Arquivo da categoria: Cinema

Banzé em Brasília

melbrooks700

Ayrton Centeno

Muitas versões se engalfinham para designar quem dá o tom do governo Michel Temer. Uns dizem que é Eduardo Cunha quem manipula os cordéis, outros juram que as ordens são da Fiesp, uma turma sustenta que vem mesmo das corporações de mídia, enquanto há quem assegure que se trata de um consórcio de tudo isso. Todos se acham certos mas todos estão errados. Quem dirige Temer e seu elenco é Mel Brooks.

Só ele tem o condão de subverter tão radical e sistematicamente o significado das coisas, transformando-as no seu exato deboche. O diretor escrachou todos os gêneros: os filmes de horror com O Jovem Frankenstein, os de suspense com Alta Ansiedade, os faroestes com Banzé no Oeste, as odisseias interplanetárias com S.O.S – Tem um Louco no Espaço, os épicos com História do Mundo- Parte 1. Logo, sob sua direção, um governo fatalmente se converte em completo e absoluto desgoverno. Tudo se transmuta. O notável vira ordinário; a virtude, hipocrisia; a seriedade, escárnio; a lucidez, obscurantismo. E tudo descamba para a chacota. Uma gestão em indigestão.

Sob Brooks, tudo que é sólido desmancha no ar. O que vale para a administração interina, mesmo se sabendo que solidez é palavra bastante inadequada para descrever o vácuo. O Desgoverno Temer, de Mel Brooks, em cartaz diariamente no Brasil e no mundo, é obra aberta, revolucionária, realizada e apreciada em tempo real, onde o ingresso é caro e a galhofa um direito do espectador, embora o riso seja muitas vezes amargo, empanado pelo rilhar dos dentes.

Quem, senão Brooks, encenaria o encontro de um ministro da Educação com o astro do filme Foda Radical? Ator também de Fazendo Sacanagem e outros momentos sublimes da nossa cinematografia? E estuprador confesso? Patrioticamente, o Marlon Brando sem manteiga que nos coube foi levar ao titular da pasta, de apelido Mendoncinha, uma proposta para fecundar a educação no Brasil. E não menos patrioticamente, Mendonça Junior o agasalhou. Brooks não avançou nos detalhes mas a velha cartilha de alfabetização ganharia, enfim, aquela frase “Ivo viu a uva da Eva” ou “Vovó viu o ovo do Ivo”. Tudo isso, claro, para aquecer o clima de descontração entre as criancinhas.

Quem, exceto Brooks, nomearia para secretário nacional de futebol do Ministério do Esporte o ex-deputado Gustavo Perrela. No futebol brasileiro, até a nomeação, o termo “Pó de Arroz” identificava o glorioso Fluminense. Não é mais tão preciso assim. Uma das virtudes do pai do novo secretário, senador Zezé Perrela, é ser amigo íntimo de Aécio Neves. Uma das não exatamente virtudes do novo secretário é ser o feliz proprietário do helicoca, o helicóptero apreendido com quase meia tonelada de pasta de cocaína. Portanto, cuidado você quando gritar “Vai, Pó de Arroz!”, poderá acabar mal compreendido. Brooks criou mais essa lambança semântica.

Alguém, a não ser Brooks, montaria um ministério sem mulheres ou negros num país onde negros e mulheres são maioria? Apenas integrado por velhos, brancos e ricos? E corruptos? Aliás, só poderia ser arte do zombeteiro indicar para ministérios 16 políticos que respondem ou responderam a processo. E três deles já foram para o beleléu. E mais irão. Brooks adora mesmo o clichê da República das Bananas. É uma forçação de barra, mas sempre funciona.

Quem, excluído Brooks, urdiria aqueles leros entre Machado, Jucá, Sarney e Renan? E as tiradas, então? “O Aécio vai ser o primeiro a ser comido!” Ou “Todo mundo na bandeja pra ser comido”. E mais: ‘Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra estancar essa sangria” ou “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Com tudo, aí parava tudo. É, delimitava onde está, pronto”. É diálogo sussurrado, de filme noir, vagabundíssimo, mas noir. É o velho Mel deitando e rolando no decadentismo das elites macunaímicas.

Só mesmo Brooks para escolher um tal André Moura para liderar o governo na Câmara. Moura, qualquer Google sabe, foi condenado por gasto indevido de dinheiro público e defende projetos que cerceiam direitos das mulheres e, por cima, está enrolado na Lava-Jato. E, como se fosse mixaria, é investigado por homícídio! Ei, Mel, agora você extrapolou!

Não imagino ninguém senão Brooks, para colocar na mansão carioca de Eduardo Cunha – razão de ser da presidência Temer — o safado número 171. Aquele que, no Código Penal, contempla o estelionato. Que Cunha ocultou com uma plaquinha gravada com número inexistente no quarteirão, o 173… Quem, a não ser o judeu sarcástico, aprontaria essa para nossa maior reserva moral?

Quem, acham vocês, inventaria José Serra como chanceler? Piada de Brooks, claro! Quem o conhece sabe que Serra tem mais chances de sucesso gritando “Parmera!” no meio da Gaviões da Fiel do que bancando o diplomata. No primeiro mês, xingou os vizinhos, brigou com a Organização Mundial do Comércio e ressuscitou o complexo de vira-lata ao afirmar seu desinteresse pela conquista de uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. “É briga de gente grande”, explicou. É mesmo. Não é para um Serra qualquer.

Sem contar Brooks, quem mandaria Temer atender o presidente argentino Macri que estaria ao telefone, afoito por cumprimentá-lo? Temer foi e saiu hablando num portunhol de cortar os pulsos. Não era Macri. Era um radialista da rádio El Mundo. Era uma gafe. Na Argentina, houve quem achasse graça no fato de Temer trocar um locutor por um presidente. Mas não há nada de novo nisso. Aqui mesmo, também há pessoas que confundem Temer com um presidente.

Quem criaria um logotipo para o governo intestino (sim!) engolindo cinco das 27 estrelas que representam os estados do Brasil? E igual àquela usada sob a ditadura civil-militar? Para reforçar ainda mais o clima bananeiro-republicano, quem convenceu Temer a adotar um slogan surrupiado de um cidadão que está preso em regime fechado por tentativa de homicídio? Esse Brooks…

Em seu perfeito juízo quem imaginaria um criacionista no Ministério da Ciência e Tecnologia? Brooks, of course! Saiu de sua cachola instruir Temer a remeter o bispo Marcos Pereira, da Igreja Universal do Reino de Deus, para ensinar à ciência que Deus fez o céu e a terra em seis dias, nela colocou Adão e Eva para gerarem a raça humana e que os dinossauros foram barrados na arca de Noé porque a lotação estava esgotada.

