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Texto de Einstein sobre crise não tem frases citadas por Sartori como sendo do físico alemão

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O governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori (PMDB), respondeu às críticas feitas ontem (3) pelo novo presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Luiz Felipe Silveira Difini, com uma frase, supostamente, de Einstein. Sartori foi à Assembleia Legislativa entregar a “Mensagem do Governador” à nova presidente da Casa, Silvana Covatti (PP). Questionado por jornalistas sobre as declarações do desembargador Difini, Sartori disse que já esperava a pergunta e que estava preparado para respondê-la. Puxou um papel e leu dois parágrafos escritos em letras maiúsculas com a suposta afirmação de Einstein:

“Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la”.

Ao final da mesma, entre parênteses, estava escrito “Albert Einstein”, sem citar porém qual seria a fonte da suposta afirmação do físico. Na cerimônia de entrega da Mensagem do Governador à presidente da Assembleia, Sartori falou rapidamente sobre a situação do Estado e utilizou a citação acima para resumir “a disposição do governo em enfrentar as dificuldades financeiras”.

A citação em questão é fartamente acessível via Google ou outras plataformas de busca. Costuma ser atribuída a Einstein, mas a fonte da mesma nunca é citada. Em 2009, um doutorando em Física, escreveu em seu blog um post intitulado “Einstein e as mensagens fofuchas sobre a crise”, relatando como desconfiou da suposta autoria da referida frase e tratou de pesquisar se, de fato, era de Einstein. A desconfiança começou pelo estilo do texto, típico de manuais de autoajuda. A primeira coisa que constatou foi que nenhum dos sites que citavam a frase como sendo de Einstein apontava a fonte da mesma, identificando quando e onde o físico teria dito aquilo. Em se tratando de Einstein não seria a primeira vez. Desde os primórdios da internet circulam frases falsamente atribuídas ao físico. O autor do blog foi mais longe em sua busca e pesquisou textos ou pronunciamentos de Einstein que falassem sobre “crise”.

Eisntein escreveu, de fato, sobre a crise em seu livro “The world as I see it”, traduzido no Brasil, em 1981, pela Editora Nova Fronteira. Em um capítulo intitulado “Reflexões sobre a crise econômica mundial” (publicado em 1953), Einstein reflete sobre a crise da economia capitalista mundial naquele momento. Na abertura do capítulo, ele afirma:

“Se há alguma razão para impelir um leigo em questões econômicas a dar corajosamente sua opinião sobre o caráter das dificuldades econômicas angustiantes de nossa época, é certamente a confusão desesperadora dos diagnósticos estabelecidos pelos especialistas. Minha reflexão não é original e apenas representa a convicção de um homem independente e honesto — sem preconceitos nacionalistas e sem reflexos de classe — que deseja ardente e exclusivamente o bem da humanidade, numa organização mais harmoniosa da existência humana. Escrevo como se estivesse seguro da verdade de minhas afirmações, mas o escrevo simplesmente como a forma mais cômoda da expressão e não como testemunho de excessiva confiança em mim mesmo; ou como convicção da infalibilidade de minhas simples concepções sobre problemas de fato terrivelmente complexos”. (Clique aqui para ler a íntegra do que Einstein escreveu sobre a crise, pp-40-41)

A passagem citada por Sartori não aparece em nenhum momento do capítulo em questão. Nem no Wikiquote, onde essas mensagens costumam ser publicadas com a fonte de origem, é possível encontrar a citação em questão. Talvez o governador Sartori conheça outro texto de Einstein sobre o tema que traga a passagem em questão. Neste caso, poderia citar a fonte e resolver a polêmica que cerca mais essa suposta afirmação do físico alemão.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

 

A cidade apagada

Temporal em Porto Alegre derrubou árvores e sistema de abastecimento de água e energia em praticamente toda a cidade. (Foto: Ivo Gonçalves/PMPA)

Temporal em Porto Alegre derrubou árvores e sistema de abastecimento de água e energia em praticamente toda a cidade. (Foto: Ivo Gonçalves/PMPA)

Por Lena Annes (*)

Ando quase triste pela cidade, com cautela e afastamento, ao ver a Porto Alegre que adotei se transformando em algo que não sei definir.

