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Livro aborda possibilidade de ascensão de um líder fascista no Brasil

Lançamento será dia 21 de junho, às 18h30, no Clube de Cultura. (Divulgação)

O surgimento de personagens tais como Hitler, Trump ou Ludder depende da existência de indivíduos excepcionais ou de condições previamente encontradas na sociedade? Para alguns, a junção de carisma e competência política explicaria como despontam homens-acontecimento, líderes ou gênios maléficos capazes de arregimentar pessoas ordinárias e incautas. Para outros, a explicação se encontra no caráter moral de parte da sociedade. Para atingir seus objetivos, ela produz de maneira consciente e deliberada o homem-instrumento.

Esse é tema geral do novo livro de ficção do sociólogo Antonio D. Cattani, “O Um – Inquérito parcial sobre o caso Ingo Ludder” (Editora Bestiário), que será lançado no dia 21 de junho, às 18h30min, no Clube de Cultura (Ramiro Barcelos, 1853) em Porto Alegre. No lançamento, o autor participará de uma conversa com Carlos R. Winckler e Jeferson Miola, sobre os temas abordados no livro. A entrada é gratuita.

O primeiro ebook a gente nunca esquece

 Flávio Aguiar

Acaba de sair na praça virtual meu primeiro ebook: trata-se de um romance policial, “O legado de Capitu”. Sinto-me assim como se tivesse atravessado o Rubicão, tanto pelo novo formato (para mim) da edição, quanto por ter passado a fronteira de um novo (também para mim) gênero.
Considero a história policial (romance, conto, dramaturgia) como a alma mater da narrativa moderna, isto é, pós-Poe. Claro que para mim a noção de “história policial” é muito vasta. Eu englobaria nela, por exemplo, pelo menos em parte, “O Conde de Monte Cristo”, de Dumas Pai, e “Os miseráveis”, de Victor Hugo.

Quem me ensinou a ver este gênero de maneira tão ampla e diversificada foi o saudoso professor Rui Coelho, da FFLCH/USP. Quando eu era estudante de pós-graduação assisti um curso seu de Sociologia da Literatura. Formalmente, o tema do curso era o romance “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa (que também tem um toque daquele gênero, pois trata-se da narrativa da vingança de um crime e do cometimento de outro…). Mas até hoje não sei muito bem sobre o quê, exatamente, foi o curso. Sé me lembro que ele foi maravilhoso. Porque o professor Rui Coelho, grande amante e conhecedor de histórias policiais no sentido mais estrito da expressão, nos encantava com sua excepcional erudição, navegando por entre os meandros da literatura e dos liames dos diversos gêneros e suas mesclas, estabelecendo ligações surpreendentes (hoje diríamos links…) e inesperadas, sempre com grande astúcia e pertinência. Praticava ele o que mais tarde vim a saber, através do também brilhante professor Northrop Frye, no Canadá, ser o que este considerava o ápice da maturidade de um docente: a capacidade de realizar a “improvisação erudita” sobre os temas que tratar. Isto nada tem a ver com despreparo ou picaretagem. Pelo contrário: é mais ou menos realizar na sala de aula aquilo que um jazzista faz no espetáculo musical.

Quando eu desfrutei das aulas do professor Rui, já tinha uma bagagem considerável de leitura de histórias policiais stricto sensu. Já devorara todo o Sherlock Holmes. Fora (e ainda era e ainda sou) leitor e releitor assíduo da coleção do Mistério Magazine de Ellery Queen, publicação da Editora Globo, onde pontificava, dentre outros, Nero Wolfe. Já lera muito de Agatha Christie, acompanhando Hercule Poirot, Miss Marple e de sua peça “A ratoeira”. Simenon e Maigret me eram familiares. Entrara nos múltiplos segredos da Coleção Amarela, onde brilhava a estrela de Edgar Wallace. Era leitor contumaz da revista Detetive e dos quadrinhos da X-9, além de frequentador de filmes (“Testemunha de acusação”, “A marca da maldade”) e inúmeras séries de televisão, como a de Perry Mason e sua secretária Della Street. Sem falar em séries radiofônicas e quadrinhos nacionais, como “O Anjo”, respectivamente de Álvaro Aguiar e Flávio Colin). E Poe eu já mencionei.

