Arquivo da tag: Agricultura Familiar

13ª Feira Latino-Americana de Economia Solidária terá túnel com alimentos da Reforma Agrária

O espaço também vai oferecer artesanatos, ervas medicinais e sementes, todos produzidos por famílias assentadas e acampadas no Rio Grande do Sul. (Foto: Divulgação/MST)

Catiana de Medeiros – MST

Os alimentos da Reforma Agrária estarão disponíveis para aquisição na 24ª Feira Internacional do Cooperativismo (Feicoop) e 13ª Feira Latino-Americana de Economia Solidária (EcoSol), que serão realizadas de 7 e 9 de julho no Centro de Referência de Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter, na cidade de Santa Maria, na região Central do Rio Grande do Sul. Os eventos são considerados os maiores do ramo na América Latina.

Famílias assentadas e acampadas de dez regionais do MST no estado gaúcho já se preparam para participar com diversidade e variedade de alimentos — a maioria é produzida sem o uso de venenos e por meio de 18 cooperativas e associações, todas localizadas em áreas de assentamentos. Entre eles há batata doce, abóbora, mandioca, amendoim, queijo, salame, mel, ovos, pães, bolos, bolachas, biscoitos, cuca, melado, feijão, arroz branco, integral, cateto e agulhinha, suco de uva, leite em pó, farinha de arroz, geleias de uva e amora. Nas bancas do Movimento Sem Terra, que estarão localizadas no Túnel da Reforma Agrária, de cerca de 50 metros de comprimento, situado ao lado direito do portão de entrada das feiras, também terão ervas medicinais, sementes de hortaliças agroecológicas e artesanatos. No local ainda terá produtos de povos tradicionais de matriz africana e de comunidades quilombolas.

De acordo com Salete Carollo, coordenadora do setor de Produção do MST no RS, a feira é fundamental para mostrar aos visitantes os resultados da Reforma Agrária, especialmente no cultivo de alimentos, além de propiciar convivências com processos de economia solidária, que têm como base relações de trabalho sem exploração. “São resultados do trabalho coletivo, que se estabelece em relações de solidariedade”, acrescenta.

250 mil visitantes

A Feicoop e EcoSol são feiras anuais e promovidas pelo Projeto Esperança/Cooesperança, com o apoio da Prefeitura de Santa Maria, Cáritas, Instituto Marista Solidariedade (IMS), Fórum Brasileiro e Gaúcho de Economia Solidária, entre outras entidades.

Para esta edição, segundo a irmã Lourdes Dill, que coordena o projeto, a expectativa é que as duas feiras atraiam cerca de 250 mil pessoas ao Centro de Referência de Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter. No ano passado, 248 mil visitantes de 16 países e de todos os estados brasileiros e do Distrito Federal passaram pelo local, onde puderem conferir a exposição de mais de 10 mil produtos e participar de dezenas de seminários, oficinas, cursos de formação e palestras.

No próximo sábado (8) o MST vai coordenar, junto a outras entidades, a roda de conversa “Resistência Econômica dos Povos Tradicionais de Matriz Africana: uma outra economia já acontece”. A atividade acontecerá das 15 às 19 horas no lonão 3, identificado como Democracia Participativa, no Parque Medianeira.

“Nosso patrimônio genético agrícola está sendo sequestrado. Deveria ser tema de segurança nacional”

José Maria Tardin: “Patrimônio genético agrícola está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“O patrimônio genético agrícola brasileiro deveria ser tratado como um tema de segurança nacional. No entanto, o que estamos vendo é esse patrimônio está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A erosão genética no Brasil já é muito grande.” A advertência é de José Maria Tardin, integrante do Conselho Gestor e educador na Escola Latinoamericana de Agroecologia (ELAA), localizada no assentamento Contestado, no Paraná. Tardin atua na formação em agroecologia nas escolas técnicas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e em cursos de especialização em agroecologia organizados pelo MST em parceria com universidades e institutos de pesquisa no Brasil e em vários países da América Latina.

Tardin esteve em Porto Alegre participando de um debate organizado pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) sobre a relação entre a agroecologia e os saberes de comunidades tradicionais. Além disso, participou de um seminário organizado pelo setor de educação e produção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que discutiu a introdução da agroecologia nas escolas infantis e de ensino fundamental do MST em nível nacional. “Serão milhares de crianças que, nos próximos anos, estudarão agroecologia sistematicamente. Estamos dando um passo que representa uma das maiores alegrias da minha vida”, diz Tardin.

