroecologia nas escolas do campo. (Foto: Eduardo Aigner/MDA)

Catiana de Medeiros – Da Página do MST

O setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da região Sul do Brasil realiza, entre os dias 16 a 18 de junho, o 1º seminário sobre ‘Educação em Agroecologia nas Escolas do Campo’, no Instituto de Educação Josué Castro (IEJC), em Veranópolis, na Serra Gaúcha.

O objetivo é debater a agroecologia e sua relação com o atual momento de luta de classes no campo, além de pensar maneiras de potencializar nas escolas a Jornada Cultural Nacional ‘Alimentação Saudável: um direito de todos’, lançada pelo Movimento em novembro de 2015.

“Queremos iniciar a construção de orientações para um programa de estudos sobre agroecologia nas escolas do campo, conectando práticas e conteúdos específicos aos estudos das ciências da natureza e da sociedade nas diferentes etapas da educação básica. Nosso intuito também é discutir as relações existentes entre agroecologia, educação, escola e trabalho”, explica Juliane Soares Ribeiro, da coordenação do seminário.

O evento reunirá educadores de Educação Básica de assentamentos da Reforma Agrária e acampamentos dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, incluindo coordenações pedagógicas e professores das áreas de ciências da natureza e da sociedade; profissionais de ciências agrárias com formação em agroecologia, que atuam em assentamentos e ou em escolas do campo; assessores orgânicos do setor de educação; coletivo político-pedagógico do IEJC; e convidados de instituições parceiras do MST.

A abertura do seminário será na próxima quinta-feira, às 8h30, com apresentação do plano de trabalho para os três dias de atividades. Em seguida, terá exposição sobre a retomada dos pilares fundamentais de concepção de educação e matriz formativa, e debate sobre a relação entre escola, trabalho e produção, com o educador da Universidade Estadual de Campinas (UniCamp), Luiz Carlos Freitas.

No turno da tarde haverá estudo sobre o desenvolvimento da agroecologia e sua relação com a agricultura camponesa, soberania alimentar, cooperação e reforma agrária. Também estarão em discussão os desafios da formação dos camponeses. Após, terá lançamento do livro infanto-juvenil da ativista Ana Primavesi ‘A convenção dos ventos: agroecologia em contos’.

Confira a programação completa do seminário:

Quinta-feira, 16 de junho
Manhã (8h30 às 12 horas)
– Abertura do Seminário.
– Apresentação dos participantes e do plano de trabalho.
– Retomada dos pilares fundamentais de concepção de educação e matriz formativa. Expositor: Luiz Carlos de Freitas, educador da Unicamp.

Tarde (14 às 19 horas)
– Estudos sobre agroecologia: Exposição I sobre a agroecologia no embate atual de lógicas de agricultura e suas relações com agricultura camponesa, soberania alimentar, reforma agrária e cooperação. Exposição II sobre a concepção geral e conceitos básicos da agroecologia, e os desafios de formação dos camponeses.
– Lançamento do livro de Ana Primavesi, “A convenção dos ventos: agroecologia em contos”, da editora Expressão Popular.
Noite (20h30 às 22 horas)
– Exibição de documentário e roda de conversa.

Sexta-feira, 17 de junho
Manhã (8 às 12 horas)
– Mesa sobre Educação em agroecologia nas escolas do campo de educação básica: questões propositivas de conteúdo e forma.

Tarde (14 às 19 horas)
– Análise de conjuntura.
– Trabalhos em grupos e socialização de práticas agroecológicas realizadas nas escolas.

Noite (20h30 às 22 horas)
– Debate sobre a Jornada Cultural Nacional ‘Alimentação Saudável: um direito de todos’.

Sábado, 18 de junho
Manhã (8 às 12 horas)
– Mesa sobre como fazer a educação em agroecologia em nossas escolas: questões e proposições de conteúdo e forma.
– Plenária e encerramento do seminário

Produzir sem veneno: “Até quando tivermos condições, continuaremos apostando na apicultura”, diz assentado

Mesmo com todas as dificuldades, João Carlos Camargo é um exemplo de perseverança e conseguiu colher 180 quilos de mel na última safra.

