Arquivo mensal: abril 2017

Lula e Dilma apontam rede Globo como direção política do golpe no Brasil

Lula e Dilma participaram juntos do ato em defesa do pólo naval que reuniu milhares de pessoas na praça central de Rio Grande. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta eleita em 2014, Dilma Rousseff, apontaram, na tarde de sábado, em Rio Grande, a Rede Globo como direção política do golpe que depôs Dilma em 2016 e vem implementando medidas de desmonte de direitos e de políticas de desenvolvimento como a de fortalecimento da indústria naval brasileira. Lula e Dilma participaram juntos do ato em defesa do pólo naval que reuniu milhares de pessoas na praça central de Rio Grande, um dia depois da greve geral que paralisou o país. A identificação da Globo como condutora do golpe foi enfática e acompanhada de um desafio.

“Este país sofreu um golpe. Eu fui afastada sem crime de responsabilidade por um bando de corruptos. É um golpe que tem na rede Globo o seu principal partido político e que possui um objetivo muito claro: enquadrar o Brasil social, política e economicamente no neoliberalismo”, disse Dilma. Lula falou sobre o tema ao relatar quais são os seus dois principais desejos hoje. “Estou pedindo a Deus para fazer o meu depoimento dia 10 em Curitiba. Será a primeira chance que eu terei de dizer tudo o que penso sobre o que está acontecendo no país. Em segundo lugar, desejo que a Globo escolha logo o seu candidato para 2018. Terei o maior prazer em derrotar o escolhido da rede Globo. A Globo não se presta mais a transmitir informações, mas em tentar destruir o PT, Dilma e Lula. Eles devem ficar com uma azia desgraçada, porque, depois de meses tentando me destruir, cada pesquisa eleitoral nos mostra a frente de todos os outros candidatos”, ironizou o ex-presidente.

A reação do público foi imediata e sacudiu a praça central de Rio Grande. Milhares de pessoas passaram a gritar “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Ao lado da carroceria de um caminhão improvisada como espaço para a imprensa acompanhar o ato, uma mulher aparentando ter mais de 80 anos de idade, pediu que a carregassem para um ponto mais alto, junto com a sua cadeira de rodas. “Eu quero ver o Lula e a Dilma”, explicou. Em cima do caminhão, fotógrafos e cinegrafistas disputavam cada centímetro de terreno para tentar captar imagens do clima apoteótico que foi se criando ao longo da fala de Lula.

Moro, Dallagnol e Fidel

Em seu pronunciamento, ele denunciou o processo de destruição de infra-estrutura e de direitos em curso no país e identificou os adversários e os desafios políticos a serem enfrentados nos próximos meses. “Se eu tiver mais um minuto ou mais vinte anos de vida, esse tempo será dedicado a recuperar a democracia e o direito do povo mais pobre ter três refeições por dia”. “Eu continuo sendo o Lulinha Paz e Amor. Não estou radicalizando. Só estou me virando para não apanhar tanto. A Polícia Federal foi na minha casa e, depois que eu já tinha saído, viraram o meu colchão. Acharam que eu tinha dinheiro escondido embaixo do colchão. O Moro e o Dallagnol não estão tentando me julgar por corrupção, mas sim pelo modo como eu governei o país. Estou tranqüilo. Como disse o Fidel, a história me absolverá”.

Didático, o ex-presidente se preocupou em contextualizar historicamente o que está acontecendo no Brasil hoje, lembrando a importância que o Rio Grande do Sul tem na história do país pelas lideranças e movimentos nacionais que surgiram no Estado. “Eu visitei o Rio Grande do Sul pela primeira vez em 1975, convidado pelo então presidente do Sindicato dos Bancários, Olívio Dutra. Ali conheci também o Tarso Genro, que era o advogado do sindicato. Depois de passar dois dias aqui, fiquei fascinado com o grau de discussão política que encontrei. Fiquei pensando. O Rio Grande do Sul já teve lideranças como Brizola, Jango, Getúlio e Júlio de Castilhos. Já lá em São Paulo, nós tivemos Jânio, Ademar e Maluf. Mas hoje, sinto que aqui houve um certo retrocesso, como aconteceu também em nível nacional. A direita tem avançado para destruir tudo aquilo que construímos”.

Delegações de várias cidades do Estado foram a Rio Grande participar do ato em defesa do Polo Naval.
 (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Lula também falou sobre o clima de ódio que foi se criando no Brasil contra ele, contra Dilma, o PT, sindicatos e movimentos sociais. “Por que tanto ódio? No início eu achava que era preconceito pelo fato de eu ser nordestino e não ter formação. Mas depois veio a Dilma, uma mulher de classe media, bem formada, com mestrado na Unicamp e tudo, e eles conseguiram ter mais ódio dela. Aí eu descobri que o motivo desse preconceito era porque a elite desse país trata a mulher como um objeto de cama e mesa”, assinalou, numa das várias referências que fez ao machismo e às desigualdades de gênero no Brasil. Ele defendeu o aumento da participação e da representação política das mulheres, destacando que os partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais devem dar o exemplo, fazendo isso internamente e combatendo o machismo que existe dentro deles.

“Para eles, pobre tem que comer pescoço de frango”

O clima de ódio que foi sendo alimentado no país tem ainda um outro componente, acrescentou: o ódio de classe. “O PT iniciou um processo de mudanças no país. Foi isso que irritou os nossos adversários. Quando surgiu a ocasião, eles perceberam nossa fragilidade e mandaram a gente para fora do governo. Hoje, nós temos a existência cotidiana de uma luta de classes que muita gente achou que tinha acabado. Tem gente que não suporta ver uma menina negra se formando em odontologia. Tem gente que não suporta ver uma menina de periferia se formando em medicina. Outros não suportam ver pobre andando de avião e querendo comer peito de frango e picanha. Para eles, pobre tem que comer pescoço de frango. Esse é o limite”.

Lula defendeu ainda a política de fortalecimento da indústria naval e de valorização do conteúdo local que tornaram Rio Grande em um dos principais pólos navais do Brasil. “A Petrobras é um patrimônio cultural, tecnológico e empresarial deste país. A Dilma é testemunha de quantas brigas tive durante a campanha, quando decidi assumir um compromisso com a reconstrução da indústria naval brasileira. Hoje, estão tentando destruir essa indústria. Não dá para aceitar ter um navio mais barato construído lá em Singapura e aqui ter riograndinos pobres dormindo na sarjeta”. Para o ex-presidente, as políticas que estão sendo implementadas por Temer estão destruindo o país:

“Eles não estão fazendo reformas. Estão demolindo o país”

“Deram um golpe na Dilma dizendo que iam melhorar o Brasil. Mas o país só piorou. Agora, estão destruindo tudo o que Getúlio fez em termos de legislação trabalhista. Quando a gente diz que vai fazer uma reforma em nossa casa é para melhorá-la. Eles não estão fazendo reformas, mas sim demolindo o Brasil. Estamos regredindo a uma situação quase de trabalho escravo. Não sei o que vai acontecer comigo, mas eles podem se preparar. Nós vamos voltar e recuperar a indústria naval deste país. A Petrobras vai voltar a ser do povo brasileiro. O petróleo pertence ao povo brasileiro e não às multinacionais. O BNDES vai voltar a ser um banco de desenvolvimento, o Banco do Brasil vai voltar a abrir as agências e nós vamos regular os meios de comunicação”, prometeu. Por fim, mandou um recado a Temer e seus aliados:

“Quem está desempregado não pode esperar até 2018. Ou devolvem o mandato a quem foi eleita pelo povo com mais de 54 milhões de votos ou tenham coragem de convocar eleições diretas já. Esse país não pode ficar de quatro para os americanos como quer a nossa elite”.

