Arquivo mensal: abril 2014

O Plano de Mobilidade da Copa e a zona de restrição de circulação em Porto Alegre

SONY DSC Por Lucimar F. Siqueira (*)

A Prefeitura de Porto Alegre, através da Empresa Pública de Transporte e Circulação – EPTC, apresentou o “Plano de Mobilidade para a Copa” em reunião no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental – CMDUA, na noite de terça-feira (29).

Um dos pontos que causa bastante preocupação na população diz respeito ao acesso dos moradores que vivem no entorno do Estádio Beira Rio. Segundo o Diretor de Trânsito, Carlos Pires, não haverá cadastramento de pessoas, mas de veículos. Segundo ele, se os pedestres de qualquer parte da cidade podem chegar até o Beira Rio, porque os moradores não poderiam?

Questionado sobre a demora e os vários anúncios de lançamento do site para cadastramento, Carlos Pires relatou que foi preciso bastante tempo para análises e debates com os órgãos de segurança para se chegar a um acordo de que somente os veículos serão cadastrados. Nos próximos dias a prefeitura anunciará o site “Vizinho da Copa” com orientações para preenchimento do formulário onde os moradores poderão realizar o cadastramento dos seus veículos.

As ruas cujos veículos de moradores deverão ser cadastrados são:

Acesso via Zona Sul:

Av. Padre Cacique (entre viaduto Pinheiro Borda e Av. Diário de Notícias)
Av. Padre Cacique (entre Av. Taquary e Rua Otávio Dutra)
Rua Monroe

Acesso via Rua Silveiro:

Av. Padre Cacique (entre Rua Otávio Dutra e Rua José de Alencar)
Rua Otávio Dutra
Rua Dona Amélia
Rua Gen. Oliveira Freitas
Rua Miguel Couto
Rua Barão do Certo Largo

Outros dois pontos terão acesso restrito no período dos jogos mas sem cadastramento de veículos:

– Av. Augusto de Carvalho e Av. Ipiranga
– Via Av. Pinheiro Borda

O período de restrição com bloqueio de vias corresponde a aproximadamente 6 horas antes dos jogos e 2 horas após encerramento dos jogos. Também foi explicado que não haverá restrição de acesso aos pontos comerciais ou de serviços localizados na Av. Padre Cacique. “Lindeiro estará totalmente liberado para qualquer comércio da Av. Padre Cacique”, disse Carlos Pires.

Foram apresentadas também todas as rotas protocolares e de emergência que serão utilizadas pela FIFA, imprensa e torcedores ligando hotéis, estádio, campos de treinamentos e os demais pontos de eventos além das rotas do transporte coletivo que atenderá a população em dias de jogos. Foram incluídos neste roteiro todos os pontos da cidade onde haverá exibição dos jogos do Brasil e os demais jogos que acontecerão em Porto Alegre. Os bairros onde será instalado telão e palco são a Restinga, Lomba do Pinheiro, Cruzeiro, Bom Jesus e Rubem Berta.

Entre os eventos que ocorrerão durante o período da Copa está a Feira da Agricultura Familiar com produtos orgânicos, gastronomia e artesanato e será instalada no Armazém “A” do Cais do Porto.

Os conselheiros fizeram inúmeros questionamentos, entre eles a situação de mobilidade dos pedestres, o cuidado com patrimônio histórico como o Viaduto Otávio Rocha, por exemplo, os acessos dos moradores da Zona Sul ao centro de Porto Alegre, semáforos na Avenida Padre Cacique que atualmente já apresentam problemas entre outros pontos.

Também cobramos o compromisso da Prefeitura de Porto Alegre em realizar audiências públicas para manter a população informada. Este é mais um momento importante em que os governos devem se pronunciar publicamente explicando todos os procedimentos e ações que provocarão impactos sobre o cotidiano da população durante o período do evento. Também salientamos a importância do apoio dos conselheiros na organização de reuniões e assembleias nas comunidades para que o poder público apresente à população não só o plano de mobilidade mas todas as modificações necessárias à realização dos jogos que, de alguma forma, afetarão a população.

No próximo domingo acontecerá o evento teste no Estádio Beira Rio. Espera-se que após este momento o poder público municipal e estadual se aproximem da população de Porto Alegre para fazer todos os esclarecimentos e tirar todas sobre tudo o que acontecerá na cidade durante o período da realização do evento, não somente dias de jogos.

(*) Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre. Representante da AGB no FERU/RS.