Filho de agricultores e trabalhando há décadas com o tema da agroecologia, Tardin fala, em entrevista ao Sul21, sobre as raízes tradicionais desse tipo de agricultura no Brasil, destaca a decisão do MST de definir a agroecologia como uma agenda estratégica para o movimento e aponta os preconceitos e ameaças que pairam sobre a agricultura camponesa no Brasil, na América Latina e em todo o mundo. A erosão genética e a perda de saberes tradicionais são algumas delas. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

“Um dos objetivos do golpe é quebrar a estrutura produtiva da agricultura familiar”

Guilherme Cassel: “Quanto mais cedo conseguirmos derrotar o golpe, mais possibilidade teremos de recuperar o que está sendo desmontado agora”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Desde que Michel Temer assumiu interinamente a presidência da República há cerca de um ano, a agenda da chamada “Ponte para o Futuro”, elaborada pelo PMDB e rejeitada pelo voto popular em 2014, começou a ser implementada no país com o desmonte de um amplo conjunto de políticas públicas construídas nos últimos 12 anos. Uma das primeiras áreas a ser desmantelada foi a da Reforma Agrária. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) foi extinto e incorporado, em um primeiro momento, ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Depois, foi reduzido a uma secretaria especial vinculada à Casa Civil, concretizando o desmonte das políticas de Reforma Agrária e de fortalecimento da agricultura que tiveram seu ponto máximo de investimentos no governo Lula.

Para Guilherme Cassel, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, o objetivo último do golpe neste setor é quebrar a estrutura produtiva da agricultura familiar e dos assentamentos de Reforma Agrária, reconcentrar a terra e ampliar o mercado para as grandes transnacionais de alimentos. Em entrevista ao Sul21, Guilherme Cassel fala sobre o processo de desmonte do MDA e de suas políticas e os seus objetivos. “Além de extinguir o ministério, interromper as desapropriações e cortar os recursos para assistência técnica, manutenção e investimentos, as propostas que estão apresentando não apontam para o assentamento de novas famílias, mas sim para a legalização da grilagem de terras no Brasil”, adverte. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

JuntaPedido: Assentados oferecem alimentos orgânicos por meio de aplicativo de celular

Por enquanto, aplicativo está disponível apenas para celulares que possuem sistema operacional Android. (Foto: Catiana de Medeiros/MST)

Imprensa – MST

Consumir produtos orgânicos está cada vez mais fácil para a população da região Metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Isto porque, com preço justo para quem produz e acessível para quem consome, famílias assentadas na Reforma Agrária que fazem feiras ecológicas agora oferecem alimentos produzidos sem o uso de agrotóxicos por meio do JuntaPedido, um aplicativo criado pela empresa gaúcha Sapiens I Tecnologia. O objetivo principal é facilitar o acesso dos consumidores urbanos aos alimentos saudáveis, por meio da ampliação dos espaços de comercialização.

Para comprar os alimentos orgânicos e recebê-los no endereço desejado basta acessar o site www.juntapedido.com no computador ou tablet, ou fazer download gratuito do JuntaPedido no celular, e criar uma conta de acesso. O aplicativo está disponível apenas para celulares que possuem sistema operacional Android, mas em breve, segundo a Sapiens I Tecnologia, ele poderá ser baixado nos celulares com sistemas IOS, da Apple, e Windows Phone, da Microsoft.

O JuntaPedido permite que os feirantes configurem as suas contas para que clientes próximos dos locais das feiras possam visualizar e encomendar os produtos. As entregas são feitas nos endereços cadastrados pelos clientes, que podem ser o local de trabalho ou da própria casa. O raio de abrangência de entregas é definido por cada feirante, variando de 250 metros até 2.000 metros do ponto da feira. Até o momento, cerca de 35 famílias assentadas entregam alimentos em diferentes áreas de Porto Alegre, Viamão, Nova Santa Rita, Eldorado do Sul e Canoas.

De acordo com Sandra Rodrigues, assistente social que acompanha as famílias assentadas através da Cooperativa de Trabalho em Serviços Técnicos (Coptec), a inserção dos alimentos orgânicos dos assentamentos ao JuntaPedido atenderá parte da demanda de escoamento da produção dos agricultores que participam do Grupo Gestor das Hortas, Frutas e Plantas Medicinais, coordenado pelo MST. Hoje, aproximadamente 200 famílias Sem Terra produzem de forma agroecológica na região e, devido aos cortes no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), sentem a necessidade de buscar outras alternativas para ampliar os espaços de comercialização, indo além das feiras ecológicas.

“Vai ser muito bom, porque hoje há falta de espaços para vender a nossa produção. Nós estamos em feiras, mas elas ainda não atingem 100% dos agricultores. Com o aplicativo vamos conseguir inserir mais famílias e fortalecer os grupos de produção dos assentamentos. Torcemos para que dê certo e que aumente cada vez mais o número de pedidos, assim nós poderemos produzir à vontade, porque teremos onde escoar a produção”, declara o assentado Arnaldo Soares, de Nova Santa Rita.

A primeira experiência do MST com o aplicativo, cedido gratuitamente pela Sapiens I Tecnologia para uso dos assentados, foi realizada no último mês de maio com o grupo Mulheres da Terra, do Assentamento Filhos de Sepé, localizado em Viamão. O grupo disponibiliza mais de 60 produtos, todos certificados como orgânicos por órgãos públicos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Ministério da Agricultura (Mapa). As entregas acontecem sempre às quartas-feiras, às 11 horas, nos arredores dos principais prédios da administração pública da Capital, abrangendo o Incra, Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), Receita Federal, Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), Justiça Federal e Câmara de Vereadores. A adesão ao aplicativo por parte de outros grupos de feirantes da região Metropolitana de Porto Alegre aconteceu nos primeiros dias de junho. Assentados dos municípios de Tupanciretã, São Luiz Gonzaga, São Miguel das Missões, Esmeralda e Vacaria já mostraram interesse em também comercializar alimentos via JuntaPedido. A iniciativa tem o apoio do Incra.

