Arquivo mensal: janeiro 2013

Moradores da Praça Japão questionam prefeitura de Porto Alegre sobre obra na Anita Garibaldi

anitagaribaldiarvores Da Amapraja (*)

A Amapraja – Associação de Moradores da Praça Japão esteve no dia 29 de janeiro em reunião na Câmara de Vereadores com a PMPA, que foi irredutível em afirmar que irá realizar a construção da Trincheira na rua Anita Garibaldi, mesmo a contragosto dos moradores. Segue um relato da reunião:

Praça Japão e entorno:

A PMPA oferece como contrapartida revitalizar a Praça Japão: tratar o calçamento das Alamedas; retirar o asfalto no calçamento; solicitar a transferência do local da concessionária Caoã, que diariamente recebe caminhões cegonheiros que destroem árvores e o calçamento. Compromete-se também em restaurar o lago, as duas estátuas e os brinquedos. Fará um estudo de criar um estacionamento área azul na praça, entre outros.

Análise do projeto da Trincheira:

A presidente da Amapraja, sra Anna Luiza Bolognesi argumentou que há estudos da UFRGS contrários à obra, pela sua ineficiência e que seria importante a PMPA tomar conhecimento. Carla, arquiteta da EPTC, alega que qualquer parecer técnico será igual a este modelo de solução apresentado pela EPTC/ PMPA. Cita ainda que o Shopping Iguatemi fará uma contrapartida à sua ampliação, promovendo o alargamento da rua Anita até a João Wallig, porém sem precisar datas. A sra. Carla não comentou a situação do Country Club, que obteve ganho na justiça que impede que seu terreno seja dividido.

Ciclovia:

Sobre a falta de projeto Cicloviário para a região, Carla colocou que não foi previsto a passagem de ciclovia pela trincheira, que ficará para quando houver a duplicação da rua Anita Garibaldi, sem data prevista. O problema aqui é que a obra fere uma lei municipal que exige Plano Cicloviário para novas obras. E foi esquecido no projeto que a rua Anita Garibaldi é uma via de ligação do Parcão com o bairro, sendo inconcebível não ter este recurso que facilita o uso de transporte alternativo e mais econômico.

Esteve presente o engenheiro Dr. Panitz, o qual fez um estudo sobre o projeto, mas não pode falar. (Veja na íntegra no Blog Anita mais Verde).

Técnica utilizada para a escavação da Trincheira:

A PMPA apresentou que não irá usar explosivos contra a rocha. Irá usar a técnica a frio,onde um compressor penetra nas falhas da rocha. Outra opção é a argamassa espessa química com água, na temperatura ambiente faz os furos na rocha, sem barulho. Perguntados pela Amapraja sobre os riscos com a rocha e os prédios ao redor, o representante falou que não haverá nenhum risco, que irá fazer em três etapas a escavação por estacas colocando em seguida uma laje em cima.

Impacto na drenagem:

O DEP tem planos para a drenagem. Conseguirão verbas para Bacia do Areia, que é o mais afetado pela obras da Anita. Ampraja perguntou quantas ruas serão afetadas pela enxurrada da obra, mas não obteve resposta do DEP.

Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV):

A PMPA falou que não fez o EIV – Estudo de Impacto de Vizinhança, que este não é necessário pois já possuem um Estudo de Impacto Ambiental, e não é importante. Ora, o EIV é uma lei do Estatuto das Cidades, é lei federal, não podendo ser substituído pelo mbiental. A cidade de Porto Alegre, segundo Sofia Cavedon não possui nenhuma obra com este estudo, seria uma oportunidade de começar a ser a primeira. Os moradores apelaram, neste estudo iria aparecer justamente todo o impacto que irão receber com esta obra.

