Arquivo da tag: Agroecologia

Livro de Frei Sérgio registra gênese do agronegócio e a resistência a esse modelo

Lançamento do livro em Porto Alegre foi realizado no Sindicato dos Bancários. (Foto: Guilherme Santos/Sul21

Nos últimos 16 anos, foi implantado no Brasil um novo modo de organização capitalista no campo, estreitamente vinculado com o setor financeiro, que passou a controlar a produção de alimentos, em especial, a produção de grãos. Esse modelo avançou sobre territórios tradicionais camponeses, indígenas e de outras comunidades, exigindo da parte dessas populações novas formas de organização e luta. Um dos protagonistas dessa luta no Rio Grande do Sul, Frei Sérgio Gorgen decidiu reunir textos que escreveu ao longo destes 16 anos para registrar essa mudança de fase na agricultura brasileira e, principalmente, as lutas de sem terras e pequenos agricultores que resistiram ao avanço do chamado agronegócio e vem construindo formas alternativas de produção e organização no campo.

O livro “Trincheiras da Resistência Camponesa. Sob o pacto de poder do agronegócio” (Instituição Cultura Padre Josimo) foi lançado na noite desta quarta-feira (16), no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), com a presença de representantes de movimentos sociais, partidos e sindicatos que vêm participando e apoiando o movimento de resistência registrado na obra. “Uma das características centrais desse novo pacto de poder político no campo é um intenso processo de concentração de terras. O que é chamado hoje de agronegócio é a expressão desse pacto de poder”, assinalou Adalberto Martins, do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O deputado estadual Edegar Pretto (PT), presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, recordou que, desde criança, passou a conviver com a presença de Frei Sérgio dentro de casa, em inúmeras reuniões e conversas com seu pai Adão Pretto. “Foram os primeiros passos do MST”, lembrou. Presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (CUT-RS), Claudir Nespolo, lembrou a solidariedade da classe trabalhadora urbana neste período de luta no campo, destacando que essa aliança deverá se estreitar ainda mais no presente para enfrentar o golpe contra a democracia e os direitos em curso no país.

Frade franciscano da Ordem dos Frades Menores do Rio Grande do Sul e militante há mais de 35 anos junto aos movimentos camponeses, Frei Sérgio destacou que o livro tem um objetivo central: reunir registros desse período para não deixar que a história dessas lutas caia no esquecimento. “O campesinato se acostumou a transmitir seus conhecimentos pela oralidade. Trata-se de um conhecimento riquíssimo. Cada vez que morre um camponês, é como se perdêssemos uma biblioteca”, disse. O autor destacou ainda a importância de deixar essa história registrada para que a juventude do presente possa ter essa referência nas lutas do presente. “Teremos dias difíceis pela frente. Os velhos fascistas do nosso tempo foram derrotados. Eles tentam agora sobreviver nesta nova geração. Caberá a vocês derrotá-los”, afirmou dirigindo-se a militantes do Levante Popular da Juventude que participaram do ato de lançamento do livro.

Frei Sérgio defendeu ainda que, no cenário político que se configurou após o golpe, principal protagonismo estará não com os partidos políticos, mas sim junto à esquerda social, com seus movimentos sociais e organizações de base. “Esse livro é um esforço de reunir o que foi escrito no período entre 2000 e 2016 no calor dos acontecimentos. Tem gente que diz que esse livro é panfletário. E é mesmo. Ele é um esforço de memória para ajudar as lutas do presente e do futuro. O agronegócio não é só um nome fantasia, mas sim a expressão de um novo pacto de poder onde a produção no campo ficou passou a ficar totalmente subordinada ao capital financeiro. Precisamos entender como isso ocorreu e suas implicações”.

Publicado pela editora do Instituto Cultural Padre Josimo, o livro pode ser adquirido através do site http://padrejosimo.com.br/loja ou solicitado pelos telefones (51) 3228-8107, (55) 55 3281-4820 ou (55) 99638-4941.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Cooperativa do MST aposta em planejamento estratégico para enfrentar crise

Plano de ações foi apresentado pela Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap) em assembleia geral, na última terça-feira (1º). (Foto: Caco Argemi)

Catiana de Medeiros – MST

O enfrentamento da crise econômica por meio do planejamento estratégico tem sido prioridade para a Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), que tem sua sede administrativa no Assentamento Integração Gaúcha, no município de Eldorado do Sul, a 16 quilômetros da Capital do Rio Grande do Sul. Uma das medidas adotadas é a busca de novos mercados para a comercialização de alimentos das 1600 famílias associadas.

A construção dos próximos passos ocorreu num trabalho de aproximação, nestes últimos cinco meses, da Cootap com seus associados, através de assembleias nas microrregiões onde há atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de reuniões do conselho deliberativo. O resultado das avaliações conjuntas do primeiro semestre e as ações para os próximos meses foram apresentados nesta terça-feira (1º), em assembleia geral. Na ocasião, Cedenir de Oliveira, dirigente estadual do MST, falou sobre as conjunturas política e econômica. Ele definiu o atual momento como “complexo e de resistência” para a esquerda e a classe trabalhadora, especialmente nos países da América Latina.

“No Brasil o projeto de conciliação de classes, que resultou em distribuição de renda e ganhos para todos, inclusive o capital, se esgotou com a crise econômica, gerando uma crise institucional. A burguesia tirou Dilma da presidência e hoje, com Temer, há derrotas das conquistas que obtivemos nos governos de esquerda. Ocorreram retrocessos tremendos na Saúde e Educação e em programas como o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos]. Agora há mais de 14 milhões de desempregados e a diminuição do Estado. Portanto, este é um período de resistência para não sermos rebaixados”, explica Oliveira.