Foi esta sensação que consegui extrair do meu estado de espírito depois de não reconhecer a Porto Alegre assolada por um fenômeno semelhante a um furacão com ventos superiores a 120 quilômetros na noite de sexta-feira (28/01/16).

Em um primeiro momento, após a ventania cessar e verificar que não ocorreram danos físicos e materiais (apenas alagamentos pontuais na cozinha e na área de serviço e um vidro quebrado no corredor do prédio em que moro) senti uma uma sensação de alívio, logo substituída pela apreensão com o que ainda viria, pois era evidente que a cidade fora duramente castigada. Temi pelo pior e pelas pessoas que se encontravam desabrigadas nas ruas escuras. A sensação de vácuo permanece e agora tentam passar alguma organização no rescaldo do fenômeno.

Olhando a cidade escura, com luzes em pontos isolados fiquei pensando na nossa falta de preparo para lidar com estes fenômenos, que ocorreram nos últimos verões, cada vez mais intensos. Em outubro de 2015 um outro vendaval, acompanhado de trovoadas e raios inundou a cidade causando estragos, menores, mas significativos.

E pior, a falta de preparo de quem administra a cidade e os serviços públicos.

Afinal moramos em uma capital. Temos mais recursos. Não deveria ser diferente?

E todo mundo sofre. Em todos os bairros. Sem luz e sem dinheiro, não adianta cartão nenhum pois os terminais bancários não funcionam. E quem tem problemas de locomoção ou vive sozinho, como fica? Sem luz, sem internet, sem elevador?

E por fim, sem um comando centralizado para planejar os reparos e ajuda necessários, só contamos (de imediato) com os funcionários públicos de salários parcelados, para nos socorrer, cortar árvores caídas e restabelecer um pouco de ordem no caos.

Pobre Porto Alegre.

Dizem que é impossível prever este tipo de fenômenos, mas agora que,sabemos que acontecem não é hora de pensar no assunto. Percebe-se que o poder público estava despreparado e desmobilizado. Faltou comando e agilidade para mapear a cidade e atender às prioridades, como hospitais e outros estabelecimentos essenciais.

A circulação no dia seguinte, sábado, foi restrita e as ruas permanecem vazias, sujas e cobertas de árvores e galhos caídos.

Durante todo o final de semana as principais informações só foram repassadas pelas rádios, que deram algum destaque para os apelos e reclamações da população mas mantiveram sua programação habitual.

Aos poucos, nas redes sociais surgiram notas oficiais mas com boa parte da cidade sem luz e internet, quantos estão conectados?

Acredite, não foi criado um número 0800 de emergência para tranquilizar, orientar e receber ligações da população. Parece incrível que o Banrisul, o banco estadual não disponibilizou um gerador para saques em dinheiro em alguma agência já que com o comércio e supermercados fechados, só era possível comprar em algumas lojas de conveniência e com dinheiro. Sem falar que as casas máquinas das estações de tratamento de água da cidade são antigas e não funcionam quando não tem luz e aí vira um círculo : sem luz, sem água.

Quem teve condições viajou para fora da cidade ou foi para hotéis, mas e os outros? E nos bairros onde a infraestrutura é mais precária sempre?

São muitas perguntas e tento, alguma compreensão, mas faltou gestão, planejamento e transparência já que não é o primeiro (e provavelmente) não será o último fenômeno que enfrentaremos, fruto de um planeta que estamos modificando violentamente.

Quando nossos governantes aprenderão a ser mais solidários e ágeis nas catástrofes e dar mais atenção ao meio ambiente?

(*) Jornalista

Mapeamento genético abre novo front na guerra contra o câncer

Patrícia Ashton Prolla: “Estima-se que de 10 a 20% de todos os casos de câncer sejam hereditários. Sabendo antecipadamente desse risco, podemos fazer coisas para tentar diminuir as chances de a pessoa desenvolver câncer”. (Foto: Caroline Ferraz/Sul21)

Patrícia Ashton Prolla: “Estima-se que de 10 a 20% de todos os casos de câncer sejam hereditários. Sabendo antecipadamente desse risco, podemos fazer coisas para tentar diminuir as chances de a pessoa desenvolver câncer”. (Foto: Caroline Ferraz/Sul21)

O Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) atende, desde 2001, a pacientes que apresentam predisposição hereditária ao câncer. Estima-se que de 10 a 20% de todos os casos de câncer sejam hereditários. Essas pessoas trazem, desde o nascimento, oncogenes, genes causadores de tumores, que podem ser identificados por meio de exames do DNA. Relativamente recente (o primeiro foi descoberto em 1970), essa descoberta criou um novo front na guerra contra o câncer, abrindo a possibilidade de mapear esses oncogenes e, assim, antecipar riscos e desenvolver estratégias para evitar o desenvolvimento de vários tipos de câncer. Em entrevista ao Sul21, a médica geneticista Patrícia Ashton Prolla, integrante da equipe de genética e câncer do HCPA, fala sobre o trabalho com testes de DNA e mapeamentos genéticos e sobre as perspectivas que ele abre no terreno da prevenção da doença.

“Estima-se que de 10 a 20% de todos os casos de câncer sejam hereditários. Trata-se de pessoas que, ao nascer, já tem uma maior chance de ter câncer ao longo da vida. Por isso, sabendo antecipadamente desse risco, podemos fazer coisas para tentar diminuir as chances de a pessoa desenvolver câncer ao longo da vida”, relata Patrícia Prolla, que também é professora de Genética na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A médica coordena a Rede Brasileira de Câncer Hereditário que está batalhando, junto com o Instituto Nacional do Câncer, para incluir esses testes de DNA no atendimento do SUS. “Não temos problema tecnológico em saber como fazer e como interpretar esses exames. O problema que enfrentamos é a restrição financeira, mesmo”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Richard Dawkins reúne 3 mil em Porto Alegre: entre o gene egoísta e o altruísmo social

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Estou voltando do auditório Araújo Vianna, onde tive o privilégio de assistir a uma conferência do biólogo britânico Richard Dawkins, a primeira do ano do projeto Fronteiras do Pensamento. Cerca de 3 mil pessoas em uma palestra científica numa segunda-feira à noite. Bem que podia virar uma política pública. Além dos eventos privados, onde vai quem tem dinheiro para pagar, o setor público poderia promover algumas conferências com grandes pensadores para estudantes de escolas públicas e quem mais tivesse interesse. Já ocorreu algo assim, no Fórum Social Mundial e em alguns outros eventos. Alimentar a inteligência e a reflexão também pode e deve ser política pública.

Quanto à conferência, Dawkins apresentou a seleção natural como uma implacável corrida armamentista entre genes, que não é regida por nenhum plano de um arquiteto universal, mas sim pelo interesse de curto prazo em se replicar e permanecer vivo na natureza. A seleção natural, defendeu, não planeja e não pensa no futuro. Para aqueles que cogitavam extrair alguma espécie de tese ultra liberal do teórico do gene egoísta, Dawkins foi um banho de água fria: “Quando se trata de pensar o tipo de sociedade que queremos construir, sou anti-darwinista. Devemos planejar, valorizar o altruísmo, pensar o futuro, deixar para trás a ditadura do gene egoísta”. Mais detalhes nesta terça-feira, no Sul21. (Para pensar numa sociedade melhor, sou anti-darwinista, diz Dawkins)

Encontro debate incentivos e desafios da pesquisa sem animais

Debate ocorrerá na próxima quarta-feira (28), às 19 horas, no auditório Ana Terra, da Câmara Municipal de Porto Alegre (avenida Loureiro da Silva, 255).

Debate ocorrerá na próxima quarta-feira (28), às 19 horas, no auditório Ana Terra, da Câmara Municipal de Porto Alegre (avenida Loureiro da Silva, 255).

“Incentivos e desafios da pesquisa sem animais – a Toxicologia do Século XXI”: esse é o tema do debate que será realizado na próxima quarta-feira (28), às 19 horas, no auditório Ana Terra, da Câmara Municipal de Porto Alegre (avenida Loureiro da Silva, 255). O assunto será apresentado por Róber Bachinski, doutorando em Biotecnologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), primeiro brasileiro a receber o LUSH Prize, com projeto contra uso de animais.

No encontro, serão abordados temas como a organização política dos métodos alternativos no Brasil e no restante da América Latina; a organização da sociedade científica e parcerias com grupos da União Européia e editais para pesquisas; novas metodologias de pesquisa, como métodos de cultivo celular 3D, base para o projeto Human-on-a-chip; utilização e importância das células-tronco pluripotentes induzidas (IPSc) em relação ao cultivo de linhagem celular; importância de uma ciência baseada no entendimento do mecanismo e vias de toxicidade, diferente da ciência tradicional em animais que busca analisar desfechos toxicológicos.