Mesmo com todas as dificuldades, João Carlos Camargo é um exemplo de perseverança e conseguiu colher 180 quilos de mel na última safra.

Hoje encerramos a série “Tem veneno no seu mel”, que mostra os prejuízos que a soja transgênica e o uso de agrotóxicos trazem à produção de mel na região da Campanha do Rio Grande do Sul. Confira, na matéria abaixo, como os apicultores lidam com esse problema oriundo do modelo do agronegócio nas áreas de assentamento. Leia também as duas primeiras reportagens da série.

(I) Chuva de veneno mata abelhas e destrói produção de mel no interior do RS

(II) Alerta: Mortandade de abelhas pode ficar sem controle

Catiana de Medeiros – Da Página do MST

Colaboração: Leandro Molina

“Não desanimei, fui à luta de novo”

Conforme o engenheiro agrônomo Márcio Morales, a região da Campanha do Rio Grande do Sul é uma das mais adequadas do estado para se desenvolver a apicultura, principalmente pela diversidade que possui de floração em todas as épocas do ano.

“A vegetação é nativa, há campos com grande diversidade de espécies que florescem em todas as estações, além de matas ciliares com grandes quantidades de árvores e arbustos, que também têm uma florada interessante para a produção de mel. É uma região que, mesmo com todos esses problemas da soja transgênica e do uso de agrotóxicos, se comparada com a metade norte do RS e Oeste catarinense e paranaense, ainda está preservada. A partir do momento que há preservação da biodiversidade, há uma oferta de florada maior para as abelhas fazerem mel”, explica.

Estes motivos fazem diferença para os assentados que não desistiram da apicultura. Seu João Carlos Camargo, que também trabalha com a produção de sementes agroecológicas, leite e açúcar mascavo, é um exemplo de perseverança. Mesmo com todas as dificuldades impostas pelo modelo do agronegócio para produzir e encontrar novos enxames, conseguiu colher 180 quilos de mel nesta última safra.

“É uma atividade que faço há anos, eu realmente gosto dessa lida. Perder tudo de uma hora para outra gerou um sentimento muito próximo de como se estivéssemos perdido alguém da família. Era indignação, misturada com tristeza e desespero. Mas não desanimei, fui à luta de novo e hoje tenho 30 colmeias que busquei em locais onde não há uso de veneno”, relata.

Grande parte dos produtores de mel da região comercializam sua produção através de associações familiares.

Grande parte dos produtores de mel da região comercializam sua produção através de associações familiares.

Atualmente, o assentado Amarildo Zanovello trabalha, junto com duas outras famílias, com mais de 500 caixas de abelhas, com foco na venda de mel para o estado de Santa Catarina e exportação para países da Europa, Estados Unidos e Japão. Segundo ele, a palavra desistir não consta em seu vocabulário. “Não penso em desistir, porque essa é uma linha de produção que conheço bem e que agora estamos conseguindo investir. Até quando tivermos condições, nós continuaremos apostando na apicultura”, afirma.

Grande parte dos produtores de mel da região comercializam sua produção através de associações familiares, e unidos encontram apoio para continuar investindo na apicultura. Nos próximos meses, devem ser inauguradas estruturas que ajudarão na extração e comercialização de mel.

Porém, para os assentados não basta ter meios que torne viável a apicultura. É necessário conscientização da população do campo e da cidade, principalmente dos beneficiários da reforma agrária, sobre os malefícios que os venenos e a soja transgênica geram à saúde humana e ao meio ambiente.

“Lutamos pela democratização da terra para produzir alimentos saudáveis, e é muito triste ver pessoas distorcendo nosso projeto de produção limpa e defendendo o monocultivo de soja transgênica de forma irregular. Alguns podem até se dar bem por um determinado tempo, porém, mais cedo ou mais tarde voltarão para as vilas e a concentração de terras irá se dar novamente. Hoje, não enfrentamos só problemas com as abelhas, enfrentamos também um grande desequilíbrio ambiental, como consequência da ambição sem limite do homem”, alerta seu João, enquanto segura em suas mãos um recipiente de vidro com uma pomba morta por ingestão de soja transgênica e de agrotóxicos.