Foto: Lucimar F. Siqueira

Mud: uma fábula sobre o fim da infância

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Por Katarina Peixoto

O filme ganhou a bizarra versão brasileira de “Amor Bandido”, mas poderia ser chamado, talvez, de “o cara da lama”. Mud, do ótimo Jeff Nichols (diretor do também estupendo O Abrigo), é um filme com a mesma lente do anterior: é atemporal de tal maneira que, mesmo sabendo que estamos no presente, isso não contamina a percepção de que estamos lidando com uma história fabulosa. E isso sem que o diretor se apaixone por aquilo que está fazendo, isto é, sem chatice. Tenho uma queda por crianças e adolescentes que são bons atores. Atuar, de verdade, é uma das coisas mais difíceis de se fazer e requer mais do que disciplina, maturidade e gênio. Não sei dizer o que é, mas quando acontece, tudo o mais acontece. Claro, um diretor de verdade é determinante. Nichols é isso.

Neste filme, ele nos conta a história de uma passagem, de uma travessia do mundo perceptivo infantil para o adolescente. Sobre tirar a casinha de cima da árvore e transformá-la num barco habitado e coabitado por estranhas figuras híbridas e ambivalentes, como o são os adultos.

Ellis (vivido pelo estupendo Tye Sheridan) e seu amigo Neckbond, ambos com 14 anos, envolvem-se com um fugitivo da polícia. “Mud”, o fugitivo vivido pelo inacreditável Matthew McConaughey, matou um cara que machucou o amor de sua vida, de uma vida inteira, a Júniper (Reese Whitherspoon). Temos de presente o esplendoroso Sam Shepard, com a densidade que lhe é tão peculiar, para nos dizer que estamos vendo um trabalho sério.

O filme é uma fábula sobre confiança, perda de confiança, sobre aprender a amar, mesmo que ao custo de se dispor a partir o coração. É sobre perceber que em todo conflito há duas perspectivas, é entender que amor é uma coisa da e na e pela vida e que, por isso, como ela, pode ser difícil, doloroso e redentor – nem que seja do sentido das coisas, nem que seja do sentido das coisas.

Mud é uma metáfora de que há lama e sujeira em tudo e em cada um de nós. E que crescer e sair da infância é perceber, entender e sobretudo viver isso. É uma obra translúcida de realismo fabuloso, sobre amizade, lealdade e aprender a crescer. O mais esplendoroso é que temos tiroteio, bandidos e vítimas. E que isso não torna ninguém mais limpo, seco e imaculado. O amor de verdade pode machucar. O herói marginal não existe. Todos mentem e nem por isso o mundo é feito só de canalhas. Um matador é um matador, e não deixa, por isso, de ser gente. Ele deixa de ser gente se for somente isso (não há qualquer relativismo moralmente gelatinoso na coisa toda, o que só fortalece a sua beleza). A amizade é confiança, sem reflexão a respeito. O amor, idem, com um agravante: ele requer um tipo de fusão, uma espécie de inundação, a saída da ilha.

Audiência pública debaterá regulamentação do Conselho Municipal de Comunicação de Porto Alegre

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Vereadora Sofia Cavedon (PT) convida para audiência pública que discutirá a regulamentação do Conselho Municipal de Comunicação de Porto Alegre. A audiência será realizada dia 29 de abril, terça-feira, a partir das 9 horas, na Comissão de Educação e Cultura da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (Avenida Loureiro da Silva, 255, sala 302). Um dos objetivos principais dos organizadores da audiência é garantir que o prefeito José Fortunati encaminhe ao Legislativo o projeto de lei que institucionaliza o Conselho Municipal de Comunicação.

A Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Juventude, da Câmara Municipal da capital, desarquivou em dezembro de 2013 o projeto de lei encaminhado pelo Executivo em 2004, quando o prefeito da cidade era João Verle, criando o Conselho Municipal de Comunicação. A decisão foi tomada ao final de uma reunião realizada na Câmara Municipal, com representantes do Legislativo, do Executivo e da sociedade civil, para debater a efetivação do Conselho Municipal de Comunicação de Porto Alegre.

