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Justiça investiga suspeita de crime eleitoral em Cruz Alta

eleicao2012150  O blog Palavras Rebeldes, de Cruz Alta, destaca reportagem realizada pela TV Pampa sobre as investigações abertas pela Justiça Eleitoral para apurar a possível compra de votos nas eleições deste ano naquele município. A reportagem mostra trechos de gravações em vídeo entregues à Justiça com depoimentos de eleitoras que teriam recebido favores do então candidato Juliano da Silva (PMDB), que venceu a eleição. As irregularidades incluiriam a distribuição de cestas básicas e furar a fila do SUS. O processo que investiga o caso está sob a responsabilidade da Justiça Eleitoral de Cruz Alta. Caso se confirmem as denúncias de crime eleitoral, o prefeito eleito pode ser cassado. Juliano da Silva e seu advogado não quiseram falar com a reportagem da Pampa sobre o caso.

A grande vitória política que está ao alcance do PT

O PT tem uma grande vitória política ao seu alcance no segundo turno das eleições municipais que ocorre neste domingo. E essa vitória não se resume à possibilidade de uma vitória de Fernando Haddad na maior cidade do país. No ano em que o conservadorismo e seus braços midiáticos sonhavam com a derrocada do partido, em meio ao julgamento do mensalão, o julgamento do voto popular subjugou o processo que pretendia colocá-lo de joelhos. O PT não só está fazendo a maior votação do país, como renovou seus quadros e está abrindo uma nova possibilidade de futuro para políticas que enfrentam grande resistência.

O Partido dos Trabalhadores (PT) tem uma grande vitória política ao seu alcance no segundo turno das eleições municipais que ocorre neste domingo (28). E essa vitória não se resume à possibilidade de uma consagradora vitória de Fernando Haddad em São Paulo. A sua dimensão maior é de natureza política. E não é nada pequena.

Há cerca de quatro meses, lideranças da oposição ao governo federal (se é que ela tem hoje nomes que mereçam esse título) e a maioria dos colunistas políticos dos jornalões e grandes redes de comunicação apostavam que o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) destroçaria o PT nas eleições municipais. Numa curiosa coincidência, o processo no Supremo adequou-se ao calendário eleitoral, especialmente no primeiro turno. A pressão era intensa e permanente para que o julgamento fosse concluído dentro do calendário eleitoral.

A frustração dessa expectativa foi total. O PT foi o partido mais votado no país, venceu 626 prefeituras (12% a mais do que em 2008), somando mais de 17 milhões de votos. Além disso, aumentou em 24% o número de vereadores e vereadoras, que chegou a 5.164. E levou 22 candidatos para disputar o segundo turno. Mas esse êxito não se resume aos números. O saldo político é muito mais significativo. Essas foram as eleições realizadas sob o contexto do “maior julgamento da história do Brasil”, como repetiram em uníssono colunistas políticos e lideranças da oposição. Ironicamente, o julgamento das urnas talvez seja, de fato, um dos mais impactantes da história do país, fortalecendo o projeto do partido que comanda a coalizão que governa o país há cerca de dez anos e impondo uma derrota categórica ao principal projeto político adversário representado até aqui pelo PSDB, seu fiel escudeiro DEM e pequeno elenco.

E essa derrota, é importante destacar, tem um caráter programático. É a derrota de uma agenda para o Brasil e a vitória do programa que vem sendo implementado na última década com ampla aprovação popular. Não é casual, portanto, que a oposição já comece a flertar com integrantes da própria base de apoio do governo federal numa tentativa de cooptar novos aliados para seu projeto que faz água por todos os lados.

Esse conjunto de fatores indica que o principal vitorioso nessa eleição não é nenhuma liderança individual, mas sim um partido que conseguiu sobreviver a um terremoto político, reelegeu seu projeto em nível nacional duas vezes e agora, como se não bastasse tudo isso, renova suas lideranças com quadros dirigentes que aliam capacidade intelectual com qualidade política.

Independente do resultado das urnas neste domingo, nomes como Fernando Haddad, Márcio Pochmann e Elmano de Freitas já representam a cara de um novo PT, fortalecido pela tempestade pela qual passou, pelas experiências de governo e, principalmente, pela possibilidade de futuro.

Essa possibilidade de futuro é representada por um conjunto de políticas que enfrentam grande resistência por parte do conservadorismo brasileiro: Reforma Política, nova regulamentação para o setor de comunicação, colocar a agenda ambiental no centro do debate sobre o padrão de desenvolvimento que queremos, fazer avançar a reforma agrária, fazer a educação pública brasileira dar um salto de qualidade, recuperar a ideia do Orçamento Participativo para aprofundar a democracia e abrir mais o Estado à participação cidadã, acelerar a integração política, econômica e cultural sulamericana, entre outras questões.

A “raça” petista não só não foi destruída, como sonhavam algumas vetustas lideranças oposicionistas que despontaram para o anonimato, como sai agora fortalecida no final do ano que era apontado como o do “fim do mundo”.

Mas as vitórias quantitativas do PT dependem de algumas condições para se confirmarem como vitórias políticas qualitativas. Uma delas diz respeito à vida orgânica cotidiana do partido que deve ser um espaço de pensamento e organização social, com a participação regular dos melhores quadros pensantes do país.

Uma das razões dos sucessos eleitorais do PT, que a oposição político-midiática teima em não reconhecer (para seu azar) é o profundo enraizamento social que o partido atingiu no país; a famosa capilaridade que faz com que o PT seja a principal referência partidária brasileira. Esse é um capital político acumulado extraordinário que pode ser multiplicado se não for usado apenas como espaço eleitoral, mas, fundamentalmente, como um espaço de defesa da democracia e do interesse público, de discussão do Brasil e da construção de uma sociedade que supere o paradigma mercantilista que empobrece as relações humanas, destrói a natureza e privatiza a vida e o saber.

A militância petista tem todos os motivos do mundo para estar orgulhosa e esperançosa neste final de ano. Afinal de contas, o julgamento do voto popular subjugou o processo que pretendia colocar o partido e sua principal liderança, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de joelhos. Não conseguiram.

Este é, obviamente, um texto otimista que não está considerando os inúmeros problemas – organizativos e programáticos – que precisam ser enfrentados no PT, assim como nos demais partidos da esquerda brasileira. Mas esse otimismo, mais do que justificável, é a expressão da voz do povo brasileiro que sai das urnas mais uma vez. A nossa democracia tem muito o que avançar, os problemas sociais ainda são grandes, mas o aprendizado político desses últimos anos abre uma extraordinária possibilidade de futuro. Que o PT e seus aliados tenham a sabedoria de ouvir a voz que sai das urnas. É uma voz de apoio, de sustentação, mas é também uma voz que quer avançar mais, participar mais e viver uma vida com mais orgulho e ousadia.