Como fazer pedidos?

Os pedidos devem ser feitos com 36 horas de antecedência para que os agricultores possam organizar os alimentos. Para fazer a aquisição, os consumidores devem criar uma conta no JuntaPedido. O procedimento é muito simples e rápido (demora menos de 1 minuto), basta preencher um formulário com as seguintes informações: nome, número de telefone, email, endereço onde trabalha ou reside (para as entregas) e senha de acesso para efetivar os pedidos. Ao concluir esta etapa, chegará uma mensagem no email informando a situação do cadastro.

Valor mínimo e taxa de entrega

O pedido mínimo é de R$ 15 reais, o mesmo valor da taxa de entrega. Mas o custo da entrega fica mais baixo na medida que mais pessoas se juntam ao grupo de pedido. Ou seja, ela pode chegar a centavos caso os vizinhos também optem por adquirir os alimentos orgânicos por meio do JuntaPedido. Por exemplo: se os agricultores tiverem que fazer entrega apenas para um cliente numa determinada data e horário, o custo da entrega será de R$ 15. Mas se 15 vizinhos fizerem pedidos para o mesmo dia e horário, formando um grupo, o custo da entrega para cada um será de apenas R$ 1,00. O intuito do frete compartilhado é incentivar mais pessoas a consumirem alimentos saudáveis. A forma de pagamento pode ser em cartão, dinheiro ou cheque, dependendo das opções oferecidas pelos agricultores no aplicativo.

Feirantes já cadastrados

Feirante Mulheres da Terra
Porto Alegre: Av. Loureiro da Silva, 800 – Centro, (raio 1.000m). Entregas: quarta-feira, 11horas

Feirante COOTAP Grupo Organizando a Natureza
Porto Alegre: R. Mata Bacelar, 10 – Auxiliadora, (raio 1.000m). Entregas: terça-feira, 11 horas

Feirante COOTAP Grupo dos Pampas
Porto Alegre: R. Rômulo Telles Pessoa, 50 – Bela Vista, (raio 1.500m). Entregas: sábado, 12 horas

Feirante COOTAP Grupo Três Figueiras
Porto Alegre: R. Antônio Carlos Berta, 600 – Boa Vista, (raio 750m). Entregas: 3º, 13 horas
Porto Alegre: R. Cel. Armando Assis, 264 – Três Figueiras, (raio 750m). Entregas: sábado, 11 horas

Feirante COOTAP Grupo Petrópolis
Porto Alegre: R. Dário Pederneiras, 700 – Petrópolis, (raio 1.500m). Entregas: quarta-feira, 16 horas

Feirante COOTAP Grupo Jaqueline
Porto Alegre: Av. Plínio Brasil Milano, 80 – Higienópolis, (raio 1.000m). Entregas: quarta-feira, 16 horas


Feirante COOTAP Paulo Savela
Canoas: Av. Açucena, 1205 – Estância Velha,  (raio 2.000m). Entregas: segunda-feira e sábado, 11horas

Feirante COOTAP Grupo Sepé Tiaraju
Viamão: Av. Liberdade, 1751 – Santa Isabel (raio 1.000m). Entregas: sábado, 11 horas

Feirante COOTAP Grupo Terra Viva
Viamão: Av. Senador Salgado Filho, 7000 – São Lucas, TECNOPUC (raio 500m). Entregas: quinta-feira, 11 horas
Viamão: Av. Senador Salgado Filho, 9750 – Cecília, Parada 56 (raio: 1.000m). Entregas: quinta-feira, 17 horas
Viamão: Av. Paraíso, 332 – Parque Indio Jari (raio 1.000m). Entregas: sábado, 10 horas
Viamão: R. Édio Nagel Boit – Parque Indio Jari (raio 1.000m). Entregas: sábado, 11 horas
Viamão: Av. Liberdade, 1751 – Santa Isabel (raio 1.000m). Entregas: sábado, 12 horas
Viamão: Av. Senador Salgado Filho, 5412 – Jardim Krahe, Parada 44 (raio: 1.000m). Entregas: sábado, 13 horas

Feirante COOTAP Plantando Saúde
Eldorado do Sul: R. da Arrozeira, 270 – Medianeira (raio 500m). Entregas: terça-feira, 10 horas
Eldorado do Sul: Av. Emancipação, 480 – Centro (raio 500m). Entregas: quarta-feira, 10 horas

Feirante COOTAP Ana Gisel
Nova Santa Rita: Todo o município. Entregas: terça-feira, 16 horas

Cooperativa do MST se torna mantenedora de 7 variedades de sementes agroecológicas

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. (Foto: Divulgação)

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. (Foto: Divulgação)

Por Catiana de Medeiros

A Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida (Conaterra), responsável pela marca Bionatur, aprovou na última semana junto ao Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura (Mapa) a condição de mantenedora de sete variedades de hortaliças: repolho louco de verão, couve manteiga da geórgia, BRS tortéi, rúcula cultivada, moranga de mesa, abobrinha de tronco redonda e abobrinha de tronco caserta.

