Sobre reconexões e a minha experiência com o Yoga

As figuras do cartaz “Yoguinis” (Jamile Ansolin e Inês Pilla), com a primeira série da prática Ashtanga Vinyasa Yoga, lembram hieróglifos, os caracteres usados como escrita no Egito Antigo. A comparação me pareceu interessante – pelo que evoca sobre descobertas e reconexões – para ilustrar esse texto que é um relato de uma experiência e também um agradecimento.  

Há pouco mais de um ano comecei a praticar Yoga e queria deixar aqui um breve relato dessa experiência. É um relato de agradecimento, para várias pessoas, e de apropriação, para mim mesmo, do sentido dessa experiência. As portas do Yoga me foram abertas pela Jessica Homem, nas aulas de Yoga aéreo que ela conduziu por alguns meses na Arthemysa. O que iniciou motivado pela curiosidade  e pelo cansaço das práticas já automatizas e irrefletidas da academia de musculação, virou rapidamente descoberta e reencontro com momentos e experiências que me foram muito caros ao longo da vida. Yoga é reconexão e essa reconexão pode se dar em vários sentidos. Para mim, o sentido que mais me tocou foi a reconexão comigo mesmo e com esses momentos. Alguém escreveu: o espaço do tapetinho te oferece a possibilidade de construir uma melhor versão de ti mesmo.

Quis a vida que essa experiência caísse em meio à pandemia do novo coronavírus que, de certo modo, nos lançou para outra dimensão de vida. Isso vem sendo vivido de maneiras diferentes. Para muita gente, de uma maneira trágica, com perda de vidas, de parentes, amigos, colegas, afetos, trabalhos, rendas, empregos e perspectivas. Essa dimensão trágica, agravada pelo fato de termos um sociopata genocida na presidência da República (para economizar os adjetivos), trouxe uma dificuldade adicional para a prática do Yoga: uma espécie de sentimento de culpa por ter essa oportunidade no momento em que milhões de pessoas tinham muito menos e carências gigantescas. Mas decidi continuar mesmo assim, mesmo com esse sentimento de culpa, porque o sentimento de que deveria seguir neste caminho foi mais forte. Não me arrependi.

Não foi fácil essa caminhada até aqui. Alguns meses depois de começar a praticar, essa caminhada migrou para o plano virtual, o que envolveu e segue envolvendo toda uma reeducação de percepção tanto para quem pratica como para quem conduz a prática. Foram dezenas de aulas online, muitas delas em manhãs geladas desse inverno que foi rigoroso. Os problemas de conexão foram o de menos. No meu caso, o maior problema foi a necessidade de abrir espaço mental, em meio ao caótico e desgastante trabalho como jornalista, trabalhando em casa, em meio a uma pandemia e a uma conjuntura de violência, violação de direitos, intolerância, ódio e obscurantismo. No meio disso, em determinado momento, era preciso virar a chave, abrir outro espaço. Mas aos poucos fui me dando conta de que o Yoga é sobre isso também: abrir espaços (físicos e mentais) para você aprender a andar com equilíbrio mesmo em meio ao caos. . Isso tudo não para uma iluminação ou uma salvação individual no meio do caos, mas sim para abrir espaços, construir alinhamentos, ampliar a consciência de si mesmo e da nossa relação e responsabilidade com os demais seres e a vida.

Essas foram algumas coisas que (acho) que aprendi (ou tomo como minhas lições preferidas) em um ano de Yoga.

A prática do Yoga me reconectou com meu corpo (ou talvez seja mais apropriado dizer, com a consciência do próprio corpo), me reconectou com temas que me interessaram durante a minha formação em Filosofia e mesmo antes disso. Reconectou-me ainda com temas que pretendo tornar mais presentes em meu trabalho jornalístico, em um momento onde todas as formas de vida do planeta estão sob ataque de um sistema econômico suicida. Ainda nesse terreno, fortaleceu novas conexões, como a percepção de uma unidade (que ainda deve ser construída) entre direitos humanos, direitos animais e direitos da Terra.

Você ouve uma coisa o tempo todo, quando começa a praticar: Yoga não se resume aos asanas (as posições que a gente faz nas práticas), embora seja o que a gente acaba fazendo a maior parte do tempo. Na verdade, os próprios asanas não são apenas asanas (o que não é um detalhe e indica a existências de mundos a descobrir por meio da relação entre corpo, consciência e mundo exterior).

Ganhar consciência do próprio corpo não é apenas um processo físico, mas também de autoconhecimento, de conhecimento de partes de você que, até então, eram completamente desconhecidas e alheias, como se fossem externas à própria existência. O mesmo se aplica ao ato de respirar. É incrível, mas podemos viver uma vida inteira sem, verdadeiramente, respirar …

Ficar em posições invertidas ou com o joelho enrolado no pescoço pode ser legal (ou nem tanto), mas não é o mais importante. Esse “não é o mais importante”, por outro lado, não significa que seja algo desimportante, pois pode ser o caminho de descobertas e saberes sobre si mesmo, seus limites e possibilidades.

Foco no presente, na ação presente, cultivar a paz, o equilíbrio e a gentileza na relação com os demais seres e buscar construir a melhor versão de si mesmo em cima do tapete e dar vida a ela fora do tapete. Esse é o meu balanço da minha experiência com o Yoga até aqui.

Por fim, gostaria de expressar um agradecimento especial a quem ajudou a orientar essa caminhada até aqui, com aulas e ensinamentos presenciais e virtuais (e segue orientando): Jessica Homem, Jamile Ansolin e o Bijam, Carol Gaiger, Tini Kruger, Rafael Leite, Francine Varela e Paula Bastos.

Sobre maweissheimer

Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalho com Comunicação Digital desde 2001, quando foi criada a Agência Carta Maior, durante a primeira edição do Fórum Social Mundial. Atualmente, repórter no site Sul21 e colunista do jornal Extra Classe.
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