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O legado e a atualidade de Che Guevara: “ele acreditava no melhor do humano”

Santiago Feliú: “Essa atualidade tem a ver, não com o Che heróico e guerrilheiro da luta armada, mas sim o Che ético, que acreditava no melhor do humano”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

No ano do cinquentenário de sua morte, a figura de Ernesto Che Guevara segue influenciando jovens no mundo inteiro, seja como inspiração política, seja como um símbolo pop de rebeldia. Mas qual é o mesmo legado e a atualidade desse jovem argentino que, após ser um dos líderes da Revolução Cubana junto com Fidel Castro, trocou os postos que ocupava em ministérios do governo revolucionário, para se engajar na luta antiimperialista no Congo e, mais tarde, na Bolívia, onde acabaria por ser morto aos 39 anos de idade?

Pesquisador da vida de Che, o jornalista e professor cubano Santiago Feliú vem reunindo desde a década de 90 canções compostas em homenagem à memória do jovem médico argentino que virou revolucionário. Mais do que simples homenagem, a preocupação central de Feliú é resgatar o que chama de face ética de Che Guevara, da exemplaridade com que este exerceu a sua luta política. Em entrevista ao Sul21, Feliú fala sobre a atualidade da figura de Che e de seu legado. “Essa atualidade tem a ver, não com o Che heróico e guerrilheiro da luta armada, mas sim o Che ético, que foi ministro em várias pastas no início da Revolução Cubana e que acreditava em determinados valores e, em especial, no melhor do humano”.

Santiago Feliú veio a Porto Alegre a convite da Associação Cultural José Martí para o lançamento da segunda edição do seu livro “Canto épico a la ternura” em homenagem à obra e ao pensamento de Che Guevara. Na entrevista, ele também fala sobre o presente de Cuba e sobre os desafios colocados para o país após a morte de Fidel Castro e aposentadoria de Raúl Castro. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Flavio Koutzii: ‘Em 64 tivemos um Fleury. Hoje, temos um Fleury de toga’

Quase nove meses depois da confirmação, pelo Senado, da deposição da presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2014 com mais de 54 milhões de votos, o Brasil convive com dois fenômenos que andam de mãos dadas: a instabilidade política, social e econômica do país se agravou e os setores que derrubaram Dilma tentam, desesperadamente, aprovar a sua agenda de reformas que retiram direitos resguardados pela Constituição de 1988 e pela CLT. A demora na aprovação dessas reformas, provocada pela crescente resistência nas ruas a elas só vai aumentando o clima de instabilidade.

O golpe contra Dilma foi dado com o objetivo central de aprovar essa agenda. Os setores que apoiaram a chegada de Michel Temer ao poder vinham tentando naturalizar o golpe consumado em 31 de agosto de 2016, mas, a incerteza quanto à aprovação de sua agenda no Congresso, acabou com a unidade entre eles. As recentes revelações da delação de Joesley Batista, dono da JBS, só agravaram esse quadro, aprofundando o grau de instabilidade política no país e de incerteza acerca do futuro do golpe que derrubou o governo Dilma.

A partir da experiência de quem viveu e enfrentou golpes no Brasil e na Argentina, Flavio Koutzii chama a atenção para as tentativas de naturalizar o que não deve ser naturalizado. Na Argentina, militou no Partido Revolucionário dos Trabalhadores – Exército Revolucionário do Povo (PRT-ERP), que pegou em armas contra a ditadura. Preso na Argentina, entre 1975 e 1979, voltou ao Brasil graças a uma campanha internacional pela sua libertação e participou da fundação da PT, partido pelo qual foi vereador, deputado estadual e chefe da Casa Civil durante o governo Olívio Dutra.

Em entrevista concedida ao Sul21, horas antes das notícias sobre a delação de Joesley virem a público, ele fala sobre a atualidade do golpe, sobre o papel desempenhado pelo Judiciário neste processo e sobre algumas lições que a luta contra as ditaduras no Brasil e na Argentina podem trazer ao presente. O golpe segue em curso e seus agentes no Parlamento, no Judiciário e na Mídia seguem mexendo as peças no tabuleiro para consumar os objetivos de sua empreitada. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Eleição na França será disputa entre austeridade e não austeridade, avalia jornalista