Mas foram as aulas do professor (além de leituras como a do ensaio “Monte Cristo ou da vingança”, de mestre Antonio Candido) que começaram a me abrir os olhos para o íntimo parentesco que havia entre a ascensão do capitalismo vertiginosamente industrializado e urbanizante, mesmo nas suas periferias, e um certo tipo de crime e a tentativa (frustrada ou bem sucedida) de sua elucidação. Apoiado na ideia de indivíduo e de individualismo, este capitalismo nascente afogou-a, em grande parte, na vertente da massificação da vida que trouxe consigo, cujo retrato precoce e eloquente é “O homem da multidão”, de Poe. E também pode levar ao destino de Raskolnikoff em “Crime e castigo” ou ao suicídio de Anna Kariênina debaixo das rodas de um trem. Por isto nesta sociedade capitalista o crime misterioso, que pede sua elucidação nem sempre possível, é inevitável. Mas as revelações não ficaram nisto.

Vieram as leituras de Baudelaire escrevendo sobre Poe e o ilustrador Guy, por exemplo, e a revelação das revelações: ler ou ver “Édipo Rei”, de Sófocles, como uma história policial fantástica, em que o detetive é o criminoso, em que todo mundo na plateia já sabe da história toda e assim mesmo a segue com sofreguidão. E veio Macbeth… e muito e muito mais.
Entretanto, escrevendo histórias desde os tempos de criança, sempre me detive respeitosa e timoratamente no portal das de crime e elucidação. Na adolescência fiz algumas tentativas, mas saíram tão canhestras e desajeitadas que queimei-as e desisti. Segui lendo o gênero, como um apaixonado secreto e com avidez crescente, sobretudo depois que me aposentei na universidade e pude relaxar (no sentido positivo…) nas leituras, sem a obrigação de adequar grande parte delas a cursos, seminários, teses, orientações, projetos, relatórios…

Talvez por isto minha companheira Zinka Ziebell, dos anos mais recentes e berlinenses, começou a perguntar por que eu não escrevia alguma destas histórias. Tanto bateu na tecla que eu ouvi a melodia por trás dela e decidi enfrentar o desafio, saindo-me esta, “O legado de Capitu”. uma história em que a consideração de como se pode interpretar esta expressão sobre a personagem de Machado é o fio da meada da investigação, que tem vários meandros a perscrutar, no presente, no passado, e muita interrogação sobre o futuro – do nosso país e do mundo em que vivemos, povoados por tantos crimes que fazem o mencionado “O homem da multidão”, de Poe, parecer um ensaio de laboratório (o que não compromete sua qualidade seminal).

O detetive da história é um pacato e algo rotineiro professor aposentado, brasileiro, que atualmente vive em Berlim, e que recebe o pedido de um ex-policial, também aposentado, para que o ajude a elucidar o desaparecimento de um jornalista que deixou uma mensagem falando deste “legado” da Maria Capitolina, aliás, Capitu. O professor – cuja vida a partir daí vai passar por trepidações inusitadas – se chama Edmundo Wolf. O parentesco dele com meu sobrenome materno é proposital, bem como seu primeiro nome, cujos sentidos se elucidarão ao longo da narrativa. Mas o romance e o personagem nada têm de autobiográficos, a não ser por um detalhe da natureza de um negativo fotográfico (uma expressão e um artefato em vias de desaparecimento neste século XXI densamente digitalizado).

O referido professor (ele, não eu) se exilara em Berlim Ocidental durante boa parte da ditadura civil-militar decorrente do golpe de 1964. Agora (no presente da narração e da narrativa, situada livremente um pouco antes do novo golpe, desta vez parlamentar, midiático, jurídico e policial), ele vive novamente na capital alemã, buscando, como o narrador Bentinho de “Dom Casmurro”, reconstruir os símbolos do seu passado de jovem no presente do envelhecimento. Tal não é a minha história. Acontece que em determinado momento (que já narrei em outras ocasiões) daquela ditadura, me vi na circunstância de ter de optar entre ficar no Brasil ou sair dele. Decidi ficar. Mas sempre me perguntei o que seria de minha vida se eu tivesse feito a outra opção, a de seguir o caminho do exílio. De certo modo, a criação deste personagem é uma resposta inteiramente hipotética e fantasiosa a esta pergunta que, se não é angustiante, não deixa de ser interessante. O que, se não é uma solução, pelo menos é uma rima.

