Arquivo mensal: novembro 2013

Nossa gênese tão bela que a glamourização torna tão pobre

gaucho190 Renato Dalto (*)

Auditório Araújo Vianna, Porto Alegre, noite de 26 de novembro de 2013. Bordoneios de gaita-ponto, violões e lengueros, vozes e versos entoaram um sentimento comum de amor à terra e afago às raízes. Falaram então no negro que abria a gaita e o livro da vida. De uma alma que, como um poço, embala a angustia e o sonho de ser um rio. De gente exilada tinindo esporas na periferia da capital. De um céu de pampa em forma de milonga. De pacholices e romances que, ao cair da tarde, ouviam a chuva como pingos de amor. Enfim, de tantas coisas assim, pinceladas na doce melancolia da solidão, no viajante que mal tem tempo de limpar os pesuelos.

Quem fechasse os olhos e se deixasse levar por essas canções, veria enfim crepúsculos como um fogaréu, potros engolfando distâncias e rebeldias, uma estrada, uma tropa, um rio correndo, um barulho de água e vento. Cantava-se a gênese, a beleza, o sentimento de ser de um lugar. Casualmente o sul. Poderia ser o norte ou qualquer latitude, pouco importa. Importa ser de um lugar do mundo e fazer dele espelho e reflexo. Porque tudo isso é a forja da mais pura poesia. A poesia de quem sabe o que é, de onde veio, e onde cabe o seu lugar no tempo e no espaço.

O que se celebrou ali, naquela noite de novembro, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, foi isso: as músicas que marcaram os festivais nativistas mas, mais que isso, o encontro de tantos marinheiros que levaram a nau de nossa gênese a tantos portos, a tantas gentes, a tantos corações. Ali estava a crueza campeira de um Gaúcho da Fronteira, a sanfona universal de Renato Borghetti, os diálogos com o mundo na canção de Mário Bárbara, o vocabulário cru e enraizado da composição de Telmo de Lima Freitas. Tanta coisa junta, tanta emoção pipocando, o auditório lotado e a noite se esvaindo assim, como se quizessse que o tempo não passasse.

Ali o público cantou junto e atirou na lua como Gaudêncio. Ali se entendeu que essa vida tão rude do homem do campo tem também a trajetória do herói mitológico, só que com outras cores e tintas. Diria que é a simplicidade, a singeleza, a sutil união que  ata barbarismo e ternura. A visão de silêncios profundos em vez de gritos ufanistas. Um confessionário de dores em vez de uma bravata de vitórias. Um ser muitas vezes sem terra, alegria ou destino ao qual chamaram de gaúcho mas lhe negaram sempre um lugar na história pintada pela bravata de discutíveis heróis. Diria que nossa gênese é isso – um longo hiato de silencio e distancia desafiando sempre o homem a domá-los.

De certa forma, os festivais e essas composições trazem isso de volta. A literatura, especialmente com Simões Lopes Neto e Érico Veríssimo, repõe essas marcas  em seus devidos lugares. Mas elas ficam no limite da palavra e, quando ganham outras linguagens, quase nunca a força é a mesma. Contraditoriamente, essa cultura, de uns tempos para cá, caiu nas graças sobretudo do universo global – aquela máquina registradora chamada Globo, que padroniza culturas ao olhar de Copacabana – e, enfim, se acenderam os holofotes do deslumbramento. Ai ai ai de mim, cantava um dos versos na noite do Araújo Vianna. Ai ai ai de nós quando a Globo chegou.

Temos visto um deslumbramento quase infantil – ou de índios recebendo espelhinhos de europeus – quando os “globais” aportam por aqui. E aí mostram ao mundo nossa gênese em forma de clichês e achincalhamento, desde batalhas farroupilhas nos canions de Aparados a estupendos sinais de desconhecimento de hábitos e traços culturais. Houve até um secretário de estado cujo maior objetivo de gestão foi colocar o Rio Grande do Sul na Globo. Foi quando a história de sete mulheres de telenovela mostraram tudo o que não somos e a Globo nos devolveu o lixo para que acreditássemos que o tinham transformado em ouro. Tem sido sempre assim.

O outro capítulo  é agora esse “O Tempo e o Vento” padrão novela das oito para a gênese fundadora de nossa melhor literatura, que tem arrancado da critica que se deslumbrava nos sets de filmagem respeitosos silêncios para não comprometer o negócio. Bom negócio, aliás, que levou até dinheiro público de um banco estatal de um governo que fala em igualdade e democratização da cultura. Sabe como é: todos são iguais mas a insígnia da Globo é mais igual que os outros. O refrão “A Globo te faz de bobo” segue em alta. E segue vindo gente de lá com a malinha na mão pra buscar ouro por aqui. Até governos inteligentes e discursos argutos se idiotizam diante do plim plim.

Nossa simplicidade tisnada de terra e labareda não é a simploriedade de um Jeca Tatu. Por isso, de certa forma, todos lavaram a alma nessa noite de novembro do Araújo Vianna. Ali se viu o quanto nossa gênese é bela, rica justamente pela sua singeleza, pelo seu calor de fogo e aperto de mão, pela sua ternura de aço e braseiro. Globo e globais aportam por aqui para dizer que nossa gênese vale muito pouco. No máximo, é um bom negócio. Mas o cancioneiro popular segue resistindo. Gaitas ainda se abrem nos dedos hábeis dos negros. Versos brotam do chão dos galpões. O pampa segue imenso e aberto, como deveria ser nossa alma. Nossa gênese, decididamente, não vale tão pouco. Apesar da Globo, dos globais e dos deslumbrados que pagam tão caro para serem tão ridicularizados.

Ainda bem que temos outras canções para ouvir.

(*) Renato Dalto é jornalista.

Raul Pont: “o verdadeiro trabalhismo tem lado e não é a direita”

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Foto: Site do Diretório Estadual do PDT (www.pdtrs.org.br)

O presidente estadual do PT gaúcho, deputado Raul Pont, fez um apelo nesta terça-feira (26) aos trabalhistas do Rio Grande do Sul para que não se aliem com a direita do Estado que faz oposição férrea ao governo Tarso Genro e ao governo Dilma em nível federal. A declaração foi feita após a divulgação do “Manifesto ao Rio Grande”, um texto assinado por representantes de seis partidos em apoio à pré-candidatura do deputado federal Vieira da Cunha ao governo do Estado. Os partidos em questão, além do PDT, são DEM, PPS, PR, PSC, PR e PSD. Ao lado do ex-comentarista político da RBS, Lasier Martins, do líder do DEM no RS, Onyx Lorenzoni, e de outros políticos, Vieira da Cunha disse que a reunião não configurava uma aliança, mas sim o “início de um projeto de desenvolvimento para o Estado”.

