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“Há um estrago colossal na Universidade e em todo o Estado brasileiro”

Paulo Mors: “Nunca se estragou tanto em tão pouco tempo. Na educação, o grande objetivo é a privatização”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O corte de recursos do Ministério da Educação para o sistema público de ensino superior está afetando duramente o dia-a-dia das universidades, paralisando pesquisas e colocando em ameaça a sobrevivência dos institutos federais. O reitor da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rui Oppermann, vem afirmando nas últimas semanas que, diante dos contigenciamentos orçamentários e dos cortes, a instituição terá sérias dificuldades para pagar os terceirizados a partir de setembro. Em outras instituições, a situação é mais dramática, como é o caso da Universidade Estadual do Rio Janeiro (UERJ) que recebeu apenas 65% do orçamento previsto para 2016 e está com os salários dos servidores atrasados há quatro meses.

“O estrago é colossal”, resume Paulo Machado Mors, presidente do Sindicato Intermunicipal dos Professores de Instituições Federais de Ensino Superior do Rio Grande do Sul (ADUFRGS-Sindical), ao falar sobre a realidade vivida pelas universidades públicas e institutos federais. Em entrevista ao Sul21, o professor do Instituto de Física da UFRGS assinala que essa situação faz parte de uma ofensiva mais ampla contra o Estado brasileiro. “No caso da educação, eu acredito que o grande objetivo é a privatização. Nunca antes na história deste país se estragou tanto em tão pouco tempo, afirma Mors, alertando que o risco maior hoje recai sobre os institutos federais, que estão com a sua sobrevivência ameaçada.

Paulo Mors analisa ainda os desafios do movimento docente de construir uma ampla unidade capaz de barrar essas políticas a aponta qual deve ser uma das prioridades nos próximos meses: lutar pela retirada da Emenda Constitucional 95 que determinou o congelamento de investimentos em educação, saúde e infraestrutura nos próximos 20 anos. “Assim como se colocou na Constituição, pode se retirar. Não é fácil, sabemos. Como é que nós vamos conseguir retirá-la? Tem que haver uma união nacional para dar um basta a esta situação. Não é uma tarefa fácil, pois exige construir uma unidade entre grupos heterogêneos”, diz o professor”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Guia Alimentar e novos paradigmas de comer e educar são temas de seminário e ciclo de cinema

Segunda edição do Guia foi lançada em 2014 pelo Ministério da Saúde, mas não teve grande divulgação nos meios de comunicação.

No dia 5 de novembro de 2014, o Ministério da Saúde lançou o novo Guia Alimentar para a População Brasileira, uma publicação destinada a promover a saúde e a boa alimentação, combatendo a desnutrição e prevenindo enfermidades em ascensão como a obesidade, o diabetes e outras doenças crônicas, como AVC, infarto e câncer. A nova edição do Guia recomenda cuidados e caminhos para se alcançar uma alimentação saudável, saborosa e equilibrada. Ao invés de trabalhar com grupos alimentares e porções recomendadas, o guia indica que a alimentação tenha como base alimentos frescos (frutas, carnes e legumes) e minimamente processados (como arroz, feijão e frutas secas), além de evitar os ultraprocessados (como macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote, biscoitos recheadas e referigerantes).

As grandes indústrias transnacionais do setor da alimentação não gostaram muito da publicação, pois ela bate de frente com alguns de seus principais produtos. O Guia Alimentar tampouco teve divulgação por parte dos grandes meios de comunicação que tem, entre seus anunciantes, essas grandes empresas. Como resultado, pouca gente conhece esse trabalho, mesmo dentro dos cursos de Nutrição e Medicina. Quem quiser saber um pouco mais sobre essa publicação e seus objetivos tem uma dupla oportunidade esta semana, em Porto Alegre.

Ciclo de cinema ocorrerá na Sala Redenção, da UFRGS.

Na quarta-feira (21), inicia na Sala Redenção, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o ciclo de cine-debates “Você tem fome de quê?”, que homenageia os 10 anos do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana de São Paulo. Pioneiro na discussão do tema da publicidade dirigida à criança, o projeto completou 10 anos de lutas em 2016 e originou um livro, Criança e Consumo, 10 anos de transformação, que será lançado no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, no dia 24 de junho, em ocasião do VI Seminário Universidade e Escolas. (Confira aqui a programação completa do ciclo)

O ciclo inicia com o documentário Criança, a alma do Negócio, de 2008, dirigido por Estela Renner, primeiro projeto audiovisual sobre o tema criança, consumo e publicidade no Brasil. O filme aborda os vários aspectos do consumismo na infância: erotização precoce, adultização, violência, stress familiar, obesidade infantil, diminuição das brincadeiras, consumo precoce de álcool e tabaco. O documentário Muito Além do Peso, do final de 2012, também tem direção assinada por Estela Renner. Ele apresenta vários relatos sobre os impactos da publicidade em crianças com vários graus de obesidade. Ambos os filmes contam com debate após as sessões com especialistas em saúde e direito da criança.

O terceiro filme, Apart Horta, de 2015, com direção de Cecília Engels, já participou de vários festivais e mostras de cinema nacionais e internacionais. O filme fala de alimentação saudável e propõe uma solução inesperada. Para o debate do filme, contaremos com a presença de sua diretora, Cecília Engels, nas sessões dos dias 22 e 23.

Seminário ocorrerá dia 24 de junho, no Salão de Atos da UFRGS.

No sábado (24), ocorre, das 9h às 17h30min, no Salão de Atos da UFRGS, a sexta edição do seminário Universidade e Escolas, que terá como tema “O Guia Alimentar e os novos paradigmas de comer e educar” A programação do evento inicia com o lançamento da “Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável”, e inclui palestras sobre educação nutricional. (Confira aqui a programação completa)

A educação nutricional será abordada nas palestras da professora Tânia Ramos Fortuna, da Faculdade de Educação da UFRGS, do nutricionista Rafael Rioja Arantes, do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional da UnB, e da cineasta Cecília Engels, diretora de “Apart Horta”, filme que trata do cultivo urbano de alimentos e de transformação social pela alimentação saudável. Destaque, também, para a homenagem ao Instituto Alana, cujo programa “Criança e Consumo” completa dez anos de defesa implacável dos direitos infantis, incluindo a luta contra a publicidade abusiva dirigida às crianças. Uma retrospectiva das suas conquistas é apresentada no livro “Criança e Consumo – 10 Anos de Transformação”, que será apresentado no evento.