Brooks fez muito mais e, pelo andar da carruagem, mais fará. Espera-se que, para encerrar a pantomima com fecho de ouro, produza um final tão catártico quanto o de Banzé no Oeste. Nele, um estúdio onde almofadinhas de cartola, bengalas e luvas brancas filmam um musical vem abaixo, devastado por uma horda maluca de caubóis trocando tiros e sopapos. A ficção zoando a ficção. Não seria mau se Brooks engendrasse um desfecho do gênero para o seu Banzé em Brasília. Mas com a realidade das ruas invadindo a realidade ficcional que nos foi imposta. Mulheres, negros, jovens, índios, pobres, homossexuais, transsexuais e o escambau, a plebe rude enfim, derrubando as paredes do set onde se representa a tragicomédia de uma administração. Então poderemos, livres daquele travo ácido, rir de tudo isso. Dessa palhaçada soturna que nos deprime, oprime, rebaixa e envergonha.

Trago Comigo: na contramão do esquecimento

A pauta de Tata Amaral, já tratada no excelente “Hoje”, vai na contramão do esquecimento imposto pelo arranjo da Anistia de 79. (Foto: Divulgação)

A pauta de Tata Amaral, já tratada no excelente “Hoje”, vai na contramão do esquecimento imposto pelo arranjo da Anistia de 79. (Foto: Divulgação)

Rafael Guimaraens (*)

Quando propôs uma série de TV, em 2009, sobre um diretor teatral que monta uma peça sobre sua experiência da luta armada contra a ditadura, a cineasta Tata Amaral ouviu coisas do tipo: “Por que tratar disso?”, “Ninguém mais quer saber desse assunto”. A estreia do longa-metragem “Trago Comigo”, montado a partir da série, em pleno 2016, quando um golpe institucional destituiu a presidenta eleita e o discurso da ditadura é retomado sem pudor, mostra a absoluta pertinência do tema.

O filme é forte, sensível e profundamente humanista, com excelentes atuações de Carlos Alberto Ricelli e seus jovens acompanhantes. E traz depoimentos reais de vítimas de torturas. A pauta de Tata Amaral, já tratada no excelente “Hoje”, vai na contramão do esquecimento imposto pelo arranjo da Anistia de 79, urdido pelos representantes da ditadura agonizante e de um Congresso dócil, que enfiou as mazelas do período autoritário – torturas, mortes, perseguições, censura, vidas destroçadas, gerações perdidas, o país tutelado – para baixo do tapete, com a cumplicidade da mídia. Quantos editoriais foram escritos saudando aquele arremedo de Anistia como “conciliação nacional”, quando justamente o papel dos jornais seria o de informar?

O Brasil perdeu ali sua grande oportunidade de construir seu futuro livre de fantasmas e assombrações. Recentemente, a consciência nacional foi esbofeteada pelo deputado Jair Bolsonaro, que dedicou seu foto pelo impeachment ao símbolo da perversidade da ditadura, o coronel Brilhante Ustra, que não apenas ordenada a tortura, mas participava das sessões, dando vazão aos seus instintos doentios. Tivesse o país enfrentado a questão dos crimes da ditadura, Bolsonaro seria imediatamente preso por apologia ao crime.

No filme, ao orientar os atores da peça que interpretarão o papel de policiais em uma cena de tortura, o personagem principal lhes diz: “Ponham para fora o que existe de pior, de mais perverso e cruel dentro de vocês”. O canto de sereia da ditadura é ouvido nas águas turvas e enevoadas da desinformação e da amnésia coletiva. De perto, as sereias sedutoras têm as caras de Brilhante Ustra, Sergio Fleury, Jair Bolsonaro e tantos outros criminosos que jamais pagaram por seus crimes.

Ainda há tempo. No filme, além de lembrar sua história de vida – a história do país – o personagem de Ricelli deve enfrentar o debate com seus jovens atores sobre temas obtusos que persistem na desinformação geral como “excessos dos dois lados” e coisas do tipo. “Trago Comigo” é bem vindo porque traz consigo a memória que deve ser permanentemente alimentada pela Cultura, pela Educação, pela Política, como um direito da cidadania. Que não se esqueça para que nunca mais aconteça.

(*) Rafael Guimaraens é jornalista

Estado de Sítio nunca mais

estadodesitio

Renato Dalto

No cárcere, sequestrado, Dan Mitrione, que veio ensinar a torturar nos porões das ditaduras do Cone Sul, olha o interlocutor e pergunta:

– Por que causa vocês lutam.

E recebe a resposta:

– Nós lutamos por um mundo onde não serão necessárias pessoas como você.

O diálogo acontece em “Estado de Sitio”, filme de Costa Gavras, que relata o sequestro do agente norte americano pelos tupamaros, no Uruguai. Sempre lembro dessa frase: “Um mundo onde não serão necessárias pessoas como você”.

Os partidários da força, da paulada, da tortura são muito parecidos com a torcida talibã pelo justiceiro, pela justiça fanática a qualquer preço, pelo linchamento de todo o contrário. “Um mundo onde não serão necessárias pessoas como você”.

Foi nesse país, onde Dan Mitrione foi sequestrado e morto pelos tupamaros, que se instalou a mais violenta ditadura da América Latina. No centro de Montevidéu, as pessoas eram abordadas na rua e obrigadas a deitar com o rosto no chão com um fuzil apontado pra nuca.

Os prisioneiros eram levados em caminhões do exército para serem interrogados nos tribunais militares acolherados por correntes nos pés. O país vivia em verdadeiro estado de sítio em um regime de justiça implacável – ser contra é estar morto, senão fisicamente, simbolicamente dentro da sociedade.

