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Os chinelos do lavrador

O doutor Bento declarou que “o calçado (chinelo, no caso) é incompatível com a dignidade do Poder Judiciário”.

Ayrton Centeno

Na 21ª Vara Trabalhista de Curitiba, flagrou-se a tragédia do Brasil. Revelou-se a face tenebrosa das suas relações interclasses, escancarando-se como os pequenos são vistos desde a varanda gourmet do nosso edifício social. Aquele edifício erguido séculos atrás sobre as três pilastras do latifúndio, da monocultura e do escravismo. A percepção que o Brasil dos 10% tem do Brasil dos 90%.

O instantâneo de horror foi oferta do juiz Bento Luiz de Azambuja Moreira que, em vez de ouvir as partes, considerar e julgar, suspendeu a audiência. O motivo? O autor da reclamatória trabalhista, o lavrador Joanir Pereira, compareceu usando chinelos de dedo. Com calça e camisa social mas de chinelos. De pronto, o doutor Bento declarou que “o calçado é incompatível com a dignidade do Poder Judiciário”. A frase jogou no debate uma segunda questão: o que será compatível com a dignidade do Poder Judiciário?

Será, talvez, a beiçola ativista de Gilmar Mendes? Aquele mesmo que, segundo seu então colega Joaquim Barbosa, possui “capangas” e “está na mídia destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro”? O mesmo Gilmar que chamou a Lei da Ficha Limpa de “coisa de bêbados”, embora aprovada pela maioria de seus pares? E que, em seguida, esclareceu que não quis ofender os bêbados? Ou residirá a dignidade do Judiciário no gesto daquele magistrado que aceitou carona de réu para passear em Portugal? O que mesmo que abriu as portas de sua mansão para confraternizar com réus do listão da Odebrecht?

Será compatível com a dignidade do digníssimo Judiciário a entronização do monge copista Alexandre de Moraes na corte após sabatina por réus em puteiro naval singrando as águas do lago Paranoá? A curiosa curiosidade da ministra Rosa Weber ao perguntar à Dilma porque esta chamava o golpe de golpe? A bofetada desferida no rosto dos juízes pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao dizer que a Justiça do Trabalho nem mesmo deveria existir?

Seria compatível com a dignidade do Judiciário a vassalagem prestada ao golpe de 1964? Se for, não menos compatíveis com tamanha dignidade terão sido os rapapés do então presidente do STF, Álvaro Moutinho Ribeiro da Costa, ao primeiro ditador de plantão, Castelo Branco, arreganhando os salões da corte para recepcioná-lo. Seriam também compatíveis as palavras de Ribeiro da Costa, saudando a legitimidade do golpe e a salvação da democracia? Dignificou o STF sua deliberação de oferecer imunidade aos torturadores, os tipos mais vis e imundos gestados por 1964? Agindo em conflito com a decisão majoritária das cortes dos países vizinhos, dos tribunais internacionais e dos tratados que o Brasil firmou e que consideram a tortura crime imprescritível?

Será compatível com a digníssima dignidade do STF seu comportamento poltrão, sinuoso ou simplesmente cúmplice perante os fatos de 2016, ao estender o tapete vermelho para a corja que assaltou o poder? Ocultando-se no biombo da liturgia e do formalismo em vez de estancar um golpe de estado? Dignifica o Judiciário praticar um tipo de justiça que começa e acaba nos salamaleques ritualísticos sem cuidar do cerne das questões, como se a reverência à forma o isentasse de zelar pelo conteúdo? Em termos metafóricos, será compatível com sua dignidade oficiar as núpcias da Anomalia com o Hediondo, apenas porque a noiva usa véu e o noivo fraque?

A implicância do doutor Bento com os chinelos de Joanir é coisa de dez anos passados. O assunto retorna porque, agora, o juiz foi condenado a pagar R$ 12,4 mil de indenização ao lavrador por conta da chinelada. A sentença coube ao juiz Alexandre Gauté. Justiça feita, parece que andamos bem. Mas não.

Aparentemente, temos mais fartura de Bentos do que de Gautés. Como até as traças que se alimentam na biblioteca do STF percebem, a realidade brasileira nunca foi tão obtusa quanto nestes tempos em que a alma nacional parece defecar nas mãos e maquiar-se com o produto. O que torna ainda mais imprescindível a tarefa de identificar – e, claro, louvar — a dignidade do Judiciário.

Aquém do Supremo, é lícito imaginar que a dignidade habite os escalões subalternos. Como na decisão do juiz federal Alcir Luiz Lopes Coelho. No último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, soube-se que o magistrado rechaçou denúncia de estupro praticado contra a ex-presa política Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, de Petrópolis/RJ. Naquele açougue, que operava à margem das próprias leis da ditadura, homens e mulheres foram chacinados, esquartejados e tiveram os corpos incinerados, ecoando as práticas do nazismo. Lá, Inês foi estuprada duas vezes pelo militar Antonio Waneir Pinheiro Lima, de apelido “Camarão”.

Inês não viveu para viver esta outra violência. Ela morreu em 2015, aos 72 anos. Repelindo a denúncia do MPF, o juiz afirmou ser a favor de direitos humanos “de verdade” – dos quais, supõe-se, exclui o de não ser estuprada. E criticou aquilo que definiu como “vantagem à minoria selecionada que serve aos interesses globalistas”. Tencionando, presume-se, salpicar certa erudição no seu despacho, citou o xamã da extrema-direita Olavo de Carvalho, conhecido, entre outras ideias, por contestar Nicolau Copérnico e o sistema heliocêntrico.

Ou quem sabe a dignidade requerida esteja despachando em São Paulo, na 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça? Que anulou os cinco julgamentos que condenaram os 74 policiais militares acusados do massacre do Carandiru. Onde 111 presidiários foram mortos a tiros – muitos alvejados na cabeça, indício clássico de execução — em 1992. Nenhum policial morreu. Nada disso turvou o raciocínio do desembargador relator Ivan Sartori ao concluir que os policiais agiram em “legítima defesa”.

Ou em Santa Catarina? Lá, a juíza do trabalho Herika Fischborn descreveu empregados na colheita de maçãs como sendo “viciados em álcool e em drogas ilícitas” que “perdem seus documentos e não voltam para o trabalho, quando não muito praticam crimes”. Cento e cinquenta e seis desses trabalhadores haviam sido descobertos por auditores do Ministério do Trabalho submetidos à condições análogas ao trabalho escravo. Alojados em choupanas ou barracos, não recebiam salários havia dois meses e, como o empregador lhes tomara os documentos, nem mesmo podiam retornar ao seu Rio Grande natal.

Em Brasília, o juiz federal Itagiba Catta-Preta Neto, conhecido por frequentar as redes sociais postando fotos e montagens contra Dilma, Lula e os petralhas, ganhou musculatura para concorrer ao Guiness Book of Records: sua liminar contra a posse de Lula na Casa Civil em 2016 foi concedida em 28 segundos! O mesmo e magistral magistrado palestrou na III Semana Institucional do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região sobre tema candente: o risco do protagonismo judicial ferir a imparcialidade…

Novamente em São Paulo, o juiz Olavo Zampol Junior, da 10ª Vara da Fazenda Pública/SP, considerou o fotógrafo Sérgio Silva culpado por ser atingido por uma bala de borracha disparada pela PM. Ele perdeu um olho. Silva trabalhava cobrindo protesto contra as tarifas de ônibus quando a tropa de choque desceu a ripa e centenas de pessoas resultaram feridas. O juiz entendeu que a violência policial foi “necessária”.

Quem sabe estará a dignidade do Judiciário nos salários da magistratura? Há quem presuma que sim ao saber que o mais afamado dos juízes, embora de 1ª. instância, viu seu contracheque atochado com 117 mil reais em dezembro último. O que lhe permitiria adquirir 1.170 pares de sapatos de boa qualidade. Para nosso alívio, Sérgio Moro dispõe de calçados suficientes para não insultar a dignidade do Poder a que serve.

A dignidade do Judiciário, tão ardorosamente preservada pelo doutor Bento, pode morar em muitos e imprecisos lugares. Resta, porém, uma certeza: não está nos pés de Joanir e da multidão de joanires que, Brasil afora, revolvem, semeiam e cuidam da terra. Não está nos pés dos outros milhões de joanires que, nas cidades, marcham para defender o trabalho e a renda parca, encarando o cotidiano bruto e brutal. Não está nos chinelos que acolhem pés toscos e gretados, de unhas encardidas e dedos nodosos, como se talhados à faca, desbastados de madeira rude.  Não está, ainda, nos pés, nas mãos e no corpo torturado daquela figura que muitos tribunais costumam afixar nas suas paredes – por crença ou conveniência — e que, silenciosamente, examina o juiz, expõe sua dor milenar e contempla a dor dos que vão pedir justiça.

Benvindos à Era do Novo Normal

"Tudo sob a égide do que era insólito, estapafúrdio ou francamente grotesco mas que hoje está sendo aceito, digerido e assimilado: a Era do Novo Normal".

“Tudo sob a égide do que era insólito, estapafúrdio ou francamente grotesco mas que hoje está sendo aceito, digerido e assimilado: a Era do Novo Normal”.

Ayrton Centeno (*)

Instrumentado por aquilo que se chamou “pós-verdade”, o Brasil ingressou numa nova etapa de sua trajetória de alguns avanços e maiores recuos. Após a última investida – um estágio fugaz de atualização civilizatória – vive a retirada para uma zona de trevas. Tudo sob a égide do que era insólito, estapafúrdio ou francamente grotesco mas que hoje está sendo aceito, digerido e assimilado: a Era do Novo Normal.

No período histórico impreciso em que passamos a viver em 2016 – arrisco um palpite entre as versões sociais do Permiano e do Triássico – o Novo Normal dá as cartas e joga de mão. Legitima-se através das capitanias hereditárias da mídia que, embora decrépitas, ainda subjugam o país à agenda que adotam, impõem e disseminam. Que define o que existe e o que não existe. O que é ou que não é. E, no limite, quem deve receber afeição ou quem merece abominação.