As inscrições para o seminário são gratuitas, e podem ser realizadas pela internet até o dia 22/06, neste link. Quem não se inscrever antecipadamente poderá efetivar inscrição presencial, no dia do evento, das 8h às 9h. A coordenação do Núcleo e do Seminário é de Noêmia Perli Goldraich, da Faculdade de Medicina da UFRGS.

Dilma: “O presente nós perdemos. Não podemos perder o futuro”

Dilma Rousseff proferiu a aula inaugural do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), no Salão de Atos da UFRGS. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A crise política brasileira vem sendo marcada por vários paradoxos e contrastes. Um dos mais marcantes é o fato de que, enquanto Michel Temer evita as ruas e as aparições públicas por causa dos protestos que enfrenta, Dilma Rousseff, eleita em 2014 com mais de 54 milhões de votos e afastada da presidência por um processo de impeachment comandado pelo hoje preso Eduardo Cunha (PMDB-RJ), segue reunindo multidões por onde passa. Cerca de 48 horas depois de participar de um ato, junto com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que reuniu mais de 12 mil pessoas em Rio Grande, Dilma Rousseff proferiu a aula pública do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para um público de mais de mil alunos e professores que lotaram por completo o salão de atos da UFRGS.

Dando continuidade à jornada de debates de que vem participando no Brasil e no Exterior, Dilma falou sobre o golpe que sofreu, sobre o presente e, principalmente, sobre o futuro. “O presente nós perdemos. Não podemos perder o futuro”, resumiu ao final de sua fala, apontando aquele que entende ser o principal desafio do presente: “Temos hoje uma tarefa central que é ampliar os espaços democráticos do país. Precisamos debater com a sociedade, falando a verdade. Na ditadura, a gente tem que lutar para mentir e isso não é fácil. Na democracia, é preciso falar a verdade e nós precisamos falar a verdade sobre o golpe, seus agentes e suas reais intenções”.

Dilma Rousseff foi recepcionada pela diretora do IFCH, Claudia Wassermann, pela vice-diretora, Maria Izabel Noll, e pelo ex-reitor da UFRGS e ex-professor de Dilma, Helgio Trindade. Claudia Wassermann lembrou o compromisso do Instituto e da Universidade com a defesa da democracia e do espaço crítico e apresentou a presidenta eleita como um exemplo de caráter e de luta. “Estamos recebendo aqui a última presidenta eleita pelo voto popular. A UFRGS não poderia se eximir de recebê-la neste salão de atos”, disse Helgio Trindade. Recebida aos gritos de “Dilma guerreira, mulher brasileira”, a convidada especial proferiu a aula inaugural do IFCH que teve como tema “Os desafios da democracia no Brasil”.

A palestrante não dourou a pílula. “O leão não é manso” foi a última frase da aula inaugural. No percurso de sua fala, Dilma Rousseff tratou de conectar as reais motivações do golpe parlamentar que sofreu, os seus protagonistas, sua agenda política e os desafios que a situação presente coloca para o futuro imediato. Como vem fazendo em suas intervenções públicas, ela enfatizou o caráter estratégico da defesa da democracia e o preço que estamos pagando hoje por escolhas feitas no período da redemocratização:

“Sempre que tivemos mais democracia nós ganhamos. Quando não temos democracia, nós perdemos. Por isso, precisamos ampliar os espaços de participação. Na passagem da ditadura para a democracia, nós tivemos uma transição por cima, que não julgou os torturadores e ocasionou graves danos com repercussões no presente. Quando o deputado Bolsonaro votou a favor do meu impeachment, ele votou também a favor da tortura e do torturador que me aterrorizou. Em um pais democrático, isso não aconteceria. Nós precisamos de um acordo por baixo no Brasil e só tem um jeito disso acontecer: eleições diretas para presidente da República”, defendeu.

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Dilma advertiu para os riscos que a democracia brasileira corre no presente. “As pessoas perderam o seu voto e agora começaram a perder seus direitos. Com isso, o governo e a política começam a se tornar irrelevantes, abrindo caminhos para aventureiros, o preconceito e a intolerância. O aumento do nível de desigualdade torna a população mais refratária à democracia. Isso está acontecendo no mundo inteiro. O que está em crise é o sistema político que sustenta essa desigualdade. Com o atual sistema político, o Brasil é ingovernável. Esse sistema é marcado por uma fragmentação partidária. Nós não temos 25 programas distintos para o Brasil, mas temos 25 partidos representados no Congresso. Com exceção de alguns poucos que tem um programa, o restante vive para negociar cargos, emendas e benesses”, resumiu.

A presidenta eleita também defendeu o direito de Lula se candidatar em 2018 e alertou para as tentativas de evitar que isso ocorra. “Lula vem sofrendo uma sistemática tentativa de destruição que tem resultado no seu crescimento nas pesquisas. Eles ainda não têm candidato. Se não encontrarem um, tentarão evitar a realização de eleições em 2018 ou inviabilizar a candidatura Lula. Se a candidatura de Lula for inviabilizada porque ele pode ganhar a eleição, teremos algo que é antípoda da democracia˜. Ela também criticou o papel que a mídia vem desempenhando neste processo, em especial a Rede Globo de Televisão que apontou como “um dos grandes lideres do processo do golpe”.

“A mídia é um setor como qualquer outro que também é afetado pela oligopolização. Para barrar isso, precisamos de uma democratização econômica da comunicação ou, para usar uma expressão do mercado, promover a livre concorrência neste setor. Mas as empresas de mídia não gostam da livre concorrência. Também não podemos aceitar que a mídia vire tribunal, fazendo condenações sem respeitar o direito de defesa e o devido processo legal”.