O encontro é uma iniciativa do GAE Grupo Abolição ao Especismo, 1Rnet – Instituto. para Pesquisa e Promoção da Substituição dos Experimentos em Animais, do Coletivo Cidade mais Humana e do vereador Marcelo Sgarbossa (PT), que é autor de um projeto que proíbe testes de cosméticos e produtos de higiene em animais em Porto Alegre.

As métricas do presente para prospectar o futuro, segundo o cientista-chefe da IBM no Brasil

fabiogandour2 O que o futuro nos reserva? Essa foi a pergunta que orientou a palestra de Fábio Gandour, cientista-chefe da IBM no Brasil, na manhã desta quinta-feira, em Porto Alegre, na Semana ARP da Comunicação, promovida pela Associação Riograndense de Propaganda. Formado em Medicina com doutorado em Ciência da Computação, Fábio Gandour coordena a área de pesquisa da IBM no Brasil. Falando para um público majoritariamente de publicitários, entre profissionais e estudantes, Gandour fez uma profissão de fé na ciência e na importância de trabalhar com métricas e medições para poder construir cenários futuros diferentes daqueles oferecidos pelas diversas formas de futurologia e de artes adivinhatórias. A resposta que deu à pergunta central de sua palestra pode ser resumida assim: podemos ter cenários sobre o que o futuro nos reserva fazendo medições e estudando seus resultados.

“Os cientistas medem tudo; toda ciência envolve procedimentos de medição. Ao trabalharmos, no presente, com os resultados de medições, nós conseguimos apontar cenários para o futuro. Precisamos, portanto, ajustar nossas métricas para a prospecção do futuro. Não dá para adivinhar, tem que pensar e, para isso, é preciso estudar”, defendeu Gandour.

Esse trabalho de medição para prospecção do futuro tem hoje, acrescentou, um poderoso aliado: a tecnologia. Isso não chega a ser uma novidade, pois a tecnologia constrói instrumentos e técnicas de medição há séculos ou mesmo milênios. Com os desenvolvimentos dos últimos anos, especialmente no campo da comunicação, ela oferece hoje possibilidades inéditas para esse trabalho de prospecção do futuro. Mas a tecnologia, de fato, entrega o que promete? – perguntou o cientista-chefe da IBM.

A imaginação como berçário do conceito

A sua resposta a essa questão foi otimista. Sim, ela entregue o que promete. Gandour talvez rejeite a qualificação de sua resposta como “otimista” neste caso, pois pretende baseá-la em fatos e medições. Mas apareceram elementos de filosofia em sua resposta, apontando a imaginação como uma espécie de berçário de conceitos futuros. Ele mostrou uma imagem publicitária da década de 40 que mostra uma dona de casa comprando roupas por meio de um aparelho semelhante a uma televisão por meio do qual ela se comunicava diretamente com a compradora na loja. “Nós fazemos compras á distância hoje cotidianamente por meio da internet. Esse exemplo mostra que o que vai acontecer no futuro pode ter sido sonhado no passado. Mostra também que, na maior parte das vezes, a tecnologia entrega o que promete, mas com uma estética muitas vezes diferente”.

O desenvolvimento da internet e das tecnologias associadas a ela pavimenta hoje o altar dessas promessas, que não são pequenas. “A internet hoje se comunica por meio de um protocolo chamado IPv4, responsável pela existência de aproximadamente 4 bilhões de endereços IP. O aumento dos engenhos móveis já tornou essa quantidade insuficiente, o que levou ao desenvolvimento do protocolo IPv6, que representará um aumento extraordinário do número de IPs”, assinalou Gandour.

Em breve, acrescentou, todos os objetos que possuem estados do tipo ligado-desligado, ou aberto-fechado, estarão conectados a uma rede, materializando a ideia de uma “internet das coisas”. Teremos tantos endereços IP à disposição que poderemos estar conectados à internet por meio de inúmeros objetos. “Esse é um mundo novo, quase que totalmente atravessado por sensores e processos de monitoração. A rede deixará de ter buracos e se tornará uma pele que cobrirá o mundo”.