Segundo o dirigente, entre os principais desafios dos trabalhadores está a construção de uma “força real e da massa”, que seja capaz de barrar os retrocessos e de fortalecer o controle sobre os seus territórios. Neste sentido, Oliveira aponta a Cootap como uma ferramenta fundamental para organizar os assentamentos da Reforma Agrária, conquistados na luta pela terra, nos aspectos produtivo e econômico. “Precisamos nos organizar para sobreviver nas cadeias produtivas, porque estamos em meio a uma crise econômica onde há superprodução, ao mesmo tempo em que ocorreu a diminuição do consumo. O nosso desafio é superar esse momento histórico. Temos total convicção de que vamos sobreviver e resistir devido nossa base”, argumenta.

Organizada por setores, hoje a Cootap tem em suas principais linhas de produção o arroz orgânico, cultivado por cerca de 600 famílias em 22 assentamentos e 16 municípios gaúchos. (Foto: Caco Argemi)

Organizada por setores, hoje a Cootap tem em suas principais linhas de produção o arroz orgânico, cultivado por cerca de 600 famílias em 22 assentamentos e 16 municípios gaúchos; o leite in natura e em pó, que envolve a produção de 96 famílias; e as hortaliças, que chegam especialmente aos mercados institucionais e em feiras públicas e particulares da região Metropolitana, a partir do trabalho de cerca de 200 famílias. Além disto, parte destes alimentos é comercializada na Feira Nacional da Reforma Agrária, na Feira Latino-Americana de Economia Solidária e no Mercado Público de Porto Alegre.

Mas, com a atual conjuntura brasileira, uma das preocupações da cooperativa diz respeito às vendas institucionais, uma vez que alguns governos municipais, através de articulação política, passaram a dar preferência aos produtos com agrotóxicos em vez dos orgânicos para alimentar os estudantes, em algumas situações deixando de cumprir a Lei nº 11.947, que recomenda a aquisição de pelo menos 30% dos produtos da agricultura camponesa e familiar para a merenda escolar.

Um exemplo é que a prefeitura de São Paulo, na gestão de João Doria (PSDB), deixou de comprar para a merenda escolar do município neste último período em torno de 1 mil tonelada de arroz orgânico do MST, que hoje é conhecido como o maior produtor do alimento na América Latina. “A prefeitura vai comprar arroz convencional, então nós, que produzimos orgânico, estamos fora. As ferramentas de comercialização existem, eles só mudaram o foco. A prioridade deles agora é outra”, avalia o assentado Marcos Vanderlei dos Santos, do setor financeiro da Cootap.

Santos também afirma que no primeiro semestre deste ano não ocorreram novas contratações de projetos por meio de PAA, programa que somente no ano de 2016, via Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), teve corte de R$ 5,7 milhões e em 2017 de R$ 1,1 milhão. “É um momento de dificuldade econômica, mas a cooperativa não está mal, nem quebrada. Para enfrentar essa crise precisamos comercializar nossa produção e fazer contenção de gastos. Temos grandes apostas em chamadas públicas da Conab, que, se derem certo, nos possibilitarão vender cerca de um milhão de quilo de arroz para seis ou sete estados brasileiros”, revela.

Outras ações

A Cootap quer ser referência no Brasil na organização socioeconômica da produção, agroindustrialização e comercialização de alimentos produzidos com base agroecológica. Para isto, investe no planejamento estratégico como ferramenta de gestão para o funcionamento da cooperativa em suas instâncias e atividades econômicas. Hoje, esta forma de organização, que culmina na reorganização dos seus setores de produção, continua sendo a sua principal aposta para o próximo período (2017/2018), sobretudo para vencer a crise econômica.

Na área do leite o objetivo da Cootap é organizar os grupos de produção, inclusive com a inserção de novas famílias, aumentar a quantidade produzida e melhorar a qualidade do alimento. Para isto, a cooperativa promoverá capacitações e colocará no debate com os associados a experiência de leite orgânico. Já no setor das hortas o intuito é fortalecer a agroindústria vegetal do Assentamento Itapuí, construída em 2016 no município de Nova Santa Rita, também na região Metropolitana de Porto Alegre. Os produtos minimamente processados e higienizados, como geleias e kits sopas, já são vendidos nas feiras orgânicas do Parque da Redenção e dos bairros Auxiliadora, Três Figueiras e Petrópolis, além de alguns shoppings da Capital. Também são entregues às escolas municipais de Nova Santa Rita. De acordo com Santos, a Cootap vai buscar novos espaços de comercialização e aumentar a diversidade de produção da agroindústria.

Para o assentado Emerson Giacomelli, presidente da cooperativa, o planejamento estratégico construído em conjunto com as famílias associadas ajudará no enfrentamento da crise política e econômica que atinge vários setores do país. Conforme ele, é prioridade para a Cootap manter todas as suas atividades produtivas. “Temos consciência do momento que estamos passando e dos desafios que nos esperam. É nas situações difíceis que percebemos o valor do planejamento, da gestão, da cooperação e da unidade política. O nosso compromisso para o segundo semestre é continuar organizando os assentamentos e fazendo a luta política e de projeto de sociedade. Essa tempestade vai passar e nós vamos continuar gerando vida e lutando por mais direitos a todos”, declara.

“Nosso patrimônio genético agrícola está sendo sequestrado. Deveria ser tema de segurança nacional”

José Maria Tardin: “Patrimônio genético agrícola está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“O patrimônio genético agrícola brasileiro deveria ser tratado como um tema de segurança nacional. No entanto, o que estamos vendo é esse patrimônio está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A erosão genética no Brasil já é muito grande.” A advertência é de José Maria Tardin, integrante do Conselho Gestor e educador na Escola Latinoamericana de Agroecologia (ELAA), localizada no assentamento Contestado, no Paraná. Tardin atua na formação em agroecologia nas escolas técnicas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e em cursos de especialização em agroecologia organizados pelo MST em parceria com universidades e institutos de pesquisa no Brasil e em vários países da América Latina.