Questão do inquérito civil no Ministério Público:

Ana Pellini, da Governança da PMPA, comentou que houve uma audiência de conciliação com o sr. Alexandre Altz no Ministério Público, onde estiveram presentes Capellari da EPTC, Fabio Berwanger da OAB, um representante da SMAM e a Governança da PMPA. Este grupo acordou pelo arquivamento do inquérito civil, segundo Pellini está disponível para vistas. A Amapraja questionou qual o motivo de não haver sido convocada para a audiência, já que foi a proponente e os moradores não foram ouvidos. Estranha-se esta audiência ser feita pelo MP, sem a participação da Amapraja e moradores.

Questão Ambiental:

Os desenhos apresentados da obra são lindos; cheios de flores e trepadeiras dentro e fora da trincheira. Essas plantas, segundo sra Ana Pellini serviriam para “abafar” o som do trânsito, “absorver grande quantidade de carbono” e servir de “compensação ambiental” à derrubada das árvores.

O técnico da SMAM abre falando que a comunidade poderá indicar os lugares onde serão plantadas as novas árvores da medida compensatória de onze árvores por uma. Os números de árvores derrubadas seriam agora de 110 e mais 21 árvores transplantadas; os números não fecham, já se soube que seriam 240 árvores. Sabe-se também que 92% das árvores transplantadas não sobrevivem. O técnico corrigiu no final que a compensação ambiental não será por meio das flores e trepadeiras na trincheira, como foi apresentado anteriomente pela sra Ana Pellini, ex-Secretária Estadual do Meio Ambiente do RS.

Público presente:

Havia muitas pessoas das Ilhas, Vila Nova, Zona Sul, etc., que foram aplaudir a PMPA e chamar os moradores da Anita de “ricos com quatro carros na garagem, egoístas, que não pensam na cidade.” Eram pessoas muito simples que usaram de declarações grosseiras com os moradores. Um conselheiro do Orçamento Participativo chegou a declarar que os vereadores trabalham após o exame das matérias pelo OP, e que com isto, se ele sente como um verdadeiro vereador.

Custo da obra:

Foi confirmado também o orçamento da obra: R$ 10.430.984,63. Segundo o engenheiro da trincheira, o custo de mais de R$ 16 milhões anteriormente informado no Portal Transparência na Copa foi um engano.” Será mesmo que a PMPA fechará a obra em 10 milhões?

Resultado:

Passadas mais de três horas ouvindo afirmações sem valor da PMPA, o vice-prefeito não aceitou a proposta da Amapraja de paralisar o início das obras na rua Anita Garibaldi. Continuou a afirmar que será necessária a derrubada de todas as árvores no espaço que compreenderá a trincheira, sem encontrar outra solução preventiva. Os moradores ficaram impotentes com essa obra que destrói, desvaloriza a paisagem local; que aumenta o tráfego pesado em ruas com pedras rosáceas. Uma obra que não soluciona nem no seu início e quiçá no futuro as questões de tráfego na região.

Para melhor debater e aprofundar o projeto da Trincheira, foi decidido pela criação de três grupos de trabalho, um GT sobre o Tráfego, um GT Ambiental e um GT de Legislação, onde os técnicos da PMPA se reunirão com técnicos representantes dos moradores. As reuniões deverão ser agendadas para a próxima semana.

Sabe-se que são 16 milhões de reais (ver no site da PMPA) captados em verbas para somente esta obra mal projetada no município, e o que os moradores podem fazer frente a isso? O poder Judiciário, até o gaúcho, se mostra leniente e solidário com os poderes constituídos, sendo que os moradores (pessoas físicas) ficaram em segundo plano.

(*) Associação de Moradores da Praça Japão

A apuração dos responsáveis pela tragédia

cezarschirmer200 Por Paulo Muzell

Passadas as primeiras setenta e duas horas da brutal comoção que abalou o estado e o país já há condições de se começar a apurar os verdadeiros responsáveis pelo absurdo desastre de Santa Maria.