A proposta de criação do Conselho Municipal de Comunicação na capital gaúcha é antiga, mas até hoje não saiu do papel. No dia 5 de maio de 1989, o então prefeito Olívio Dutra criou, por meio do decreto n° 9426, o Conselho Municipal de Comunicação com o objetivo de “atuar na defesa do interesse público relacionado à atuação dos veículos de comunicação de massa e à execução de políticas de comunicação em âmbito municipal, abrangendo as atividades de imprensa, rádio, televisão e serviços de transmissão de imagens, sons e dados por qualquer natureza”. Segundo o mesmo decreto, o Conselho também teria como missão “estimular a organização e a participação da população e suas entidades na implementação de medidas em defesa do interesse público na área da comunicação”.

O decreto definia ainda a necessidade de elaborar um projeto de lei para a institucionalização do conselho em nível municipal, o que só foi ocorrer em 24 de novembro de 2004 quando João Verle encaminhou à Câmara Municipal um projeto de lei complementar criando o Conselho Municipal de Comunicação e oficializando a Conferência Municipal de Comunicação. Mas já era o fim do governo Verle. O prefeito que assumiu em seguida, José Fogaça, decidiu pedir o arquivamento do projeto no dia 10 de fevereiro de 2005. No dia 18 de fevereiro daquele ano, o então presidente da Câmara Municipal, vereador Elói Guimarães, respondeu a Fogaça dizendo que havia sido atendida a solicitação de retirada de tramitação do projeto do Executivo criando o Conselho e oficializando a Conferência Municipal de Comunicação.

Economista francês vem a Porto Alegre debater crise do neoliberalismo

gerarddumenil O economista francês Gérard Duménil, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), estará em Porto Alegre dia 8 de maio para falar de seu livro “A Crise do Neoliberalismo”, que está sendo lançado no Brasil pela Boitempo Editorial. Duménil fará uma palestra, às 14h30min, no auditório da Fundação de Economia e Estatística (Rua Duque de Caxias, 1691). O economista também participará de debates em São Paulo (dia 24 de abril) e em Foz do Iguaçu (dia 5 de maio).

Escrito em conjunto com o também pesquisador Dominique Lévy, o livro analisa a atual crise econômica global e os fatores que deram origem a ela. Duménil defende que a crise iniciada em 2008 poderá se estender por um período superior a dez anos, em função dos problemas vividos pelas economias dos Estados Unidos e da União europeia, em especial o aumento da dívida pública.

acrisedoneoliberalismolivrogerarddumenil220 “A Crise do Neoliberalismo” discute temas como a financeirização econômica, a reestruturação produtiva, as lutas de classes e as relações internacionais às portas de uma nova ordem global multipolar. O livro analisa a chamada “Grande Contração” de 2007-2010 no contexto da globalização neoliberal. Entre os problemas enfrentados hoje pelos Estados Unidos, os autores citam a queda do investimento interno na indústria, uma dívida doméstica insustentável e a crescente dependência de importações, que aliados ao desenvolvimento de uma estrutura financeira global frágil, ameaçam a força do dólar.

Duménil e Lévy preveem que, a menos que haja uma alteração radical da organização político-econômica dos EUA, haverá um declínio agudo da economia norte-americana, com implicações para todo o mundo.

Exclusivo: a minha desentrevista ao jornal O Globo

naomafalda Assim como ocorreu com outros blogueiros e jornalistas que participaram da entrevista com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dia 8 de abril, em São Paulo, recebi um email de uma funcionária do jornal O Globo querendo “conversar sobre a entrevista”. Em um email intitulado “Entrevista para o Globo”, a jornalista Barbara Marcolini escreveu:

Prezado Marco, sou repórter do jornal O Globo e estou fazendo uma matéria sobre a entrevista coletiva do ex-presidente Lula com blogueiros na semana passada. Nós poderíamos conversar por telefone?

A mesma jornalista deixou um recado na caixa de comentários do blog RS Urgente, insistindo:

Olá Marco, sou repórter e gostaria de conversar com você sobre a entrevista coletiva com o ex-presidente Lula. Enviei um e-mail, mas talvez você não tenha visto. Por favor, entre em contato comigo.

Considerando que estamos na era das desconferências, descomemorações e outras descoisas mais, divulgo aqui a minha desentrevista à jornalista do Globo. Lembrando a pergunta:

Prezado Marco, sou repórter do jornal O Globo e estou fazendo uma matéria sobre a entrevista coletiva do ex-presidente Lula com blogueiros na semana passada. Nós poderíamos conversar por telefone?

Resposta: Não!