Dilma: “o golpe não acabou”

Dilma Rousseff disse que ficou extremamente triste ao ver a situação do pólo naval de Rio Grande. “Eu vi ele nascer. Vi o Estaleiro Rio Grande sair do chão nesta região que era considerada sem vocação. Estávamos construindo estaleiros por todo o país. Na década de 1980, o Brasil tinha uma indústria naval forte. Os governos Collor e FHC trataram de enterrar a nossa indústria naval. Hoje, tentam fazer isso de novo. Temos uma plataforma 60% construída aqui que hoje está parada, quando já poderia estar produzindo, gerando emprego, renda e riqueza. Eles têm uma visão de entregar o país”.

Ela também chamou a atenção para o caráter continuado do golpe e de sua agenda. “Eu vivi na pele dois golpes. Em 1964, tivemos um golpe militar que tirou direitos de toda a sociedade. O golpe parlamentar, midiático e judicial de hoje tem uma característica mais perversa ainda. Ele não acabou, continua sendo aplicado por meio de várias medidas. Uma delas é o fim do pólo naval, um golpe contra a soberania nacional. Outra é a Reforma Trabalhista. Outra ainda é a Reforma da Previdência. Nenhum brasileiro ou brasileira votaria a favor dessa perda de direitos e de soberania. Cada uma dessas medidas é uma parte do golpe.”

Dilma apontou ainda aquela que considera a principal tarefa política do presente. “De hoje até outubro de 2018, temos que ter um pensamento na cabeça: a luta pelo voto direto para a presidência da República. Eles não consolidaram todas essas medidas. Para evitar isso, não podemos deixar que eles se consolidem no poder. Não podemos deixar que eles ganhem no tapetão, impedindo Lula de ser candidato. Isso seria uma afronta ao nosso direito de voto. A democracia é o nosso caminho para o Brasil voltar a crescer, gerar empregos e para pegarmos os nossos direitos de volta.”

Alexandre Lindenmeyer: “tivemos um crescimento sem precedentes

O prefeito de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer (PT), agradeceu a presença de Lula e Dilma no município e as políticas que seus respectivos governos implementaram para o desenvolvimento do pólo naval. “A Metade Sul ficou mais de três décadas estagnada, sendo meramente um corredor de exportação. Os governos Lula e Dilma investiram no pólo naval e em energia eólica e tivemos um crescimento sem precedentes, que chegou a 12%. Hoje, tudo isso está sendo destruído. Estão desmontando o pólo naval e fechando a usina de Candiota. Já tivemos 20 mil trabalhadores aqui no pólo naval. Hoje, temos 3 mil, somando os de Rio Grande e os de São José do Norte. Não podemos permitir que o nosso pólo vire sucata”.

Em nome das frentes parlamentares municipal, estadual e nacional em defesa do pólo naval, o deputado estadual Nelsinho Metalúrgico (PT) entregou a Lula e Dilma um documento agradecendo pelos investimentos feitos na indústria naval e se comprometendo a lutar pela mesma.

Também participaram do ato o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, do Trabalho e da Previdência, Miguel Rossetto, a bancada gaúcha de deputados federais do PT e do PCdoB, deputados estaduais, o presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, Paulo Cayres, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, o integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo, a senadora Gleise Hoffmann (PT) e o líder da bancada do PT na Câmara, Carlos Zarattini (PT-SP), além de autoridades locais e representantes de sindicatos e movimentos sociais de várias regiões do Estado.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Após greve geral e milhares nas ruas, centrais querem manter unidade para derrotar Temer

Grande ato unificado da Greve Geral reuniu mais de 20 mil pessoas no centro de Porto Alegre. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O ato que reuniu representantes das categorias profissionais e setores da sociedade que participaram da greve geral desta sexta-feira (28) reuniu mais de 20 mil pessoas no centro de Porto Alegre. Após a mobilização iniciada pela madrugada nas garagens de ônibus da capital, trabalhadores dos setores público e privado, estudantes e profissionais liberais foram se concentrando na Esquina Democrática e no Largo Glênio Peres que logo se tornaram praticamente um só espaço, reunindo várias manifestações ao mesmo tempo. Entre organizadores e participantes foi se formando um consenso: aquele era o maior ato público realizado em Porto Alegre desde que iniciaram as manifestações contra o golpe e, em seguida, contra as reformas propostas pelo governo Temer e seus aliados.

Servidores da área da segurança, municipários de Porto Alegre, trabalhadores do setor de transporte, servidores do Judiciário, professores das mais diferentes áreas, movimentos sociais e estudantis: foi difícil identificar a quantidade e diversidade de categorias e setores concentrados no espaço que se estendia do Largo Glenio Peres até a Esquina Democrática. No ato, realizado ao lado do Mercado Público, dirigentes das centrais sindicais enfatizaram mais uma vez a importância da unidade construída entre as entidades para o êxito da greve geral e da continuidade da mobilização. Todos concordaram também que a luta contra as reformas de Temer será longa e exigirá a manutenção dessa unidade. Após a greve geral desta sexta, os próximos passos apontam fundamentalmente em uma direção: tentar barrar a votação da Reforma Trabalhista no Senado e derrotar a Reforma da Previdência na Câmara dos Deputados.

Após o ato no Largo Glênio Peres, milhares de manifestantes seguiram em caminhada pela avenida Júlio de Castilhos em direção ao túnel da Conceição e, depois, ao Largo Zumbi dos Palmares. Quando a ponta da marcha entrou na rua que dá acesso ao túnel, o final da mesma ainda estava perto do Mercado Público.  A caminhada foi acompanhada por agentes motorizados da EPTC, duas viaturas da Brigada Militar e o já tradicional helicóptero da instituição que acompanhou as manifestações em vários momentos do dia.

Passagem pelo túnel da Conceição foi marcada por cantos pedindo “Fora Temer!”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Na avaliação de Claudir Nespolo, presidente da Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (CUT-RS), a greve geral deste dia 28 de abril entrará para a história como uma grande mobilização da classe trabalhadora. “Em todo o Rio Grande do Sul, as principais cidades pararam. Porto Alegre nunca tinha visto uma paralisação deste tamanho. Essa greve vitoriosa nos coloca na mesa dos debates. Eles vão ter que começar a nos escutar”, destacou. O dirigente da CUT informou que todas as centrais sindicais farão nos próximos dias uma avaliação sobre o movimento e sobre os próximos passos. “Se não houver nenhum debate com os trabalhadores, voltaremos às ruas com uma greve maior ainda, por mais dias”, disse Claudir Nespolo.