Presidente dos Democratas no Rio Grande do Sul, Onix Lorenzoni afirmou que “um projeto de recuperação do Estado é o que nos empolga”, confiante na construção de “uma grande coalizão a favor das pessoas, da saúde, da educação, sem o empreguismo promovido pelo atual governo.”raulpont

“Esse manifesto não fica em pé”, assinalou Raul Pont. “O PR está com o governo Tarso, o PSD já fechou apoio para a Dilma. O PDT participa do governo com o comando de três secretarias e estatais importantes. E vem dizer no manifesto que o Rio Grande precisa de um novo modelo de gestão? Eles estão no governo e ajudaram a aprovar aqui na Assembleia o que conseguimos avançar em termos de gestão. Dizem que o Estado precisa voltar a crescer, quando o Rio Grande do Sul está crescendo hoje acima da média nacional. Para onde pode ir uma aliança dessas?” – indagou o dirigente petista. E acrescentou: “estão querendo criar mais um monstrengo político, tipo a aliança do Pompeu (de Mattos) com o Fogaça, onde, no mesmo palanque, um defendia o Serra e outro defendia a Dilma, deixando o eleitor sem saber para que lado ia aquela chapa”.

O diagnóstico apresentado pelo “Manifesto ao Rio Grande”, disse ainda Pont, não tem nada a ver com a realidade. “O Estado está crescendo acima da média nacional, com a participação do PDT, repito, que está em três secretarias, e retomamos investimentos em áreas vitais. Faço um apelo ao verdadeiro trabalhismo para que não aprove esse namoro com forças de direita no Rio Grande do Sul. O  trabalhismo sempre teve lado e não é este”.

Bancada do PT promove debate sobre transporte público em Porto Alegre e Região Metropolitana

transporteemdebate A bancada do PT na Câmara de Vereadores de Porto Alegre promove nesta quarta-feira (27), às 18 horas, um debate sobre a implantação de um novo sistema de gestão do transporte público em Porto Alegre e Região Metropolitana, com controle público e transparência sobre custos e investimentos. A segunda edição do evento “Diálogo: Rumo a Metrópole que Queremos” será realizada no Plenário Ana Terra, da Câmara Municipal, reunindo representantes dos governos estadual e municipal, da Metroplan e da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR). O objetivo do encontro é discutir a integração de modais de transporte público, a gestão democrática do sistema, a segurança e os desafios da Política Nacional de Mobilidade Urbana instituída pelo governo federal.

As métricas do presente para prospectar o futuro, segundo o cientista-chefe da IBM no Brasil

fabiogandour2 O que o futuro nos reserva? Essa foi a pergunta que orientou a palestra de Fábio Gandour, cientista-chefe da IBM no Brasil, na manhã desta quinta-feira, em Porto Alegre, na Semana ARP da Comunicação, promovida pela Associação Riograndense de Propaganda. Formado em Medicina com doutorado em Ciência da Computação, Fábio Gandour coordena a área de pesquisa da IBM no Brasil. Falando para um público majoritariamente de publicitários, entre profissionais e estudantes, Gandour fez uma profissão de fé na ciência e na importância de trabalhar com métricas e medições para poder construir cenários futuros diferentes daqueles oferecidos pelas diversas formas de futurologia e de artes adivinhatórias. A resposta que deu à pergunta central de sua palestra pode ser resumida assim: podemos ter cenários sobre o que o futuro nos reserva fazendo medições e estudando seus resultados.

“Os cientistas medem tudo; toda ciência envolve procedimentos de medição. Ao trabalharmos, no presente, com os resultados de medições, nós conseguimos apontar cenários para o futuro. Precisamos, portanto, ajustar nossas métricas para a prospecção do futuro. Não dá para adivinhar, tem que pensar e, para isso, é preciso estudar”, defendeu Gandour.

Esse trabalho de medição para prospecção do futuro tem hoje, acrescentou, um poderoso aliado: a tecnologia. Isso não chega a ser uma novidade, pois a tecnologia constrói instrumentos e técnicas de medição há séculos ou mesmo milênios. Com os desenvolvimentos dos últimos anos, especialmente no campo da comunicação, ela oferece hoje possibilidades inéditas para esse trabalho de prospecção do futuro. Mas a tecnologia, de fato, entrega o que promete? – perguntou o cientista-chefe da IBM.

A imaginação como berçário do conceito

A sua resposta a essa questão foi otimista. Sim, ela entregue o que promete. Gandour talvez rejeite a qualificação de sua resposta como “otimista” neste caso, pois pretende baseá-la em fatos e medições. Mas apareceram elementos de filosofia em sua resposta, apontando a imaginação como uma espécie de berçário de conceitos futuros. Ele mostrou uma imagem publicitária da década de 40 que mostra uma dona de casa comprando roupas por meio de um aparelho semelhante a uma televisão por meio do qual ela se comunicava diretamente com a compradora na loja. “Nós fazemos compras á distância hoje cotidianamente por meio da internet. Esse exemplo mostra que o que vai acontecer no futuro pode ter sido sonhado no passado. Mostra também que, na maior parte das vezes, a tecnologia entrega o que promete, mas com uma estética muitas vezes diferente”.

O desenvolvimento da internet e das tecnologias associadas a ela pavimenta hoje o altar dessas promessas, que não são pequenas. “A internet hoje se comunica por meio de um protocolo chamado IPv4, responsável pela existência de aproximadamente 4 bilhões de endereços IP. O aumento dos engenhos móveis já tornou essa quantidade insuficiente, o que levou ao desenvolvimento do protocolo IPv6, que representará um aumento extraordinário do número de IPs”, assinalou Gandour.

Em breve, acrescentou, todos os objetos que possuem estados do tipo ligado-desligado, ou aberto-fechado, estarão conectados a uma rede, materializando a ideia de uma “internet das coisas”. Teremos tantos endereços IP à disposição que poderemos estar conectados à internet por meio de inúmeros objetos. “Esse é um mundo novo, quase que totalmente atravessado por sensores e processos de monitoração. A rede deixará de ter buracos e se tornará uma pele que cobrirá o mundo”.

A água e os átomos ameaçados no planeta

Um mundo novo, porém, que anuncia também realidades preocupantes como a escassez de água no planeta. Fábio Gandour falou desse cenário baseado em dados sobre um elemento fundamental da natureza: o átomo. “Como se sabe os átomos não desaparecem. Podemos carregar em nós um átomo que fez parte do fígado de Napoleão ou do cabelo de Cleópatra. O número de átomos no planeta é constante e pode inclusive ser medido. A explosão de uma bomba nuclear faz com que ele diminua um pouco e a queda de um meteoro no planeta provoca um pequeno aumento. Mas, em geral, esse número é constante. Mas a população do planeta aumentou, e segue aumentando, o que faz com que diminua o número de átomos por habitante. Existem cálculos mostrando isso e são eles que sustentam, do ponto de vista científico, todo o movimento ambiental que está lutando pela preservação dos átomos do planeta”.