Sua tarefa é respaldar a implantação do Novo Normal. Antes, acionou seus canhões incessantemente contra o governo que seria deposto. Limpo o terreno, suas Panzer Divisions forçaram o impeachment. Sem crime de responsabilidade seria golpe como efetivamente o foi. Mas já era o Novo Normal pedindo passagem. Golpe aplicado, uniu-se o útil – a defesa do governicho temerário – com o agradável – a irrigação com verba pública dos combalidos cofres das empresas. A gratidão deixa-se ver nas manchetes: a economia não está tão ruim quanto aparenta, há fortes sinais de reaquecimento, a Bovespa reage, Meirelles sabe das coisas. É o Ministério da Verdade em ação. Orwell não faria melhor.

Ironicamente, o Novo Normal não é novo. É arcaico. Algumas de suas novidades remetem ao século 19. Tampouco é normal. É bizarro. Sua imposição é avassaladora no cotidiano mas não pretende publicidade. Antes deseja passar despercebido. Apresentar-se como algo que sempre foi assim. Que sempre esteve aqui e contra o qual não existe fuga ou remédio.

Só assim o Novo Normal consegue o efeito que procura. Só assim alguns eventos se encaixam numa sociedade apalermada e não numa comédia de costumes. Só assim torna-se banal um réu delatado 43 vezes levar seu juiz para um passeio em Portugal.

Somente na Era do Novo Normal entende-se como fato nada mais do que tedioso o encontro entre o mesmo réu, o mesmo juiz e mais um réu do mesmo juiz para uma conversa domingueira amena na residência do primeiro réu à sombra convidativa de uma árvore.

Só mesmo com a autoridade do Novo Normal seria possível um dos réus acima indicar para ministro da suprema corte, um candidato três vezes acusado de plágio acadêmico, que, pitorescamente, fez pós-doutorado antes do doutorado, tomou zero em prova para professor de direito, mostrou-se inepto e mentiroso enquanto ministro da Justiça, submeteu-se à sabatina informal de senadores e delatados num barco-puteiro do lago Paranoá, e que, aceito no STF, será justamente o revisor dos processos da Lava-Jato e que implicam justamente aquele que o indicou e boa parte de seus examinadores no Senado.

Em nenhum momento da História senão da Era do Novo Normal seria considerado normal o novo ministro da Educação, tão logo assentou os glúteos no trono da pasta, receber de um ator de filmes pornôs como “Foda Radical” dicas de como salvar o Brasil e as crianças brasileiras.

Nada senão a Era do Novo Normal permitiria a médicos,com o compromisso de salvar vidas conforme o juramento e o sentido de sua profissão, frequentarem o Facebook para sugerir modos de assassinar pacientes.

Quem, exceto o Novo Normal, admitiria que juízes do tribunal dos tribunais decidam julgar calcados muito mais em subjetividades, conveniências e acordos políticos do que na letra fria da lei?

Em que outra época, senão a do Novo Normal, seria aceitável que uma corte suprema opine de um modo – para inviabilizar um governo – e depois de maneira totalmente oposta embora a questão em julgamento fosse exatamente idêntica – para viabilizar outro governo?

Sob o Novo Normal aceita-se que um governo eleito e legítimo seja removido sem crime e que, no seu lugar, instale-se, sem votos, uma tropa de delatados, a escumalha da ribalta política nacional, para, de pronto, deflagrar a dilapidação frenética do patrimônio do país.

Um governo onde, à semelhança da crônica policial, seus protagonistas e cúmplices atendem por apelidos como “Careca”, “Caju”, “Angorá”, “MT”, “Primo”, “Índio”, “Botafogo”, “Missa”, “Boca Mole”, “Gripado”, “Santo”, “Justiça”, “Caranguejo”… Assim são descritos, com escárnio, pelos diretores da Odebrecht na lista de dinheiro distribuído sorrateiramente pela empresa.

Apenas sob a normalidade do Novo Normal uma nação de jovens, com maioria negra e também maioria de mulheres, poderia ser governada por um colegiado espúrio de homens, ricos, velhos e brancos.

O Novo Normal acha normalíssimo o Executivo e o Legislativo, mancomunados, congelarem por 20 anos os gastos com saúde e educação. Quem, afinal, precisa dessas duas bobagens?

Na Era do Novo Normal restringir – agora, para banir mais tarde – o ensino de filosofia, sociologia, artes e história no ensino médio – disciplinas emancipadoras, imprescindíveis para compreender a vida e o mundo numa época de tantas fragmentações — não resulta em mais do que sonolência.

Somente na Era do Novo Normal um juiz de primeira instância decreta um festival de prisões preventivas ao ponto de vulgarizar tal instrumento e, ao se defender, proclama que os tempos são “excepcionais”. E, portanto, dane-se a ausência de provas, dane-se a presunção de inocência, dane-se a Constituição.

Refulgindo sob os holofotes de seus parceiros midiáticos, o mesmo magistrado transfigura-se numa cornucópia de vazamentos seletivos, entre os quais um grampo telefônico da presidente da república e de seu antecessor numa clara, grave e aberrante ilegalidade que deveria, de imediato, apartá-lo da lide. Não, porém, segundo as diretrizes do Novo Normal.

No Novo Normal ganham foro de trivialidade atitudes como as de sair à rua para pedir a volta da ditadura militar, de pedir bala na cara para quem pensa diferente, de intimidar pessoas que vestem vermelho!

Logo, daqui há pouco, quando o pior parlamento que o dinheiro pôde comprar, votar e aprovar a reforma da previdência urdida à socapa e você souber que somente se aposentará post mortem, não estranhe. Também não estranhe quando a destruição das leis trabalhistas deixá-lo desamparado frente à injustiça. Compreenda que, com o advento dos novos velhos tempos, todo o Brasil se converteu em campo de caça. É um território completamente aberto à predação. É um vasto galinheiro administrado pelas raposas. E, lembre-se: você é uma galinha. Benvindo à Era do Novo Normal.

(*) Ayrton Centeno é jornalista.

Algo & Ritmo e o sertanejo informático do STF

Entrevista com a dupla caipira Algo & Ritmo, que pratica o sertanejo informático, somando elementos nativos com a função de oráculo pós-moderno.

Entrevista com a dupla caipira Algo & Ritmo, que pratica o sertanejo informático, somando elementos nativos com a função de oráculo pós-moderno.

Ayrton Centeno

Nem o que o Trump tem dentro da cabeça nem o que tem em cima da cabeça causaram mais celeuma nos últimos dias do que o algoritmo do STF. Aliás, as pessoas nem sabem o que é algoritmo. Ou melhor, não sabiam. Graças ao nosso esforço foi possível, enfim, desvendar o mistério. A começar pelo fato que não é algoritmo mas Algo & Ritmo, dupla caipira que pratica o sertanejo informático, somando elementos nativos com a função de oráculo pós-moderno. Algo é algo misterioso, lacônico, enquanto Ritmo tem o suingue, o veneno e o algo mais. Os dois contaram de suas performances no Judiciário, Ministério Público e na mídia. “Eles todos nos adoram”, confidenciou Ritmo enquanto afinava sua viola e fazia uma espécie de gargarejo para apurar o falsete.

P- Vocês fazem sertanejo de raiz ou sertanejo universitário?

R– Fazemos de tudo.

P – Expliquem melhor.

R– Depende de quem contrata a gente. No TSE, a pedido do Gilmar, fazemos Sertanejo Jurídico.

P – Mas como é isso?

R– Na hora de decidir quem julgaria as contas de campanha de Dilma e do PT, o Gilmar caiu doente. Cuspia, arrotava e peidava o tempo inteiro. E se coçava todo. Teve uma crise de urticária. Queria porque queria botar a mão no troço pra ferrar os réus. Aí, chamou a gente pra dá um jeito…

P- Qual é o método que adotam?

R – Botamos os papeizinhos com os nomes dentro do meu chapéu e o Algo, de olhos fechados, pega um deles, mostra pra mim e eu digo: “…and the Oscar goes to…” Brincadeirinha… Mas é assim, completamente imune a erros.

P – Pensei que Algo & Ritmo fosse um troço mais sofisticado…

R – É impossível dar errado. Veja, nesse caso, todos os papeizinhos tinham escrito a mesma palavra: Gilmar.

P – Impressionante. E o tal Sertanejo Jurídico?

R – Como o Gilmar estava mais faceiro que mosca em tampa de xarope, puxamos as violas e abrimos o berro: “Vosmecê queria ferrá o petê/ Foi fácil pegá esse osso/ E nem precisô, veja vancê/ de capangas de Mato Grosso”….

P – E é sempre assim?

R – No STF enfiamos o Fachin na parada da Lava-Jato, embora ele estivesse na pior colocação: era o ministro com mais ações e seria o último em qualquer circunstância. Mas não contavam com a astúcia de Algo & Ritmo…

P – Onde mais atuaram?

R– Em Curitiba, por exemplo. Tava dando muito na vista o Moro não prender a mulher do Cunha. Daí, ele nos chamou. Queria usar nossa tecnologia de ponta. Fomos lá e, pá!, resolvido! Ficou tão contente que ligou pro Cunha pra lhe dizer que não chatearia mais a patroa, que ela podia continuar comprando contêineres de bolsas em Miami. E cantamos, então: “Dizem que só acha o que qué achá/ Que esqueceu do Mineirinho/ É a injusticia do povo a falá/ Só porque é seu maió amiguinho”…

P – Mas vocês são bons mesmo nesse negócio!

R – O Moro até abriu uma conta com a gente. Liga toda semana. Queria exclusividade mas o Janot ficou com ciuminho…

P – O Janot também é freguês?

R – Mas você nem imagina! Pra ele adotamos o Sertanejo Procurador. Sabe a encrenca antiga aquela do Aécio com Furnas que o Janot faz de conta que não existe? Tava nervoso, queria respaldo técnico, então nos convocou pra desatar o nó e preservar a ética. Tarefa cumprida, dançou junto no repique das violas: “Diga de sã consciência/ Seu meretíssimo dotô/ se existe maió ciência/ Do que nosso Sertanejo Procuradô…

P- E quem mais?

R – O Dallagnol nos mostrou aquele páuerpointe todo frajola. Gritava “Alelula! Alelula!”…

P – “Aleluia” você quer dizer…

R – Não era “Alelula” mesmo porque ele queria pegar o Lula…

P – Ah…

R – Avisamos que o páuerpointe pro futuro ia dar chabu. Ficou possesso. Mandou o japonês da tornozeleira nos jogar na solitária. Queria uma delação premiada. “De quem?, perguntamos”. E ele: “Sei lá, vejam aí”, respondeu. “Só se for da Mãe do Badanha”, disse o Algo. E o Dallagnol: “Se a Mãe do Badanha for do PT, serve”.