Na mesma linha, Claudio Correa, diretor da Força Sindical, disse que a greve geral é o início de uma luta da classe trabalhadora unificada com a sociedade civil e com os estudantes para derrotar as propostas de Reforma da Previdência e Reforma Trabalhista. “Não existe dívida na Previdência. O governo toma 30% da Previdência todos os meses, não cobra as dívidas bilionárias do empresariado e agora quer sacrificar os que menos ganham. Nós vamos lutar muito contra isso. Não vamos entregar para os nossos filhos menos do que recebemos dos nossos pais. Vamos continuar nas ruas para barrar esse golpe que tentam dar na classe trabalhadora e na sociedade brasileira”. Correa também afirmou que uma greve geral continuada, por vários dias, está no horizonte de lutas, dependendo da evolução da conjuntura. “A sociedade brasileira precisa acordar, pois é o futuro de seus filhos que está em jogo”, defendeu.

Para Isaac Ortiz, presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do Rio Grande do Sul (Ugeirm Sindicato), o balanço da greve geral é extremamente positivo. “Ela mostrou o descontentamento do povo brasileiro com esse governo ilegítimo e corrupto que não tem o direito de prejudicar a vida dos trabalhadores do campo e da cidade. A greve uniu o povo de norte a sul do país e, daqui para frente, essa união tem que continuar para derrubar esses dois monstros que estão no Congresso, que são a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista”, afirmou Ortiz. Essas propostas, ressaltou, “nem merecem ser chamadas de reformas, pois representam o fim da aposentadoria e do trabalho no Brasil”.

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Edegar Pretto (PT), disse que a greve geral desta sexta-feira foi uma grande demonstração de unidade das centrais sindicais, dos movimentos sociais e populares, com um resultado extraordinário. “Foi um grande grito de alerta. Finalmente, os trabalhadores, independente de sua preferência partidária, se deram conta que o governo golpista e ilegítimo de Michel Temer está tentando pagar o golpe para quem o patrocinou, a saber, a grande indústria, a finança, o capital internacional que financiou parlamentares para derrubar a Dilma. O pagamento dessa fatura está se dando agora às custas dos direitos do povo trabalhador”.

Para Edegar Pretto, as reformas de Temer, além de serem injustas e ilegais, são medidas covardes. “O covarde faz justamente isso: ataca o mais fraco, pisa no pescoço dos pequenos, que é o que Temer está fazendo. As centrais sindicais e os movimentos sindicais se deram conta disso e construíram uma grande unidade que parou o país no dia de hoje. Acho que, daqui para frente, essa mobilização só aumenta. Os trabalhadores estão acordando e se dando conta que é preciso sair para a rua e parar o país, se for preciso, para defender o próprio país. O Temer e a sua turma gostariam que voltássemos ao tempo da escravidão”.

Neiva Lazarotto, da Intersindical, também destacou a importância da unidade construída nos últimos meses para o sucesso da greve geral. Ela defendeu a manutenção e aprofundamento dessa unidade como condição para derrotar as reformas de Temer. Dirigente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) no Rio Grande do Sul, Guiomar Vidor foi outro a chamar a atenção para o valor estratégico da unidade inédita construída. “As centrais sindicais e os movimentos sociais se unificaram pela defesa do nosso país e pelos direitos do nosso povo e da classe trabalhadora brasileira. Os governos Temer, Sartori e Marchezan representam um alinhamento dos infernos que vamos derrotar”, disse Vidor.

A próxima mobilização já tem data marcada. Na segunda-feira, 1° de maio, centrais sindicais, sindicatos e movimentos sociais realizarão um ato, a partir das 10h, no Monumento do Expedicionário, na Redenção.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

‘Acho que precisamos de umas coisas mais drásticas’: a greve geral no centro de Porto Alegre

Paradas de ônibus amanheceram vazias no Centro de Porto Alegre em decorrência da Greve Geral. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

O centro de Porto Alegre amanheceu com um cenário diferente nesta sexta-feira. A adesão dos trabalhadores de serviços de transportes à greve geral nacional contra a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista fez com que suas ruas principais ficassem praticamente desertas. Por volta das 8h30min, a Esquina Democrática e a rua da Praia indicavam que a greve tinha sido bem sucedida. No Largo Glenio Peres, a principal população era a das pombas que vivem naquela área. Alguns policiais militares, funcionários de bancas do Mercado Público que decidiram abrir e algumas dezenas de pessoas eram testemunhas de que a cidade viveria um dia diferente. Ao longo da Voluntários da Pátria, havia muitas lojas fechadas e outras com as grades semiabertas, esperando o desenrolar dos acontecimentos. Mas o início da manhã transcorreu sem incidentes no centro da Capital.

Proprietário da banca de jornais e revistas localizada no Largo Glênio Peres, José Fernando Araújo dos Santos trabalha no centro de Porto Alegre há cerca de 25 anos. Ele definiu o início da manhã no centro como “tranquilo, mas bem parado mesmo”. “Está normal, só falta o movimento das pessoas, pois não tem trem nem ônibus”. Em relação ao sentido da greve geral, ele defendeu a necessidade de outras formas de mobilização:

José Fernando Araújo dos Santos: “Tem que tirar a paz desses deputados e senadores que estão lá em Brasília”. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

“Acho que precisamos de umas coisas mais drásticas. Tem que tirar a paz desses deputados e senadores que estão lá em Brasília. Eles não podem mais ter tranquilidade já que a gente não tem tranquilidade, não tem segurança, nem assistência médica. E ainda querem tirar a aposentadoria e fazer um monte de coisas contra quem trabalha. É preciso tirar o sossego deles para que eles vejam como é que a gente vive também. Não dar mais espaço para eles e os familiares deles irem para a rua, para um restaurante. Sem violência. Só boicotar e vaiar, para eles se sentirem constrangidos.”

Adir Rocha, feirante há 33 anos no centro da cidade, ao lado do Mercado Público, previu que o movimento da sexta-feira seria menor que o de um feriado. “No feriado a gente ainda vende alguma coisa. Hoje, as pessoas nem têm como vir para o centro”. Questionado sobre os motivos da greve, ele disse achar que “não vai dar em nada”. “Tinha que ver outro meio para mudar a situação do Brasil. Nesta greve, as pessoas só deixam de trabalhar um dia”. Adir Rocha disse que está acompanhando o debate sobre as reformas da Previdência e Trabalhista. “Na verdade, tinha que fazer a mudança lá em cima com os grandão. Eles é que tinham que mudar e trabalhar honestamente para que o país pudesse ir pra frente. Se cada deputado e senador trabalhasse direito e não pensasse só no umbigo deles, o Brasil iria avançar. Do jeito que está, o país vai quebrar”.

O feirante questionou os argumentos utilizados pelo governo federal para defender a Reforma da Previdência. “Todo dia tem gente se aposentando, gente morrendo e gente nascendo também. O governo está dizendo que vai faltar dinheiro. Mas como é que, até agora estava dando. Alguma coisa está errada. Olha quantos bilhões estão sendo desviados. Esse dinheiro era para estar todo nos cofres públicos. A pessoa que trabalha 30 anos não pode se aposentar, enquanto eles lá trabalham oito anos e já se aposentam. Além disso, tem gente lá que tem três, quatro aposentadorias. Esse é um erro gravíssimo. Por que eles têm esse privilégio? É um serviço igual ao meu”, protestou.