(*) Artigo publicado originalmente na Carta Maior.

O PT e a eleição municipal em Porto Alegre

  Por Paulo Muzell (*)

O PT sofreu nesta última eleição em Porto Alegre a sua maior derrota desde sua criação. Um analista pintou o episódio com tintas fortes, classificando-o como “derrota inclemente”. Os números não deixam qualquer dúvida: a candidatura majoritária fez menos de 10% dos votos válidos e foram eleitos apenas cinco vereadores. Em 1996 no “auge” de sua trajetória o PT de Porto Alegre obteve quase o triplo, conquistando 14 cadeiras na Câmara. O voto na legenda despencou: foram 110,9 mil em 1996 e apenas 14,7 mil em 2012, uma queda de 87%!

O paradoxo é que apesar do péssimo desempenho na capital, o PT cresceu no Estado e no Brasil: elegeu mais prefeitos e vereadores. É verdade que a veracidade desta afirmativa inicial só poderá ser melhor avaliada depois de apurado o resultado do segundo turno, pois nas maiores cidades o desempenho, à uma primeira vista, não indica avanços. Em nove das 26 capitais brasileiras as eleições foram definidas no primeiro turno. Em apenas uma, Goiânia o PT foi vencedor. Nas restantes dezessete capitais o partido disputa o segundo turno em seis: São Paulo, Salvador, Fortaleza, João Pessoa, Cuiabá e Rio Branco. Aqui no Estado o PT perdeu em quase todas grandes cidades, as exceções foram Canoas, Rio Grande, Alvorada e, talvez, Novo Hamburgo (resultado ainda dependendo de decisão judicial); em Pelotas disputa o segundo turno.

Como explicar o fato? Do que se ouve e do que se lê, dentre as causas mais mencionadas cita-se a perda de inserção nos movimentos sociais e comunitários; evasão dos melhores quadros que paulatinamente saíram da esfera municipal, transferindo-se para a área estadual ou federal. Há uma evidente redução da capacidade militante que resultou na diminuição do protagonismo no debate público da cidade. Uma causa mais específica, muito citada durante e especialmente após o episódio eleitoral seria a falta de capacidade da candidatura petista de explicar a confrontação e as diferenças entre as três candidaturas do “campo democrático-popular”. Até a opção pela candidatura própria – ao invés de uma coligação com o PC do B com Manuela na “cabeça” e o PT de vice – também é citada como um equívoco que dividiu a “esquerda”, favorecendo a candidatura de Fortunati. E por fim, a escolha de um candidato pouco conhecido na cidade, de baixa densidade eleitoral.

Essas e outras razões comumente citadas no meu entendimento apenas tangenciam o tema. É necessário que se faça uma breve análise histórica da disputa política na cidade nas três últimas décadas e do papel desempenhado pelo petismo porto-alegrense no processo para que se possa vislumbrar as verdadeiras causas.

Em primeiro lugar julgo um equívoco afirmar que o recente episódio eleitoral “confrontou três candidaturas do campo democrático-popular”.

A candidatura Fortunati tem suas origens numa aliança de centro-direita que teve como eixo central o PMDB de Simon, apoiado por um ressentido, um raivoso anti-petismo liderado por Viera da Cunha (PDT). A eles se uniram outros partidos de direita: o PP e o DEM legítimos representantes do conservadorismo mais tradicional, herdeiros legítimos da velha Arena e os “novos” partidos da “direita lúmpen”, cuja maior expressão é o PTB. Há, também, a adesão da tradicional “sopinha de letras”, representada por siglas inexpressivas que “correm ao botim para disputar alguns farelos”. Esta aliança, ampliada em 2012, na eleição de Fortunati, teve desde 2005 total e irrestrito respaldo da mídia conservadora, liderada pelo PRBS (Partido da RBS). Esse conglomerado da mídia dá total apoio a um governo municipal que desde 2005 tem sido muito “fiel e eficiente” na tarefa de “desatar nós” – entenda-se remover entraves do Plano Diretor – que “impediam ou atrasavam os mega empreendimentos do seu braço imobiliário”. No jargão jornalístico da empresa, “fundamentais para o crescimento e desenvolvimento da cidade”. Resumindo o governo Fo-Fo (Fogaça Fortunati) assegurou zoneamentosde uso mais permissivos, maiores alturas, índices de aproveitamento e taxas de ocupação, assegurando gordos lucros para o setor.

Observe-se que Fortunati reforçou a “ala direita” do seu governo trazendo para posições chaves de sua equipe Edmar Titukian e Ana Pellini, quadros que integraram o primeiro escalão do governo Yeda.

A candidatura Manuela até que largou bem, mas ao longo da campanha não mostrou fôlego, foi perdendo consistência. Pela segunda vez um partido pequeno – o PC do B – tenta dar o “grande salto” conquistando a prefeitura de uma grande capital. Tem à frente um quadro novo, fenômeno eleitoral em eleições proporcionais, mas que já tivera um fraco desempenho na sua primeira candidatura à Prefeitura em 2008. Não viabilizando a sua pretendida aliança com o PT, fragilizou-se sua candidatura. O PC do B repetiu o erro de 2008, buscou aliança à direita. Em 2008 com o PPS do Britto, em 2012 com a senadora Ana Amélia, que desconsiderou a posição do seu partido, o PP e assumiu a candidatura Manuela. Ficou claro que ela é do PRBS e não do PP. Manuela é uma candidata que de “novo” só tem a idade.Tentou demonstrar que era o moderno, não colou, o eleitor não acreditou. A candidatura tinha propostas vagas sobre os temas da cidade e não partiu para o confronto ideológico com a candidatura Fortunati, que saiu ilesa, sem danos dos debates. A candidata me deu a clara impressão de se ressentir da falta de um conhecimento mais sólido, restringindo-se a repetir falas inconsistentes elaboradas por um marketing uma assessoria política conservadora, pra lá de convencional. Não podia dar e não deu certo.