Além dos proprietários do estabelecimento e dos integrantes da banda que utilizou o malfadado sinalizador, responsabilizados desde o primeiro momento – por óbvia imprudência e por permitirem a superlotação -, surgiram indagações sobre a responsabilidade dos órgãos e autoridades públicas que tem por competência licenciar e fiscalizar este tipo de atividade. Aí começou o que a mídia – especialmente a local – chamou de “jogo de empurra”. Aliás, os órgãos de imprensa da capital, especialmente a RBS mostrou, uma vez mais, com a mais absoluta clareza sua parcialidade e de que lado está. Começou a apuração de responsabilidade pelo Corpo de Bombeiros que tem mera função auxiliar, secundária no licenciamento. A Prefeitura faz convênio com o Corpo de Bombeiros que passa a ter função subsidiária, de assessoria. O poder de polícia, a faculdade de abrir ou de fechar o estabelecimento é da Prefeitura.

Qualquer pessoa mediamente informada não tem qualquer dúvida que o licenciamento de qualquer atividade – industrial, comercial, de prestação de serviços ou de diversões públicas – é competência expressa do poder público municipal, da Prefeitura. Plano Diretor, Código de Obras, Código de Posturas (hoje aqui em Porto Alegre por sugestão do vice-prefeito Sebastião Mello passará a se chamar de “Código de Convivência Democrática”) são os instrumentos legais que normatizam o a expedição do alvará, o documento que autoriza o funcionamento. As Secretarias de Planejamento e Urbanismo, de Obras, de Meio Ambiente e de Indústria e Comércio têm estrutura para avaliar o atendimento de todas exigências técnicas e legais que antecedem o licenciamento.

A boate Kiss funcionava desde agosto de 2012 com a licença vencida. Primeira grave irregularidade de responsabilidade da Prefeitura. Segundo: há vários meses a vizinhança do estabelecimento reclamava à Prefeitura do ruído excessivo. A Prefeitura exigiu dos proprietários o isolamento acústico que foi realizado com espuma inflamável, absolutamente inadequada mas que foi aceita pela Prefeitura. Observe-se que a espuma inflamável colocada no teto – somada à imprudência do integrante da banda que acendeu o sinalizador – foram as causas diretas pelo desastre. A falta indicação e de sinalização luminosa das saídas de emergência constituíram-se, também, em agravantes por aumentarem o número de vítimas..

Tivemos em Buenos Aires há pouco mais de oito anos atrás, em 2004, uma tragédia semelhante. Foram duramente penalizados pela justiça argentina com muitos anos de prisão os proprietários da discoteca “República Cromagnon”, os fiscais da prefeitura que atuavam na zona onde ela se localizava. E o principal responsável, o prefeito de Buenos Aires foi cassado, perdeu seu mandato.

Paulo Henrique Amorim, no seu “Conversa Afiada” deu o conselho mais lúcido para aqueles que buscam justiça e que desejam evitar a repetição de semelhantes tragédias. Ele sugeriu que os milhares e milhares de parentes, colegas e amigos das centenas de vítimas acorram à Câmara Municipal de Santa Maria para exigir o impeachment do prefeito Cézar Schirmer. Acertou na mosca: sábio e oportuno conselho.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O que a morte não cessa de nos dizer

JeanFrançoisMillet.TheAngelus480

A dor provocada por tragédias como a ocorrida neste final de semana na cidade de Santa Maria sacode a sociedade como um terremoto, despertando alguns de nossos melhores e piores sentimentos. Um acontecimento brutal e estúpido que tira a vida de 233 pessoas joga a todos em um espaço estranho, onde a dor indescritível dos familiares e amigos das vítimas se mistura com a perplexidade de todos os demais. Como pode acontecer uma tragédia dessas? A boate estava preparada para receber tanta gente? Tinha equipamentos de segurança e saídas de emergência? Quem são os responsáveis?