Nas lides posteriores à escrita e revisão da narrativa (no que tive a valiosa colaboração crítica da Zinka, da Maria Rita Kehl, do Paulo Neves da Silva, da Thaisa Burani e da Ivana Jinkings), graças a cooperação desta, da Boitempo, e do Tiago Ferro, da e-galáxia, nasceu a hipótese oportuna e sedutora da publicação em ebook. Aceitei-a, entre fascinado e ao mesmo tempo temeroso, pois, afinal, do alto do meu metro e oitenta e três de altura setenta anos me contemplam.

Enfim, para encurtar esta já alongada crônica, eis-me agora com o novo rebento lançado ao mar da virtualidade. É um livro, até mesmo segundo definição exarada não faz muito pelo STF, depois de 15 anos de andanças jurídicas, mas não há como pegá-lo, nem sopesá-lo, muito menos cheirá-lo. Não digo isto em seu detrimento, muito pelo contrário. Sinto-me algo rejuvenescido, uma pessoa do século XX subitamente transportada de vez para o XXI. Que a sorte nos bafeje, a mim e ao meu xará virtual.

Como se dizia desde muito tempo atrás, “alea jacta est”.

Os especialistas e o sequestro do esclarecimento

Por Katarina Peixoto

Em O Desentendimento, Jacques Rancière fala da presença dos “especialistas” na mídia com um certo desconforto. Para ele, a crença em que especialistas saberiam mais do que o cidadão, sobre a experiência que o afeta, guarda um truque obscuro, que promove menos, não mais, entendimento e esclarecimento. O que justifica que especialistas tenham um lugar privilegiado para se discutir questões do cotidiano, da vida em comum, entre vizinhos, de percepções e experiências? De onde vem que conhecer a filosofia prática de Kant seja credencial para esclarecer uma crise hídrica ou uma briga sobre o cercamento de um parque? Por que precisamos, nas televisões, jornais e mídia em geral, que um psicanalista nos esclareça que a dor faz parte e que sentimos medos nem sempre justificados?

Vejam, especialistas, por definição, lidam com objetos de tal maneira que se tornam, justificadamente, bastante alheios ao entorno. Eu tive algumas sortes no meu processo de sociabilidade, mas há dias em que me sinto muito estranha, argumentando como se estivesse entre pares da filosofia. O resultado é meio catastrófico: oscilo entre uma nerd maluca, ou entre uma idiota que problematiza coisas simples e evidentes, ou que não consegue deixar passar o que parece óbvio.

Psicanalistas de jornal e professores universitários de tevê e de jornal sempre me causaram um certo desconforto. Mesmo Chomsky.

Há uma necessária coerência entre teoria e prática, que se impõe, a despeito de nossas certezas. A gente pode parecer razoável, mas o fato é que estudar a sério alguma coisa não te ajuda a falar do cotidiano. Acredito que o mesmo se aplica à clínica.

Como uma pessoa que se trata há muitos anos, afirmo que não curtiria ver meu ou minha psica em jornal. Isso prejudica a minha transferência, um quesito sem o qual não rola tratamento, simplesmente.

Mas peraí: estou defendendo a guetização das intervenções em esferas públicas? Sim e não. Sim, estou defendendo a formação de laços intra-estamentos e estruturas burocráticas e cognitivas. Isso enriquece e constitui representações sem as quais as esferas públicas, elas mesmas, não se constituem, com potência de iluminarem setores fora das bolhas. E, não: estou defendendo que a cidadania fale, qua cidadania, como vizinhos, usuários de bicicletas, frequentadores de feiras, subidores de árvores com bisavós, tomadores de sorvete sem lactose.

A substituição da cidadania, nas esferas públicas, pelas figuras dos especialistas, promove desentendimento e obscurantismo. Eventualmente, não raro, desvelam pouco profissionalismo desses especialistas, que, no mais das vezes, são sequestrados pelos holofotes. E isso, no caso da clínica, pode implicar mais que pouco profissionalismo, porque tem impacto no cuidado com o outro, o paciente.

Para a cidadania e o exercício democrático, há um outro problema, aí: a promoção de gurus, sempre, de araque. Esses gurus de araque, além de xaropaldos de plantão, não acrescentam nada senão dinheiro aos próprios bolsos em memes compartilhados com seus truísmos ignorantes e arrogantes. Numa sociedade conflagrada como está a nossa, isso só tende a piorar.

