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Lembrança de Marco Aurélio Garcia

“Marco Aurélio caiu na luta, empunhando bravamente as suas armas: aquelas da inteligência e dos afetos de seu coração”. (Foto: Agência Brasil)

Flávio Aguiar

O ponta deu uma arrancada veloz em direção à linha de fundo. Conseguiu alcançar a pelota que lhe fora lançada desde a sua intermediária. Dominou-a com maestria e centrou para a área adversária, onde o centro-avante não teve dificuldades para marcar o gol, levando a torcida ao delírio.

Não, você nano está diante de uma cena da Copa do Mundo de 1958. Primeiro, porque o referido ponta não se chamava Garrincha, nem avançava pela direita, mas pela esquerda (claro!). O centro-avante não lembro quem era, mas não se chamava Vavá. Não estávamos em Gotemburgo nem Estocolmo, mas num campinho do sítio onde eu morava, em Itapecerica da Serra. Nem mesmo a pelota fora adiantada num lançamento clássico, mas num chutão pra frente que eu dei de qualquer jeito. E o ponta-esquerda em questão, que deu o pique veloz, chamava-se Marco Aurélio Garcia. É verdade que seu trabalho foi facilitado porque quando ele arrancou a toda velocidade os dois times – o nosso e o adversário – congelaram em campo, e a pequena torcida de amigas e amigos também. Poucas semanas antes Marco Aurélio sobrevivera a um infarto. Quando nada mais aconteceu, a não ser o gol, o grito da torcida não foi propriamente de delírio, mas de alívio. Mas depois deste suspense todo, Marco Aurélio partiu para o mais que merecido abraço, sorridente e feliz.

Esta é a lembrança mais constante que tenho dele: sorridente e feliz, engraçado e irônico, profundo e grave nos momentos necessários, mas sempre pronto para um pique veloz na direção da alegria e do bom humor.

Marco Aurélio foi dos militantes e intelectuais de maior brilho da geração porto-alegrense que cresceu dentro da universidade, da resistência ao regime de 64 dentro e além do movimento estudantil. Enumerar os destaques desta geração seria longo demais. Por isto, me restrinjo a evocar um certo grupo deles, associados, naquela época, à chamada “Dissidência” do Partidão, que, depois, em conjunto com a POLOP e outros grupos deu origem ao Partido Operário Comunista, o POC. Tratava-se, além de Marco Aurélio, para lembrar este grupo mais restrito a que me refiro, e algumas e alguns simpatizantes, de Flávio Koutzii, Elizabeth Souza Lobo, Marcos Faerman (o Marcão), Luiz Paulo Pilla Vares, Sônia Pilla, Raul Pont. Havia outras e outros, mais jovens, como Maria Regina Pilla, Jorge Matoso, Elizabeth Vargas, José Kenijer, além de outros e outras que não cito porque faz tempo que não os ou as vejo e não sei se gostariam de ser citados. Eram vagamente e de modo um tanto inapropriado citados como trotskista.

Circulavam e eram associados a um triângulo formado pelo Centro Acadêmico André da Rocha, no porão da Faculdade de Direito, o Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt, da Faculdade de Filosofia, nas lindes do Parque Farroupilha, e a Livraria Universitária, do Flávio Koutizii, na Avenida João Pessoa. Todos os três marcos ficavam a uma distância uns dos outros que podia ser percorrida a pé. Havia outros pontos de referência, mas aqueles eram os mais notórios.

Depois vieram os tempos duros das ações clandestinas, das perseguições, das fugas, das prisões, dos exílios. No começo dos anos 70 Marco Aurélio, assim como outros militantes, foi primeiro para São Paulo (era impossível permanecer para figuras muito conhecidas permanecerem clandestinas num burgo ainda relativamente pequeno como a Porto Alegre de então). Dali seguiu para o Uruguai, de onde atingiu o Chile, militando no MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionária). Depois do golpe de 11 de setembro de 1973 seguiu para a França, onde ficou até 1979. Ainda no Chile ele e sua companheira Elizabeth Souza Lobo tiveram um filho, a quem deram o nome de Leon – o que aumentou sua fama de trotskista e, por tabela, a dos demais membros daquele grupo. Hoje Leon de Souza Lobo Garcia é médico psiquiatra de renome em São Paulo e no Brasil, professor universitário com especialidade em políticas de saúde pública, saúde mental e de drogas.

Voltando ao Brasil, Marco Aurélio, foi um dos fundadores do PT e tornou-se professor de História na UNICAMP. No Partido especializou-se em Relações Internacionais, além de desempenhar outras funções, como, por exemplo, a de coordenar campanhas presidenciais de Lula e de Dilma. Outras companheiras e companheiros poderão avaliar melhor do que eu a importância de sua atuação partidária e  extraordinário intelectual de esquerda.

Limito-me aqui a lembrar sua atuação decisiva, ao lado de outros companheiros de governo, naquilo que hoje se pode chamar de “a recente época de ouro da diplomacia e da política externa do Brasil”, hoje reduzida a frangalhos pelo arrendamento do Itamaraty ao PSDB e à visão anacrônica, retardatária, paroquial, provinciana e obtusa, herdeira da Guerra Fria e da subserviência aos interesses norte-americanos. Marco Aurélio foi fundamental para alargar nossos horizontes em direção à África, às relações Sul-Sul de um modo geral, à América Latina, à liderança dos países emergentes, ao grupo dos BRICS, entre outros feitos, sem desprezar nem abalar relações com outros parceiros, como os EUA, a União Europeia, o Japão, etc.

Esta contribuição será imorredoura, por mais que os atuais governantes e interventores no Itamaraty queiram torcer-lhe o pescoço.

Marco Aurélio era um cozinheiro excelente. Devo a ele o conhecimento de uma de minhas receitas favoritas: salada de rúcula (outros verdes também são possíveis) com manga e frango grelhado e desfiado, regada a azeite de oliva a Balsâmico de Módena.

Chegamos a militar juntos no Jornal Em Tempo, fundado por parte dos egressos do grande racha do Jornal Movimento em 1977. Depois seguimos nos vendo com constância espaçada, mas regular. A última vez em que o vi ao vivo e a cores, e conversei com ele, foi quando da vinda de Lula e Dilma a Hamburgo, ainda quando esta era candidata a candidata à presidência.

Todas aquelas e aqueles porto-alegrenses que eu nomeei acima, e outras e outras, fomos criados no ambiente daqueles “roaring sixties”, em que líamos misturadamente Marx, Engels, Trotsky, Deutscher, Marcuse, Freud, Benjamin, Adorno, Debray, tudo batido no liquidificador daqueles anos vertiginosos e dramáticos, em que as ações militantes se misturavam aos bailes no salão da Reitoria da Universidade Federal, os ensaios de cozinha sofisticada com as madrugadas comendo cachorro quente na banca do “Passaporte para o Inferno”, na Avenida Osvaldo Aranha, e com noitadas no “Bar do Fedor”, na mesma avenida, que não fechava nunca, porque não tinha portas. Debatíamos acaloradamente a adesão ou não à luta armada.

Agora, nesta segunda leva de infarto, Marco Aurélio caiu na luta, empunhando bravamente as suas armas: aquelas da inteligência e dos afetos de seu coração, sempre aberto às causas de nosso povo, e uma adesão ardente à conjugação de uma visão internacionalista e plural das esquerdas com o ideal de um Brasil soberano, nada agressivo e mais justo consigo mesmo e seus vizinhos.