“E vocês sabem quais são os átomos que vão faltar primeiro?” – perguntou. “Hidrogênio e oxigênio conectados numa molécula chamada água. Se eu tivesse que sugerir algo a presidenta Dilma, essa sugestão seria proteger os nossos recursos hídricos. E a água vai faltar primeiro na Ásia. Isso não é uma especulação, mas o resultado de uma medição, é aritmética”, respondeu o pesquisador.

O século da complexidade

Ao falar sobre o futuro próximo, Gandour tomou emprestada uma formulação de Stephen Hawking: o século 21 será o século da complexidade. E os cenários apontados anteriormente já desenham alguns dos principais contornos dessa complexidade: grande desenvolvimento tecnológico, expansão da internet de modo exponencial, escassez de recursos fundamentais como a água. Neste contexto, o cientista fez algumas sugestões específicas para a área da publicidade, em especial o estudo e a atenção especial sobre a área da linguagem e da metalinguagem (a linguagem que descreve outras linguagens). E deixou uma sugestão de caráter mais geral: “é preciso praticar o pensar, com estudo; usem a ciência, usem a métrica científica para orientar o trabalho de vocês. Estamos entrando em um mundo muito mais dinâmico, variável e complexo. Não sei se isso é bom ou mau, mas é assim”.

Questionado sobre a possibilidade de a ciência medir coisas como emoções e sentimentos humanos, Fábio Gandour respondeu afirmativamente por meio de uma histórica ocorrida na última Copa das Confederações, aqui no Brasil. “Na Copa das Confederações, nós usamos uma métrica para avaliar sentimentos, que foi o Twitter. Monitoramos 6.386 tuitadas por minuto antes, durante e depois da final entre Brasil e Espanha, e descobrimos coisas muito interessantes. Em geral acreditamos que o momento mais emocionante de um jogo de futebol é o gol. Mas na final, o momento que teve maior número de tuitadas foi o do gol salvo pela zagueiro brasileiro David Luiz. Esse foi o momento que mais mobilizou as pessoas e o Felipão foi o primeiro a ver isso. Não foi por acaso que, ao final do jogo, ele disse que o lance mais importante da partida tinha sido aquele. Então, com métricas adequadas, dá para conhecer muita coisa, inclusive sobre emoções e sentimentos. Não conseguimos isso com adivinhação. É preciso pensar e, para isso, é preciso estudar”.

Foto: Glauco Arnt/Divulgação

(*) Publicado originalmente no Sul21

Exploração de gás de xisto no Paraná preocupa ambientalistas

Área azul demarca possível região de exploração no estado do Paraná.

Área azul demarca possível região de exploração no estado do Paraná.

A introdução do método “fracking” no Paraná para a produção de energia a partir da exploração de reservas de gás que exigem esse método para sua extração está preocupando ambientalistas e técnicos da área de energia. O “fracking” ou fraturamento hidráulico (também conhecido pelos nomes de gás de xisto, gás extraído por processo não convencional ou “shale gas”) é considerado um dos processos de produção de energia mais agressivos ambientalmente e está proibido em vários países do mundo. Ele consiste de uma fórmula contendo 609 componentes químicos (alguns deles radioativos) que são injetados no subsolo, sob a pressão de 5 mil atmosferas para fazer o metano se desprender do solo. Antes da injeção desse coquetel químico são realizadas violentas explosões no subsolo para quebrar as rochas sedimentares.

Em um artigo intitulado “Copel ignora riscos ambientais e socioeconômicos do fracking para gerar energia no Paraná”, Zuleica Nycz e Ivo Pugnaloni advertem para os graves problemas ambientais e econômicos que essa atividade pode causar na região. Zuleica Nycz é diretora da Toxisphera Associação de Saúde Ambiental, ex-conselheira do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e representante do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Desenvolvimento Sustentável na Comissão Nacional de Segurança Química, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente. Ivo Pugnaloni é engenheiro eletricista, ex-diretor de Planejamento e de Distribuição da Companhia Paranaense de Energia (Copel) e presidente do Grupo Enercons Consultoria em Energias Renováveis.

Pino Solanas denuncia “fracking” na Argentina

O texto aponta os problemas que estão sendo enfrentados na província argentina de Neuquén, uma região produtora de maçãs que, em função da contaminação dos lençóis freáticos, estão proibidas de entrar na Europa. O mesmo ocorre com produtos de origem animal da região. O cineasta argentino Fernando Pino Solanas fez um documentário para denunciar as consequências do “fracking” no interior da Argentina. “La Guerra del fracking” foi filmado em Neuquén e mostra os efeitos da exploração de petróleo na região por meio do método do faturamento hidráulico. O Papa Francisco I posou para fotógrafos exibindo uma camiseta da campanha contra o “fracking” durante encontro que manteve com Pino Solanas este mês. E anunciou que boa parte de sua próxima encíclica será dedicada a problemas ambientais no planeta.

Zuleica Nycz e Ivo Pugnaloni denunciam que o “fracking”, produção de energia elétrica a partir de depósitos residuais de óleo e gás em poços de curta vida útil, representa “um método devastador para o solo, ar, as aguas superficiais, subterrâneas, que afetará a segurança dos grupos indígenas e das unidades de conservação, ameaçando igualmente e de forma devastadora toda a economia baseada nas atividades agroindustriais no Estado do Paraná”. No dia 28 de novembro, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizará um leilão no Rio de Janeiro envolvendo áreas de 169 mil quilômetros quadrados no Oeste do Paraná, a região mais rica do Estado em termos de agricultura, avicultura e suinocultura. Uma armadilha está sendo preparada para explodir nesta área, que é maior do que o Rio de Janeiro e Pernambuco juntos, adverte o artigo.

Método é proibido por lei na França

O método do “fracking” e seus efeitos sobre o meio ambiente, acrescentam os autores, são conhecidos há mais de 40 anos. Em 2005, o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, valeu-se do clima de terror alimentado a partir dos atentados de 11 de setembro e do fantasma da escassez de energia para editar a Lei das Exceções, que isentou as empresas produtoras que utilizassem o “fracking” de cumprirem qualquer legislação ambiental sobre a qualidade da água e do ar. Esse tipo de isenção, alertam Nycz e Pugnaloni, “já pode ser operacionalizado no Brasil por meio da Lei Complementar 140/2011, que em seu artigo 7º permitiria, segundo a vontade da União, retirar dos órgãos ambientais, tanto do Ibama quanto dos órgãos estaduais, a competência para licenciar esse tipo de processo”.

O artigo aponta ainda que esse método de exploração de gás e petróleo já é proibido por lei na França, na Bulgária, na Irlanda, na Irlanda do Norte e está sendo questionado em praticamente todos os países da Europa. Foi graças à pressão da sociedade, acrescenta, que o primeiro-ministro francês, François Hollande, fez aprovar na Assembleia Nacional uma lei estabelecendo a moratória do “fracking” no país. Na Inglaterra, Romênia, Holanda, Espanha, Canadá, Costa Rica e Estados Unidos também há campanhas e mobilizações em curso com o mesmo objetivo. No caso do Paraná, haveria mais um fator agravante: a área visada para a exploração, num polígono formado pelas cidades de Pitanga, Paranavaí, Toledo e Cascavel, fica situada bem próxima do Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo.