Essas são algumas das inevitáveis perguntas que começaram a ser feitas logo após a consumação da tragédia? E, durante todo o domingo, jornalistas e especialistas de diversas áreas ocuparam os meios de comunicação tentando respondê-las. As redes sociais também foram tomadas pelo evento trágico. Os indícios de negligência e falhas básicas de segurança já foram apontados e serão objeto de investigação nos próximos dias. Mas há outra dimensão desse tipo de tragédia que merece atenção.

É uma dimensão marcada, ao mesmo tempo, por silêncio, presença e exaltação da vida. O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, disse na tarde deste domingo que o momento não era de buscar culpados, mas sim de prestar apoio e solidariedade às milhares de pessoas mergulhadas em uma profunda dor. Não é uma frase fácil de ser dita por uma autoridade uma vez que a busca por culpados já estava em curso na chamada opinião pública. E tampouco é uma frase óbvia. Ela guarda um sentido mais profundo que aponta para algo que, se não representa uma cura imediata para a dor, talvez expresse o melhor que se pode oferecer para alguém massacrado pela perda, pela ausência, pela brutalidade de um acontecimento trágico: presença, cuidado, atenção, uma palavra.

Quem já perdeu alguém em um acontecimento trágico e brutal sabe bem que o caminho da consolação é longo, tortuoso e, não raro, desesperador. E é justamente aí que emerge uma das melhores qualidades e possibilidades humanas: a solidariedade, o apoio imediato e desinteressado e, principalmente, a celebração do valor da vida e do amor sobre todas as demais coisas. A vida é mais valiosa que a propriedade, o lucro, os negócios e todas nossas ambições e mesquinharias. Na prática, não é essa escala de valores que predomina no nosso cotidiano. Vivemos em um mundo onde o direito à vida é, constantemente, sobrepujado por outros direitos. Tragédias como a de Santa Maria nos arrancam desse mundo e nos jogam em uma dimensão onde as melhores possibilidades humanas parecem se manifestar: o Estado e a sociedade, as pessoas, isolada e coletivamente, se congregam numa comunhão terrena para tentar consolar os que estão sofrendo. Não é nenhuma religião, apenas a ideia de humanidade se manifestando.

Uma tragédia como a de Santa Maria não é nenhuma fatalidade: é obra do homem, resultado de escolhas infelizes, decisões criminosas. Nossa espécie, como se sabe, parece ter algumas dificuldades de aprendizado. Nietzsche escreveu que muito sangue foi derramado até que as primeiras promessas e compromissos fossem cumpridos. É impossível dizer por quantas tragédias dessas ainda teremos que passar. Elas se repetem, com variações mais ou menos macabras, praticamente todos os dias em alguma parte do mundo e contra o próprio planeta.

Talvez nunca aprendamos com elas e sigamos convivendo com uma sucessão patética de eventos desta natureza, aguardando a nossa vez de sermos atingidos. Mas talvez tenhamos uma chance de aprendizado. Uma pequena, mas luminosa, chance. E ela aparece, paradoxalmente, em meio a uma sucessão de más escolhas, sob a forma de uma imensa onda de compaixão e solidariedade que mostra que podemos ser bem melhores do que somos, que temos valores e sentimentos que podem construir um mundo onde a vida seja definida não pela busca de lucro, de ambições mesquinhas e bens materiais tolos, mas sim pela caminhada na estrada do bom, do verdadeiro e do belo. A morte nos deixa sem palavras. Mas ela nos diz, insistentemente: é preciso, sempre, cuidar dos vivos e da vida.

(*) Ilustração: Jean-François Millet/The Angelus

Conselho de Psicologia critica estratégia de internação compulsória

crprs150 O Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul divulgou nota criticando a política de internação compulsória de usuários de drogas adotada pelo governo de São Paulo a partir desta semana. Na avaliação do CRP-RS, a ação do governo de Geraldo Alckmin (PSDB), “como pretexto de eliminação dos problemas decorrentes do uso do crack, é uma forma velada de preconceito e racismo social”. “A prática reprime violentamente a população que está em situação de rua, violando os direitos humanos de pessoas já fragilizadas por problemas oriundos da exclusão social. Em operações de higienização como essa, as autoridades – valendo-se de seu poder – tratam essas pessoas de forma massificada, expondo-as a toda forma de abuso, negligência, maus tratos e violência”, diz a presidente do Conselho, Loiva dos Santos Leite.