Mais uma da Folha (Falha) de S. Paulo

(Reprodução: Falha de São Paulo)

Por Flávio Aguiar

Em sua coluna, o jornalista Jânio de Freitas escreveu: “É mais fácil encontrar fora dos autos e da sentença os motivos da condenação de Lula do que acha-los ali, convincentes e provados, como pedem as condenações e a ideia de justiça”.

Entretanto, a chamada da capa para a coluna do jornalista diz (versão lida na página da internet às 04:20, hora de Brasília, de 13.07.2017):

“Jânio de Freitas – É mais fácil encontrar motivo da condenação de Lula nos autos”.

Durma-se com uma Folha (Falha) destas!

A crise brasileira e a depressão da inteligência

Além do aumento do desemprego, denúncias contra o presidente e retiradas de direito, golpe de 2016 fez com que a população entrasse em estado de desânimo e desesperança. (Foto: Erviton Quartieri)

Flávio Aguiar (*)

De repente se espalhou o vírus – dentro e fora do Brasil, em parte da mídia internacional e até em comentários de articulistas de esquerda – que nega a existência de um “povo” em nosso país. Ou que “o povo” está completamente apático e anestesiado diante da crise. Cheguei a ler um comentário afirmando que a greve geral do dia 30 de junho não aconteceu de fato, porque “greve que não ocupa a Esplanada dos Ministérios ou a frente do palácio presidencial, não é greve”. Outro comentarista internacional argumentava que a greve do dia 30 protestava contra as reformas trabalhista e da previdência, mas não contra o governo. Ainda outro perguntava por que as multidões que protestaram contra Dilma não estavam protestando nas ruas contra Temer. E mais outro  afirmava que a greve seria articulada apenas “pelos sindicatos”, sem “povo”.

Penso que a situação é muito mais complexa do que essas visões simplificadas querem fazer crer.

Há protestos, sim, continuados e massivos, em todas as grandes cidades brasileiras. Há também uma repressão brutal, como a que se fez contra a marcha sobre Brasília. Na greve do último dia 30 houve repressão generalizada por toda parte. A própria cobertura internacional atestou isto. Pode-se ver, por exemplo, a excelente e ampla cobertura feita pelo site RT.com (Russia Today). Há ainda o forte elemento depressivo provocado pela falta de emprego e pela própria recessão econômica que abatem o país.

É verdade que a parcela embasbacada e ressentida da classe média que saiu às ruas contra o governo petista a partir da virada à direita das manifestações de 2013 está mais perplexa do que apática. Pude vivenciar (sem dados de pesquisa científica) o sentimento ou impressão de que esta parcela da classe média hoje se divide em diferentes “facções”.

A primeira fatia, pouco numerosa, mas ativa em redes sociais, se aferra à ideia de que “no tempo da ditadura era tudo melhor” e vai votar, provavelmente, em Bolsonaro. Tal camada – ou crosta – pode muito bem apoiar uma solução do tipo “suspender até mesmo as eleições de 2018”.

Uma segunda fatia, mais ampla, está com o rabo no meio das pernas, se sentindo lograda e “traída” pelas circunstâncias. Não queriam Dilma, não engolem Temer, mas não querem dar o braço a torcer. Preferem reduzir suas panelas e matracas a um “silêncio obsequioso”.

Ainda uma terceira fatia, mais numerosa, sai pela tangente do “é tudo igual”, “os políticos são todos farinha do mesmo saco”. Esse grupo viu em Doria e seu marketing de “gestor não político” uma solução fácil, mas vai se desiludindo com a camaçada de erros desencontrados que o novo prefeito vai cometendo. Daqui pode sair uma guinada que favoreça algum juiz ou procurador açodado que queira se candidatar a algo.

Finalmente, uma quarta camada, ainda incipiente, mas crescente, sacou o erro cometido e agora remói um sentimento amargo em relação ao ciclo petista: “Eu era feliz e não sabia”. As três últimas parcelas acima enumeradas curtem brava ressaca. E ressaca não convida a grandes movimentos. Esse sentimento do “eu era feliz e não sabia” anima também uma grande parte do eleitorado mais à esquerda.

Essa parcela da população viu-se durante muito tempo ofuscada pela campanha do “todo petista é ladrão e todo ladrão é petista”. Essa ofuscação passou, mantida que era pelo jornalismo provinciano e reacionário que segue igual, mas teve de mudar o refrão diante da completa derrocada do governo que sobreveio do golpe jurídico, parlamentar e midiático construído a partir de 2013, ampliado em 2014 e 2015, e desferido em 2016.

O sentimento do “eu era feliz e não sabia”, cada vez mais amplo, predomina nesse segmento, que se amplia sensivelmente, como atesta recente pesquisa do Datafolha que conclui pela “leve ida para a esquerda” do eleitorado potencial no Brasil. Ainda assim, não se deve menosprezar o sentimento de desilusão que atingiu muito militante de esquerda ao deparar com a ideia de que políticos petistas se enrolaram em práticas que antes condenavam em outros partidos.

Mas no lado esquerdo do cenário brasileiro também existem divisões. Uma parte quer Dilma de volta pela anulação do impeachment. Outra, mais numerosa, quer Lula de volta. Ainda nesse bolo há os que querem Lula de volta por ser ele a liderança inconteste que é e também há aqueles que o querem de volta por não verem outra solução.

Entretanto, há uma parcela grande desse lado esquerdo – muito da juventude mais jovem está aí – que não engoliu o impeachment, que aceita uma eventual volta de Lula, mas que no fundo está à espera de alguma nova construção à esquerda. Não se deve esquecer tampouco que a população que passou a amadurecer por volta de 1988 (ano da nova Constituição, que a direita sempre combateu e que é, no fundo, o alvo do golpe de 2016) e que hoje está abaixo dos 45 anos de idade só teve, até então, ganhos em matéria de direitos. Agora estão vendo de perto, pela primeira vez, o que é “perder direitos”. Não raramente o primeiro sentimento que isso provoca é de frustração, desencanto, medo e descrença, em vez de revolta e rebeldia.

Ou seja, em muitos casos há mais perplexidade do que apatia; em outros, mais hesitação do que alienação; em outros, mais confusão do que abulia. E o que há também é enorme complexidade desse “trem” chamado Brasil. Sem falar que há, com certeza, mais à direita, os que pensam que agora sim o país entrou “nos trilhos”; e outros, bem mais à esquerda, que continuam pensando que tudo, durante os governos petistas, não passou de uma “ilusão” ou “desilusão”, que não houve melhora de fato nas condições de vida da ampla maioria da população. Esses últimos são minoria, é verdade, mas nem por isto menos barulhentos.

Não surpreende, diante dessa complexidade de um país de mais de 200 milhões de habitantes, do tamanho de meio continente, e diante do labirinto em que a armação do golpe de 2016 o enfiou, que a inteligência sinta-se comprimida pelo desânimo e deprima, tomada de assalto pela desesperança, pelo desalento e pelo ressentimento diante do “povo” que não é “povo” e sua “apatia”.

Para muitos comentaristas internacionais, esse país de 5.570 municípios e 27 unidades federativas guarda ainda a imagem de um condomínio unitário e administrado em bloco por um síndico e alguns zeladores sediados em Brasília, Rio e São Paulo. Esses observadores ainda têm dificuldade em reconhecer, por exemplo, as injunções geopolíticas que também cercam e condicionam a política interna brasileira. Para tais visões simplistas, é fácil falar em “primavera árabe” ou em “revoluções florais ou coloridas” nos países do antigo Leste Europeu. O mundo – e nele o Brasil não é exceção – é muito mais complexo do que isto. Por isto mesmo – e o Brasil também não é exceção – deve ser um convite ao exercício da inteligência no lugar de sua depressão

(*) Publicado originalmente no Blogue Velho Mundo, da Rede Brasil Atual.