Anne Vigna: “A França já vive sob um regime de austeridade há muitos anos”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O bipartidarismo que marcou as dez disputas presidenciais da Quinta República Francesa, instaurada em 1958, pode ser rompido neste domingo (23), no primeiro turno da eleição que apontará o substituto (ou a substituta) do presidente François Hollande. Três das quatro candidaturas que lideram as pesquisas de intenção de voto não pertencem ao Partido Socialista ou aos Republicanos que dominam a vida política nas últimas décadas: Marine Le Pen, candidata da Frente Nacional (extrema-direita), Emmanuel Macron, do movimento En Marche, e Jean Luc Mélenchon (esquerda). François Fillon, candidato da centro-direita tradicional, ainda luta para tentar chegar ao segundo turno, enquanto Benoît Hamon, abandonado pelo próprio partido, vê seus votos migrarem rapidamente para a candidatura de Mélenchon. As últimas pesquisas apontam uma disputa muito acirrada e os analistas políticos franceses não se arriscam a prever quem passará para o segundo turno que será disputado no dia 7 de maio.

Na avaliação da jornalista francesa Anne Vigna, que vive no Rio de Janeiro desde 2012 e escreve para publicações do Brasil, França, Suíça, México e Bélgica, a economia será o tema decisivo da eleição deste ano. “A disputa será entre austeridade e não austeridade, lembrando que já estamos neste regime de austeridade há muitos anos”, assinala. Em entrevista ao Sul21, Anne Vigna fala sobre alguns dos principais temas que marcam a disputa eleitoral na França. Várias particularidades marcam a eleição deste ano, entre elas o fato de que o atual presidente, François Hollande, oficialmente, não tem candidato.

“Oficialmente, ele disse que só irá se pronunciar no segundo turno. Mas acho que nenhum dos candidatos está muito interessado em uma declaração de apoio do presidente. Mesmo assim, é impressionante que ele não apoie o candidato do seu próprio partido”, diz a jornalista. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

“Palestina só terá alguma esperança se mudar a correlação de forças mundial”, diz sociólogo

30/11/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o palestino Lejeune Mirhan. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Lejeune Mirhan: “As atenções estão todas voltadas para a Síria e a Palestina saiu do foco”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O agravamento da guerra na Síria nos últimos meses contribuiu para tirar a questão palestina da linha de frente do noticiário internacional. Os desdobramentos do resultado desse conflito, porém, podem influenciar o futuro do processo de negociações visando a criação e o reconhecimento de um estado palestino. Na avaliação do Lejeune Mirhan, sociólogo, escritor e arabista, a correlação de forças internacional hoje é desigual para aqueles que querem um mundo melhor. No caso da luta do povo palestino pela criação de sua nação, defende, ela só terá alguma esperança quando for alterada essa correlação de forças na direção de uma conjuntura mais progressista. Em entrevista ao Sul21, Lejeune Mirhan fala sobre a atualidade da questão palestina e sobre como fatos recentes da política internacional, como a guerra na Síria e a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, podem mudar o mapa geopolítico global.

Mirhan esteve em Porto Alegre esta semana participando de um debate promovido pela Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino e pelo núcleo do Rio Grande do Sul do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz-RS), no Sindicato dos Bancário de Porto Alegre e Região. Lejeune Mirhan é membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association, além de ser o organizador da obra coletiva “E se Gaza cair” e de outros quatro livros. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

 

Sociólogo e arabista Lejeune Mirhan debate situação da Palestina no SindBancários

Lejeune Mirhan é membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association, além de ser o organizador da obra coletiva “E se Gaza cair”.

Lejeune Mirhan é membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association, além de ser o organizador da obra coletiva “E se Gaza cair”.

A Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino e o núcleo do Rio Grande do Sul do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz-RS) promovem nesta quarta-feira (30), às 18 horas, no auditório do Sindicato dos Bancário de Porto Alegre e Região (SindBancários), um debate com o sociólogo, escritor e arabista Lejeune Mirhan sobre a situação do povo palestino. Lejeune Mirhan é membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association, além de ser o organizador da obra coletiva “E se Gaza cair” e de outros quatro livros.

Essa atividade integra a Semana de Solidariedade ao Povo Palestino, em Porto Alegre, que se estende de 23 a 30 de novembro. Por iniciativa da vereadora Jussara Cony, no dia 28 foi inaugurada a exposição “Palestina Ocupada e Martirizada”, na Câmara Municipal de Porto Alegre. No mesmo dia, ocorreu a exibição do filme “Cinco câmeras quebradas”, no CineBancários, seguida de um debate.