A água e os átomos ameaçados no planeta

Um mundo novo, porém, que anuncia também realidades preocupantes como a escassez de água no planeta. Fábio Gandour falou desse cenário baseado em dados sobre um elemento fundamental da natureza: o átomo. “Como se sabe os átomos não desaparecem. Podemos carregar em nós um átomo que fez parte do fígado de Napoleão ou do cabelo de Cleópatra. O número de átomos no planeta é constante e pode inclusive ser medido. A explosão de uma bomba nuclear faz com que ele diminua um pouco e a queda de um meteoro no planeta provoca um pequeno aumento. Mas, em geral, esse número é constante. Mas a população do planeta aumentou, e segue aumentando, o que faz com que diminua o número de átomos por habitante. Existem cálculos mostrando isso e são eles que sustentam, do ponto de vista científico, todo o movimento ambiental que está lutando pela preservação dos átomos do planeta”.

“E vocês sabem quais são os átomos que vão faltar primeiro?” – perguntou. “Hidrogênio e oxigênio conectados numa molécula chamada água. Se eu tivesse que sugerir algo a presidenta Dilma, essa sugestão seria proteger os nossos recursos hídricos. E a água vai faltar primeiro na Ásia. Isso não é uma especulação, mas o resultado de uma medição, é aritmética”, respondeu o pesquisador.

O século da complexidade

Ao falar sobre o futuro próximo, Gandour tomou emprestada uma formulação de Stephen Hawking: o século 21 será o século da complexidade. E os cenários apontados anteriormente já desenham alguns dos principais contornos dessa complexidade: grande desenvolvimento tecnológico, expansão da internet de modo exponencial, escassez de recursos fundamentais como a água. Neste contexto, o cientista fez algumas sugestões específicas para a área da publicidade, em especial o estudo e a atenção especial sobre a área da linguagem e da metalinguagem (a linguagem que descreve outras linguagens). E deixou uma sugestão de caráter mais geral: “é preciso praticar o pensar, com estudo; usem a ciência, usem a métrica científica para orientar o trabalho de vocês. Estamos entrando em um mundo muito mais dinâmico, variável e complexo. Não sei se isso é bom ou mau, mas é assim”.

Questionado sobre a possibilidade de a ciência medir coisas como emoções e sentimentos humanos, Fábio Gandour respondeu afirmativamente por meio de uma histórica ocorrida na última Copa das Confederações, aqui no Brasil. “Na Copa das Confederações, nós usamos uma métrica para avaliar sentimentos, que foi o Twitter. Monitoramos 6.386 tuitadas por minuto antes, durante e depois da final entre Brasil e Espanha, e descobrimos coisas muito interessantes. Em geral acreditamos que o momento mais emocionante de um jogo de futebol é o gol. Mas na final, o momento que teve maior número de tuitadas foi o do gol salvo pela zagueiro brasileiro David Luiz. Esse foi o momento que mais mobilizou as pessoas e o Felipão foi o primeiro a ver isso. Não foi por acaso que, ao final do jogo, ele disse que o lance mais importante da partida tinha sido aquele. Então, com métricas adequadas, dá para conhecer muita coisa, inclusive sobre emoções e sentimentos. Não conseguimos isso com adivinhação. É preciso pensar e, para isso, é preciso estudar”.

Foto: Glauco Arnt/Divulgação

(*) Publicado originalmente no Sul21

A disputa por cérebros cresce no mundo

fugadecerebros190 O Brasil tem uma necessidade urgente de construir políticas públicas voltadas para a atração e retenção de profissionais qualificados em áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional. Não se trata de provocar o aumento da competição para os trabalhadores no mercado brasileiro, mas sim de promover o desenvolvimento de indústrias estratégicas e o avanço na área de ciência, tecnologia e inovação, reconhecendo a imigração como um fator de desenvolvimento de capital humano. A conclusão é do estudo “Imigração como vetor estratégico do desenvolvimento socioeconômico e institucional do Brasil”, realizado pela Fundação Getúlio Vargas, e que recomenda ao governo brasileiro a adoção de políticas voltadas para a atração de imigrantes altamente qualificados.