O sacramento da confissão hoje em dia

“A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame se sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior”.

Flavio Aguiar

Quando eu estudava no Colégio Anchieta de Porto Alegre, escola jesuíta de calado profundo (e naquele tempo os jesuítas gaúchos eram profundamente reacionários, na maioria), eu era católico ferrenho, ainda que não carola. Praticava religiosamente os sacramentos cabíveis. As exceções eram o batismo, só de entrada neste vale de lágrimas, a extrema-unção – vôte cobra tutufum treis veiz – o casamento – tutufum seis veiz – a crisma, que a gente faz uma vez só também – e a ordenação sacerdotal, com aqueles votos de caridade, obediência (argh!) e castidade (AAARRGH!). Ou seja, eu praticava a confissão e a posterior comunhão.

A comunhão era complicada. Parecia entrada em hospital para exame de sangue. A gente tinha de jejuar desde a noite anterior. De manhã, tomar só água, pra evitar desmaios vergonhosos, no nosso caso de machinhos que consideravam essas coisas dignas de mulher, apenas. Nem pasta de dente a gente podia engolir: vai que o hálito perfumado, que só Colgate ou Kolynos lhe davam, espantasse o Senhor! Depois, lá na missa, ajoelhados na frente do altar, o sacerdote, com o coroinha colocando uma bandeja no nosso queixo (vá que a gente babasse o Senhor!), o padre colocava a hóstia – um pãozinho branquela e ázimo, sem fermento, o Senhor não podia inchar nem no forno,  e sem gosto – na boca, e a gente não podia tocar Aquilo com os dentes. O diabo é que às vezes o raio da hóstia grudava no céu da boca e dava uma coceira danada, mas a gente não podia nem sonhar em tirá-la com a unha, ai deus e o diabo não na terra do sol, mas na tua boca! Tinha que fazer contorcionismo de circo, digno de dança do ventre, com a língua mesmo, até que Aquilo descolasse e seguisse o rumo natural das entranhas agora abençoadas.

Fui algumas vezes tomado por dúvidas teológicas cruciais. Por exemplo, a gente expeliria os restos da hóstia junto com as outras coisas que a gente engole, pelas vias naturais? Oh, dúvida cruel! Só me acalmei ao considerar que o espírito que estava dentro da hóstia se transmitia para outras partes de nosso corpo, como o pulmão e o coração, ou o cérebro, e o que ia para o intestino era apenas o resto mortal e ázimo da hóstia. Embora não houvesse nela, o fermento se fazia presente em fomentar dentro de nós a presença da fé. Ai caramba, quantas noites tais questões me atormentaram!

Antes, havia a confissão. A gente se achegava ao confessionário, se ajoelhava, com a treliça de madeirinha escondendo nosso rostos (o meu e o do confessor) e dizia:

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.
– Deus te abençoe, meu filho, que buscas o perdão de teus pecados.

Daí a gente enfileirava os pecados. Fiz isto, fiz aquilo, deixei de fazer aqulioutro, etc. Momento mais complicado era sempre o dos pecados contra a castidade. Vinham as perguntas:

– Meu filho, foi em obra ou pensamento?

Ambas as respostas eram bronca. Mas o mais difícil era quando a gente respondia “obra”.

– Foi sozinho ou com alguém mais?

Barbaridade, aí doía. O “sozinho” era chato, mas revelava apenas o que hoje chamo de seguidor de Onan, este seguidor apequenado de Ouranos, o deus grego que fecundava Gaia sem parar, e que jaz em todos nós. Agora, o “alguém mais” implicava a confissão da natureza do ato. E era inevitável que a gente, além de falar das vergonhosas vergonhas, fosse pela frente, por trás ou por todos os lados, se sentisse uma espécie de dedo-duro perante Deus, pois mesmo que nomes não fossem pronunciados, Ele, como está em toda a parte, adivinharia de quem se tratava. Só me acalmei diante desta excruciante questão quando considerei, Supra Sumo Teológico, que, se Deus estava em toda parte, Ele tinha visto o próprio pecado no ato, e assim já sabia do que e de quem se tratava.

Depois da completar a lista de pecados, vinham os conselhos do confessor, a promessa (que ambos sabíamos ser mentirosa, mais um pecado para a próxima confissão) de que nos esforçaríamos para não fazer mais aquilo, nem aquiloutro, nem aquiloloutro, etc. E a confissão terminava com a penitência – xis ave-marias, ipsilones padres-nossos, pois naquele tempo não havia o pós-moderno pai-nosso, e zês salve-rainhas).

– Ego te absolvo in nomine Domini. (Ou algo assim, meu latim nunca foi muito bom). Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

– Para sempre seja louvado!

E a gente saía com a alma mais alva e zerada que lençol lavado com Rinso e pronta para acolher mais pecados.

Fico pensando na confissão hoje em dia, tão avacalhada! o confessor e o pecador se assentam frente a frente, olho no olho, como se fosse consultório de psicanalista laico. Mas e se a gente pegasse algum daqueles padres reacionários como os de então?

– Padre, dai-me a bênção porque pequei.

– Confessa, meu filho, e pede perdão pelos teus pecados.

– Aí a gente desfilaria os pecados.

– Depois viria a pergunta.

– Meu filho, foi sozinho ou com o Lula?

– Sozinho. Ou com outras pessoas.

– Então, seu pecador miserável, tua confissão não vale nada, vais arder pela eternidade nas profundas de Curitiba!

– Não, não, padre, perdoai-me, foi com o Lula. E no triplex dele no Guarujá. Ou no sítio em Atibaia.

– Ah bom. Então reza aí meia Ave-Maria, assina o Globo, assiste o Jornal Nacional, e fim de papo. Estás perdoado.

– Obrigado, padre.

– Ah sim, e assina o manifesto em favor da Lava Jato e da Opus Dei.

– Mas padre, aquele procurador famoso, o do power-point, ele não é da Opus Dei. Ele é evangélico.

– Meu filho, o condomínio do Senhor tem várias filiais, como uma franchise, entendeu? Louvado seja o Nosso Sacrossanto Juiz, que há de julgar os mortos e o Lula, porque os vivos e os vivarachos serão perdoados.

– Para sempre seja louvado!

E a gente sai com a alma pronta. Para o quê? Bom, isto é outro assunto.

Mas felizmente agora está aí o Papa Francisco I para assegurar que isto não passa de ficção científica. Pelo menos em relação à Igreja Católica.

O primeiro ebook a gente nunca esquece

 Flávio Aguiar

Acaba de sair na praça virtual meu primeiro ebook: trata-se de um romance policial, “O legado de Capitu”. Sinto-me assim como se tivesse atravessado o Rubicão, tanto pelo novo formato (para mim) da edição, quanto por ter passado a fronteira de um novo (também para mim) gênero.
Considero a história policial (romance, conto, dramaturgia) como a alma mater da narrativa moderna, isto é, pós-Poe. Claro que para mim a noção de “história policial” é muito vasta. Eu englobaria nela, por exemplo, pelo menos em parte, “O Conde de Monte Cristo”, de Dumas Pai, e “Os miseráveis”, de Victor Hugo.

