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Trump e Temer, a mesma ameaça

“Este mercado, com suas lógicas, suas guilhotinas que cortam direitos, ameaçam a terra e hipotecam o mundo e o povo brasileiro”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Flavio Koutzii

Trump ameaça o planeta. Em nome dos negócios da América.

Temer ameaça o povo brasileiro com as reformas que o mercado quer.

Este mercado, com suas lógicas, suas guilhotinas que cortam direitos, ameaçam a terra e hipotecam o mundo e o povo brasileiro.

“Führer” tresloucado lá, “Führer” cínico aqui.

É trágico perceber como o fundamentalismo capitalista não tem limites e não respeita as necessidades do planeta e os direitos elementares das pessoas.

Hoje é um dia trágico para o mundo como estão sendo trágicas as reformas que os usurpadores e delinquentes querem para o Brasil.

A emergência de grupos de ultra direita e neofacistas que proliferam no mundo tem o mesmo DNA: ultranacionalismo, xenofobia, desrespeito pelas diferenças e valores humanitários.

A Globo anda lembrando que “os dias eram assim”, título inspirado na canção que Ivan Lins compôs e eternizou e que no final dizia com melancólica esperança:

“Quando brotarem as flores

Quando crescerem as matas

Quando colherem os frutos

Digam o gosto pra mim”

Mas hoje, OS DIAS SÃO ASSIM.

Querem acabar com as flores, as matas e os frutos.

Flavio Koutzii: ‘Em 64 tivemos um Fleury. Hoje, temos um Fleury de toga’

Quase nove meses depois da confirmação, pelo Senado, da deposição da presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2014 com mais de 54 milhões de votos, o Brasil convive com dois fenômenos que andam de mãos dadas: a instabilidade política, social e econômica do país se agravou e os setores que derrubaram Dilma tentam, desesperadamente, aprovar a sua agenda de reformas que retiram direitos resguardados pela Constituição de 1988 e pela CLT. A demora na aprovação dessas reformas, provocada pela crescente resistência nas ruas a elas só vai aumentando o clima de instabilidade.

O golpe contra Dilma foi dado com o objetivo central de aprovar essa agenda. Os setores que apoiaram a chegada de Michel Temer ao poder vinham tentando naturalizar o golpe consumado em 31 de agosto de 2016, mas, a incerteza quanto à aprovação de sua agenda no Congresso, acabou com a unidade entre eles. As recentes revelações da delação de Joesley Batista, dono da JBS, só agravaram esse quadro, aprofundando o grau de instabilidade política no país e de incerteza acerca do futuro do golpe que derrubou o governo Dilma.

A partir da experiência de quem viveu e enfrentou golpes no Brasil e na Argentina, Flavio Koutzii chama a atenção para as tentativas de naturalizar o que não deve ser naturalizado. Na Argentina, militou no Partido Revolucionário dos Trabalhadores – Exército Revolucionário do Povo (PRT-ERP), que pegou em armas contra a ditadura. Preso na Argentina, entre 1975 e 1979, voltou ao Brasil graças a uma campanha internacional pela sua libertação e participou da fundação da PT, partido pelo qual foi vereador, deputado estadual e chefe da Casa Civil durante o governo Olívio Dutra.

Em entrevista concedida ao Sul21, horas antes das notícias sobre a delação de Joesley virem a público, ele fala sobre a atualidade do golpe, sobre o papel desempenhado pelo Judiciário neste processo e sobre algumas lições que a luta contra as ditaduras no Brasil e na Argentina podem trazer ao presente. O golpe segue em curso e seus agentes no Parlamento, no Judiciário e na Mídia seguem mexendo as peças no tabuleiro para consumar os objetivos de sua empreitada. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

PT gaúcho lança manifesto pedindo Congresso para mudar direção e política do partido

Ato de lançamento do manifesto “Congresso partidário já”, na Assembleia Legislativa, contou com a presença de militantes, parlamentares e dirigentes históricos do partido. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Ato de lançamento do manifesto “Congresso partidário já”, na Assembleia Legislativa, contou com a presença de militantes, parlamentares e dirigentes históricos do partido. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“O teto da casa caiu, mas não o seu alicerce e seus fundamentos”. Com essa frase, o ex-governador Olívio Dutra resumiu o espírito do manifesto lançado nesta quinta-feira (27) pelo PT do Rio Grande do Sul defendendo a convocação imediata de um congresso nacional plenipotenciário do partido para construir uma nova política e uma nova direção. O lançamento do manifesto, realizado na Sala Adão Pretto, da Assembleia Legislativa, contou com a presença das principais lideranças do partido no Estado, deputados federais, estaduais, prefeitos, vereadores e militantes. Entre outros nomes históricos do partido, participaram do ato Olívio Dutra, Tarso Genro, Miguel Rossetto, Raul Pont e Flávio Koutzii.