A candidatura Villaverde também tinha tudo para não dar cento. Candidato pouco conhecido de um partido em rota francamente descendente em Porto Alegre. E que se defrontou com uma grande coligação de partidos, reforçada por novas adesões, tentando a reeleição de um candidato com forte apoio da mídia. Mídia que blindou seus oito anos de governo. Mais de uma dezenas de escândalos, denúncias de desvios e de favorecimentos, recebimento de propinas – que resultaram, inclusive, no suspeito assassinato de uma importante figura do governo – ocorreram sem que os jornais e as tevês locais concedessem espaços de veiculação que correspondessem à importância dos fatos. Um constrangedor silêncio tumular que perdurou de 2005 a 2012.

O PT cresceu até o ano 2000 porque tinha um projeto para Porto Alegre resumido no seu conhecido e repetido slogan: “coragem de mudar”. Inversão de prioridades, fim das mordomias e do nepotismo, incentivo à participação popular, justiça social e tributária resumida no slogan: quem tem mais paga mais (impostos), quem tem menos recebe mais (salários, serviços e obras). Especialmente a partir de 2001 começa o declínio do ciclo petista. A conquista do governo estadual em 1998 e a vitória de Lula em 2002 trazem como conseqüência a migração de quadros históricos e qualificados para as esferas administrativas estadual e federal. A crise econômica de 2002 (último ano do governo FHC) traz o desequilíbrio orçamentário-financeiro às contas municipais. Pioram as práticas políticas, há claras evidências do “cansaço dos metais”. O resultado foi a primeira vitória de Fogaça em 2004.

Nos oito anos seguintes, na oposição, o PT de Porto Alegre, bancada e partido perderam consistência, fazendo quase sempre uma oposição tíbia, pontual, ao governo. Um governo mau gestor e marcado por graves irregularidades.. Um governo que destruiu o que restava do planejamento urbano e o “esquartejou plano diretor da cidade”. Um governo servil e submisso aos interesses da construção civil. Um governo que privatizou equipamentos e espaços públicos (Araújo Viana e Largo Glenio Peres). O PT pouco criticou nos oito anos e, em conseqüência, calou também na campanha, onde evitou a crítica e o debate político e ideológico mais forte. Calara em 2008, na desastrosa campanha de Maria do Rosário e repetiu o erro, calou novamente na campanha em 2012. Mas calou, sobretudo, por não ter unidade programática, por ter perdido a convicção ideológica do passado.

Terá o PT de Porto Alegre compreendido as lições desta grande derrota eleitoral? Terá o partido, ainda, reservas de energia e um mínimo de consistência ideológica que permita a necessária mudança de rumos? Há condições de construir um novo projeto capaz de reconquistar a hegemonia perdida na cidade? Tarefa extremamente difícil sem que seja alterada a atual correlação de forças internas do partido. Mas vital para a sua sobrevivência.

A derrota inclemente do PT em Porto Alegre

 Por Jeferson Miola

“O pensamento racional claramente aconselhava os troianos a suspeitarem de um ardil quando acordaram verificando que todo o exército grego desaparecera, deixando apenas estranho e monstruoso prodígio à frente das muralhas da cidade. O procedimento racional deveria ter sido, ao menos, examinar o cavalo em busca de inimigos, tal como foram veementemente aconselhados por Cápis o Velho, Laocoonte e Cassandra. Essa alternativa esteve presente e bem viável, mas foi posta de lado em favor da autodestruição.” (Barbara Tuchman, em “A marcha da insensatez”)

Barbara Tuchman, em seu memorável livro “A marcha da insensatez”, desvenda a tendência paradoxal que possuem autoridades, políticos e instituições de produzirem políticas contraproducentes que, ao fim, contrariam seus próprios interesses.

Como parte do exaustivo apanhado histórico que realiza, a autora estadunidense examina desde a Guerra de Tróia, passando pelos papados da Igreja Católica na Idade Média, até os anos 1970, em que analisa as armadilhas que os EUA produziram contra si mesmo com a estratégia de guerrar no Vietnã.

Em suas brilhantes análises, a autora demonstra como decisões desatinadas e carentes de racionalidade em algumas realidades produziram destruição e tragédias. Diz ela, com uma crítica lancinante: “sendo óbvio que a perseguição de desvantagem após desvantagem é algo irracional, concluímos, em conseqüência, que o repúdio da razão é a primeira característica da insensatez. As sucessivas medidas adotadas com respeito tanto às colônias americanas como quanto ao Vietnã eram tão nitidamente baseadas em atitudes preconceituosas e tão perfeitamente contrárias ao senso comum, às inferências racionais e aos conselhos judiciosos, que, como insensatez, falam por si mesmas”.

As escolhas do PT para as eleições municipais de Porto Alegre merecem ser vistas sob o prisma de uma verdadeira “marcha da insensatez”. O PT em Porto Alegre não sofreu uma derrota qualquer; foi uma derrota inclemente. E não foi uma derrota de um PT qualquer, mas a derrota de um PT que acumulou a experiência de governar a cidade por 16 anos e que construiu importantes referências para o país e para o mundo de resistências e de construção de alternativas democráticas ao neoliberalismo.

O desempenho em Porto Alegre não guarda absolutamente qualquer coerência com o padrão de desempenho do Partido no Rio Grande do Sul e no Brasil. Tanto no estado como no país, foi a sigla mais votada, a que mais ampliou o número de prefeituras conquistadas e a que teve o maior incremento do número de vereadores eleitos.

Desde sua fundação, em 1980, o PT participou com candidatura própria de todas as eleições municipais em Porto Alegre [1]. Em 2012, o PT alcançou o pior desempenho em toda essa história eleitoral na cidade. Até mesmo pior que da primeira vez que disputou o pleito, em 1985 – há 27 anos, nos primórdios da construção partidária. O candidato do PT no recente pleito fez apenas 9,64%, o que significam 103.039 votos a menos que na eleição anterior e 194.442 votos a menos que o desempenho histórico médio do PT. [Tabela I]

O PT também teve o pior desempenho para a Câmara de Vereadores de PoA, elegendo a menor bancada desde 1988 [2], reduzindo-a de 7 para 5 vereadores. E igualmente viu diminuir 27.418 votos da legenda e 17.338 votos nominais de candidatos a vereador em comparação com a eleição passada. [Tabela II]

Das oito eleições a prefeito municipal em Porto Alegre nos últimos 24 anos [3], é a primeira vez que o PT fica excluído do segundo turno, e a única vez em que o candidato a prefeito do PT faz menos votos que os do Partido para a Câmara de Vereadores. É uma evidência de que menos eleitores dos vereadores votaram no candidato a prefeito. Por isso, não seria razoável validar a visão de que “ ‘quando se ganha, é mérito do Indivíduo; e quando se perde, a responsabilidade é do Partido’ ”.

