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Entrevista ao Sul21 em 2016: ‘Se elites brasileiras derrubarem Dilma, vai se abrir um fosso social profundo’

Carlos Araújo: “É 2018 que informa todos os movimentos. Os conservadores não admitem, de forma nenhuma, uma nova vitória do Lula”. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

(*) Entrevista concedida por Carlos Araújo ao Sul21 em abril de 2016, em seu escritório, em Porto Alegre.

Marco Weissheimer

Um aparente paradoxo ronda a atual crise política no Brasil. As raízes dessa crise estão no futuro. “Tudo o que está ocorrendo neste momento, desde as eleições passadas, tem como referência 2018. É 2018 que informa todos os movimentos. Os conservadores não admitem, de forma nenhuma, uma nova vitória do Lula, que é um candidato, quer se queira ou não, bastante expressivo e com chance de se eleger em 2018”, assinala Carlos Franklin Paixão de Araújo, político, advogado trabalhista e ex-marido da presidenta Dilma Rousseff. Em entrevista ao Sul21, Carlos Araújo fala sobre a ofensiva conservadora no país para derrubar a presidenta eleita em 2014 e para inviabilizar a possibilidade de uma nova vitória de Lula em 2018.

Araújo reconhece que a situação política e social do país é muito delicada, mas acredita que o governo Dilma tem fôlego para superar a crise atual. E adverte: “Se ocorrer de eles derrubarem a Dilma, acho que vai ficar um fosso social mais profundo do que o que ocorreu após a derrubada de Jango e do suicídio de Getúlio”. Para ele, as elites brasileiras e seus braços midiáticos têm uma postura idealista similar a de grupos de extrema esquerda: “Eles imaginam que a realidade é o que eles pensam que é. Por isso, nunca conseguem traçar uma estratégia mais eficiente. Eles sempre estão anunciando para daqui a pouco uma coisa que não ocorre. Estão nesta aventura de querer derrubar a Dilma, mas derrubar a Dilma é uma aventura inconsequente para eles mesmos. O povo está olhando tudo isso que está acontecendo”, assinala. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Há um previsível horizonte de avanço do Estado policial no Brasil, diz “anticandidata” ao STF

Beatriz Vargas Ramos: “O sentido dessa proposta da anticandidatura foi ocupar a cena política e debater qual é o papel do Supremo, o que se espera de um ministro do Supremo, neste momento difícil que o país atravessa”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

No dia 15 de fevereiro, especialistas do meio jurídico, representantes de movimentos sociais e de mulheres lançaram, no Senado, a “anticandidatura” de Beatriz Vargas Ramos, professora de Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). O objetivo da iniciativa foi protestar contra a indicação do ex-ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para a vaga de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal e também debater qual é o papel do STF e o que se espera de um ministro do tribunal constitucional no atual momento que o Brasil vive.

Beatriz Vargas Ramos este em Porto Alegre, na semana passada, participando de um debate promovido pela Associação Gaúcha dos Advogados Trabalhistas (Agetra), juntamente com a Themis. Em entrevista ao Sul21, a professora da UnB falou sobre o sentido da anticandidatura, o papel do STF e do Judiciário de um modo em geral no momento político vivido pelo país. Para Beatriz Vargas, o Supremo agiu muito aquém da sua competência no processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, “ficando muito longe daquilo que poderia ter examinado e que não diz respeito ao mérito do processo”. E acrescenta: “O STF tem, de fato, dado algumas demonstrações de um certo protagonismo na cena política que impressionam. Temos visto não só declarações de ministros fora dos autos como comportamentos exagerados que extrapolam até certos limites do decoro”.