O documento intitulado “Congresso Partidário Já”, aprovado pelo Diretório Estadual do PT no dia 13 de outubro, faz uma análise do resultado das eleições municipais, da crise política que atingiu o partido e do golpe contra o governo de Dilma Rousseff. Além disso, aponta desafios que o partido precisa enfrentar no curto prazo para se renovar política e programaticamente. O manifesto será lançado também como abaixo-assinado e vai recolher assinaturas, na base do partido em todo Estado, e será encaminhado para a direção nacional para sua homologação.

“O PT saiu profundamente ferido desse processo eleitoral, mas talvez essa seja uma oportunidade para fazer as mudanças que precisamos fazer. Estamos vivendo um dos momentos mais decisivos da nossa trajetória como partido”, disse Raul Pont. Na mesma linha, Tarso Genro destacou que um partido não vive só e vitórias e conquistas, mas também de suas crises e da capacidade de superá-las. “Somos um partido em crise porque reduzimos nosso eleitorado, porque perdemos referenciais éticos e políticos e também porque perdemos centralidade programática. Precisamos de um congresso profundo que não rejeite enfrentar nenhum tema. Autocrítica não é autoflagelação nem transformar o partido em delegacia de polícia, mas sim verificar que condições trouxeram o partido para o ponto em que está”, afirmou o ex-governador gaúcho.

Olívio Dutra: “Não fizemos o debate cultural e político mais profundo que deveríamos ter feito e caímos no pragmatismo eleitoral”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Olívio Dutra: “Não fizemos o debate cultural e político mais profundo que deveríamos ter feito e caímos no pragmatismo eleitoral”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Também ex-governador, Olívio Dutra destacou que o PT não nasceu de cima para baixo, nem por geração espontânea nem por acaso. “O PT nasceu de um processo de lutas do povo brasileiro no final da década de 1970 que não tinha por objetivo apenas enfrentar a ditadura, mas também as políticas da elite brasileira. Uma ferramenta política com essa história não se esgota assim. O teto da casa caiu, mas não o seu alicerce e os seus fundamentos”, disse Olívio que defendeu a convocação de um congresso plenipotenciário capaz de fazer profundas transformações no partido. “O congresso não pode ser para depois de amanhã, amanhã já é tarde, temos que fazer já esse debate. Não fizemos o debate cultural e político mais profundo que deveríamos ter feito e caímos no pragmatismo eleitoral”, acrescentou.

Ao fazer a apresentação do manifesto, o deputado estadual Adão Villaverde afirmou que a combinação do golpe contra o governo Dilma com a derrota nas eleições municipais representaram quase uma derrota desorganizadora do partido. Villaverde destacou, por outro lado, a capacidade de resistência que está emergindo no partido e na esquerda de modo geral para enfrentar os desafios do presente. Além disso, destacou o valor da unidade construída no PT gaúcho em torno do conteúdo do manifesto. “Não foi pouca coisa que fizemos para chegar a esse documento. Foram muitas horas de debate para construir essa síntese e essa unidade. Agora é hora de resistência, de diálogo e de unidade”, assinalou Villaverde.

Na mesma linha, o presidente estadual do PT-RS, Ary Vanazzi, defendeu a importância do debate travado dentro do partido no Estado para a construção do manifesto. “A decisão que tomamos no Diretório Estadual já está fomentando um debate nacional. O PT gaúcho tem um grande papel a cumprir neste debate. Estamos completando 90 dias de um golpe político, período no qual estão claras as políticas entreguistas e de desmonte dos serviços públicos defendidas pelo governo golpista. Nós vamos andar pelo Rio Grande com esse manifesto. Queremos buscar não só assinaturas, mas promover um debate profundo sobre o momento político que estamos vivendo”, disse Vanazzi.

Confira abaixo a íntegra do manifesto “Congresso Partidário Já”:

“O Diretório Estadual do PT-RS, reunido com bancadas federal, estadual e lideranças, convoca a militância partidária que combateu nas ruas e nas urnas a aderir ao presente manifesto:

Estamos submetidos e no auge de uma poderosa operação de cerco e tentativa de aniquilamento do PT. Operação que impôs o impeachment, a maior derrota eleitoral de nossa história e – se não a detivermos – buscará prender Lula e destruir o Partido.

O objetivo da coalizão golpista é, através da destruição da esquerda, abrir caminho para aplicar um programa lesa-pátria contra os direitos sociais, humanos, econômicos e políticos da classe trabalhadora e do povo brasileiro. A PEC 241 e a mudança no modelo de exploração do Pré-Sal confirmam isto.

O golpe decorre, em alguma medida, de nossos erros e/ou do atraso em tomarmos determinadas decisões, da ausência de uma estratégia adequada ao período, de uma política de alianças superada, do que fizemos ou deixamos de fazer na política econômica e nas chamadas reformas estruturais, no atraso ou na ausência de reação à altura da ofensiva inimiga.

Neste contexto, o Partido precisa debater o que fazer e escolher uma nova direção. Precisamos realizar imediatamente um congresso partidário. Um congresso que tenha início nas bases, no encontro de nossa militância consigo mesma. Um congresso que discuta como recuperar o apoio do PT na classe trabalhadora brasileira, razão de nossa existência como organização e partido político.