P – E como saíram de lá?

R – Foi um problema. Mas quando saímos cantamos pra ele: “Dalanhó foi pra Arvárdi/ pra aprendê a rezá/ ficô lá até mais tárdi/ Pra bem de se acostumá/ Semos fio de Eva e Adão/ Pra ele isso é um fato/ Agora, sua grande missão/ É botá o Darwin na Lava-Jato…”

P – De onde veio este talento de Algo & Ritmo?

R – De família. Nossos pais, Eduardo Algo e Vicente Ritmo, também formavam um duo eclético. Meu velho, danado por uma roleta, os amigos chamavam de Vicente Viciado. Depois virou só Viciado. E seu Eduardo, de apelido Dado, junto com meu pai mudou a história bem antes de Algo & Ritmo. Era a dupla Dado & Viciado. Tinha muita freguesia…

P – Quem era cliente de Dado & Viciado?

R – O Marinho, por exemplo…

P – O Roberto Marinho, da Globo?

R – Claro, quem mais seria?

P – Que serviço Dado & Viciado fizeram pra Globo?

R – Quando o Marinho ainda não sabia se apoiaria o golpe de 1964 chamou nossos velhos. “Me ajudem”, implorou. Dado & Viciado entenderam a emergência. Jogariam o dado e se caísse o número seis, o Marinho podia subir nos tanques com os milicos. Se desse um, ficaria na resistência. Deu seis e ele fechou com o golpe.

P – Baita lance high-tech…  

R – Aí já tinha um algoritmo, sabe como é? Na verdade, os velhos usaram um dado que tinha seis em todas as faces. Porque sabiam o que o cliente queria. E o cliente tem sempre razão.

P – E o que cantaram pro Marinho?

R – “Marinho, velho Marinho/ entre no golpe correndo/enfie fundo o seu focinho/ vá com a mídia, o rico e o reverendo/ Chame o golpe de revolução/ e o resistente de bandido/ nem percisa precaução/ é dinheiro ganho, nunca é perdido”.

P – E a Globo também contratou Algo & Ritmo?

R – Ih, o tempo todo. Naquela edição do ato das Diretas que virou aniversário de São Paulo, na edição do debate de 1989 no Jornal Nacional, agora, na hora do golpe de 2016…

P – Como foi desta vez?

R – Desta vez a dúvida deles não era apoiar ou não apoiar. Era se apoiariam gritando ou na surdina. Claro, deu gritando.

P – Foi fácil, então…

R – Fácil foi. Difícil foi chegar até os Marinho. O Merval e o Ali Kamel tavam naquela faceirice de guri que ganhou sapato novo. Cada qual queria puxar mais o saco dos Marinho. Eufóricos porque havia três Marinhos e, portanto, três sacos. Mesmo assim, ficaram se toureando pra pegar o saco vago. “Esse também é meu”, dizia um, agarrando. E o outro: “Ah, deixa eu pegar só um pouquinho”.

P – Como é bonita a devoção ao jornalismo…Mas qual foi o som de Algo & Ritmo na ocasião?

– “Vocês acha que o povo é lixo/ nem discuto, respeito a ideia/ Então se juntem ao governicho/ que também odeia a patuleia/ Defendam de dia o Quadrilha/ De noite o Gato Angorá/ O MT e o resto da camarilha/ e se preparem pra faturá”.

P – Quanta poesia…

R – Poesia de resultados…

P – O que você respond…

R – Péra aí! Tão me ligando… (Falando ao celular) “Sim, eu sei… Pode deixar…Já vamos praí. Beijo no Toffoli. Tchau”… Era o Gilmar. Quer Algo & Ritmo no STF com urgência urgentíssima. É aquela ação que botou ele em sinuca de bico: como impediu a posse do Lula na Casa Civil, querem que também julgue a posse do Gato Angorá no ministério do Capiroto. Vamos ter que tirar ele dessa gelada. Vai ter que acabar a entrevista por aqui…

P – Então, dê uma palhinha da moda de viola que vão cantar pro Gilmar…

R – Tudo bem, Algo? Sim? Então vamos lá: “Se corrê o bicho pega/ Se ficá o bicho come/ Não sabe se acata ou nega/ Fazer o quê com o homi?/ Vancê vai sentá em cima/ E deixá a ação pro além/ A mídia vai chamá de obra-prima/ Do Angorá e de vosmecê também”.

P – Ei, tá dando no rádio agora que o relator dessa bronca vai ser o Celso de Mello…

R – Viu só? Algo & Ritmo também faz monitoramento à distância…Então vamos cantar uma pro Celsão: “Vosmecê se rebelô/ Aconteceu ano passado/ Foi quando Lula falô/ Que vosmecês tava acovardado/ pois deu-se agora a ocasião/ de respondê ao falado/ mostre que tem colhão/ e deixe Angorá desmamado”.

(*) Jornalista

Criticado, 2016 reage: “A culpa é de vocês!”

tempo

Ayrton Centeno

Mas ia o matusalênico 2016 saindo do calendário para entrar na História quando consegui fisgá-lo pela ponta do camisolão puído. Virou-se deixando ver a barba comprida e branca que lhe batia quase à altura do umbigo. Dirigiu-me um olhar enviesado, algo entre contrafeito e iracundo. Sem dar tempo ao tempo – curtíssimo, aliás – joguei-lhe a primeira pergunta nas fuças já com ar provocativo:

P – Então, você fez o que fez e ia saindo à francesa, sem prestar contas do despautério que foi sua passagem por aqui?

R – Pois falaram tão mal de mim que, não fosse meu mandato estar chegando ao fim, eu renunciaria…

P- E porque não renunciou lá pelo verão passado, deixando o 2017 tomar conta do seu boteco? Ele cumpriria um mandato tampão até dezembro e, agora, na virada do ano, na hora dele assumir, passaria o cetro direto pro 2018, com eleições etc…

R – Se soubesse que o troço ia ficar do jeito que ficou… Mas achei que, talvez, ainda desse pra consertar e fui ficando…

P – Mas vá ser otimista lá em 1964, seu gagá! Cunha, Temer, Quadrilha, Mendoncinha, Gato Angorá, Renan, Bolsonaro, Marchezan, Dória, Caiado, Serra, Aécio, Crivella, Jucá…Até o Al Capone iria ficar com inveja…

R – Pára aí! Toda essa catrefa que você citou andava por aí faz tempo. São crias da ditadura, do FHC, do Collor. Não tenho nada a ver com isso. Eles só viram uma janela de oportunidade e… Crã!…deram o golpe…

P- Crã? Você é do tempo do Crã? Faça-me o favor…Além do mais, a tal janela de oportunidade ocorreu no seu mandato e você ficou mais quieto que guri mijado…

R- Não me jogue esta culpa! Dei um tempão pro Teori Zavascki pensar no caso do Cunha. E ele gastou seis meses pensando e pensando sentado no seu piniquinho. E só meteu o pé na bunda do Cunha depois que o Cunha fez a caveira da Dilma.

P- Não acredito que você pegou a democracia que o 2015 lhe repassou e, agora, vai entregar um governo golpista pro 2017 e ainda fica inventando desculpas!

R- Ei, vamos baixar a bola, seu canetinha. A propósito, o 2015 não tá com essa bola toda. Lembra como foi a gestão dele? Era só conspiração, sacanagem e pancadaria da mídia. E foi o ano em que o Cunha, o Moro e o Aécio aprontaram todas.

P – E as passeatas dos coxinhas?

R – E lá eu tenho culpa se uma cambada de pascácios patrocinados pelo PSDB e a Fiesp e turbinados pela mídia resolveu se fantasiar de CBF, botar a bunda de fora na avenida e pedir a volta da ditadura?

P – Pascácio é bom…

R- De mais a mais, não dá pra condenar a mim nem ao 2015. Não se esqueça de 2014 quando foi eleito o pior congresso desde que Cabral botou o pé nessa joça… E os caras, de imediato, elegeram o Cunha presidente da Câmara.

P – O que você está querendo dizer?

R- Somente o óbvio, Caneta: que a culpa da merda toda é de vocês. Que eu sou apenas o rio que recebeu a avalancha de esgoto não tratado que vocês jogaram sem parar no meu leito.

P- Mas você não tomou nenhuma atitude!

R – E você acha que é fácil? Trabalho com o material que me dão. Você quer que eu vá esculpir um diamante a partir de um cocô?

P – Você ainda quer se defender? Foi um ano de atentados, massacres, furacões, desastre de avião, desemprego, fundamentalismo babaca, destruição do patrimônio do país, entrega da Petrobrás, avanço da direita, do racismo, do preconceito, da ascensão do pior do pior da humanidade. Isso sem contar a ida do Inter pra Segundona. Me admira que você não tenha tirado uma selfie com o Trump. Ele é a sua cara.

R – Trump? Também fica na minha conta? Se fosse a Hillary você acha que seria melhor? Pro quintal deles – ou seja, vocês – daria no mesmo. Vão levar ferro no rabo do mesmo jeito…

P – Estou sentindo você muito pra baixo…

R – E não é pra estar? No fundo, eu queria que o meu período fosse outro. Fazer um papado luminoso que nem o do Francisco. Mas, agora, saio apedrejado.

P – Acha uma injustiça, né?

R – Acho sim. Pelo resto dos tempos todos se lembrarão de 2016 como o ano da burrice, da violência, da intolerância, da hipocrisia, da mentira, do renascer da barbárie…

P – Alguns dizem até que você não foi ano mas ânus…

R- Sem contar esse tipo de deboche…Vocês devem estar sonhando com um novo 1968. Pois é, o Meia Oito até hoje continua desfilando no Departamento dos Anos Passados com calça jeans, t-shirt, tênis, Marcuse no sovaco, um baseado no bolso e um molotov na mão. Faz o maior sucesso. Já o Meia Quatro anda fardado de milico e ninguém leva o tipo a sério.