A “anticandidata” ao STF critica também a “mistura” que há hoje entre as atuações do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal e os excessos cometidos por essas instituições. Na avaliação de Beatriz Vargas, o estado de exceção, que já estava presente penal para os mais pobres, está sendo replicado agora para uma parcela mais “empoderada” da sociedade como políticos e empresários. Ela adverte para os riscos dessa situação e projeta um cenário perigoso para a democracia brasileira. “Há um previsível horizonte de mais rigor, recrudescimento e de um avanço do Estado policial”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Professores protestam contra parcelamento de salário pelo 9º mês consecutivo

Em Porto Alegre, os 38° e 39° núcleos do CPERS Sindicato promoveram um protesto na Praça Matriz, em frente ao Palácio Piratini. (Foto: Divulgação/CPERS)

Em Porto Alegre, os 38° e 39° núcleos do CPERS promoveram protesto em frente ao Piratini. (Foto: Divulgação)

Professores, funcionários de escola, estudantes, servidores da saúde e da segurança realizaram nesta terça-feira (1°) novos protestos contra o parcelamento de seus salários que, em outubro, se repetiu pelo nono mês consecutivo. Para manifestar seu repúdio ao novo parcelamento, educadores e funcionários paralisaram suas atividades em várias escolas do Estado e realizaram manifestações em frente ao Palácio Piratini, às Coordenadorias Regionais de Educação e a agências do Banrisul.

Em Porto Alegre, os 38° e 39° núcleos do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS Sindicato) promoveram um protesto na Praça Matriz, em frente ao Palácio Piratini, que reuniu centenas de professores e estudantes. Além de repudiar o novo parcelamento, o ato também denunciou os projetos de lei estaduais e federais que tiram benefícios de servidores, entre eles a PEC 241, rebatizada agora de PEC 55 no Senado Federal. Confira algumas das manifestações que ocorreram segunda e terça-feira no interior do Estado:

Santa Maria

Centenas de educadores e estudantes reuniram-se na Praça Saldanha Marinho e manifestaram-se contra a política de parcelamento de salários do governo do Estado. Durante o ato, foi realizado um abaixo-assinado reivindicando o impeachment do governador José Ivo Sartori (PMDB). Centenas de assinaturas foram recolhidas.

Uruguaiana

Os educadores, juntamente com os servidores da saúde, reuniram-se no Centro da cidade na manhã de segunda-feira, dia 31. Com faixas e cartazes, os servidores protestaram contra o parcelamento de salários dos educadores e contra o atraso de pagamento dos funcionários do maior hospital da fronteira oeste, a Santa Casa de Uruguaiana. As duas categorias denunciaram à população o desmonte do serviço público e o caos instalado pelo governo Sartori nas áreas da educação e da saúde.

Ijuí

Educadores concentraram-se em frente ao Banrisul, no Centro da cidade, e exibiram uma  faixa denunciando os nove meses de parcelamentos consecutivos. Os educadores conversaram com a comunidade explicando a difícil situação dos professores e funcionários de escola, que enfrentam, mês após mês, o parcelamento de seus salários.

São Leopoldo

Na manhã desta terça-feira, dia 1º, educadores e estudantes do Instituto Estadual de Educação Professor Pedro Schneider e da Escola Estadual 25 de Julho realizaram ato em frente da 2ª CRE contra o parcelamento dos salários e a PEC 241 (congela por 20 anos os investimentos nas áreas da saúde e da educação). A presidente do CPERS, Helenir Aguiar Schürer, e os diretores Ida Irma Dettmer e Cássio Ritter participaram da mobilização.

Pelotas

Professores, funcionários de escola e estudantes concentraram-se às 10h em frente à 5ª Coordenadoria Regional de Educação – CRE para denunciar o descaso do governo Sartori com os educadores.

Rio Grande

Os educadores de Rio Grande reuniram-se em frente a agência do Banrisul e realizaram panfletagem, denunciando a política de diminuição de Estado promovida pelo governo Sartori. Professores e funcionários de escola também coletaram assinaturas para o abaixo assinado organizado pelo CPERS, que reforça o pedido de impeachment do governador, feito pela entidade.

Taquara

Educadores e servidores da Brigada Militar e Civil realizaram ato em frente a agência do Banrisul na manhã, desta terça-feira, dia 1º. Professores e funcionários de escola plantearam na sinaleira e dentro do Banco, denunciando o parcelamento dos salários dos servidores e o descaso com os serviços públicos essenciais para a população, saúde, educação e segurança.