Em 2012, das 133 cidades do Brasil com mais de 200 mil habitantes, o PT disputou eleições com candidatos próprios em 87 delas. Nessas 87 localidades, apenas 8 candidaturas tiveram desempenho inferior a 10%, e a de PoA foi uma delas. Com o percentual de 9,64, somente conseguiu ficar à frente das candidaturas do PT em Campina Grande, PB [1,17%], Vila Velha, ES [2,33%], Barueri, SP [2,36%], Imperatriz, MA [2,83%], Campo Grande, MS [4,87%], Ananindeua, PA [5,24%] e Guarujá, SP [5,35%]. [ver tabela ao final deste artigo]

Com tais resultados, o PT de Porto Alegre foi o principal desvio do padrão nacional e estadual, mesmo no contexto de um ambiente eleitoral submetido a influências relativamente idênticas em todo o país. Não há um só fenômeno local que pudesse ser relacionado com esta situação. A conjuntura eleitoral foi influenciada por uma pluralidade de fatores, tanto intrínsecos quanto exteriores à candidatura do PT. Com pesos e ênfases diferenciados, acabaram por determinar o resultado final.

A exploração teledramatúrgica do chamado “mensalão”, por exemplo, ocorreu de norte a sul do Brasil, de modo que as consequências eleitorais dessa questão, assim como de outras questões espinhosas para o PT, teriam sido relativamente similares em todo o país. Até se poderia presumir que em São Paulo o efeito possa ter sido mais drástico, mas, mesmo assim, a candidatura do PT, que iniciou o processo eleitoral com menos de 3%, disputará o segundo turno com reais condições de vitória.

Por outro lado, não existem indicadores de que o PT em PoA tenha deixado de ser preferido por uma considerável parcela da população [entre 22% e 25% do eleitorado]. Isso significa que 1 a cada 4 eleitores preferem o PT, mas somente 1 entre 10 eleitores votaram no candidato do Partido. Isso significa que o candidato do PT foi rejeitado.

O que sim se constata como fenômeno importante no campo da esquerda é o crescimento do PSOL [4]. Apesar da prática sectária e do “lacerdismo moralista”, parece se beneficiar da convergência da política ao centro, atraindo eleitores petistas [e de outras siglas] com discursos e propostas de esquerda. Esse parece ser um fenômeno nacional, que é replicado no RS.

Neste cenário, cabe perguntar: que outros fatores explicam a retumbante derrota do PT em Porto Alegre? Seria improdutivo e arrogante menosprezar, neste sentido, os erros cometidos pelo próprio PT no município.

A inclemente derrota do PT em PoA é o ponto culminante de uma trajetória descendente que se iniciou em 2000, quando houve uma primeira fratura interna. Nas eleições de 2008 e 2012 o PT sofreu uma erosão eleitoral na cidade. Assim como nas eleições de 2008, em 2012 o desempenho partidário ficou muito abaixo da média histórica do período 1985/2008 em todos os quesitos.

De outra parte, a derrota deste ano condensa vários elementos da crise em que se encontra o PT de PoA. É uma crise que vem de longa data, determinada pela diminuição da capacidade dirigente e militante; pela perda de inserção nos movimentos sociais e comunitários e, não menos importante, pela debilidade organizativa e de direção. Se assiste à perda de organicidade e o comprometimento da capacidade de intervenção e de iniciativa na realidade política e no debate público na cidade.

Também contribui para a diminuição da influência partidária o crescimento da hegemonia dos partidos tradicionais, que se mimetizaram programaticamente. Com oportunismo, distorcem a realidade e proclamam a continuidade das políticas gestadas pelo PT. Aplicam o conhecido truque eleitoral de “manter o que é bom e mudar o que está mal”.

Todos estes fatores pesaram na determinação da derrota, é verdade. Adicionalmente, entretanto, deve-se reconhecer que a lógica partidária de instrumentalização da política com o “repúdio da razão” está na raiz desta crise. Recordemos Barbara Tuchman: “Nas operações governamentais, a impotência da razão é algo muito grave, porque afeta tudo aquilo que se encontra ao alcance — cidadãos, sociedade, civilização. Era problema que preocupava profundamente aos gregos, iniciadores do pensamento ocidental. Eurípedes, em suas últimas obras, concorda em que o mistério do erro moral e da insensatez não pode ser atribuído a causas externas, à peçonha de Ate — como se fosse uma aranha — ou a qualquer intervenção dos deuses. Homens e mulheres têm que aceitar esse ônus como parte da condição humana”.

O PT parece não ter aprendido com os fracassos de eleições anteriores, quando a luta interna por poder e por destruição dos adversários internos – em claro “repúdio da razão” – foi desenvolvida cegamente, acima da realidade e desprezando a perspectiva estratégica. As experiências das prévias partidárias para a escolha de candidaturas sempre foram traumáticas, porque baseadas na confrontação pura e simples entre campos internos, em alianças artificiais, em meras disputas por poder.

O processo para a definição da candidatura do PT em 2012 repetiu os equívocos do passado. Baseou-se no critério de maiorias artificiais, com maquinações e arranjos feitos da noite para o dia e sem bases programáticas. Este método não leva em conta que a sociedade, especialmente os setores simpáticos ao PT, presta muita atenção nas escolhas que o Partido faz. E que, com sabedoria, apresenta a fatura amarga ante escolhas equivocadas.

No “reino das maiorias” não entra a razão e a análise diligente da realidade. Prevalece o hegemonismo apoiado no cálculo para o controle da máquina partidária ou governamental, quando conquistada. Repetindo novamente Barbara Tuchman: “Voltamos a Burke: ‘Não é raro que a magnanimidade em política se torna a verdadeira sabedoria; um grande império e mentalidades tacanhas não se combinam bem’. O problema está em se reconhecer quando a persistência no erro se torna autodestruidora”.

As escolhas em Porto Alegre, que finalmente se demonstraram equivocadas, apresentaram um Partido confuso, sem política, sem programa, sem força de convocação militante e social. A lógica das correntes e a visão particularista prevaleceram sobre o conjunto partidário. O quadro eleitoral evidenciava que seria uma eleição difícil e, portanto, que exigiria da candidatura do PT muito conhecimento público, densidade eleitoral e uma capacidade de explicar com facilidade de compreensão algo que era complexo: a confrontação de três candidaturas do campo democrático-popular.