ONU volta a aprovar fim do bloqueio a Cuba. Pela primeira vez, EUA se abstém

Segundo estimativas do governo cubano, a política do bloqueio, aplicada há mais de 50 anos, já causou prejuízos superiores a 125 bilhões de dólares. (Foto: Cubadebate)

Segundo estimativas do governo cubano, a política do bloqueio, aplicada há mais de 50 anos, já causou prejuízos superiores a 125 bilhões de dólares. (Foto: Cubadebate)

Estados Unidos e Israel se abstiveram de votar, nesta quarta-feira (26), na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a resolução “Necessidade de por fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”. A resolução que é votada há 25 anos na ONU teve 191 votos a favor, nenhum contra e somente duas abstenções. É a primeira vez que os EUA e seu mais fiel aliado deixaram de votar favoravelmente à manutenção do bloqueio, decisão que representa mais um passo para a normalização das relações entre Washington e Havana.

Desde que essa aproximação iniciou, em dezembro de 2014, o presidente Barack Obama tem defendido a suspensão do bloqueio comercial contra Cuba imposto há mais de meio século. O fim do embargo precisa ser aprovado pelo Congresso norte-americano que, até aqui, tem se recusado a votar tal medida.

Apesar dos pedidos de Obama ao Congresso, controlado pelos republicanos, para por um fim ao bloqueio, as medidas seguem vigentes e Cuba continua sem poder exportar e importar livremente produtos e serviços para ou desde os Estados Unidos, manter relações bancárias diretas com esse país nem receber investimentos estadunidenses, com exceção da área das telecomunicações.

Segundo estimativas do governo cubano, a política do bloqueio, que vem sendo aplicada há mais de 50 anos, já causou prejuízos superiores a 125 bilhões de dólares.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Pela 25ª vez ONU vota a resolução que condena o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba

Em 2015 191 países membros da ONU votaram contra o bloqueio, e apenas os Estados Unidos e Israel decidiram pela manutenção da sanção. (Foto: Bill Hackwell)

Em 2015 191 países membros da ONU votaram contra o bloqueio, e apenas os Estados Unidos e Israel decidiram pela manutenção da sanção. (Foto: Bill Hackwell)

Por Vânia Barbosa (*)

Pela vigésima quinta vez, a Assembleia Geral das Nações Unidas vota, em 27 de outubro, o fim do bloqueio econômico, financeiro e comercial, que há 54 anos é aplicado pelos Estados Unidos contra Cuba, com o objetivo de asfixiar os avanços econômicos e sociais defendidos após a Revolução na ilha socialista.

A votação vem sendo precedida de uma forte campanha internacional visando a denunciar as consequências do bloqueio na economia e na vida dos cubanos. Em todo o Brasil entidades de solidariedade a Cuba realizam atividades e divulgam manifestos contra a medida terrorista aplicada pelos governos dos Estados Unidos desde 1962. O Coletivo dos Jornalistas Amigos de Cuba – grupo formado por profissionais de todos os estados brasileiros – divulgou um manifesto condenando a sanção, e apresenta, no dia 26 de outubro – véspera da votação na ONU –, o filme Apesar de Todo, dirigido pelo cubano Juan Carlos Travieso, que aborda os problemas causados à população da Ilha em consequência do bloqueio. Posteriormente o filme será debatido pelo jornalista Max Altman, o escritor Lúcio Lisboa e a cônsul cubana Ivette Martinez.

Foto: Divulgação/Coletivo dos Jornalistas Amigos de Cuba

Foto: Divulgação/Coletivo dos Jornalistas Amigos de Cuba

Entidades estudantis com representação no Brasil e na América Latina também divulgaram um manifesto, e fortaleceram a campanha com a frase: “Sou estudante, sou contra o bloqueio”.

Na votação deste ano o Informe a ser apresentado pelo governo cubano destaca as perdas sociais e econômicas da Ilha caribenha, no período entre os meses de abril de 2015 a abril de 2016. Com a manutenção desta longa e criminosa medida na atual administração do presidente Barak Obama, o bloqueio permanece causando prejuízos apesar da promessa de “uma nova era de relações” entre os dois países, acordada a partir do restabelecimento diplomático ocorrido em dezembro de 2014.