Em guerra com MBL no RS, PMDB apoiou protestos do grupo contra Dilma

Em gravações divulgadas em maio deste ano, um dos coordenadores nacionais do MBL afirmou ter recebido apoio do PMDB e de outros partidos para organizar e divulgar os atos em defesa do impeachment de Dilma Rousseff. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Em gravações divulgadas em maio deste ano, um dos coordenadores nacionais do MBL afirmou ter recebido apoio do PMDB e de outros partidos para organizar e divulgar os atos em defesa do impeachment de Dilma Rousseff. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A deputada estadual Juliana Brizola (PDT) denunciou nesta terça-feira (25) que foi agredida por dois homens que seriam integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) durante uma atividade da campanha de Sebastião Melo, candidato do PMDB à Prefeitura de Porto Alegre. Candidata a vice na chapa de Melo, Juliana Brizola anunciou, no início da tarde, que registraria um Boletim de Ocorrência para denunciar o episódio que virou tema de debate na sessão plenária da Assembleia Legislativa. O MBL, por meio de sua conta no Twitter, negou que algum integrante do grupo tenha agredido a deputada e afirmou: “Novamente, políticos de caráter flexível inventam histórias mirabolantes para acuar o MBL”.

Segundo Juliana Brizola relatou na Assembleia Legislativa, ela e sua assessora de 22 anos foram atacadas “por dois homens covardes”, que seriam do MBL. “Sou mulher, não ando com segurança, tenho dois filhos pequenos. Sabe qual o meu crime para o MBL? Foi ter votado na presidenta Dilma”, afirmou. Falando sobre o fato de o MBL ser “contra a política e os políticos”, ela questionou: “Isso não é uma ideologia?”. A deputada concluiu sua fala dizendo que, se alguma coisa acontecesse com ela, isso teria nome: MBL.

O deputado Tiago Simon (PMDB) também se manifestou sobre o episódio, dirigindo-se aos integrantes do MBL. “Respeito a mobilização do grupo, que tem posicionamento liberal e defende suas ideias. Tinham uma causa, que era derrubar o governo do PT. Conseguiram, mas o que temos visto agora é a radicalização de um grupo autoritário, articulado com candidaturas e que tem se infiltrado de maneira sórdida com práticas fascistas, destruindo a dignidade, a imagem e a vida das pessoas. Esse movimento, da forma que está, não pode ficar. Já passamos de todos os limites”.

A coligação “Porto Alegre pra Frente”, do candidato Nelson Marchezan Jr. (PSDB), divulgou nota oficial manifestando solidariedade à deputada Juliana Brizola pela agressão relatada no centro da Capital. “Repudiamos com veemência o fato e consideramos inaceitável qualquer ato de violência, especialmente contra mulheres. Acreditamos que as imagens das câmeras de segurança da Esquina Democrática e do Largo Glênio Peres devem ser disponibilizadas imediatamente para que sejam identificados e responsabilizados os autores da agressão, independente de quem sejam”, diz a nota.

A origem do conflito entre MBL e PMDB no RS

A briga do PMDB gaúcho contra o MBL ganhou visibilidade a partir do segundo turno da campanha eleitoral em Porto Alegre. O MBL decidiu apoiar a candidatura do deputado federal Nelson Marchezan Júnior, do PSDB, e acabou adquirindo um protagonismo polêmico na campanha. Sebastião Melo acusou o movimento de perseguir um dos coordenadores de sua campanha, Plínio Zalewski, que acabou sendo encontrado morto no banheiro do comitê de campanha da candidatura do PMDB.