Nesta condição, como singularizar a candidatura do PT, como apresentar as diferenças e disputar a consciência do povo? Ao contrário da diferenciação, ficou evidenciada a pasteurização. Com a “semelhança” dos campos pró-Dilma e pró-Tarso, não se soube explorar eficientemente a vinculação preferencial do PT com os governos estadual e nacional. Esse fenômeno explica porque os votos da Manuela migraram para o Fortunati [e não para o Villa], mas não foram para a oposição conservadora aos governos Tarso e Dilma.

Não seria correto atribuir o fracasso à tática eleitoral. A decisão sobre a candidatura própria foi unânime no PT; todas as correntes e lideranças partidárias defenderam esta posição. Candidatura própria não significa, em si mesmo, garantia de vitória. Em toda a história do PT de PoA, o Partido sempre se apresentou com candidatura própria. E neste período o Partido sofreu várias derrotas – todas elas, todavia, eleitorais. A derrota de 2012, contudo, foi uma hecatombe política, uma derrota política humilhante.

A pregação de que o PT deveria ter abdicado da candidatura própria para ser vice de um dos dois candidatos não tem consistência. Por um lado, porque a candidatura do prefeito eleito articulou o campo conservador e dos setores anti-petistas, inviabilizando uma aliança com o PT. A candidatura do PCdoB, por outro lado, comprovou que não “havia chegado a hora” da novidade sustentada em forte marketing eleitoral.

A aplicação da tática eleitoral – ou seja, a candidatura, a estratégia e a política definidas pela maioria partidária – além de se basear em métodos esgotados, revelou-se inadequada às necessidades de um duro enfrentamento eleitoral. A eleição comprovou que se o PT tivesse uma candidatura mais conhecida e identificada com o legado dos governos do Partido na cidade, os resultados teriam sido totalmente diferentes.

Seria muita ingenuidade crer que qualquer que fosse a candidatura do PT o resultado seria o mesmo. Em 2002, por exemplo, para a definição do candidato o PT que disputaria a Presidência da República, o Partido foi constrangido a realizar uma incompreensível prévia entre Suplicy e Lula. Alguém duvida que, se o candidato não fosse Lula, o resultado teria sido outro?

Diante dessa derrota inclemente, o PT não pode, outra vez, encontrar um refúgio confortável no silêncio e na negação do fracasso. Novamente vale se socorrer de Tuchman: “A paralisação mental ou estagnação — manutenção intacta pelos governantes e estrategistas políticos das idéias com que começaram — é terreno fértil para a insensatez. Montezuma se constitui em exemplo fatal e trágico”.

Ou o PT aprende com os erros, ou as derrotas continuarão sendo o destino e a fonte da autodestruição. Como também adverte Barbara, “a política fundada em erros multiplica-se, jamais regride”.

O PT em PoA enfrenta uma realidade crítica. Não menos complexa que outros momentos da história de construção partidária. Com a grandeza das suas conquistas, com sua rica história, com sua honrosa tradição e com a dedicação de seus militantes, saberá superar esta situação. O PT é muito maior que os erros, por mais comprometedores que possam ser.

NOTAS
[1] Durante a ditadura militar, ficou proibido até o ano de 1985 a realização de eleições nas capitais, áreas de bases militares, de barragens de usinas elétricas e regiões de fronteira, consideradas áreas de segurança nacional presumivelmente passíveis de “ataques terroristas”. Os prefeitos municipais dessas cidades eram então indicados pelos militares normalmente dentre políticos da ARENA – cuja sigla sucedânea, depois de várias mudanças, é o atual PP. Em 1985 foi realizada a primeira eleição direta em Porto Alegre depois da ditadura.

[2] A primeira participação do PT em eleições para a Câmara de Vereadores foi em 1982, dois anos após sua fundação. Naquele ano, pelas razões assinaladas na nota anterior, somente se realizavam eleições proporcionais nas áreas de segurança nacional. Em 1982, o PT elegeu um vereador para a Câmara de PoA.

[3] Além de 1985, foram realizadas eleições para prefeito municipal de PoA em 1988, 1992, 1996, 2000, 2004, 2008 e 2012. A partir de 1996, as eleições nas capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores passaram a ter dois turnos eleitorais nos casos em que o candidato vencedor não atinja 50% + 1 dos votos válidos.

[4] O PSOL manteve os dois vereadores eleitos em 2008 e teve o vereador mais votado desta eleição.

Sindicato critica o uso político da Procempa

 O Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados do Rio Grande do Sul (Sindppd) critica hoje o envolvimento de um CC da Procempa (Companhia de Processamento de Dados de Porto Alegre) em denúncias de irregularidades na campanha eleitoral na capital. Citando reportagem da rádio Gaúcha divulgada terça-feira (2), o Sindicato fala sobre o envolvimento de Antônio Olímpio Guimarães Filho (Toninho), CC da Procempa que atualmente ocupa o cargo de chefe da assessoria comunitária da Secretaria Municipal de Obras e Viação (SMOV). A nota divulgada no site do sindicato destaca que:

“Toninho e o conselheiro do Orçamento Participativo, Maurício Melo, teriam se reunido com moradores do bairro Rubem Berta (Zona Norte) na quarta-feira da semana passada, para anunciar o início do asfaltamento de rua no núcleo 19. De acordo com a denúncia, Antônio Olímpio e Melo se apresentaram como amigos do ex-secretário da SMOV e candidato a vereador Cássio Trogildo, do PTB. Pediram apoio ao petebista e para o candidato à reeleição à prefeitura de Porto Alegre, José Fortunati (PDT)”.

O caso está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual.

Na avaliação do Sindicato, a Procempa vem sendo utilizada como “cabide de emprego para amigos e correligionários políticos” dos atuais ocupantes da Prefeitura de Porto Alegre:

“Antônio Olímpio, o Toninho, consta na folha de pagamento da Procempa com um salário robusto de R$ 14.081,18. O caso dele é semelhante ao de Ana Maria Pellini (já noticiado aqui no site do Sindppd/RS), que também é uma CC da Procempa, mas está alocada para a Prefeitura de Porto Alegre como Coordenadora do Gabinete de Articulação Institucional. Já o salário que ela recebe da Procempa é um pouco mais alto: R$ 17.378,26. O que Pellini faz exatamente, a grande maioria da população da Capital não sabe – a única certeza que temos é que as atividades dela não têm nada a ver com os serviços de TI (Tecnologia da Informação) prestados pela empresa. Assim como o Toninho, que sendo assessor comunitário da SMOV está longe das atividades fins da Procempa”.

Cargos em comissão, denuncia ainda o sindicato, estão sendo usados como “moeda de barganha política, em detrimento dos funcionários de carreira da empresa e prejudicando a população portoalegrense – que vê o dinheiro público sendo gasto não na expansão e na qualificação dos serviços de TI da Procempa, mas para sustentar funções que nem mesmo são desempenhadas na empresa”.