Nada contra psicanalistas comentando padecimentos mentais ou imunologistas comentando as últimas do tratamento do câncer.

Tudo contra o sequestro do debate e da discussão da cidadania e seu destino por gurus de araque. Ninguém precisa disso, nem deve precisar. Olhemos para o lado, olhemos para as coisas, de novo.

Tonho Crocco faz show, quarta, na Ocupação Lanceiros Negros

O ingresso para o show será a doação de 1 kg de alimento não perecível ou 1 litro de leite. (Foto: Divulgação)

O ingresso para o show será a doação de 1 kg de alimento não perecível ou 1 litro de leite. (Foto: Divulgação)

O Comitê de Apoio à Ocupação Lanceiros Negros promove nesta quarta-feira (7), a partir das 20 horas, um show com o músico Tonho Crocco. A apresentação ocorrerá na própria Ocupação, localizada na rua General Câmara esquina com Andrade Neves, no centro de Porto Alegre. O ingresso para o show será a doação de 1 kg de alimento não perecível ou 1 litro de leite.

A Ocupação Lanceiros Negros já completou um ano. Em novembro de 2015, 70 famílias ocuparam o prédio, pertencente ao Estado, que estava abandonado. O governo estadual tem pedido reintegrações de posse desde o início da ocupação. No dia 31 de agosto deste ano, o Conselho de Direitos Humanos do Rio Grande do Sul aprovou uma recomendação ao governo estadual para que não promova o despejo das famílias que estão ocupando o prédio.

Grupo de hip hop lança clipe para lembrar massacre de Porongos

Música lembra o massacre de negros escravizados ocorrido durante a Revolução Farroupilha. (Foto: Divulgação)

Música lembra o massacre de negros escravizados ocorrido durante a Revolução Farroupilha. (Foto: Divulgação)

O grupo de hip hop de Esteio, Rafuagi, lançou um clipe intitulado “Manifesto Porongos” para lembrar o massacre de negros escravizados ocorrido durante a Revolução Farroupilha. Na música, utilizando versos do poeta negro Oliveira Silveira, a letra do Hino do Rio Grande do Sul é alterada e o trecho “povo que não tem virtude acaba por ser escravo” dá lugar a “povo que não tem virtude acaba por escravizar”.

Além do clipe, o grupo produziu também o minidocumentário “Manifesto Porongos”, que traz a colaboração de diversos líderes do movimento negro nacional, historiadores e artistas como Leandro Karnal, Juremir Machado, Odete Diogo (Unir Raças), Jorge Euzébio Assumpção, Naiara Oliveira (filha do poeta Oliveira Silveira) e o quilombola Ségio Fidelix, entre outros.

O vídeo tem direção, edição e câmera de Thiago Köche, produção de Karen Lose, roteiro de Rafa Rafuagi, Karen Lose e Thiago Köche, e animações de Marcel Trindade e Mamau. A letra é de Rafa Rafuagi, Ricky Rafuagi e Manoel Soares.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Deixe-me ir pro Brasil acordar

Renato Dalto

Circula por aí, pelas redes, os acordes lindos de violão, bandolim e as vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte interpretando a belíssima “Preciso me Encontrar”, de Candeia. Samba do morro feito pelo homem do povo, desses que passam na rua e quase ninguém percebe. Gente assim como Cartola, que um dia foi visto lavando carros pra ganhar uns trocados e provocou uma crônica indignada de Sérgio Cabral. Cabral tinha dito que aquilo lhe dava a sensação que o país tinha acabado. Cartola, o das rosas que não falavam mas que exalavam um perfume roubado da mulher amada. Como o Candeia que suplica, que dilacera. “Deixe-me ir, preciso andar…… diga que eu só vou voltar quando me encontrar”.

Toda vez que ouço isso penso nos versos dormidos que andam por aí, nas calçadas, nos botecos, nas esquinas, nos campos de futebol, nos morros.  Penso no país que segregou um Cartola, um Noel Rosa, que pouco enxergou Candeia. No país que não tinha jeito e um dia trucidou inconfidentes. No pais dos corvos e das conspirações. No pais que jamais soube ler a si mesmo. Ontem mesmo  à noite a TV Brasil exibia um documentário sobre Darcy Ribeiro e muita gente descrevendo o script do golpe- o clima da corrupção insustentável, a conspiração orquestrada dos donos do capital e a mídia, a onda de boatos. O filme antigo que se repete enquanto o país esquece Cartola, Candeia, Noel e parece que nunca vai lembrar quem é.