Não há mais espaço pra isso, mas me vem de novo a imagem de um estado de sitio. Os fuzis na nuca foram substituídos pela coerção civilizada, onde se prende para depois perguntar. A acusação prescinde de provas – basta por si só. Um juiz escolhe quem prender e quem soltar, quem investigar e quem livrar. Tentou sequestrar um ex-presidente, mas a Aeronáutica impediu. Hoje vazou o interrogatório. Nas entrelinhas, um delegado constrangido e educado interroga um homem que, sabe, significa sobretudo um país dos que lutam pra não morrer de fome. O interrogado poderia dizer que tentou erguer um país onde pessoas como ele não tivessem mais que lutar contra a fome. Mas não era isso que estava em jogo.

Hoje, no fim do dia, o estado de sitio a Lula rompeu o cerco. Como um exilado numa embaixada, Lula assumirá um ministério. Para ter garantias de defesa sem o risco eminente de prisão escorada num aberração jurídica – a prisão de um acusado sem provas. O rito do justiçamento. O estado de sitio decretado na caça a um homem.

Se errou ou não, se é corrupto ou não, só se saberá dentro da justiça, do amplo direito de defesa e da consistência de provas. Mas Lula já está julgado. O pré-julgamento é a decretação de um estado de sitio individual. Talvez um dia tenhamos que sair as ruas de novo, brigar de novo, construir um novo país que prescinda de justiceiros e perseguidores implacáveis. Senhor juiz implacável: um país precisa prescindir de pessoas como você.

O rosto de Dan Mitrione, o torturador, foi esquecido. Até hoje, em qualquer confim arrebalero do Uruguai, surge o rosto de Raul Sendic, líder tupamaro preso e torturado. Sendic tem o olhar triste, mas o brilho envolve a pupila com uma certa gravidade. Tem um ar meio índio, talvez traga o sangue dos charruas chacinados.

A história guarda esse rosto para sempre. Ninguém sabe a cara dos justiceiros que o capturaram.

‘Que horas ela volta?’: sobre como a democracia começa com o fim da escravidão

Que horas ela volta

Katarina Peixoto

O filme de Anna Muylaert não para de ser visto e comentado. É uma peça de realismo sem precedentes sobre a escravidão brasileira, em que o legado e a vigência dessa doença social são-nos apresentados num verdadeiro teatro de objetos, revelando a potência da sutileza, a ironia como sinalização, o cocô do cachorro como referencia. Nesse enredo objetual, caçambas de gelo vazias, no freezer, desvelam a maldade; ratos imaginados, como metáfora, esvaziam a piscina. O prédio de Niemeyer é cenário para o assédio do rentismo, sobre a grande novidade, do pais: uma geração de filhos de escravos hereditários que não se sente nem se vê como escrava. O problema não é quebrar a bandeja de prata da bisavó da Dona Barbara; o problema está no desrespeito à gramática muda, silenciada em dêiticos: “lá”, “cá”, “aqui”, “para fora”.

Somente uma geração sem a memória da escravidão pode chegar à terra prometida; isso quer dizer que somente pessoas livres podem querer a liberdade. Que horas ela volta é um filme redentor: é um signo da travessia, que parece seguir uma regra de dois aspectos: por um lado, na memória como jogo sobre os objetos, cujo teatro parece obedecer, no trabalho primoroso de Muylaert, à descrição do passado; por outro, no tratamento igualmente obediente, mas desta feita aos sujeitos, na descrição do presente e da promessa de futuro: Val e Jéssica.

 O desamor, o abandono, a desagregação, a segregação, o racismo, o ressentimento, essas são coisas vividas sem palavras ou silenciadas. Como vividas pelos e através de objetos. A incapacidade de Val, na luminosa e inesquecível Regina Casé, usar palavras para enunciar sua alegria, e recorrer a gestos (hilários, comoventes), são motores da gigantesca máquina narrativa de Muylaert. Que coisa prazerosa, leve, eventualmente hilariante (como esquecer a cena da faxineira e da Val, tentando entender a Jéssica:  “Tu finge que tá podano, que eu finjo que tô aguano”, o uso dos braços e do avental, como fosse, este também, ele mesmo um personagem, na linha objetual do elenco), que consegue tocar fundo na maior de nossas chagas, na metástase insistente que origina todos, absolutamente todos os males em nossa sociedade. A escravidão e o racismo dela derivado, como veículo de ódio e preservação das relações ilegítimas de poder, têm, ou tinham, na figura da empregada domestica, o último reduto impune da sua barbárie.

A empregada doméstica, “praticamente da família”, é o objeto: não fala, não mora, não pode ser mãe, senão de aluguel. A relação maternal, derivada e originária, é o princípio e o fim do filme. E constitui a mesma metáfora em que aparece o rato na piscina: ninguém nasce mãe, faz-se mãe. Seja pela necessidade, seja pela liberdade. Mas não dá para ser mãe pela ausência, pois esta desautoriza a confiança. Jéssica não é um rato, Fabinho só não é mais abandonado porque tem Val, o objeto familiar que é sujeito do afeto e do vinculo afetivo dinâmico possível naquela economia domestica: o que se come, como se dorme, onde se deve buscar o que, como cuidar do cão (que tampouco é digno de afeto por outra pessoa que não a Val).

É a empregada que possibilita a dinâmica elementar da vida econômica e afetiva, o elo afetivo, de cuidado, de subsistência e comunicação, naquele núcleo familiar. A empregada que, desde os tempos em que era usada como ama de leite, pouco teve o direito de ser mãe, de fazer-se mãe, enquanto criava, amamentava, educava, o filho das mães escravocratas, de uma economia dependente, em sua vida mais íntima, da desumanização de quem lhe serve alimento, de quem lava sua roupa. Barbara parece saber de tudo; desta feita,  porém, só nas palavras. Sua ausência impossibilita sua maternidade e sua consciência de fazer algum uso do que parece fazer questão de saber, até Jéssica jogá-la num colapso epistêmico decisivo. E no ódio desavergonhado.

A filha da empregada, que chegou de Pernambuco para prestar vestibular na FAU-USP, anuncia e protocola a ruína de um mundo. O filme é sobre a separação de sujeitos e objetos, quando a terra prometida aparece no horizonte: a universidade, o estudo, a educação e a vida com o filho, neto de Val. A inexistência, em Jéssica, da carne da escravidão que habita a sua mãe, afinal, redimida, feita mãe e avó, renascida na piscina proibida, aos prantos, como sujeito. Vai demorar muito e talvez jamais seja superada em beleza, aliás, esta cena, este pequeno lembrete, de que ser mãe pode ser libertar-se, deve sê-lo.