Ao lado da rodoviária, um grupo de manifestantes fez bloqueios parciais na rua da Conceição, acompanhados de perto por um pelotão do Batalhão de Choque da Brigada Militar. Uma servidora pública estadual que preferiu não se identificar reclamou que não estava conseguindo ir para Montenegro, onde trabalha, porque o ônibus ainda não tinha chegado. Giovani Luigi, diretor de operações da Rodoviária de Porto Alegre, acompanhou a movimentação conversando com integrantes do Choque da Brigada.

A principal mobilização de manifestantes no centro, pela manhã, ocorreu em frente à Prefeitura, onde os municipários se concentraram. Maria Tereza Zatti, funcionária da Secretaria Municipal da Cultura, destacou que o sentido principal da greve geral é lutar contra a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista que vão tirar direitos dos trabalhadores. Ela classificou como muito boa a adesão da população à greve geral: “Não tem ônibus, não tem trem e muitas categorias organizadas estão paradas”. A servidora criticou a ação da Guarda Municipal contra os municipários, que ocorreu na metade da manhã, ao lado do prédio da Prefeitura. “Houve uma grande repressão do governo Marchezan, que não admite o direito de greve e de mobilização. A Guarda Municipal bateu e jogou spray de pimenta contra os servidores”, relatou.

Após a ação da Guarda Municipal, os servidores seguiram em frente à Prefeitura aguardando a chegada de mais colegas e de trabalhadores de outras categorias que começavam a se dirigir para o centro. Até o final da manhã, os transportes seguiam paralisados e as ruas com um movimento bastante reduzido.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Procuradores Municipais de Porto Alegre apoiam greve geral e criticam pacote de Marchezan

Cesar Sulzbach, presidente da Associação dos Procuradores do Município: “Gostaríamos que o prefeito Marchezan olhasse para os municipários como peça importante na solução dos problemas de Porto Alegre”. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

A Associação dos Procuradores do Município de Porto Alegre (APMPA) decidiu, em assembleia realizada quinta-feira, apoiar a greve geral e a mobilização dos servidores municipais da capital. Em nota, a associação disse que “diante da atual postura do governo municipal, os procuradores Municipais de Porto Alegre estão mobilizados e presentes, em defesa do exercício de suas prerrogativas, direitos constitucionais sociais, respeito e defesa da previdência municipal autônoma”.

A APMPA classificou como “inadequados e desnecessários para o equilíbrio das contas do Município” os projetos de lei que o prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) encaminhou à Câmara Municipal de Porto Alegre, tratando do aumento do índice de contribuição previdenciária dos servidores ativos e inativos e da desvinculação da reposição dos salários dos municipários do IPCA anual.

Segundo o presidente da associação, Cesar Sulzbach, os procuradores decidiram apoiar a greve geral e o movimento dos servidores especialmente em função dos projetos encaminhados pelo Executivo à Câmara Municipal alterando a Previdência dos municipários, elevando a alíquota de 11 para 14% e contrariando assim o próprio cálculo atuarial feito pelo Previmpa que apontou a desnecessidade de tal mudança. “O nosso instituto de Previdência, ao contrário de outros, é superavitário e bem administrado até agora”, disse Sulzbach ao Sul21.

O presidente da APMPA assinalou ainda que, desde 2005, a reposição salarial é feita pelo IPCA, que é o mesmo índice de correção dos tributos municipais. “Gostaríamos que o prefeito Marchezan olhasse para os municipários como peça importante na solução dos problemas de Porto Alegre. Os servidores trabalham para o êxito do nosso município e merecem o respeito e a consideração do prefeito, especialmente quanto à qualidade do trabalho executado”.

Diante desse cenário, a Associação dos Procuradores assegurou que “estará atenta e atuante, garantindo o controle da legalidade dos atos da Administração Pública e a concretude das políticas públicas”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

MST se soma à greve geral nesta sexta-feira

Milhares de Sem Terra acampados e assentados na Reforma Agrária estarão mobilizados em todas as regiões do estado gaúcho. (Foto: Catiana de Medeiros/MST)

Catiana de Medeiros – MST

Em repúdio às reformas da previdência e trabalhista do governo Michel Temer (PMDB), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio Grande do Sul se somará nesta sexta-feira (28) à greve geral, convocada pelas centrais sindicais e movimentos populares em todo o Brasil.

Milhares de Sem Terra acampados e assentados na Reforma Agrária estarão mobilizados em todas as regiões do estado gaúcho durante a madrugada e o dia de amanhã, ajudando a realizar diversas ações, tais como piquetes, trancamentos de rodovias estaduais, caminhadas, distribuição de panfletos e atos políticos. No Centro de Porto Alegre, a partir das 13 horas, haverá uma manifestação no Largo Glênio Peres, próximo ao Mercado Público.

Conforme Cedenir de Oliveira, da direção estadual do MST, a greve geral é resultado de um esforço coletivo de várias categorias do campo e da cidade de barrar a retirada de direitos. Segundo ele, o movimento de amanhã marcará o que vinha sendo construído desde o ano passado, pela classe trabalhadora, por meio do enfrentamento ao golpe contra a democracia brasileira. 

“Tínhamos consciência de que a retirada de Dilma da presidência da República era para implementar uma agenda neoliberal que previa, além da entrega do patrimônio público e das riquezas naturais, uma ofensiva contra a classe trabalhadora e seus direitos trabalhistas e previdenciários. O MST é um movimento que luta pela terra, mas também por uma sociedade mais justa e igualitária, por isto vai se somar a esta luta”, explica.

A participação do MST foi construída em assembleia com lideranças dos assentamentos e acampamentos. Nestes últimos dias, vários sindicatos e organizações sociais também confirmaram a participação dos trabalhadores na greve geral, entre eles rodoviários, metroviários, motoboys, metalúrgicos, bancários, sapateiros, petroleiros, policiais civis, trabalhadores nas indústrias de alimentação, do pólo petroquímico, do Polo Naval de Rio Grande, da saúde, judiciário, servidores públicos estaduais e federais, professores estaduais e das escolas privadas e municipários de diversas cidades.

De acordo com o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Claudir Nespolo, há cerca de 30 comitês organizados no interior gaúcho, ajudando a construir a paralisação. “Faremos a maior greve geral da história recente do Brasil para responder ao maior ataque aos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários”, declara.

Sindiágua pede investigação sobre privatização da água e PPP do saneamento no RS

Em junho de 2011, a Foz do Brasil, do grupo Odebrecht, começou a operar em Uruguaiana que se tornou a primeira cidade gaúcha a ter uma empresa privada como concessionária de água e esgoto. (Foto: Odebrecht Ambiental/Divulgação)

O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Purificação e Distribuição de Água em Serviços de Esgoto do Estado do Rio Grande do Sul (Sindiágua-RS) encaminhou nesta quinta-feira (27) uma representação junto ao Ministério Público de Contas pedindo a retomada do processo de investigação sobre o modo como aconteceu a privatização da água em Uruguaiana e São Gabriel. Além disso, solicitou que o órgão avalie a intenção da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) de realizar parcerias público-privadas (PPP’s) no esgotamento sanitário de nove cidades da Região Metropolitana.