Soja transgênica e outros grãos contaminados por venenos estavam no papo de uma pomba encontrada morta no pátio de João Carlos Camargo.

Soja transgênica e outros grãos contaminados por venenos estavam no papo de uma pomba encontrada morta no pátio de João Carlos Camargo.

Alerta: mortandade de abelhas pode ficar sem controle

Agrotóxicos têm causado a morte não apenas de abelhas, mas também de pássaros na região.

Agrotóxicos têm causado a morte não apenas de abelhas, mas também de pássaros na região.

Por Catiana de Medeiros – Da Página do MST

Colaboração: Leandro Molina

Na primeira reportagem da série você ficou sabendo da morte de abelhas na região da Campanha do Rio Grande do Sul, e da grave situação de assentados da reforma agrária que perderam colmeias inteiras com o uso excessivo de agrotóxicos em áreas próximas aos assentamentos. Leia a segunda reportagem da série “Tem veneno no seu mel”.

“Não tem outra explicação lógica a não ser contaminação por agrotóxico”

Os engenheiros agrônomos Márcio Morales e Maurício Boni, da rede de sementes agroecológicas Bionatur, com sede em Candiota, acompanham de perto a situação das famílias que perderam colmeias na região da Campanha do Rio Grande do Sul. Segundo eles, o problema ocorre com vários produtores de abelhas e, mesmo não havendo laudo que comprove, há fortes indícios de que as mortes tenham relação direta com a soja transgênica e o uso de agrotóxicos.

Marcio Morales: O que nos preocupa é em qual escala vai continuar ocorrendo essas mortandades.

Marcio Morales: O que nos preocupa é em qual escala vai continuar ocorrendo essas mortandades.

“Não há conhecimento de doença ou algum outro tipo de problema que esteja ocorrendo com enxames no estado, a não ser a produção de soja nos arredores dos assentamentos da região. Ela traz consigo não só o Glifosato, mas também fungicidas e inseticidas que muitas vezes são proibidos no Brasil e contrabandeados do Uruguai. O que nos preocupa é em qual escala vai continuar ocorrendo essas mortandades. Ela vem numa ordem que, daqui a pouco, pode se multiplicar e ficar sem controle”, alerta Morales.

Conforme Boni, o principal sintoma da contaminação por veneno é a morte repentina de uma grande quantidade de abelhas, da mesma forma que ocorreu com as colmeias do assentado João Carlos Camargo, em Hulha Negra. “Não há nenhuma doença ou ataque de praga que acuse esse dano tão repentino. Não tem outra explicação lógica a não ser a contaminação por agrotóxico”, frisa.

Prejuízos sociais, produtivos e econômicos

Os engenheiros explicam que a mortandade das abelhas, por consequência do uso abusivo de veneno nas lavouras de soja transgênica, tem gerado prejuízos de ordem social, produtiva e econômica aos assentados da região, principalmente para aqueles que optaram pela produção de alimentos saudáveis.

De acordo com Boni, as abelhas são fundamentais no processo de polinização das plantas, e ajudam a garantir a produção de alimentos, sobretudo, de frutas e de grãos.

Mauricio Boni: "Muitos assentados estão desistindo da produção de orgânicos por estarem cercados pelos agrotóxicos".

Mauricio Boni: “Muitos assentados estão desistindo da produção de orgânicos por estarem cercados pelos agrotóxicos”.

“Os níveis de produção e diversidade ficam comprometidos na medida que não há abelhas. Hoje, muitos assentados estão desistindo da produção de orgânicos por estarem cercados pelos agrotóxicos e, consequentemente, por não conseguirem manter uma produção limpa em seus lotes pela pulverização aérea na vizinhança. O modelo convencional de produção os induz a entrar nesse sistema, de forma contrariada, e quem quer resistir não encontra amparo legal ou alternativas. Então, a produção de mel acaba sendo contaminada pelo agrotóxico e inviabiliza a produção orgânica”, comenta.