Na abertura do segundo turno, Melo questionou os métodos de campanha utilizados por Marchezan e criticou a ligação entre o tucano e o MBL. “Tens que parar, Marchezan. Tens que parar e explicar qual a tua relação com o Movimento Brasil Livre, o MBL, que persegue pessoas como fizeram com o nosso querido amigo Plínio, que acabou perdendo a sua vida”, afirmou o candidato do PMDB, que acrescentou: “O mais grave neste movimento é que ele não respeita quem pensa diferente”. Até a campanha deste ano, porém, não havia registro de conflitos entre o MBL e o PMDB. Pelo contrário. O movimento e o partido colaboraram na organização de alguns protestos em defesa do impeachment de Dilma.

No processo do impeachment, MBL e PMDB estiveram aliados

Criado em novembro de 2014, logo após a reeleição da presidenta Dilma Rousseff, o MBL nasceu apresentando-se como uma organização não-governamental apartidária e defensora do ideário liberal. Ao longo de 2015, o movimento desempenhou um papel central na organização de protestos que levaram milhares de pessoas às ruas em várias cidades do Brasil, em defesa do impeachment de Dilma. O MBL sempre negou ter vinculação partidária, mas, em maio deste ano, o portal UOL divulgou gravações, onde um líder do movimento reconhecia ter recebido apoio material, como panfletos e carros de som, de partidos de oposição ao governo Dilma, como DEM, PMDB, PSDB e Solidariedade.

Em uma destas gravações, Renan Antônio Ferreira dos Santos, um dos três coordenadores nacionais do MBL, diz a um colega do movimento que teria fechado um acordo com alguns partidos políticos para divulgar os protestos do dia 13 de março usando “as máquinas” desses partidos para tanto. Renan Santos confirmou ao UOL a autenticidade do áudio e relatou que o comitê do impeachment contava com lideranças de vários partidos, entre eles, DEM, PSDB, Solidariedade e PMDB.

PMDB ajudou a financiar pixulecos, panfletos e viagens, diz ex-líder do MBL

Em entrevista concedida ao site Diário do Centro do Mundo, em junho deste ano, o ex-dirigente do MBL do Espírito Santo, Bráulio Fazolo, confirmou que o movimento recebeu auxílio financeiro do PMDB. Fazolo deixou a coordenação do MBL no dia 12 de junho dizendo estar decepcionado com os rumos que o movimento estava tomando e por não concordar com o financiamento que estava recebendo de partidos. Nesta entrevista, Bráulio Fazolo afirmou: “Uma coisa que eu quero que fique clara é que o movimento recebeu dinheiro do PMDB. Não só do PMDB mas de alguns outros partidos, mas vou citar o PMDB em especial porque o nome do partido foi falado internamente nas reuniões. É um assunto que a gente nunca levou para fora dos grupos internos, dos núcleos”.

Ainda segundo Fazolo, o fato de o PMDB ter “destinado fundos para pixulecos, panfletos, movimentação de pessoas que foram a Brasília acompanhar o impeachment sempre foi tratada com bastante tranquilidade, porque eles passavam para a gente que o PMDB era uma peça fundamental no impeachment”. “Todas as pessoas que faziam parte da coordenação, da parte interna do MBL sabiam que esses repasses existiram”, acrescentou.

A partir de setembro deste ano, o presidente Michel Temer realizou alguns encontros com “movimentos sociais que apoiaram o impeachment de Dilma”, entre eles, o MBL. O objetivo desses encontros seria pensar “formas de convencer a população” a aceitar propostas como as reformas da Previdência e do Trabalho. No dia 22 de setembro, Renan Santos foi recebido por Moreira Franco, secretário do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Segundo Santos, o objetivo do encontro foi aproveitar a “expertise de mobilização, a sensibilidade, o fato de o MBL estar sentindo o pulso das ruas” para ajudar na formulação de políticas de comunicação do governo Temer.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

“A palavra ‘golpe’ irrita a direita brasileira porque ela quer esconder a verdade”

Ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, participou do lançamento do livro “É golpe, sim!”, de Adão Villaverde. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, participou do lançamento do livro “É golpe, sim!”, de Adão Villaverde. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Nos últimos meses, entre as várias disputas que tomaram corpo no país, uma delas tem um caráter, ao mesmo tempo, político e semântico: o afastamento da presidenta da República, Dilma Rousseff, foi um golpe de Estado ou não? Para o ex-ministro da Justiça e advogado defensor de Dilma durante o processo de impeachment, José Eduardo Cardozo, não há dúvida de que o aconteceu no Brasil foi um golpe. “Não é por acaso que o emprego dessa palavra é o que mais irrita as elites conservadoras do Brasil hoje. Quando a verdade é dita, os que querem escondê-la ficam incomodados”, disse Cardozo durante o lançamento do livro “É Golpe, sim!” (Editora Sulina), que reúne artigos do deputado estadual Adão Villaverde (PT), que ocorreu na noite desta segunda-feira (17), no auditório do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários).

O livro lançado por Adão Villaverde deixa explicitado já no título essa intenção de disputar o sentido do que está acontecendo no país. “Este livro tenta fazer uma narrativa sobre o ataque à democracia brasileira e ao estado democrático de direito. Além disso, faz uma análise sobre os impactos o golpe aqui no Rio Grande do Sul e trata também do tema do entreguismo dos recursos do país que expõe a dimensão internacional do golpe”, disse o parlamentar na abertura do ato que marcou o lançamento do livro, que contou, entre outros, com a presença do ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, do ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, e da presidenta do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS – Sindicato), Helenir Aguiar Schürer.

José Eduardo Cardozo iniciou a sua fala, lembrando que o ex-Advogado Geral da União, Fábio Medina Osório, abriu uma sindicância contra ele por ter utilizado a palavra “golpe” para descrever o que estava acontecendo no país. O processo que culminou com o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, assinalou, começou no minuto seguinte à confirmação do resultado da eleição presidencial em 2014. “Para eles, se tratava de uma luta política de vida ou morte. Eles pensavam que ganhariam as eleições de 2014 e, na apuração, houve um momento em que acharam que tinham vencido e nós chegamos a achar que tínhamos perdido. Mas nós acabamos vencendo. O sentimento de frustração das elites conservadoras se expressou até na imprensa naquele momento, com comentários sobre a população de determinadas regiões do país que não saberia votar”.

Após a confirmação do resultado, lembrou o ex-ministro da Justiça, eles começaram imediatamente a questionar a legitimidade da eleição, levantando suspeitas sobre o funcionamento do sistema de urnas eletrônicas. “Eles sabiam que, uma vez que Dilma tomasse posse e a crise econômica fosse superada, não voltariam ao poder tão cedo. Por essa razão, iniciaram ainda em 2014 um processo de deslegitimação da presidenta eleita”. Para Cardozo, o processo de impeachment que acabou ocorrendo no Brasil não foi uma invenção original, mas seguiu o novo modelo de golpe, substitutivo dos golpes militares, aplicado em Honduras e no Paraguai. Um golpe com uma tripla dimensão: parlamentar, jurídica e midiática.

O advogado destacou o papel desempenhado pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), na construção do processo do golpe. “Eles precisavam de um fato de 2015 para abrir um processo de impeachment contra a presidenta Dilma. Eles não tinham nem fatos nem maioria para isso. No entanto, as investigações da Operação Lava Jato acabaram atingindo lideranças do PMDB, entre elas Eduardo Cunha, que controlava cerca de 100 deputados. Ele era um verdadeiro partido na Câmara. Quando ocorreu uma operação de busca e apreensão contra Cunha, ele veio a público dizer que estava rompendo com o governo. Quando foram descobertas as contas dele no exterior, Cunha disse que havia uma conspiração coordenada pelo governo e ameaçou abrir um processo de impeachment, caso o PT votasse a favor de sua cassação”.

Cunha sabia que precisava de um fato de 2015 para abrir o processo de impeachment e articulou, junto com a oposição, a tese das “pedaladas” e dos decretos de suplementação orçamentária que, até então, sempre foram aceitos pelo Tribunal de Contas da União (TCU). A construção dessa tese, disse Cardozo, envolveu um processo de evidente burla e desvio de poder. “No momento em que Cunha se juntou à oposição, nós perdemos a maioria na Câmara”, resumiu o ex-ministro da Justiça, que lembrou uma frase do senador Romero Jucá para definir o que aconteceria em seguida: “Temos que parar com a sangria”.