É preciso debater como reatar os laços com a classe trabalhadora, através de respostas políticas e organizativas. Com conteúdo e com programa. Com ação prática reconectando o partido com a voz das ruas e dos movimentos sociais na luta por direitos duramente conquistados.

Não basta trocar os dirigentes, é preciso debater a linha política da direção. Por isto é um erro querer primeiro eleger a direção no PED e depois fazer o Congresso. Por isto é um equívoco trocar o debate pelo voto em urna.

A realização de mais um PED não é suficiente. Defendemos a renovação da direção em todos os níveis, a começar pela necessária renovação da direção nacional do PT. Mas quem deve decidir como renovar a direção é um Congresso plenipotenciário do Partido.
O Partido dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul, convoca seus filiados e filiadas a aderir à proposta, urgente e necessária, de realização imediata de um congresso plenipotenciário, isto é, com plenos poderes para atualizarmos e corrigirmos nossa estratégia, programa, tática, política de alianças, organização e métodos de funcionamento interno.

Conclamamos a sociedade e, sobretudo os trabalhadores, trabalhadoras e juventude para a defesa da soberania nacional, dos bens públicos, dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários ameaçados pela onda conservadora que impôs o golpe e a cassação da Presidenta Dilma, eleita com mais de 54 milhões de votos”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Debate com Flavio Koutzii marca lançamento de “Resistência Internacional ao Golpe” em Porto Alegre

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O livro “A Resistência Internacional ao Golpe de 2016” (Projeto Editorial Práxis) será lançado sexta-feira (7) em Porto Alegre, às 18h30min, no auditório do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), com uma palestra de Flavio Koutzii sobre o processo de golpe no Brasil e a importância de uma mobilização internacional para enfrentar seus desdobramentos.

Koutzii lutou contra ditaduras no Brasil e na Argentina. Na Argentina, militou no Partido Revolucionário dos Trabalhadores – Exército Revolucionário do Povo (PRT-ERP), que pegou em armas contra a ditadura. Preso na Argentina, entre 1975 e 1979, voltou ao Brasil graças a uma campanha internacional pela sua libertação e participou da fundação da PT, partido pelo qual foi vereador, deputado estadual e chefe da Casa Civil durante o governo Olívio Dutra. O ato de lançamento contará também com a presença de Katarina Peixoto, doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma das organizadoras do livro, e de José Carlos Moreira da Silva Filho, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUC-RS e um dos autores da coletânea. Até o início do governo Temer, José Carlos Moreira era vice-presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, função da qual foi desligado em setembro deste ano juntamente com outros cinco conselheiros.

Koutzii lutou contra ditaduras no Brasil e na Argentina. Preso na Argentina, entre 1975 e 1979, voltou ao Brasil graças a uma campanha internacional pela sua libertação (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Koutzii lutou contra ditaduras no Brasil e na Argentina. Preso na Argentina, entre 1975 e 1979, voltou ao Brasil graças a uma campanha internacional pela sua libertação. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O livro “A Resistência Internacional ao Golpe” é o terceiro de uma série de coletâneas que registraram o processo de ruptura constitucional no Brasil. Os outros dois textos, “A Resistência ao Golpe de 2016” e “A Classe Trabalhadora e a Resistência ao Golpe de 2016”, foram publicados antes do desfecho da votação do impeachment no Senado Federal.

Segundo Carol Proner, professora de Direito Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e uma das organizadoras da trilogia, este terceiro exemplar da trilogia “documenta, com raro rigor e compromisso, o estado da destruição em curso no Brasil, sob o olhar externo e de brasileiros de renome internacional, em sua maioria”. “A obra recolhe as impressões sobre o processo vivido no país a partir do olhar de intelectuais, juristas, jornalistas, escritores e parlamentares do Brasil e de outros países que foram capazes de denunciar aquilo que não se quis ver”, diz ainda Proner.

Entre os autores que participam da obra, estão nomes como Adolfo Perez Esquivel, Baltasar Garzón, Boaventura de Sousa Santos, François Houtart, Francisco Louçã, Ignácio Ramonet, Michel Lowy, Naomi Klein, Noam Chomsky, Samuel Pinheiro Guimarães e Tarso Genro.

Há uma agenda de lançamentos desta terceira parte da trilogia, em alguns países, como Estados Unidos, Alemanha, Argentina e Espanha. Durante o ato de lançamento, serão vendidos exemplares do livro, que ajudarão a financiar o lançamento da obra, em Nova York, no fim deste mês.

Não é só golpe, é traição. Haverá luta e resistência!

"Haverá luta, haverá resistência e haverá uma discussão permanente sobre o que a direita tenta de forma sumária consolidar como política de Estado."

“A aliança profunda da frente política judicial e midiática é a arma central dessa operação.”

Flavio Koutzii

A gente escreve para juntar fatos, articular significados, compreender as coisas. Falar em golpe, não é um insulto, é apenas nominar o que foi feito. Mas como ignorar as evidências, as provas instantâneas.

Para o capital financeiro internacional, a venda do pré-sal, o desmonte da Petrobras e de outras empresas públicas estratégicas para o país, as privatizações imediatas, a abertura total da venda de terras brasileiras, o fim do processo de integração que estava sendo construído em espaços como Mercosul, Unasul e Brics.