P – Bem que o 2017 poderia se inspirar no Meia Oito…

R – Não esqueça que o Meia Oito, na saideira, deixou o AI-5 pro Bananão…

P – De novo, socializando a lambança. Caraca! Vá fazer análise! Você nos levou o Muhammad Ali, o Fidel, o Bowie, o Umberto Eco, o Cruijff, o Lake e o Emerson do Emerson, Lake & Palmer, o Leonard Cohen, o Dom Paulo, o Ferreira Gullar, o George Martin, o Ettore Scola, a Debbie Reynolds, entre muita gente boa. Na finaleira, nem a Força conseguiu impedir que você levasse a Princesa Leia e nos deixasse Jabba The Hut. É típico do seu caráter: levou a mocinha e nos deixou o vilão…

R – Jabba The Hut?

P – Vai dizer que não acompanha a saga? Jabba the Hut, que aqui a gente pode chamar de Gilmar Mendes…Vá ver: é a mesma lata, foram separados no nascimento.

R – Bem, a conversa tá boa mas tá chegando a hora.

P – Já vai tarde!

R – Quanta originalidade…Ei, quem vem vindo lá longe no meio da bruma? Será que estou vendo bem? É ele, é o garotão 2017…

P – Não pode ser. Aquele vulto tem guampas e cauda…

R – Pois é. Desconfio que vocês vão ter saudade do velho aqui…

P – Pois que venha. Se for quem estou pensando, vamos botá-lo pra correr. Mas antes vamos capá-lo!

“Nunca vi um Supremo tão merda”: 30 frases que abalaram 2016

"2016 tem sido pródigo em violências e besteiras embora avaro em dignidade".

“2016 tem sido pródigo em violências e besteiras embora avaro em dignidade”.

Ayrton Centeno 

  Sim, ainda não bimbalham os sinos, não se ouve o Jingle Bells e Papai Noel sequer atrelou suas renas que pastam as últimas gramas da Lapônia. Temos pela frente um naco de novembro e o dezembro todo e, portanto, essa porra de 2016 – como diria o saudoso Jucá — ainda pode aprontar outras muitas e más. Porém, seguindo o conselho de Dom João VI ao seu filho e príncipe Pedro, resolvi apresentar esta lista antes que um aventureiro qualquer o faça. 2016, sabemos todos, tem sido pródigo em violências e besteiras embora avaro em dignidade. Foi duro escolher as 30 frases mais significativas. E, como todas as listas, esta não escapará da velha sina: polemizar sobre o que foi incluído e o que foi desprezado. Aliás, às vezes as frases nem aparecem isoladas mas como declarações com direito a mais de um período para captar o contexto. Não se acanhem. Opinem. Há muitas e boas mas, de minha parte, se tivesse que escolher uma só – sem entrar no mérito da questão — ficaria com a devastadora sentença de Sérgio Machado sobre o STF como o raro e rude retrato de um poder que se apequenou. Adiante!

1) “Nunca vi um Supremo tão merda”. (Ex-senador do PSDB, Sérgio Machado, em conversa gravada com o então ministro Romero Jucá)

2) “Com uma base militar na Venezuela, Putin estará a um passo de atacar o Brasil. Estão rindo? Pois eu estou falando sério” (Advogada Janaína Paschoal, autora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff no twitter, prevendo um ataque russo. Antes pediu a Temer para “libertar a Venezuela de Maduro”)

3) “Eu nunca cuidei dos pobres. Eu não sou São Francisco de Assis. Até porque a primeira vez que eu tentei carregar um pobre no meu carro eu vomitei por causa do cheiro”. (Rafael Greca, do PMN, candidato a prefeito de Curitiba, num momento Justo Veríssimo)

4) “Muito obrigado, Presidente! Eu quero visitá-lo logo na Argentina”. (Temer falando com um hermano radialista pensando que era o presidente Maurício Macri)

5) “Gostosa”. (Ministro Geddel Vieira Lima respondendo à pergunta no twitter sobre qual era a sensação de assumir o poder sem voto popular)

6) “Tenho muita alegria de ser golpista ao lado de ministros como Carmen Lucia, como Antonio Dias Toffoli, e todos aqueles que declararam que o impeachment é constitucional”. (Senadora Ana Amélia, do PP gaúcho considerando que estaria blindada ao invocar o STF mas sem saber que a corte referendou o golpe de 1964)

7) “Será que o jornal americano também está na folha dos companheiros?” (Colunista de Época, Guilherme Fiúza, desconfiando que The New York Times, que denunciou o golpe no Brasil, fora comprado pelo PT…)

8) “O dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius”. (Blogueiro de Veja, Reinaldo Azevedo, atacando o filme brasileiro cujo elenco denunciou o golpe em Cannes. Sua frase foi usada pelo diretor Kléber Mendonça justamente para promover Aquarius…)

9) “Meu voto é para dizer que o Brasil tem jeito e o prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com sua gestão”. (Deputada Raquel Muniz, do PSD, ao votar pelo impeachment de Dilma, elogiando o marido prefeito no interior mineiro. No dia seguinte, o marido foi preso sob acusação de corrupção)

10) “Para mim, que gente assim sejam as próximas vítimas, que sejam eles a sangrar e deixar suas famílias enterradas”. (Radialista Alexandre Fetter, da rádio Atlântida, do grupo RBS, sugerindo que, por criticarem abusos policiais, jornalistas ou formadores de opinião e seus familiares deveriam ser alvos dos criminosos)

11) “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”. (Novamente Sérgio Machado conversando com Jucá sobre os políticos com o rabo preso na Operação Lava-Jato)

12) “Os caras (ministros do Supremo) dizem ‘ó, só tem condições de sem ela (Dilma). Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca”. (Romero Jucá na mesma conversa sobre tirar Dilma para travar a Lava-Jato)

13) “Essa porra desse governo nem começou, não sabe se comunicar e já faz a reforma sem consultar ninguém”. (Apresentador Faustão, da Globo, criticando o governo que sua emissora – e ele próprio – ajudaram a inventar)

14) “Tinham prova, pegaram o avião, viram a cocaína, mas não tinham convicção, aí liberaram”. (Lula, cutucando o MPF e a PF ao trazer à cena o estranhíssimo caso do helicóptero da família do senador Zezé Perrela (PTB/MG), apreendido com meia tonelada de pasta de cocaína. Os donos saíram ilesos do flagrante…)

15) “Não houve massacre. Houve legítima defesa”. (Desembargador Ivan Sartori, do Tribunal de Justiça paulista, ao pedir, como relator, a absolvição dos 73 policiais responsáveis pelo massacre do Carandiru, em São Paulo. Na chacina, morreram 111 presos, dos quais 90,4% com tiros na cabeça e pescoço, indício clássico de execução).

16) “Não temos justiça, temos Gilmar Mendes, Celso de Mello e coisas assim.” (Jornalista Mino Carta, descrevendo o Judiciário no Brasil)

17) “Estamos em tempos excepcionais”. (Juiz Sérgio Moro, procurando justificar o excesso de prisões na Lava-Jato)

18) “Eu estou protegendo você, seu filho da puta!” (Ciro Gomes advertindo integrante de grupo que fazia alarido pedindo o golpe. Referia-se ao fato de que se sabe como começa um golpe mas não como e quando ele termina)

19) “Globo é a praga principal do Brasil”. (Jornalista norte-americano Glenn Greenwald, vencedor do Prêmio Pulitzer, no twitter)

20) “É um bufão reacionário contra o direito do trabalho, um escravocrata”. (Ex-ministro Miguel Rossetto sobre Gilmar Mendes, depois que o ministro do STF criticou a “hiperproteção do trabalhador” no Brasil e acusou o Tribunal Superior do Trabalho (TST) de “má vontade” com o patronato)

21) “O PSDB é a UDN atual. (…). É um partido elitista, dependente e colonialista”. (Fundador do PSDB e ex-ministro de FHC, Luis Carlos Bresser Pereira)

22) “Querem me excluir do PMDB porque não sou ladrão”. (Senador Roberto Requião, do PMDB, no twitter)

23) “Deve-se aos grupos de mídia não apenas a deposição de uma presidente eleita, como o agravamento inédito da crise, a apologia do ódio e a subversão das notícias”. (Jornalista Luis Nassif)

24) “Ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável”. (Presidente do Senado, Renan Calheiros, falando sobre Dilma em conversa gravada com Sérgio Machado)

25) “É um governo reacionário, retrógrado e gagá”. (Ex-ministro de FHC, Paulo Sérgio Pinheiro, discorrendo sobre a gestão Temer)

26) “Hitler massacrou três milhões de judeus. Agora há aqui três milhões de viciados. Eu gostaria de massacrá-los todos”. (Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, o mesmo que chamou Obama e o Papa Francisco de “filhos da puta”)

27) “Nós precisamos do aquecimento global!” (Donald Trump, presidente eleito dos EUA, argumentando que o conceito de aquecimento global foi criado “por e para os chineses” para que a indústria manufatureira americana não seja competitiva)

28) “Quem não tem (dinheiro) não faz universidade”. (Nelson Marquezelli, deputado do PTB, defendendo a “PEC da Morte” e seus cortes na educação. Seus filhos, como acrescentou, vão fazer universidade porque podem pagá-la).

29) “Vocês estão aqui representando o Estado, e eu convido vocês a olhar a mão de vocês. A mão de vocês está suja com o sangue de Lucas. Não só do Lucas como de todos os adolescentes que são vítimas disso”. (Estudante Ana Júlia Ribeiro, 15 anos, discursando na Assembléia Legislativa/PR defendendo as ocupações de escolas e acusando os deputados pela morte de um colega e pela tragédia da educação brasileira).

30) “São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam”. (Papa Francisco)

Sérgio Moro tem razão

"Era preciso, em 1964 e agora, maquiar o Abominável, trajá-lo com decência e alguma elegância, banhá-lo na liturgia, torná-lo asséptico e tragável".

“Era preciso, em 1964 e agora, maquiar o Abominável, trajá-lo com decência e alguma elegância, banhá-lo na liturgia, torná-lo asséptico e tragável”.