Água da torneira pegando fogo

Nos Estados Unidos, assinalam Nycz e Pugnaloni, agricultores de estados como Pensilvânia, Arizona, Ohio e Colorado lamentam o fato de terem caído no canto da sereia que acenou com uma suposta sorte grande de “ter petróleo na minha terra”. Quando passaram a ver seus rios e a água de suas torneiras pegando fogo viram que estavam com um sério problema nas mãos. Um dos efeitos colaterais desse tipo de exploração é a contaminação dos lençóis freáticos e aquíferos com metano. Após as explosões, o gás sobe do fundo da terra para a superfície e mistura-se com a água dos poços das casas. Além disso, os efeitos da ingestão do metano diluído em água podem causar sérios problemas de saúde envolvendo o sistema nervoso central, fígado e coração.

Os críticos do método denunciam que ele já foi responsável por várias mortes e internamentos antes que esses vazamentos do solo para a água fossem descobertos, uma vez que o metano é inodoro, insosso e incolor. O assunto já virou tema de filme também nos Estados Unidos: “A Terra Prometida” (Promised Land, EUA, 2012), dirigido por Gus van Sant, conta a história de dois funcionários de uma grande corporação da área de energia que desembarcam em uma pequena cidade rural dos EUA, para tentar negociar com os moradores os direitos de perfuração de suas propriedades para a exploração de gás natural. A salvação oferecida pela grande corporação está baseada, porém, em um polêmico processo de extração de gás natural: o “fracking”. O tema parece ter desembarcado definitivamente também ao Brasil.

Mensagem ao Partido consolida posição de 2ª força nacional do PT

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A Mensagem ao Partido divulgou nota oficial comemorando o desempenho que obteve no Processo de Eleições Diretas do PT (PED2013). “Nosso movimento cresceu e se consolidou como a segunda força nacional”, diz a nota que aponta os números desse crescimento: o candidato a presidente, Paulo Teixeira, alcançou cerca de 79 mil votos; a chapa da Mensagem obteve a segunda maior votação com 77 mil votos (20,53%), crescendo em relação a 2009, quando obteve cerca de 73 mil votos. A chapa mais votada (“O Partido que muda o Brasil”) reduziu sua votação de mais de 250 mil votos em 2009 para pouco mais de 200 mil agora. A nota destaca ainda que a Mensagem ao Partido foi a única chapa que ampliou sua participação na Executiva Nacional do PT, passando de 3 para 4 membros. No Diretório Nacional, ampliou de 13 para 17 membros.

A nota defende também que o PT não pode se transformar num partido exclusivamente eleitoral e precisa desempenhar um papel mais protagonista na disputa política nacional:

“O PED, que se realiza depois das manifestações de junho e na antessala da disputa de 2014, mostrou que o PT precisa aprimorar muito sua organização e sua democracia para acolher novas gerações de militantes e jogar um papel mais decisivo ainda na disputa nacional. A versão predominante de partido tipicamente eleitoral não dá conta dessas dimensões estratégicas. Isso também, esperamos, deve ficar claro. Essa é uma reflexão que todas as correntes precisam fazer, sobre como continuar a transformar nosso partido para que ele possa transformar mais o Brasil”.

A segunda tortura de José Genoíno

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José Genoíno foi brutalmente torturado na ditadura e seus torturadores continuam aí, sorridentes e impunes pelo que fizeram nos porões do regime, abrigados até agora por decisões deste mesmo Tribunal que condena sem provas militantes do PT. José Dirceu coordenou a vitória legítima de Lula, para o seu primeiro mandato. Os que compraram votos para reeleger Fernando Henrique estão também por aí,  livres e gaudérios. Essas comparações pairam sobre o prestígio do STF e sobre o Estado de Direito no Brasil.

Por Tarso Genro

Ernst Bloch, na sua crítica aos princípios do Direito Natural sem fundamentação histórica, defendeu que não é sustentável que o homem seja considerado,  por nascimento, “livre e igual”, pois não há “direitos inatos, e sim que todos são adquiridos em luta”.  Esta categorização, “direitos adquiridos em luta”, é fundamental  para  compreender as ordens políticas vigentes como Estado de Direito, que proclamam um elenco de princípios contraditórios, que ora expressam com maior vigor as conquistas dos que se consideram oprimidos e explorados no sistema de poder que está sendo impugnado, ora expressam  resistências dos privilegiados, que fruem o poder real: os donos do dinheiro e do poder.

Esta dupla possibilidade de uma ordem política,  inscrita em todas as constituições, mais ou menos democráticas, às vezes revela-se mais intensamente no contencioso político, às vezes ela bate à porta dos Tribunais. A disputa sobre o modelo de desenvolvimento do país, por exemplo, embora em alguns momentos tenha sido judicializada, deu-se até agora, predominantemente, pela via política, na qual o PT e seus aliados de esquerda e do centro político foram vitoriosos, embora com alianças pragmáticas e por vezes tortuosas para ter governabilidade.

Já a disputa sobre a interpretação das normas jurídicas que regem a anistia em nosso país e a disputa sobre as heranças dos dois governos do presidente Lula tem sido, predominantemente,  judicializadas. São levadas, portanto, para uma instância na qual a direita política, os privilegiados, os conservadores em geral (que tentaram sempre fulminar o Prouni, o Bolsa Família, as políticas de valorização do salário mínimo, as políticas de discriminação positiva, e outras políticas progressistas), tem maior possibilidade de influenciar.

Quando falo aqui em “influência” não estou me referindo a incidência que as forças conservadoras ou reacionárias podem ter sobre a integridade moral do Poder Judiciário ou mesmo sobre a sua honestidade intelectual. Refiro-me ao flanco em que aquelas forças – em determinados assuntos ou em determinadas circunstâncias-  podem exercer com maior sucesso a sua hegemonia, sem desconstituir a ordem jurídica formal, mantendo mínimos padrões de legitimidade.

O chamado processo do “mensalão” obedeceu minimamente os ritos formais do Estado de Direito, com atropelos passíveis de serem cometido sem maiores danos à defesa, para chegar a final previamente determinado, exigido pela grande mídia, contingenciado por ela e expressando plenamente o que as forças mais elitistas e conservadoras do país pretendiam do processo: derrotados na política, hoje com três mandatos progressistas nas costas, levaram a disputa ao Poder Judiciário para uma gloriosa “revanche”: ali, a direita derrotada poderia fundir  (e fundiu) uma ilusória vitória através do Direito, para tentar preparar-se para uma vitória no terreno da política. As prisões de Genoíno e José Dirceu foram celebradas freneticamente pela grande imprensa.