A posição do conselho gaúcho está em sintonia com a do Conselho Federal de Psicologia, que considera o uso da internação compulsória como medida emergencial para tratamento de drogas uma expressão de falta de cuidado e de atenção à saúde dos usuários, além da falha do Estado na criação e aplicação de políticas públicas. Acionar políticas emergenciais como essa de internar voluntariamente implica atualizar modelos de intervenção amplamente criticados por profissionais, pesquisadores na área de ciências humanas e sociais e por movimentos como o da Luta Antimanicomial, avalia ainda a entidade.

No lugar da política implantada pelo governo de São Paulo, o Sistema de Conselhos de Psicologia defende “uma política inclusiva, humanizada, não discriminatória e que garanta o direito à saúde, à liberdade, à integridade e à dignidade das pessoas em situação de rua, em uso de drogas ou não”. “O redirecionamento de recursos para o financiamento de internações compulsórias interfere no direito das pessoas a receber atenção integral em serviços orientados à reinserção social, contraria as diretrizes preconizadas nas políticas nacionais de saúde mental, assistência social e combate à tortura e fere os compromissos assumidos pelo Brasil na prevenção, promoção e proteção da saúde e dos direitos humanos”, aponta a presidente do CRP-RS.

Um mundo saturado de palavras e esvaziado de sentido

blablabla200 Imaginem um mundo saturado de ruído a tal ponto que um barulho de alguns decibéis poderia provocar explosões destruidoras. Esse é o tema de uma história em quadrinhos publicada na revista Kripta (1976-1981, editora RGE), que embalou a imaginação de uma geração de adolescentes nos anos 70. Esse conto de ficção científica inscreve-se em um gênero temático que só ia crescer a partir dali: o agravamento das mais diversas formas de poluição que estariam levando o planeta a situações catastróficas. Poluição sonora, atmosférica, da água, do solo, dos alimentos, doa utensílios e ferramentas que utilizamos cotidianamente. Lembrei-me dessa história para falar de um outro tipo de poluição que vem assumindo proporções dramáticas: a proliferação desenfreada de opiniões sobre tudo e todos, especialmente (mas não só) nas chamadas redes sociais. O paralelo deve-se também ao fato de que cresce assustadoramente o volume de opiniões, palavras que não passam, na verdade, de ruídos bloqueadores da reflexão e do sentido.

O silêncio é uma condição necessária para que as palavras ganhem sentido e se transformem em algo mais do que sinais físicos. Silêncio interior e exterior, de minutos, não segundos. Convivemos hoje com uma proliferação desenfreada de palavras que vêm ao mundo cercadas de barulho e urgências discutíveis. Há um sistema de comunicação e de entretenimento em expansão ininterrupta que trabalha diariamente contra o silêncio, a reflexão e o sentido, oferecendo velocidade, euforia, instantaneidade, celebridade ou, simplesmente, alguma distração.

Somos convocados a emitir opiniões rápidas sobre os “fatos do dia”, quer sejam ele fatos reais ou meros boatos ou especulações. E, de um modo geral, essa convocação vem sendo atendida com entusiasmo, alimentando um exército de opinadores e opinadoras, comentadores e comentadoras, mais ou menos avessos à reflexão, que não se intimidam a “compartilhar” seus pontos de vista e convicções sobre os temas mais variados. Há pouco lugar para a dúvida ou a reflexão neste campo de batalha repleto de pessoas apaixonadas pela própria voz, de egos inflados e/ou desesperados.