Ayrton Centeno

Sim, é verdade: Sérgio Moro está coberto de razão. É preciso reconhecer que acertou em cheio. Não há o que discutir sobre uma de suas mais recentes declarações. Sobre o pensamento que generosamente compartilhou com a plebe que refocila dez degraus abaixo do pedestal onde é adorado diuturnamente e iluminado pelos holofotes midiáticos que delineiam sua silhueta em contraluz. O juiz da 13ª. Vara Federal de Curitiba falou com exatidão e as evidências a respeito se amontoam lubricamente umas sobre as outras, a saber:

Moro tem razão porque a ministra Rosa Weber, ao julgar a AP 470, o chamado Mensalão de Bob Jefferson, condenou o ex-ministro José Dirceu sem provas, essa bobagem garantista que tanto atravanca o devido processo legal. Ela explicou que mandaria o réu ao calabouço mesmo não dispondo de provas porque a literatura permitia que assim o fizesse.

Moro está certo porque o Ministério Público Federal, maravilhando a ralé com seu sinistro pauerpointe, igualmente denunciou Lula dispensando a tal abobrinha das provas.

Moro foi ao alvo porque uma presidente da república sofreu impeachment sem crime de responsabilidade, embora a Constituição estabeleça que, não havendo a prática do delito, o afastamento é inadmissível. Mas, apesar da lei, dessa forma ocorreu e 54 milhões de votos acabaram incinerados na pira dos interesses inconfessáveis.

Moro falou bem porque o ministro Teori Zavascki, do STF, zarpou em férias forenses após receber o pedido de remoção de Eduardo Cunha da presidência da Câmara. Inabalável, bronzeou o crânio e retornou como se vivêssemos em plena modorra institucional, embora Cunha, abusando de seus poderes, tramasse abertamente a derrubada do governo constitucionalmente eleito. Placidamente, sentou-se mais cinco meses de 2016 sobre a decisão que poderia ter tomado em 2015.

Moro foi certeiro porque um ex-presidente da República, de forma inédita na história do país, foi arrancado de casa e conduzido coercitivamente à PF por um pelotão de stormtroopers que desembarcaram em São Bernardo como se estivessem no teatro de guerra da Síria. Candidamente informou-se que a operação deveria servir para “protegê-lo”. Lula nunca se negou a prestar esclarecimentos e poderia, intimado, ir até a delegacia com as próprias pernas. Mas disso não se cogitou. Alguém sugeriu que, se assim fosse, não haveria espetáculo mas, claro, deve ser somente mais uma insinuação maldosa.

Moro atingiu o alvo porque em Pindorama dá-se uma esquisitice que nos torna ainda mais peculiares sob a visão do mundo exterior: aqui apenas são perseguidos, enjaulados e condenados – nessa ordem mesmo, a jaula frequentemente antes da culpa – os habitantes de certo lado do espectro político. Os demais, jamais. É o direito penal do inimigo, dizem por aí.

Moro afirma com conhecimento de causa porque o ex-ministro Antonio Palocci, casualmente às portas das eleições municipais, acabou na prisão. Teria recebido propinas, embora delas não houvesse comprovação. Conclui-se então que Antonio Palocci foi preso, bizarra e oficialmente, por falta de provas.

Moro está bem fundamentado porque outro ex-ministro de Estado, Guido Mantega, foi buscado pela PF no interior de um hospital onde acompanhava cirurgia da esposa doente. E, também, certamente por coincidência, à beira da eleição.

Moro foi verdadeiro porque um magistrado vazou ilegalmente aos seus parceiros na mídia gravações de conversa entre um ex-presidente e aquela que era, então, presidente da república. O vazamento provocou orgasmos múltiplos na Rede Globo e levou o Jornal Nacional ao nirvana. O doutor Zavascki resmungou que aquilo era uma barbaridade mas o troço caiu em exercício vencido. E tudo ficou como antes no quartel de Abrantes.

Moro obrou bem porque acórdão de setembro do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) diz que sim. Que é assim mesmo. Que é preciso fazer olho branco para algumas leis inoportunas e, cá entre nós, francamente enfadonhas.

É por tudo isso que Moro tem razão quando afirma que “estamos em tempos excepcionais”. Impossível discordar. São tempos que, cada vez mais, assemelham-se ao período que medeia entre 1964 e 1985, o do culto à excepcionalidade. Pós-1964, exaltou-se o excepcional. Tempos excepcionais impunham legislação excepcional. De exceção. Leis e atos excepcionais, entre eles o Ato Institucional no. 5. Lá como cá, tribunais abençoaram o golpe, chamando-o “democracia”. Era preciso, então e agora, maquiar o Abominável, trajá-lo com decência e alguma elegância, banhá-lo na liturgia, torná-lo asséptico e tragável. O que se fez. O que se está fazendo.

Tudo porque golpes no Brasil não abdicam da formalidade, talvez legado do nosso bacharelismo atávico. Devem ter uma aparência respeitável. Sob o golpe, ocorre um enaltecimento à superfície do fenômeno, mascarando-se sua fachada com as cores da legalidade. O que acontece através de palavras, normas, ritos. Servem para negar sua essência através de uma casca que tem tanto de frágil quanto de ilusória. Seria como usar o mais fino papel laminado, a mais bela caixa e a fita com o laçarote mais vistoso para acondicionar um peixe podre. Com o tempo, o conteúdo vence o continente, rompendo o envoltório, revelando sua natureza e esparramando no entorno o asco indefectível da sua podridão.

Avante brasileiros, pra trás!

Uma ponte para o passado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Uma ponte para o passado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Ayrton Centeno

No alvorecer do milênio, Luis Fernando Veríssimo notou que estávamos ingressando em outro século mas ainda não sabíamos qual. Poderia ser o 21 ou o 19. Bem, demorou 16 anos, mas agora sabemos. Mesmo se não quiséssemos, acabaríamos sabendo. Bastaria contemplar a atual decoração do Planalto.

Na fachada governamental, reluz uma corja imperial abduzida no passado e que viajou mais de 100 anos através dos tempos. E que nos trouxe, além dos velhos e dos velhos costumes, a opressão estetizada através da mesóclise. Foder-vos-ei, brasileiros e brasileiras!

Outras vozes, porém, situam nosso regressismo em ponto mais remoto, a Idade Média, aquela que começou com a queda do Império Romano do Ocidente e que, supostamente, extinguiu-se com o advento da Idade Moderna no século 15. Estaríamos na era pré-cabralina.

Em 2016, os portugueses ainda navegam, tomando vinho, comendo bolacha, temendo as calmarias e o escorbuto e defecando na amurada. Ainda não existimos. Parece um tanto excessivo. Seja como for, o flash back é nossa sina.

Não mais que de repente, tudo se precipitou. Cata-se desesperadamente o atraso. Vê-se nele um charme que a agenda emancipatória ou libertária não parece possuir. Descabela-se o calendário em busca do tempo perdido. Há uma sofreguidão, quase uma luxúria pelo antiquado. O arcaico é sexy, quer nos convencer a não menos vetusta imprensa. Só não nos informa que a supressão de direitos e valores resume seu cobiçado objeto de prazer. Senão, vejamos:

1) Funda-se o governo dos Brancos, Velhos, Ricos, Reacionários e (dizem) Corruptos. Na popular, o BRAVERRC. Mulheres? Só uma como enfeite por causa “dessa história de gênero”, como admitiu o “presidente”. Negros? Nenhum. A exemplo das mulheres, eles são maioria no país mas estamos em falta. Nem no racista Alabama ocorre algo assim. Lá, o governo estadual, nas mãos do Partido Republicano, abriga Fitzgerald Washington, retinto afrodescendente que pilota a secretaria do trabalho.

2) BRICS? Nada disso. O BRAVERRC tem outras ideias. A propósito, para o chanceler José Serra, o nome correto é BRAICS. Os tolos esqueceram de incluir a Argentina na sigla… Serra namora de mãos dadas com os EUA e, portanto, BRICS, BRAICS ou que raio for não interessa. O que interessa, mesmo, é entregar essa chateação da Petrobras para os ianques. Sadia é aquela postura de subordinação perante o Grande Irmão do Norte, como sempre foi no passado. Afinal, já estamos acostumados com a posição em que Napoleão perdeu a guerra.

3) A pedagogia de Paulo Freire está revogada. Para os ideólogos do BRAVERRC, é pura subversão como tão bem percebeu a ditadura militar. Que prendeu Freire, acusou-o de “traidor de Cristo” e o despachou para o exílio. No exterior, Paulo Freire tornou-se doutor honoris causa em 41 universidades, entre elas as inglesas Oxford e Cambridge e a norte-americana Harvard. Na Suécia – vejam só, a cabeça desses gringos… – ergueram-lhe uma estátua! No Brasil, a neopedagogia de Alexandre Frota deve tomar-lhe o lugar. É a Escola Sem Partido Mas Com Sacanagem que ninguém é de ferro.

4) Aposentadoria? Ora, querem moleza, não? Fiquem sabendo que no pretérito imperfeito em que vivemos agora – seja o século 15 ou o 19 – não existe esse trambolho. Doravante, aposentadoria somente aos 70 anos. E isso porque o BRAVERRC é generoso. Claro, muitos brasileiros vão se aposentar em adiantado estado de putrefação. Mas queriam o quê? Ganhar sem trabalhar, vendo Ratinho na TV e pegando remédio de graça na farmácia? “Aposentado é vagabundo”, como bem disse o grande FHC, o farol que jorra seu facho de escuridão na nossa claridade. Sejam patriotas: morram!

5) Questão social? Ora, como disse o velho (mais um) Washington Luis, último presidente da República Velha (outra) e grande inspiração do BRAVERRC, a questão social é um caso de polícia. Pau neles! O governo dos brancos velhos e bons vai capar as despesas da União por 20 anos. Dizem que, com isso, haverá um desastre na educação e na saúde. Bobagem. Além do mais, ter muita educação acaba em problema: muito protesto, reivindicação, greves…E ter muita saúde é sabotar as prioridades da nação. É querer durar muito, se aposentar e ficar mamando nas tetas da Previdência. Coisa de comunista.

6) Salário mínimo atualizado pela inflação? Onde é que vocês pensam que estão? No socialismo do molusco? Ou da dilmanta? Findou-se a mamata. Outro troço que não desce pela goela do BRAVERRC é o tal 13º. Salário. Onde já se viu? Só podia ser coisa daquele João Goulart, fazendeirinho vermelho que sempre foi. Bem que O Globo, na época, nos avisou dessa barbaridade. Depois, vieram os milicos e nem eles tiveram coragem de mexer nesse dinheirinho mal havido da plebe. Mas não contavam com o BRAVERRC. Deixem passar as eleições que virão mais novidades por aí.