Dilma Rousseff chamou a atenção também para os riscos que o Brasil corre com o desmonte da rede proteção social e com as propostas de Reforma da Previdência e Trabalhista. “Com o desmonte da rede de proteção social, o Brasil cairá na maior miséria. A proposta de Reforma Trabalhista, com uma profunda desregulamentação do mercado de trabalho e o fim da CLT representa um retrocesso inominável. É algo amoral”. Ela também criticou a medida que congela os investimentos em saúde e educação por vinte anos, definindo-a como um “crime contra o futuro do país”, e defendeu que a principal reforma que o Brasil precisa não é a da Previdência, mas sim a Tributária:

“O Brasil paga muito imposto sim, mas quem paga é a classe média e os trabalhadores. Ganhos de capital não pagam imposto no país. O Brasil, junto com a Estônia, é o único país que não tributa dividendos, porque isso, supostamente, afastaria investidores. De onde podemos concluir que o Brasil e a Estônia são os únicos países que não afastam os investidores”, ironizou. Para Dilma, o pato amarelo da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) é um símbolo dessa recusa dos mais ricos em pagar impostos. “Toda crise implica um conflito distributivo. Nós propusemos a retomada da CPMF com um índice de 0,38% sobre as transações financeiras. Eles não quiseram porque a CPMF permite indicar onde está a fraude fiscal. Por isso eles demonizaram a CPMF e a mídia conseguiu fazer com que as pessoas fossem contra os seus próprios interesses”.

Dilma falou ainda sobre a gramática misógina do golpe, que foi marcada por uma série de agressões dirigidas diretamente contra ela. Essa gramática, assinalou, opera com certas dualidades entre homens e mulheres. “A mulher é dura, enquanto o homem é forte. A mulher é instável emocionalmente, enquanto o homem é sensível. A mulher é obsessiva e compulsiva com o trabalho, enquanto o homem é um empreendedor, e assim por diante. Essa gramática esteve presente em todo o discurso golpista”.

Mas a razão profunda do impeachment e do golpe, destacou, é a tentativa de enquadrar o Brasil no neoliberalismo, retomar e aprofundar o processo que foi interrompido com a primeira eleição de Lula. Essa tentativa de enquadramento, acrescentou, enfrenta hoje alguns dilemas e contradições. “Se o governo ilegítimo entregar o pacote das reformas para a mídia e o mercado, ele deixa de ter serventia. Se não entregar, ele perderá sua legitimidade diante desses setores”. Uma das expressões das contradições que atravessam o campo do golpismo, observou, é o crescimento da candidatura de Bolsonaro. “Acho que vamos ter um conflito entre a extrema-direita e a direita”, assinalou, lembrando os resultados da última pesquisa de intenção de voto.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

UFRGS define calendário para concluir 2016. Ocupa IFCH quer manter debate sobre o golpe

Ocupações terminaram em dezembro. Com retomada das aulas, estudantes falam em manter o debate sobre o golpe e sua agenda contra a educação pública. (Foto: Maia Rubim/Sul2

Ocupações terminaram em dezembro. Com retomada das aulas, estudantes falam em manter o debate sobre o golpe e sua agenda contra a educação pública. (Foto: Maia Rubim/Sul2

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) retomou suas atividades no dia 2 de janeiro após a interrupção provocada pelo movimento das ocupações estudantis. O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) aprovou na última quarta-feira (4) o novo calendário acadêmico para a conclusão do segundo semestre de 2016 e para o ano de 2017. As atividades referentes ao segundo semestre de 2016 serão finalizadas no dia 3 de março. O período entre os dias 7 e 11 de janeiro será considerado não-letivo, em função da realização do Concurso Vestibular 2017.

O primeiro semestre de 2017 iniciará em 27 de março e terminará em 5 de agosto. Já o segundo semestre começará em 28 de agosto e terminará no dia 27 de janeiro de 2018. Segundo nota divulgada pela reitoria da UFRGS, até a próxima segunda-feira (9) será divulgado o calendário para as matrículas de 2017/1 no site da Pró-Reitoria de Graduação. O período previsto para matrícula dos calouros classificados no Concurso Vestibular 2017 e no Sistema de Seleção Unificada (SiSU) 2017/1 não sofreu alterações. Os calendários completos devem estar disponíveis no site da UFRGS a partir desta quinta-feira (5).

Os restaurantes universitários da UFRGS só devem voltar a funcionar a partir do dia 20 de janeiro. Os contratos da universidade com as empresas fornecedoras dos restaurantes encerraram em dezembro e estão sendo refeitos. Somente o RU do Campus Litoral Norte já está funcionando. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) liberou mais uma recarga do TRI para os estudantes que da UFRGS que retornaram às aulas em janeiro. Uma próxima recarga poderá ser feita mediante a apresentação do comprovante de matrícula 2016/2.

As ocupações estudantis terminaram em dezembro e não há nenhuma indicação de que elas sejam retomadas no início do ano. Os estudantes que ocuparam o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) divulgaram, dia 1° de janeiro, uma carta aberta à comunidade acadêmica para “refrescar a memória de todos” sobre a conjuntura atual do país e sobre o movimento político que ocorreu na universidade nos últimos meses. A carta lembra que o país viveu um golpe de Estado de 2016 e que o governo golpista vem promovendo uma série de medidas com o objetivo de sucatear a educação e demais instituições públicas para abrir espaço para o setor privado. Além disso, defende que, nas aulas que se seguirão em janeiro e fevereiro, esses temas sigam sendo objeto de debate. “Que não deixemos que a estrutura acadêmica nos encarcere e nos isole da realidade que nos rodeia”, afirma ainda o texto. Segue abaixo a íntegra da carta da Ocupa IFCH:

Carta aberta à comunidade acadêmica

“Nós, da Ocupa IFCH, viemos por meio deste, refrescar a memória de todos sobre a conjuntura atual de nosso país e sobre o movimento político que ocorreu nesta Universidade nos últimos meses.

Em 2016 sofremos um golpe de Estado. O governo golpista tem tomado uma série de medidas que, em seu conjunto, tem um objetivo claro: sucatear a educação e demais instituições públicas para abrir espaço para o setor privado, gerando mão de obra barata e sem ferramentas intelectuais para criticar esse sistema.