A partir de 2018, por meio desta conquista, a cooperativa estará apta a produzir de acordo com a legislação vigente as próprias sementes de estas setes cultivares, que, posteriormente darão origem aos campos de produção de sementes comerciais da Bionatur.

De acordo com a agrônoma Patrícia Martins, além de romper com a dependência da aquisição das sementes junto a outras empresas mantenedoras, a Bionatur espera a partir de agora completar o ciclo de produção das sementes em sistemas de produção orgânicos e agroecológicos, visando atender as expectativas dos agricultores que produzem para a cooperativa e a demanda dos consumidores de sementes livres de venenos.

“Trata-se de um importante passo para alcançar a autonomia na produção de sementes de geração superiores, considerando o prazo estabelecido pelo Ministério da Agricultura, que se encerra a partir da safra 2018/2019, para utilização de sementes de categoria S2”, complementa Patrícia.

Segundo o coordenador da Conaterra, Alcemar Adílio, há pelo menos dois anos se buscava através de pesquisas e experimentos a condição de mantenedora, conquista que, para ele, é fundamental por se tratar de sementes que geram alimentos saudáveis e estão no cardápio da maioria das famílias brasileiras.

“Esse novo passo garante, junto a outros fatores, nossa permanência na produção de sementes, o que vai minimizar a dependência de terceiros. Enquanto Bionatur nosso intuito é, até o final deste ano, registrar pelo menos cinco outras variedades”, explica Adílio.

Rede Bionatur também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. (Foto: Divulgação)

Rede Bionatur também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. (Foto: Divulgação)

Bionatur

A Rede Bionatur, fundada em 1997 a partir de iniciativa de 12 famílias, produz 55 variedades de sementes agroecológicas nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. A sua produção, feita por mais de 200 famílias, é enviada para todos os estados do Brasil e à Venezuela. Ela também produz cerca de 100 variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores.

Com sede em Candiota, na região da Campanha gaúcha, a cooperativa tem a meta de passar a produção de 4 para 8 toneladas de hortaliças na próxima safra de verão. Para forrageiras, e estimativa é aumentar das atuais 40 toneladas para 70.

Seminário debate educação em agroecologia nas escolas do campo, no RS

Encontro quer iniciar a construção de orientações para um programa de estudos sobre agroecologia nas escolas do campo. (Foto: Eduardo Aigner/MDA)

Encontro quer iniciar a construção de orientações para um programa de estudos sobre agroecologia nas escolas do campo. (Foto: Eduardo Aigner/MDA)

Catiana de Medeiros – Da Página do MST

O setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da região Sul do Brasil realiza, entre os dias 16 a 18 de junho, o 1º seminário sobre ‘Educação em Agroecologia nas Escolas do Campo’, no Instituto de Educação Josué Castro (IEJC), em Veranópolis, na Serra Gaúcha.

O objetivo é debater a agroecologia e sua relação com o atual momento de luta de classes no campo, além de pensar maneiras de potencializar nas escolas a Jornada Cultural Nacional ‘Alimentação Saudável: um direito de todos’, lançada pelo Movimento em novembro de 2015.

“Queremos iniciar a construção de orientações para um programa de estudos sobre agroecologia nas escolas do campo, conectando práticas e conteúdos específicos aos estudos das ciências da natureza e da sociedade nas diferentes etapas da educação básica. Nosso intuito também é discutir as relações existentes entre agroecologia, educação, escola e trabalho”, explica Juliane Soares Ribeiro, da coordenação do seminário.

O evento reunirá educadores de Educação Básica de assentamentos da Reforma Agrária e acampamentos dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, incluindo coordenações pedagógicas e professores das áreas de ciências da natureza e da sociedade; profissionais de ciências agrárias com formação em agroecologia, que atuam em assentamentos e ou em escolas do campo; assessores orgânicos do setor de educação; coletivo político-pedagógico do IEJC; e convidados de instituições parceiras do MST.

A abertura do seminário será na próxima quinta-feira, às 8h30, com apresentação do plano de trabalho para os três dias de atividades. Em seguida, terá exposição sobre a retomada dos pilares fundamentais de concepção de educação e matriz formativa, e debate sobre a relação entre escola, trabalho e produção, com o educador da Universidade Estadual de Campinas (UniCamp), Luiz Carlos Freitas.

No turno da tarde haverá estudo sobre o desenvolvimento da agroecologia e sua relação com a agricultura camponesa, soberania alimentar, cooperação e reforma agrária. Também estarão em discussão os desafios da formação dos camponeses. Após, terá lançamento do livro infanto-juvenil da ativista Ana Primavesi ‘A convenção dos ventos: agroecologia em contos’.

Confira a programação completa do seminário:

Quinta-feira, 16 de junho
Manhã (8h30 às 12 horas)
– Abertura do Seminário.
– Apresentação dos participantes e do plano de trabalho.
– Retomada dos pilares fundamentais de concepção de educação e matriz formativa. Expositor: Luiz Carlos de Freitas, educador da Unicamp.