O filme é imenso e poderoso. E é também muito bem acabado, leve, cuidadoso, tenro. Este pais está mudando, mesmo. Afinal, a democracia começa com o fim da travessia do deserto, com o fim da escravidão.

O Mensageiro: a história de um jornalista que virou suco

O dossiê de Webb teve repercussão nacional nos EUA e provocou uma reação midiática da CIA que acabou por destruir a carreira do jornalista (e talvez sua própria vida).

O dossiê de Webb teve repercussão nacional nos EUA e provocou uma reação midiática da CIA que acabou por destruir a carreira do jornalista (e talvez sua própria vida).

Em 1996, o jornalista Gary Webb publicou em um pequeno jornal da Califórnia, o The San José Mercury News, uma série de reportagens denunciando a aliança feita pelo governo de Ronald Reagan com os “contras” que lutavam contra os sandinistas na Nicarágua. Segundo a reportagem, os “contras”, aliados com a CIA, contrabandearam grandes toneladas de cocaína para dentro dos Estados Unidos e os lucros resultantes da venda da droga serviram para financiar os grupos antissandinistas na Nicarágua. Essa cocaína acabou sendo distribuída na forma de crack em comunidades carentes, especialmente em bairros da periferia de Los Angeles.

Intitulado “Dark Alliance” (Aliança sombria), o dossiê de Webb teve repercussão nacional e provocou uma reação midiática da CIA que acabou por destruir a carreira (e talvez a própria vida) do jornalista. A história é contada no filme “O Mensageiro” (“Kill the Messenger”, EUA, 2014), dirigido por Michael Cuesta, com Jeremy Renner (de “Guerra ao terror”) fazendo o papel de Webb.

As relações promíscuas entre o governo dos Estados Unidos e os contras na Nicarágua seriam expostas nos anos seguintes. Além delas, o filme mostra outro tipo de relação promíscua, entre a central de inteligência norte-americana e grandes veículos de comunicação, como o Washington Post, que, juntamente com outros jornais, publica uma série de matérias para desmoralizar a reportagem de Webb e a sua reputação profissional e pessoal. O objetivo é atingido e ele acaba sendo abandonado pelo próprio jornal onde trabalhava.

No livro “Whiteout: the CIA, Drugs and the Press”, Alexander Cockburn e Jeffrey St.Clair contam como Webb foi vítima de uma campanha da CIA destinada a destruir sua reputação. Gary Webb nunca mais conseguiu emprego na mídia. Em 2004, foi encontrado morto em seu apartamento, aos 49 anos, com dois tiros na cabeça. O filme está disponível nas TVs por assinatura.

CineBancários exibe o aguardado longa gaúcho “Castanha”, de Davi Pretto

castanhaofilme526

O CineBancários estreia dia 20 de novembro, às 15 horas, o longa-metragem gaúcho “Castanha” , de Davi Pretto. No dia 17 de novembro, haverá uma exibição especial, às 19h, que será seguida de uma conversa com a equipe do filme. A sessão especial faz parte da programação da 18ª Parada Livre de Porto Alegre e terá entrada franca.

O filme retrata a vida de João Carlos Castanha, um ator de 52 anos que trabalha na noite como transformista em baladas gays. Castanha vive com a mãe, Celina, no subúrbio de Porto Alegre. A solidão e a saúde frágil fazem com que ele comece a confundir a realidade com a sua imaginação. Misturando ficção e documentário, o filme estreou no Festival de Berlim em fevereiro e, desde então, já foi apresentado em outros grandes festivais como Bafici (Buenos Aires), Edimburgo (Escócia), Hong Kong e no Lincoln Center (Nova York).

Mud: uma fábula sobre o fim da infância

mud-poster500

Por Katarina Peixoto

O filme ganhou a bizarra versão brasileira de “Amor Bandido”, mas poderia ser chamado, talvez, de “o cara da lama”. Mud, do ótimo Jeff Nichols (diretor do também estupendo O Abrigo), é um filme com a mesma lente do anterior: é atemporal de tal maneira que, mesmo sabendo que estamos no presente, isso não contamina a percepção de que estamos lidando com uma história fabulosa. E isso sem que o diretor se apaixone por aquilo que está fazendo, isto é, sem chatice. Tenho uma queda por crianças e adolescentes que são bons atores. Atuar, de verdade, é uma das coisas mais difíceis de se fazer e requer mais do que disciplina, maturidade e gênio. Não sei dizer o que é, mas quando acontece, tudo o mais acontece. Claro, um diretor de verdade é determinante. Nichols é isso.

Neste filme, ele nos conta a história de uma passagem, de uma travessia do mundo perceptivo infantil para o adolescente. Sobre tirar a casinha de cima da árvore e transformá-la num barco habitado e coabitado por estranhas figuras híbridas e ambivalentes, como o são os adultos.

Ellis (vivido pelo estupendo Tye Sheridan) e seu amigo Neckbond, ambos com 14 anos, envolvem-se com um fugitivo da polícia. “Mud”, o fugitivo vivido pelo inacreditável Matthew McConaughey, matou um cara que machucou o amor de sua vida, de uma vida inteira, a Júniper (Reese Whitherspoon). Temos de presente o esplendoroso Sam Shepard, com a densidade que lhe é tão peculiar, para nos dizer que estamos vendo um trabalho sério.

O filme é uma fábula sobre confiança, perda de confiança, sobre aprender a amar, mesmo que ao custo de se dispor a partir o coração. É sobre perceber que em todo conflito há duas perspectivas, é entender que amor é uma coisa da e na e pela vida e que, por isso, como ela, pode ser difícil, doloroso e redentor – nem que seja do sentido das coisas, nem que seja do sentido das coisas.

Mud é uma metáfora de que há lama e sujeira em tudo e em cada um de nós. E que crescer e sair da infância é perceber, entender e sobretudo viver isso. É uma obra translúcida de realismo fabuloso, sobre amizade, lealdade e aprender a crescer. O mais esplendoroso é que temos tiroteio, bandidos e vítimas. E que isso não torna ninguém mais limpo, seco e imaculado. O amor de verdade pode machucar. O herói marginal não existe. Todos mentem e nem por isso o mundo é feito só de canalhas. Um matador é um matador, e não deixa, por isso, de ser gente. Ele deixa de ser gente se for somente isso (não há qualquer relativismo moralmente gelatinoso na coisa toda, o que só fortalece a sua beleza). A amizade é confiança, sem reflexão a respeito. O amor, idem, com um agravante: ele requer um tipo de fusão, uma espécie de inundação, a saída da ilha.