Tardin esteve em Porto Alegre participando de um debate organizado pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) sobre a relação entre a agroecologia e os saberes de comunidades tradicionais. Além disso, participou de um seminário organizado pelo setor de educação e produção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que discutiu a introdução da agroecologia nas escolas infantis e de ensino fundamental do MST em nível nacional. “Serão milhares de crianças que, nos próximos anos, estudarão agroecologia sistematicamente. Estamos dando um passo que representa uma das maiores alegrias da minha vida”, diz Tardin.

Filho de agricultores e trabalhando há décadas com o tema da agroecologia, Tardin fala, em entrevista ao Sul21, sobre as raízes tradicionais desse tipo de agricultura no Brasil, destaca a decisão do MST de definir a agroecologia como uma agenda estratégica para o movimento e aponta os preconceitos e ameaças que pairam sobre a agricultura camponesa no Brasil, na América Latina e em todo o mundo. A erosão genética e a perda de saberes tradicionais são algumas delas. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Agapan promove debate sobre agroecologia e herança dos povos tradicionais

Atividade no Clube de Cultura é aberta ao público. (Divulgação)

A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) promove nesta segunda-feira (19), às 19 horas, no Clube de Clube de Cultura (rua Ramiro Barcelos, 1853), em Porto Alegre, um debate com o educador José Maria Tardin sobre a herança dos povos tradicionais na agroecologia. O debate, aberto ao público, terá a mediação de Leonardo Melgarejo, presidente da Agapan.

Tardim é integrante do Conselho Gestor e educador na Escola Latino-Americana de Agroecologia (ELAA) localizada no assentamento Contestado, no município de Lapa (PR), criada pela Via Campesina Brasil em 2005. Atua na formação em agroecologia nas escolas técnicas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Paraná (MST), em cursos de especialização em agroecologia organizados pelo MST em parceria com universidades federais, cursos de licenciatura em ciências da natureza com universidades federais e estaduais, no Instituto Latino-Americano de Agroecologia (IALA), em Sabaneta, na Venezuela, no IALA Guarany, no Paraguai, IALA Amazônico, no assentamento Zumbi dos Palmares, em Paraupebas, Pará, e na Escola Nacional de Agroecologia, no Equador.

Além disso, participa da coordenação da Jornada de Agroecologia, no Paraná, desde 2001, que anualmente realiza um evento de quatro dias com participação média de 4 mil pessoas.

‘Temos um pacote do veneno tramitando no Congresso Nacional’, alerta procuradora

Ana Paula Carvalho de Medeiros: “Há vários projetos tramitando juntos, constituindo o que está sendo chamado de pacote do veneno. O PL 3200 é o mais preocupante”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Em março de 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), publicou um artigo que sistematizou pesquisas sobre o potencial cancerígeno de cinco ingredientes ativos de agrotóxicos realizadas por uma equipe de pesquisadores de 11 países, incluindo o Brasil. Baseada nestas pesquisas, a agência classificou o herbicida glifosato e os inseticidas malationa e diazinona como prováveis agentes carcinogênicos para humanos e os inseticidas tetraclorvinfós e parationa como possíveis agentes carcinogênicos para humanos. Destes, a malationa, a diazinona e o glifosato são amplamente usados no Brasil. Herbicida de amplo espectro, o glifosato é o produto mais usado nas lavouras do Brasil, especialmente em áreas plantadas com soja transgênica.

A partir desse levantamento, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou uma nota oficial chamando a atenção para os riscos que a exposição ao glifosato e a outras substâncias representam para a saúde dos brasileiros. Dentre os efeitos associados à exposição crônica a ingredientes ativos de agrotóxicos, o Inca cita, além do câncer, infertilidade, impotência, abortos, malformações fetais, neurotoxicidade, desregulação hormonal e efeitos sobre o sistema imunológico. O Inca e a Organização Mundial da Saúde estimaram que, nos próximos cinco anos, o câncer deve ser a principal causa de mortes no Brasil.

O Inca também manifestou preocupação com o fato do Brasil ainda realizar pulverizações aéreas de agrotóxicos, que ocasionam dispersão destas substâncias pelo ambiente, contaminando amplas áreas e atingindo populações. E criticou a isenção de impostos que o país continua a conceder à indústria produtora de agrotóxicos, além do fato de o Brasil permitir o uso de agrotóxicos já proibidos em outros países. Na avaliação do instituto, o modelo de cultivo com o uso intensivo de agrotóxicos gera grandes malefícios, “como poluição ambiental e intoxicação de trabalhadores e da população em geral”.

Apesar de todas essas advertências, estão tramitando no Congresso Nacional que propõe desde a flexibilização de instrumentos de fiscalização e controle sobre o uso de agrotóxicos até a mudança da designação dos mesmos para “aliviar a carga negativa” da expressão. “É um verdadeiro pacote do veneno”, diz a procuradora da República, Ana Paula Carvalho de Medeiros. Em entrevista ao Sul21, ela fala dos riscos que esses projetos trazem para a saúde da população e o meio ambiente. O mais perigoso de todos, destaca a procuradora, é o do deputado Covatti Filho (PP-RS), que altera toda a normatização e revoga a lei de 1989, criando uma legislação completamente diferente. Covatti Filho é o autor da proposta para que os agrotóxicos passem a ser chamados de “defensivos fitossanitários”. (Leia aqui a entrevista na íntegra)

JuntaPedido: Assentados oferecem alimentos orgânicos por meio de aplicativo de celular

Por enquanto, aplicativo está disponível apenas para celulares que possuem sistema operacional Android. (Foto: Catiana de Medeiros/MST)

Imprensa – MST

Consumir produtos orgânicos está cada vez mais fácil para a população da região Metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Isto porque, com preço justo para quem produz e acessível para quem consome, famílias assentadas na Reforma Agrária que fazem feiras ecológicas agora oferecem alimentos produzidos sem o uso de agrotóxicos por meio do JuntaPedido, um aplicativo criado pela empresa gaúcha Sapiens I Tecnologia. O objetivo principal é facilitar o acesso dos consumidores urbanos aos alimentos saudáveis, por meio da ampliação dos espaços de comercialização.