Sustento que os vícios formais do processo, que foram corretamente apontados  pelos advogados de defesa  – falo dos réus José Genoíno e José Dirceu – foram  totalmente secundários para as suas condenações. Estas, já estavam deliberadas antes de qualquer prova, pela grande mídia e pelas forças conservadoras e reacionárias que lhe são tributárias, cuja pressão sobre a Suprema Corte  – com o acolhimento ideológico de alguns dos Juízes-  tornou-se insuportável para a ampla maioria deles.

Lembro: antes  que fossem produzidas quaisquer provas os réus já eram tratados diuturnamente como “quadrilheiros”, “mensaleiros”, “delinquentes”, não somente pela maioria da grande  imprensa, mas também por ilustres figuras  originárias dos partidos derrotados nas eleições presidenciais e pela banda de música do esquerdismo,  rapidamente aliada conjuntural da pior direita nos ataques aos Governos Lula. Formou-se assim uma santa aliança,  antes do processo, para produzir  a convicção pública que só as condenações resgatariam a “dignidade da República”, tal qual ela é entendida pelos padrões midiáticos dominantes.

Em casos como este, no qual a grande mídia tritura indivíduos, coopta consciências e define comportamentos,  mais além de meras convicções jurídicas e morais, não está em jogo ser corajoso ou não, honesto ou não, democrata ou não. Está em questão a própria funcionalidade do Estado de Direito, que sem desestruturar a ordem jurídica formal pode flexioná-la  para dar guarida a  interesses políticos estratégicos  opostos aos que “adquirem direitos em luta”. Embora estes direitos sejam conquistas que não abalam os padrões de dominação do capital financeiro, que tutela impiedosamente as ordens democráticas modernas, sempre é bom avisar que tudo tem limites.   O aviso está dado. Mas ele surtirá efeitos terminativos?

Este realismo político do Supremo ao condenar sem provas, num processo que foi legalmente instituído e acompanhado por todo o povo – cercado por um poder midiático que tornou irrelevantes as fundamentações dos  Juízes – tem um preço: ao escolher que este seria o melhor desfecho não encerrou o episódio. Ficam pairando, isto sim, sobre a República e sobre o próprio prestígio da Suprema Corte, algumas comparações de profundo significado histórico, que irão influir de maneira decisiva em nosso futuro democrático.

José Genoíno foi brutalmente torturado na época da ditadura e seus torturadores continuam aí, sorridentes, impunes e desafiantes, sem  qualquer ameaça real de responderem, na democracia, pelo que fizeram nos porões do regime de arbítrio, abrigados até agora por decisões deste mesmo Tribunal que condena sem provas militantes do PT. José Dirceu coordenou a vitória legítima de Lula, para o seu primeiro mandato e as suas “contrapartes”,  que compraram votos para reeleger Fernando Henrique (suponho que sem a ciência do Presidente de então), estão também por aí,  livres e gaudérios.

O desfecho atual, portanto, não encerra o processo do “mensalão”, mas reabre-o em outro plano: o da questão democrática no  país, na qual a “flexão” do Poder Judiciário mostra-se unilateralmente politizada  para “revanchear” os derrotados na política. Acentua, também, o debate sobre o  poder das mídias sobre as instituições. Até onde pode ir, na democracia, esta arrogância que parece  infinita de julgar por antecipação, exigir condenações sem provas e  tutelar a instituições através do controle e da manipulação da informação?

Militei ao lado de José Genoíno por mais de vinte anos, depois nos separamos por razões políticas e ideológicas,  internamente ao Partido. É um homem honesto, de vida modesta e honrada, que sempre lutou por seus ideais com dignidade e ardor, arriscando a própria vida, em momentos muito duros da nossa História. Só foi condenado porque era presidente do PT,  no momento do chamado “mensalão”. Militei sempre em campos opostos a José Dirceu em nosso Partido e, em termos pessoais, conheço-o muito pouco, mas não hesito em dizer que foi condenado sem provas,  por razões eminentemente políticas, como reconhecem insuspeitos juristas, que sequer tem simpatias por ele ou pelo PT.

Assim como temos que colocar na nossa bagagem de experiências os  erros cometidos que permitiram a criação de um processo  judicial ordinário,  que se tornou rapidamente um processo político, devemos tratar, ora em diante, este processo judicial de sentenças tipicamente políticas, como uma experiência decisiva para requalificar, não somente as nossas instituições democráticas duramente conquistadas na Carta de 88, mas também para organizar uma sistema de alianças que dê um mínimo respaldo, social e parlamentar,  para fazermos o dever de casa da revolução democrática: uma Constituinte, no mínimo para uma profunda reforma política, num país em que a mídia de direita é mais forte do que os partidos e as instituições republicanas.

(*) Governador do Rio Grande do Sul

Debate com o escritor alemão Ingo Schulze: “O capitalismo não precisa de democracia”

Ingo Schulze Palestra 600 O escritor alemão Ingo Schulze, membro da Academia de Artes de Berlim, é o convidado do evento Debates Capitais, quinta-feira (14), às 18h30min, na Câmara Municipal de Porto Alegre. O tema da palestra de Schulze, que ocorrerá no plenário Otávio Rocha da Câmara de Vereadores, será “O capitalismo não precisa de democracia”.

O evento é uma promoção da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude da Câmara Municipal, Instituto Goethe, Câmara do Livro e Alemanha+Brasil. A coordenação da Mesa será da vereadora Sofia Cavedon (PT), presidente da Comissão de Educação.

Escritor, membro da Academia de Artes de Berlim, da Academia Alemã de Língua e Poesia, em Darmstadt, e da Academia de Artes da Saxônia, Ingo Schulze é formado em filologia clássica e literatura alemã. Trabalhou como dramaturgo no Landestheater de Altenburg, e como editor de jornais em São Petersburgo. Seu primeiro livro, 33 Augenblicke des Glücks (33 momentos de felicidade, 1995), ganhou o prêmio literário Aspekte. Também é autor de Senhor Augustin (2009), do livro de contos Celular (2007) e do romance Vidas novas (2009), considerado a sua principal obra até aqui.

Ingo Schulze também estará na 59ª Feira do Livro de Porto Alegre, em sessão de autógrafos no dia 16 de novembro, às 20h, na Praça de Autógrafos.