Como resultados dos efeitos que os agrotóxicos e a soja transgênica têm causado na Campanha, os engenheiros também citam a degradação do solo, a supressão das pastagens nativas e a diminuição da renda das famílias assentadas, uma vez que atinge, de forma indiscriminada, outros tipos de cultivos. Conforme o assentado em Hulha Negra, Elio Francisco Anschau, nos últimos três anos têm sido cada vez mais difícil obter renda com a apicultura e manter a sua produção, de três hectares, de milho crioulo e de alimentos agroecológicos.

“Planto milho crioulo há mais de 15 anos, mas está muito complicado manter a semente. Ano passado, parte da minha lavoura foi atingida pelo transgênico, e também perdi plantações de abóbora, melão e de outros alimentos. O que vai garantir minha produção de milho este ano é uma outra parte de seis mil metros quadrados, isso se ela também não for contaminada”, declara.

Para seu José, a perda das colmeias em 2014 e 2015 resultou na paralisação do seu sonho de ampliar a produção de mel, e em menor qualidade de vida. Planos, como viajar com a família, ficaram em segunda ordem. “Com o dinheiro do mel eu pretendia fazer alguns investimentos para melhorar a produção, também queria comprar algumas coisas para dentro de casa, pagar algumas contas e viajar. Não consegui”, lamenta.

O problema econômico também atinge a Bionatur, que envolve o trabalho de 50 famílias assentadas na região, de um total de 170 entre os estados de Minas Gerais e RS, na produção de sementes agroecológicas. De acordo com o presidente da cooperativa, Alcemar Adílo Inhaia, a ofensiva da soja transgênica e do uso de agrotóxicos tem dificultado a produção limpa e, hoje, uma das maiores preocupações da rede gira em torno de como manter as lavouras e evitar perdas significativas.

“Enfrentamos o ataque das lagartas que migram das lavouras transgênicas para as nossas áreas de produção, além de fungos e doenças que antes não existiam. Está quase inviável a produção agroecológica, o que causa um impacto muito forte na cooperativa do ponto de vista econômico. Tínhamos um planejamento para expandir nossos espaços de produção, mas os agricultores tiveram sérias frustrações e deixamos de vender por não conseguirmos produzir. Ano passado, nossa estimativa era chegar a nove toneladas de sementes de hortaliças, não chegamos a quatro. Tivemos mais de R$ 2 milhões em prejuízos. Hoje, poderíamos ter no mínimo 250 agricultores trabalhando com a cooperativa, mas devido às barreiras muitos acabaram desistindo”, explica.

Carlos Alberto Maciel, técnico da Emater em Bagé, entidade que também presta assistência às famílias produtoras de mel, explica que as plantações de soja em parceria tem se tornado comum na região e, muitas vezes, acabam “dando poder” a algumas pessoas por terem maquinários e acesso a mais recursos. “Muitos têm a tradição familiar da plantação de soja e se sentem empoderados diante de outras famílias por conseguirem pagar para plantar soja na área dos outros. Isto é, com certeza, um problema social que esse monocultivo acaba gerando”, enfatiza.

Falta fiscalização e políticas públicas

O assentado Amarildo Zanovello diz que há ineficiência e inoperância dos órgãos públicos em relação aos problemas enfrentados pelos apicultores.

O assentado Amarildo Zanovello diz que há ineficiência e inoperância dos órgãos públicos em relação aos problemas enfrentados pelos apicultores.

Uma das principais queixas dos assentados se refere ao descaso dos órgãos competentes para ajudá-los a resolver os problemas. Seu João diz que denunciou a mortandade de abelhas ao Ministério Público, pediu ajuda à Brigada Militar e à Patrulha Ambiental, mas que nada foi feito. “Tive problemas de saúde e fiquei muito abalado. No dia seguinte pedi ajuda aos órgãos competentes, para que viessem ver o que estava acontecendo. Mas até hoje não recebi resposta”, explica João.