Na avaliação do Sindiágua, a recente divulgação de delações de executivos da Odebrecht confirma suspeitas levantadas pelo sindicato na época envolvendo a relação entre empresas privadas e políticos. Segundo a delação do ex-executivo da Odebrecht, Paulo Welzel, à Polícia Federal, dez políticos de Uruguaiana foram procurados para apoiar a permanência da empresa nos serviços públicos do município. Em junho de 2011, a Foz do Brasil, do grupo Odebrecht, começou a operar em Uruguaiana que se tornou a primeira cidade gaúcha a ter uma empresa privada como concessionária de água e esgoto. O processo de privatização foi conduzido pelo então prefeito de Uruguaiana, Sanchotene Felice (PSDB).

“Delação seletiva e cirúrgica”

O sindicato manifestou preocupação ao MP de Contas com o que definiu como “delação seletiva e bem orquestrada” dos representantes da Odebrecht na Operação Lava Jato. Para o Sindiágua, as delações foram cirúrgicas. “Onde eles têm contrato vigente, tomaram o maior cuidado para não dizer a maneira como conquistaram o contrato (como ocorreu em Uruguaiana). Relataram sua chegada e tentativa de conseguir contratos novos apenas em situações e municípios onde não tiveram êxito”, observou o sindicato.

No documento encaminhado ao procurador Geraldo Costa Da Camino, o Sindiágua assinala ainda que a “delação de Guilherme Paschoal, quando relata situação da cidade de São José do Rio Preto é a síntese do modus operandi que a iniciativa privada adotou para entrar no mercado do saneamento”. Além de identificar o município que lhes interessa, com características pré-definidas por eles, o delator cita ainda que tal município se localiza sobre o Aquífero Guarani, indicando uma pista sobre um dos principais objetos de interesse de empresas privadas no setor.

Parcerias Público-Privadas

Em relação à proposta de Parceria Público-Privada no setor de saneamento, o Sindiágua lembrou ao MP de Contas que, no governo passado, houve estudos de Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) na Corsan, para o serviço de esgoto. Várias empresas apresentaram estudos para diversas regiões do Estado, mas o governo não mostrou interesse por nenhum destes estudos e o processo todo acabou sendo arquivado. Com a mudança de governo e de direção na Corsan, o projeto foi retomado e hoje a companhia está em fase de convencimento dos prefeitos da Região Metropolitana sobre a viabilidade e necessidade de PPP para o esgoto em nove municípios.

Diante deste cenário, o sindicato faz os seguintes questionamentos: qual o critério adotado para a retomada do PMI? Por que optaram apenas pela Região Metropolitana? Por que a Equipav foi a única empresa escolhida para dar seguimento ao estudo, uma vez que, na primeira etapa, essa empresa não executou os estudos da Região Metropolitana?

Para o Sindiágua, fica clara a semelhança entre os processos de tentativa de implementar uma PPP na área do saneamento no Rio Grande do Sul e o que ocorreu na Paraíba. Naquele Estado, a Odebrecht tinha interesse de fazer uma PPP somente para a coleta e tratamento de esgoto. A empresa apresentou ao governador Ricardo Coutinho um PMI para o esgoto, mas este não se interessou pelo projeto. Segundo a delação de Fernando Reis, como a eleição de 2014 se aproximava, a empresa procurou um candidato com potencial para derrotar o então governador. O então candidato Cássio Cunha Lima (PSDB) teria sido o escolhido e aceitado levar o projeto adiante, caso eleito.

Ainda segundo o delator, esta ação de convencimento teria custado R$ 800 mil a Odebrecht, valor que teria sido pago em caixa dois. Reis disse na delação que o caixa dois foi o caminho escolhido porque a Odebrecht já havia feito o PMI e se aparecesse uma doação oficial ao candidato eleito e acontecesse a PPP, alguém poderia apontar a existência de conflito de interesse. No entanto, Ricardo Coutinho se reelegeu e o projeto não avançou.

O Sindiágua chama a atenção ainda para o fato de a Odebrecht investir uma grande soma em dinheiro em políticos com possibilidade de serem eleitos sendo que, caso isso ocorra, a empresa ainda terá que passar por uma licitação. “Será que eles já sabem com antecedência que serão os vencedores da licitação?” – questiona o sindicato.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Uma greve geral e um 1º de maio precedidas por outra chacina de camponeses

Imagem: Site Carta Capital

Jacques Távora Alfonsin

Os assassinatos praticados contra agricultoras/es sem terra, acampadas/os ou assentadas/os no Brasil, mesmo repetidos com tanta violência e aumento progressivo do número das suas vítimas, não provocam nos Poderes Públicos responsáveis pela segurança das pessoas, nem na maior parte da mídia, a repercussão que toda violação do direito à vida poderia e deveria suscitar.

Faz prova disso mais uma chacina praticada contra agricultoras/es no noroeste do Estado de Mato Grosso. Como resumiu El Pais em sua edição de 25 deste abril, tanto as vítimas, os mandantes, os executores e a motivação deste crime parece não serem muito diferentes tudo quanto a Comissão Pastoral da Terra denuncia, há mais de 30 anos, em suas publicações relativas aos permanentes conflitos fundiários acontecidos no Brasil, sem que providências efetivas sejam tomadas pelos poderes públicos:

Na última quarta-feira, nove homens foram mortos com sinais de tortura no vilarejo de Taquaruçu do Norte, uma área rural de difícil acesso, distante 250 km por uma estrada de terra do centro do município de Colniza, a maior cidade da região. Segundo a Polícia Civil, testemunhas afirmam que eles foram alvejados enquanto trabalhavam na terra por homens encapuzados. A área era ocupada por cerca de 100 famílias desde os anos 2000, segundo a CPT. Elas já plantavam arroz, feijão, criavam galinha e porco e havia uma pequena vila, com uma mercearia. Segundo a Pastoral da Terra, no domingo os moradores do local sofreram novas ameaças e começaram a abandonar a terra. {…} Segundo o relatório da CPT, que há 32 anos documenta os conflitos e violências no campo, no ano passado 61 pessoas foram assassinadas no país em áreas rurais neste contexto de disputa de terra, 11 a mais do que no ano anterior. Também houve um aumento de 86% nas ameaças de morte e de 68% nas tentativas de assassinato. Entre 1985 e 2016 1.834 pessoas perderam a vida em conflitos no campo, mas apenas 31 mandantes desses assassinatos foram condenados. A maior parte dos conflitos, de acordo com a instituição, acontecem na Amazônia legal”.

A nota de repúdio ao crime, contudo, assinada pela Prelazia de São Felix do Araguaia, preocupou-se em não deixar dúvidas sobre o contexto político responsável pela indiferença e pela apatia com que barbaridades como essas seguem ocorrendo no país a revelia de enfrentamento condizente. Por sua extraordinária avaliação do contexto passado e atual dessa responsabilidade, entendemos conveniente transcrevê-la na íntegra:

“A Prelazia de São Félix do Araguaia, em reunião com suas/seus agentes de pastoral, seu bispo dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito dom Pedro Casaldáliga, na cidade de São Félix do Araguaia – MT, manifesta sua dor, indignação e solidariedade com as famílias assassinadas na Gleba Taquaruçu, município de Colniza – MT, no dia 20 de abril. Este massacre acontece num momento histórico de usurpação do poder político através de um golpe institucional, com avanços tão graves na perda de direitos fundamentais para o povo brasileiro que coloca o governo do atual presidente Temer numa posição de guerra contra os pobres, isso refletido de forma concreta nos projetos, como as Medidas Provisórias 215 e 759, que violam direitos dos povos do campo e comunidades tradicionais, como também no acirramento do cenário de violações contra as/os defensores de direitos humanos. Diversos políticos expõem abertamente seus discursos de ódio e incitação à violência contra as comunidades que lutam pelos seus direitos. Vivemos um clima de “Terra sem lei”, uma verdadeira guerra civil em nosso país.