Deixe-me ir.  O solo que ouvi dizia de certa forma que este país tem jeito. Que não é a soberba dos piratas do poder que nos roubará a identidade. Um poeta fugido da Espanha assolada pela guerra civil recusou-se, no exílio, a recitar seus próprios versos. Dizia que a essência da palavra havia ficado com os camponeses, com os combatentes que lutavam por um país melhor.  Aconteça o que acontecer, há vozes que resistem. Não na lógica da passeata, do protesto ou do embate. Mas no trono encantado onde nunca habitará um rei ilegítimo.  Porque lá só a pureza da poesia é capaz de conduzir os olhares generosos que miram a vida  lá do morro, dos pés descalços que batucam a poeira dos terreiros, da feijoada e do olhar maroto da sedução domingueira. É esse olhar que estará sempre erguendo outro país – brejeiro, tolerante, alegre e tão plural.

Então não canso de ouvir Candeia e seus toques da mais profunda filosofia.  O homem em busca de si mesmo. O país também perdido em si mesmo. Do topo de um golpe os urubus não identificam esse canto. Porque o que buscam não está em qualquer lugar.  Buscam o poder pelo poder. Sem voz, sem melodia, sem a sincera canção que nos afaga de pureza e encanto. Quem faz o país só quer isso: Deixe-me ir. Em algum lugar, estamos mais livres, na essência do que esse povo tem melhor. As rosas que não falam. Os caminhantes que procuram. Ninguém impede esses passos. Ninguém cala as rosas. Deixe-me ir que um dia o Brasil real vai acordar.

Evento propõe ‘transformar tanque de guerra em tanque de amor’

tanquedeguerraNOVA

A comunidade #PoaCidadeCriativa lançou um evento no Facebook para promover uma intervenção artística no tanque de guerra que foi transformado no mais novo monumento de Porto Alegre. O tanque Leopard, modelo 1A1, foi comprado da Bélgica, começou a ser utilizado no Brasil em 1997 e agora foi substituído por um modelo mais moderno. Em parceria com a prefeitura da capital, o Exército decidiu usar o tanque aposentado para homenagear a instituição. Instalado na esquina das avenidas Ipiranga e Salvador França, o novo “monumento” deve ser inaugurado no dia 21 de janeiro. A prefeitura informou que cedeu o terreno em agradecimento pela doação de uma área do 3° Regimento de Cavalaria de Guarda para a construção da alça de acesso ao viaduto da avenida Bento Gonçalves.

A decisão de transformar o tanque de guerra em um “monumento” de Porto Alegre vem causando uma intensa polêmica nas redes sociais e deu origem à ideia de uma intervenção artística no velho Leopard. “Achamos esse monumento de mau gosto um símbolo de guerra e entendemos que a nossa cidade precisa de mais paz e amor. Resolvemos que vamos dar uma cara nova para a geringonça. Vamos pintar o tanque e deixá-lo mais alegre e feliz?” – propõe a página do evento criado pela comunidade “PoACidadeCriativa, que se define como um “movimento articulado da sociedade civil que busca através de provocações, inspirações e debates uma cidade mais humana, alegre e criativa”.

A intervenção artística para transformar o tanque de guerra em um “tanque de amor” foi convocada para o dia 22 de janeiro, às 18h, na esquina da Ipiranga com a Salvador França. Até o início da tarde desta quinta-feira, o evento já tinha 244 pessoas confirmadas. A proposta tem um antecedente recente no país. No primeiro dia do ano de 2015, um gerente comercial de 38 anos pintou de rosa um tanque de guerra, exposto em uma praça no município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Acabou sendo preso por dois policiais militares e conduzido a uma delegacia. O autor da intervenção definiu sua ação como um “gesto de cidadania” e disse que só queria dar mais vida ao monumento.