E, de um modo crescente, há pouco lugar também para bons modos rudimentares. Não é preciso muito para a agressão, a intolerância, a irracionalidade, a proliferação de imperativos e o obscurantismo assumirem o comando de certos “debates”. Novos tipos de “especialistas” e “ativistas” surgem a cada dia. É difícil não utilizar aspas para designar esses personagens virtuais, pois não se trata estritamente de especialistas, ativistas ou debatedores, ao menos nos termos mais ou menos estabelecidos até aqui.

Exércitos de um homem (ou mulher) só também proliferam, lançando campanhas, abaixo-assinados, cartas dirigidas a autoridades, divulgando frases e fatos muitas vezes atribuídos falsamente a determinadas personalidades. A fauna é variada e crescentemente diversificada. Essa nova realidade não é resultado de nenhuma propriedade maligna das redes sociais ou de outras inovações tecnológicas na área da comunicação. Como ferramentas tecnológicas, elas podem servir para distintas finalidades. A poluição opiniática não nasce nas ou das redes sociais. O problema é bem mais complexo e está associado à indústria da comunicação de um modo mais geral que vem se dedicando com afinco a transformar desde as mais singelas e primitivas formas de expressão em mercadoria.

A questão aqui não é o direito de termos opiniões e de expressá-las do modo que achamos mais conveniente, mas sim a transformação desse direito em um fenômeno bizarro e com implicações nada inocentes. Não somos mais apenas convidados e convocados a consumir, mas também a compartilhar, a curtir, a enviar torpedos, a participar de campanhas interativas, a dizer o que estamos pensando a cada instante, o que estamos fazendo, não importa se é lendo um livro de Platão ou escovando os dentes. E, por trás desses convites, cada vez mais, há uma iniciativa destinada a ganhar dinheiro. Por trás de toda essa poluição semântica há uma dimensão de acumulação econômica. Uma nova fronteira de acumulação monetária e de esvaziamento semântico.

As consequências desse “mundo novo” ainda são imprevisíveis. O que é perceptível, por enquanto, é um crescente desconforto que já vem levando muita a gente a se desconectar ou ao menos se afastar desses espaços. De modo similar à história de ficção científica sobre o mundo saturado pelo ruído, é como se estivéssemos respirando um ar cada vez mais pesado, carregado de opiniões, frases, citações sobre todo e qualquer tema, sobre tudo e sobre nada, tudo ao mesmo tempo agora. Uma saída, assim como na história do mundo insuportavelmente barulhento, seria recusar essa realidade em busca de um território onde o silêncio e a reflexão não estejam soterrados por debates que não são debates, pautas que não são pautas, campanhas que não são campanhas, palavras que não chegam a ser palavras, pois não chegam a constituir sentido. A tentação é grande. O ruído está ficando insuportável.

Prefeitura de Porto Alegre está na contramão de uma cidade sustentável, diz Agapan

anita arvores 13 A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) divulgou nota oficial sobre a derrubada de árvores na rua Anita Garibaldi, em Porto Alegre:

Os impactos ambientais da construção do túnel na rua Anita Garibaldi implicarão em desdobramento bastante sérios para aquela região da cidade:

– Saúde: redução do espaço social de circulação, possibilitando estresse psicológico ou fisiológico aos moradores, visto que será ínfima a redução de tempo para o trajeto de carros, pois todos irão parar em sinaleira, que vai permanecer para os pedestres passarem.

– Alteração do microclima com a supressão significativa da cobertura arbórea urbana: diminui a infiltração da água das chuvas no solo, com maior escoamento superficial. Reduz a ventilação e o sombreamento, alterando a temperatura e formando “Ilhas de Calor” (quente de dia e frio à noite), gerando maior gasto energético.

– Modificações ou destruição do microssistema, pela retirada da vegetação urbana: o desmatamento empobrece o solo e a biodiversidade, pois o habitat natural da avifauna desaparece, em função das obras da Terceira Perimetral.

– Aumento da poluição atmosférica, sonora e visual acarretará: aumento dos agentes microbianos e partículas de poeira no ar e maior ruído. A retirada da cobertura verde causa desconforto visual e deixa menos bonita a ambiência desse antigo espaço de convivência social.