Como consequência, o ano de 2016 foi o mais violento dos últimos 13 anos, apontando para uma perspectiva desoladora no campo. E esta situação de Colniza, onde assassinaram inclusive crianças, nos expõe diante dos objetivos de ruralistas que não temem nada para conseguir as terras que buscam”.

As famílias de agricultores da Gleba Taquaruçu vêm sofrendo violência desde o ano de 2004. Neste período, em decisão judicial, a Cooperativa Agrícola Mista de Produção Roosevelt ganha reintegração de posse concedida pelo juiz de Direito da Comarca de Colniza, como anunciada na Nota da Comissão Pastoral da Terra, de 20 de abril deste ano. Em 2007, ao menos 10 trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado e, neste mesmo ano, três agricultores foram assassinados.Como estão, neste momento, as famílias que vivem em Colniza? O município já foi considerado o mais violento do país. Sabemos que na região existem outros conflitos de extrema gravidade, como o da fazenda Magali, desde o ano 2000, e o conflito na Gleba Terra Roxa, desde o ano de 2004. A população teme que outros massacres possam acontecer.

Clamamos justiça e que os autores desses crimes sejam processados e punidos. A conseqüente impunidade no campo, fruto da omissão dos órgãos públicos, perpetua a violência. Na semana em que lamentamos o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1997, que vitimou 19 lutadoras e lutadores do povo, somos surpreendidos por outro massacre no campo, que quer amedrontar, calar as vozes e submeter a dignidade do povo brasileiro. Temos a certeza que o massacre ocorrido jamais roubará os sonhos e as esperanças do povo. E jamais calará a voz das comunidades que lutam. O sangue dos mártires será sempre semente de JUSTIÇA e VIDA!

Pouco importa que a nota tenha identificado a PEC 215 (projeto de emenda constitucional) como se ela se constituísse medida provisória. O efeito que mais interessa extrair-se dessa oportuna e conveniente manifestação é a adequação e a coragem ali expressas para dizer o que, de fato, precisa ser dito: a chacina se insere em ambiente no qual está “havendo usurpação do poder político através de um golpe institucional”, refletido concretamente na perda de direitos fundamentais do povo, colocando o governo do presidente Temer “numa posição de guerra contra os pobres”, abrindo chance aos discursos de ódio contra “comunidades que lutam pelos seus direitos.” Por que o Ministério da Justiça e, ou, o dos Direitos Humanos não têm nada a dizer sobre isso?

A pauta de reivindicações inspiradora da greve geral de sexta-feira que vem, e das comemorações de 1º de maio deste, tem de inscrever mais esse ponto de lamentável lembrança: são indispensáveis e urgentes as medidas a serem tomadas pelo Estado e a sociedade civil para se barrar o crescimento progressivo, no Brasil, dos crimes de ameaça e de violações dos direitos humanos fundamentais do povo trabalhador e pobre, que estão retirando da Constituição e das leis – de todos os seus efeitos, consequentemente – conquistas históricas deste mesmo povo.

Contra os poderes políticos e econômicos hoje voltados contra elas, ainda não são suficientes mobilizações massivas como as planejadas para o dia 28 deste mês e 1º de maio. Com a ressalva de melhor juízo sobre nossa realidade atual, urge um esforço diuturno de conscientização e ação da população vítima desses poderes, organizando e reunindo força ético-política bastante para barrar-lhes a macabra modalidade da sua ação a serviço da morte, até aqui impune, como costumeiramente acontece no Brasil. Que o custo do sangue e de vidas como as dos agricultores assassinados em Colniza, não nos amedronte, não nos cale, nem submeta a nossa dignidade, como diz muito bem a nota da Prelazia de São Felix do Araguaia.

Para economizar, governo Sartori manda recolher cavalos da BM em 12 cidades para vendê-los em leilão

Motivo da decisão: otimizar gestão e reduzir custos. (Foto: Ascom/Brigada Militar)

O governador José Ivo Sartori (PMDB) mandou recolher parte dos cavalos das unidades da Brigada Militar dos municípios de Vacaria, Santiago, Santa Cruz do Sul, Cachoeira do Sul, Santo Ângelo, São Gabriel, Bagé, Pelotas e Rio Grande. Além disso, também mandou diminuir a quantidade de animais em Santa Maria, Santana do Livramento e Passo Fundo. Em 70 dias, o governo pretende vender em um leilão os cavalos da Brigada Militar recolhidos nos municípios citados. A revelação foi feita na tarde desta segunda-feira pelo deputado estadual Jeferson Fernandes (PT), em um vídeo publicado nas redes sociais.

A determinação de recolhimento dos animais para leilão, informou o deputado, foi feita pela ordem de serviço nº 515, publicada pelo governo no dia 6 de março.

O governador, acrescentou o deputado, estaria mandando também fechar os canis mantidos pela Brigada Militar. Jeferson Fernandes anunciou que enviará um requerimento às Câmaras de Vereadores e às prefeituras dos municípios citados, bem como aos comandos locais da Brigada Militar para ouvir o seu posicionamento sobre a ordem do governador.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

O sacramento da confissão hoje em dia

“A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame se sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior”.

Flavio Aguiar

Quando eu estudava no Colégio Anchieta de Porto Alegre, escola jesuíta de calado profundo (e naquele tempo os jesuítas gaúchos eram profundamente reacionários, na maioria), eu era católico ferrenho, ainda que não carola. Praticava religiosamente os sacramentos cabíveis. As exceções eram o batismo, só de entrada neste vale de lágrimas, a extrema-unção – vôte cobra tutufum treis veiz – o casamento – tutufum seis veiz – a crisma, que a gente faz uma vez só também – e a ordenação sacerdotal, com aqueles votos de caridade, obediência (argh!) e castidade (AAARRGH!). Ou seja, eu praticava a confissão e a posterior comunhão.

A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame de sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior. De manhã, tomar só água, pra evitar desmaios vergonhosos, no nosso caso de machinhos que consideravam essas coisas dignas de mulher, apenas. Nem pasta de dente a gente podia engolir: vai que o hálito perfumado, que só Colgate ou Kolynos lhe davam, espantasse o Senhor! Depois, lá na missa, ajoelhados na frente do altar, o sacerdote, com o coroinha colocando uma bandeja no nosso queixo (vá que a gente babasse o Senhor!), o padre colocava a hóstia – um pãozinho branquela e ázimo, sem fermento, o Senhor não podia inchar nem no forno,  e sem gosto – na boca, e a gente não podia tocar Aquilo com os dentes. O diabo é que às vezes o raio da hóstia grudava no céu da boca e dava uma coceira danada, mas a gente não podia nem sonhar em tirá-la com a unha, ai deus e o diabo não na terra do sol, mas na tua boca! Tinha que fazer contorcionismo de circo, digno de dança do ventre, com a língua mesmo, até que Aquilo descolasse e seguisse o rumo natural das entranhas agora abençoadas.