Para o povo brasileiro, o congelamento dos orçamentos para educação e saúde por 20 anos, o desmonte da CLT e das leis trabalhistas, o aumento do tempo para a aposentadoria, exigindo mais tempo de trabalho e menos direitos, a criminalização de quem luta contra essas políticas, elas, sim, criminosas.

Essas metas estavam todas definidas e elaboradas. Mal se confirmava o impeachment, e os golpistas anunciavam essas metas políticas. Isto explica a velocidade espantosa com que tudo foi anunciado na grande política. Simultaneamente, o bloco golpista buscava uma “solução final” para exterminar o PT. Também para acabar com 13 anos de governos petistas.

A aliança profunda da frente política judicial e midiática é a arma central dessa operação. A Lava Jato como aríete dessa ofensiva naturaliza a partir da luta contra a corrupção um modus operandi, em que vale tudo. É evidente a forma que combina prisões seletivas, manutenção dos detidos em condições de enfraquecê-los para depois arrancar o que quiserem. Isto se combina com vazamentos seletivos, com o refinado acompanhamento da conjuntura na qual se joga publicamente cada vez, e com particular oportunismo e cálculo, um dos processos que estão sendo feitos.

Já é claro, hoje em dia, que há uma operação implacável contra Lula e outra absolutamente frouxa quando os dados do processo apontam para o PMDB/PSDB e outros.

O estado de direito é permanentemente violado.

Todas essas políticas precocemente explicitadas dão o sentido do movimento sob a proteção da luta contra a corrupção, fazem avançar seu programa conservador e profundamente regressivo. Este é o verdadeiro motor que busca neutralizar o governo nacional e suas políticas.

Mas, apesar desses mal disfarçados objetivos, está clara sua natureza reacionária culturalmente regressiva e escandalosamente preconceituosa. Felizmente, esta política do governo Temer já foi percebida e inteligida e a reação começou. Setores jovens resistem. Rebeldes e corajosos se afirmam. Criativos inauguram novas formas de atuação, militância e luta.

Estes setores, mais todos os trabalhadores que serão duramente atingidos pelas propostas de alterar recursos orçamentários negando-os a setores imprescindíveis, serão a base social e militante que nutrirá a resistência, denunciará os labirintos da ofensiva conservadora.

Haverá luta, haverá resistência e haverá uma discussão permanente sobre o que a direita tenta de forma sumária consolidar como política de Estado.

No fast food social, combina comida indigesta com traição explícita.

Juventude e trabalhadores, negros e mulheres, LGBT e cultura são o chão pulsante que nutrirá as lutas de resistência do modelo que a direita quer empurrar goela abaixo. Aqui é o lugar da resistência, o começo do futuro. Surge uma nova geração: são uma nova vanguarda na qual a esperança reencontra corações valentes, mentes livres, paixões incandescentes.

Podemos falar em “judeus da vez” ou é palpite infeliz? Pra quem?

(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Por Tarso Genro

Publiquei uma nota no Twitter comparando a situação de Lula, atualmente -pela perseguição e discriminação política que vem sofrendo da maioria da mídia e de setores do Ministério Público- com a situação de perseguição que comunistas, sociais democratas e judeus, sofreram, pela direita fascista durante a República Weimar e após a ascensão de Hitler ao poder, em 1933. A Federação Israelita logo publicou uma nota indignada, rapidamente apoiada pela colunista Rosane de Oliveira, designando minha posição sobre o assunto como “palpite infeliz”. Como se eu comparasse o cerco de Lula ao assassinato de seis milhões de judeus! Atribuíram-me, portanto, uma posição digna de uma pessoa ignorante ou insana, posição que não tenho e jamais dei qualquer indício de tê-la. Talvez queiram para passar alguma mensagem que eu ainda não compreendi muito bem: que não gostam de Lula? que não gostam da esquerda? que não gostam de se misturar com outros tipos de perseguidos? ou acham que é falsa, a afirmação sobre a perseguição midiática contra Lula?

Testemunhas de Jeová, homossexuais, deficientes físicos e mentais, comunistas, sociais-democratas, ciganos, eslavos, todos foram alvo da fúria insana do nazismo, na sua busca de “criação” do homem alemão “total”. A comunidade judia foi seu alvo mais amplo e preferido, com uma bestialidade que não tem precedentes. E ela foi uma bestialidade política, o que lhe redobra a gravidade. Foram ações de barbárie cometidas para tentar consagrar uma “raça” e uma nação, através de violências pensadas e executadas a partir de partidos e do Estado, como programa e como estratégia. Hitler programou apropriar-se dos bens da comunidade judia e escravizá-la na economia de guerra (e o fez), também utilizando o argumento de que grandes intelectuais e políticos judeus, tiveram um papel importante na formatação da República Weimar, que ele considerava como símbolo da decadência ocidental. Eles foram mortos, perseguidos e assassinados pela direita fascista, inclusive antes de Hitler chegar ao poder: o Holocausto teve atos preparatórios, políticos e de ação direta, não foi um mero acaso racial.