Amarildo Zanovello, assentado em Candiota, também chama a atenção para a ineficiência e a inoperância dos órgãos públicos em relação aos problemas enfrentados pelos apicultores. “Deixei as abelhas mortas dois meses no freezer, esperando retorno do Ibama e da Secretaria do Meio Ambiente, que ficaram de indicar algum laboratório para analisar o tipo de produto que está causando essas mortes. Até hoje não tive retorno de nenhum órgão. Não temos proteção nem respeito, porque o agronegócio não tem limites com a produção que está no seu no entrono, muito menos com as pessoas que têm outro sistema de produção sem veneno”, completa.

Para o engenheiro Morales, a falta de fiscalização dos órgãos competentes sobre a origem, o manuseio, a estocagem dos agrotóxicos e o destino final dado às suas embalagens é um dos principais problemas enfrentados pelos apicultores da região. Para superar parte desses entraves, ele defende a criação de políticas públicas para incentivar a produção de mel orgânico.

“Precisa ter unidades de beneficiamentos e canais para comercialização. A maior parte da produção de soja no Brasil é financiada com dinheiro público e tem seguro contra qualquer intempérie. Mas para a produção de mel não tem nenhum tipo de incentivo ou seguro. Os camponeses precisam de políticas públicas que garantam a eles os mesmos direitos que o agronegócio tem. Não queremos nada além disso, somente direitos iguais”, argumenta.

Segundo o engenheiro Boni, outra opção seria criar dentro dos assentamentos zonas livres do uso de agrotóxicos e de transgênicos, assim como existe no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, na região Metropolitana de Porto Alegre.

“A produção de mel é mais delicada que outra produção agrícola, porque a abelha voa numa distância muito grande para captar pólen, e muitas vezes em áreas que contêm agrotóxicos. O ideal seria criar territórios que não tenham uso de venenos e priorizar a produção de alimentos saudáveis para os agricultores e a cidade, e não commodities e produtos de exportação”, aponta.

Leia amanhã na terceira e última reportagem da série:

As apostas da produção de mel sem o uso de veneno e a importância da conscientização do público urbano sobre os perigos do consumo de agrotóxicos.

Para MST, arroz sem agrotóxicos e sem transgênicos indica o caminho para novo modo de produção

Abertura oficial da 13ª Colheita do Arroz Agroecológico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocorreu no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

Abertura oficial da 13ª Colheita do Arroz Agroecológico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocorreu no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

É possível produzir alimento de qualidade, em grande escala, sem uso e agrotóxicos e transgênicos. Essa realidade vem sendo reafirmada a cada ano que passa no Rio Grande do Sul, nas cerimônias de abertura oficial da colheita de arroz agroecológico promovidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A 13ª abertura da colheita, ocorrida na última sexta-feira (18), no Assentamento Filhos de Sepé, não foi diferente, mostrando a evolução deste modelo de produção que vem sendo implementado nos assentamentos do MST. “A produção de arroz agroecológico faz parte de uma estratégia mais ampla do MST que envolve um debate sobre a necessidade de construir outro modelo de produção no campo. Neste ato que estamos realizando aqui hoje estamos mostrando, mais uma vez, que é possível outro modelo de produção, sem agrotóxicos e transgênicos e sem destruir o meio ambiente”, diz Cedenir de Oliveira, da coordenação estadual do MST no Rio Grande do Sul.

Os números da safra 2015-2016 de arroz orgânico são expressivos. A meta é colher mais de 478 mil sacas de arroz, entre grãos e sementes (434,9 mil sacas de grão e 44 mil sacas de semente) em todo o Rio Grande do Sul. A produção de grãos ocorre em 17 assentamentos, distribuídos por 13 municípios do Estado e envolvendo o trabalho de 421 famílias de assentados. Já a produção de sementes ocorre em nove assentamentos, com 135 famílias envolvidas. A produção de arroz agroecológico das famílias do MST começou em 1999 e é coordenada pela Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap). Hoje, o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

A certificação orgânica do arroz é realizada em todas as etapas da produção, com base em normas nacionais e internacionais, desde o ano de 2004. Ela ocorre por meio de dois procedimentos: certificação participativa (OPAC – Coceargs) e auditoria (IMO – Ceres).