TVE se consolida como espaço de fomento a produções audiovisuais regionais e nacionais

Sangue na Lua, da Mostra Vindima da Imagem, foi um dos filmes exibidos pela TVE

Sangue na Lua, da Mostra Vindima da Imagem, foi um dos filmes exibidos pela TVE

 Por Anahy Metz – Fundação Cultural Piratini

Em dois anos, emissora pública exibiu 138 obras produzidas no Rio Grande do Sul e no Brasil

A TVE, emissora pública de gerida pela Fundação Cultural Piratini, vem se consolidando como um dos principais canais abertos da televisão brasileira a abrir janela para a exibição de produções audiovisuais independentes produzidas no Rio Grande do Sul, no Brasil e também no exterior. Desde o início da atual gestão em 2011 estrearam na programação dois programas focados na temática: o Curta TVE, que dá espaço à produção universitária, e a Faixa Recortes, que apresenta principalmente documentários produzidos no Estado e no Brasil. Desde o início da exibição dos programas, a TVE já exibiu 138 filmes produzidos produzidos regional e nacionalmente, sendo que destes, 92 são elaborados de maneira independente e 61 deles foram produzidas no Estado.

A emissora pública também está fortalecendo a produção audiovisual no Estado por meio de participação nos editais do Fundo de Apoio à Cultura em 2012 e em 2013. Para dar visibilidade à produção local, a TVE abrirá  janelas para exibição do material selecionado. Além disso, o canal abriu um chamamento público para produtoras do RS e selecionou no início deste ano quatro projetos para captar recursos do Fundo Setorial do Audiovisual da ANCINE. Ainda para o mês de novembro está prevista a estreia de uma nova faixa com destaque para a produção audiovisual internacional, principalmente da América Latina.

Editais do FAC e Prodav

Por meio da parceria da SEDAC no Edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-RS) em 2012 e também em 2013, a TVE está fortalecendo a produção audiovisual independente no Rio Grande do Sul e abrindo janela para exibição em TV aberta para todo o Estado. Para o primeiro edital, foram destinados R$ 1.2 milhão e selecionados 4 projetos de minisséries e 12 projetos de documentários, que já estão sendo finalizados e em breve estreiam na programação. O novo edital, também no valor de R$ 1.2 milhão para a produção de 4 minisséries e 10 documentários, fica aberto até o dia 19 de novembro.

A TVE selecionou também quatro produções audiovisuais por meio de chamamento público para captação de recursos do Fundo Setorial Audiovisual, o PRODAV, da Agência Nacional de Cinema/BRDE. Os escolhidos entre os 27 projetos recebidos foram: a minissérie “Filosofinhos”, da Otto Desenhos Animados e os documentários “Quando a Lagoa Salga”, da Corte Seco; “O Caso das Mãos Amarradas”, da Casa de Criação, e “Xadalu” da Zeppelin Filmes .

Faixa Recortes e Curta TVE

Nos últimos dois anos, a TVE contabiliza e exibição de 61 filmes independentes distribuídos entre o programa Curta TVE e a Faixa Recortes, que dá destaque à produção regional e nacional com apresentação de obras a partir de parcerias institucionais. O material exibido tem como característica a valorização das culturas locais e da cultura nacional. A abordagem de assuntos como artes plásticas, teatro, dança, cultura regional, lendas, mitos, literatura, filosofia, infra estrutura das cidades, homossexualidade, acessibilidade, além de obras de ficção são o foco do Recortes, que já exibiu 57 produções desde a estreia em novembro de 2012. A faixa de programação também destaca a produção exclusiva de documentários pela TVE, tendo sido exibidos 9 documentários, a maioria com temática cultural tais como Regina Silveira, Torres Garcia, Dança Alegre Alegrete, entre outros. Para celebrar o aniversário de um ano dessa programação, no dia 9 de novembro, às 22h30, será exibido o décimo documentário exclusivo produzido pela emissora pública sobre o artista plástico William Kentridge.

Já o Curta TVE exibiu nos últimos dois anos um total de 81 curta metragens, sendo que destes, 28 são do RS. O programa também se caracteriza pelas mostras de filmes produzidos no interior do Estado, tendo sido exibido material das cidades de Santa Maria, Pelotas, Porto Alegre, Bento Gonçalves, Ivoti, Chuí, entre outras. A atração destaca ainda os vários gêneros cinematográficos realizando mostras de animação e de cinema fantástico por exemplo. Do total de filmes apresentados pelo Curta TVE, 35 deles são independentes.

Juntos, o Curta TVE e a Faixa Recortes exibiram em 2012 e 2013 um total de 138 filmes, entre produções regionais e nacionais. No Recortes, em um ano, foram exibidos 33 filmes entre documentários e ficção produzidos no Rio Grande do Sul e 15 produzidos nacionalmente. Destes, 19 foram elaborados de maneira independente.

Parcerias institucionais importantes foram estabelecidas pela Fundação Cultural Piratini para viabilizar a exibição plural das produções audiovisuais tais como: Cosmonauta, Cumbuca Filmes, Dona Rosa Filmes, Epifania Filmes, Fronteiras do Pensamento, Itaú Cultural, Modus Produtoras, União Européia, Surreal Filmes, Stricher Filmes, TVE Bahia, Virtual Pictures e Verte Filmes. E foram veiculadas obras de importantes diretores como: Boca Migoto, Felipe Diniz, Hique Montanari, Guilherme Castro, Marta Biavaschi, Pedro Zimmermann, Renata Heinz, entre outros.

Novidades – Faixa Recortes Internacional

A Fundação Piratini está firmando parcerias com a TV Câmara, SescTV e TV Escola para a veiculação de novos produtos audiovisuais na Faixa Recortes. Está prevista para o segundo ano da Faixa a exibição da animação Morte e Vida Severina, produzida pela TV Escola, canal educativo do Ministério da Educação. A produção contém o texto integral do consagrado Auto de Natal escrito por João Cabral de Melo Neto e desenhos baseados nos quadrinhos do chargista Miguel Falcão. O filme foi finalista do Japan Prize na categoria Educação Continuada.

Ainda está previsto para o dia 27 de novembro, às 23h30, a estreia da Faixa Recortes Internacional com a exibição do documentário Los Latino Americanos, viabilizado pela parceria institucional com a Televisión América Latina (TAL) – Rede de Televisões Culturais da América Latina. A TAL é uma rede de intercâmbio e divulgação de produções audiovisuais de 20 países latino americanos. A nova faixa na programação da TVE terá horário alternativo aos domingos, às 16h.

Argentina: aparecem papéis do terrorismo de Estado

Foto: Julián Álvarez/TELAM

Foto: Julián Álvarez/TELAM

Eric Nepomuceno (*)

Pouco antes da uma da tarde da quinta-feira, último dia de outubro, o ministro argentino da Defesa, Agustin Rossi, recebeu um telefonema do brigadeiro Mario Callejo, chefe do Estado Maior da Força Aérea. Parecia um telefonema de rotina entre o ministro e um de seus subordinados fardados. Mas, não: foi um telefonema revelador.

Callejo disse ao ministro que nos porões do prédio onde está instalada a Força Aérea Argentina, batizado de Edifício Condor, tinham sido encontrados, durante uma limpeza de rotina, ‘documentos que podem ser muito sensíveis’, relacionados à ditadura sangrenta que sufocou o país entre março de 1976 e dezembro de 1983.