Tarde (14 às 19 horas)
– Estudos sobre agroecologia: Exposição I sobre a agroecologia no embate atual de lógicas de agricultura e suas relações com agricultura camponesa, soberania alimentar, reforma agrária e cooperação. Exposição II sobre a concepção geral e conceitos básicos da agroecologia, e os desafios de formação dos camponeses.
– Lançamento do livro de Ana Primavesi, “A convenção dos ventos: agroecologia em contos”, da editora Expressão Popular.
Noite (20h30 às 22 horas)
– Exibição de documentário e roda de conversa.

Sexta-feira, 17 de junho
Manhã (8 às 12 horas)
– Mesa sobre Educação em agroecologia nas escolas do campo de educação básica: questões propositivas de conteúdo e forma.

Tarde (14 às 19 horas)
– Análise de conjuntura.
– Trabalhos em grupos e socialização de práticas agroecológicas realizadas nas escolas.

Noite (20h30 às 22 horas)
– Debate sobre a Jornada Cultural Nacional ‘Alimentação Saudável: um direito de todos’.

Sábado, 18 de junho
Manhã (8 às 12 horas)
– Mesa sobre como fazer a educação em agroecologia em nossas escolas: questões e proposições de conteúdo e forma.
– Plenária e encerramento do seminário

Produzir sem veneno: “Até quando tivermos condições, continuaremos apostando na apicultura”, diz assentado

Mesmo com todas as dificuldades, João Carlos Camargo é um exemplo de perseverança e conseguiu colher 180 quilos de mel na última safra.

Mesmo com todas as dificuldades, João Carlos Camargo é um exemplo de perseverança e conseguiu colher 180 quilos de mel na última safra.

Hoje encerramos a série “Tem veneno no seu mel”, que mostra os prejuízos que a soja transgênica e o uso de agrotóxicos trazem à produção de mel na região da Campanha do Rio Grande do Sul. Confira, na matéria abaixo, como os apicultores lidam com esse problema oriundo do modelo do agronegócio nas áreas de assentamento. Leia também as duas primeiras reportagens da série.

(I) Chuva de veneno mata abelhas e destrói produção de mel no interior do RS

(II) Alerta: Mortandade de abelhas pode ficar sem controle

Catiana de Medeiros – Da Página do MST

Colaboração: Leandro Molina

“Não desanimei, fui à luta de novo”

Conforme o engenheiro agrônomo Márcio Morales, a região da Campanha do Rio Grande do Sul é uma das mais adequadas do estado para se desenvolver a apicultura, principalmente pela diversidade que possui de floração em todas as épocas do ano.

“A vegetação é nativa, há campos com grande diversidade de espécies que florescem em todas as estações, além de matas ciliares com grandes quantidades de árvores e arbustos, que também têm uma florada interessante para a produção de mel. É uma região que, mesmo com todos esses problemas da soja transgênica e do uso de agrotóxicos, se comparada com a metade norte do RS e Oeste catarinense e paranaense, ainda está preservada. A partir do momento que há preservação da biodiversidade, há uma oferta de florada maior para as abelhas fazerem mel”, explica.

Estes motivos fazem diferença para os assentados que não desistiram da apicultura. Seu João Carlos Camargo, que também trabalha com a produção de sementes agroecológicas, leite e açúcar mascavo, é um exemplo de perseverança. Mesmo com todas as dificuldades impostas pelo modelo do agronegócio para produzir e encontrar novos enxames, conseguiu colher 180 quilos de mel nesta última safra.

“É uma atividade que faço há anos, eu realmente gosto dessa lida. Perder tudo de uma hora para outra gerou um sentimento muito próximo de como se estivéssemos perdido alguém da família. Era indignação, misturada com tristeza e desespero. Mas não desanimei, fui à luta de novo e hoje tenho 30 colmeias que busquei em locais onde não há uso de veneno”, relata.

Grande parte dos produtores de mel da região comercializam sua produção através de associações familiares.

Grande parte dos produtores de mel da região comercializam sua produção através de associações familiares.

Atualmente, o assentado Amarildo Zanovello trabalha, junto com duas outras famílias, com mais de 500 caixas de abelhas, com foco na venda de mel para o estado de Santa Catarina e exportação para países da Europa, Estados Unidos e Japão. Segundo ele, a palavra desistir não consta em seu vocabulário. “Não penso em desistir, porque essa é uma linha de produção que conheço bem e que agora estamos conseguindo investir. Até quando tivermos condições, nós continuaremos apostando na apicultura”, afirma.

Grande parte dos produtores de mel da região comercializam sua produção através de associações familiares, e unidos encontram apoio para continuar investindo na apicultura. Nos próximos meses, devem ser inauguradas estruturas que ajudarão na extração e comercialização de mel.

Porém, para os assentados não basta ter meios que torne viável a apicultura. É necessário conscientização da população do campo e da cidade, principalmente dos beneficiários da reforma agrária, sobre os malefícios que os venenos e a soja transgênica geram à saúde humana e ao meio ambiente.