Para comprar os alimentos orgânicos e recebê-los no endereço desejado basta acessar o site www.juntapedido.com no computador ou tablet, ou fazer download gratuito do JuntaPedido no celular, e criar uma conta de acesso. O aplicativo está disponível apenas para celulares que possuem sistema operacional Android, mas em breve, segundo a Sapiens I Tecnologia, ele poderá ser baixado nos celulares com sistemas IOS, da Apple, e Windows Phone, da Microsoft.

O JuntaPedido permite que os feirantes configurem as suas contas para que clientes próximos dos locais das feiras possam visualizar e encomendar os produtos. As entregas são feitas nos endereços cadastrados pelos clientes, que podem ser o local de trabalho ou da própria casa. O raio de abrangência de entregas é definido por cada feirante, variando de 250 metros até 2.000 metros do ponto da feira. Até o momento, cerca de 35 famílias assentadas entregam alimentos em diferentes áreas de Porto Alegre, Viamão, Nova Santa Rita, Eldorado do Sul e Canoas.

De acordo com Sandra Rodrigues, assistente social que acompanha as famílias assentadas através da Cooperativa de Trabalho em Serviços Técnicos (Coptec), a inserção dos alimentos orgânicos dos assentamentos ao JuntaPedido atenderá parte da demanda de escoamento da produção dos agricultores que participam do Grupo Gestor das Hortas, Frutas e Plantas Medicinais, coordenado pelo MST. Hoje, aproximadamente 200 famílias Sem Terra produzem de forma agroecológica na região e, devido aos cortes no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), sentem a necessidade de buscar outras alternativas para ampliar os espaços de comercialização, indo além das feiras ecológicas.

“Vai ser muito bom, porque hoje há falta de espaços para vender a nossa produção. Nós estamos em feiras, mas elas ainda não atingem 100% dos agricultores. Com o aplicativo vamos conseguir inserir mais famílias e fortalecer os grupos de produção dos assentamentos. Torcemos para que dê certo e que aumente cada vez mais o número de pedidos, assim nós poderemos produzir à vontade, porque teremos onde escoar a produção”, declara o assentado Arnaldo Soares, de Nova Santa Rita.

A primeira experiência do MST com o aplicativo, cedido gratuitamente pela Sapiens I Tecnologia para uso dos assentados, foi realizada no último mês de maio com o grupo Mulheres da Terra, do Assentamento Filhos de Sepé, localizado em Viamão. O grupo disponibiliza mais de 60 produtos, todos certificados como orgânicos por órgãos públicos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Ministério da Agricultura (Mapa). As entregas acontecem sempre às quartas-feiras, às 11 horas, nos arredores dos principais prédios da administração pública da Capital, abrangendo o Incra, Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), Receita Federal, Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), Justiça Federal e Câmara de Vereadores. A adesão ao aplicativo por parte de outros grupos de feirantes da região Metropolitana de Porto Alegre aconteceu nos primeiros dias de junho. Assentados dos municípios de Tupanciretã, São Luiz Gonzaga, São Miguel das Missões, Esmeralda e Vacaria já mostraram interesse em também comercializar alimentos via JuntaPedido. A iniciativa tem o apoio do Incra.

Como fazer pedidos?

Os pedidos devem ser feitos com 36 horas de antecedência para que os agricultores possam organizar os alimentos. Para fazer a aquisição, os consumidores devem criar uma conta no JuntaPedido. O procedimento é muito simples e rápido (demora menos de 1 minuto), basta preencher um formulário com as seguintes informações: nome, número de telefone, email, endereço onde trabalha ou reside (para as entregas) e senha de acesso para efetivar os pedidos. Ao concluir esta etapa, chegará uma mensagem no email informando a situação do cadastro.

Valor mínimo e taxa de entrega

O pedido mínimo é de R$ 15 reais, o mesmo valor da taxa de entrega. Mas o custo da entrega fica mais baixo na medida que mais pessoas se juntam ao grupo de pedido. Ou seja, ela pode chegar a centavos caso os vizinhos também optem por adquirir os alimentos orgânicos por meio do JuntaPedido. Por exemplo: se os agricultores tiverem que fazer entrega apenas para um cliente numa determinada data e horário, o custo da entrega será de R$ 15. Mas se 15 vizinhos fizerem pedidos para o mesmo dia e horário, formando um grupo, o custo da entrega para cada um será de apenas R$ 1,00. O intuito do frete compartilhado é incentivar mais pessoas a consumirem alimentos saudáveis. A forma de pagamento pode ser em cartão, dinheiro ou cheque, dependendo das opções oferecidas pelos agricultores no aplicativo.

Feirantes já cadastrados

Feirante Mulheres da Terra
Porto Alegre: Av. Loureiro da Silva, 800 – Centro, (raio 1.000m). Entregas: quarta-feira, 11horas

Feirante COOTAP Grupo Organizando a Natureza
Porto Alegre: R. Mata Bacelar, 10 – Auxiliadora, (raio 1.000m). Entregas: terça-feira, 11 horas

Feirante COOTAP Grupo dos Pampas
Porto Alegre: R. Rômulo Telles Pessoa, 50 – Bela Vista, (raio 1.500m). Entregas: sábado, 12 horas

Feirante COOTAP Grupo Três Figueiras
Porto Alegre: R. Antônio Carlos Berta, 600 – Boa Vista, (raio 750m). Entregas: 3º, 13 horas
Porto Alegre: R. Cel. Armando Assis, 264 – Três Figueiras, (raio 750m). Entregas: sábado, 11 horas

Feirante COOTAP Grupo Petrópolis
Porto Alegre: R. Dário Pederneiras, 700 – Petrópolis, (raio 1.500m). Entregas: quarta-feira, 16 horas

Feirante COOTAP Grupo Jaqueline
Porto Alegre: Av. Plínio Brasil Milano, 80 – Higienópolis, (raio 1.000m). Entregas: quarta-feira, 16 horas