Sarau da Democracia promove descomemoração do golpe de 64

Sarau da Democracia (2) O mandato da vereadora Sofia Cavedon (PT) promove nesta terça-feira (15), das 18h30min às 22h, na sede da Nova Acrópole (Praça da Matriz, 148), no centro de Porto Alegre, um sarau especial para marcar a passagem dos 50 anos do golpe de 1964. Sob a coordenação de Chris Rondon, o encontro juntará música e conversa com militantes políticos que lutaram contra a ditadura civil-militar.

Estão confirmadas as presenças de Flavio Koutzii, Lorena Holzmann, socióloga, professora e pesquisadora da UFRGS, e dos músicos Henry Lentino, Raul Ellwanger e Nei Lisboa, que, além de fazerem um pocket show, falarão sobre o golpe de 1964 e a luta pela Democracia no Brasil. A entrada é franca.

Smed muda termos da parceria com Coca-Cola em escolas da rede municipal

criancanasaladeaula2 A Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (Smed) e a Vonpar, empresa que representa a Coca-Cola no Rio Grande do Sul, decidiram mudar alguns termos da parceria que tinham combinado para implementar em escolas da rede municipal da capital gaúcha. A parceria previa a realização do “Tour da Taça” nas escolas. O evento faz parte das campanhas promocionais da gigante mundial de refrigerantes para a Copa do Mundo de 2014 e prevê prêmios como um “passeio na Fábrica da Felicidade da Coca-Cola” e “kits Coca-Cola”. Em reunião realizada na manhã de terça-feira, a Smed e a empresa acertaram algumas mudanças no projeto. A visita à “Fábrica da Felicidade” foi cancelada e será reavaliado o ingresso de produtos de marketing nas escolas.

Nesta quarta-feira, o diretor pedagógico da Smed, o Conselho de Alimentação Escolar e a nova chefe do setor de Nutrição inspecionarão uma escola da rede municipal para verificar se o acordo está sendo cumprido. O “kit Coca” será enviado ao setor de Nutrição da Secretaria para ser avaliado. A orientação da Smed é restringir qualquer tipo de premiação a algo que seja oficial, como a bola Fuleco ou as camisetas oficiais da seleção. A redação do “Tour da Taça”, que é sobre a Copa, continua. Uma comissão de professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) esteve na Promotoria de Defesa da Criança e do Adolescente, juntamente com representantes dos Conselhos de Alimentação Escolar e de Educação, nutricionistas, professores da rede municipal e a vereadora Sofia Cavedon (PT) para tratar do assunto. A Promotoria encaminhou um documento para a Smed, questionando os termos da parceria.

A médica Noemia Perli Goldraich, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Doenças Crônicas na Infância da Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS, que trouxe o caso a público, comemorou a decisão observando que, nos termos em que estava firmado, o acordo entre a secretaria e a empresa representava “um desserviço à educação e a saúde das crianças”.

Mercosul ganha museu para construir memória regional e combater esquecimento

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Quando era Secretário de Direitos Humanos da Argentina, Eduardo Luis Duhalde propôs a criação da Operação Paloma para a integração regional através dos direitos humanos. Seria uma resposta dos governos democráticos da região às políticas de terrorismo de Estado implantadas pelas ditaduras que infestaram o Cone Sul. A ideia de Duhalde ganhou materialidade, terça-feira (1), com a inauguração, em Porto Alegre, do Museu dos Direitos Humanos do Mercosul (MDHM), que funcionará no prédio do Memorial do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega. Ao inaugurar o museu, o governador Tarso Genro destacou que o projeto representa o trabalho de uma geração inteira sobre a democracia. “Nem todas são obras diretamente políticas, mas são trabalhos e documentos que se relacionam com um determinado período da histórica que nós temos que fixar na memória do povo e da cidadania”, afirmou.

A exposição inaugural do MDHM, “Deus e Sua Obra no Sul da América: a Experiência dos Direitos Humanos Através dos Sentidos”, reúne obras de 145 artistas do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Equador, e marca o início da Semana da Democracia, um conjunto de atividades e debates promovidos pelo governo gaúcho para assinalar a passagem dos 50 anos do golpe civil-militar de 1964. Instaladas no primeiro andar do museu, em uma área de aproximadamente mil metros quadrados, as obras incluem fotos, vídeos, pinturas, esculturas, instalações, cartazes, cartuns, charges e documentos, com contribuições dos países do Cone Sul, cujas democracias foram golpeadas por ditaduras nos anos 60 e 70 principalmente.