Como alguém pode desejar o poder? Os últimos dias de Versalhes

les-adieux-a-la-reine480

– Acabo de conversar com Monsieur Bailly, que foi nomeado prefeito de Paris. Ele me disse algo perturbador. O povo não quer apenas pão, mas poder. Como alguém pode desejar o poder? Sempre considerei o poder uma maldição herdada a contragosto. Uma maldição escondida por um manto de pele.

Essa é a única conversa do rei Luis XVI com a rainha Maria Antonieta no ótimo filme Adeus, Minha Rainha (Les adieux à la Reine), de Benoît Jacquot. A Bastilha já caiu, o Palácio de Versalhes está cada vez mais isolado e a nobreza começa a abandonar o barco da monarquia, levando o que consegue carregar. O fardo do poder referido por Luis XVI a sua rainha expressa de certo modo uma situação de fato que se configura naqueles dias: a maldição herdada a contragosto está mudando de mãos. O filme de Jacquot retrata com agudeza os últimos dias da corte, vistos pelos olhos de uma das mais fieis servas da rainha, Sidonie Laborde, leitora oficial de Maria Antonieta.

A lealdade e a paixão que Laborde cultiva pela rainha se enredarão no turbilhão daqueles dais que cercaram o 14 de julho de 1789 e que conduziram, mais tarde, o casal real para a guilhotina. Baseado no livro homônimo da escritora Chantal Thomas, o filme acompanha os dramáticos últimos três dias de Maria Antonieta e Luis XVI no Palácio de Versalhes. Os três últimos dias de um mundo em ruínas.

O cinema já produziu muitos bons filmes sobre a Revolução Francesa. Um dos traços mais originais de Adeus, Minha Rainha é mostrar a decomposição da monarquia pelos olhos da criadagem de Versalhes. Normalmente apresentado como símbolo de luxo e ostentação, o palácio tinha uma pequena cidade dentro dele habitada por cerca de três mil pessoas, Além dos grandes salões espelhados repletos de ouro, vemos também corredores e pequenos quartos sombrios onde viviam os servos da realeza.

O filme nos oferece como guia uma representante desse povo que, não muito longe dali, em Paris, estava fazendo a Revolução Francesa. Sidonie Laborde, vivida por Léa Seydoux, acompanhará a rainha até o fim, ou melhor, quase até o fim. Um pedido final de Maria Antonieta, interpretada magistralmente pela atriz alemã Diane Kruger, testará sua lealdade e, ao mesmo tempo, funcionará como um indicador das razões pelas quais o casal real perderá suas cabeças na guilhotina. A ideia da traição cometida pela realeza contra seu povo ficará bem exemplificada.

Os jogos amorosos da corte estão presentes no filme, inclusive uma possível paixão homossexual da rainha, mas eles não são o foco principal da narrativa. O olhar que nos guia é o da leitora oficial de Maria Antonieta que tem na rainha o centro de sua vida. Ela mal acredita quando esse mundo começa a desmoronar frente aos seus olhos. Os corredores de Versalhes viram lugares assombrados por nobres decadentes e desesperados que se arrastam com velas nas mãos, como se fossem fantasmas expostos pela insurreição popular em Paris. Sidonie Laborde quer saber o que está acontecendo lá fora e que real perigo isso representa para sua rainha.

Para tanto ela recorre ao historiador Jacob-Nicolas Moreau, vivido esplendidamente no filme por Michel Robin. Moreau é um nome importante na história francesa. Defensor do Antigo Regime, ele escreve um grande número de memórias e ensaios e organiza um arquivo de cartas destinado a guardar os textos oficiais da história nacional. Diante da evolução da insurreição popular, Luís XVI pediu a Moreau que escrevesse uma carta que seria lida nas igrejas ameaçando os rebeldes do castigo divino. Ele tem dificuldades com a tarefa pois tem um olhar crítico sobre o comportamento da nobreza naquele momento. Moreau considerava que os privilégios que os nobres possuíam deveriam vir acompanhados de deveres, o que não estaria acontecendo. Com esse olhar ele mantém a leitora da rainha informada sobre a gravidade dos acontecimentos.

O historiador deixa claro a ela que estão diante de um mundo em ebulição e sugere que ela abra os olhos e deixe de fazer da adoração à rainha o centro de sua vida. Ela recusa a ideia em um primeiro momento, mas a realidade se encarregará de enquadrá-la. Sidonie Laborde é o fio condutor do filme. A escritora Chantal Thomas a definiu como alguém que vê o mundo de baixo, uma alusão à obrigação dos serviçais sempre estarem inclinando a cabeça à nobreza. Mas ela crê ter uma arma importante do seu lado: as palavras. “Palavras são tudo o que tenho e eu sei usá-las muito bem”, diz rispidamente à rainha depois que ela lhe pede que sirva de isca para proteger a vida de Gabrielle, a paixão de Maria Antonieta que estava na lista dos guilhotináveis da revolução. Sidonie fica decepcionada com o pedido, mas cumpre a missão, veste uma roupa de Gabrielle, enquanto esta se veste como serviçal. As palavras da leitora salvarão a vida de ambas, mas ela sabe, arrasada, que nunca mais voltará a Versalhes.

A corte de Versalhes geralmente é tratada como sinônimo de frivolidade, privilégios, desperdício e esbanjamento. Não por acaso, certamente, merece esse tratamento. O filme de Jacquot tem o mérito de ir além dessa forma, já reproduzida muitas vezes no cinema, e lançar um olhar penetrante sobre as entranhas de um mundo em ruínas. “Como alguém pode desejar o poder?” – interroga-se perplexo Luís XVI. O rei e a rainha sabem que as suas cabeças lideram uma lista de mais de 200 nobres candidatos à guilhotina. O poder, de fato, já não está mais com eles em Versalhes que, depois do 14 de julho de 1789, vai se tornando pouco a pouco um palácio fantasma. A alienação que habitava a casa real nos dias que antecederam a queda da Bastilha já anunciava que o poder estava mudando de endereço.