As perseguições foram combinadas com ações físicas de malfeitores fardados contra os judeus, sociais democratas, intelectuais de todas as origens, comunistas e sindicalistas, e contra todos os que lutavam pela democracia e pela República. Quando eu disse, no  Twitter, que Lula era o “judeu da vez” estava me referindo claramente a estas perseguições preparatórias ao que foi o Holocausto, como barbárie “científica” e coletiva. Por que a Federação quer proibir esta analogia? Não temos direito de fazê-la, porque ela, a Federação, detém o monopólio da dor, ou porque somos de esquerda e somos solidários com Lula? Não sabem que, quando Flavio Koutzii era torturado na Argentina, os militares torturadores diziam que a situação dele era mais grave porque “era, além de comunista, judeu?” Seria errado ou ofensivo à Federação Judaica, dizer que ali Flavio Koutzii “era o judeu da vez”? Ou não? Aliás, seria ofensivo dizer que os negros, na África do Sul, do “apharteid”, foram os “judeus da vez” dos racistas de todo o mundo? Creio que a Federação Israelita não assimila o fato de que a tragédia do Holocausto é uma tragédia universal e não uma tragédia somente de uma comunidade racial ou religiosa.

Faço estes esclarecimentos em respeito a vários amigos meus, judeus, de diferentes posições políticas, com os quais tenho dialogado por muitos anos, em torno de vários assunto políticos, filosóficos e históricos, e com os quais tenho aprendido muito e quem sabe também ajudado um pouco nas suas reflexões. Em homenagem a eles, lembro outros “judeus da vez”: Walter Rathenau, ex-Ministro da Reconstrução e das Relações Exteriores (1921) da República de Weimar, assassinado -primeiro na sua reputação- depois fisicamente (24 de jun.1922), cujos sicários Hitler, quando chegou ao poder (em 1933), declarou “heróis nacionais”; Hugo Preuss, jurista de renome internacional, “pai da Constituição Alemã”, que serviu de “judeu da vez”, para que a direita fascista apontasse a democracia da Constituição como encomendada pelo Presidente dos Estados Unidos (Wilson), pelos judeus e pelos comunistas, para “destruir Alemanha”; Mathias Erzberger, “judeu da vez” que negociou o armistício no fim da Primeira Guerra, apontado na mídia direitista e em milhares de cartazes nos muros de Berlim, como “o gênio mau do povo alemão”, assassinado num segundo atentado em 26 de agosto de 1921, pelo Oficial da Marinha Tillesen, logo exilado na Hungria e também declarado “herói nacional”, por Hitler, em 1933.

Acho que a expressão “judeu da vez” deveria ser consagrada como homenagem aos milhões de mortos pelo nazismo, sejam eles judeus ou não. Para que nunca mais aconteça. Independentemente de que a Federação Israelita o permita.

‘Sartori está partindo o Rio Grande ao meio com uma política mais radical que a da Yeda’

“O governador Sartori tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“O governador Sartori tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Flavio Koutzii nos recebeu em seu apartamento, no Bom Fim, na tarde cinzenta e abafada do último dia de 2015. Uma data apropriada para falar sobre a conjuntura política de um ano extremamente conturbado e repleto de acontecimentos. A poucas horas da passagem de ano, diminuía a possibilidade de uma nova surpresa. O final de ano foi alucinante. Koutzii confessa que estava muito pessimista até o início de dezembro, quando a retomada da capacidade do campo de esquerda de levar gente para a rua, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o rito do processo de impeachment e a conduta de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, jogaram um balde de água fria na ânsia oposicionista de derrubar a presidenta Dilma Rousseff.

“Houve certa surpresa com algumas decisões muito recentes e essa surpresa precisa ter uma explicação”, diz Koutzii. Na entrevista ao Sul21, ele apresenta alguns elementos para construir uma explicação sobre o estado das coisas no cenário nacional e também no cenário estadual. Para tanto, utiliza com fio condutor comparativo uma realidade que acompanha de perto há décadas: a da política argentina. Além de lutar contra a ditadura brasileira, Flavio Koutzii participou também da luta armada contra a ditadura argentina, sendo preso em Buenos Aires, em 1975. Ficou quatro anos preso, sofrendo torturas físicas e psicológicas. A comparação com a situação da política argentina não é gratuita.

Para Koutzii, os governos Kirchner fizeram algo que faltou aos governos nacionais do PT, a saber, uma disputa mais sistemática do sentido político das realizações e dos conceitos do governo e a disposição para assumir alguns confrontos, como fizeram no tema da mídia, por exemplo. Mesmo com a derrota eleitoral agora, defende, essa postura produz outro tipo de educação política na sociedade, o que deverá dificultar os planos do novo presidente, Mauricio Macri.