– Perda de qualidade paisagística: perda da beleza cênica, desaparecendo espaços históricos e culturalmente consolidados na região.

Tempo precioso para a sustentabilidade (ecológica):

anita garibaldiarvores O fato de defendermos a permanência da arborização da rua Anita Garibaldi demonstra a visão incorreta com que a Prefeitura tem tratado, desde início, o “caso da trincheira da Anita”. Esse fato está diretamente relacionado à falta de comunicação e de planejamento participativo, conforme estabelece o Estatuto da Cidade e Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Porto Alegre, que recomenda a opinião dos cidadãos no planejamento do futuro da cidade.

Estamos perdendo um tempo precioso na busca da implantação do manejo de vegetação em Porto Alegre:

– Necessitamos urgentemente de espécies vegetais, que reúnam características morfológicas adaptadas para combater a poluição;

– Precisamos recompor, tratar, prevenir e estimular o plantio e crescimento de novas espécies arbóreas;

– Plantar e estimular espécies de árvores que gerem conforto para a cidade, que atraiam a fauna e flora silvestres, purifiquem o ar, deem equilíbrio térmico, reduzam ruídos;

anitagaribaldiarvores  Durante muito tempo Porto Alegre se vangloriou por ser considerada a capital mais arborizada do Brasil, mas esses dados já não são realidade. Segundo o IBGE, estamos distante de sermos os primeiros. Porto Alegre está deixando de planejar ações ambientais mais efetivas que favoreçam a qualificação paisagística dos bairros, beneficiando assim a convivência e a economia da cidade.

Fotos: Nessa/Agapan

Em 2012, pêssego foi o campeão de contaminação por agrotóxico no RS

pessego O blog dos Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho destaca a passagem do Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos com um texto que atualiza alguns dados do alarmante quadro de contaminação de alimentos. O artigo registra o resultado, divulgado esta semana pelo Ministério da Agricultura, dos Programas Nacionais de Controle de Resíduos e Contaminantes. No RS, o campeão de contaminação em 2012 foi o pêssego. “Das sete amostras de pêssego colhidas no Estado, apenas duas não continham níveis acima dos permitidos de substâncias proibidas, como, fungicidas (carbendazim, piraclostrobina), inseticidas (clorpirifós, lambda-cialotrina) e acaricidas (dimetoato, piridabem). Outros produtos com maior percentual de contaminação foram: morango (50%), pimentão (25%), uva (25%) e maçã (2%)”, aponta o levantamento.

Reportagem mostrará 100 praias que desapareceram no RS por extração ilegal de areia

jacuirioareia A Associação para Pesquisa de Técnicas Ambientais (APTA), organização não-governamental com sede em Canoas, está divulgando a reportagem que será exibida neste domingo (13), no programa Teledomingo (RBS TV), tratando do desaparecimento de mais de 100 praias gaúchas em virtude da extração ilegal de areia no rio Jacuí. A reportagem, anuncia a produção do programa, consumiu meses de investigação e registrou flagrantes dessa extração ilegal de areia que ocorre inclusive em áreas de preservação permanente, provocando o desaparecimento de praias, de bancos de areia e diminuição de ilhas. Além do crime ambiental, a reportagem anuncia que a extração ilegal de areia “pode estar por trás também de um perigo ainda maior: o aumento do risco de afogamentos em água doce no Estado”.