“Lutamos pela democratização da terra para produzir alimentos saudáveis, e é muito triste ver pessoas distorcendo nosso projeto de produção limpa e defendendo o monocultivo de soja transgênica de forma irregular. Alguns podem até se dar bem por um determinado tempo, porém, mais cedo ou mais tarde voltarão para as vilas e a concentração de terras irá se dar novamente. Hoje, não enfrentamos só problemas com as abelhas, enfrentamos também um grande desequilíbrio ambiental, como consequência da ambição sem limite do homem”, alerta seu João, enquanto segura em suas mãos um recipiente de vidro com uma pomba morta por ingestão de soja transgênica e de agrotóxicos.

Soja transgênica e outros grãos contaminados por venenos estavam no papo de uma pomba encontrada morta no pátio de João Carlos Camargo.

Soja transgênica e outros grãos contaminados por venenos estavam no papo de uma pomba encontrada morta no pátio de João Carlos Camargo.

Escola Unidos de Vila Isabel vai celebrar agricultura familiar e homenagear Adão Pretto

Escola carnavalesca Unidos de Vila Isabel vai homenagear Adão Pretto, agricultura familiar e alimentação saudável no carnaval do Porto Seco. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Escola carnavalesca Unidos de Vila Isabel vai homenagear Adão Pretto, agricultura familiar e alimentação saudável no carnaval do Porto Seco. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Em abril de 2015, integrantes da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel começaram a discutir qual seria o tema da agremiação para o Carnaval de Porto Alegre de 2016. Na época, o presidente da Vila Isabel, Cléber Tavares, viu a notícia de uma pesquisa que apontava que cerca de 70% da alimentação consumida pela população no Brasil é oriunda da agricultura familiar. Surgiu aí a ideia de escolher a agricultura familiar e a alimentação saudável como tema do desfile da escola no ano seguinte. A decisão foi tomada e a representante de Viamão no Grupo Especial de Porto Alegre escolheu falar sobre alimentação saudável e as mãos que plantam e colhem o alimento da terra. O título do enredo é: “Brava gente brasileira: as mãos que alimentam a nação brasileira”.

Principal responsável pela comida que chega às mesas das famílias brasileiras, a agricultura familiar responde por cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o País. O pequeno agricultor ocupa hoje papel decisivo na cadeia produtiva que abastece o mercado brasileiro: mandioca (87%), feijão (70%), carne suína (59%), leite (58%), carne de aves (50%) e milho (46%) são alguns grupos de alimentos com forte presença da agricultura familiar na produção. No Brasil, o setor engloba 4,3 milhões de unidades produtivas (84% do total) e 14 milhões de pessoas ocupadas, o que representa em torno de 74% do total das ocupações distribuídas em 80.250.453 hectares (25% da área total).

“Começamos a carnavalizar essa ideia da agricultura familiar e nos demos conta que, além de ser um tema muito interessante, tínhamos na nossa comunidade um símbolo dessa luta, Adão Pretto”, relata o presidente da escola. Em 1986, quando foi eleito deputado estadual constituinte no Rio Grande do Sul, pelo PT, Adão Pretto, saiu de Miraguaí e mudou-se com a família para a cidade de Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Durante mais de 20 anos, Adão Pretto viveu junto à comunidade da Unidos de Vila Isabel.

A família ainda mantém laços estreitos com a cidade. Um de seus filhos, Adão Pretto Filho, concorreu à Câmara de Vereadores do município, ficando como suplente da bancada do PT. Outro filho, Edegar Pretto, foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul e reeleito em 2014. Agora, cerca de 30 anos depois de sua chegada a Viamão, Adão Pretto será lembrado pela sua luta pela agricultura familiar. No dia 13 de janeiro, às 20 horas, juntamente com a apresentação do samba-enredo da escola, será exibido o filme sobre a história de Adão Pretto, na quadra da Unidos da Vila Isabel, em Viamão.

“Vontade é de disputar o título”

Cleber Tavares reconhece que a disputa é dura, mas diz que a vontade da Vila Isabel é de disputar o título do Carnaval de Porto Alegre. A escola tricolor de Viamão desfilará no sambódromo do Complexo Cultural do Porto Seco, na madrugada do dia 6 de fevereiro, com cerca de 1.500 pessoas, 19 alas, quatro carros alegóricos e uma bateria com 180 integrantes. Dois oito quesitos avaliados pelos jurados – samba-enredo, bateria, alegoria, fantasia, casal de mestre-sala e porta-bandeira, harmonia, evolução e enredo -, a escola tem plenas condições de alcançar a nota máxima em cinco delas e de buscar uma ótima nota nas outras três, assinala Cleber Tavares, lembrando que a classificação final dos desfiles de carnaval costuma ser decidida por décimos.

Além de homenagear a trajetória de Adão Pretto, a ideia da Vila Isabel é provocar uma reflexão sobre o tema da qualidade dos alimentos que estamos consumindo hoje. Uma de suas 19 alas terá como tema os agrotóxicos e os prejuízos que podem causar à saúde humana. A luta por uma alimentação de qualidade, sem venenos, será associada à luta mais geral pela Reforma Agrária conduzida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que vai colaborar com a organização do desfile.