Quem me ensinou a ver este gênero de maneira tão ampla e diversificada foi o saudoso professor Rui Coelho, da FFLCH/USP. Quando eu era estudante de pós-graduação assisti um curso seu de Sociologia da Literatura. Formalmente, o tema do curso era o romance “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa (que também tem um toque daquele gênero, pois trata-se da narrativa da vingança de um crime e do cometimento de outro…). Mas até hoje não sei muito bem sobre o quê, exatamente, foi o curso. Sé me lembro que ele foi maravilhoso. Porque o professor Rui Coelho, grande amante e conhecedor de histórias policiais no sentido mais estrito da expressão, nos encantava com sua excepcional erudição, navegando por entre os meandros da literatura e dos liames dos diversos gêneros e suas mesclas, estabelecendo ligações surpreendentes (hoje diríamos links…) e inesperadas, sempre com grande astúcia e pertinência. Praticava ele o que mais tarde vim a saber, através do também brilhante professor Northrop Frye, no Canadá, ser o que este considerava o ápice da maturidade de um docente: a capacidade de realizar a “improvisação erudita” sobre os temas que tratar. Isto nada tem a ver com despreparo ou picaretagem. Pelo contrário: é mais ou menos realizar na sala de aula aquilo que um jazzista faz no espetáculo musical.

Quando eu desfrutei das aulas do professor Rui, já tinha uma bagagem considerável de leitura de histórias policiais stricto sensu. Já devorara todo o Sherlock Holmes. Fora (e ainda era e ainda sou) leitor e releitor assíduo da coleção do Mistério Magazine de Ellery Queen, publicação da Editora Globo, onde pontificava, dentre outros, Nero Wolfe. Já lera muito de Agatha Christie, acompanhando Hercule Poirot, Miss Marple e de sua peça “A ratoeira”. Simenon e Maigret me eram familiares. Entrara nos múltiplos segredos da Coleção Amarela, onde brilhava a estrela de Edgar Wallace. Era leitor contumaz da revista Detetive e dos quadrinhos da X-9, além de frequentador de filmes (“Testemunha de acusação”, “A marca da maldade”) e inúmeras séries de televisão, como a de Perry Mason e sua secretária Della Street. Sem falar em séries radiofônicas e quadrinhos nacionais, como “O Anjo”, respectivamente de Álvaro Aguiar e Flávio Colin). E Poe eu já mencionei.

Mas foram as aulas do professor (além de leituras como a do ensaio “Monte Cristo ou da vingança”, de mestre Antonio Candido) que começaram a me abrir os olhos para o íntimo parentesco que havia entre a ascensão do capitalismo vertiginosamente industrializado e urbanizante, mesmo nas suas periferias, e um certo tipo de crime e a tentativa (frustrada ou bem sucedida) de sua elucidação. Apoiado na ideia de indivíduo e de individualismo, este capitalismo nascente afogou-a, em grande parte, na vertente da massificação da vida que trouxe consigo, cujo retrato precoce e eloquente é “O homem da multidão”, de Poe. E também pode levar ao destino de Raskolnikoff em “Crime e castigo” ou ao suicídio de Anna Kariênina debaixo das rodas de um trem. Por isto nesta sociedade capitalista o crime misterioso, que pede sua elucidação nem sempre possível, é inevitável. Mas as revelações não ficaram nisto.

Vieram as leituras de Baudelaire escrevendo sobre Poe e o ilustrador Guy, por exemplo, e a revelação das revelações: ler ou ver “Édipo Rei”, de Sófocles, como uma história policial fantástica, em que o detetive é o criminoso, em que todo mundo na plateia já sabe da história toda e assim mesmo a segue com sofreguidão. E veio Macbeth… e muito e muito mais.
Entretanto, escrevendo histórias desde os tempos de criança, sempre me detive respeitosa e timoratamente no portal das de crime e elucidação. Na adolescência fiz algumas tentativas, mas saíram tão canhestras e desajeitadas que queimei-as e desisti. Segui lendo o gênero, como um apaixonado secreto e com avidez crescente, sobretudo depois que me aposentei na universidade e pude relaxar (no sentido positivo…) nas leituras, sem a obrigação de adequar grande parte delas a cursos, seminários, teses, orientações, projetos, relatórios…

Talvez por isto minha companheira Zinka Ziebell, dos anos mais recentes e berlinenses, começou a perguntar por que eu não escrevia alguma destas histórias. Tanto bateu na tecla que eu ouvi a melodia por trás dela e decidi enfrentar o desafio, saindo-me esta, “O legado de Capitu”. uma história em que a consideração de como se pode interpretar esta expressão sobre a personagem de Machado é o fio da meada da investigação, que tem vários meandros a perscrutar, no presente, no passado, e muita interrogação sobre o futuro – do nosso país e do mundo em que vivemos, povoados por tantos crimes que fazem o mencionado “O homem da multidão”, de Poe, parecer um ensaio de laboratório (o que não compromete sua qualidade seminal).

O detetive da história é um pacato e algo rotineiro professor aposentado, brasileiro, que atualmente vive em Berlim, e que recebe o pedido de um ex-policial, também aposentado, para que o ajude a elucidar o desaparecimento de um jornalista que deixou uma mensagem falando deste “legado” da Maria Capitolina, aliás, Capitu. O professor – cuja vida a partir daí vai passar por trepidações inusitadas – se chama Edmundo Wolf. O parentesco dele com meu sobrenome materno é proposital, bem como seu primeiro nome, cujos sentidos se elucidarão ao longo da narrativa. Mas o romance e o personagem nada têm de autobiográficos, a não ser por um detalhe da natureza de um negativo fotográfico (uma expressão e um artefato em vias de desaparecimento neste século XXI densamente digitalizado).

O referido professor (ele, não eu) se exilara em Berlim Ocidental durante boa parte da ditadura civil-militar decorrente do golpe de 1964. Agora (no presente da narração e da narrativa, situada livremente um pouco antes do novo golpe, desta vez parlamentar, midiático, jurídico e policial), ele vive novamente na capital alemã, buscando, como o narrador Bentinho de “Dom Casmurro”, reconstruir os símbolos do seu passado de jovem no presente do envelhecimento. Tal não é a minha história. Acontece que em determinado momento (que já narrei em outras ocasiões) daquela ditadura, me vi na circunstância de ter de optar entre ficar no Brasil ou sair dele. Decidi ficar. Mas sempre me perguntei o que seria de minha vida se eu tivesse feito a outra opção, a de seguir o caminho do exílio. De certo modo, a criação deste personagem é uma resposta inteiramente hipotética e fantasiosa a esta pergunta que, se não é angustiante, não deixa de ser interessante. O que, se não é uma solução, pelo menos é uma rima.

Nas lides posteriores à escrita e revisão da narrativa (no que tive a valiosa colaboração crítica da Zinka, da Maria Rita Kehl, do Paulo Neves da Silva, da Thaisa Burani e da Ivana Jinkings), graças a cooperação desta, da Boitempo, e do Tiago Ferro, da e-galáxia, nasceu a hipótese oportuna e sedutora da publicação em ebook. Aceitei-a, entre fascinado e ao mesmo tempo temeroso, pois, afinal, do alto do meu metro e oitenta e três de altura setenta anos me contemplam.

Enfim, para encurtar esta já alongada crônica, eis-me agora com o novo rebento lançado ao mar da virtualidade. É um livro, até mesmo segundo definição exarada não faz muito pelo STF, depois de 15 anos de andanças jurídicas, mas não há como pegá-lo, nem sopesá-lo, muito menos cheirá-lo. Não digo isto em seu detrimento, muito pelo contrário. Sinto-me algo rejuvenescido, uma pessoa do século XX subitamente transportada de vez para o XXI. Que a sorte nos bafeje, a mim e ao meu xará virtual.

Como se dizia desde muito tempo atrás, “alea jacta est”.

Manifesto em favor do arco-íris

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Flávio Aguiar

5 de outubro de 2016: o governo anuncia que quer tirar o Brasil do vermelho.