Considerando a desvalorização do dólar frente ao valor do ouro no mercado internacional, e o período anteriormente citado, as perdas do povo cubano com o bloqueio sobem para 753 mil 688 milhões de dólares, apesar da redução do preço do ouro em comparação com o período anterior. E desde que essa sanção começou a ser aplicada contra a Ilha, o bloqueio econômico, financeiro e comercial tem provocado prejuízos que chegam a mais de 125 mil 873 milhões de dólares, a preços atuais.

Apesar das expectativas geradas tanto pelo governo cubano, quanto pela comunidade internacional, na última votação em 2015, os Estados Unidos – apoiados por Israel – votaram contra a resolução condenatória ao bloqueio, ignorando o voto favorável de 191 dos 193 estados-membros que compõem a Organização.

Na época a Assembleia da ONU se pronunciou, pela primeira vez, após os governos de Cuba e dos Estados Unidos iniciarem o processo de aproximação. Uma grande expectativa levou os países a acreditar na possibilidade de o governo de Washington se abster na votação. No entanto, o voto contrário foi mantido mais uma vez, com a justificativa de que a resolução apresentada pela vigésima quarta vez “não representava” o processo de aproximação já iniciado.

O autoritarismo e a mesquinharia política do auto – denominado imperialismo do Norte, ignoram a decisão ascendente do Conselho da ONU em votar a favor da resolução que condena o bloqueio. Lamentavelmente, mesmo sendo aprovada pela maioria, a matéria não poderá ser aplicada enquanto os Estados Unidos mantiver o poder de vetar a decisão soberana dos países membros. Ocorre que o veto é assegurado apenas aos cinco países membros do Conselho de Segurança da ONU, entre eles os estados Unidos. Não é sem motivo que muitas nações esbravejam e pedem urgência para uma forte reforma na estrutura do Órgão.

Apesar de o levantamento do bloqueio econômico, financeiro e comercial não ser atribuído apenas ao Poder Executivo estadunidense, o presidente tem condições para utilizar com determinação suas atribuições para minimizar as políticas do bloqueio, mesmo que para extingui-lo necessite do apoio final do Congresso norte-americano.

Sem considerar a forte pressão internacional e isolado nas Nações Unidas, os Estados Unidos insiste em rejeitar a resolução condenatória, talvez apostando que a economia cubana se mantenha em dificuldades, e que o governo da Ilha sujeite o Estado à iniciativa privada para resolver a crise. É para isso que Washington mantêm o rigor das leis que justificam o bloqueio, mesmo quando afrontam os princípios de não intervenção e dos direitos humanos dos cubanos.

Barack Obama optou por manter a política criminosa contra o povo cubano, e entre outras medidas em 11 de Setembro de 2015 renovou as sanções contra Cuba, considerando a Lei de Comércio com o Inimigo de 1917, a base das leis e regulações que compõem o bloqueio, alegando a “proteção aos interesses de política externa”.

A política genocida dos sucessivos governos estadunidenses também está exemplificada no caso dos enfermos cubanos que são impedidos de se beneficiar dos diagnósticos, tecnologias e medicamentos que tenham qualquer componente procedente dos Estados Unidos, mesmo que deles dependam para sobreviver. Tudo porque segundo as leis do bloqueio, independentemente destes recursos serem produzidos ou estarem disponíveis em outros países, é proibido a sua aquisição por Cuba.

Para o governo cubano o avanço no processo para normalizar as relações bilaterais com os Estados Unidos deverá considerar a disposição em garantir a base de igualdade soberana, e não ingerência nos assuntos internos e o respeito absoluto a sua independência. Neste sentido “é necessário o levantamento unilateral e incondicional por parte do governo dos estados Unidos, do bloqueio aplicado contra Cuba”.

(*) Leia mais sobre o bloqueio no site: www.cubavsbloqueo.cu

O Golpe do Petróleo

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Paulo Pimenta

A onda de golpes que ocorre na América do Sul e as tentativas de desestabilizar os governos de esquerda no continente, democraticamente eleitos, devem ser compreendidos não de forma isolada, mas, sim, dentro de uma percepção mais ampla dos interesses econômicos internacionais sobre a região. Com descoberta do petróleo na camada do pré-sal na costa brasileira, estima-se que o Brasil possa se tornar a terceira maior reserva do mundo, atrás apenas de Venezuela – a maior reserva do planeta – e da Arábia Saudita.

Desde que a descoberta foi anunciada, ainda no governo Lula, essa riqueza despertou interesse das petroleiras norte-americanas. Documentos, de 2009, mas revelados pelo Wikileaks em 2011, comprovam isso: “Para a Exxon Mobile, o mercado brasileiro é atraente em especial considerando o acesso cada vez mais limitado às reservas no mundo todo”.