Fui algumas vezes tomado por dúvidas teológicas cruciais. Por exemplo, a gente expeliria os restos da hóstia junto com as outras coisas que a gente engole, pelas vias naturais? Oh, dúvida cruel! Só me acalmei ao considerar que o espírito que estava dentro da hóstia se transmitia para outras partes de nosso corpo, como o pulmão e o coração, ou o cérebro, e o que ia para o intestino era apenas o resto mortal e ázimo da hóstia. Embora não houvesse nela, o fermento se fazia presente em fomentar dentro de nós a presença da fé. Ai caramba, quantas noites tais questões me atormentaram!

Antes, havia a confissão. A gente se achegava ao confessionário, se ajoelhava, com a treliça de madeirinha escondendo nosso rostos (o meu e o do confessor) e dizia:

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.
– Deus te abençoe, meu filho, que buscas o perdão de teus pecados.

Daí a gente enfileirava os pecados. Fiz isto, fiz aquilo, deixei de fazer aqulioutro, etc. Momento mais complicado era sempre o dos pecados contra a castidade. Vinham as perguntas:

– Meu filho, foi em obra ou pensamento?

Ambas as respostas eram bronca. Mas o mais difícil era quando a gente respondia “obra”.

– Foi sozinho ou com alguém mais?

Barbaridade, aí doía. O “sozinho” era chato, mas revelava apenas o que hoje chamo de seguidor de Onan, este seguidor apequenado de Ouranos, o deus grego que fecundava Gaia sem parar, e que jaz em todos nós. Agora, o “alguém mais” implicava a confissão da natureza do ato. E era inevitável que a gente, além de falar das vergonhosas vergonhas, fosse pela frente, por trás ou por todos os lados, se sentisse uma espécie de dedo-duro perante Deus, pois mesmo que nomes não fossem pronunciados, Ele, como está em toda a parte, adivinharia de quem se tratava. Só me acalmei diante desta excruciante questão quando considerei, Supra Sumo Teológico, que, se Deus estava em toda parte, Ele tinha visto o próprio pecado no ato, e assim já sabia do que e de quem se tratava.

Depois da completar a lista de pecados, vinham os conselhos do confessor, a promessa (que ambos sabíamos ser mentirosa, mais um pecado para a próxima confissão) de que nos esforçaríamos para não fazer mais aquilo, nem aquiloutro, nem aquiloloutro, etc. E a confissão terminava com a penitência – xis ave-marias, ipsilones padres-nossos, pois naquele tempo não havia o pós-moderno pai-nosso, e zês salve-rainhas).

– Ego te absolvo in nomine Domini. (Ou algo assim, meu latim nunca foi muito bom). Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado!

E a gente saía com a alma mais alva e zerada que lençol lavado com Rinso e pronta para acolher mais pecados.

Fico pensando na confissão hoje em dia, tão avacalhada! o confessor e o pecador se assentam frente a frente, olho no olho, como se fosse consultório de psicanalista laico. Mas e se a gente pegasse algum daqueles padres reacionários como os de então?

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.

– Confessa, meu filho, e pede perdão pelos teus pecados.

– Aí a gente desfilaria os pecados.

– Depois viria a pergunta.

– Meu filho, foi sozinho ou com o Lula?

– Sozinho. Ou com outras pessoas.

– Então, seu pecador miserável, tua confissão não vale nada, vais arder pela eternidade nas profundas de Curitiba!

– Não, não, padre, perdoai-me, foi com o Lula. E no triplex dele no Guarujá. Ou no sítio em Atibaia.

– Ah bom. Então reza aí meia Ave-Maria, assina o Globo, assiste o Jornal Nacional, e fim de papo. Estás perdoado.

– Obrigado, padre.

– Ah sim, e assina o manifesto em favor da Lava Jato e da Opus Dei.

– Mas padre, aquele procurador famoso, o do power-point, ele não é da Opus Dei. Ele é evangélico.

– Meu filho, o condomínio do Senhor tem várias filiais, como uma franchise, entendeu? Louvado seja o Nosso Sacrossanto Juiz, que há de julgar os mortos e o Lula, porque os vivos e os vivarachos serão perdoados.

– Para sempre seja louvado!

E a gente sai com a alma pronta. Para o quê? Bom, isto é outro assunto.

Mas felizmente agora está aí o Papa Francisco I para assegurar que isto não passa de ficção científica. Pelo menos em relação à Igreja Católica.

A carta de Antonio Britto e as promessas do PMDB

 Deputados estaduais do PMDB e da base aliada do governo José Ivo Sartori fizeram nos últimos meses declarações enfáticas chamando inclusive de mentirosos aqueles que apontam uma real ameaça de privatização do Banrisul pela atual gestão. “A chance do Banrisul ser privatizado é zero”, disse em fevereiro deste ano o líder do governo Sartori na Assembleia, deputa Gabriel Souza. Banrisul e Corsan estão fora do processo de privatizações, garantiu o secretário estadual da Fazenda, Giovani Feltes.

A credibilidade das declarações enfáticas das atuais lideranças do PMDB depende de uma certa amnésia em relação a promessas recentes e feitas em um passado não muito distante. No dia 27 de março de 2015, o governador Sartori, durante aniversário da TVE, destacou o trabalho desenvolvido pelos veículos da Fundação Piratini, afirmando que ele representava “uma obrigação do Estado, que é a de fazer comunicação social”. “Eu só tenho um desejo para compartilhar com vocês todos: Vida Longa à Fundação Piratini”, bradou o governador naquela ocasião. Poucos meses depois, anunciava a extinção da TVE e da rádio FM Cultura e a demissão de seus servidores.

A prática não é nova em se tratando de governos do PMDB no Rio Grande do Sul. Na campanha eleitoral de 1994, o então candidato do partido, Antonio Britto, enviou uma carta a todos os funcionários da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), garantindo que não iria privatizar a empresa e que aqueles que afirmavam isso eram mentirosos. Na carta, Britto afirmou:

“A chamada Frente Popular espalha boatos. Um deles: vou fechar ou vender a CRT. É uma bobagem. É uma mentira. Dentro de quatro anos, vamos juntos comemorar ter feito a CRT mais profissional, mais viável e mais eficiente do que nunca”.

Eleito governador, com o voto de muitos funcionários da CRT, Britto privatizou a empresa dois anos depois. Em seu governo também, Britto firmou um acordo de renegociação da dívida com o governo Fernando Henrique Cardoso, que foi apresentado na época como a solução definitiva. para a crise financeira do Estado. “Rio Grande liquida a dívida”, estampou em manchete o jornal Zero Hora, do Grupo RBS, que participou ativamente da privatização da CRT.

Mais de vinte anos se passaram, o Estado vive sob um novo governo do PMDB e os discursos se repetem. A crise que, supostamente teria sido liquidada no governo Britto, segue presente e as privatizações e uma nova renegociação milagrosa da dívida são apresentadas como as únicas soluções para o Estado não quebrar. O jornal Zero Hora publica diversas matérias insistindo que a “crise financeira da CEEE” justifica a privatização da empresa. As manchetes e editoriais do passado são varridas da memória.