Agroindústrias e preservação ambiental

Criado em 1998, no distrito de Águas Claras, em Viamão, o assentamento Filhos de Sepé, com 6.935 hectares, é um dos principais polos dessa produção. Ao todo, 376 famílias foram assentadas nesta área, vindas de vários municípios do Estado, especialmente das regiões das Missões e Alto Uruguai. Além do arroz, as famílias produzem hortaliças, frutas, panifícios, leite e cultivam abelhas, entre outras atividades econômicas. O assentamento conta ainda com duas agroindústrias de processamento de alimentos: uma para o beneficiamento de vegetais e outra de panifícios, além de outras pequenas agroindústrias caseiras. E esse parque agroindustrial será ampliado em breve. Na cerimônia de abertura da colheita, o prefeito de Viamão, Valdir Bonatto, entregou a licença para a construção de uma unidade de beneficiamento de arroz no assentamento.

Somente no assentamento Filhos de Sepé serão colhidas cerca de 125 mil sacas de arroz na safra 2015-2016, o que faz da área o maior produtor de arroz orgânico do Brasil. Os assentados definem a sua terra como um território livre de transgênicos e agrotóxicos. Na cerimônia de abertura da colheita, o superintendente regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Roberto Ramos, destacou o trabalho realizado pelo MST, tanto por comprovar que é possível produzir alimentos sem agrotóxicos e transgênicos, como por preservar o meio ambiente. O assentamento Filhos de Sepé está inserido na Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande e está ligado à Unidade de Conservação Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos. Com uma área total de mais de 2543 hectares, este ecossistema uma ampla diversidade de fauna, incluindo algumas espécies em extinção, como é o caso do cervo do pantanal.

“O assentamento está fazendo sua parte nesta área de preservação ambiental e serve de exemplo para outros produtores de arroz da mesma região”, assinalou Ramos. O Superintendente Regional do Incra no Estado lembrou que a empresa Incobras Agrícola vendeu a área para União, para fins de reforma agrária, porque não considerava viável a produção de arroz agroecológico naquela terra. Os assentados aceitaram o desafio e, quase dezoito anos depois, mostram com orgulho o que construíram. Roberto Ramos também destacou o sistema de gestão participativa da água, pioneiro nos assentamentos no Rio Grande do Sul. O perímetro irrigado no assentamento é de 3.400 hectares, mas a área máxima permitida para plantio é de 1.600 hectares. O sistema de gestão dos recursos hídricos do assentamento é administrado pelos assentados em parceria com o Incra.

Autonomia e domínio do processo produtivo

Emerson Giacomelli, coordenador do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico, destacou que o sistema de produção sem uso de agrotóxicos e transgênicos busca construir alterativas concretas ao modelo de agricultura do agronegócio, promovendo, além de aumentos saudáveis e de qualidade, uma relação de integração entre os seres humanos e os recursos naturais. Além disso, esse modelo estimula a organização das famílias assentadas em cooperativas e outras formas de associação.

A 13ª abertura da colheita do arroz agroecológico foi, ao mesmo tempo, um momento de celebração dos avanços conquistados no período de 17 anos de cultivo orgânico e também de reafirmação dos objetivos mais amplos e estratégicos do MST. Um dos principais é construir um sistema de produção agroecológico com o controle de todo processo produtivo pelos agricultores, incluindo a produção de sementes, o plantio, colheita, secagem, armazenagem, beneficiamento e comercialização. A ideia geral é de obter autonomia e domínio de todo o processo produtivo.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Cerca de 1200 mulheres do MST e do MAB ocupam pátio da Yara Fertilizantes, em Porto Alegre

A ocupação da Yara Fertilizantes faz parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas, que este ano tem como lema “Mulheres na luta em defesa da natureza e da alimentação saudável, contra o agronegócio. (Foto: Divulgação)

A ocupação da Yara Fertilizantes faz parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas, que este ano tem como lema “Mulheres na luta em defesa da natureza e da alimentação saudável, contra o agronegócio. (Foto: Divulgação)

Por Catiana de Medeiros/MST

Cerca de 1200 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ocupam desde a madrugada desta terça-feira (8) o pátio da empresa Yara Fertilizantes, em Porto Alegre, na Capital do Rio Grande do Sul.