As condições de possibilidade para o regicídio na guilhotina estavam dadas. O povo iria extirpar a maldição escondida sob o manto real. Isolada em Versalhes, a corte perdeu o contato com o seu povo. Ao fazer isso, perdeu o contato com o poder que estava deixando de ser uma “maldição herdada a contragosto”. A fonte do poder estava mudando, passando do terreno divino para o plano humano. A perplexidade de Luís XVI e Maria Antonieta deve ter sido real. No filme, após a queda da Bastilha, as sugestões de leitura de Sidonie para a rainha vão ficando cada vez mais restritas e difíceis. O que ler no momento em que o mundo que você conhece está ruindo à sua volta? A maldição do poder acabou finalmente caindo sobre as cabeças de Maria Antonieta e Luís XVI, ou melhor, sobre seus pescoços.

O sonho de Wadjda e a voz das mulheres na Arábia Saudita

O-Sonho-de-Wadjda “A voz da mulher não deve ser ouvida pelos homens lá fora. A voz da mulher é a nudez dela”. A ríspida e enérgica advertência feita por uma professora saudita a duas alunas que falavam e riam alto no pátio da escola é um exemplo do tipo de dificuldade que Wadjda, uma menina de 10 anos de idade, vai encontrar para realizar seu sonho: ter uma bicicleta. É um sonho proibido para as meninas sauditas. Uma entre tantas outras proibições que fazem parte da vida das mulheres na Arábia Saudita. Elas não devem ser ouvidas e muito menos vistas. “Se a gente vê os homens, eles veem a gente. Meninas de respeito não são vistas”, ouve Wadjda na escola. Mas Wadjda, assim como sua criadora, a cineasta saudita Haifaa al-Mansour, ignora todas essas proibições e persegue seu sonho com obstinada coragem até o fim.

O Sonho de Wadjda é o primeiro longa-metragem rodado inteiramente dentro da Arábia Saudita, um país onde os cinemas ainda são proibidos. O simples fato de o cinema ganhar uma realizadora saudita talentosa e corajosa como Haifaa al-Mansour é um indicador que parecem existir muitas Wadjdas querendo comprar as suas bicicletas naquele reino. A Wadjda do filme, vivida pela ótima Waad Mohammed, é uma colecionadora de sonhos e objetos proibidos: fitas cassetes com gravações de músicas românticas e rock’n roll (“músicas malignas), pulseiras de times de futebol, um par de tênis com cadarços de cor lilás. Querer andar de bicicleta também entra nesta coleção maldita. “Você não vai poder ter filhos se andar de bicicleta”, escuta ela da própria mãe, sob permanente ameaça de perder o marido para outra esposa.

As restrições que pesam sobre a vida das mulheres na Arábia Saudita são variadas. A história contada por Haifaa al-Mansour, porém, não mostra mulheres submissas e resignadas. A cineasta recusa a linha do “coitadismo”. Em entrevista à revista TPM, Haifaa diz que o foco de seu trabalho não são os preconceitos e obstáculos enfrentados em seu país: “para as mulheres sauditas é muito fácil dizer que tudo é difícil, que a Arábia Saudita é um país muito conservador e não fazer nada para mudar esse quadro. Precisamos seguir em frente, lutar e torcer para que consigamos transformar a sociedade saudita em um povo mais tolerante. O reino está se abrindo, há oportunidades para as mulheres agora, as coisas estão mudando. Sempre haverá pessoas que irão pressionar as mulheres para que elas fiquem em casa, quietas, mas nós temos que lutar”.

O Sonho de Wadjda é um filme de combate. O objetivo perseguido pela pequena lutadora protagonista da história é, conforme nos diz a diretora, uma metáfora para uma luta maior: “A bicicleta é uma metáfora para liberdade de movimento, que não existe para mulheres e garotas na Arábia Saudita. Se eu quero ir a qualquer lugar, preciso de permissão de algum homem da família. Eu não posso dirigir um carro nem mesmo andar na rua ou tomar um trem sem permissão. Eu queria que a aceleração, o movimento da bicicleta desse vida ao debate intelectual e fizesse as pessoas entenderem que isso é apenas movimento”. De fato, durante todo o filme, Wadjda está se movimentando por espaços proibidos. Ela afronta limites e convenções com a naturalidade e a suavidade que uma criança de 11 anos pode apresentar.

Haifaa-Al-Mansour A busca obstinada pela bicicleta é acompanhada por um olhar atento à situação da mãe ameaçada pela sombra de uma nova esposa articulada pela sogra. O pai ausente aparece esporadicamente no filme até se consumar o medo maior da mãe, uma situação que vai gerar um laço de solidariedade muito forte entre as duas mulheres. “Agora só restamos nós duas”, diz a mãe de Wadjda, sob os fogos de artifício do novo casamento do pai da menina. Essa nova realidade provocará uma mudança de comportamento da mãe em relação ao sonho da filha. Aliás, considerando o caráter determinado da personagem talvez “sonho” não seja a palavra mais adequada. Wadjda estabeleceu a compra da bicicleta como uma meta com um propósito bem definido: quer disputar uma corrida com seu melhor amigo Abdallah, e chegar na frente dele.

Para atingir sua meta, ela fará o que for necessário, inclusive disputar um concurso de leitura do Alcorão na escola, surpreendendo suas professoras que já a davam como um caso perdido para a categoria das “meninas de respeito”. De fato era, mas elas só ficarão sabendo disso tarde demais. Wadjda parece o tempo todo à frente das mulheres adultas que tentam enquadrá-la como uma “menina de respeito”. Ela está de fato. O olhar que ela dirige para o mundo de proibições que lhe é apresentado é o olhar de quem não reconhece aquele mundo como seu. Por isso ela precisa poder correr para chegar mais perto de outro mundo que vislumbra no horizonte. Um mundo onde as mulheres não precisam esperar o marido e seus amigos comerem para depois ficarem com os restos. Um mundo onde a filha possa colocar seu nome feminino na árvore genealógica do pai que só traz nomes masculinos. Um mundo onde o amor substitua o casamento de encomenda.