Não se sabe durante quanto tempo essa documentação, que começou a ser escrita há 37 anos e se encerrou há 30, adormeceu em dois cofres, dois armários e uma estante no porão do prédio que um dia foi ministério. São pelo menos 280 atas secretas de reuniões das cúpulas máximas do Exército, Marinha e Força Aérea, que integravam as juntas militares, abrigadas em seis pastas.

Nessas atas, onde foram registrados os debates sobre os sequestrados que foram depois ‘desaparecidos’, também há vasto material sobre o conflito com o Chile pelo Canal de Beagle, e que quase desatou uma guerra entre os dois países, e a sequencia de debates que levaram à prisão da família de David Graiver, que era o dono da Papel Prensa, única fábrica de papel do país.

E há muito mais: outras 1.500 pastas com documentação da Comissão de Assessoria Legislativa, cuja função era dar sustentação aos planos, trazem programas e projetos do governo, e os registros de todos os pedidos que chegavam à Junta Militar enviados por familiares das vítimas da repressão. Há um sem-fim de marcas dos desatinos daqueles tempos bárbaros. Lá estão as chamadas ‘listas negras’ com os nomes de intelectuais, artistas, jornalistas, advogados, militantes de direitos humanos, cada um deles com a respectiva classificação, que ia de ‘f1’ a ‘f4’ indicando o grau de perigo que representavam. Tudo muito ordenado, muito organizado.

A primeira ata é de 24 de março de 1976, dia do golpe que liquidou o governo errático e bizarro da viúva de Perón. A última, de 10 de dezembro de 1983, quando começa o governo de Raúl Alfonsin.

O material será estudado de forma minuciosa. O ministro da Defesa disse que, em seis meses, depois que tudo tiver sido examinado, seu conteúdo será divulgado.

Além da lista de ‘elementos perigosos’, que vai de Julio Cortázar a Mercedes Sosa, reunindo a maior constelação das artes e do pensamento do país, Agustín Rossi revelou que há abundante material sobre o caso Papel Prensa.

Isso talvez explique o escasso espaço dedicado ao achado pelos dois maiores jornais argentinos, o La Nación e o Clarín. Afinal, estão diretamente vinculados ao caso.

Até agora, seus proprietários e controladores puderam negar, com o cinismo gélido dos que se consideram acima da verdade, que a única fábrica argentina de papel tenha chegado às suas mãos como parte de uma trama sangrenta.

Essa trama incluiu a prisão, a tortura e a vexação da viúva de David Gravier, antigo proprietário da Papel Prensa, e o compromisso de cumplicidade dos jornais com o regime genocida encabeçado pelos militares. Apesar de depoimentos, testemunhos, indícios, negaram, negaram e negam.

Desde 1983, com a retomada da democracia, cada vez que um governo tentou desmontar esse oligopólio, explodiram protestos denunciando atentados contra a liberdade de expressão. E, atenção: essas tentativas começaram com Raúl Alfonsín, que pode ser acusado de muitas coisas, menos de ser esquerdista, populista ou rancoroso.

Do pouco que foi revelado da documentação encontrada, já se sabe que pelo menos treze atas da Junta Militar tratam da situação da empresa.

Entre setembro de 1976 e dezembro de 1977, o assunto Papel Prensa foi discutido em doze reuniões. Detalhe: David Graiver, o financista vinculado à esquerda peronista, acusado de ser o responsável pelos fundos da organização armada Montoneros, morreu num jamais explicado acidente aéreo no México, no dia 7 de agosto de 1976. Um mês depois, a parte mais visível de seu espólio – a Papel Prensa – foi tema de uma reunião da Junta Militar encabeçada pelo general Jorge Rafael Videla.

Em abril de 1977, em outra reunião, foi determinada a prisão ‘de familiares e envolvidos no caso Graiver’. Pouco antes, debaixo das ameaças e pressões não só dos militares, mas do próprio Héctor Magnetto, o todo-poderoso do grupo Clarín, Lidia Papaleo de Graiver, viúva de David, havia capitulado: o controle da Papel Prensa passou ao grupo, ao jornal La Nación e ao extinto La Razón.

Ela sempre disse que apoderar-se da Papel Prensa para pagar a cumplicidade e a omissão dos jornais era prioridade para a ditadura.
Os donos do La Nación e do Clarín sempre negaram. O que talvez não soubessem é que os genocidas, seus protetores, registravam tudo. Por alguma razão, alguém esqueceu de destruir esses registros.

O governo de Cristina Fernández de Kirchner fez o que pôde, na justiça, para liquidar o monopólio privado do papel de jornal no país. Esbarrou sempre na falta de provas de que a ditadura tenha favorecido intencionalmente os grupos que controlam a empresa (o Clarín tem 49%, o estado argentino 27,5% e o La Nación, 22,5%, e o 1% restante está diluído entre um sem-fim de acionistas anônimos; de fato, Clarín e La Nación controlam a fábrica). E enfrentou sempre, na Argentina e no exterior, denúncias de tentar sufocar a liberdade de expressão ao pretender reservar ao Estado argentino o controle da única fábrica de papel existente no país.

Pois agora mesmo, qualquer um pode ler – eu li – parte de uma ‘ata reservada’ de uma das reuniões dos genocidas.

O título diz tudo: “Medidas a adoptar con respecto a Papel Prensa, S.A.”. Eram precavidos, os militares: no ponto 4 dessas medidas, fica estabelecido que os novos donos aceitam o ‘compromiso de asumir los riesgos y consecuencias de las posibles acciones judiciales que pudieran ocasionarse con motivo de la compra de las acciones de PAPEL PRENSA, S.A.’

Espertos, os ditadores: anotavam tudo. Bobos, os compradores: se achavam acima do bem e do mal. Foram traídos pelos registros, pela memória.

Agora, é com eles e com a Justiça: afinal, aceitaram o compromisso, achando que jamais teriam de responder pelo que assinaram.

(*) Publicado originalmente na Carta Maior

Aprovação da Lei de Meios na Argentina é tema de debate na TVE nesta terça

ley-de-medios150 Por Anahy Metz – Fundação Cultural Piratini

Depois de quatro anos, o governo da Argentina venceu uma batalha judicial que travava com o maior grupo de comunicação do país, o Clarín. Na última semana, a Corte Suprema declarou constitucional a Lei de Meios, que regulamenta e democratiza os veículos de comunicação na no país. Com a sentença, o conglomerado de jornais, revistas, provedor de internet e emissoras de rádio e tv aberta e por assinatura, terá que ser desmembrado.

Desde 2009, quando a lei foi promulgada, o grupo Clarín brigava na justiça para não cumprir a medida. Em contraponto a isso, foram instaladas neste período na Argentina, mais de 150 rádios em escolas, 45 emissoras de televisão e mais de 50 rádios universitárias.