A pesquisa adverte que “com o recente aumento dos investimentos governamentais em educação e desenvolvimento de pesquisa de ponta no Brasil, o país corre o risco da chamada ‘drenagem de cérebros’ (brain drain)”. O problema não é uma exclusividade brasileira. O estudo da FGV aponta que a escassez de recursos humanos é um dos principais gargalos que ameaçam o desenvolvimento econômico dos países do grupo dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). “O Brasil padece hoje da falta de investimentos adequados em educação nas décadas precedentes, uma vez que os investimentos em educação possuem caráter incremental e levam tempo para gerar resultados. A atração de imigrantes altamente qualificados pode permitir suprir o déficit de investimento adequado em educação do passado, de modo a tirar melhor proveito do ‘bônus demográfico’”, diz ainda o estudo.

Essa vantagem potencial do Brasil reside no fato de que o país vem se tornando nos últimos anos um destino cada vez mais atraente para migrantes. A pesquisa da Fundação Getúlio Vargas assinala que o país “tem recebido uma quantidade crescente de imigrantes com níveis medianos de qualificação, que aumentam a massa crítica do país e geram benefícios para algumas indústrias, mas que, em alguns casos, disputam vagas escassas com a mão de obra nacional”. Por outro lado, acrescenta, “é ainda relativamente tímido o número de imigrantes altamente qualificados, aptos a ocupar vagas para as quais faltam trabalhadores nacionais e, desse modo, acelerar o desenvolvimento de novas indústrias”. Para suprir essa lacuna estratégica para o desenvolvimento do país, a pesquisa da FGV sugere, entre outras medidas, a criação de uma agência específica para a atração de mão de obra altamente qualificada.

O estudo da fundação contextualiza esse tema dentro do cenário da conjuntura internacional. Qual é esse contexto: a disputa por “cérebros” hoje é um fenômeno que ocorre em escala mundial, favorecida e estimulada pela redução nos custos de transporte e pela popularização massiva de novas tecnologias de telecomunicação. Além das facilidades, há também a agenda das dificuldades que estimulam os fluxos migratórios hoje em escala global: conflitos e opressão política, crises econômicas, catástrofes ambientais, perseguições étnicas e religiosas, entre outros problemas.

O aumento do número de migrantes no mundo

O número de pessoas circulando hoje pelo planeta, pelos motivos citados acima, é espantoso. Segundo o relatório de 2009 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), existiam cerca de 195 milhões de migrantes no mundo em 2005, o que representa cerca de 3% da população mundial. Em 2010, esse número subiu para 214 milhões, entre os quais 128 milhões teriam como destino os chamados países desenvolvidos. Um outro estudo, realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2011, aponta um aumento da situação da vulnerabilidade desses imigrantes, que enfrentam uma crescente hostilidade por parte da população dos países receptores. O aumento preocupante da xenofobia na Europa, estimulado pelo crescimento expressivo do desemprego, é uma das faces mais graves desse cenário.

Se, por um lado, os governos das maiores economias do mundo hoje são pressionados internamente por deter o ingresso de imigrantes, por outro, eles adotam políticas permanentes para a “atração de cérebros”. O estudo da FGV aponta que diversos países africanos exportaram nos últimos anos mais de 20% de seus habitantes com diploma universitário, apenas para países da OCDE. Citando levantamento realizado pelo pesquisador Franklin Goza, um estudioso de fenômenos de imigração envolvendo o Brasil, de 1996 a 2006, a emigração de brasileiros qualificados para os Estados Unidos aumentou 185%. Esses dados se referem principalmente a profissionais já formados que estudaram no Brasil ou se formaram no exterior, voltaram ao país e emigraram posteriormente.

Em um recente debate público, aponta ainda a pesquisa da FGV, o físico Michiu Kaku, famoso internacionalmente como autor da teoria dos campos de corda, afirmou que o Visto H-1B, concedido pelo governo dos EUA para viabilizar a contratação temporária de estrangeiros com grandes conhecimentos em determinadas áreas seria a “arma secreta” do sistema educacional norteamericano, sem a qual a economia dos EUA sofreria um risco de colapso.

Para enfrentar essa realidade, o governo brasileiro criou o Programa Ciência sem Fronteiras que concederá 75 mil bolsas de estudos até 2015, envolvendo bolsas para estudos no exterior e para pesquisadores visitantes especiais. Esse esforço, diz o estudo da Fundação Getúlio Vargas, é fundamental para o desenvolvimento do país, mas “precisa ser complementado por um conjunto de iniciativas que aumentem o número de bolsas para estrangeiros interessados em residir no Brasil e atrair os brasileiros qualificados no exterior de volta ao país”.