Feirante COOTAP Paulo Savela
Canoas: Av. Açucena, 1205 – Estância Velha,  (raio 2.000m). Entregas: segunda-feira e sábado, 11horas

Feirante COOTAP Grupo Sepé Tiaraju
Viamão: Av. Liberdade, 1751 – Santa Isabel (raio 1.000m). Entregas: sábado, 11 horas

Feirante COOTAP Grupo Terra Viva
Viamão: Av. Senador Salgado Filho, 7000 – São Lucas, TECNOPUC (raio 500m). Entregas: quinta-feira, 11 horas
Viamão: Av. Senador Salgado Filho, 9750 – Cecília, Parada 56 (raio: 1.000m). Entregas: quinta-feira, 17 horas
Viamão: Av. Paraíso, 332 – Parque Indio Jari (raio 1.000m). Entregas: sábado, 10 horas
Viamão: R. Édio Nagel Boit – Parque Indio Jari (raio 1.000m). Entregas: sábado, 11 horas
Viamão: Av. Liberdade, 1751 – Santa Isabel (raio 1.000m). Entregas: sábado, 12 horas
Viamão: Av. Senador Salgado Filho, 5412 – Jardim Krahe, Parada 44 (raio: 1.000m). Entregas: sábado, 13 horas

Feirante COOTAP Plantando Saúde
Eldorado do Sul: R. da Arrozeira, 270 – Medianeira (raio 500m). Entregas: terça-feira, 10 horas
Eldorado do Sul: Av. Emancipação, 480 – Centro (raio 500m). Entregas: quarta-feira, 10 horas

Feirante COOTAP Ana Gisel
Nova Santa Rita: Todo o município. Entregas: terça-feira, 16 horas

Produtores apontam falácias e defendem agroecologia como solução para crise alimentar e climática

Produtores orgânicos de várias regiões do Estado participaram do debate no auditório Dante Barone.
(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O único animal do planeta Terra que coloca veneno no alimento que dá aos seus filhos é o homem. A lembrança feita pelo músico e cantor Antonio Gringo, no ato de abertura da Semana do Alimento Orgânico, na tarde desta segunda-feira (29), na Assembleia Legislativa, resumiu um dos argumentos mais fortes dos agricultores que optaram por produzir alimentos sem agrotóxicos e com um uso responsável do solo, da água e do ar. “Ou a alimentação é saudável ou não é alimentação. Há muitos produtos que são consumidos hoje que não podem ser chamados propriamente de alimentos”, acrescentou o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), em uma das mesas do debate realizado no auditório Dante Barone.

Coordenada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a Semana do Alimento Orgânico é promovida anualmente com o objetivo de difundir os princípios dos sistemas de agroecologia e estimular o consumo de alimentos orgânicos pela população. Ao analisar alguns desses princípios que estruturam a prática da agroecologia, Leonardo Melgarejo chamou a atenção para o caráter alienado do trabalho dos agricultores comprometidos com a produção convencional. “Esses agricultores”, exemplificou, “não escolhem as sementes que vão usar para plantar no próximo ano, como fazem os produtores agroecológicos de milho que selecionam as melhores espigas para servirem de sementes”. “Eles também não levam em conta os possíveis prejuízos de longo prazo à saúde e ao meio ambiente causados pelo modo de produção com veneno”, assinalou.

O presidente da Assembleia Legislativa, Edegar Pretto (PT), destacou que fazer agroecologia não é mais uma prática romântica como era considerada até certo tempo. “O MST é hoje o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, com todas as dificuldades enfrentadas pelos assentamentos. Isso mostra que é possível um modelo de agricultura sem veneno”, disse o deputado que é o autor de vários projetos estabelecendo proibições e restrições para o uso de agrotóxicos no Rio Grande do Sul. Um deles é o PL 262/2014, que proíbe a fabricação, uso e comercialização do agrotóxico 2,4-D no Estado. “Esse é um dos venenos mais tóxicos do mundo que, se entrar no organismo humano, não tem mais quem tire. Além disso, dependendo do vento, ele pode se propagar por 5 ou 10 quilômetros”, observou Pretto, lembrando a matança de abelhas que também atingiu o Rio Grande do Sul.

O parlamentar também é autor do projeto 263/2014, que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o território gaúcho. “Já recebi muito xingamento por causa desse projeto que está tramitando na Comissão de Constituição e Justiça”, contou Pretto, defendendo o mérito do mesmo. Em sua justificativa, o projeto assinala que cerca de 70% dos venenos aplicados por avião não atinge o alvo, envenenando terras de terceiros, sejam eles outros agricultores e plantações, casas, escolas, hospitais, reservas ecológicas ou mananciais de águas que abastecem as cidades.

A professora Ana Beatriz Almeida de Oliveira, do Curso de Nutrição da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), falou sobre a acentuada queda na qualidade da alimentação consumida pela população brasileira nas últimas décadas. Essa queda de qualidade, afirmou, se traduz no presente pelo aumento expressivo dos problemas de sobrepeso e obesidade e pelo consequente crescimento das doenças crônicas não transmissíveis (câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias.) Citando os últimos levantamentos disponíveis, a professora da UFRGS lembrou que Porto Alegre é hoje campeã de obesidade no país. Além disso, cerca de 52% da população da capital gaúcha apresenta problemas de sobrepeso. A explicação para esses números, defendeu, passa por um ponto principal: passamos a comer muito mais alimentos ultraprocessados e práticos de consumir.

Ana Beatriz de Oliveira sugeriu aos participantes do debate para que fizessem um rápido experimento na internet. “Pesquisem fotos da população em geral nos anos 60 e fotos de hoje e terão uma constatação impactante pelo aumento da obesidade”. Não se trata, ressaltou, de alimentar preconceitos contra pessoas obesas, mas sim de constatar e alertar para um grave problema de saúde causado pela combinação entre uma alimentação de má qualidade e vida sedentária. A professora da UFRGS apontou o ambiente escolar como território estratégico para se iniciar um trabalho de educação e reeducação alimentar. “Precisamos fazer dos alimentos in natura ou minimamente processados a base de nossa alimentação”, defendeu.