Não é bem assim. Porque este governo está transformando o Brasil num cheque sem fundo para os brasileiros, mas especial e sem limite para as multinacionais, as petroleiras, as financeiras.

Na verdade o que o governo quer é expulsar o vermelho do Brasil.

Não vai dar certo.

Pra começo de conversa, o governo teria de aprovar uma PEC reformando o arco-íris.

Ou proibindo de vez que o arco-íris apareça no Brasil. Mas aí ele teria de proibir também o nascente e o poente. E o planeta Marte.

O vermelho está em toda parte.

Está na camiseta do Internacional, do América, do Bangu, do Flamengo, do Remo, do São Paulo e de muitos outros times brasileiros. Não que os outros times não tenham direito a outras cores. Claro que têm. Porque o Brasil ainda é, apesar do novo governo, o Brasil de todas as cores. O Brasil do arco-íris, até do ultra-violeta e do infra-vermelho, do branco e do negro, tudo misturado.

O vermelho está em doze das bandeiras dos estados brasileiros. Até na do estado de São Paulo! E a do Espírito Santo tem uma faixa cor-de-rosa.

E ele está também nas bandeiras de inúmeros países: Portugal, França, Itália, Albânia, Croácia, Montenegro, Dinamarca, Noruega, Equador, Bolívia, México, Japão, Egito, Angola, África do Sul, Nova Zelândia… apenas para citar alguns. Até na bandeira dos Estados Unidos o vermelho aparece!

O vermelho está no rabanete e no tomate, e portanto está no molho bolonhesa e na pizza. Está em algumas das pimentas. Na fruta do café, na maçã, na romã, no morango, na framboesa, na rosa e no cravo, no hibisco e no gerânio, etc., etc., etc…

O vermelho está na alma do churrasco…

O Brasil é vermelho. Querer tirar o vermelho do Brasil é querer tirar o Brasil do Brasil. Porque a palavra Brasil tem a mesma raiz de brasa, braseiro, brasear, esbraseado… Querer tirar o vermelho do Brasil é querer reduzir o Brasil a cinzas.

O vermelho está nas meias e nos paramentos dos cardeais. E também subiu à cabeça dos cardeais – os pássaros. E está na crista dos galos e das galinhas.

O vermelho é a cor exclusiva das esquerdas? Ora, ora, nos Estados Unidos os republicanos, que são normalmente mais reacionários do que os democratas, se identificam pela cor vermelha, e os democratas, que normalmente são menos reacionários do que os republicanos, pela cor azul.

O vermelho une a humanidade. Porque é a cor do sangue dos africanos, dos europeus, dos americanos, dos asiáticos, dos oceânicos, dos moradores do Ártico e dos visitantes da Antártida e também dos que moram na linha do Equador. É a cor do sangue de homens e mulheres, de crianças e idosos, de LGBTs e heterossexuais… Como se vê, o vermelho não tem preconceitos.
Se os glóbulos vermelhos parassem de se reproduzir, os seres humanos morreriam sufocados.

Acho que o governo se empolgou com sua foto, a inaugural. Aquele bando de homens de terno preto mas de alma apenas branca.

E agora está querendo tapar o Brasil arco-íris com a sua peneira.

Porque não dá para proibir apenas o vermelho.

Tem que destruir o arco-íris.

Por isto, defendamos o arco-íris. O nosso Brasil arco-íris e de tudo quanto é cor. E fica declarado que daqui por diante o 5 de outubro será o dia do arco-íris.

O Hall da Infâmia

"Vai ser impossível designar aqui todos os candidatos a terem seus nomes e fotos, em posições infames, inscritos neste Hall da Infâmia". (Foto: Beto Barata/PR)

“Vai ser impossível designar aqui todos os candidatos a terem seus nomes e fotos, em posições infames, inscritos neste Hall da Infâmia”. (Foto: Beto Barata/PR)

Flavio Aguiar

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!

Auriverde pendão da minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança!
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as divinas promessas da esperança!
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteada dos heróis à lança,
Antes de houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!

Castro Alves, o Navio Negreiro.

Em Brasília há um panteão dos heróis nacionais. Lá estão gravados os nomes de Zumbi, Sepé Tiaraju, Tiradentes, Anita Garibaldi, dentre outros. Não duvido de que um dia os nomes de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff lá estarão.

Mas seria bom, a partir deste 31 de agosto de 2016, quando se consumou o golpe de estado que derrubou a presidenta Dilma Rousseff, que se erigisse ao lado um… bem, na um panteão, mas sim um Hall da Infâmia, já que todos e todas que perpetraram este golpe são americanófilos e, portanto, este nome lhes cai melhor.

O patrono deste Hall é Joaquim Silvério dos Reis, na boa companhia de Carlos Lacerda, Café Filho, Rainieri Mazzili e Auro de Moura Andrade, além de todos os signatários do Ato Institucional no. 5, Carlos Alberto Brilhante Ustra, só para começar.

Bem, vai ser impossível designar aqui todos os candidatos a terem seus nomes e fotos, em posições infames, inscritos neste Hall da Infâmia. Além disto, cuidado! Não basta ter praticado algum ato infame para adentrar este valhacouto ou covil. É necessário haver um devido processo, que prove o requinte da infâmia. A seguir, portanto, tratarei apenas de alguns dos infames declarados, e de alguns outros que são bons candidatos a terem seu nome perpetuado neste Hall.

Para começar, descartemos os infames de segunda categoria. Por exemplo: a caterva de promotores menores, policiais federais, juízes e juízas de nenhuma relevância, que ajudam o golpe, com milhares de coxinhas idiotas que foram às ruas achando que estavam lutando para acabar com a corrupção, ou mesmo de má fé, defendendo a volta da ditadura, por exemplo. Estes e estas serviriam no máximo para serem incluídos no tapete de entrada do Hall, pisados e repisados pelos pés dos visitantes que, na entrada, passariam por um portal da lama para carregá-la adentro, enlameando os nomes ali eternizados.

Também eliminemos os concorrentes à Comenda Pôncio Pilatos, como os ministros e ministras do Supremo Tribunal Federal que sistematicamente se negaram a se pronunciar – pelo menos até agora – sobre o mérito de um processo injusto, vazio e iníquo, no estilo daquele que condenou Joana d’Arc à fogueira. Seu destino seria terem seus nomes e fotos eternizados em placas de metal que ficariam gravitando em torno do Hall, nele impedidos de entrar, assim como os omissos, no Inferno de Dante, correm sem parar junto à sua porta perseguidos por enxames de vespas, moscas, mosquitos, pernilongos que se saciam na sua carne apodrecente.

Não, no Hall da Infâmia entrarão apenas os eleitos, o supra-sumo da malfeitoria.

Para começar, lá estarão, desprovidos de dedos, palmas e punhos, com os braços interligados, apodrecendo juntos por toda a eternidade, Cunha, Temer e Renan Calheiros. No seu centro, com os olhos na nuca, pois só pode ver o passado, estará Meirelles, este exterminador do futuro, da infância e da juventude de nosso país, com seu plano nefasto e nefando de impedir investimentos em educação e saúde, e outras áreas sociais. Logo a seguir virá o chanceler José Shell (antes conhecido como Serra Chevron), com uma peculiaridade: ao invés de mãos terá cascos de cavalo e em lugar dos pés, patas de rinoceronte. Ao abrir a boca, só sairão dela bombas de fragmentação, ferindo seus companheiros de Hall, ungido pela destruição não apenas da política externa independente e altiva de seus antecessores imediatos, mas também da laboriosa tradição construída desde Alexandre de Gusmão e os dois Rio Branco, o Visconde e o Barão.