A história de Adão Pretto

Nascido em Coronel Bicaco, em 1945, Adão Pretto cresceu no município vizinho de Miraguaí, na região do Alto Uruguai. Ali iniciou sua trajetória política no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miraguaí. Participou das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e foi um dos fundadores do MST no Rio Grande do Sul. Em filiou-se ao PDT e, em 1985, foi para o PT. Em 1986, foi eleito deputado estadual constituinte, um dos primeiros deputados do PT gaúcho. Ainda em 1986, como deputado estadual, presidiu a CPI da Violência no Campo na Assembleia gaúcha para investigar os conflitos entre grandes fazendeiros e trabalhadores rurais. Em 1990 foi eleito deputado federal, sendo reeleito em 1994, 1998, 2002 e 2006.

Como parlamentar, defendeu a agenda da Reforma Agrária e fez oposição às políticas da bancada ruralista na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural. Adão Pretto sempre se destacou na defesa da causa dos movimentos sociais populares, em especial aos ligados as questões do campo como a defesa dos interesses dos pequenos agricultores e da luta do MST.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Jornada de Cultura apresenta políticas de financiamento e debate economia e criatividade

jornadageral (2)

A Secretaria Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul promove nesta quinta-feira (20) a Jornada de Cultura, um encontro para discutir a apresentar políticas de financiamento de produções e outras iniciativas no setor. O encontro será realizado no Memorial do Rio Grande do Sul (Rua Sete de Setembro, 1020), no centro de Porto Alegre. Segundo a Secretaria, além de divulgar números inéditos referentes à Lei de Incentivo à Cultura (LIC) e ao Fundo de Apoio à Cultura, a jornada servirá para apresentar o Programa RS Criativo e o edital Movida Cultural RS, com patrocínio de R$ 2,5 milhões da Petrobras (destinados a financiar projetos de festivais e mostras não competitivas).

A LIC atingiu, em dezembro de 2013, o limite estabelecido para a concessão de benefícios fiscais: R$ 35 milhões. Foram mais de 177 projetos realizados com captação de recursos em todo o Estado. Desde maio de 2013, foram lançados 15 editais do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), totalizando mais de R$ 20 milhões em investimentos. Dois outros editar serão lançados no primeiro semestre de 2014: o FAC das Artes (voltado a projetos nas áreas de circo, teatro, dança, música, artes visuais e cinema) e o FAC Processos Culturais Colaborativos. Maiores informações sobre esses editais podem ser acessadas na página do Procultura.

Em defesa de uma Fototeca no Palacinho

palacinho Por Adriana Franciosi (*)

Peço que toda a comunidade cultural do Rio Grande do Sul, em especial os fotógrafos, se unam em defesa da transformação do Palacinho em uma Fototeca. A ideia da primeira-dama Sandra Genro está sendo bombardeada por jornalistas como Políbio Braga que veem nisso um capricho. Vale lembrar ao ilustre jornalista que em diversas cidades desenvolvidas do mundo centros de exposição e conservação de acervos fotográficos já existem. Tais como a Maison Europeenne de la Photographie entre tantas outras em cidades europeias e mesmo nos Estados Unidos.

O prédio do Palacinho que é destinado a moradia dos vice governadores do Estado do RS, mas que na prática eram usados pelos vices como centro político, agora pode ter um fim bem mais útil à cultura para que toda a população possa usufruir desse local tão lindo e que vai abrigar cultura, sim, porque fotografia é parte disso. Fora o fato que este é um prédio histórico que merece ser restaurado. Mas aqui tem gente que acha que prédio antigo deve ser simplesmente demolido. Uma mentalidade antiga que não preserva o passado e não valoriza a história. E está mais que na hora de termos um espaço nobre, como em qualquer cidade civilizada, para a fotografia. Portanto, parem de atacar de forma tão deselegante a primeira dama como uma forma de atingir o governo Tarso.

(*) Adriana Franciosi é jornalista, repórter fotográfica

Agricultura familiar poderá abastecer presídios no Rio Grande do Sul

agroecologia150 Cooperativas da agricultura familiar do Rio Grande do Sul podem passar a abastecer presídios do Estado com hortifrutigranjeiros e outros alimentos. O deputado estadual Jeferson Fernandes (PT) entregará quinta-feira (24) ao secretário de Administração e Recursos Humanos do Estado, Alessandro Barcellos, um documento solicitando que sejam feitas Chamadas Públicas para a aquisição de produtos da agricultura familiar por meio do programa Compra Coletiva/RS. Jeferson Fernandes e o deputado federal Elvino Bohn Gass (PT-RS) articularam várias reuniões nos últimos meses, com representantes de cooperativas da agricultura familiar e diretores de presídios para tratar do programa de compras governamentais, Compra Coletiva/RS, que virou lei estadual de janeiro de 2012.

Esse programa estimula a descentralização das compras governamentais e diminui custos na aquisição de alimentos para órgãos públicos, além de fortalecer sistemas econômicos locais e regionais. O documento que será entregue pelo deputado propõe que os dez presídios estaduais da Fronteira Noroeste e Missões, passem a ser abastecidos por produtos da agricultura familiar. A população carcerária desses estabelecimentos é de cerca de dois mil presos, que necessitam de três refeições diárias. Os diretores dos presídios de Santa Rosa, Santo Cristo, Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga e Cerro Largo já manifestaram interesse em adquirir os alimentos produzidos pelas cooperativas locais e regionais.