Integrante da Comissão da Produção Orgânica do Rio Grande do Sul (CPorg-RS), Leandro Venturini procurou rebater alguns argumentos que contestam a capacidade de um modelo de produção orgânica alimentar o mundo.  “Quando alguém pergunta se a agricultura orgânica é capaz de alimentar o mundo, devemos fazer algumas perguntas adicionais: Que alimentos estamos produzindo no modo convencional? Quem produz e quem consome esses alimentos? Qual o custo desse modelo de produção?” – questionou.

Quando se fala em alimentar o planeta, disse ainda Venturini, o problema central não é a escala de produção, mas sim o sistema de distribuição. O atual modelo de distribuição de alimentos está cada vez mais concentrado, defendeu, gerando um grande desperdício e provocando distorções nos preços. Ele citou uma pesquisa realizada na universidade de Michigan (EUA), que compilou os resultados de 293 estudos comparativos entre modelos convencionais e orgânicos de agricultura. Essa pesquisa, segundo Venturini, não apontou grandes diferenças do ponto de vista da produtividade, mas registrou algumas vantagens importantes para o modelo orgânico como o fato de ele ter um potencial de produção energética 80% maior que o da agricultura convencional.

Para ele, não só é uma falácia afirmar que a produção orgânica é incapaz de alimentar o mundo, como esse tipo de prática é a grande resposta para as crises alimentar e climática nas quais o planeta está mergulhado. Além disso, concluiu, é o caminho para promover segurança e soberania alimentar, defender a biodiversidade, gerar emprego e renda no campo e criar relações de justiça social e ambiental entre produtores e consumidores.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

MST produz mais de 30 variedades de feijão sem veneno no Rio Grande do Sul

Produção é da Associação de Produtores Ecológicos Conquista da Liberdade (Apecol), que organiza famílias em torno da produção e comercialização de alimentos saudáveis. (Foto: Divulgação/MST)

Por Catiana de Medeiros – MST

Gerações passadas de agricultores e agricultoras talvez nem souberam em sua totalidade o bem que fizeram à saúde do planeta ao incentivarem seus filhos a permanecerem no campo e a continuarem desenvolvendo uma agricultura limpa. Seu José Elpídio da Silva, 62 anos de idade, conhece bem esta realidade, que parece estar tão distante dos dias atuais, mas não está: ele não sabe o que é produzir alimentos com o uso de venenos.

Assentado há 27 anos no Assentamento Conquista da Liberdade, constituído em Piratini, na região Sul do Rio Grande do Sul, Silva conta que herdou de seus pais, “grandes defensores do meio ambiente”, como faz referência, a prática de produzir alimentos saudáveis. “Lá em casa nós nunca sentimos dificuldade de produzir sem venenos, porque eu e minha companheira nos criamos no meio de um modelo de produção que respeita a vida. Nossos pais produziam sementes crioulas e alimentos saudáveis, então já viemos para o assentamento com este alicerce, sem dificuldade alguma. A produção agroecológica está no nosso sangue”, destaca.

Seu José acrescenta que, além de toda a produção de seu lote, de pouco mais de 20 hectares, ser 100% orgânica, há a preocupação de manter a diversidade e de colocar uma alimentação de qualidade na mesa da sua família. “Teve um ano que produzimos 38 tipos de alimentos sem usar uma gota de veneno, apenas com compostos orgânicos. A gente gasta pouco dinheiro com comida, só compra sal, café e outras coisinhas que não conseguimos produzir. Podemos dizer que 98% dos alimentos que consumimos vêm do nosso próprio lote”, declara.

Entre as variedades produzidas pela Apecol estão: expedito, pampeano, caravelas, guerreiro, campeiro, macanudo, carioca vermelho, guapo brilhante, mourinho, paisano, rajado e feijão-arroz.

Segundo o assentado, a apicultura é a principal fonte de renda da família. Nos últimos anos ele plantou mais de cinco mil mudas de árvores nativas para o desenvolvimento das colmeias. Ainda no lote de Silva são produzidas sementes de hortaliças para a Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida (Conaterra), que foi constituída há 20 anos pelo MST em Candiota, na região da Campanha, e detém a marca comercial Bionatur. Mas o popular feijão também faz parte da diversidade da produção da família, que destina uma área de quatro hectares para o cultivo de seis variedades.

Produção para a cidade

A produção de diversas variedades de feijão no lote de seu José começou há três anos, quando a Associação de Produtores Ecológicos Conquista da Liberdade (Apecol), que envolve agricultores do Assentamento Conquista da Liberdade e Assentamento Conquista da Luta — Rubira I, localizados em Piratini, se tornou o principal instrumento de organização das famílias em torno da produção e comercialização de alimentos saudáveis.

Com o passar do tempo, recorda seu José, os Sem Terra, com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), da Conaterra e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ampliaram a produção em outros lotes e já estavam vendendo feijão uma vez por semana na cidade. “Nós começamos com 13 variedades, hoje produzimos mais de 30”, complementa. Entre as variedades produzidas pela Apecol estão: expedito, pampeano, caravelas, guerreiro, campeiro, macanudo, carioca vermelho, guapo brilhante, mourinho, paisano, rajado e feijão-arroz.

A iniciativa deu tão certo que as famílias, por meio do trabalho coletivo, nos últimos três anos já realizaram três edições da Feira do Feijão Orgânico no Centro de Piratini — a última edição aconteceu nesta quarta-feira (17), na Praça Inácia Machado da Silveira, também conhecida popularmente como Praça do Palanque. Lá, ao lado de seu José, estava a assentada Dauraci da Rosa Tavares, 46 anos de idade, que também herdou de seus pais a produção de alimentos sem o uso de venenos.