Vimos a aprovação de uma PEC que prevê ser mais importante destinar verba pública a banqueiros bilionários do que a setores primários, como saúde e educação. Vimos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, tão esmeradamente construída desde a Constituição Cidadã de 1988 ser retalhada a ponto de ficar irreconhecível. Muitos de nós cursam licenciaturas que já não são mais obrigatórias nos currículos escolares. Nossa geração será a que ingressará no mercado de trabalho sem o mínimo de direitos que a CLT garantia e sem perspectivas de aposentadoria. Percebemos que, se arranjarmos emprego, trabalharemos 12 horas por dia até morrer.

Frente a isso, alunas e alunos desta Universidade sentiram que não era mais possível seguir com a rotina acadêmica normal. Fez-se necessário parar para pensar sobre estes ataques aos nossos direitos básicos, aos princípios de igualdade social, de acesso universal à educação que norteiam a maioria daqueles que frequentam esta instituição pública de ensino e tem por objetivo a construção do conhecimento de forma democrática e acessível. Nos 50 dias que passamos ocupados, organizamos e participamos de atividades com o objetivo de discutir toda essa conjuntura e pensar formas de ação possível para seguir na luta contra estes retrocessos.

Gostaríamos, portanto, de lembrar nesta volta às atividades normais, que a Universidade não esteve parada nestes últimos meses. Ela foi palco de intensas atividades em que, de forma inédita, as próprias alunas e alunos se apropriaram de seu espaço físico e simbólico, construindo atividades que faziam mais sentido, para nós, no momento. Exercemos aquilo que a Universidade deveria nos capacitar a fazer: construir o conhecimento de forma coletiva e conjuntural, preocupando-se com a realidade social em que vivemos.

Acreditamos que, ao retomar as aulas corriqueiras, isso deveria ser levado em conta, sobretudo, por professoras e professores que pregam esta forma de construção de conhecimento em sala de aula. Muito ouvimos falar em inter e transdisciplinaridade, em quebra das hierarquias entre professor e aluno, no respeito às diversas formas de elaboração de saberes, porém, pouco vemos tudo isso na prática.

Sugerimos assim que, nas aulas que se seguirão em janeiro e fevereiro, não se deixe de abrir espaços de discussão sobre essas situações todas. Que se debatam os erros e acertos deste movimento político e novas formas de ação daqui em diante. Que não deixemos que a estrutura acadêmica nos encarcere e nos isole da realidade que nos rodeia. Que não se ignore toda uma conjuntura por uma ilusão de excelência acadêmica que, possivelmente e em breve, não significará mais nada”.

(*) Publicado originalmente no Sul21

‘Velório da Educação’ alerta para desmonte da educação pública no país

Velório da Educação ocorreu no cruzamento da Paulo Gama com Oswaldo Aranha, ao lado do Campus Central da UFRGS. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Velório da Educação ocorreu no cruzamento da Paulo Gama com Oswaldo Aranha, ao lado do Campus Central da UFRGS. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Um grupo de professores, estudantes, técnicos e trabalhadores terceirizados do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou na tarde desta sexta-feira (9) o “Velório da Educação” para alertar a sociedade sobre os impactos negativos que a PEC 55, a MP 746 (Reforma do Ensino Médio) e o projeto Escola Sem Partido trarão para a educação pública e para a qualidade da educação em geral no Brasil. O ato, realizado ao ato do Campus Central da UFRGS, também protestou contra as propostas de extinção de fundações responsáveis pelo desenvolvimento da pesquisa e da cultura no Estado encaminhadas pelo governador José Ivo Sartori (PMDB) à Assembleia Legislativa.

A concentração para a encenação do “Velório da Educação” ocorreu em frente ao prédio da Faculdade de Educação da UFRGS, onde os manifestantes, vestidos de preto, prepararam o cortejo fúnebre da Educação, com faixas, dois caixões, flores brancas, tambores e material para ser distribuído à população. Por volta das 13h30min, iniciou a performance no cruzamento da avenida Paulo Gama com a Osvaldo Aranha onde ocorreu o “velório”. Assim que o sinal ficava vermelho, o cortejo ia para o meio da rua com os caixões, flores e faixas. Ao abrir o sinal, o cortejo liberava a rua. O velório se estendeu até às 15 horas.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

“Não há espaço para intolerância e cultura do ódio dentro da UFRGS”, diz reitor

Rui Oppermann: “É inadmissível que, na universidade, se reproduzam esses padrões de intolerância que, infelizmente, estão ocorrendo na sociedade”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Rui Oppermann: “É inadmissível que, na universidade, se reproduzam esses padrões de intolerância que, infelizmente, estão ocorrendo na sociedade”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O professor Rui Vicente Oppermann assumiu, no final de setembro, a reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em meio a um ambiente de instabilidade política, social e econômica, em nível nacional, que se manifesta também no âmbito da vida acadêmica. As ameaças ao financiamento da universidade, por projetos como a PEC 55, e à autonomia universitária, por propostas como a da Escola sem Partido, geraram uma forte reação entre os estudantes que iniciaram um movimento de ocupações na UFRGS e em universidades de todo o país. Em entrevista ao Sul21, Rui Oppermann fala sobre esse movimento, relata as pressões que está sofrendo para tomar medidas contra as ocupações e critica a ação de grupos que promovem ações de intolerância racial e de gênero e práticas de assedio sexual dentro da universidade.

“É inadmissível que, na universidade, se reproduzam esses padrões de intolerância que, infelizmente, estão ocorrendo na sociedade”, diz Oppermann, citando o que ocorreu este ano no Campus do Vale, onde um grupo de estudantes encheu alguns banheiros com adesivos ofensivos a mulheres e gays. O reitor também fala sobre o caso do estudante indígena agredido em frente à Casa de Estudante e garante que o processo está andando e não será afogado pela burocracia. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Estudantes da UFRGS divulgam nota repudiando proposta de extinção da FEE

Nota adverte que a extinção da FEE causará graves prejuízos à comunidade acadêmica do Rio Grande do Sul. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Nota adverte que a extinção da FEE causará graves prejuízos à comunidade acadêmica do Rio Grande do Sul. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

O Centro Estudantil de Relações Internacionais (CERI) e o Diretório Acadêmico de Economia, Contábeis e Atuariais (DAECA), da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), divulgaram nota repudiando a proposta de extinção de nove fundações do Estado, incluindo a Fundação de Economia e Estatística (FEE), apresentada pelo governador José Ivo Sartori na última segunda-feira (21).