A Rede Missioneira da Agricultura Familiar (REMAF), orientada pelos cardápios nutricionais dos presídios, organizou uma lista de produtos que, inicialmente, teriam condições de abastecer os presídios de Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga e Cerro Largo. A REMAF congrega as cooperativas Coopacel (Cerro Largo), Coopas Vida Nova (Salvador das Missões), Cooperg (Roque Gonzales), Coopersãoluiz (São Luiz Gonzaga), e a Cooperativa de São Miguel das Missões.

Já a Cooperativa Central da Agricultura Familiar Ltda(UNICOOPER), que reúne as cooperativas Coopersol (Santa Rosa), Coopasc (Santo Cristo), Coperagro (Horizontina), Coopovec (Porto Vera Cruz) e Cooperae (Cândido Godói), pode fornecer alimentos para os presídios de Santa Rosa e Santo Cristo.

Essas cooperativas têm experiência de fornecimento ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Amilton Munari, um guardião das sementes nativas

 Entrevista com Amilton Munari, agricultor do Vale do Maquiné, que desenvolve há anos um trabalho de preservação de sementes nativas do Rio Grande do Sul e também da palmeira juçara. Amilton é um dos 650 expositores presentes à VIII Feira da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, que ocorre de 21 a 25 de novembro, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro.

Como e quando começou esse trabalho de preservação de sementes crioulas?

Amilton Munari: Começou com a minha família, que sempre plantou para o próprio sustento. Eu fui criado no meio da roça, no litoral norte do Rio Grande do Sul, no Vale do Maquiné. Minha família plantava um pouco de tudo para a subsistência. Eu me formei como técnico agropecuário e comecei a plantar com tecnologia, usando venenos e adubos químicos. Logo vi que estava num circulo vicioso. Tudo o que eu ganhava eu consumia, a terra estava sendo destruída e eu estava comprometendo minha saúde. Resolvi buscar outras iniciativas, como a Colméia, Sítio Pé-na-terra, Centro Ecológico (entidades e espaços ambientalistas no Rio Grande do Sul). Fui ver o que eles estavam fazendo e vi que eles estavam buscando melhorar a terra e preservar sementes.

Comecei então a resgatar sementes, no meio de comunidades italianas, polonesas, quilombolas e indígenas, e a trocar sementes com eles. Muitas dessas sementes estavam em fundo de quintas nas cidades. Fui resgatando essas sementes e juntando no que chamei de banco de sementes. Também fui construindo uma casa de sementes para mostrar ao pessoal como é que se armazenava, secava e plantava sementes. Aí percebi que estava realizando um serviço muito gratificante. As pessoas reconheciam e davam muito valor. Percebi também que as sementes eram um patrimônio da humanidade e garantiam nossa sustentabilidade. Sempre procurei obter as sementes através de uma troca solidária, por contribuição espontânea ou por algum tipo de produção. Sempre consegui boas trocas assim. Além desse trabalho, participo de eventos e vou em comunidades ajudar a implantar bancos de sementes.

Qual é o tamanho desse banco de sementes hoje?

Temos dois tipos básicos de sementes: as sementes milenares, que já existiam antes da chegada dos colonizadores, e as sementes centenárias, que foram sendo adaptadas pelas sucessivas levas de colonização. Hoje, eu lido com mais de 300 tipos de sementes.

Você poderia dar alguns exemplos de sementes milenares?

A maioria delas foi cultivada pelos indígenas, especialmente os milhos: milho crioulo, girassol, tomates, batatas, amendoins e abóboras. Essas são as principais. Nós achamos muitas sementes que estavam sob risco de extinção, como o milho cateto, que é um milho pequeno. Eu fui trocando esse milho com outros produtores e fui fortalecendo ele. Cada vez que a gente troca a terra e o clima, a semente dá um impulso, ela se transforma e se fortalece. Por isso sempre procurei trocar para manter uma diversidade.

E o trabalho com a palmeira juçara, por que você decidiu começá-lo?

Nossa cultura aqui do sul é de consumir muito palmito. Esse alto consumo começou a provocar um sério problema de derrubada e de roubo das palmeiras deixando nossa floresta muito pobre. No meu convívio na Amazônia, aprendi a lidar com o açaí e vi que a situação da juçara era muito idêntica. Há vinte anos, ensino as pessoas a manejar a juçara com o mesmo método do manejo do açaí: amornar, tirar a polpa, misturar com várias folhas e várias frutas em receitas quentes, frias, doces e salgadas. Vi que era muito bom e um alimento importante. Assim, busquei o reconhecimento dessa polpa. As suas sementes hoje sempre retornam às áreas de bananais, de agroflorestas e de viveiros para que ela não entre em risco de extinção.

ém que as sementes eram um patrimônio da humanidade e garantiam nossa sustentabilidade. Sempre procurei obter as sementes através de uma troca solidária, por contribuição espontânea ou por algum tipo de produção. Sempre consegui boas trocas assim. Além desse trabalho, participo de eventos e vou em comunidades ajudar a implantar bancos de sementes.