As avaliações de Fortunati, Tarso e Dilma, e o comportamento do eleitorado em Porto Alegre

 Há um dado interessante que diz respeito às diferenças de avaliação entre os governos Dilma, Tarso Genro e Fortunati. As últimas pesquisas apontam o governo do Estado com notas inferiores às destinadas aos governos federal e municipal. Tomemos, por exemplo, o caso da última pesquisa Vox Populi, encomendada pela Rede Bandeirantes. Nela, o governo Fortunati tem 11% de ótimo, 48% de bom e 28% de regular positivo. O governo Dilma tem números similares, com 14% de ótimo, 42% de bom e 28% de regular positivo. Já o governo Tarso tem 5% de ótimo, 31% de bom e 38% de regular positivo. Os índices de aprovação do governo estadual aumentam no interior. O maior índice de descontentes parece se concentrar mais em Porto Alegre mesmo. Neste cenário, o governo do Estado aparece um tanto “espremido” entre um governo municipal com alta exposição em função da campanha eleitoral e o governo federal que ostenta altos níveis de aprovação em todo o país.

No caso do governo Tarso, cabe observar os problemas da segurança pública voltaram com (muita) força a ser uma pauta diária nos meios de comunicação. Isso pode estar contribuindo para a queda avaliação do governo em Porto Alegre, embora as pesquisas eleitorais não estejam trabalhando com esse tipo de segmentação. O tema do piso do magistério é outro possível fator de desgaste. Por outro lado, o quadro não chega a ser tão grave uma vez que o somatório de ótimo, bom e regular positivo do governo estadual chega a 74%. Considerando a média dos últimos governos, é um número razoável. Embora limitados, os números dessas pesquisas recomendam que o governo Tarso chegue ao final do seu segundo ano com uma marca mais visível para o conjunto da população.

Considerando os baixos índices (em relação à sua própria história) que o PT vem apresentando nas pesquisas sobre a disputa para a prefeitura em Porto Alegre, há um dado paradoxal, confirmado pela pesquisa Vox Populi citada aqui. Quando perguntados sobre qual sua simpatia partidária, o PT é, disparado, o partido preferido. Nesta pesquisa com 1.200 pessoas, o PT lidera com 13%, seguido de longe pelo PDT, com 4%, o PMDB com 3% e o PSDB com apenas 2%. Essa preferência partidária, porém, não se expressa na disputa na capital.

Em entrevista ao Jornal do Comércio, o cientista político André Marenco, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), identifica um quadro de estabilidade no comportamento do eleitorado portoalegrense em relação à última eleição municipal. Ele resume assim esse quadro:

Temos um quadro praticamente congelado em relação às eleições de 2008. Na pesquisa do Ibope, e as posteriores acentuaram essa tendência, Fortunati tem 45%, ou seja, ele está basicamente batendo em cima daquele eleitorado que foi de Fogaça. Na eleição de 2008, Maria do Rosário (PT) fez 22,7%, e Manuela, 15,3%. Somadas as duas candidaturas, chegam a 38%. Se somarmos, na pesquisa Ibope atual, Manuela, que tem 28%, e Villaverde, que tem 10%, temos 38%. Fortunati recupera os eleitores que, no início da campanha, de alguma forma, haviam migrado para Manuela, eleitores que eram de Fogaça, desta mesma administração. E o PT e Manuela estão basicamente no eleitorado que já foi deles em 2008. Isso mostra o grau de estabilidade de comportamento eleitoral e de previsibilidade em Porto Alegre.

A existência de um segundo turno dependerá da capacidade das campanhas de Manuela e Villaverde fazer esse cenário se mexer alguns graus até o final desta semana.

Correio do Povo: Ex-secretários de Fortunati têm maiores doações de construtoras e imobiliárias

 Por Paulo Muzell

Desde que foi elaborado e aprovado o primeiro Plano Diretor (Lei 2.330, de 1959) de Porto Alegre nenhum governo municipal foi tão “generoso e compreensivo” com os interesses da indústria da construção civil na cidade. Em mais de uma dezena de artigos, neste mesmo espaço, detalhamos os inúmeros episódios que resultaram na “destruição” do planejamento urbano de Porto Alegre através da aprovação de leis criando regimes urbanísticos “especiais”, aumentando alturas, taxas de ocupação, índices de aproveitamento e tornando zoneamentos de uso mais “permissivos”. Em nome do “progresso”, do “desenvolvimento”, o governo Fo-Fo (Fogaça-Fortunati) concedeu um sem número de vantagens e “benesses” sem que fossem, também, exigidas as necessárias contrapartidas – investimento privados em obras viárias ou outras, mitigadoras dos efeitos nocivos ao meio ambiente ou à vida no entorno que decorrem da realização de grandes empreendimentos. A implantação da Arena tricolor é um exemplo bem ilustrativo.

A extrema receptividade às iniciativas do setor empresarial, a rapidez com que encaminha suas demandas, sem “filtro crítico” ou, pelo menos um olhar mais atento é, sem qualquer dúvida, uma marca registrada do governo Fo-Fo.

Nesta final reta da campanha, um levantamento da origem dos recursos que estão dando suporte às campanhas proporcionais (de vereadores), feito pelo jornal Correio do Povo (página 6), informa que os ex-secretários municipais Márcio Bins Ely (PDT), Cássio Trogildo (PTB) e Valter Nagelstein (PMDB) foram os mais bem aquinhoados com doações das construtoras e empresas imobiliárias da cidade. Bins Ely há poucos meses deixou o cargo de Secretário do Planejamento Municipal e voltou à Câmara para concorrer à reeleição. Ele era um nome chave nos debates do Plano Diretor. Cássio Trogildo foi o ex-Secretário de Obras, num ano de assinatura de inúmeros e grandes contratos de obras da Copa. E Valter Nagelstein, também vereador, foi secretário da SMIC, órgão que licencia a fiscaliza a atividade econômica na cidade. A lista dos doadores é longa: Melnick Empreendimentos, Alcea Empreendimentos Imobiliários, Bolognesi Empreendimentos, Incorporadora Zaffari, Bourbon Empreendimentos Imobiliários, Beralv Participações, Rotta Ely Construções, são apenas algumas das inúmeras empresas que financiam os três candidatos.