A nota assinala que, ao longo de seus 43 anos de história, a FEE ofereceu à população importantes informações estatísticas da área econômica dos municípios gaúchos e do Estado do Rio Grande do Sul, através do trabalho dedicado de profissionais qualificados e comprometidos com uma melhor compreensão da economia e da sociedade gaúcha. “Séries históricas e dados conjunturais, demográficos e econômicos, tão necessários para pensarmos o nosso Estado, sempre estiveram à nossa disposição graças ao imprescindível trabalho dos funcionários da FEE”, destacam os estudantes.

“Como estudantes de cursos onde a análise e interpretação de dados estatísticos são dimensões centrais, entendemos que a extinção da FEE causará graves prejuízos à comunidade acadêmica do nosso Estado”, acrescentam as entidades que advertem que o prejuízo de se tomar decisões de políticas públicas sem dados confiáveis afetará a todos. Os estudantes assinalam ainda que a produção da FEE “têm papel relevante nos trabalhos acadêmicos que se propõem a analisar a realidade socioeconômica da nossa região, influenciando as decisões das autoridades, tendo sempre em vista a melhoria das condições de vida da população gaúcha”.

Estudantes de RI liberam acesso ao prédio da Economia, mas mantém estado de ocupação

Estudantes decidiram liberar acesso ao prédio para retomada das aulas, mas mantém agenda de mobilização e debates dentro das dependências da faculdade. (Foto: Divulgação)

Estudantes decidiram liberar acesso ao prédio para retomada das aulas, mas mantém agenda de mobilização e debates dentro das dependências da faculdade. (Foto: Divulgação)

Alunos e alunas do curso de Relações Internacionais da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) decidiram suspender a ocupação da unidade, iniciada no dia 7 de novembro, mantendo uma agenda de atividades, debates e mobilização dentro do prédio contra a PEC 241-55 que congela investimentos em áreas essenciais como saúde e educação por um período de até 20 anos.

A assembleia do dia 7 reuniu os dois diretórios estudantis da FEC: DAECA (Diretório Acadêmico de Economia, Contábeis e Atuariais) e CERI (Centro Estudantil de Relações Internacionais) para definir uma posição frente a PEC e estratégias de mobilização. As duas entidades aprovaram posição contrária a PEC, mas só o CERI aprovou, por ampla maioria, a ocupação da faculdade. Após uma primeira votação tumultuada, o DAECA resolveu fazer uma consulta pública fora da assembleia, que acabou decidindo contra a ocupação do prédio.

Para não ficar ocupando o prédio sem a participação dos outros cursos que compõem a FCE, os alunos e alunas de Relações Internacionais decidiram interromper a ocupação, liberando o acesso ao prédio e retomando as aulas nesta segunda-feira (21). A mobilização contra a PEC, porém, continua com uma série de atividades, reuniões e aulas públicas nos próximos dias. “Decidimos conceder acesso ao prédio, mas mantendo o estado de reivindicação de um espaço que é nosso por direito para retomar o objetivo da ocupação e inseri-la na agenda de lutas contra a PEC e todos os retrocessos que estão por vir. Escolhemos dar início a uma nova tática de luta, que só se mostrou possível pela mobilização resultante da etapa de ocupação”, afirma nota publicada na página da ocupação no Facebook.

Essa nova etapa buscará envolver professores, estudantes e servidores em um diálogo sobre as consequências da PEC para o país. No domingo, um grupo de professores foi até a ocupação para ajudar os estudantes a limpar os espaços utilizados na mobilização. Na manhã desta segunda-feira, estudantes que participaram da ocupação passaram em salas de aula para conversar com seus colegas e com os professores que estão sendo convidados a tratar desse tema em suas aulas. Na terça à tarde, às 17h30min, será realizado um debate com o professor Pedro Fonseca, no auditório da FCE, sobre o atual momento político e econômico do país. Na quarta, às 17h, ocorrerá um debate, no pátio de estacionamento da unidade, com três professores que têm posições distintas sobre a PEC 241/55. Na sexta, haverá uma roda de conversa sobre o movimento estudantil no século XXI, que reunirá diferentes gerações de militantes.

A suspensão da ocupação, segundo integrantes do CERI, não significa uma interrupção da luta contra a PEC. “Ocupar é um dos métodos legítimos de luta e articulação. A ocupação simbolizou o momento de exceção que vivemos no país – paramos a Faculdade de Ciências Econômicas para mobilizar o debate sobre a PEC 241-55 e para tomar alguma atitude vide os retrocessos postos no horizonte. A UFRGS não é uma mera prestadora de serviços de ensino, pesquisa e extensão. Enquanto capital social, ela é patrimônio de todos os brasileiros e brasileiras, uma vez que é (ou deveria ser) um espaço de transformação da realidade social”, diz ainda a nota publicada pelo movimento.

A ocupação da FCE, acrescenta, foi uma atitude em defesa da universidade pública e de uma educação emancipadora. E conclui: “Ressaltando a manutenção do estado de exceção em que nos encontramos, passaremos em sala de aula para esclarecer aos alunos e alunas os motivos da ocupação. Convidamos a comunidade a se somar à agenda de atividades que será parte da rotina da FCE e reforçamos que é dever de cada uma e cada um que afirma ser contra a PEC tomar partido nas formas de mobilização. As instituições não são neutras: a FCE segue em luta!”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Estudantes denunciam ao MP Federal ações de integrantes do MBL contra ocupações

Debate “Direito e Ocupações Estudantis” foi promovido pelo Núcleo de Apoio Operacional à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão na 4ª Região. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Debate “Direito e Ocupações Estudantis” foi promovido pelo Núcleo de Apoio Operacional à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão na 4ª Região. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Estudantes que estão participando de ocupações na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) denunciaram nesta sexta-feira (18), em um encontro realizado na Procuradoria Regional da República da 4ª Região, em Porto Alegre, que um grupo de pessoas ligadas ao Movimento Brasil Livre (MBL) está promovendo ações de intimidação e provocação nas proximidades das ocupações. Estudantes, servidores da UFRGS e representantes de entidades de defesa dos direitos humanos também denunciaram a ação repressiva da Brigada Militar nas manifestações do último dia 11 de novembro, que envolveu o uso de bombas de gás e balas de borracha, que feriram pessoas inclusive dentro da área do Campus Central da universidade. As ocupações estudantis são contrárias à Medida Provisória 746, que estabelece mudanças no ensino médio, e à Proposta de Emenda à Constituição 241/55, do governo federal, que congela por até 20 anos os gastos públicos, inclusive na área da Educação.