Ao mesmo tempo em que estavam “interessados”, aponta o Wikileaks, os norte-americanos demonstram insatisfação diante de uma legislação própria para exploração do pré-sal enviada pelo poder executivo ao Congresso brasileiro. “Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria dito Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo Lula.

De acordo com o Wikeleaks, a diretora da Chveron detalha como funcionaria essa nova lei. “Para o pré-sal, o governo brasileiro mudou o sistema de exploração. As exploradoras não terão, como em outros locais, a concessão dos campos de petróleo, sendo “donas” do petróleo por um determinado tempo. No pré-sal elas terão que seguir um modelo de partilha, entregando pelo menos 30% ao governo brasileiro. Além disso, a Petrobras será a operadora exclusiva”.

Segundo estimativas, 93% das reservas de petróleo do planeta estão nas mãos de empresas estatais. Entre os maiores produtores mundiais, apenas o Kuwait e o Iraque privatizaram suas reservas. Coincidência? Esses dois países foram invadidos pelos Estados Unidos, em uma guerra que alegava necessidade de intervenção sob o pretexto de “salvar a população local”, para esconder o real interesse dos norte-americanos nas reservas de petróleo dessas duas nações. Como pena de guerra, Kuwait e Iraque “concordaram” em ceder suas reservas às empresas norte-americanas.

Sem jamais ter como justificar uma guerra no Brasil, para se apropriarem do petróleo brasileiro as empresas norte-americanas utilizaram estratégias mais sutis, como a cooptação de políticos locais, e buscaram apoio do candidato à presidência do Brasil, em 2010, José Serra (PSDB), que prometeu, em caso de vitória, desestatizar as reservas do pré-sal, e orientou as empresas estrangeiras a não participarem das rodadas de licitação. “Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava (referindo-se a lei de 1997, aprovada pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, que quebrou o monopólio do Estado brasileiro de exploração e refino do petróleo). E nós mudaremos de volta”, orientou Serra.

Mas, José Serra foi derrotado por Dilma Rousseff (PT) em 2010, e não conseguiu – naquele momento – entregar o que havia prometido às empresas norte-americanas. Entretanto, José Serra retornou ao parlamento brasileiro, em 2015, eleito senador da república. Imediatamente após tomar posse, Serra apresenta uma proposta legislativa para mudar as regras do pré-sal, acabando com a participação mínima da Petrobras em 30% do petróleo explorado e retirando a exclusividade da operação da estatal brasileira, como queriam, desde o início, Chevron e Exxon Mobil. O projeto foi aprovado no Senado no início de 2016 e está prestes a ser votado pela Câmara dos Deputados.

Em maio de 2016, um golpe jurídico-político-midiático-econômico afasta a Presidenta eleita Dilma Rousseff, e José Serra se torna ministro das Relações Exteriores. Chanceler, ele passa a liderar uma política de retaliações à Venezuela dentro do bloco do Mercosul. Como divulgado na imprensa, acompanhado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, seu companheiro de partido, José Serra foi até o presidente uruguaio, Tabaré Vazquez, implorar para que a Venezuela não assumisse a presidência do bloco. Qual o motivo?

Recentemente, a Exxon Mobil descobriu uma jazida de petróleo na Guiana. Ocorre que esse território é alvo de disputa entre a Venezuela e a Guiana, e há um tratado internacional que impede a exploração de recursos naturais até que haja uma definição para essa disputa. Como essa decisão pode vir a ser discutida e arbitrada, em um primeiro momento, pelo Mercosul, o que José Serra buscava era impedir que a Venezuela assuma a presidência do bloco, o que certamente iria prejudicar os interesses da Exxon Mobil na região.

O continente sul-americano possui muitas riquezas, temos petróleo, água, gás e nossas fronteiras agrícolas são as únicas que ainda podem ser expandidas de maneira significativa, ao contrário do que há hoje nos Estados Unidos e Europa, totalmente esgotadas. Assim, não é nada difícil compreender os motivos e objetivos das campanhas que se sucederam ao longo da última década até os dias de hoje, contra Lula, Dilma, Chávez, Maduro, Cristina Kirchner, Evo Morales, Rafael Correa e todos líderes da esquerda da América do Sul.