Entrevistado pelo Correio do Povo, o promotor Rodrigo López Zílio afirmou que a atual legislação eleitoral não inclui nas fontes vedadas de financiamento de campanha as empresas que mantém contrato com o poder público, o que na sua opinião é um equívoco Na sua opinião tal prática deveria ser considerada ilícita.

Chafarizes bizarros entram na campanha eleitoral alagando comício do PT

A coordenação da candidatura de Adão Villaverde (PT) à prefeitura de Porto Alegre divulgou nota oficial manifestando repúdio público ao episódio ocorrido na noite de quinta-feira, durante o comício do candidato, realizado no largo Glênio Peres, no centro da capital gaúcha. No meio do comício, chafarizes instalados no local foram acionados “causando prejuízos materiais e impedindo que centenas de pessoas continuassem participando do ato público”, diz a nota. Além dos participantes do comício, a água atingiu ambulantes que trabalhavam no local e que também tiveram prejuízo.

“A ativação dos chafarizes é condenável sob todos os aspectos e vai contra o acordo firmado junto à Justiça Eleitoral para assegurar a utilização do Largo Glênio Peres por todos os partidos”, afirma ainda a nota. O candidato Adão Villaverde exigiu uma manifestação pública do atual prefeito de Porto Alegre, candidato à reeleição: “Se o candidato José Fortunati ou a coordenação de sua campanha não vierem a público se retratar iremos caracterizar o inaceitável ato como uma ação arbitrária e autoritária, que lembra em muito o que a ditadura militar fazia com aqueles que ousavam ir contra seus mandos e desmandos”.

 O coordenador da campanha da Frente Popular, Gerson Almeida, anunciou que a coligação formada por PT, PV, PR, PTC, PPL, PTdoB e PRTB tomará “todas as medidas cabíveis ainda nesta sexta-feira”. “Não podemos aceitar esse tipo de postura, um golpe baixo que descaracteriza e diminui a disputa política democrática, pois a máquina pública não pode ser usada a favor e, tampouco, contra qualquer candidatura”. Gerson Almeida também estranhou que o fato tenha ocorrido horas depois de ingresso na Justiça de ação de investigação judicial eleitoral sobre o uso da máquina pública em favor da coligação “Por Amor a Porto Alegre”, de Fortunati.

Para além da lamentável agressão aos participantes do comício e trabalhadores ambulantes, chamou a atenção também a bizarrice do conjunto de “chafarizes” instalados no centro de um tradicional espaço de manifestações públicas na cidade. Como mostram as fotos tiradas no comício, mais parecem vazamentos no meio do Largo Glênio Peres.

MP representa contra prefeito de Caxias e pede cassação de registro de candidato Alceu Barbosa Velho

Do site do Ministério Público Estadual

Com base em procedimento administrativo instaurado, o Ministério Público de Caxias do Sul ingressou na Justiça Eleitoral com representação “por condutas vedadas” contra o atual Prefeito do Município, José Ivo Sartori; contra os candidatos a Prefeito, Alceu Barbosa Velho, e a Vice-Prefeito, Antônio Roque Feldmann; e contra a Coligação “Caxias para Todos”. Além de aplicação de multas, o Promotor de Justiça Rafael Festa pede a cassação dos registros dos postulantes ao Executivo. Em sendo eleitos, também solicita que sejam negados ou cassados os diplomas.

Conforme foi apurado nos autos do procedimento, os candidatos e a coligação foram beneficiados pela cedência e uso de bens públicos pertencentes ao Município e, ainda, pela cedência ou uso de serviços de servidores públicos ou equiparados, mediante participação direta do Prefeito. Tudo em prol da campanha eleitoral dos candidatos e da coligação, inclusive com utilização em propaganda eleitoral veiculada no espaço obrigatório gratuito, configurando violação da proibição de condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre os candidatos.

Como provas, o MP apresentou ao Judiciário CDs contendo os programas veiculados nos dias 22 e 24 de agosto e 14 de setembro, em que há imagens internas da Barragem das Marrecas (ainda em construção), de uma Estação de Tratamento de Esgoto, e de uma Unidade Básica de Saúde – incluindo a presença de um médico atendendo uma mulher com seu filho. Também foram exibidas imagens internas de uma creche, em que aparecem crianças, além de uma fotografia de inauguração de obra pública, entre outros.

De acordo com a representação, as condutas não se limitam a imagens externas de prédios ou bens públicos, nem mesmo a imagens internas de local com acesso geral a qualquer cidadão ou a qualquer candidato. “Ou seja, as condutas relatadas foram desenvolvidas em locais de acesso restrito e com utilização de servidores públicos como figurantes ativos e participativos da propaganda”, disse o Promotor.

O MP está requerendo, preliminarmente, que seja solicitado, com urgência, aos órgãos de controle, tais como Câmara de Vereadores e Tribunais de Contas do Estado e da União, que informem sobre eventual envolvimento de recursos (financeiros ou de outra ordem) públicos, além dos municipais, nos projetos, consecução e funcionamento dos locais, obras ou serviços mencionados na representação e utilizados na elaboração da propaganda eleitoral.

O debate ausente na eleição em Porto Alegre

Uma ausência chamou a atenção no debate entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre, na noite desta quinta-feira, na TV-COM (RBS). As principais candidaturas de oposição (à esquerda) ao atual prefeito José Fortunati (PDT) não fizeram referência a alguns temas centrais no conceito de cidade em disputa, tais como a privatização de espaços públicos, o avanço furioso do setor imobiliário e a expulsão de setores pobres da população para a periferia da cidade. O grosso do debate, como vem ocorrendo até aqui, gira em torno de saber quem é o mais competente ou a mais competente, quem é o melhor gestor ou gestora, quem tem melhores relações com os governos estadual e federal. Não há um debate sobre um conceito de cidade.

As críticas a Fortunati concentram-se na área da saúde, pois essa é a área apontada nas pesquisas qualitativas como a mais problemática aos olhos da população. Segurança é outra. Mas os debates, nestas áreas, concentram-se basicamente em saber quem é mais competente para administrar ou, pior ainda, em questões de paternidade de obras. Este cenário representa uma grande vantagem para Fortunati, pois foge de temas problemáticos para a atual gestão. Enquanto o debate girar em torno de saber quem é mais competente ou quem trouxe o metrô ou a Copa para Porto Alegre, Fortunati nadará de braçada.

Disputa política, na melhor acepção da expressão (da qual a disputa eleitoral é uma modalidade, não a única), não é disputa de biografias ou de competências individuais. Esse é mais um sintoma da invasão indevida da iniciativa privada e do mercado na política. Obviamente, entre os governantes, há gestores melhores e gestores piores. Mas o que faz diferença são as escolhas políticas sobre um determinado modelo de sociedade, ou de cidade, agora no caso das eleições municipais.