Na ala da idiotice contumaz estará reinando o senador Aécio Neves, por declarar que com o golpe perpetrado a Brasil redescobriu a democracia e recuperou o respeito internacional, quando é exatamente o contrário que se dá. Terá os olhos e os ouvidos permanentemente tapados, pois assim agiu neste e em outros momentos.

Já na ala da hipocrisia e mentira se encontrarão os diretores e arautos da mídia conservadora, Estadão, Globo, Veja, Folha de S. Paulo, Zero Hora, Isto É e outros e outras, tendo suas línguas distendidas permanentemente esfregadas com sabão de sebo cru.

Ao lado deles, o juiz Gilmar Mendes terá as pálpebras permanentemente abertas, sem nunca poder fechá-las, condenado, como diz São Tomás de Aquino, a um choro sem lágrimas e a um soluçar silencioso. Ao tentar gritar, nenhum som sairá de sua boca, somente um hálito fétido que empestará a respiração dos demais eleitos do Hall.

Haverá muito mais neste Hall da Infâmia. Convido leitoras e leitores a soltar a imaginação.

Mas há ainda os candidatos que deverão passar pelo crivo de serem examinados em processo.

Por exemplo, cito alguns casos. Primeiro, o juiz Sérgio Moro. Sabe-se que se ele atuasse nos Estados Unidos, país que tanto ama, e fizesse o que vem fazendo, já teria perdido o cargo. É um caso a ser estudado. Trata-se de paranoia ou mistificação? Com a palavra os psicanalistas e juristas do futuro. Idem, o caso da trinca Janaína Paschoal, Reale Júnior e Helio Bicudo. Afinal, a primeira se vendeu por quarenta e cinco mil dinheiros. É muito pouco. E os demais? Ganharam mais, menos, ou apenas cederam perante a vaidade e a glória? O mesmo se pode dizer de agentes de segunda mão, como Cristovam, Marta, Romário, Anastasia… Seriam farsantes apenas?

Outro a ser estudado é o general Etchegoyen. Estará à altura dos seus antepassados conspiradores e golpistas?

Caso sejam reprovados nos devidos exames, ficarão no tapete de entrada, com os ajudantes do golpe, enlameados como os demais.

Sic transit gloria mundi.

O Lula real e o espectro Lula

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Por Flavio Aguiar, de Berlim

Dizem os psicanalistas que as nossas fantasias são sempre mais intensas do que a realidade, sobretudo quando são para o pior.

Hoje no Brasil se vê a demonstração desta tese.

A velha mídia, o promotor açodado de S. Paulo, o Supremo Tribunal do Paraná, que às vezes parece mais poderoso do que o STF de Brasília, todos lidam com um espectro que fabricam e ao mesmo tempo são vítimas dele: o espectro Lula, um horrível monstro, pior que Godzilla, Drácula e Darth Vader todos juntos, que suga a seiva do Brasil. Bom, é verdade que este monstro suga esta seiva para dar-se ao luxo de navegar em barquinhos de alumínio e descansar (?) em apartamentos que não comprou nem de que desfruta. Mas não importa: eles vão em frente, para impressionar a parte crendeira da classe média, aquela propensa a acreditar que estamos mergulhados num mar de lama como nunca houve no país, assim como acredita que PSDB, DEM, o PMDB da direita são mosteiros de probidade, onde Cunha é o Pai, Aécio é o Filho e os juízes e os promotores assanhados são os Espíritos Santos.

O espectro Lula é terrível: imbatível nas urnas, tem que ser abatido nos tapetões do Judiciário, através do “Golpe Paraguaio”, que na verdade deveria ser chamado de “Golpe de Miami”, já que quem inventou isto de substituir os tanques nas ruas pelos juízos `a socapa nos tribunais foi a eleição trucada de Bush Filho na Flórida em 2000.

O espectro Lula ameaça a paz dos cemitérios que a direita brasileira sonha ser o Brasil. Não só a direita brasileira: os porta-vozes da City Londrina e de Wall Street também são assombrados pelo espectro. Porque o Brasil é um porão (assim eles o veem) imenso, que, vindo à superfície, vai destruir os alicerces da Casa Grande que é o mundo financeiro internacional e seu primado sobre corações e mentes – não só na América Latina, mas na Europa e no resto do mundo, do Oiapoque ao Vulcão Fuji, de Vladivostok a Ushuaia.

Mas por detrás, ou à frente do espectro Lula, existe um personagem real, chamado Luis Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil e talvez (sei lá, o futuro a Deus pertence) futuro presidente também. É um personagem extraordinário, ou seja, uma figura humana como qualquer outra, que pode ter defeitos assim como tem qualidades. Mas que liderou uma das maiores transformações sociais do seu país e do mundo, ao mudar o patamar de vida de mais de sessenta milhões de pessoas em meia América do Sul, transformando sua terra num global player que agora não pode mais ser jogado para baixo do tapete, embora haja gente e mais gente desejosa de que isto acontecesse. Dentro e fora do Brasil.

Prova disto é que enquanto se tramavam as farsas ridículas das acusações sobre o apartamento no Guarujá e o barquinho no sítio em Atibaia, o Prêmio Nobel da Paz Kailash Sathyarthi, reconhecido pelo combate à exploração do trabalho infantil, convidada este Lula, que a caterva crápula do Brasil acha que deve cuspir em cima, para integrar associação mundial contra aquela atividade criminosa, por ser ele uma referencia mundial em matéria de temas e iniciativas sociais.

Prova disto é que sou testemunha do respeito com que Lula é recebido aqui na Alemanha. Em dezembro acompanhei-o em sua visita à sede do SPD e depois da Fundação Friedrich Ehbert, em Berlim, quando foi recebido pelo vice-chanceler Sigmar Gabriel e o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, e por mais uma enorme comitiva de representantes dos partidos social-democratas europeus, além dos jornalistas, com os tapetes vermelhos do reconhecimento e admiração.

A verdade é que o Brasil teve, até o momento, entre muita gente boa, três mandatários fundadores ou refundadores do país e de seu papel no mundo. O primeiro foi D. Pedro II. O pai, Pedro I, deu o brado do Ipiranga, outorgou uma Constituição de cima para baixo, embora os reacionários senhores de terra fossem contra, mas foi só, além de ter um dos casos amorosos mais espetaculares da nossa história política. Já o filho, Pedro II, consolidou o país (e olhem, leitor@s, que se eu vivesse em 1840, estaria combatendo contra ele, ao lado dos republicanos farroupilhas anti-escravistas, como o Coronel Teixeira Nunes e o General Netto…) e foi dos mandatários nacionais de mais alto reconhecimento internacional. Escorraçado do país pelo golpe republicano, ao morrer, foi declarado por editorial do NY Times ser “o mais republicano dos imperadores”…

O segundo foi Vargas que, como toda a carga autoritária de seu governo, introduziu a legislação trabalhista que nada tem de fascista e muito de positivista e de Bismarck, negociou de igual para igual com Roosevelt, fundou a Petrobras que hoje querem de novo destruir, e deixou a vida para entrar na história, neutralizando com seu sacrifício o golpe de estado contra o povo brasileiro.

O terceiro, para desespero de certo professor de Sociologia, é Lula, o real, não o espectro, que projetou Brasil como liderança do Terceiro Mundo, abriu caminho para a negociação bem sucedida com Irã e liderou esta marcha de ascensão social digna de um filme de Cecil B. de Mille dos anos 50 ou do Spielberg atual. Isto no cinema; Lula, na vida real.