De acordo com Dauraci, uma hectare de seu lote, localizado no Assentamento Conquista da Luta – Rubira I, em Piratini, é destinada para o cultivo de duas variedades de feijão (expedito e paisano), que abastecem a Apecol e o banco de sementes da Conaterra. A agricultora revela que a produção de sementes é o que garante a renda familiar e que em seu lote somente há espaço para o modo agroecológico de desenvolver a agricultura. “Meus pais nunca plantaram com veneno, e quando eu e meu esposo conseguimos um pedaço de chão seguimos nessa linha. Muitos pensam que não, mas é possível produzir sem veneno. É só insistir que dá. Plante e use o adubo que tem em casa, que é o esterco e a urina de vaca. Não tem necessidade de usar essas porcarias do pacote do agronegócio”, explica.

A assentada levou 30 quilos de feijão, malhados de manguá e selecionados à mão, para comercializar na 3ª Feira do Feijão Orgânico. Ela diz que pretende ampliar o espaço de produção do alimento, especialmente para as variedades que ‘são de cor’ — expressão utilizada pelos agricultores para se referir os feijões que não são da cor preta. Esta meta de Dauraci se insere nos planos da Apecol, conforme explica o assentado José Gabriel Venâncio, presidente da associação. Mas, segundo ele, aumentar a área plantada para conseguir atingir um público maior de consumidores requer o envolvimento de mais produtores do alimento. “Hoje, as 16 famílias que fazem parte da Apecol conseguem produzir para abastecer a população de Piratini, mas não para comercializar o alimento em outras cidades. O nosso grande objetivo é chegar ao mesmo volume de produção de arroz que há no estado [Atualmente o MST é considerado o maior produtor de arroz orgânico da América Latina]. Queremos oferecer feijão e arroz para o povo, que os dois alimentos estejam lado a lado. Para isto, quando mais pessoas dispostas a se inserir na Apecol e a cultivar de forma agroecológica, melhor”, argumenta. 

De acordo com Venâncio, a Apecol mantém uma área plantada de 20 hectares e todos os associados possuem seus lotes certificados como orgânicos por meio da Associação de Certificação Instituto Biodinâmico (IBD) — Conaterra e do Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (Opac) — Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (Coceargs). A proposta, para aumentar a produção, é inserir todos os grupos de agricultores da Conaterra, que já produzemsementes, também no cultivo de feijão. “Daríamos um salto no volume de produção de todas as variedades a curto prazo. Os agricultores ligados à Bionatur já estão organizados e produzindo de maneira agroecológica, o que garantiria a qualidade do nosso alimento”, salienta.

Onde comprar os alimentos da Apecol

Os alimentos saudáveis da Apecol podem ser adquiridos nas segundas e quartas-feiras na Praça Inácia Machado da Silveira, no Centro de Piratini. A feira acontece das 8 às 17 horas e comercializa feijão, hortaliças, queijos, ovos e panifícios, entre outros tipos de produção. A associação também conta com uma banca diária de alimentos nas margens da BR-293, entre os quilômetros 76 e 77, no sentido Pelotas-Bagé da rodovia.

Da lona preta ao ‘melhor pão do mundo’: uma visita aos caminhos da luta pela terra

A primeira parada da visita da Associação Juízes para a Democracia foi no acampamento Unidos pela Terra, localizado em Charqueadas, em uma área abandonada da CEEE. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

O caminho da luta pela terra, percorrido há décadas no Brasil, por trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra, junto com suas famílias, foi visitado no último sábado (4) por um grupo de advogados, procuradores e juízes ligados à Associação Juízes para a Democracia (AJD). A visita a um acampamento, dois assentamentos e uma cooperativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) marcou a retomada das atividades da AJD no Rio Grande do Sul. A entidade pretende organizar ao longo do ano uma série de ações e debates com movimentos sociais que sofrem hoje um processo de criminalização de suas lutas. A ideia é aproximar juízes e outros operadores do Direito de atores e realidades sociais sobre as quais têm que decidir no seu cotidiano.

O ponto de partida da atividade de sábado foi um café da manhã na sede da Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (Coceargs). Representantes da direção estadual do MST receberam os convidados e informaram o roteiro da visita que começou por um acampamento e terminou em um dos assentamentos mais antigos e estruturados do Estado.

Esse tipo de visita é uma prática que já faz parte da história do MST. Ao longo dessa trajetória, explicou Cedenir de Oliveira, da coordenação estadual do movimento no Rio Grande do Sul, o MST sempre procurou estabelecer relações com a sociedade, com os demais movimentos sociais,  partidos,  igrejas e outras organizações. “A nossa luta é legítima. Nunca escondemos nossos objetivos e nossa forma de luta. Essa visita está dentro dessa política que o MST já executa há muitos anos, convidando pessoas que não conhecem a realidade dos acampamentos e dos assentamentos. Para nós, é um contato muito importante pois envolve pessoas que, no dia-a-dia, irão dialogar, no seu espaço de trabalho e na sua área de influência, expondo o que estão vendo e experimentando aqui”, assinalou Cedenir. (Leia aqui a íntegra da cobertura sobre a visita da AJD ao MST)

Assentados investem na produção de melancia orgânica no RS

Associação de Produtores Orgânicos Renascer Oeste estimam colher 30 toneladas do alimento nesta safra. (Foto: Divulgação)

Associação de Produtores Orgânicos Renascer Oeste estimam colher 30 toneladas do alimento nesta safra. (Foto: Divulgação)

Catiana de Medeiros – MST

São Gabriel, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, é um município que carrega em seu legado grandes lavouras de soja transgênica e o uso indiscriminado e contrabandeado de veneno. Porém, indo na contramão desta realidade, assentados da Reforma Agrária da região mostram que é possível superar a reprodução do modelo do agronegócio em pequenas áreas de terra e apostar na produção de alimentos saudáveis.

Há cinco anos, por meio da Associação de Produtores Orgânicos Renascer Oeste, um grupo de dez famílias do Assentamento Conquista do Caiboaté organiza sua produção de frutas e hortaliças – todas em processo de certificação orgânica – para comercialização. Conforme o assentado Jair Amaral, somente nesta safra, numa área plantada de 2 hectares, serão colhidas mais de 2,5 mil unidades de melancia, o que corresponde a cerca de 30 toneladas do alimento.