Quais são os interesses que estão por trás das sucessivas alterações e “flexibilizações” no Plano Diretor de Porto Alegre? Quais são as normas ambientais que estão sendo desrespeitadas ou “flexibilizadas” para a construção de condomínios de luxo na zona sul da cidade? Qual o custo ambiental dessa expansão imobiliária? Quantas pessoas estão sendo removidas para áreas de periferia da cidade em função de obras da Copa? Elas estão de acordo com isso? Se não estão, onde está a voz dessas pessoas na campanha? Quantos espaços públicos foram entregues à iniciativa privada nos últimos anos e a que custo?

Fortunati disse no debate desta quinta-feira que o Orçamento Participativo foi fortalecido em sua gestão. Esses temas estão sendo debatidos nas reuniões do OP? Onde a cidade está sendo debatida? Na Câmara de Vereadores? Quem tem conhecimento das recentes alterações no Plano Diretor da cidade para “agilizar” as obras da Copa? O que significa exatamente essa “agilização”? Qual interesse está prevalecendo nestas mudanças: o público ou interesses privados? Não dá para debater tais questões centrando o discurso em problemas pontuais neste ou naquele setor ou promovendo duelos de competências individuais sobre quem é melhor gestor (a), quem é mais competente, quem vai reduzir o número de CCs ou outras particularidades do gênero.

Seria interessante um debate entre os candidatos que abordasse somente a questão imobiliária na cidade: o avanço de condomínios sobre morros e áreas verdes, a remoção de famílias para a periferia, a situação dos moradores de rua, a política para o solo urbano, o financiamento de campanhas por empresas privadas do setor. Já estamos na reta final da campanha, mas esse é um debate permanente, que ultrapassa o ambiente puramente eleitoral. Não faria mal que ele passasse a frequentar, um pouco ao menos, o debate entre os candidatos até o dia da votação. Um pouco menos de duelos entre candidatos a gerentes, um pouco mais de debate político em defesa do interesse público contra a voracidade privatista na cidade.

Candidato do PSDB em São Leopoldo é indiciado pela Polícia na Operação Cosa Nostra

 O candidato do PSDB à prefeitura de São Leopoldo, o médico Aníbal Moacir da Silva, foi indiciado pela Polícia Civil, sob a acusação de cobrança indevida de pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na manhã de terça-feira, o responsável pela Delegacia Fazendária do Departamento de Investigações Criminais (DEIC), Joebert Nunes, confirmou, em entrevista à rádio Gaúcha, que dois médicos do Hospital Centenário haviam sido indiciados por cobrarem de pacientes que eram atendidos pelo SUS, o que configuraria crime de corrupção passiva. O inquérito, resultado das investigações da Operação Cosa Nostra, já foi encaminhado ao Judiciário. Em nota oficial, o candidato tucano classificou o indiciamento como uma “manobra eleitoreira” e se disse vítima de ataques do PT.

Fortunati faz acusações falsas e tenta intimidar RS Urgente

 O prefeito de Porto Alegre e candidato à reeleição José Fortunati (PDT) registrou hoje um Boletim de Ocorrência (nº 13809/2012) na 1ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, acusando-me de “espalhar denúncias na rede social contra a primeira-dama Regina Becker”, segundo nota divulgada nesta quinta-feira pela coligação “Por Amor a Porto Alegre”. Conforme a mesma nota, Fortunati me acusa de “atacar sua esposa”, acusando-a de ser um “cargo de confiança fantasma na Assembleia Legislativa”.

A acusação é falsa e caluniosa, representando, além disso, uma tentativa de intimidação e de ameaça à liberdade de expressão. O texto em questão é um artigo de opinião de Paulo Muzell (“Caça aos fantasmas” de ZH: O que o jornal não disse), publicado no dia 17 de agosto de 2012, que não acusa a primeira dama Regina Becker de ser “cargo de confiança fantasma”, mas simplesmente questiona o suposto acúmulo de trabalhos desempenhadas pela primeira dama na Prefeitura, amplamente divulgadas no site da instituição, e na Assembleia Legislativa. A “caça aos fantasmas” mencionada no artigo se refere a uma série de reportagens publicadas pelo jornal Zero Hora. É falsa também a acusação de que estaria “espalhando a acusação” pelas redes sociais. A falsidade é, portanto, dupla: acusa-me de dizer algo que eu não disse e acusa-me de “espalhar” algo que não “espalhei”.

Eu não só não fiz essa acusação como entrei em contato com o gabinete da Secretaria Especial de Defesa dos Animais (SEDA), identificado como gabinete da primeira-dama pela recepcionista, e com o gabinete do deputado Dr. Basegio (PDT), seguindo um procedimento jornalístico básico. A assessoria de imprensa da Secretaria ficou de retornar a ligação, mas não o fez. O chefe de gabinete do parlamentar, Neuromar Gatto, fez o que o prefeito Fortunati parece achar um absurdo fazer: prestou esclarecimentos sobre o caso e sobre a situação funcional de Regina Becker, que foram devidamente publicados no mesmo dia, junto com o artigo de Paulo Muzell, conforme repetimos abaixo:

O chefe de gabinete do deputado Dr. Basegio (PDT), Neuromar Gatto, telefonou para esclarecer a situação funcional da primeira dama de Porto Alegre, Regina Maria Becker. Segundo ele, ela está lotada no gabinete do parlamentar desde a última segunda-feira. Antes disso, estava na Comissão de Participação Legislativa Popular e esteve cedida ao Memorial do Legislativo. Ainda segundo Gatto, Becker está nomeada como CC desde 2004 na Assembleia e, neste período, desenvolveu trabalho de criação e organização do Memorial do Legislativo. “Agora Regina está lotada em nosso gabinete. Ela estava de férias até o dia 15 e agora está de licença prêmio por três meses, até o dia 16 de novembro”, informou o chefe de gabinete.

Rechaço essa acusação e lamento que o prefeito Fortunati adote essa postura autoritária tentando, talvez, criar um factóide eleitoral. É uma atividade inerente ao trabalho jornalístico levantar questionamentos sobre o trabalho de agentes públicos. E é um dever dos agentes públicos tratar com transparência tais questionamentos. É lamentável que um quadro político que participou da luta pela redemocratização após a ditadura use deste tipo de expediente para tentar cercear a liberdade de expressão e de imprensa.

Foto: Luciano Lanes/PMPA