Além de um acervo permanente, o museu terá exposições e mostras focadas em outros temas, com a contribuição também do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). Para abrigar o Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, o prédio histórico da antiga agência dos Correios e Telégrafos, na Praça da Alfândega, recebeu uma reforma, que ainda não foi concluída, com recursos do Estado e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no valor de R$ 1,5 milhão. Com uma nova verba do PAC das Cidades Históricas, no valor de R$ 4 milhões, o prédio será totalmente climatizado até 2016. O museu funcionará de terças a sextas-feiras, das 10h às 19h, e aos sábados das 12h às 18h.

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Segundo o diretor do Memorial e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e do Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, Márcio Tavares dos Santos, o novo espaço terá a missão de ser um elo entre as instituições de memória que existem no Mercosul. “É um museu transnacional, uma experiência única no continente e talvez no mundo, cuja função principal será trabalhar pela integração, pela paz e pelos direitos humanos. O secretário estadual da Cultura do Rio Grande do Sul, Luiz Antônio de Assis Brasil, leu um trecho da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, para resumir a importância da iniciativa:

“Os representantes do povo francês, reunidos em Assembleia Nacional, tendo em vista que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas dos males públicos e da corrupção dos Governos, resolveram declarar solenemente os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, sempre presente em todos os membros do corpo social, lhes lembre permanentemente seus direitos e seus deveres (…)”

Travar um combate sem tréguas contra a ignorância, o esquecimento e o desprezo pelos direitos humanos: essa é a missão do novo museu. “Passaram-se 225 anos desta Declaração e, no entanto, quantas transgressões e desrespeitos a esses direitos a humanidade viveu neste período. Não podemos dar oportunidade ao acaso. Sempre há forças prontas a recuperar seus poderes. E uma das nossas maiores armas contra isso é a lembrança”, disse Assis Brasil, lembrando o fogo de chão, na Fazenda Boqueirão, município de São Sepé (RS), que é mantido aceso desde o início do século XIX, há mais de 200 anos.

Victor Abramovich, Secretário-Executivo do Instituto de Políticas em Direitos Humanos do Mercosul (IPPDH-Mercosul), destacou o desafio imenso de construir uma memória regional. “Os países do Cone Sul compartilham um passado comum de lutas populares de enfrentamento às ditaduras. Esse passado comum é fundamental para a construção da nossa memória que é, por sua vez, essencial para aprofundar o processo de integração entre nossos países”, assinalou. “Não trabalhamos a memória”, acrescentou, “simplesmente para olhar para o passado, mas para pensar o futuro que queremos construir. Pensar o Mercosul como uma coordenação de políticas de Direitos Humanos é a melhor resposta que podemos dar à coordenação de políticas de terrorismo de Estado que foi a operação Condor”.

Uma das principais articuladoras da proposta do Museu, a ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, comemorou a inauguração do Museu, lembrando a inspiração que foi a ideia da Operação Paloma, de Eduardo Duhalde. No dia em que deixou a Secretaria de Direitos Humanos para reassumir sua cadeira na Câmara dos Deputados, Maria do Rosário anunciou que pretende, no Congresso, se dedicar à luta pela revisão da Lei da Anistia que, até hoje, garante a impunidade dos torturadores. “Não é razoável que a mais alta Corte do país siga dizendo que diante da tortura seguirá prevalecendo a impunidade”.

A nova titular da Secretaria de Direitos Humanos, Ideli Salvati, também participou da inauguração e destacou a importância de não se baixar a guardar em relação aos inimigos da democracia. “Os germes do autoritarismo e da prepotência seguem latentes, como vimos há poucos dias no país, com pessoas dispostas a sair às ruas para defender a volta da ditadura. Embora as marchas convocadas tenham sido um fracasso, a mera disposição em convocá-las mostra que não podemos descansar, achando que esse perigo está eliminado”.

Fotos: Alina Souza e Caco Argemi/Palácio Piratini

(*) Publicado originalmente no Sul21.

50 anos do golpe: um encontro de gerações inédito lotou Salão de Atos da UFRGS

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Como é possível que, até hoje, no Brasil, nenhum torturador tenha sido preso? Nenhum! Como é possível que nenhum responsável por essas atrocidades tenha conhecido a justiça? As perguntas feitas por Flavio Koutzii expressaram a mistura de indignação e perplexidade que outros participantes do ato- homenagem “50 anos do Golpe de 1964, 50 anos de impunidade” expressaram na noite de segunda-feira (31), no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que ficou superlotado para ouvir o depoimento de seis pessoas reconhecidas por suas trajetórias de luta contra a ditadura instalada no país após o golpe de 64 e pelas denúncias que fazem até hoje dos crimes cometidos neste período. A presença do público, majoritariamente jovem, surpreendeu os próprios organizadores do ato e, principalmente, os homenageados.