“Vivemos numa região que tem muita produção de soja, mas devagarinho vamos conseguindo superar esta realidade. Agora estamos em processo de construção do mercado local, pois já há público interessado nas melancias. Aliás, quem quiser comprar é só nos procurar, pode ir até na roça escolher a fruta que quiser levar para casa”, argumenta.

Os assentados vêm na produção orgânica uma saída para a agricultura camponesa diante do modelo do agronegócio. (Foto: Divulgação)

Os assentados vêm na produção orgânica uma saída para a agricultura camponesa diante do modelo do agronegócio. (Foto: Divulgação)

Os assentados vêm na produção orgânica uma saída para a agricultura camponesa diante o modelo do agronegócio, que tem comprometido a vida de diversas espécies e o meio ambiente como um todo na região. Para viabilizar esse modelo saudável de agricultura, eles recebem assistência técnica da Cooperativa de Trabalho em Serviços Técnicos (Coptec) e buscam se fortalecer no trabalho coletivo, por meio da inserção de mais agricultores na associação. “Ela é aberta, quem quiser se juntar a nós na produção limpa de alimentos será muito bem-vindo”, acrescenta Amaral.

Benefícios da melancia orgânica

Além de propiciar renda aos agricultores nesta época do ano, a melancia orgânica é uma ótima opção para quem deseja colocar na mesa uma alimentação mais saudável. Segundo a nutricionista Cristina Araújo, a fruta é rica em vitaminas A, C e B6, conhecidas por fortalecerem o sistema imunológico, é fonte de fibras, potássio e magnésio e uma ótima aliada para a hidratação do corpo humano.

“92% da melancia é composta de água, então, consumi-la é garantia de hidratação. Ela tem a cada 100 gramas somente 30 calorias. O ideal é aproveitar a safra e consumi-la muito no verão”, complementa Cristina.

A nutricionista partilha ainda uma receita fácil e rápida de preparar: “É só bater duas fatias de melancia com água a gosto no liquidificador. Não precisa adoçar porque a fruta já contém frutose, que é o seu açúcar natural”, orienta. Quem quiser aproveitar 100% do alimento, Cristina explica que com a casca pode ser feito doce e com a parte branca um saboroso refogado com carne.

MPA promove terceira edição da Festa da Semente Crioula

A festa será realizada na sede da Cooperbio, durante todo o dia 29 de janeiro, na Linha Tesoura, Seberi.

A festa será realizada na sede da Cooperbio, durante todo o dia 29 de janeiro, na Linha Tesoura, Seberi.

O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) promove dia 29 de janeiro, na sede da Cooperbio, na Linha Tesoura, Seberi, a terceira edição da Festa da Semente Crioula. Cooperativa camponesa formada por famílias da base do MPA, a Cooperbio promove essa festa para celebrar a relação com a terra e o respeito ao ciclo natural da vida, representado na seleção e partilha de sementes.

Além do tradicional cardápio camponês, incluindo muitos pratos a base de milho crioulo e grande variedade de saladas orgânicas, estão previstas inúmeras atrações festivas, culturais e simbólicas como: troca de sementes crioulas, rodas de prosa e debates, apresentações musicais, feira de produtos agroecológicos e artesanatos. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone (55) 999634234 ou pelo email cooperbio.alimergia@gmail.com.

Cooperativa do MST se torna mantenedora de 7 variedades de sementes agroecológicas

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. (Foto: Divulgação)

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. (Foto: Divulgação)

Por Catiana de Medeiros

A Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida (Conaterra), responsável pela marca Bionatur, aprovou na última semana junto ao Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura (Mapa) a condição de mantenedora de sete variedades de hortaliças: repolho louco de verão, couve manteiga da geórgia, BRS tortéi, rúcula cultivada, moranga de mesa, abobrinha de tronco redonda e abobrinha de tronco caserta.

A partir de 2018, por meio desta conquista, a cooperativa estará apta a produzir de acordo com a legislação vigente as próprias sementes de estas setes cultivares, que, posteriormente darão origem aos campos de produção de sementes comerciais da Bionatur.

De acordo com a agrônoma Patrícia Martins, além de romper com a dependência da aquisição das sementes junto a outras empresas mantenedoras, a Bionatur espera a partir de agora completar o ciclo de produção das sementes em sistemas de produção orgânicos e agroecológicos, visando atender as expectativas dos agricultores que produzem para a cooperativa e a demanda dos consumidores de sementes livres de venenos.

“Trata-se de um importante passo para alcançar a autonomia na produção de sementes de geração superiores, considerando o prazo estabelecido pelo Ministério da Agricultura, que se encerra a partir da safra 2018/2019, para utilização de sementes de categoria S2”, complementa Patrícia.

Segundo o coordenador da Conaterra, Alcemar Adílio, há pelo menos dois anos se buscava através de pesquisas e experimentos a condição de mantenedora, conquista que, para ele, é fundamental por se tratar de sementes que geram alimentos saudáveis e estão no cardápio da maioria das famílias brasileiras.

“Esse novo passo garante, junto a outros fatores, nossa permanência na produção de sementes, o que vai minimizar a dependência de terceiros. Enquanto Bionatur nosso intuito é, até o final deste ano, registrar pelo menos cinco outras variedades”, explica Adílio.

Rede Bionatur também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. (Foto: Divulgação)

Rede Bionatur também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. (Foto: Divulgação)

Bionatur

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. A sua produção, feita por mais de 200 famílias, é enviada para todos os estados do Brasil e à Venezuela. Ela também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores.

Com sede em Candiota, na região da Campanha gaúcha, a cooperativa tem a meta de passar a produção de 4 para 8 toneladas de hortaliças na próxima safra de verão. Para forrageiras, e estimativa é aumentar das atuais 40 toneladas para 70.