Além do caso argentino, o Reino Unido aprovou um novo sistema regulador de mídia, após inúmeros escândalos envolvendo os veículos de imprensa britânicos. Esses episódios reacendem o debate pela regulação democrática da comunicação social, em especial no Brasil. Aqui, a legislação ainda em vigor é anterior ao período da ditadura militar e não impede a concentração dos meio nem acompanha as atuais transformações tecnológicas. No Canadá e nos Estados Unidos, também há leis que regulam o setor.

A democratização da comunicação já é tema de debate há muitos anos no Brasil. Mesmo assim, não conseguiu alcançar maior repercussão na sociedade, graças ao boicote dos grandes meios de comunicação.

A partir da importância deste debate, usando a experiência internacional de regulação da mídia, como podemos democratizar a comunicação no Brasil? Para responder a este questionamento, o programa Mobiliza desta terça-feira, 5 de novembro, às 23h30, recebe Celso Schröeder, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe; Pedrinho Guaresqui, professor  do Programa de Pós-Graduação de Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e Julio Ribeiro, diretor da Revista Press e presidente do Clube de Editores e Jornalistas de Opinião do Rio Grande do Sul.

O Mobiliza é apresentado por Thaís Baldasso e tem produção de João Brites e Lucas Guarnieri. A coordenação de jornalismo é de Andréa Martins e Luiz Olea. A atração pode ser conferida em horário alternativo aos sábados, às 14h.

Black Blocs: paradoxos e imposturas e intelectuais

mascaras2 O fenômeno envolvendo os chamados “black blocs” traz consigo alguns paradoxos que vem expondo imposturas intelectuais perigosas para a democracia. Cabe, aqui, qualificar bem em que sentido está sendo usada a palavra “impostura”. É em seu sentido mais literal mesmo: ação de enganar com falsas aparências ou falsas imputações. Pois não faltam falsas aparências e falsas imputações neste debate, se é que pode ser chamado assim. A primeira delas é que há muito sendo dito sobre os “black blocs”, mas a maior parte é por terceiros, ou seja, por pessoas que não reivindicam fazer parte desse…grupo, movimento…(??). Uma frase repete-se com frequência nestas falas: eu sou contra sair quebrando tudo, mas…A tolerância expressa na adversativa mal consegue disfarçar a frouxidão com que é tratada a primeira parte da frase: por que é mesmo que você é contra sair quebrando tudo?

Quebrando McDonald’s, Itaú, Banco do Brasil, Banrisul, lixeiras, museus, prédios particulares, carros, seja lá o que for. A lista é ecumênica. Aos olhos de alguns e de algumas, tudo isso é resultado desse “sistema que está aí e que não nos representa, Basta! A rebeldia nas ruas é a resposta à impunidade, à violência policial e à podridão da política”. As conversas vão por aí. Mas não há vozes black blocs propriamente, pois a sua voz se expressa na quebradeira e no enfrentamento com a polícia. As vozes black blocs são terceirizadas e os terceirizados se restringem ao plano discursivo. As falsas aparências e as falsas imputações andam de mãos dadas e tem em seu horizonte a irresponsabilidade política.

Irresponsabilidade aí, tomada no sentido literal da palavra também: não respondem por seus atos, pois eles não esperam uma resposta, uma vez que desqualificam completamente qualquer interlocutor político, já que essa esfera não representa nada. A ausência da representação é o ninho onde já foram chocados muitos ovos de serpentes. Os black blocs não topam se organizar, não há sequer um grupo identificado como tal. Suas vozes terceirizadas muitas vezes estão organizadas e usam as ações dos primeiros segundo suas conveniências.

As imposturas intelectuais e políticas envolvendo esse fenômeno atingiram um nível alarmante. Há mais representação numa lixeira instalada por uma prefeitura em uma calçada do que no ato estúpido de alguém que a arrebenta gratuitamente. Há mais democracia numa lâmpada que ilumina uma rua à noite do que no ato de quebrar um caixa eletrônico do Banco do Brasil. A instalação dessa lixeira tem uma longa história atrás dela. É a história da construção de algo chamado política pública, vida em comum, democracia. As instalações de um banco público também. Um vaso de um restaurante instalado em uma calçada, idem. Justificar ou relativizar esses atos estúpidos expressa uma mistura de desprezo e ignorância sobre o valor e os limites da democracia, que sempre é imperfeita.

A história da democracia no Brasil é recente e frágil. Parece haver uma cultura no país, à esquerda e à direita, que não hesita em abrir mão de dispositivos básicos da democracia em nome de uma indignação “contra tudo o que está aí” e “não nos representa”. Passou da hora de começar a dizer algumas coisas pelo nome: o discurso contra a representação é um discurso contra a democracia e a favor da violência e da anomia. Não há vida comum possível sem níveis e instâncias de representação e de hierarquia. Sem isso, estaríamos todos urrando no meio do mato, posição esta que parece exercer uma força de atração nostálgica para alguns.

A violência policial no Brasil não é apenas uma herança da ditadura. A violência está presente desde o batismo desse país. Violência e racismo. Violência contra os índios, contra os negros, contra os mestiços, contra os mais pobres, contra as mulheres. São séculos de violência semeada zelosamente no solo social e cultural de uma sociedade que ainda parece desconfiada da democracia. Desconfiada da democracia significa, entre outras coisas, desconfiada da política, do voto, dos partidos, dos parlamentos, das instituições. Há problemas? Muitos, vários. Mas há muitos avanços também. E o equilíbrio entre problemas e avanços só pode ser encarado, de um modo positivo para a democracia, por meio da política, da representação, do debate público, da recusa à terceirização da voz e da identidade.

A aposta na violência nas ruas que recusa a política e a representação é irmã gêmea da violência policial e institucional que marca a história do Brasil. Não é sua adversária, muito pelo contrário. È uma outra face dessa mesma violência perversa e ignorante que despreza a democracia. Não é à toa que quem se dispõe a sair na rua arrebentando uma lixeira, um semáforo, uma lâmpada, um carro ou a vidraça de um banco, não tem voz, recusa ter voz. E não é à toa também que quem pretende falar por estes que recusam ter voz, não os acompanham nas quebradeiras. Aí a impostura se abraça no oportunismo e compõe um pirão político-ideológico que nunca resultou em boa coisa. Não há nenhuma rebeldia aí, só o velho conservadorismo brasileiro que está sempre disposto a emprestar sua voz para o que não quer ter voz alguma.

Há mais política e possibilidade de democracia em um candidato do PSTU à vereança de alguma cidade, em uma reunião do PTB em Marau ou em um militante sindical do PCO panfleteando em uma porta de fábrica do que em uma turba enlouquecida quebrando tudo pelas ruas, ávida pelo encontro com a polícia. O que este encontro busca e propicia é a morte e a destruição de qualquer possibilidade de algo que mereça ser chamado de democracia.

(*) Publicado originalmente no Sul21.