Erros? Sim, afinal, trata-se de um ser humano, não do monstro infalível que os arautos da Casa Grande querem impingir ao povo brasileiro. Talvez o principal erro cometido, junto com seu partido, o PT, tenha sido o de imaginar que toda esta gigantesca operação positiva na sociedade brasileira não despertaria ódios nem a aversão por parte de quem não aguenta, no fundo, ter de disputar espaço com o povão das filas de aeroporto, nos vestibulares das universidades, nas escadas rolantes dos shopping centers, ou ter de pagar salário mínimo com carteira assinada para empregada doméstica. Parecia apenas que a “beleza do quadro” da melhoria social seduziria todo mundo.

Muito pelo contrário.

Quem detesta o bonito, feio lhe parece. Tem gente que não suporta a igualdade. Tem gente que prefere matar a conviver. Nos casos extremos, outras gentes. Mas no meio do caminho, também ideias.

Como não há mais estacas nem água benta disponível para conjurar o espectro Lula, o caminho é mesmo o de procurar destruí-lo juridicamente. Fazer o seu impeachment antes mesmo dele assumir qualquer cargo. Como se fosse um exorcismo avant-la-lettre.
Não vai funcionar. É possível enganar todos por algum tempo, alguns o tempo todo, mas não todos o tempo todo. O Lula real vai sobreviver a seu espectro fajutado por estas tentativas canhestras de golpe.

O impeachment e a bomba atômica

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Flavio Aguiar, de Berlim

Imaginemos uma cena patética. Os cientistas que trabalharam no Projeto Manhattan, nos Estados Unidos, fabricando a bomba atômica, olham para as fotos de Hiroshima e Nagasaki, e dizem: “a nossa bomba não merecia este tratamento”.

Esta é exatamente a situação de um dos juristas que preparou o pedido de impeachment da presidenta, comentando sua aceitação pelo deputado e presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha. O jurista – e um dos outros dois que o ajudaram na inglória tarefa – já rasgaram seus currículos. Mas o comentário foi patético: “Ele (o pedido) não merecia este tratamento”. O outro jurista foi mais coerente: “(Cunha) não fez mais que a obrigação”. Já que rasgou o seu currículo, assumiu de vez o rasgado. Já a terceira signatária do pedido nada mais fez do que confirmar o seu: é reconhecida arqui-conservadora.

Mas voltemos à frase patética. Afinal, o trio sabia exatamente nas mãos de quem estava pondo o pedido.Assim como a mídia conservadora sabia exatamente quem estava apoiando para a presidência da Câmara, tornando-o o terceiro na linha sucessória do Palácio do Planalto. Assim, não há propriamente o que reclamar quanto ao “tratamento” a ele dado. Tornou-se instrumento de barganha, de chantagem e de extorsão. Como não funcionou, ele foi adiante, com a aceitação.

Ademais, brilhantes juristas que não rasgaram o seu currículo vêm afirmando com consistência que os motivos alegados são juridicamente nulos para justificar um impeachment. Até mesmo a conservadora The Economist, defensora dos interesse da City londrina e que não poupa críticas ao “populismo”, ao “estatismo”, e outros “ismos” dos governos petistas, reconheceu a impropriedade da ação.

O objetivo desta é tornar nula a legítima decisão das urnas no ano passado. O pedido – junto com outros feitos e outras ações de sentido semelhante – vai ao encontro da desilusão das oposições e dos reacionários que formigam na mídia corporativa. Ambos patenteiam continuamente sua percepção de que vencer a corrida presidencial através das urnas parece impossível.

Isto é, evidentemente, uma ilusão, mas é o suficiente para reativar os instintos golpistas que sempre animaram quase todas as direitas brasileiras desde, pelo menos, o segundo governo de Getúlio Vargas. Esta repulsa ao leito da democracia é, na verdade, o fundamento “jurídico” dos pedidos de impeachment, e da campanha descarada que se faz, todos os dias na mídia, com munição de procedimentos policiais e de tribunais cada vez mais duvidosos, contra a legitimidade das decisões democraticamente tomadas nas urnas.

Como disse um notável estadista, “é possível enganar todos por algum tempo, alguns o tempo todo, mas não todos por todo o tempo”, ou algo assim. A peça jurídica em tela, alimentando a farsa política que é sua aceitação e será sua eventual prevalência, não deu nem para a saída.

Ela, no fundo, não engana ninguém, nem mesmo seus defensores, que se atiram sobre ela com a mesma avidez com que os “liberais” de 1964 se atiraram aos tanques que passavam na sua porta – quando não os incitaram a sair dos quartéis onde dormitavam. Como não há tanques, as bombas jurídicas e as farsas políticas servem.

Esperemos, porém, que, ao contrário das bombas de Hiroshima e Nagasaki, este pedido de impeachment, que já é um traque de festim do ponto de vista jurídico, não passe também de um traque político.

A Bíblia, o humor e o nosso presente histórico

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Flávio Aguiar passou muitos anos lendo e estudando a Bíblia – ou as Bíblias, como prefere dizer – como pesquisador e professor de teoria literária. Mais da metade das literaturas e das artes que estudamos, assinala, são incompreensíveis sem um conhecimento mínimo das diversas Bíblias. A relação de Flávio Aguiar com os textos bíblicos começou, na verdade, desde a infância, quando ele compreendeu que “a verdadeira Bíblia era sexo, ação e violência o tempo inteiro”. “Era melhor que um faroeste”, brinca. Mais tarde, no Canadá, descobriu com o professor Northrop Frye que as Bíblias também foram escritas com humor. “De repente tudo isso se materializou numa reescritura do que eu lera e me inspirara na minha vida de professor e crítico literário”, conta. Foi assim que nasceu A Bíblia segundo Beliel (Boitempo), que trouxe Flávio Aguiar ao Brasil para dois lançamentos, em Porto Alegre (1º) e em São Paulo (12), neste mês de março.

Em uma conversa no restaurante Gambrinus, no Mercado Público de Porto Alegre, Flávio Aguiar fala da origem de seu interesse pelos textos bíblicos, da presença do humor nestes textos, da importância de voltar a rir de coisas sobre as quais não se riem mais e da perspectiva de fim de mundo presente nos dias de hoje. “É um livro cômico para ser levado a sério. Ele trata de coisas sérias”, resume.

flavioaguiarlivro150 O acaso sorriu para essa intenção do autor. A Bíblia segundo Beliel e suas histórias profundamente humanas surgem no momento em que a Igreja Católica está mergulhada em uma profunda crise moral e mesmo programática. Os pecados que habitam o Vaticano e que agora vem a público embalados sob a forma de escândalos não são inéditos. A história do homem e das igrejas dos homens está repleta deles. Lembrando uma passagem de Isaías, um dos livros bíblicos preferidos de Flávio Aguiar:

“Toda a cabeça está enferma, e todo o coração abatido. Desde a planta do pé até ao alto da cabeça, não há nele nada são; tudo é uma ferida, uma contusão, uma chaga entumecida, que não está ligada, nem se lhe aplicou remédio para sua cura, nem foi suavizada com óleo. Vossa terra está deserta, vossas cidades abrasadas pelo fogo…” (Isaías, 1,5)

Como é que começou esse seu interesse pela Bíblia?

Começou quando eu era criança. Eu lia a Bíblia não só porque estudava em um colégio jesuíta (o Anchieta, o velho Anchieta da rua Duque de Caxias, em Porto Alegre). Mesmo sendo criança e com um lado um pouco carola, devo dizer, eu logo compreendi que a Bíblia – a verdadeira Bíblia, não as adaptações que se faziam – era sexo, ação e violência o tempo inteiro. Era melhor que faroeste, melhor que revista pornográfica, o que não depõe em nada contra a Bíblia. Ela é um livro profundamente humano sobre coisas humanas, mas infelizmente a maioria das pessoas se convenceu de que ela é algo intocável, que é uma redoma que não pode ser tocada e que só pessoas iluminadas podem interpretá-la devidamente. Não. As bíblias – e vou falar dela no plural mesmo – foram escritas para serem lidas por todos. Ela tem uma mensagem aberta para crianças, adolescentes, pessoas maduras, pessoas idosas, para todas as crenças e todas as raças. Eu consegui, por alguma alquimia, me imbuir desse espírito.