No plano estadual, o ex-chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra enxerga o governo de José Ivo Sartori (PMDB) adotando a mesma lógica de “fazer todo o mal de uma só vez”, aplicada por Macri. E seguindo uma mesma agenda neoliberal também, de diminuição do papel do Estado e de ataque aos servidores públicos. Mas, para Koutzii, Sartori não tem apenas uma “cara de Macri”. “Ele também tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. Essa política, afirma, “está partindo o Rio Grande ao meio”. (Leia aqui a íntegra da entrevista ao Sul21)

Flavio Koutzii e Raul Pont debatem momento político nacional

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“Em defesa da democracia, contra a tentativa de golpe”: esse é o tema do debate que reunirá Flávio Koutzii e Raul Pont na próxima quinta-feira (5), a partir das 19h30min, no auditório do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (Rua General Câmara, 424). Militantes que enfrentaram o golpe de 1964 e as ditaduras no Brasil e na Argente, dirigentes históricos do PT gaúcho e nacional, Flávio e Raul falarão sobre o atual momento político nacional e possíveis semelhanças entre movimentos que defendem hoje o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e mesmo o retorno de uma ditadura militar com o contexto político que antecedeu o golpe de 64. A promoção é do Sindicato dos Bancários e Porto Alegre e Região, e da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do Rio Grande do Sul (Fetrafi-RS).

O que é governar bem? (para pensar antes de votar)

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Flávio Koutzii

Os grandes governantes são aqueles que, em meio a uma situação de crise, encontram brechas e seguem em frente. Os burocratas, por sua vez, diante da crise, ficam paralisados e não saem do lugar. A eleição deste ano no Rio Grande do Sul está confrontando dois projetos que expressam muito bem essa diferença. O futuro do Estado está diante de um discurso da potência e outro da impotência. Tarso Genro, quando assumiu o governo do Estado em 2011, não ficou reclamando da falta de dinheiro e se conformando em rolar a dívida com a barriga. Ao invés disso, teve a audácia, a coragem e a determinação de tomar medidas para enfrentar a barreira da dívida. Fez, assim, o que define os grandes governantes: descobriu brechas na crise e encontrou um caminho para avançar.

O projeto representado pelo governador Tarso Genro é confrontado hoje por uma candidatura que encarna a paralisia dos governantes burocratas adeptos do Estado mínimo e dos choques de gestão. Os gaúchos e gaúchas ainda tem na memória o desastroso governo de Yeda Crusius (PSDB) que, diante da crise, optou pela paralisia e pelo sucateamento do Estado. É esse o caminho proposto agora também pelo candidato do PMDB, José Ivo Sartori. Não é à toa que os mesmos partidos que sustentaram o governo Yeda, estão juntos agora com Sartori. Em recente conversa com professores, o candidato dessa aliança PMDB-PSDB deixou claro qual seria o seu estilo de governar: “se me derem dinheiro”, poderemos melhorar o salário dos professores. Ora, um bom governante não fica esperando que lhe deem dinheiro, mas vai atrás, encontra brechas e constroi alternativas.

O candidato Sartori vem dizendo também que não é para ficar olhando pelo espelho retrovisor. Ao culto da paralisia, soma-se aqui à aversão pela memória e pelo passado. A busca de alternativas e saídas para crise exige justamente o contrário dessa postura. É preciso olhar para trás e ver como o Estado ficou quando a burocracia neoliberal paralisante tomou conta do governo e como ele avançou, como ocorreu nos últimos quatro anos, quando não parou por causa das dívidas e encontrou novos caminhos. Essa é a diferença entre a potência e a impotência, entre o bom governante e o burocrata, entre a iniciativa e a paralisia.

É nisso que consiste governar bem. Não basta se conformar com uma situação de crise financeira e dizer que, “se me derem dinheiro”, farei alguma coisa. Contra essa postura conformista, o govero Tarso Genro mostrou nesses últimos quatro anos como é possível avançar em meio às dificuldades e não ficar paralisado pela crise. O Rio Grande do Sul passou a crescer acima da média nacional, com um dos menores desempregos do país, investindo pesadamente em tecnologia, em qualificação profissional, no combate à desigualdade, na recuperação dos salários dos servidores e na qualificação dos serviços públicos. O Estado deixou de ficar de costas para o Brasil e assumiu protagonismo internacional. Tarso não ficou esperando que “lhe dessem dinheiro”. Com ousadia, construiu alternativas e trilhou novos caminhos. É fácil dizer “vou manter o que está bom e mudar o que não está”. O que define o bom governante é justamente criar o novo em meio à crise e não ficar sentado, paralisado, aguardando que o dinheiro e as soluções caiam do céu.

50 anos do golpe: um encontro de gerações inédito lotou Salão de Atos da UFRGS

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Como é possível que, até hoje, no Brasil, nenhum torturador tenha sido preso? Nenhum! Como é possível que nenhum responsável por essas atrocidades tenha conhecido a justiça? As perguntas feitas por Flavio Koutzii expressaram a mistura de indignação e perplexidade que outros participantes do ato- homenagem “50 anos do Golpe de 1964, 50 anos de impunidade” expressaram na noite de segunda-feira (31), no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que ficou superlotado para ouvir o depoimento de seis pessoas reconhecidas por suas trajetórias de luta contra a ditadura instalada no país após o golpe de 64 e pelas denúncias que fazem até hoje dos crimes cometidos neste período. A presença do público, majoritariamente jovem, surpreendeu os próprios organizadores do ato e, principalmente, os homenageados.