Ato público protesta contra corte de árvores na rua Anita Garibaldi

arvorespoa250 Dos Amigos da rua Gonçalo de Carvalho

Em 1975 o estudante Carlos Alberto Dayrell evitou o corte de uma árvore e ficou como exemplo para todos os que defendem a natureza. Se estivesse atualmente em Porto Alegre ele certamente estaria no ato público desta quinta-feira (10), contra o corte de árvores, pela prefeitura de Porto Alegre, na rua Anita Garibaldi, em virtude de obras viárias que estão sendo realizadas na região. O ato inicia às 18 horas, na esquina da Anita Garibaldi com a Carlos Gomes. Os organizadores do ato pedem que, de preferência, as pessoas vistam preto ou verde…

Ao comemorar 90 anos, Augusto Carneiro projeta e aconselha maior participação ambiental

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(*) Adriane Bertoglio Rodrigues

Estar presente em todos os acontecimentos ambientais da cidade é o projeto de vida revelado pelo pioneiro do movimento ambiental, Augusto Carneiro, que comemorou 90 anos no último dia 31 de dezembro. Carneiro, um dos fundadores da Agapan ao lado de Lutzenberger, recebeu homenagem no sábado, dia 5 de janeiro, na Feira dos Agricultores Ecologistas, no bairro Bonfim, em Porto Alegre. O ‘Parabéns’ contou com a participação de ecologistas e amigos de Carneiro, que segue incansável na defesa da natureza, distribuindo panfletos e vendendo livros, “tudo de ecologia”, diz ele, que há mais de 20 anos participa da Feira.

Carneiro iniciou militância ambiental “por casualidade”, lendo as crônicas de Henrique Luiz Roessler no Correio Rural. “Li todas as crônicas”, afirmou, ao lembrar que sua admiração pelo patrono da Ecologia é por Roessler encarar “além da natureza, representando uma nova frente política”. Com Lutzenberger, Carneiro destaca a prática. “Com Lutz, a defesa da natureza acontecida com praticismo, juntando o ajardinamento ecológico, prática que defende os ciclos naturais, além da comum proteção e da limpeza dos locais”, observa, ao salientar que “nunca abandonamos a ecologia, seja em viagens, propagandas e discussões”.

MENOS LIXO
Orgulhoso por já ter tido “a maior biblioteca de ecologia do Brasil”, Carneiro lamenta que hoje o futebol é considerado mais importante que a luta em defesa do ambiente. Segundo ele, “temos a contribuição de Deus em todo o mundo, fazendo inundações todos os dias, mas o ser humano não está se importando porque é um burro”, lamenta, ao dizer que, além do futebol, a superpopulação se deixa desviar para outros pensamentos.

No alto dos seus 90 aos, Carneiro defende que as pessoas se mantenham atentas aos desastres, que analisem e participem dos movimentos ambientais e, para ele, o principal é evitar o lixo nas ruas e nos rios. “É demais o lixo que produzimos”, afirma, criticando o descuido do lixo pelas próprias autoridades, “omissas propositais”. Para Carneiro, “o lixo, que a cada dia entope rios e contamina as águas, é uma das campanhas mais fáceis e que requer menos trabalho para articular, mas as autoridades não enfrentam”.

Carneiro, após muitas fotos e bate-papo com amigos e parceiros da luta ambiental, aconselha a participação nos movimentos em defesa da natureza. “A participação ainda é a melhor solução. Não é cara nem impossível, só basta vontade”, finaliza.

(*) Da Assessoria de Imprensa da Agapan

Você sabe de onde vêm seus alimentos?

Para quem ainda não viu, uma boa fonte de inspiração para começar o ano é o vídeo-documentário “Você sabe de onde vêm seus alimentos?”, uma produção de pouco mais de oito minutos, do coletivo Aura, que conta um pouco da história da Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), que acontece desde 1989, na rua José Bonifácio (ao lado do Parque da Redenção), em Porto Alegre. Criada no dia 16 de outubro de 1989, numa iniciativa da Cooperativa Coolmeia para marcar o Dia Mundial da Alimentação, a feira fez de Porto Alegre uma das primeiras cidades brasileiras a ter um espaço de comercialização de produtos ecológicos desta dimensão, após a hegemonia da chamada Revolução Verde nos anos 1970. Hoje, 149 famílias divulgam suas práticas agroecológicas e comercializam seus produtos todos os sábados, das 7 às 13 horas.