Enfim, é um grande projeto que, para ser bem executado, necessita de homens corretos e capazes, devotados à causa pública, profundamente éticos, de elevada estatura moral e acima de qualquer suspeita. Seria uma temeridade desenvolvê-lo sem tais requisitos. Ainda bem que temos exatamente este tipo de gestores no timão da república. Podemos dormir em paz.

Sirvam nossas façanhas de piada a toda Terra

"Progrediu no RS uma propensão incontrolável ao farsesco, uma opção preferencial pela palhaçada."

“Progrediu aqui no RS uma propensão incontrolável ao farsesco, uma opção preferencial pela palhaçada.”

Ayrton Centeno

Marx disse que a História só se repete como farsa. Desconfio que não, Marcão. Ou está certo quanto ao restante do mundo menos no velho Rio Grande sem porteira. Do Mampituba pra baixo e do Chuí pra cima, revogamos a História – a nossa é imutável – e adotamos a Farsa no seu lugar. Nossa história é com H minúsculo e nossa Farsa com F imponente. E se repete de modo interminável. Bem que o barbudo poderia ter nos alertado para tais desvios. Progrediu aqui uma propensão incontrolável ao farsesco, uma opção preferencial pela palhaçada.  Senão o que explica a reprise, eleição após eleição, do mesmo número no picadeiro e sempre sob ovação consagradora?

Em 2002, elegeu Germano Rigotto cuja propaganda eleitoral perdia em complexidade para um programa dos Teletubbies. No governo, enfiou o funcionalismo numa novela de Franz Kafka tomando dinheiro emprestado no Banrisul para pagar o próprio salário. Um teletubbie, por certo, não faria pior.

Em 2004, ressuscitou José Fogaça que, depois de perder mais uma reeleição ao Senado, rumava para casa escrever suas memórias e tocar violão. Extraído candidato do PMDB e após prefeito por obra e graça do antipetismo, Fogaça teve que ser reapresentado à Porto Alegre. Falava-se num bairro e ele respondia “Hã?” Nem conhecia mais a cidade. Compreende-se: passara o século anterior em Brasília, burilando uma das mais pálidas trajetórias de senador de todos os tempos.

Em 2006, a gauderiada foi de Yeda Crusius pra ver no que dava. E viu no que deu.  Yeda nascera do matrimônio entre Pedro Simon e a RBS. Itamar Franco tinha um ministério atulhado de machos e queria uma mulher para deixá-lo mais florido.  Simon disse a Itamar que havia uma economista jovem e bonita que dava pitacos sobre economia na RBS TV. E Yeda virou ministra. E depois deputada federal e depois, azar o nosso, governadora.

Em 2014, foi a vez de José Ivo Sartori. Que gastou seu horário eleitoral perambulando por uma praça e desfiando amenidades. Negou seu partido, negou a política e turbinou uma campanha de platitudes à maneira de Rigotto porém 2.0. Ana Amélia dissolveu-se em pouco mais de uma semana e ele assumiu seus votos. O resto se sabe.

Sartori e sua administração originaram um dos maiores fenômenos da ciência contemporânea, algo que intriga, choca e desafia os físicos de todo o planeta: a desaparição de 3.859. 657 pessoas. Ninguém sabe onde foram parar. São os eleitores e eleitoras do Homem Polenta. Ao lado de itens como emprego, saúde e segurança, todos e todas evanesceram em alguma dobra do tempo.

Com Sartori, um político pífio e paroquial, o Rio Grande caiu para a segunda divisão da política brasileira. Foi rebaixado. Ostenta, politicamente, a estatura de um Luverdense ou Sampaio Corrêa. Desde os interventores nomeados pela ditadura não tínhamos criatura tão inexpressiva no Piratini. A parte partidos e ideologias, não se pode negar a condição de personagens nacionais a Jair Soares, Antonio Britto, Alceu Collares, Olívio Dutra, Yeda Crusius e Tarso Genro ao subirem a escadaria do palácio. Mesmo Rigotto fora líder do FHC na Câmara.

Em 2016, o bravo eleitor já ajeita o nariz de bolota, prova as calças bufantes e remendadas nos fundilhos, ajeita o chapéu florido e retoca a maquiagem de cores berrantes. Respeitável público, o espetáculo vai começar.

É o que promete a última sondagem eleitoral para Porto Alegre (Methodus, 21/09/16) apontando o vice–prefeito Sebastião Melo (PMDB) na ponta com 21% de intenção de votos. Em empate técnico, vem a seguir três candidatos: Nelson Marchezan Jr., que pede uma segunda chance para o PSDB de Yeda, é o segundo com 13,7%; Raul Pont, do PT, surge em terceiro com 11,8%, enquanto Luciana Genro, do PSOL, aparece com 11,5%.

Agora, o papel de Rigotto, Fogaça e Sartori é desempenhado por Melo. Que empunha a máquina, uma coligação de 14 partidos que já ocupam ou orbitam os cargos da prefeitura – algo que a despacha imediatamente ao Guinness Book – e uma retórica de embromation, mesmo lero de Rigotto, Fogaça e Sartori. Representa o situacionismo em uma cidade degradada como nunca havia ocorrido.

Burlescamente, coordenou a campanha do espantoso e atual governador. Em outras palavras, vendeu o peixe do pior gestor e da pior gestão da história recente do Estado. E, neste momento, vende-se a si próprio. Com que autoridade mesmo?

Esquerda dividida, é a primeira vez, em décadas, que se apresenta a real possibilidade da direita emplacar dois nomes no segundo turno. Algo que, em tese, gerará inquietante dúvida nos segmentos economicamente mais vulneráveis da sociedade: qual deles lhes arrancará o couro de modo mais piedoso?

Na Semana Farroupilha, quando o Rio Grande celebra os heróis que se perderam nas brumas do passado, engolfados por uma tradição petrificada em lendas gloriosas, seria mais proveitoso contemplar os dias que correm. Sem ilusões, sem fábulas, sem fanfarras. Olhar no olho as figuras e as realidades presentes. Ver a vida além dos véus. E agir. Antes que tenhamos que alterar o refrão do Hino Riograndense que, pelo andar da carreta, poderia ficar assim: “Sirvam nossas façanhas de piada a toda Terra”.

Lula deve morrer

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Ayrton Centeno

Lula já deveria ter morrido. Cedo, quando nasceu. Quando veio ao mundo em 1945, a mortalidade infantil no Brasil era de 146 x 1000. Quase 150 óbitos antes do primeiro ano de vida em cada mil crianças. Isto na média nacional que, hoje, a propósito, é dez vezes menor. Mas naquele tempo, para quem vinha aumentar família pobre, da área rural e do Nordeste, os números eram ainda mais atrozes.

Um dos 12 filhos de dona Lindu — quatro não sobreviveram — Lula nasceu em Caetés, então zona rural de Garanhuns/PE. Casa de taipa, erguida em barro e madeira, um quarto, uma mesa, cinco redes. Água? Amarela, das poças de chuva, dividida com o gado e povoada por girinos. Comida? Feijão, arroz e farinha, carne rara, às vezes de preá ou passarinho. Proteína animal acessível era a da içá, nome da tanajura no Agreste pernambucano.

Talvez por isso prosperou na região a prática não registrar os bebês logo após o parto. Aguardava-se o segundo aniversário. Era preciso que a criança “vingasse”. Aquelas que sucumbiam antes dos dois anos eram sepultadas sem nome nem história. Agitava-se então um sininho. Na tradição de vidas tão ásperas, era o sinal para informar que mais um anjinho subira ao céu.

Quem sabe a dieta de formiga frita tenha salvado Lula de virar estatística. É bem provável que aqueles que o odeiam passem a odiar também o inseto providencial que matou sua fome e o ajudou a sobreviver. E o sininho não bateu.

Vendedor de tapioca aos sete anos, depois tintureiro, engraxate, metalúrgico e presidente de sindicato, Lula poderia ter morrido naquele sábado, 19 de abril de 1980, quando seis agentes do Dops empunhando metralhadoras foram prendê-lo em casa às 5h30 de uma manhã nevoenta. Uma “condução coercitiva” em São Bernardo cinco anos antes da ditadura exalar seu último suspiro. Temeu, como diria depois, aparecer morto num “acidente” na via Anchieta.

Afinal, sob o regime civil-militar muita gente buscada em casa para “prestar esclarecimentos” nunca mais foi vista. Virou preso político mas, uma vez mais, não morreu.

Lula deveria morrer quando um câncer atacou sua laringe em 2011. Tão logo correu a notícia, as alcateias uivaram em regozijo nas caixas de comentários. “Tenho dó do câncer ter que comer carniça petralha”, lamentou um piedoso internauta. Outras vozes se juntaram para chamar o presidente adoentado — que batera sucessivos recordes de popularidade atingindo índice de 83% de aprovação, o maior da história do país — de “verme”, “crápula”, “desprezível”, “nove dedos” e “imundo”. Mas Lula os decepcionou. E, novamente, não morreu.

Lula deveria morrer muitas vezes. Antes de fundar a CUT em 1983, a quinta maior central sindical do mundo. Antes de conceber o Partido dos Trabalhadores em 1980 que conquistaria no voto, quatro mandatos de presidente da república. Antes do Bolsa-Família, do Prouni, de retirar 27 milhões de brasileiros da pobreza extrema, do reajuste anual do salário-mínimo acima da inflação, do PAC, da ampliação da distribuição da renda, de implantar 14 novas universidades federais (contra nenhuma de seu antecessor), de criar mais de 200 escolas técnicas, da descoberta do pré-sal, da política externa independente…

Lula deveria morrer quando emergiu da plebe rude para reivindicar a Presidência da República. E conquistar um posto que, até então, era reservado por direito divino aos nhonhôs da Casa Grande. E este foi um pecado imperdoável. Mortal.