“A presença de vocês aqui hoje é um alento que não vivi em nenhum momento no pós-ditadura”, disse emocionada Suzana Lisboa, manifestando um sentimento que atravessava o ar do Salão de Atos da UFRGS. Foi um evento com uma altíssima carga emocional. E o principal combustível para a emoção foi a realidade. Algo de novo estava acontecendo ali, disseram vários dos participantes do encontro. A começar por Clara Charf, viúva de Carlos Marighella, que se mostrou absolutamente surpresa e encantada pelo que estava presenciando. “Estou admirada e encantada. Há muito tempo que eu não via uma manifestação assim. Se o Marighella estivesse vivo, isso aqui seria um grande presente para ele”, disse Clara, 88 anos, militante desde 1945, sempre com o movimento de mulheres como fez questão de registrar.

O ato-homenagem na UFRGS foi um encontro de gerações que, segundo testemunharam os mais antigos, ainda não havia acontecido na escala em que aconteceu. Um dos principais responsáveis por esse encontro inter-geracional foi o professor Enrique Serra Padrós (História/UFRGS), que trabalha com esse tema há anos e criou o Coletivo pela Educação, Memória e Justiça, que reúne professores, alunos e ativistas da área de direitos humanos. Padrós contou que, quando o Coletivo estava pensando o ato-homenagem, decidiu eleger como público-alvo preferencial estudantes das escolas de Porto Alegre. A partir daí se constituiu uma rede de amigos, companheiros, estudantes, ex-alunos e professores cujo trabalho se materializou segunda-feira à noite nas cerca de duas mil pessoas que lotaram o salão da universidade.

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O encontro teve um significado especial para a universidade também, como afirmou a socióloga Lorena Holzmann, ex-aluna e professora da UFRGS. Ela lembrou o triste período das cassações e expurgos de professores que se seguiu ao golpe de 64. “Com este ato de hoje, a Universidade se redime, de certo modo, do que houve na ditadura. É um ato de redenção”, disse Lorena, também emocionada. Redenção, memória, verdade, justiça, encontro de gerações, vida: essas foram algumas das palavras centrais no ato-homenagem. Uma homenagem que se dirigiu aos participantes convidados e também aos que caíram na ditadura, sendo que cerca de 155 deles seguem desaparecidos até hoje. Um vídeo exibido no início do evento mostrou os seus rostos, em sua maioria, jovens idealistas como aqueles que estavam na plateia encontrando uma história que ainda não conheciam.

As novas gerações ouviram relatos crus e duros sobre o que foi a tortura na ditadura. Relatos como o de Goreti Lousada, filha de Antônio Losada, que sofreu um atropelamento e está na UTI do Hospital de Pronto Socorro. Goreti contou um pouco da história de luta de seu pai, que foi preso em 1973 no governo Médici e ficou quatro meses no DOPS em Porto Alegre sofrendo tortura. Ela leu um trecho de um texto escrito por Losada que descreve a tortura sofrida por uma mulher no DOPS. Essa mulher era a mãe de Goreti que, com a voz engasgada pela emoção, prosseguiu a leitura até o fim sendo muito aplaudida. Ela lembrou, com orgulho, que seu pai, após sair da prisão não seguiu o conselho dado pelos policiais de deixar aquilo tudo para trás. “Ele denunciou seus torturadores, nome por nome”.

João Carlos Bona Garcia homenageou, na pessoa de Enrique Padrós, todos os professores de História que estão trabalhando para resgatar a memória do período da ditadura. Também homenageou a todos os que tombaram pelo caminho, tanto no Brasil como no Exterior, lembrando os nomes de Frei Tito e Maria Auxiliadora. Bona Garcia também falou da tortura da qual foi vítima e deu o nome de seu torturador. “Quem me torturou foi Átila Rohrsetzer, que estava acompanhado de um médico, e nos torturava ouvindo música clássica e falando da mulher e dos filhos. Eles sentiam prazer em fazer isso”, contou. Bona disse ainda que a visão da ditadura segue presente na sociedade. “Em outros países, órgãos de repressão estão reconhecendo crimes que cometeram. Aqui no Brasil ainda não houve nada disso”.