O debate público sobre Direito e Ocupações Estudantis reuniu os procuradores Domingos Sávio Dresch da Silveira e Paulo Leivas, do Núcleo de Apoio Operacional à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão na 4ª Região, a juíza federal Ana Inés Latorre e Ana Luiza Zago de Moraes, da Defensoria Pública da União (DPU), que ouviram vários relatos sobre ameaças e violações de direitos. A juíza Ana Latorre, que integra a Associação Juízes para a Democracia, leu uma carta que a entidade divulgou dia 31 de outubro em defesa das ocupações estudantis. A magistrada também manifestou preocupação com a crescente criminalização e repressão contra os movimentos sociais por parte do Estado.

Ana Luiza Zago de Moraes informou que a Defensoria Pública da União vem procurando fornecer orientações jurídicas para estudantes que procuram a instituição. “Reconhecemos a autonomia desse movimento e a nossa atribuição de defendê-lo, inclusive enquanto minoria que tem direito à livre manifestação”, assinalou. Ana Luiza Zago relatou que a DPU expediu uma série de recomendações ao Ministério de Educação, defendendo a necessidade de diálogo com os estudantes, a recusa da prática de identificação dos envolvidos nas ocupações para a adoção de sanções, e de práticas como a privação de água, energia e alimentos para os estudantes, como chegou a ser proposto pelo juiz Alex Costa de Oliveira, da Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal.

Domingos Dresch da Silveira afirmou que estamos vivendo um tempo de desconstrução de direitos fundamentais no país. “O que estamos vendo, a cada dia, é um direito a menos. O ato de resistir, de defender a Constituição, virou um ato quase subversivo”. O procurador lembrou que o Supremo Tribunal Federal já estabeleceu que os direitos sociais compõem um núcleo imodificável da Constituição, representando cláusulas pétreas que não podem ser objeto de emenda constitucional. Para ele, a aplicação do que está previsto na PEC 55 implica um retrocesso nestes direitos fundamentais, permitindo que o orçamento de serviços essenciais possa ser reduzido à metade do que representa hoje. “A única coisa que não será contingenciada é o pagamento do serviço da dívida pública que representa cerca de 45% do orçamento. Isso é uma imoralidade administrativa. As ocupações são uma forma legítima de resistência, uma forma de desobediência civil que luta contra um projeto altamente violador de direitos fundamentais”, defendeu.

Tainá Cavalheiro, do Comitê de Apoio às Ocupações, manifestou preocupação com o crescimento do discurso de ódio e violência e cobrou das instituições medidas mais concretas de apoio. “Há instrumentos legais para isso. A UFRGS tem um comitê contra a intolerância e discriminação que está sendo esvaziado. O Ministério Público poderia provocar esse comitê a ser mais ativo”, defendeu. Estudantes que participam da Ocupação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) fizeram um relato de um incidente ocorrido no último dia 3 de novembro, quando integrantes do MBL e do grupo Desocupa UFRGS realizaram uma ação de provocação, gravando vídeos de estudantes da ocupação sem a autorização dos mesmos. Eles exibiram um vídeo e fotos do episódio que mostram um integrante do MBL que coloca a mão na cintura como se estivesse armado. Segundo os integrantes da Ocupa IFCH, há vários procedimentos disciplinares contra esse estudante abertos na UFRGS.

Érica dos Santos, servidora da UFRGS, denunciou a ação da Brigada Militar nas imediações do Campus Central da universidade, nas manifestações do dia 11 de novembro. Segundo o relato da servidora, os manifestantes tinham decidido fazer uma manifestação na sinaleira, ao lado da Faculdade de Arquitetura, sem fechar a rua. “O major que estava chefiando o choque da Brigada não quis conversar nem negociar e a polícia veio para cima de nós com bombas de gás e bala de borracha. Eu fui atingida por uma bala de borracha na perna e também por estilhaços de uma bomba que estourou do meu lado, quando eu já estava dentro da área do Campus”.

Coordenadora do Comitê Estadual Contra a Tortura/RS, Júlia Schirmer alertou para o que definiu como estratégia fascista que procura, por meio de ações provocadoras, desorganizar e desestabilizar as ocupações e suas atividades. Comentando o vídeo exibido pelos alunos do IFCH, Júlia Schirmer destacou que essas ações de provocação representam atos de violência que pretendem desorganizar o movimento. Na mesma linha, Carlos D’Elia (Vermelho), que também integra o Comitê, disse que o movimento das ocupações tem que ter a capacidade de se manter pacífico. “Uma das estratégias centrais deles é justamente provocar alguma reação violenta às suas provocações para tentar deslegitimar o movimento”, assinalou.

A advogada Jucemara Beltrame foi outra a manifestar preocupação com o aumento da violência física e psicológica contra os estudantes. “Ontem à noite, o MBL foi no Instituto de Artes onde tentou provocar um tumulto. Hoje pela manhã, foi à Escola de Administração, onde uma pessoa chegou com um martelo e uma barra de ferro para tentar estourar o cadeado”. A advogada também chamou a atenção para o fato de que o MBL tem chamado jornalistas da RBS para acompanhar suas ações.