Lula deve morrer porque morto o querem os donatários das capitanias hereditárias da mídia. Os mesmos que, agora, estertoram em lenta agonia na senda da descartabilidade e da obsolescência. E se aferram ao golpe por razões políticas, partidárias e ideológicas mas, acima de tudo, mirando os cofres do Banco do Brasil e do BNDES como última esperança de sobrevida. Aqueles mesmos que, em 1954, revoluteavam com as “aves de rapina” a que Getúlio aludiu na sua carta-testamento: “A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios” – como se vê, ódio já era o combustível que ardia para conduzir o líder trabalhista ao holocausto. Aqueles mesmos para quem Jango, dez anos depois, apontaria no discurso da Central do Brasil: “A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma (…) A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício”.

Lula deve morrer porque é o desejo de muitos pet-jornalistas: colunistas, articulistas, apresentadores de rádio, jornal e TV e caudatários avulsos. Há quem reproduza a retórica patronal por convicção. E como é benéfico ser abduzido por tais ideias! Sobretudo para preservar a saúde empregatícia, receber aquele tapinha nas costas e, por um átimo, deixar-se levar pelo devaneio de pertencer ao mesmo clube, a despeito do precipício de classe social, renda e poder que cinde mundos tão opostos. Outros o fazem por obrigação, o que é mais compreensível. E existem aqueles que cedem calculadamente por submissão. Neles, é tal a sofreguidão com que entregam suas almas à concupiscência de seu amo que me atrevo a supor que lhe regalariam as polpas com a mesma generosidade caso houvesse algum interesse na oferta.

Lula deve morrer porque tal aparenta ser a aspiração de uma PF cujos delegados agem como militantes da direita nas redes sociais, ultrajando seus superiores. A mesma PF que serviu de polícia política prestando relevantes serviços à ditadura de 1964 sem um só gesto de repulsa ou de contrariedade. E que, na democracia, age sem prestar contas à democracia.

Não é outra, parece, a avidez fundamentalista do MPF, tornado aríete da anquilosada imprensa familiar. E que, nesta quarta, 14, o acusou de obter supostas e milionárias vantagens. E de ser o suposto chefe de um formidável esquema de corrupção. Tão exótico que, nele, quem comanda recebe R$ 3,7 milhões e quem é comandado fatura R$ 100 milhões… Mais fácil crer que tudo se faz com o transparente desígnio de assassiná-lo civilmente. E de barrar sua candidatura nas próximas eleições presidenciais, justamente ele que lidera todas as pesquisas de opinião.

E o que dizer dos anseios de um torquemada de província que se porta como o senhor do universo? Tudo sob o olhar pusilânime e os joelhos tiritantes do STF que, após construir uma breve historia de avanços sociais, acocorou-se na hora de travar os reiterados abusos contra o Estado Democrático de Direito.

Lula deve morrer porque sua morte é o que mais ambicionam as madames botocadas e seus maridos botocudos, a lúmpen burguesia boçal, egoísta e plastificada, clamando pelo golpe nas ruas com seus tênis, óculos escuros e abrigos de grife, seus poodles no colo e seus labradores na coleira. O saudosismo de homens e mulheres brancos, de meia-idade e classe média de um regime assassino que se arrastou por duas décadas de infâmia. A ditadura que seus pais e mães engolidores de hóstias pediram nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade empunhando rosários e rezando aves-marias contra “a ameaça vermelha”. Hoje, a fé, o terço e as orações são arcaísmos. Agora, o nome de Roma é Miami, o da igreja é shopping, o da reza é academia, o da hóstia é botox. Ontem como hoje, porém, o medo e o rancor reverberados com a ascensão da ralé é igual. E, de novo, levaram a um governo espúrio.

Lula deve morrer. Está definido. Mas há um problema: ele não quer. Humilhado e ofendido, aos 70 anos prossegue na caminhada. Embora queiram matá-lo, muita gente não quer que ele morra. Gente que acha que, se Lula morrer, morrerá igualmente um olhar horizontal e inédito que percebeu os deserdados e deles cuidou. Olhou para a maioria e não para os dez por cento de sempre. Está dado o impasse. Para Lula morrer, terão que matá-lo. Física ou civilmente. O que terá um custo que ninguém ainda sabe. E 2018 está logo ali. Os dados estão rolando.

Um cavalo para Cunha

E se o cavalo não vier para Eduardo Cunha – como não veio para Ricardo III, na peça de Shakespeare? A paz viverá de novo?

E se o cavalo não vier para Eduardo Cunha – como não veio para Ricardo III, na peça de Shakespeare?

Ayrton Centeno

Chegou a hora da verdade para o inacreditável Eduardo Cunha. No começo da noite desta segunda, 12 de setembro, será votado o parecer de cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados. Antes, passou-se um ano e um mês da denúncia da Procuradoria Geral da República por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Nove meses após a bancada do PT se recusar a defendê-lo no conselho de ética da Câmara e Cunha, em represália, autorizar a abertura do processo de impeachment contra Dilma. E nove meses também depois que a Procuradoria pediu o afastamento do deputado ao ministro Teori Zavascki, do STF. Procrastinar aparenta ser um verbo incrivelmente popular da Câmara ao Supremo. O país? Ora, o país…

Cunha faz mais sentido como ficção do que como a realidade que, azar do Brasil, na verdade é. A primeira impressão é de um Carlos Lacerda redivivo. Demagogo, agressivo, radical. Mas Lacerda tinha retórica de outra e poderosa cepa. E envergadura política superior. Presidente da Telerj no governo Collor, Cunha logo rumou ao PPB (hoje PP e, no passado distante, Arena) e ao governo de Anthony Garotinho. Elegeu-se deputado federal pelo PPB que trocaria pelo PMDB, emplacando três reeleições. No partido, acostumou-se às sombras das quais só emergiu em 2015 ao empalmar a presidência da Câmara a bordo de uma campanha da qual se diz cobras e lagartos e muitos outros bichos.

Na sua volúpia e ferocidade, Cunha encarnou o malvado favorito do Coxismo militante. Mas, talvez, frequente o imaginário nacional como um cover tropical de Ricardo III, o rei descrito por Shakespeare: ambicioso, dissimulado, traiçoeiro, vingativo. Sobretudo vingativo, no caso do marido de dona Cláudia.

Obcecado pelo poder, Ricardo III elimina quem lhe barra o caminho. Pela boca de muitas das vítimas, Shakespeare chama-o de “pestilenta infecção”, “sapo imundo”, “javali usurpador”. A própria mãe, a duquesa de York, o amaldiçoa: “És sanguinoso, sanguinoso será teu fim”. Uma frase de Ricardo: “Uso os trapos dos livros sagrados e finjo-me de santo sempre que demonizo.” É ou não o Cunha santarrão que, afrontando a democracia, assenhorou-se de um espaço laico, o da Câmara, para um culto evangélico com deputados pastores?

Da peça, a frase mais célebre é a última de Ricardo, aquela que profere momentos antes do aço inimigo provar do seu corpo. Desmontado e derrotado no campo de batalha, necessita rapidamente escapar e iludir a morte: “Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!”, brada.

É, com menor ênfase dramática, a situação de Cunha diante de seus algozes, muitos deles seus apaniguados e, pelos rumores que correm, favorecidos por sua gentileza pré-eleitoral. Cunha está pedindo um cavalo. Na Câmara, a montaria salvadora da sua sobrevivência política não é uma presença mas o seu contrário. A ausência pode ser aquele corcel branco de garupa convidativa erguido sobre as duas patas traseiras no alto da colina. Uma segunda opção, porém, tem sido aventada. Haverá quorum para cassá-lo mas estará em curso outra manobra do engenho legislativo: a produção de uma pena mais branda. Quem sabe uma emenda capaz de converter a cassação em suspensão temporária do mandato? Não deixa de ser apetecível. Cunha sairia de cena montado num potro negro disposto a perdoar aqueles amigos do peito de ontem que hoje lhe enfiariam a espada no peito à moda de Ricardo III.

Porém, se o cavalo não vier – como não veio para Ricardo? Se, em vez disso, venha a guilhotina política que o deixará inelegível até 2026? Bastam 257 votos pela cassação que, a propósito, é a tendência predominante. Afinal, a votação será aberta e nominal. O que um defenestrado Cunha fará? E se, cassado, acabar preso? Ou se sua mulher for presa? Qual será o seu jogo?

Na batalha final shakespeariana, o Conde de Richmond, após matar o vilão, proclama: “Agora as guerras internas estão cerradas; a paz vive de novo. Que ela aqui possa viver por longo tempo, ó Deus, diz Amem”. E no caso do Ricardo que nos coube? Você acredita? É o que veremos.

Dilma d’Arc na fogueira

"Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns dos seus torquemadas". (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

“Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns dos seus torquemadas”. (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

Ayrton Centeno

Sim, aconteceu o que se esperava. “De onde menos se espera é daí mesmo que não vem nada”, pontificou numa de suas tiradas o Barão de Itararé, nome de guerra debochado do gaúcho Aparício Torelli. Queriam o quê? Lisura? Perdão, estamos em falta. Mas temos impostura. É o inverso mas rima. Serve? Aproveite. Sai praticamente de graça. Nosso estoque vai até o teto e estamos em liquidação…

“Se fosse fácil não seria pra nós” costuma dizer outro gaúcho, Olívio Dutra. Não será fácil mas, com certeza, será nossa missão. Entre tanta vergonha, algo nos anima quando se esvai este agosto de maus e confirmados augúrios.

Acontece que uma figura desconhecida da maioria dos brasileiros reapareceu na manhã do dia 29. Veio da história para reentrar na política. Veio dos anos 1970, aqueles chamados, com justiça poética, de anos de chumbo. Veio, mais precisamente, do fundo dos abismos de dor, sangue e humilhação, dos porões da Operação Bandeirante, a Oban, onde fora recepcionada por uma tempestade de insultos – “Mata”, “Terrorista”, “Filha da puta”. Sob socos, pau de arara e choque elétrico, arrastara-se pelas masmorras de São Paulo, Juiz de Fora, Rio e novamente São Paulo.

Em determinado momento, compareceu a um tribunal de exceção – como todos eram, pode-se dizer. Após seis meses de cadeia, foi “legalizada”. Ou seja, passou a existir formalmente como prisioneira política. Um alívio. Era um indicador que não seria assassinada, como tantos companheiros o foram. No processo político-penal, recebeu a alcunha de “Joana d`Arc da Guerrilha”. Era, também, a “Papisa da Subversão”. Dois apelidos que lhe atribuíam importância no interior da sua organização, a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), nome que ecoava lendário levante de escravos no Brasil-Colônia. Era o longo e doloroso inverno de 1970.