O olhar de Wadjda na cena final do filme persegue essas possibilidades de outros mundos possíveis. A coragem que a impulsiona parece alimentada pela percepção de que ela está deixando para trás um mundo carcomido e decadente. Ela não reconhece aquilo como seu. Mas, para além do retrato que oferece sobre a dura realidade das mulheres na Arábia Saudita, O Sonho de Wadjda é ótimo cinema. Com um ponto de partida simples, Haifaa Al Mansour conta uma história repleta de coragem, generosidade e esperança. Nestes tempos deslumbrados com as novidades tecnológicas que não param de aparecer, um bom roteiro, uma direção segura, comprometida com um tema, e a sintonia do elenco com o roteiro ainda são elementos indispensáveis para um ótimo filme. No meio de tanta porcaria e irrelevância que inunda as telas hoje, conhecer o trabalho de Haifaa é quase uma obrigação.

A Terra Prometida e a identidade perdida da “América”

terraprometida A história é bem conhecida em praticamente todos os cantos do mundo hoje. Funcionários de uma grande corporação são enviados a uma pequena cidade do interior, de base agrícola e em decadência econômica, para fazer uma proposta aparentemente irrecusável. No caso do filme “A Terra Prometida” (Promised Land, EUA, 2012), dirigido por Gus van Sant, ela se passa no interior dos Estados Unidos. Steve Butler e Sue Thomason (interpretados, respectivamente, por Matt Damon e Frances McDormand) são funcionários de uma grande corporação da área de energia e desembarcam em McKinley, uma pequena cidade rural dos grotões dos EUA, para tentar negociar com os moradores os direitos de perfuração de suas propriedades para a exploração de gás natural. Esse é o ponto de partida do filme.

A salvação oferecida pela grande corporação está baseada, porém, em um polêmico processo de extração de gás natural: a fratura hidráulica (“fracking”), processo que consiste na utilização de água sob altíssima pressão com produtos químicos para extração de gás xisto. Esse método de extração de gás vem sendo muito combatido nos Estados Unidos por ambientalistas. Um estudo divulgado em agosto deste ano pelo Serviço Geológico dos EUA e do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA adverte que fluidos derramados no meio ambiente por esse processo estão causando a morte de diversas espécies aquáticas na região de Acorn Fork, no estado de Kentucky. Esses resíduos, segundo o estudo, estariam provocando lesões nas guelras, fígado e baço dos peixes. Além disso, fizeram o pH da água cair de 7,5 para 5,6, tornando-a mais ácida.

Esse é o pano de fundo para Gus Van Sant falar de vários temas: as fontes energéticas e seus impactos ambientais, a relação de fidelidade dos vendedores com as suas empresas e a ausência de limites da manipulação corporativa. Mas, na avaliação do diretor, o tema central do filme está ligado à identidade norte-americana e à progressiva dissolução de um modo de vida comunitária que ajudou a construir o país. As pequenas comunidades rurais empobrecidas são convidadas a ingressar no paraíso do capitalismo corporativo que oferece ganhos milionários e uma nova vida. Mesmo assim, há quem resista e desconfie de propostas tão generosas. No filme, o personagem vivido por Matt Damon carrega consigo a experiência de ter saído de uma dessas comunidades empobrecidas e assume a postura do novo rico que luta desesperadamente contra seu passado.

Já Sue Thomason, interpretada pela extraordinária Frances McDormand, procura fazer seu trabalho do modo mais rápido e eficiente possível, e mostra um olhar que mistura cinismo e melancolia sobre os personagens da cidade, seu colega de trabalho e ela mesma. Ela está ali para cumprir uma missão e não economizará nenhum meio para isso, inclusive tentar corromper os adversários do projeto com alguma propina. Entre o idealismo corporativo de Steve e o cinismo melancólico de Sue, aparece um terceiro personagem que desempenhará um papel fundamental no filme. Além da resistência de membros da comunidade, o projeto para a exploração de gás encontra a oposição de um militante ambientalista que desembarca na cidade com esse único propósito. Assim como as promessas de prosperidade da corporação não são o que parecem, outras fachadas da história terminarão desabando até o fim.

Ao apresentar o filme, no início deste ano, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, Gus van Sant disse que o tema central da história é a identidade dos Estados Unidos e de sua população. A problemática ambiental, em si mesma, é secundária. “Quis fazer um filme sobre a identidade americana. Quis mostrar como podemos tomar decisões difíceis em determinadas alturas e como os Estados Unidos estão se afastando de um tradicional sentido de comunidade”. A destruição de modos e formas de vida e de economia comunitária pelo avanço do capitalismo global e seus empreendimentos não chega a ser novidade. A destruição ambiental que muitas vezes acompanha esse processo também não. Mas o filme não parece interessado em contar novidades, mas sim colocar uma lupa sobre uma pequena comunidade para tentar ver com mais clareza como se dá essa dissolução de identidades.

Uma dissolução marcada por um paradoxo significativo: na terra do capitalismo, o desaparecimento de formas de vida comunitárias, próximas da natureza e adeptas de um modo de vida mais simples, é apresentado como uma ameaça à própria ideia de uma “América” como terra da liberdade e da felicidade. Em um determinado momento do filme, o personagem de Matt Damon faz um discurso irritado em um bar para moradores locais que estavam provocando-o. Diz o quanto eles são estúpidos e atrasados por não quererem ganhar muito dinheiro com o negócio da exploração do gás. Recebe como resposta um soco na cara. O encontro da “América decadente” com a “América corporativa” coloca a perspectiva da Terra Prometida como um projeto a ser resgatado contra o capitalismo.

O que é a Terra Prometida, afinal de contas? É o aceno de uma nova vida, com dinheiro, feito pela grande corporação da área de energia? Ou é a terra que já se perdeu pelo modo de desenvolvimento do próprio capitalismo que não concede lugar para formas de vida idílicas e comunitárias, especialmente se elas estiverem assentadas sobre alguma grande fonte de energia. Como assinala Gus van Sant, o debate ambiental aí é secundário, não no sentido de ser menos importante, mas sim no de ser derivado de uma premissa anterior que estabelece uma relação direta entre modo de vida e escolhas econômicas. A vida nos bosques, experimentada por Thoreau, há algum tempo soa inocente, ingênua e impraticável aos olhos da máquina ideológica do capitalismo que funciona 24 horas por dia.

Co-autor do roteiro, Matt Damon reserva um final generoso para o seu personagem que vive um processo catártico em relação ao seu próprio passado de morador de uma dessas comunidades que ele queria agora destruir. Há uma paixão no meio que o ajuda nesta travessia de rompimento com a lógica corporativa e o reaproxima da terra prometida, uma ideia que está presente na “América” desde a chegada dos primeiros peregrinos vindos da Europa. É sintomático que ela ainda tenha força e seja confrontada com o atual estágio do capitalismo norte-americano.