Os estudantes convidaram os procuradores a visitar as ocupações e foram informados da existência do aplicativo “SAC MPF” que permite a qualquer cidadão fazer denúncias em tempo real, enviar fotos e vídeos diretamente ao Ministério Público Federal. O aplicativo está disponível para smartphones com sistemas iOS e Android.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Professores da História da UFRGS decidem suspender aulas e avaliações em apoio às ocupações

Docentes consideram justa a pauta de reivindicações que estimulou as ocupações. (Foto: Ocupa IFCH/UFRGS – Reprodução/Facebook)

Docentes consideram justa a pauta de reivindicações que estimulou as ocupações. (Foto: Ocupa IFCH/UFRGS – Reprodução/Facebook)

Um grupo de professores e professoras do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) divulgou nota comunicando a decisão de suspender as aulas e avaliações das disciplinas pelas quais são responsáveis em apoio às ocupações realizadas pelos alunos e alunas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. A nota afirma:

“Considerando a justiça da pauta de reivindicações que estimulou as ocupações protagonizadas pelos alunos e alunas do IFCH-UFRGS, a saber, contra PEC 241/55, contra a MP 746 (Reforma do Ensino Médio), contra os projetos de lei denominados Escola sem Partido, os professores e professoras do Departamento de História da UFRGS abaixo-assinados declaram sua decisão de suspender as aulas e avaliações das disciplinas pelas quais são responsáveis”.

Assinam a nota:

Adolar Koch

Adriana Schmidt Dias

Alessander Kerber

Anderson Zalewski Vargas

Arthur Lima de Ávila

Benito Bisso Schmidt

Carla Brandalise

Carla Simone Rodeghero

Caroline Silveira Bauer

Céli Regina Jardim Pinto

Cesar Augusto Barcellos Guazzelli

Claudia Mauch

Claudia Wasserman

Cybele Crossetti de Almeida

Eduardo Santos Neumann

Fábio Kuhn

Fernando Nicolazzi

Helen Osório

Igor Salomão Teixeira

José Rivair Macedo

Laura Ferraza de Lima

Luis Dario Teixeira Ribeiro

Luiz Alberto Grijó

Mara Cristina de Matos Rodrigues

Mathias Seibek Luce

Natalia Pietra Méndez

Regina Célia Lima Xavier

Regina Weber

Silvia Copé

Silvia Regina Ferraz Petersen

Suzana Bleil de Souza

Temístocles Cezar

MST doa meia tonelada de alimentos às ocupações da UFRGS

As doações vão ajudar nas refeições de alunos de mais de 30 cursos da universidade, que também protestam contra o projeto Escola Sem Partido e a reforma do Ensino Médio. (Fotos: Catiana de Medeiros)

As doações vão ajudar nas refeições de alunos de mais de 30 cursos da universidade, que também protestam contra o projeto Escola Sem Partido e a reforma do Ensino Médio. (Fotos: Catiana de Medeiros)

Catiana de Medeiros

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) doou, na noite desta sexta-feira (11), meia tonelada de alimentos aos acadêmicos que ocupam prédios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em protesto contra a PEC 55 – antiga PEC 241, aprovada na Câmara dos Deputados.

Os alimentos vêm da produção orgânica e colonial dos assentamentos da reforma agrária do estado e foram entregues para uma comissão de estudantes das ocupações dos prédios dos campi do Vale, Centro, Saúde e Olímpico, em Porto Alegre, durante caminhada contra medidas do governo Temer. As doações vão ajudar nas refeições de alunos de mais de 30 cursos da universidade, que também protestam contra o projeto Escola Sem Partido e a reforma do Ensino Médio.

Cedenir de Oliveira, da direção estadual do MST, explica que a iniciativa é uma forma de retribuir à sociedade pela solidariedade que as famílias Sem Terra receberam ao longo de seus 31 anos de história na luta por reforma agrária. Ele complementa que a doação de alimentos contribui para a resistência ao golpe do governo Temer (PMDB), que também retira direitos na área da educação.

Os alimentos vêm da produção orgânica e colonial dos assentamentos da reforma agrária do estado.

Os alimentos vêm da produção orgânica e colonial dos assentamentos da reforma agrária do estado.

“Neste atual estágio da luta política do país, os estudantes são um grande símbolo de resistência ao golpe. Nós sempre recebemos muita solidariedade, que nos deu a oportunidade de obter muitas conquistas, entre elas vários assentamentos. Agora, as famílias assentadas estão retribuindo com a doação de parte de seus alimentos para que a juventude possa continuar resistindo”, argumenta.

Cada ocupação recebeu um kit composto por arroz, feijão, leite em pó, suco de uva integral, cenoura, beterraba, couve, radiche, alface, cebola, temperos verdes, pães, bolachas, bolos, grostolis e roscas. A doação ocorreu ao final de uma marcha, organizada pela Frente Brasil Popular e outras organizações, contra a retirada de direitos dos trabalhadores.

Para Matheus Santos, acadêmico do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação, a solidariedade que as ocupações estão recebendo de diversas organizações sociais “é muito gratificante e mostra o poder da unidade”.

“Não imaginávamos que tanta gente iria aderir a esta luta e nos ajudaria a permanecer nas ocupações. Essa solidariedade nos dá força e resistência para enfrentar as medidas desse governo. Estamos tentando transmitir à sociedade o que vai acontecer num futuro muito próximo, que é a quebra de tudo aquilo que foi conquistado ao longo dos últimos anos”, finaliza.

Ato reúne milhares em Porto Alegre e mostra estudantes na linha de frente contra “PEC da Morte”

Um público estimado em 15 mil pessoas participou, no início da noite desta sexta-feira (11), em Porto Alegre, de um novo ato de protesto contra as políticas do governo Temer. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Um público estimado em 15 mil pessoas participou, no início da noite desta sexta-feira (11), em Porto Alegre, de um novo ato de protesto contra as políticas do governo Temer. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Cerca de 15 mil pessoas participaram, no início da noite desta sexta-feira (11), em Porto Alegre, de um novo ato de protesto contra as políticas do governo Temer, em especial a PEC 55 (241 na Câmara dos Deputados) que congela os investimentos em áreas essenciais como saúde, educação e infra-estrutura por até 20 anos. Provavelmente, foi o maior ato de rua em Porto Alegre em 2016, desde os primeiros atos contra o impeachment e o golpe no primeiro semestre.