(*) Coluna publicada hoje no Sul21.

 

Pesquisadores gaúchos ganham sistema on-line de gestão de projetos

 A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul está implantando o Sistema de Gestão de Projetos de Pesquisa (SigFapergs) para agilizar a tramitação de projetos dentro da Fundação. O sistema cria uma nova forma de comunicação entre a instituição e os pesquisadores e bolsistas gaúchos, proporcionando mais transparência no andamento dos projetos e permitindo que o acompanhamento dos mesmos seja feito pela internet. Agora, os pesquisadores poderão obter informações sobre a situação de sua solicitação ou sobre o status de seu projeto em andamento digitando CPF e senha na página da Fundação. O sistema também dará origem a um banco de dados que auxiliará o governo do Estado a definir novas demandas de pesquisas, reunindo em um só local as solicitações da comunidade científica gaúcha.

Para tanto, a Fapergs está solicitando que cada pesquisador faça seu cadastro no sistema por meio do endereço sig.fapergs.rs.gov.br, clicando na opção “não sou cadastrado”. Deste modo, a Fundação pretende formar um banco de dados de pesquisadores e agilizar o processo de solicitação de recursos de futuros editais que serão lançados por este mesmo sistema. Em fevereiro deste ano, a Fapergs lançou oito editais voltados para a pesquisa e a formação de recursos humanos, totalizando um investimento de R$ 27,3 milhões. Um dos editais mais procurados pela comunidade científica do Estado, que teve sua primeira edição de 2010, o Programa Pesquisador Gaúcho (PqG), iniciou este ano oferecendo R$ 6 milhões para atividades de pesquisa científica, tecnológica e inovação em todas as áreas do conhecimento.

Centro Polar e Climático da UFRGS cuidará de 60% da pesquisa do Programa Antártico Brasileiro


O Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que há alguns anos conquistou um papel de liderança no programa antártico brasileiro deve ter essa condição consolidada e aprofundada. Em  dezembro de 2011/janeiro de 2012, o grupo do Centro Polar e Climático da UFRGS realizou mais uma expedição à Antártica para a instalação do primeiro módulo científico nacional dentro do continente, o Criosfera 1. Meses depois, um trágico incidente atingiu o Programa Antártico Brasileiro. Um incêndio destruiu o bloco central da estação polar Comandante Ferraz, deixando duas vítimas fatais. Agora, o grupo de cientistas da UFRGS, liderado pelo geólogo Jefferson Cardia Simões deverá desempenhar um papel importante na reconstrução do que foi perdido.

A área destruída no incêndio, observa o pesquisador, representa 40% de todo o programa antártico brasileiro. “Ou seja, 60% do programa (e inclusive a UFRGS está nestes 60%) não foi afetado e está em pleno andamento, com trabalhos de campo e de laboratório. O Programa Antártico Brasileiro é muito mais amplo que a Estação Comandante Ferraz”. E boa parte dele funciona junto ao grupo do Centro Polar e Climático, que hoje já envolve 18 professores e técnicos, e 25 alunos. É o único grupo em todo o Brasil que está trabalhando em regime de dedicação exclusiva para a Antártica. “O nosso próximo passo”, diz Jefferson Cardia Simões, “será a construção do prédio do Centro Polar Climático aqui no Campus da UFRGS, que terá 3 mil metros quadrados e administrará cerca de 60% do Programa Antártico Brasileiro em termos de pesquisa”.

Com uma área física de 2.025 metros quadrados, junto ao Instituto de Geociências da UFRGS, o CPC será o primeiro centro nacional especializado no ensino e pesquisa dos processos atmosféricos que ligam o sul do Brasil à Antártica.

O trabalho desenvolvido pela equipe do Centro Polar Climático da UFRGS é hoje uma área de vanguarda e excelência da ciência brasileira. Merece ser conhecido e apoiado pela sociedade.

Ilustração: Projeto do prédio Centro Polar Climático, que será construído junto ao Instituto de Geociências, no Campus da UFRGS.

Foto: Pesquisadores da UFRGS, logo após a instalação do módulo de pesquisa Criosfera 1, no interior do continente antártico (Foto cedida por Jefferson Cardia Simões)