Portanto, é evidente que o que está por trás dos golpes e da desestabilização dos governos na América do Sul – dessa vez sem tanques nas ruas, mas com boicote econômico e uma guerra midiática permanente para enfraquecer companhias nacionais, como ocorre no Brasil com a Petrobras – são, mais uma vez, os interesses estrangeiros, e o petróleo é questão central.

E ontem, infelizmente, mais um capítulo do golpe, que possui várias faces, foi executado. A Câmara aprovou a entrega do pré-sal às multinacionais estrangeiras. O projeto de José Serra, porta-voz dos interesses dos americanos no Brasil, retira da Petrobras a obrigação de participar da exploração o pré-sal e foi colocado a “toque de caixa” na pauta pelo governo golpista de Michel Temer. Com isso, o Temer, Serra e os golpistas transferem a garantia de futuro de milhões de brasileiros e brasileiras e um projeto de soberania nacional para países que historicamente se constituíram como “potencias econômicas” explorando e roubando riquezas das nações em desenvolvimento, e abalando suas democracias.

(*) Paulo Pimenta, jornalista e deputado federal pelo PT.

Macri vai incendiar a Argentina

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Por Altamiro Borges

Em seu arrivismo neoliberal, o presidente Mauricio Macri está brincando com fogo e pode incendiar a Argentina em curto espaço de tempo. A cada dia, nestes quase dois meses de governo, o empresário mafioso adota uma medida antipopular e provoca a conhecida rebeldia dos argentinos. Nesta quarta-feira (27), ele anunciou o fim dos subsídios para a energia elétrica, o que aumentará a conta de luz em até 350%. A decisão foi anunciada com arrogância como mais um passo para enterrar o “populismo” da ex-presidente Cristina Kirchner e para garantir a “austeridade fiscal”, tão ao gosto dos banqueiros e dos ricaços que financiaram a sua apertada vitória eleitoral em novembro do ano passado.

Segundo o novo governo, o corte reduzirá o déficit público e viabilizará o pagamento dos títulos da dívida aos rentistas. O Ministério da Fazenda, controlado por banqueiros, argumenta que os subsídios “kirchneristas” abocanham a cerca de 4% do PIB. A meta é reduzir esse índice para 1,5% ainda neste ano. O aumento da conta de luz, porém, vai pressionar a inflação, sabotando a principal bandeira de campanha de Mauricio Macri. Até os chamados “analistas do mercado”, porta-vozes dos banqueiros, já avaliam que com a medida a inflação passará dos 30% neste ano. As maiores vítimas desta alta inflacionária serão os trabalhadores, que já prometem greves pela reposição salarial a partir de março.

Conhecido por seu autoritarismo, o novo presidente tende a rechaçar as pressões com mais violência. Após 12 anos sem cenas de repressão, a Argentina voltou a ser palco de bombas de gás, cassetetes e tiros da polícia. Servidores públicos demitidos – mais 15 mil – foram baleados e críticos das medidas antipopulares já foram presos – como a líder camponesa Milagro Sala, deputada do movimento Tupac Amaru. Centenas decretos de “urgência” também foram baixados de forma autoritária, como o que impôs dois ministros para Suprema Corte de Justiça e extinguiu as duas agências de regulação dos meios de comunicação. O império midiático do Clarín aplaudiu as medidas ditatoriais, mas a rejeição popular nas ruas já se fez sentir, com enormes manifestações de protestos.

Em entrevista ao site espanhol ‘Rebelión’, o economista Cláudio Katz avalia que Mauricio Macri terá dificuldades para encerrar seu mandato. “Em seu primeiro mês, Macri confirmou que encabeça um típico governo de direita, que funciona com ajustes e repressão. Terminada a campanha eleitoral, os chamados à concórdia sumiram e a cada dia despertamos com um novo pesadelo. O mais grave são as demissões, que já somam mais de 15 servidores públicos. Com a alta de inflação nestas primeiras semanas do ano, a situação vai se agravar… Há uma campanha oficial para facilitar demissões porque o governo sabe que estrategicamente somente com um desemprego maior ele poderá lograr uma forte recomposição dos lucros dos empresários”.

“Há um cenário de repressão que explica porque Macri governa por decreto. O homem que falava em concertação, diálogo e consenso, não pára de baixar decretos. Demissões e repressão necessitam de um governo autoritário… Este é um governo das classes capitalistas de forma descarada. Os que hoje remarcam os preços são gerentes que estavam no setor privado e que hoje controlam a administração pública… É um governo da classe dominante de forma explícita e descarada”. No cenário desenhado pelo economista Cláudio Katz, fica a pergunta: quanto tempo vai durar o reinado do mafioso Mauricio Macri? A conferir!