Flavio Koutzii lutou contra ditaduras no Brasil e na Argentina, onde foi preso, e definiu assim a importância do ato do qual estava participando: “O centro de hoje é não esquecer o que aconteceu e entender o que aconteceu, em toda a sua complexidade”. Ele falou de dois resquícios do período ditatorial que seguem vivos hoje: “No Colégio Militar de Porto Alegre, os livros com os quais os alunos trabalham ainda trazem a versão das forças armadas sobre aquele período. Espero que um dia a Presidência da República ponha um fim nisso”. O segundo resquício é o fato de os torturadores não terem sido julgados até hoje. “Como é possível isso? Não se trata de nenhuma fobia anti-militar, mas sim de justiça e memória”. Sobre esse ponto, chamou a atenção ainda para o seguinte fato: “Nunca li uma notícia dizendo que alguém que foi torturado foi atrás de seu algoz depois de sair da prisão e o matou com um tiro na cabeça. Nenhum de nós fez isso, pois seria mais uma vitória deles”.

Na mesma direção, a uruguaia Lilián Celiberti denunciou a impunidade dos crimes cometidos na ditadura brasileira e defendeu a importância da memória para combatê-la. “A impunidade é a perseguição e a destruição da memória. Com todos vocês aqui hoje a memória se torna algo vivo, algo presente. Para derrotar a impunidade, cada um de nós aqui precisa sair daqui e compartilhar essa luta, compartilhar o que está ouvindo e vendo aqui. Neste diálogo inter-geracional podemos construir uma democracia real baseada na memória, na verdade e na justiça”.

Nei Lisboa manifestou algum otimismo com o que estava vendo nas atividades sobre os 50 anos do golpe. “É a primeira vez que vejo isso que está acontecendo agora. Nos atos relativos aos 30 ou 40 anos do golpe nunca conseguimos reunir tanta gente como está aparecendo aqui hoje. E se começou a falar mais claramente sobre o papel da sociedade civil, de empresários, da mídia e dos Estados Unidos no golpe”.

Nilce Azevedo Cardoso, que também foi torturada durante a ditadura, manifestou-se extasiada com o que estava vendo no Salão de Atos da UFRGS. Ela acentuou o caráter midiático-civil e militar do golpe e disse que “toda a sociedade brasileira foi torturada a cada tortura que um de nós sofremos”. Nilce traçou uma linha de conduta entre a impunidade da tortura e a sua prática hoje no Brasil: “Nós ficamos sabendo de torturas e mortes praticamente todos os dias. Nossos jovens estão sendo assassinados e uma das razões disso estar acontecendo é que, durante 21 anos, foi gestada uma sociedade do medo. Foram 21 anos de medo e não-pensar. Temos que desconstruir tudo isso. Temos que denunciar os Pedro Sellig e os Ustra da vida e perguntar onde estão nossos companheiros que foram assassinados, onde estão seus corpos?”.

Fotos: Ramon Moser/UFRGS

(*) Publicado originalmente no Sul21

A verdade é dura

zehoravintage Por Lúcio Centeno (*)

Justificar o injustificável. Esse é o esforço que parte da grande mídia tem feito ao nos aproximarmos do cinquentenário do Golpe civil-militar no Brasil. Aproveitando o marco dos 50 anos, o oligopólio das comunicações, ainda que envergonhadamente esboça uma tentativa de acerto de contas histórico com o povo brasileiro.

No entanto, cabe ressaltar que cada conglomerado da mídia nacional tem adotado uma tática distinta, para responder a mesma questão: como uma empresa de comunicação, que arrota aos quatro ventos o valor da democracia, justifica o apoio incontestável à uma ditadura em seu próprio país?

O Globo se antecipou aos demais e deu a largada de forma muito astuciosa. Um dia após o Levante Popular da Juventude denunciar o império midiático, jogando merda em suas sedes em vários estados, o jornal lançou um editorial reconhecendo o apoio do jornal ao Golpe, e classificando essa postura como um erro.

A tática do Globo, foi a da delação premiada, assumiu a culpa de forma antecipada e delatou seus concorrentes: “O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns.” A confissão de culpa e a denúncia dos demais órgãos como cúmplices da ditadura, foi a estratégia encontrada para a atenuação do seu crime.