A página do evento “Transformar o tanque de guerra em um tanque de amor” traz uma série de fotos de intervenções artísticas já feitas em tanques pelo mundo. Veja algumas delas:

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Escola Unidos de Vila Isabel vai celebrar agricultura familiar e homenagear Adão Pretto

Escola carnavalesca Unidos de Vila Isabel vai homenagear Adão Pretto, agricultura familiar e alimentação saudável no carnaval do Porto Seco. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Escola carnavalesca Unidos de Vila Isabel vai homenagear Adão Pretto, agricultura familiar e alimentação saudável no carnaval do Porto Seco. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Em abril de 2015, integrantes da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel começaram a discutir qual seria o tema da agremiação para o Carnaval de Porto Alegre de 2016. Na época, o presidente da Vila Isabel, Cléber Tavares, viu a notícia de uma pesquisa que apontava que cerca de 70% da alimentação consumida pela população no Brasil é oriunda da agricultura familiar. Surgiu aí a ideia de escolher a agricultura familiar e a alimentação saudável como tema do desfile da escola no ano seguinte. A decisão foi tomada e a representante de Viamão no Grupo Especial de Porto Alegre escolheu falar sobre alimentação saudável e as mãos que plantam e colhem o alimento da terra. O título do enredo é: “Brava gente brasileira: as mãos que alimentam a nação brasileira”.

Principal responsável pela comida que chega às mesas das famílias brasileiras, a agricultura familiar responde por cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o País. O pequeno agricultor ocupa hoje papel decisivo na cadeia produtiva que abastece o mercado brasileiro: mandioca (87%), feijão (70%), carne suína (59%), leite (58%), carne de aves (50%) e milho (46%) são alguns grupos de alimentos com forte presença da agricultura familiar na produção. No Brasil, o setor engloba 4,3 milhões de unidades produtivas (84% do total) e 14 milhões de pessoas ocupadas, o que representa em torno de 74% do total das ocupações distribuídas em 80.250.453 hectares (25% da área total).

“Começamos a carnavalizar essa ideia da agricultura familiar e nos demos conta que, além de ser um tema muito interessante, tínhamos na nossa comunidade um símbolo dessa luta, Adão Pretto”, relata o presidente da escola. Em 1986, quando foi eleito deputado estadual constituinte no Rio Grande do Sul, pelo PT, Adão Pretto, saiu de Miraguaí e mudou-se com a família para a cidade de Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Durante mais de 20 anos, Adão Pretto viveu junto à comunidade da Unidos de Vila Isabel.

A família ainda mantém laços estreitos com a cidade. Um de seus filhos, Adão Pretto Filho, concorreu à Câmara de Vereadores do município, ficando como suplente da bancada do PT. Outro filho, Edegar Pretto, foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul e reeleito em 2014. Agora, cerca de 30 anos depois de sua chegada a Viamão, Adão Pretto será lembrado pela sua luta pela agricultura familiar. No dia 13 de janeiro, às 20 horas, juntamente com a apresentação do samba-enredo da escola, será exibido o filme sobre a história de Adão Pretto, na quadra da Unidos da Vila Isabel, em Viamão.

“Vontade é de disputar o título”

Cleber Tavares reconhece que a disputa é dura, mas diz que a vontade da Vila Isabel é de disputar o título do Carnaval de Porto Alegre. A escola tricolor de Viamão desfilará no sambódromo do Complexo Cultural do Porto Seco, na madrugada do dia 6 de fevereiro, com cerca de 1.500 pessoas, 19 alas, quatro carros alegóricos e uma bateria com 180 integrantes. Dois oito quesitos avaliados pelos jurados – samba-enredo, bateria, alegoria, fantasia, casal de mestre-sala e porta-bandeira, harmonia, evolução e enredo -, a escola tem plenas condições de alcançar a nota máxima em cinco delas e de buscar uma ótima nota nas outras três, assinala Cleber Tavares, lembrando que a classificação final dos desfiles de carnaval costuma ser decidida por décimos.

Além de homenagear a trajetória de Adão Pretto, a ideia da Vila Isabel é provocar uma reflexão sobre o tema da qualidade dos alimentos que estamos consumindo hoje. Uma de suas 19 alas terá como tema os agrotóxicos e os prejuízos que podem causar à saúde humana. A luta por uma alimentação de qualidade, sem venenos, será associada à luta mais geral pela Reforma Agrária conduzida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que vai colaborar com a organização do desfile.