Eleição na Espanha indica esgotamento do Pacto de Moncloa, diz Tarso Genro

O Podemos, de Pablo Iglesias, foi a grande novidade da eleição espanhola, chegando a 69 deputados na sua primeira experiência de eleições gerais. (Foto: Divulgação)

O Podemos, de Pablo Iglesias, foi a grande novidade da eleição espanhola, chegando a 69 deputados na sua primeira experiência de eleições gerais. (Foto: Divulgação)

Tarso Genro acompanha há mais de trinta anos o processo político em Portugal e na Espanha e elegeu alguns marcos de referência para avaliar o que ocorre nestes dois países. Por que a escolha por Portugal e Espanha? O ex-governador do Rio Grande do Sul explica que é, em especial, porque são democracias jovens, que surgiram numa espécie de vácuo das utopias, de um lado, e, de outro, fortaleceram-se e modernizaram-se no processo de formação da União Europeia. “Ambos os processos políticos tem alguma semelhança com o Brasil, mas atravessando esta época com um sistema político mais aperfeiçoado e mais democrático”, assinala.

O vácuo a que ele se refere tem uma dupla dimensão: “de uma parte, a crise profunda da ideia comunista, tal qual foi implementada pela experiência soviética e, de outra, a decadência do projeto socialdemocrata, como algo estável na civilidade democrática do continente”. A integração europeia promovida por esses dois países, observa Tarso Genro, promoveu nas suas respectivas sociedades, uma espécie de socialdemocracia subsidiada, com fundos europeus, que, ao contrário do que ocorreu com a Noruega e a Suécia, para citar dois exemplos, não adquiriu autonomia para levar adiante os seus respectivos projetos nacionais.

Para Tarso, essa integração na Europa, agora, cobra os seus custos, pela redução dos direitos originários do Estado socialdemocrata, que se ergueu a partir de uma enorme dívida pública. Quem paga isso? – pergunta. “Retirar, por exemplo, 1.000 euros da renda de quem ganha 8.000 euros por ano é muito diferente de tirar 1.000 euros, de quem ganha 50.000 euros por ano. Esse é conflito econômico básico de cada “ajuste”, seja na Europa, seja no Brasil e daí é que partem as divergências e diferentes programas de Governo”, sustenta.

A Revolução dos Cravos e o Pacto de Moncloa

Desde o Pacto de Moncloa (1977), a polarização do campo mais conservador, representado pelo Partido Popular, com o campo progressista, representado pelo Partido Socialista Obreiro Espanhol, configurou todo o cenário político na Espanha.

Desde o Pacto de Moncloa (1977), a polarização do campo mais conservador, representado pelo Partido Popular, com o campo progressista, representado pelo Partido Socialista Obreiro Espanhol, configurou todo o cenário político na Espanha.

Tarso identifica dois momentos fundamentais no processo político que marca a história de Portugal e Espanha nos últimos anos:

“A Revolução dos Cravos em Portugal (1974) e o Pacto de Moncloa (1977), na Espanha, são os dois momentos-chaves do processo democrático destes dois países. Embora ambos estivessem vinculados a momentos se efervescência revolucionária ou, pelo menos, fortemente reformistas, produziram saídas democráticas conciliadas, através de processos constituintes pactuados, varrendo o tipo de Estado autárquico e ditatorial, que caracterizava ambos os países. Na minha opinião, o que ocorre hoje na Espanha é o esgotamento do Pacto de Moncloa, que encaminhou uma série de soluções democráticas para a transição e deu base para avanços sociais importantes. Sua crise põe em xeque precisamente as forças políticas que o promoveram: o eurocomunismo, a socialdemocracia clássica, o franquismo auto-reformado e a direita integrada na democracia”.

Desde o Pacto de Moncloa, assinala ainda Tarso, a polarização do campo mais conservador, representado pelo Partido Popular, com o campo progressista, representado pelo Partido Socialista Obreiro Espanhol, configurou todo o cenário político e as disputas eleitorais. No entanto, ressalta, “as profundas mudanças sociais, produtivas, financeira e culturais na Espanha, nos últimos trinta anos, principalmente, fez surgir uma nova estrutura de classes: novos tipos de demandas, novos fragmentos sociais, novos problemas decorrentes da integração europeia, cujos pedidos de respostas não encontram eco nestes dois partidos, que, aliás, foram ficando muito parecidos nas soluções que tem apresentado, tanto para as crises econômicas como para enfrentar as graves dificuldades do Estado Social e das petições de autonomia nacional, como as que partem do País Basco e da Catalunha”.