Visões idílicas de comunidades vivendo em harmonia com a natureza são cada vez mais incompatíveis com esse capitalismo hegemônico hoje em todo o planeta. Por outro lado, quando o modo de vida engendrado por esse modelo começa a se tornar incompatível com a sobrevivência do próprio planeta, a ideia de uma terra prometida parece ganhar atualidade em um duplo sentido: em um sentido negativo, pelas promessas não realizadas do capitalismo, e em um sentido positivo como a necessidade de libertação de um sistema opressor e inimigo da vida.

Uma fábula sobre o mundo hostil

Quem já não teve a sensação de olhar o mundo como um lugar hostil, um ambiente ameaçador, que exige um refúgio seguro, um esconderijo que nos proteja das turbulências e ameaças? Algumas pessoas são engolfadas por essa sensação e suas vidas passam a caminhar por uma fronteira tênue entre a loucura e a dita normalidade. O jovem cineasta Jeff Nichols construiu em “O Abrigo” (Take Shelter, EUA, 2011) uma fábula sobre a hostilidade do mundo. Vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes em 2011, o filme protagonizado por Michael Shannon e Jessica Chastain é uma viagem dilacerante pelo interior dessa sensação de vivenciar o mundo como uma máquina de moer carne.

Segundo o relato do próprio realizador, a ideia central do filme nasceu de um episódio biográfico. Recém casado, ele vivia uma vida repleta de amor e confiança com sua companheira. Mas o acompanhava no horizonte uma sensação mórbida que algo de muito ruim iria acontecer. Não havia nada exatamente que pudesse explicar esse sentimento, mas ele estava lá, presente e ameaçador. Essas nuvens no horizonte acabaram dando forma ao roteiro de Take Shelter. Curtis, o personagem vivido pelo ótimo Michael Shannon passa a ter, logo após a morte do pai, sonhos e visões terríveis sobre uma tempestade que estaria se aproximando.

Abandono e descontrole
Há possíveis explicações clínicas para os sonhos e alucinações de Curtis. Quando criança, viveu a terrível experiência de ser abandonado pela própria mãe no estacionamento de um supermercado. Ela acaba internada com um quadro agudo de esquizofrenia e essa chaga o persegue por toda a vida. Com a morte do pai, ela se torna insuportável e passa a frequentar seu cotidiano sob a forma de sonhos, pensamentos mórbidos, alucinações visuais e sonoras. A tempestade no horizonte passa a ser uma visão diária que vai, aos poucos, contaminando suas relações no trabalho e na família.

Curtis e a esposa Samantha têm uma filha de seis anos que é surda. O seu maior temor é abandonar a família, como ocorreu com sua mãe. Ele estabelece aí uma linha que não pretende ultrapassar. “Não vou abandoná-las”, diz ele à esposa quando, ela, apavorada, vê o marido com uma retroescavadeira no quintal da casa abrindo um grande buraco no solo para ampliar o abrigo contra furacões. Curtis tem certeza que a tempestade que aparece em seus sonhos e visões vai se materializar na vida real e quer estar preparado para proteger sua família. Mas o que deveria ser um fator de proteção vai se transformando em descontrole e aparente loucura.

E se houver mesmo uma tempestade no horizonte?
Aparente? A pergunta revela justamente uma das riquezas do filme. Aos olhos de todo mundo, Curtis está reproduzindo os sintomas da doença da mãe. Ele chega a visitá-la para tentar saber se ela apresentou sintomas semelhantes aos que ele passou a vivenciar. Consulta um médico conhecido, mas se recusa a visitar um psiquiatra indicado pelo mesmo. E esconde da esposa o inferno que está vivendo, até que o ambiente familiar começa a desmoronar e ele rompe o silêncio. Curtis, cabe lembrar, foi abandonado pela mãe em um supermercado quando criança e perdeu o pai que cuidou dele após o colapso da mãe. Tem uma filha surda, que pode recuperar parte da audição com uma operação. Pressionado no trabalho pelas suas visões e medos, acaba perdendo o emprego. Pior: um pouco antes havia contraído um empréstimo para as obras de ampliação do seu abrigo contra a tempestade que se avizinha.

Além dos demônios interiores que habitam o filme há também os exteriores alimentados pelo quadro de instabilidade social e econômica provocado pela crise financeira que explodiu em 2008 nos Estados Unidos. A ameaça do desemprego e o fantasma das hipotecas estão sempre presentes.

Assim, embora os sintomas de uma enfermidade mental sejam abundantes, há uma suspeita que percorre sutilmente toda a narrativa: e se houver mesmo uma tempestade no horizonte, se as ameaças forem reais, como devemos nos comportar? No filme, a vida do protagonista só não afunda totalmente porque a sua esposa decide não abandoná-lo apesar de todas as evidências apontando para uma repetição do que havia acontecido com a mãe de Curtis. Ela fica e o acompanha em uma dolorosa jornada em busca de um abrigo seguro.

A fadiga de ser si mesmo
O sociólogo francês Alain Ehrenberg, em seu livro “La fatigue d’être soi: Depression et socété” (“A fadiga de ser si mesmo: depressão e sociedade”), fala sobre como a depressão tornou-se uma enfermidade inerente a uma sociedade onde a norma dominante é a exigência da responsabilidade e da performance. Ehrenberg se pergunta: o que significa, afinal, tornar-se si mesmo? No livro que busca a resposta a essa indagação, ele aponta como ela envolve uma série de espinhosos problemas de fronteira: entre o permitido e o proibido, o possível e o impossível, o normal e o patológico. Essa construção, observa, envolve relações instáveis entre culpabilidade, responsabilidade e patologias mentais.

O filme de Jeff Nichols não é um tratado sobre a depressão, a esquizofrenia ou alguma outra doença mental. Ele transita justamente por essas zonas de fronteira apontadas por Ehrenberg e sobre as ameaças que as acompanham. No final do filme, que não será contado aqui obviamente, um gesto da filha de Curtis e Samantha indica que o verdadeiro abrigo contra as tempestades não reside em esconder-se em um buraco embaixo da terra ou algo do gênero. Para enfrentar a hostilidade do mundo é preciso, sobretudo, permanecer juntos.