Conforme a dirigente estadual do Setor de Gênero do MST, Roberta Coimbra, o objetivo da ocupação é denunciar o uso abusivo de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos na produção de alimentos no Brasil. “O modelo do agronegócio tem ocupado áreas que deveriam ser para a reforma agrária, e está excluindo as famílias do campo e impedindo a produção saudável de alimentos pela agricultura camponesa”, denuncia a assentada.

Roberta explica que as mulheres são as mais prejudicadas com essa conjuntura agrária, pois ela dificulta o desenvolvimento da agroecologia no campo e o acesso a incentivos para este tipo de prática. “Hoje, toda política governamental direciona os recursos da agricultura para o agronegócio, que só traz lucros para grandes empresas e multinacionais, contamina o meio ambiente e causa doenças nas pessoas”, argumenta.

As mulheres do MST e do MAB também pretendem trancar vias da Freeway, no sentido Canoas-Porto Alegre, para conscientizar motoristas sobre o tema. Em contraponto à agricultura convencional, apresentarão a produção agroecológica realizada por elas nos assentamentos do estado, com a entrega de material de denúncia e uma quantidade simbólica de arroz orgânico.

Legado da Yara

A Yara é uma empresa norueguesa, e no Brasil tem sede em Porto Alegre. A transnacional, junto a Bunge e a Mosaic, é responsável pelo grande cartel que controla o mercado de fertilizantes no mundo. Segundo a assentada do MST e engenheira agrônoma Dayana Machado, esta é a razão do elevado custo dos fertilizantes e, consequentemente, do preço dos alimentos. “O lucro da Yara no último ano foi mais de 490 milhões de dólares. A empresa que tem esse lucro não está preocupada com o planeta, nem com a saúde das pessoas”, complementa.

Objetivo da ocupação é denunciar o uso abusivo de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos na produção de alimentos no Brasil. (Foto: Divulgação)

Objetivo da ocupação é denunciar o uso abusivo de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos na produção de alimentos no Brasil. (Foto: Divulgação)

Conforme Dayana, a produção de fertilizantes sintéticos requer o uso de matérias-primas não renováveis, que são extraídas de rochas ou fósseis como petróleo, e provoca grandes danos ambientais. Entre os problemas que eles geram estão a degradação do solo, a poluição das fontes de água e da atmosfera e aumento da resistência das pragas.

“Criou-se o mito de que não se pode mais produzir sem os fertilizantes. As empresas, os bancos e os cientistas adotaram essa estratégia mentirosa para obter lucros. Existe um uso abusivo de fertilizantes, e somente em 2014 os produtores agrícolas consumiram 32 toneladas. A natureza e os seres humanos pagam um preço alto por isso”, explica a agrônoma, acrescentando que o uso excessivo desses químicos gera plantas doentes, induzindo a aplicação de agrotóxicos e produzindo alimentos envenenados e com baixo teor de nutrientes.

Segundo a ONU, o uso de fertilizantes sintéticos à base de nitrogênio, como a amônia e a ureia, é hoje um dos maiores responsáveis pelo aquecimento global e mudanças climáticas.

Jornada Nacional de Luta

A ocupação da Yara Fertilizantes faz parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas, que este ano tem como lema “Mulheres na luta em defesa da natureza e da alimentação saudável, contra o agronegócio.”

A iniciativa denuncia o capital estrangeiro na agricultura brasileira por meio das empresas transnacionais, chamando a atenção da sociedade sobre o modelo destrutivo do agronegócio para o meio ambiente, a ameaça à soberania alimentar do país e à vida da população brasileira, o que atinge de forma direta a realidade das mulheres. As lutas em todo o Brasil também denunciam a impunidade em relação à violência contra as trabalhadoras e os trabalhadores camponeses.

Ao mesmo tempo, a jornada coloca como alternativa a agricultura agroecológica e propõe a luta em defesa da soberania alimentar e da construção de uma nova sociedade através do projeto da Reforma Agrária Popular.