“A presença de vocês aqui hoje é um alento que não vivi em nenhum momento no pós-ditadura”, disse emocionada Suzana Lisboa, manifestando um sentimento que atravessava o ar do Salão de Atos da UFRGS. Foi um evento com uma altíssima carga emocional. E o principal combustível para a emoção foi a realidade. Algo de novo estava acontecendo ali, disseram vários dos participantes do encontro. A começar por Clara Charf, viúva de Carlos Marighella, que se mostrou absolutamente surpresa e encantada pelo que estava presenciando. “Estou admirada e encantada. Há muito tempo que eu não via uma manifestação assim. Se o Marighella estivesse vivo, isso aqui seria um grande presente para ele”, disse Clara, 88 anos, militante desde 1945, sempre com o movimento de mulheres como fez questão de registrar.

O ato-homenagem na UFRGS foi um encontro de gerações que, segundo testemunharam os mais antigos, ainda não havia acontecido na escala em que aconteceu. Um dos principais responsáveis por esse encontro inter-geracional foi o professor Enrique Serra Padrós (História/UFRGS), que trabalha com esse tema há anos e criou o Coletivo pela Educação, Memória e Justiça, que reúne professores, alunos e ativistas da área de direitos humanos. Padrós contou que, quando o Coletivo estava pensando o ato-homenagem, decidiu eleger como público-alvo preferencial estudantes das escolas de Porto Alegre. A partir daí se constituiu uma rede de amigos, companheiros, estudantes, ex-alunos e professores cujo trabalho se materializou segunda-feira à noite nas cerca de duas mil pessoas que lotaram o salão da universidade.

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O encontro teve um significado especial para a universidade também, como afirmou a socióloga Lorena Holzmann, ex-aluna e professora da UFRGS. Ela lembrou o triste período das cassações e expurgos de professores que se seguiu ao golpe de 64. “Com este ato de hoje, a Universidade se redime, de certo modo, do que houve na ditadura. É um ato de redenção”, disse Lorena, também emocionada. Redenção, memória, verdade, justiça, encontro de gerações, vida: essas foram algumas das palavras centrais no ato-homenagem. Uma homenagem que se dirigiu aos participantes convidados e também aos que caíram na ditadura, sendo que cerca de 155 deles seguem desaparecidos até hoje. Um vídeo exibido no início do evento mostrou os seus rostos, em sua maioria, jovens idealistas como aqueles que estavam na plateia encontrando uma história que ainda não conheciam.

As novas gerações ouviram relatos crus e duros sobre o que foi a tortura na ditadura. Relatos como o de Goreti Lousada, filha de Antônio Losada, que sofreu um atropelamento e está na UTI do Hospital de Pronto Socorro. Goreti contou um pouco da história de luta de seu pai, que foi preso em 1973 no governo Médici e ficou quatro meses no DOPS em Porto Alegre sofrendo tortura. Ela leu um trecho de um texto escrito por Losada que descreve a tortura sofrida por uma mulher no DOPS. Essa mulher era a mãe de Goreti que, com a voz engasgada pela emoção, prosseguiu a leitura até o fim sendo muito aplaudida. Ela lembrou, com orgulho, que seu pai, após sair da prisão não seguiu o conselho dado pelos policiais de deixar aquilo tudo para trás. “Ele denunciou seus torturadores, nome por nome”.

João Carlos Bona Garcia homenageou, na pessoa de Enrique Padrós, todos os professores de História que estão trabalhando para resgatar a memória do período da ditadura. Também homenageou a todos os que tombaram pelo caminho, tanto no Brasil como no Exterior, lembrando os nomes de Frei Tito e Maria Auxiliadora. Bona Garcia também falou da tortura da qual foi vítima e deu o nome de seu torturador. “Quem me torturou foi Átila Rohrsetzer, que estava acompanhado de um médico, e nos torturava ouvindo música clássica e falando da mulher e dos filhos. Eles sentiam prazer em fazer isso”, contou. Bona disse ainda que a visão da ditadura segue presente na sociedade. “Em outros países, órgãos de repressão estão reconhecendo crimes que cometeram. Aqui no Brasil ainda não houve nada disso”.

Flavio Koutzii lutou contra ditaduras no Brasil e na Argentina, onde foi preso, e definiu assim a importância do ato do qual estava participando: “O centro de hoje é não esquecer o que aconteceu e entender o que aconteceu, em toda a sua complexidade”. Ele falou de dois resquícios do período ditatorial que seguem vivos hoje: “No Colégio Militar de Porto Alegre, os livros com os quais os alunos trabalham ainda trazem a versão das forças armadas sobre aquele período. Espero que um dia a Presidência da República ponha um fim nisso”. O segundo resquício é o fato de os torturadores não terem sido julgados até hoje. “Como é possível isso? Não se trata de nenhuma fobia anti-militar, mas sim de justiça e memória”. Sobre esse ponto, chamou a atenção ainda para o seguinte fato: “Nunca li uma notícia dizendo que alguém que foi torturado foi atrás de seu algoz depois de sair da prisão e o matou com um tiro na cabeça. Nenhum de nós fez isso, pois seria mais uma vitória deles”.