A história política recente do Rio Grande do Sul é marcada, entre outras coisas, pela repetição dessa estratégia articulada entre governos do PMDB e a linha editorial do Grupo RBS. É uma estratégia que tem como ingredientes essenciais o cultivo da amnésia e do esquecimento junto à população. Por isso, nunca é demais lembrar as marcas vivas dessa estratégia como é a carta que Antonio Britto enviou aos funcionários da CRT em 1994. Há outra lembrança importante a ser resgatada também: derrotado por Olívio Dutra nas eleições de 1998, Britto negou-se a passar o cargo para seu sucessor e foi trabalhar como executivo de uma empresa que havia participado do processo de privatização da CRT.

 

‘Crise da Oi é a desmoralização total das privatizações no setor da telefonia’

No final dos anos 90, o setor de telefonia brasileiro passou por um processo de privatização radical. O governo Antonio Britto (PMDB) foi um dos pioneiros deste processo conduzido nacionalmente pelo governo Fernando Henrique Cardoso, privatizando a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). Na campanha que o elegeu governador, Britto enviou uma carta a todos os funcionários da empresa chamando de mentirosos aqueles que diziam que ele iria privatizá-la. Uma vez eleito, começou a fazer aquilo que disse que não iria fazer.

No dia 16 de dezembro de 1996, o consórcio Telefonia do Brasil (controlado por capital espanhol e que tinha, entre seus integrantes, o grupo RBS) venceu a licitação que consumou o processo de privatização. Na época, o negócio foi apresentado pelo governo e pelo principal grupo de comunicação do Estado, que havia participado ativamente do negócio, como um grande avanço para toda a sociedade. A facilidade no acesso à telefonia era um dos principais argumentos apresentados então. Mais de vinte anos depois, qual é o balanço desse processo?

A ideia de que a privatização da telefonia foi positiva parece seguir dominante entre a maioria da opinião pública, embora as operadoras de telefonia liderem os rankings de reclamações dos consumidores. Para o presidente do Sindicato dos Telefônicos do Rio Grande do Sul (Sinttel-RS), Gilnei Porto Azambuja, esse fato é um dos indicadores dos prejuízos que a privatização da telefonia trouxe, não só para os trabalhadores do setor, mas para a sociedade como um todo. “Em um primeiro momento, a sociedade ficou eufórica em virtude da promessa da melhoria dos serviços. Depois, as tarifas dispararam, o atendimento à população piorou e as condições de trabalho dos trabalhadores pioraram drasticamente”, diz ele.

Em entrevista ao Sul21, Gilnei Azambuja faz uma retrospectiva histórica e um balanço do processo de privatização da telefonia, destacando o significado da crise atual vivida pela Oi. “A crise da Oi, que deve mais de R$ 65 bi e está ameaçada de sofrer uma intervenção federal, expôs agora problemas que vínhamos denunciando há tempos, como má administração e evasão de divisas. Nós temos convicção de que o caso da Oi é a desmoralização total das privatizações no setor da telefonia”, defende o presidente do Sinttel-RS. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

A viagem de Marchezan e o aprimoramento profissional da elite brasileira

Wish Resort, hotel cinco estrelas de Foz do Iguaçu, sede do Fórum Empresarial organizado para “debater os rumos do Brasil”. (Foto: Divulgação/Wish Resort)

Na última quinta-feira, o site da Prefeitura de Porto Alegre anunciou que o vice-prefeito Gustavo Paim (PP) estava assumindo interinamente a chefia do Executivo municipal, pois o prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) estava viajando para “aprimoramento profissional”. Em um primeiro momento, a Prefeitura não revelou o que seria essa viagem de aprimoramento profissional. Depois, por alguma razão, a notícia que anunciava a posse do vice como interino foi modificada. A expressão “aprimoramento profissional” desapareceu e foi informado que Marchezan estava viajando para Foz do Iguaçu para participar do 16o. Fórum Empresarial Foz do Iguaçu, promovido pelo grupo Lide Global que, até o ano passado, era presidido pelo empresário e apresentador de TV, João Dória (PSDB), atual prefeito de São Paulo.

Segundo o relato em dois tempos do site da Prefeitura, portanto, o prefeito Marchezan viajou para o Fórum Empresarial para “aprimoramento profissional”. Conforme informações dos organizadores do encontro de quatro dias, o mesmo reuniria “alguns dos mais importantes líderes políticos e empresariais do país para uma agenda de debates sobre política econômica, gestão empresarial e responsabilidade social que impactam no desenvolvimento do Brasil”. Sem dúvida, um encontro de quatro dias reunindo “importantes lideres políticos e empresariais do país” e com um agenda tão ambiciosa deveria resultar em um conjunto de debates sobre os problemas e os rumos do país. A programação oficial do mesmo, porém, trouxe uma surpresa.

Dos quatro dias de atividade, apenas uma manhã estava reservada para esse debate. O seminário na manhã de sexta tinha como título “As ações necessárias para a retomada do crescimento brasileiro”. Todo o restante da programação foi preenchido por coquetéis, almoços, jantares, entregas de prêmios, torneios de golf, de tênis e futebol society, aula de vinhos, sessão de degustação de uísques escoceses, test drives de automóveis Mercedes Benz, passeio pelas Cataratas do Iguaçu e um show de Sidney Magal no encerramento do evento. A organização do Fórum Empresarial não chegou a explicitar em que medida essa intensa jornada gastronômica, esportiva e cultural contribuiu para a identificação das “ações necessárias para a retomada do crescimento brasileiro”.

No único debate dos quatro dias, os “importantes líderes políticos e empresariais” do país defenderam a retirada de direitos de milhões de trabalhadores brasileiros, por meio das reformas da Previdência e Trabalhista, como condição para a “retomada do crescimento brasileiro”. Antes e depois desse painel, se houve algum debate sobre a retirada de direitos de milhões de brasileiros e brasileiras, ele se deu entre uma sessão de degustação de uísque escocês, um test drive de um reluzente Mercedes Benz e um show de Sidney Magal.

A população de Porto Alegre aguarda com expectativa um relato do prefeito Nelson Marchezan Jr. sobre o aprimoramento profissional obtido nesta jornada intensa de quatro dias de atividades no Wish Resort, um hotel cinco estrelas de Foz do Iguaçu, que possui, como afirma a página do estabelecimento, uma infraestrutura digna de hotel de luxo com padrão internacional, com campo de golfe, piscinas, jacuzzis, quadras esportivas e outras atrações. Espera-se que um ambiente tão austero e uma programação tão intensa possa ter inspirado o prefeito a encontrar soluções para a situação de caos financeiro apontada por ele na Prefeitura de Porto Alegre, que está paralisando importantes atendimentos na área de assistência social para a população mais pobre e pode levar inclusive ao atraso e parcelamento dos salários dos servidores municipais.

A programação do encontro não é muito animadora neste sentido, pois pareceu indicar mais um encontro de novos ricos provincianos, deslumbrados com o poder, dinheiro, roupas, carros e bebidas “de marca” e com uma programação que revela um profundo desprezo pela situação vivida hoje por milhões de pessoas que estão perdendo ou estão prestes a perder alguns dos poucos direitos conquistados nas últimas décadas. A julgar pelo programa do encontro, uma das possíveis lições do mesmo é reafirmar o desprezo que a elite brasileira tem povo do país.