Ao realizar essa jogada, a Globo não tinha muito a perder. Depois de ser alvo preferencial nas manifestações de Junho (A Verdade é dura, a Rede Globo apoiou a Ditadura!), o reconhecimento público do apoio editorial ao golpe não poderia lhe render maiores prejuízos. No entanto, esse movimento colocou as demais empresas de comunicação numa situação constrangedora. Como não se pronunciar após isso?

zerohoragolpe O Grupo RBS, através do jornal Zero Hora, diante desta sinuca, utilizou também uma tática bastante sofisticada. Em sua edição do dia 30 de Março, publicou um caderno especial, cujo eixo central é destacar o apoio civil ao Golpe Militar. Deste modo dedica cada página para um determinado segmento da sociedade civil, que deu sustentação política a ruptura da ordem democrática. Cita o papel de parcelas da intelectualidade, da Igreja, de empresários, políticos, setores estudantis eis que ao final do Caderno surge o papel da imprensa.

O raciocínio que a RBS tenta imprimir aos seus leitores é em certo sentido parecido com o que O Globo fez: Nós apoiamos, mas não o fizemos sozinhos. O diferencial é que o discurso do periódico gaúcho tenta “sociologizar” o apoio ao Golpe, ou seja, busca encontrar as condições sociais e políticas que levaram parcelas da sociedade, incluindo a imprensa, a se engajar contra a ordem democrática. Curiosamente este apelo à complexidade da realidade, se dá neste caso em que ela é ré. Para todos os demais casos, é conveniente para a grande imprensa explicar a realidade com fórmulas simples (Manifestantes = Vândalos; Venezuela = Ditadura; estatal = ineficiente; mercado = eficiente; democratização da mídia = censura), pois assim é mais fácil produzir sentenças políticas.

No texto, ZH afirma que “praticamente todos os grandes jornais” revisaram sua posição após dezembro de 1968 – leia-se edição do AI-5 – quando o regime endureceu ainda mais. É falso, sobretudo, falso no que diz respeito ao diário da família Sirotsky. Alguém duvida? Durante o ano de 68 o jornal publicou diversas capas divulgando apoios ao AI-5. No ano seguinte, ZH engajou-se na promoção do general Médici, o mais tirânico dos governantes ditatoriais. Em outubro de 1969, outro editorial sob o título “Nova Etapa” adianta que “o Terceiro Governo da Revolução não vem com planos demagógicos mas para dar sequência natural ao movimento de 64 institucionalizando-o definitivamente (…)”

A Folha de São Paulo, no editorial de página inteira publicado também no dia 30 de Março, monta uma argumentação semelhante a de ZH, mas é ainda mais explícita no seu objetivo de sustentar uma explicação relativista sobre o que levou a Folha a se engajar em favor do Golpe: “Aos olhos de hoje, apoiar a ditadura militar foi um erro, mas as opções de então se deram em condições bem mais adversas que as atuais”. Ou seja, a responsabilidade não é inteiramente do jornal, mas das “condições bem mais adversas”.

Além de buscar a absolvição no relativismo histórico (“Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias”, sim os nazistas também partiram dessa premissa), a Folha recorreu a outros recursos argumentativos: “Parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico. Logo após 1964, quando a ditadura ainda se continha em certas balizas, grupos militarizados desencadearam uma luta armada dedicada a instalar, precisamente como eram acusados pelos adversários, uma ditadura comunista no país.”

O editorial atribui em certa medida aos militantes de esquerda a “precipitação do regime”. Ou seja, às vítimas do regime, aqueles que lutaram contra a Ditadura, são em certa medida responsáveis por sua própria tragédia, e mais, pelo enrijecimento do regime. Para a Folha propor reformas de interesse popular dentro da ordem constitucional é forçar “os limites da legalidade”. Se isso é forçar “os limites da legalidade”, como classificaríamos o empréstimo ao aparelho repressivo de carros de distribuição do jornal Folha da Tarde, do próprio grupo Folha, para emboscar militantes políticos?

Por fim, temos o editorial do Estado de São Paulo, que excetuando algumas frases e o tempo verbal, poderia ser extraído de alguma edição de 64. Nem o cinquentenário do Golpe, ou o distanciamento histórico permitiram ao Estadão assumir o erro do apoio editorial aos militares. Preferiu dar destaque para a “ameaça comunista”.

Como é difícil lidar com uma Verdade dura. O oligopólio da comunicação brasileira tentou omiti-la, negá-la, as vezes justificá-la, as vezes flexibilizá-la, mas nós sabemos que a Verdade é dura, a imprensa apoiou a Ditadura!

(*) Lúcio Centeno é militante do Levante Popular da Juventude