Na mesma direção, a uruguaia Lilián Celiberti denunciou a impunidade dos crimes cometidos na ditadura brasileira e defendeu a importância da memória para combatê-la. “A impunidade é a perseguição e a destruição da memória. Com todos vocês aqui hoje a memória se torna algo vivo, algo presente. Para derrotar a impunidade, cada um de nós aqui precisa sair daqui e compartilhar essa luta, compartilhar o que está ouvindo e vendo aqui. Neste diálogo inter-geracional podemos construir uma democracia real baseada na memória, na verdade e na justiça”.

Nei Lisboa manifestou algum otimismo com o que estava vendo nas atividades sobre os 50 anos do golpe. “É a primeira vez que vejo isso que está acontecendo agora. Nos atos relativos aos 30 ou 40 anos do golpe nunca conseguimos reunir tanta gente como está aparecendo aqui hoje. E se começou a falar mais claramente sobre o papel da sociedade civil, de empresários, da mídia e dos Estados Unidos no golpe”.

Nilce Azevedo Cardoso, que também foi torturada durante a ditadura, manifestou-se extasiada com o que estava vendo no Salão de Atos da UFRGS. Ela acentuou o caráter midiático-civil e militar do golpe e disse que “toda a sociedade brasileira foi torturada a cada tortura que um de nós sofremos”. Nilce traçou uma linha de conduta entre a impunidade da tortura e a sua prática hoje no Brasil: “Nós ficamos sabendo de torturas e mortes praticamente todos os dias. Nossos jovens estão sendo assassinados e uma das razões disso estar acontecendo é que, durante 21 anos, foi gestada uma sociedade do medo. Foram 21 anos de medo e não-pensar. Temos que desconstruir tudo isso. Temos que denunciar os Pedro Sellig e os Ustra da vida e perguntar onde estão nossos companheiros que foram assassinados, onde estão seus corpos?”.

Fotos: Ramon Moser/UFRGS

(*) Publicado originalmente no Sul21

Descomemoração do golpe de 1964 reúne Flavio Koutzii e Hamilton Pereira

cartazdebateptA bancada do PT na Assembleia Legislativa do RS promoverá no dia 3 de abril um debate sobre o golpe civil-militar de 1964. Participarão do painel intitulado “Descomemoração do golpe civil-militar de 1964”, Flávio Koutzii, ex-deputado e ex-chefe da Casa Civil do Rio Grande do Sul, durante o governo Olívio Dutra, e Hamilton Pereira da Silva, atual Secretário da Cultura de Brasília, fundador e ex-integrante da executiva nacional do PT, ambos exilados pela ditadura de 64. O debate inicia às 19 horas, no Plenarinho da Assembleia gaúcha.

Segundo a organização do evento, Hamilton e Koutzii falarão sobre o quadro estratégico nacional e mundial dos anos 60 do século 20, a geopolítica da guerra fria, a suposta ameaça cubana na América Latina, a situação particular do Brasil dos anos 60, e as Reformas de Base do governo João Goulart. Os dois participaram diretamente da luta contra a ditadura, no Brasil e na Argentina (no caso de Koutzii), foram presos, torturados, exilados; retornaram ao país, e militaram na construção do PT.

Durante o evento também ocorrerá o lançamento da revista Perseu, com uma edição especial sobre 1964, e da reedição dos livros “Combate nas Trevas” (1987), de Jacob Gorender, e “Pau de Arara” (1971), de Bernardo Kucinski e Ítalo Tronca.

Debate de lançamento da revista Democracia Socialista reunirá Raul Pont, Flávio Koutzii e Juarez Guimarães

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Na próxima quinta-feira, dia 20 de fevereiro, ocorrerá um debate de lançamento da primeira edição da revista Democracia Socialista. O encontro reunirá como debatedores Raul Pont, Flávio Koutzii e Juarez Guimarães. A atividade, aberta ao público, iniciará às 19 horas, no Auditório do Sindicato dos Bancários (Rua General Câmara, 424).

Segundo Joaquim Soriano, editor da publicação, a nova revista se inscreve na tradição marxista revolucionária e quer se relacionar “como espaço de diálogo e criação, de teoria e prática, de tradição revolucionária e abertura para os novos desafios do século XXI, de reflexão sobre a experiência nacional e interlocução com as grandes experiências de emancipação em curso, em particular as latino-americanas”. Além disso, quer ser um instrumento útil para a militância partidária e dos movimentos sociais, especialmente para as novas gerações.

A nova publicação da DS, tendência interna do PT, também quer ajudar a construir um campo teórico comum, tendo em vista o 5º Congresso do partido, que será realizado em 2015. O primeiro número traz uma longa entrevista com Emir Sader e tem como temas, entre outros: a Marcha Mundial das Mulheres, as jornadas de junho de 2013, as organizações de esquerda no Brasil nos anos 1970, a Revolução Cidadã no Equador e as origens da stalinização do Partido Comunista Italiano.