A história de Adão Pretto

Nascido em Coronel Bicaco, em 1945, Adão Pretto cresceu no município vizinho de Miraguaí, na região do Alto Uruguai. Ali iniciou sua trajetória política no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miraguaí. Participou das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e foi um dos fundadores do MST no Rio Grande do Sul. Em filiou-se ao PDT e, em 1985, foi para o PT. Em 1986, foi eleito deputado estadual constituinte, um dos primeiros deputados do PT gaúcho. Ainda em 1986, como deputado estadual, presidiu a CPI da Violência no Campo na Assembleia gaúcha para investigar os conflitos entre grandes fazendeiros e trabalhadores rurais. Em 1990 foi eleito deputado federal, sendo reeleito em 1994, 1998, 2002 e 2006.

Como parlamentar, defendeu a agenda da Reforma Agrária e fez oposição às políticas da bancada ruralista na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural. Adão Pretto sempre se destacou na defesa da causa dos movimentos sociais populares, em especial aos ligados as questões do campo como a defesa dos interesses dos pequenos agricultores e da luta do MST.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Conselho Estadual de Cultura repudia projeto do governo Sartori que retira recursos do setor

PL 506/2015, aprovado no final de dezembro na Assembleia Legislativa, altera artigo da Lei nº 13.490, permitindo a “redução do limite global que poderá ser utilizado em aplicações culturais” no Estado. (Foto: Secretaria Estadual da Cultura/Divulgação)

PL 506/2015, aprovado no final de dezembro na Assembleia Legislativa, altera artigo da Lei nº 13.490, permitindo a “redução do limite global que poderá ser utilizado em aplicações culturais” no Estado. (Foto: Secretaria Estadual da Cultura/Divulgação)

O Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul divulgou nota manifestando estranhamento e repúdio ao Projeto de Lei 506/2015, encaminhado pelo governo do Estado à Assembleia Legislativa. O projeto do governo José Ivo Sartori, que foi aprovado dia 29 de dezembro por 34 a 17 votos, fixa o limite global que poderá ser autorizado para a aplicação em projetos do Programa de Incentivo ao Esporte, do Programa de Apoio à Inclusão e Promoção Social e do Sistema Estadual Unificado de Apoio e Fomento às Atividades Culturais. Duas proposições deste projeto, na prática, retiram recursos da área da Cultura.

A primeira suprime um trecho do artigo 27 da Lei 13.490 (Pró-Cultura) que diz:

Art 27 – Lei 13.490 “Anualmente, lei de iniciativa do Governador do Estado fixará o montante global que poderá ser utilizado em aplicações culturais em até 0,5% (cinco décimos por cento) da receita líquida de ICMS, não podendo ser inferior ao limite do ano anterior”.

O projeto do governo Sartori retirou a expressão “não podendo ser inferior ao limite do ano anterior”, o que, na avaliação da comunidade cultural, significará a redução de investimentos que já são escassos. A justificativa do Projeto de Lei parece confirmar esse temor ao afirmar: “considerando o agravamento da crise financeira do nosso Estado, o presente Projeto de Lei altera o art. 27 da Lei nº 13.490, de 21 de julho de 2010, a fim de permitir a redução do limite global que poderá ser utilizado em aplicações culturais, conforme a necessidade financeira do Estado”.

Para 2016, o projeto prevê a destinação de R$ 20 milhões para o esporte, R$ 10 milhões para inclusão social e R$ 35 milhões para a cultura. Em relação às atividades culturais, o PL estabelece que o investimento não poderá ser superior a 0,5% do ICMS da receita líquida.

Leia também: Efeito dominó, preocupação na Cultura

Na nota divulgada na página da entidade, o Conselho protesta que não foi consultado sobre essa decisão do governo e avalia que ela “colide frontalmente ao que pensamos e muito lutamos, ou seja, para que sejam incrementadas políticas culturais, inclusive o aumento de recursos destinados à área cultural”. “Essas posturas são necessárias, como forma de completar o nosso sistema atuante na cultura visando um alinhamento às demais ressonâncias culturais oriundas da esfera federal”, acrescenta a nota.

A segunda alteração diz respeito às chamadas Ações Especiais, modalidade de financiamento que permite o repasse direto da empresa contribuinte do ICMS ao Fundo de Apoio à Cultura, para a realização de editais de apoio a projetos culturais. Por meio desse mecanismo foi lançado, por exemplo, em 2014, o edital Movida Cultural, no valor de R$ 2,5 milhões, com recursos captados junto a Petrobras. A Secretaria da Cultura obteve autorização, em 2013, para captar até o limite de R$ 6 milhões nessa modalidade para o Fundo de Apoio à Cultura (FAC). O PL 506, aprovado no final de 2015 na Assembleia, estabelece:

“Para o exercício de 2015 os projetos financiados por meio da modalidade prevista pelo art.19 da Lei nº 13.490/10, fica fixado o valor de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), que serão acrescidos, para fins de apuração, ao limite global estabelecido no inciso III do art. 1º da presente Lei”.