Antes das 18 horas, horário marcado o início da concentração, a Esquina Democrática já estava tomada por manifestantes, com uma grande presença de estudantes que estão participando das ocupações, professores e funcionários da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e sindicatos de trabalhadores do setor público e privado. A presença majoritária, assim como já aconteceu em atos anteriores, foi da juventude, com uma grande presença de estudantes universitários que estão participando de ocupações na UFRGS, em diversos campi do Instituto Federal e também na PUC.

Na concentração para a caminhada realizada pelo centro de Porto Alegre, Cedenir de Oliveira, da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destacou o papel de liderança que a juventude vem assumindo depois do processo que culminou no afastamento da presidenta Dilma Rousseff.

“Nós estamos vivendo no Brasil um novo momento da luta social. Nós dizíamos que o afastamento de Dilma traria não apenas uma derrota da democracia, mas também uma série de retrocessos com as medidas que viriam posteriormente. Estamos colhendo os frutos amargos desse processo agora, com um ataque aos direitos dos trabalhadores e às conquistas obtidas nos últimos anos. No dia de hoje demos mais um importante passo para o fortalecimento de um espaço de resistência. Neste momento, sem dúvida nenhuma, os estudantes são a ponta de lança dessa resistência. Isso nos anima porque a juventude do nosso país está se posicionando em defesa da democracia e dos direitos”.

O dirigente do MST no Rio Grande do Sul também comentou a determinação do secretário estadual de Segurança Pública, Cezar Schirmer, para que a Brigada Militar tivesse uma “atuação mais firme” nos protestos. “Esse é o modus operandi clássico dos governos que começam a aplicar políticas neoliberais que atingem a classe trabalhadora. Na medida em que a população reage aos efeitos dessas políticas, esses governos endurecem a ação policial e a criminalização dos movimentos. Esse é um protocolo que a gente já viu acontecer em outros momentos e que começa a se posicionar com força no país e, em especial, aqui no Rio Grande do Sul. No caso de um governo que não consegue honrar a folha de pagamento de seus servidores e que não tem nenhum tipo de investimento, só resta a ele colocar a Brigada Militar em cima das manifestações”, assinalou.

Ainda durante a concentração para a saída da caminhada, o papel protagonista da juventude no processo de resistência às políticas do governo Temer foi objeto de várias conversas. Questionado por um professor universitário sobre o que fazer diante da dureza da conjuntura política atual, Mauri Cruz, da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong), respondeu de bate-pronto: “na dúvida, siga a juventude”. E foi o que aconteceu após às 19 horas, quando a caminhada que reuniu milhares de pessoas saiu da Esquina Democrática tomando a avenida Júlio de Castilhos em direção à Rodoviária e depois ao túnel da Conceição. Na linha de frente da marcha estavam estudantes secundaristas e universitários independentes ou ligados a alguma organização que caminharam unidos pela oposição à chamada PEC da Morte, que congela investimentos em áreas essenciais por até 20 anos.

Como já aconteceu em outras manifestações, no início a Brigada Militar realizou um acompanhamento discreto do ato, com uma viatura e alguns homens caminhando à frente da caminhada e informando por rádio o trajeto e o andamento da mesma. Na entrada para o túnel da Conceição, a manifestação passou a ser acompanhada por um helicóptero da Brigada Militar que passou a acompanhar ostensivamente a manifestação até o seu final. A passagem pelo túnel deu a dimensão do tamanho inédito da manifestação. Após a linha de frente da caminhada entrar pelo túnel passaram-se mais de quinze minutos para que o final da marcha dobrasse a avenida Júlio de Castilhos. Todo esse trajeto aconteceu sem qualquer tipo de incidente.

Na saída do túnel, os manifestantes ficaram em silêncio para não perturbar os pacientes e profissionais do complexo hospitalar da Santa Casa situado ao lado. Na entrada do Campus Central da UFRGS, foram recebidos com um vídeo projetado no prédio da Faculdade da Arquitetura com os dizeres “Ocupa Tudo”. A caminhada entrou na Perimetral e se dirigiu ao Largo Zumbi dos Palmares. No caminho, um container de lixo foi virado, mas ficou apenas alguns segundos tombado, sendo rapidamente colocado de volta no lugar por cinco jovens manifestantes.

Ao se aproximar do Zumbi dos Palmares, um impasse pairava no ar: seguir dali para onde? A Brigada Militar havia mobilizado um pequeno exército nas proximidades do prédio da RBS, na esquina da avenida Ipiranga com a Érico Veríssimo, prevendo que os manifestantes se dirigiriam para lá. Mas não foi o que aconteceu. A marcha ingressou no largo e terminou ali, para protesto de alguns manifestantes que queriam continuar. Mas prevaleceu a opção por não seguir em frente e evitar o confronto com a Brigada. Antes da dispersão, foi anunciado que um novo ato está programado para o dia 25 de novembro, alguns dias antes da data prevista para a votação da PEC 55 no Senado. “No dia 25 estaremos na rua de novo e o ato será ainda maior que o de hoje”, anunciou uma jovem manifestante falando com um megafone.

A manifestação, oficialmente, terminou ali, mas, como já ocorreu em outras ocasiões, apareceu o que um participante da caminhada chamou de “parceria público-privada entre a Brigada Militar e grupos dispersos de manifestantes que se espalharam pela região. Na esquina da Perimetral com a Lima Silva, foram queimadas algumas caixas de papelão e uma moto da EPTC que estava parada no cruzamento foi derrubada no chão. A Brigada acionou então o que o secretário estadual da Segurança, Cezar Schirmer, chamou de “protocolo de dispersão”, lançando bombas de gás, balas de borracha e acionando a cavalaria por ruas da Cidade Baixa, com acompanhamento aéreo do helicóptero que acabou, paradoxalmente, participando de boa parte do protesto contra a PEC que congela, por até 20 anos, investimentos em áreas essenciais, inclusive a da segurança pública.

(*) Publicado originalmente no Sul21.