Passaram-se 56 anos e Joana d’Arc voltou à cena. E novamente perante um tribunal de exceção. Onde mais vale ter maioria do que ter razão. Onde não importa que sua defesa desmantele a acusação e os acusadores: a sentença havia sido pronunciada antes do processo iniciar. Onde juízes são suspeitos ou acusados de crimes muito mais graves do que aquele imputado à ré: recebimento de propinas, lavagem de dinheiro, fraude em licitações, desvio de recursos, caixa 2 e, até, pedofilia. Onde o chefe de uma família feliz proprietária de um helicóptero carregado com meia tonelada de pasta de cocaína não se vexa de posar de julgador. Onde um processo é apenas um pretexto para o assalto ao poder.

Apesar de tantos pesares, Joana d’Arc engoliu, um a um, seus acusadores. Ao longo de 14 horas, digeriu-os primeiro no café da manhã. Depois no almoço, na janta e não abriu mão da ceia. Espalitou os dentes com seus ossinhos. Mas não arrotou. Manteve-se com contida indignação, elegância, às vezes, ironia.

Para muita gente deve ter sido um choque. Que Dilma era aquela? Não a imaginavam na versão Joana d’Arc. São vítimas – do mesmo modo que a presidenta – da construção arrevesada de um personagem. Com interesses opostos ao governo constitucional, os pet-colunistas do condomínio midiático que define o que Pindorama deve ler, ouvir, ver e pensar venderam ao país uma Dilma ficcional, dada à gafes, ignorante, estúpida até. Erro. Que Dilma tem perfil centralizador e gênio explosivo é sabido. Mas tola? Só mesmo quem não a conhece. Que o diga um de seus julgadores, o senador José Agripino (DEM/RN) que levará vida afora as sequelas de antigo e desagradável embate.

Dilma e Joana são comparáveis por obra e graça do cognome embora não seja a mais precisa interpretação da protagonista atual. Joana, a donzela guerreira de Orleans, era uma menina de 19 anos ao ser julgada e condenada à fogueira por heresia. Foi queimada viva em 1431. As versões cinematográficas de seu julgamento mostram-na prostrada e sofredora. A mais notável de todas, a de Carl Dreyer, de 1928, o filme mudo A Paixão de Joana d’Arc, inova ao alternar as imagens em close do semblante sacrificado da ré com a exploração das faces de seus juízes. Espreita as rugas, esgares e sulcos do rosto sombrio dos algozes. É uma lição de cinema humanista, que distingue a vítima de seus verdugos. Pensa-se em Dreyer quando se sabe que quatro documentários estão sendo gravados no teatro senatorial. Pensa-se em Dreyer principalmente ao cotejar a altivez e o desassombro de Dilma com as panças, as papadas, os cabelos tingidos e os implantes capilares de seus escarrapachados juízes.

Também, ao contrário da jovem francesa, Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns de seus torquemadas de ocasião. Não adiantou. A exemplo de Joana, foi condenada por injunções políticas.

O tempo passou e Joana tornou-se mártir, canonizada pela Igreja Católica e santa padroeira da França. Seus julgadores sumiram na poeira do passado.

Levada a sua fogueira, Dilma deveria arder, consumida pelas chamas até converter-se em cinzas. Vingança completa para que nada mais reste. Há controvérsias. Também sentenciados, humilhados e ofendidos, Getúlio e Jango ignoraram as labaredas. No transcurso das décadas, suas biografias só fazem crescer. No caso da Joana d’Arc de 2016 parece mais plausível que despreze o fogo, caminhe pelas brasas e siga em frente. Atrás de si, um Senado de pigmeus, ao contrário, continuará ardendo, mirrando e se decompondo até ser totalmente tragado como refugo da História.

Sermão aos vermes

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Ayrton Centeno

Esta não é uma pregação para aqueles animais longilíneos, invertebrados, sem membros, no máximo com apêndices que usam para locomoção. Dirige-se a outros animais, teoricamente superiores. Animais que, embora sendo homens, escolheram ser vermes. Fizeram sua opção preferencial pela baixeza, as úmidas camadas inferiores da vida pública, escarafunchando e se empanturrando de matéria orgânica em decomposição.

Mas onde estão tais vermes por escolha? Em muitos lugares, em toda parte, em qualquer profissão. Em todos os poderes da república: no Judiciário, no Legislativo, no Executivo. Cada um de nós, por certo, conhece alguém que se enquadra na descrição. Mas o que interessa, agora, é saber onde estão no Senado Federal.

O Brasil está prestes a obter uma radiografia moral do Senado, instituição que muitos países sequer abrigam. Saberá quem são e como agem aqueles e aquelas a quem paga mais de R$ 33 milhões por ano. É apenas o custo unitário por senador, mais seus 11 assessores! E são 81 senadores! Se a choldra tem direito ao 13º salário, as excelências embolsam 14º e 15º salários.

Sem prejuízo de auxílio-moradia e torrencial verba pública para despesas com aluguel, alimentação, passagens aéreas, gasolina, telefone, serviços gráficos, correios e jornais e revistas. E absolutamente tudo sai do mesmo bolso: o seu. Do contribuinte. Resta saber qual o tratamento que a porção eleitor do contribuinte receberá daqueles a quem sustenta tão regiamente.

Quem sobreviverá ao escrutínio da nação? Quem escapará da mácula definitiva da História? É o que se verá. Estarão, todos e todas, com suas vísceras expostas. Abertos, devassados, completamente nus se apresentarão — num possível ensaio de pornografia extrema e levada às últimas consequências – nas casas dos brasileiros de ponta a ponta do território nacional. Os eleitores terão acesso a essa tomografia computadorizada do caráter de cada senador e senadora. Destes, há os que viverão e há os que morrerão. Enquanto figuras públicas, entenda-se. Mas morte política é também fatal ao menos no seu âmbito.

Entre os senadores existem os que percebem o que está em jogo. Que não é um simples mandato mas a própria noção de justiça: quem não tem crime a expiar não merece condenação. Não se trata de um governo ou um governante mas do respeito às regras democráticas: quem tem mais votos vence, quem tem menos perde. A Matemática servindo à Democracia.

Os homens e mulheres aptos a votar no Senado sabem que, aberta a porteira, não haverá mais prefeito, governador, presidente com a menor segurança no seu posto. Terão que irrigar continuamente de bênçãos as casas legislativas. O que farão como única forma de sobrevivência às custas da boa gestão, da racionalidade administrativa, da ética e, por óbvio, do dinheiro público. Ou isso ou a degola.

Há os toscos – e são muitos – que pensam apenas no curtíssimo prazo. Emplacar aquela indicação no ministério, descolar uma grande vantagem para meu financiador de campanha, acertar o lado do meu parente… Pensam com os bolsos e negociam com o diabo mesmo que isto represente imolar-se em prol de uma fraude aberrante, sem vez nem voto.

Há os que são adversários e sempre o foram. Menos pelos erros do governo e do governante no patíbulo. Mais pelos seus acertos. Os primeiros perdoáveis, os últimos jamais. E por isso a decisão a priori – mesmo sem provas, mesmo calcada em farrapos de argumentação — de condená-los. Mantê-los significaria correr o risco de mais acertos, algo intolerável.

E há – os piores entre os piores – os aliados de ontem e algozes de hoje. Aqueles que, punhais sob as vestes, traíram seu próprio governo e se dispõem a trair novamente. Traíram para salvar o próprio couro, para sepultar a investigação que os denunciou ou denunciaria. E trairão sempre.

Há ainda aqueles que, diante do destino avaro, deixarão de concorrer. Antes de votar, fizeram da consciência comércio. São os velhos prestidigitadores prontos a se refugiarem num cargo no exterior, numa indicação para algum órgão internacional, alguma sinecura distante do longo braço do eleitor.

Mas ainda não está disponível a cirurgia plástica de caráter, tampouco botox para alma. Não haverá, portanto, salvação para quem proceder sem respeito e sem decência.

Vagando pela névoa do autoengano, alguns acreditam que, depois do voto infame, ainda estarão vivos. Falso. Cadáveres insepultos, espalhando o odor pestilento dos zumbis, serão descartados politicamente. À moda do Zorro terão, no espírito, não o Z escarlate que flui do florete do justiceiro mascarado mas o G eterno da humilhação e da desonra. Um G perpétuo. Diante desse G, invisível mas denunciador, as ruas lhes gritarão nas fuças: “Golpista”. Nas escolas, lhes gritarão “Golpista”, nas fábricas lhes gritarão “Golpista” e até mesmo em casa, com portas e janelas fechadas, alguém muito próximo lhe dirá “Golpista”. Esteja onde estiver será perseguido pela palavra-pedrada: “Golpista!” Seus descendentes receberão o legado. “É o filho do golpista!” E nada se poderá fazer diante dessa realidade assombrosa. Virá para ficar. Eterna e inabalável.

Seu gesto será esquadrinhado pela História, a Política, a Sociologia, a Psicologia. Mas também pelos ramos da ciência menos comuns nesse esforço para apurar os fatos e detectar a verdade de modo integral. Pela Paleontologia, por exemplo. Pela Zoologia. E, inapelavelmente, pela Microbiologia.

Os vermes? Os autênticos? Bem, perdão a eles. Cumprem uma missão crucial na terra revolvendo e reciclando. Estão justificados biológica e ecologicamente. São indispensáveis. São chaves da existência. Dão continuidade ao ciclo que encadeia vida, morte e novamente vida. Não se vendem. Não regateiam. Não traem sua missão. Trabalham na água e no solo. Nos intestinos, são os imprescindíveis operários da imundície.

Dignos, corretos, laboriosos, não merecem a comparação reiterada com semelhantes tão vis. Mesmo assim, seu nome será usado como chicote para açoitar aqueles cínicos e hipócritas que, na hora da eleição, perseguirão o eleitor para implorar-lhe o voto. Nesta procura, em algum momento, alguém lhes dará uma resposta ríspida como uma bofetada:

– Como você ousa, verme, pedir-me aquilo que me roubou?