Agora, houve um momento chave na vida, que foi quando eu fui aluno de Northrop Frye, um professor extraordinário de teoria literária na Universidade de Toronto, no Canadá. Além de ser um professor extraordinário e especialista em temas bíblicos, ele me convenceu que a Bíblia tinha sido escrita com humor também. Tudo isso se materializou na ideia de escrever uma história baseada nos relatos bíblicos para que nós hoje, no século 21, pudéssemos rir de coisas sobre as quais não se riem mais. E eu penso que isso é algo muito salutar.

Que coisas, por exemplo?

Vou dar um exemplo da Bíblia clássica. Quando Jesus está no templo e os sacerdotes que se consideravam guardiões das escrituras começam a apertá-lo, ele responde: Vocês estão vendo esse templo? Eu posso destruí-lo e reconstruí-lo em três dias. Os doutos sacerdotes respondem: mas que louco, que idiota, em outras palavras é claro, mas dizem isso. Na verdade, Jesus está tirando sarro da cara deles. Está dizendo: vocês não estão entendendo nada do que está acontecendo. O que está acontecendo aqui é outra coisa. Há outro momento, belíssimo, em que ele está na casa desses doutores e eles resolvem tratá-lo mal. Neste momento entra casa adentro uma prostituta, que dizem ser Maria Madalena – há controvérsia a respeito -, põe uma bacia com água aos pés de Jesus, derrama lágrimas nesta bacia, lava os pés dele e os enxuga com o próprio cabelo. É uma cena de um erotismo extraordinário, além de deixar aqueles doutores todos com a cara no chão.

Outro exemplo pode ser encontrado em Jeová, o criador do Gênesis, que tem um lado meio neurótico. Ele criou algo sobre o qual está completamente inseguro. Então ele fica tentando refazer tudo: é dilúvio pra cá, é fogo pra lá, e destrói Sodoma e Gomorra, e promete pra Jó e faz o contrário, e chama Lúcifer para tentar Jó…Ou seja, Jeová deveria estar em um divã psicanalítico, de preferência com o doutor Freud, que é da tribo.

Então, o livro, apesar de ter um viés satírico, pretende também falar de coisas sérias, digamos. É um livro sério, na verdade…

É um livro cômico para ser levado a sério. Ele trata de coisas sérias. O último capítulo, por exemplo, é o fim do mundo. Eu não vou falar sobre isso porque como o livro foi recém-lançado ainda existem muitas pessoas que ainda não conhecem o seu final. Eu não vou falar sobre isso, mas é o fim do mundo. Hoje, nós nos deparamos com uma perspectiva de fim de mundo, seja do ponto de vista supersticioso, religioso – como a teoria maia do fim do mundo -, seja do ponto de vista científico – é a crise climática, o fim da atmosfera.

O fim do mundo foi, em primeiro lugar, um tema da minha geração que cresceu sob a ameaça da terceira guerra mundial, da guerra fria, que iria acabar com o mundo. Hoje, a ameaça da guerra fria está à sombra, mas existe a ameaça de uma guerra nuclear, por exemplo, no Oriente Médio, seja de que ponto de vista se queira encarar. O fim do mundo se tornou hoje uma visão palpável. Como disse um grande amigo meu, Saul Leblon, que escreve na Carta Maior, nós, mais velhos, não veremos este momento, mas nós já estamos olhando nos olhos daquelas crianças que se defrontarão com o momento em que o mundo tomará um rumo, o rumo da continuidade ou o da destruição e da calamidade, em função das grandes ameaças que pairam sobre nós, pelos problemas ambientais, por questões sociais não resolvidas. Eu diria, então, que o livro trata de temas bíblicos, mas é um livro realista, que trata de questões sobre o nosso presente histórico e nossa vida cotidiana.

E parece haver também um fim do mundo pairando sobre a própria igreja…

Eu diria que as trombetas do apocalipse soaram para, pelo menos, uma certa igreja, que é herdeira do imenso trabalho conservador e reacionário de João Paulo II para reverter a tendência progressista anterior. Eu diria que esta igreja está fadada a desaparecer ou a fazer a própria igreja desaparecer. Esse é o desafio para o próximo conclave: ou continuar mantendo essa cúpula fechada do Vaticano sobre a qual pesam gravíssimas acusações de corrupção em todos os sentidos, inclusive no sentido cristão. Essas acusações vão desde a pedofilia até a corrupção envolvendo dinheiro. Não vamos esquecer as palavras de Cristo: ai daquele que escandalizar um destes pequenos, melhor que amarrasse uma pedra no pescoço e se jogasse no mar.

Foto: Flávio Aguiar e Paulo Neves no lançamento do livro, sexta (1º) à noite, na Palavraria, em Porto Alegre. (Palavraria Livros & Café)

Flávio Aguiar lança “A Bíblia, segundo Beliel” nesta sexta, em Porto Alegre

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A Boitempo Editorial traz o escritor, colunista e pesquisador da Universidade de São Paulo, Flávio Aguiar, para debates e noite de autógrafos de lançamento do livro “A Bíblia segundo Beliel: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer” (120 págs. R$ 29, Boitempo). Aguiar é gaúcho e se apresenta primeiro em Porto Alegre, na Palavraria – Livros & Café nesta sexta-feira, dia 1º de março, às 19h. Além do autor, o evento contará com a presença do escritor e tradutor Paulo Neves.

Em seguida, Flavio Aguiar vai a São Paulo para o lançamento no Espaço Revista CULT, no dia 12 de março, às 19h, que também contará com debate, com participação de José Roberto Torero, e sessão de autógrafos.

Flávio Aguiar foi professor de literatura da USP por mais de 30 anos, e já publicou mais de 30 livros ao longo de sua carreira, entre o quais vários ganhadores do Prêmio Jabuti. Atualmente ele mora na Alemanha e veio diretamente de Berlim para lançar no Brasil seu novo livro de ficção, uma sátira sobre as histórias bíblicas, que ele estuda com profundidade há anos.

Sobre o autor

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre, em 1947. É professor aposentado de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/ USP), na qual fundou e dirigiu o Centro Ángel Rama. Atualmente, é pesquisador do programa de pós-graduação em Literatura Brasileira da mesma instituição. Orientou mais de quarenta teses e dissertações de doutorado e mestrado. Foi professor convidado e conferencista em universidades no Brasil, Uruguai, Argentina, Canadá, Alemanha, Costa do Marfim e Cuba. Tem mais de trinta livros publicados, entre os de autoria própria, organizados, editados ou antologias. São obras de crítica literária, ficção e poesia. Participou de várias antologias de poemas e contos no Brasil e no exterior (França, Itália e Canadá).

Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro: em 1984, na categoria “Ensaio”, com sua tese de doutorado A comédia nacional no teatro de José de Alencar (Ática, 1984); em 2000, com o romance Anita (Boitempo, 1999); e, em 2007, coletivamente, como responsável pela área de literatura da Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Boitempo, 2006), na categoria “Ciências Humanas” e também como “Livro do Ano de Não Ficção”. Reside atualmente em Berlim, na Alemanha, onde é correspondente para publicações brasileiras.