Não é fixado nenhum valor para as Ações Especiais em 2016.

(*) Publicado originalmente no Sul21

O sul perdido em nós

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Renato Dalto

O sul, este lugar do mundo onde embriões libertários nasceram e sumiram, quase sem rastro. Aqui se dizimaram inimigos nas lonjuras, aos quais deram o nome genérico de gaúchos – gaucho, gauche , sem terra e sem destino. Homens livres que se viraram contra a miséria e o abandono e que, segundo nosso maior poeta, Jorge Luis Borges, não legaram à história um só caudilho embora tenham servido sempre a chefes de ocasião sem saber direito por que causa lutaram. É este sul, anárquico em sua relação de classes, cartorial pelo carimbo de oligarcas, cruel contra os inimigos e benevolente aos amigos, que permanece em nós como uma névoa onde, historicamente, nos perdemos. Benedetti falou de um lugar para onde foram os desaparecidos, os esquecidos, os que a história tentou relegar ao nada. “Estan aja en el sur del alma”.

O sul, este lugar continental que em seu garrão se estende numa grande planície onde se estendem terras, posses e barões de folhetim mas também índios vagos, gente sem terra, nome ou destino. Os barões se pintam como nobres montados em exuberantes cavalos, os índios vagos são pintados por outras mãos que os identificam nos botecos, nas cercas à beira de corredor, numa diversão domingueira. Foram personagens de Blanes, de Debret, de Molina Campos, de Guiraldes, de Erico Veríssimo, de Hernandez mas nenhum deles pegou o pincel ou a pena para escrever a própria história. E estão então nesse lugar mais longe, ajá, lejos, onde a alma não identifica nomes, posses ou títulos.

Todo setembro, toda primavera, se celebra um aparente orgulho de toda essa gente – barões e peões – em nome de uma guerra cuja metáfora é maior que a realidade, mas enfim a figura do homem em andrajos, em farrapos, pode ser mais que um sinal. Pode ser orgulho de uma bandeira cujas insígnias indicam ideais que lembram a Revolução Francesa mas também práticas medievais que antecedem a república. Nesse sul que se divide entre amigos e inimigos, entre ódios e paixões cegas, entre privilégios e masmorras, o telurismo e a teimosia as vezes são maiores que a razão. O que talvez explique isso é o sentido de um sul que perdemos há muito tempo. E que nos escraviza como um espelho distorcido que quer nos fazer acreditar na imagem deturpada que reflete.

Projecto Sur era aquilo que, no filme de Solanas, se falava no ideal que não pode se prender, nos sonhos impossíveis de explicar – “el sueño de los sueños”– , utopia sem nome que nos levaria a um lugar, a um estar no mundo, a enfim um regaço onde a alma não tivesse sempre no sul distante, mas dentro de nós e enfim chegasse a uma identidade real dentro de si mesma. Mas este sul, sempre distante, nos toca sempre o clarim de uma guerra perdida.

Aqui se resistiu ao império e ao golpe militar. Aqui também se forjou uma gema digna de um partido que enfim representaria os trabalhadores, os excluídos, os que nunca chegaram ao palácio. Mas um dia, um certo povo que vivia no centro do país, acostumado a pelear com os barões da indústria, achou que podia ir ao palácio e participar do jantar do baronato. Definharam de indigestão.

Ainda caminho aqui pela beira do Guaíba e penso que essa vastidão de terra e águas talvez nos faça diferentes não só pela alma, mas pelo desenho que a geografia fez dela. Mas esse sul que nos faz sempre exilados de nós mesmos não permite pensar que podemos forjar “el sueño de los sueños” e enfim construir uma utopia maior e “mas aja”de nós mesmos. Continuamos perdidos em identidades falsas. Não somos o que pensamos que somos. Nossa bússola está sempre voltada para o outro lado. Perdemos o norte e o sul. Um estado à deriva. Um país náufrago. Nossos pés em lugar nenhum. E absolutamente exilados da terra e da raiz que nos forjou.