O desafio para o Podemos

Na avaliação do ex-governador, o surgimento de uma intensa relação horizontal, em rede, veio substituindo a relação de verticalidade das estruturas tradicionais de poder dos partidos. “Isso jogou na cena pública milhares de novos atores, tanto à direita como à esquerda, que passaram a formular políticas, de baixo para cima. Não só fora dos grupos sindicais tradicionais, mas também de fora das influências mais diretas do poder econômico”.
O que resta saber, daqui para diante, acrescenta, “é se o Podemos – que é a grande novidade à esquerda – terá condições de formular políticas de Estado para reorientar, desde a questão Federativa, na Espanha, até o natureza do desenvolvimento econômico necessariamente dentro da Europa, com suas respectivas alianças para, no futuro, governar, se formar uma nova maioria. Há uma diferença grande entre crescer na oposição e manter-se coerente, governando”.

Tarso Genro concorda com a análise de que a eleição do último domingo acabou, pelo menos por um longo tempo, com o bipartidarismo na Espanha. E acabou também com a representação quase exclusiva, em termos de acesso ao poder à esquerda e à direita, com a força hegemônica do PSOE e do PP. Ele cita alguns números para justificar essa leitura:

O PP perdeu 60 deputados, ficando com apenas 123 cadeiras. O PSOE perdeu 19, ficando com apenas 91 deputados, seu pior resultado desde a redemocratização. A Esquerda Unida ficou apenas com dois deputados. De outra parte, o Podemos, de Pablo Iglesias, no espectro de esquerda, chegou, na sua primeira experiência de eleições gerais, a 69 deputados! E um novo grupo de direita, os Ciudadanos, surgiu com 40 deputados. Este é um novo partido composto de jovens pró-mercado e contra a social-democracia, mas abertos em relação às questões de costumes e aos novos modos de vida pós-modernos. Separa-se radicalmente do PP, nestes terrenos, sendo responsável, sem dúvida, pelo vigoroso decréscimo eleitoral do referido partido”.

O resultado deste cenário é que, para formar um novo Governo, qualquer Partido deve garantir 176 votos para governar com certa estabilidade, o que ninguém tem. “A Espanha tem um presidencialismo parlamentarista e as alianças devem ser formadas para montar e assumir o Governo. A menos que se forme um Governo de minoria, o que ninguém deseja, pois remete, desde logo, a uma ingovernabilidade altamente problemática”, assinalada ainda Tarso.

A lição espanhola

Para o ex-governador gaúcho, os democratas e a esquerda, em geral, devem olhar para o que ocorre na Espanha como um sinal dos tempos. Ele define assim aquela que considera a lição espanhola, que se materializou nas urnas no último domingo:

“O esgotamento das formas tradicionais de governar e o esgotamento dos partidos mais tradicionais, não é o fim da democracia nem o fim da soberania popular. Pode ser um recomeço. Um personagem espanhol disse, recentemente que o problema do PSOE e do PP não é que eles não cumprem as suas promessas, mas sim que eles não fazem as promessas certas! Não sei quais seriam as promessas certas, para o referido crítico, nem se concordo com elas, Mas que a frase encerra uma verdade política incontestável, não tenho dúvidas. Não adiante fazer promessas irreais que, para implementá-las, seria preciso um regime de força que ninguém aceita. Seja de que natureza for. Promessas, que depois não podem ser cumpridas dentro da democracia. O mercado pune, como dizia Bill Clinton, para Fernando Henrique, mas hoje as redes também punem, como está demonstrando a Espanha. Não adianta, também, mimetizar-se no adversário, dizendo apenas que “faremos melhor o que já está sendo feito”.

A crise econômica mundial, hoje, conclui Tarso Genro, está entranhada na crise da democracia representativa e no aniquilamento das funções públicas do Estado: “A partir desta constatação é que se pode começar a pensar em reformar ou fundar novos partidos, A partir disso, penso eu meio nadando contra a correnteza, é que poderemos recuperar a utopia democrática a partir do desejo e da luta pela igualdade”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.