Neste contexto, José Eduardo Cardozo lembrou qual é a definição de golpe: “é a destituição de um presidente eleito sem suporte constitucional. É uma ruptura com a Constituição e com a Democracia”. O advogado de defesa de Dilma relatou também que todo esse processo foi marcado por absurdos como quando, por exemplo, Janaína Paschoal acusou Dilma de ter orientado o ex-secretário do Tesouro, Arno Augustin, a realizar as chamadas “pedaladas”. “O argumento que ela utilizou é que, como Dilma e Arno eram muito próximos, seria óbvio que tivesse ocorrido tal orientação. O detalhe é que, em 2015, Arno Augustin não era mais secretário do Tesouro, o que, para Janaína Paschoal, não fez nenhuma diferença. As teses da acusação foram mudando ao longo do processo. Foi um escândalo. Vimos senadores falando que a defesa de Dilma poderia falar o que quisesse que não faria não diferença, pois o veredito já estava decidido”.

Cardozo contestou ainda o argumento de que, no processo do impeachment, teriam sido seguidos todos os ritos legais. “A expulsão de Olga Benário do Brasil para as mãos dos nazistas, chancelada pelo STF, também seguiu os chamados ritos legais”, observou o advogado que relatou uma conversa com um estudante de Direito que o questionou por ter feito a defesa da presidenta Dilma. “O fato de o senhor ter participado desse processo não serviu para legitimá-lo? Não seria melhor não ter participado do mesmo?” – questionou o estudante. Cardozo relatou que essa pergunta o inquietou, mas ele acabou concluindo que o papel da defesa no processo contra Dilma não foi o de convencer o juiz, mas sim o de denunciar a sociedade o absurdo que estava acontecendo.

“A defesa foi um fator de denúncia para a sociedade. Construímos um processo que não pode parar. Conquistamos a democracia com muita luta. Nós lutamos para que a vontade popular fosse respeitada e temos o dever histórico de seguir nessa luta, denunciando esse governo golpista. Eu nunca pensei que teria que lutar de novo pela democracia no Brasil. Estamos diante de um processo onde não temos o direito de nos omitirmos”, concluiu.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Cunha solto; e Judiciário, mídia e as panelas em silêncio!

Paulo Pimenta: "Esse foi o acordo: o golpe em troca da impunidade de Cunha e de muitos do PMDB e do PSDB".

Paulo Pimenta: “Esse foi o acordo: o golpe em troca da impunidade de Cunha e de muitos do PMDB e do PSDB”.

Paulo Pimenta (*)

Nesta quarta-feira (12/10), faz exatamente um mês que a Câmara dos Deputados cassou o mandato de Eduardo Cunha (PMDB), o herói dos “coxinhas”, e auxiliar direto de Michel Temer. Acusado de possuir milhões em contas na Suíça, ter recebido propina da construção de navios-sonda na Petrobras, propinas nas obras do Porto Maravilha (RJ), ter chantageado o Grupo Schahin e ter recebido R$ 45 milhões para alterar uma Medida Provisória, Cunha deflagrou o processo de impeachment contra Dilma Rousseff como última tentativa de tentar se salvar. Em um dos casos, a Procuradoria-Geral da República chegou a pedir de Cunha a devolução de R$ 300 milhões aos cofres públicos como ressarcimento pelos esquemas de corrupção.

Mesmo diante de tantas acusações, escândalos e utilização do cargo de Presidente da Câmara para fins pessoais, o Supremo Tribunal Federal lavou as mãos e só decidiu pelo seu afastamento no dia 5 de maio, depois da fatídica sessão do dia 17 de abril, a sessão do golpe. Por outro lado, mesmo em meio a tantas manobras e recursos para evitar sua cassação, a Câmara dos Deputados no dia 12 de setembro cassou o mandato de Cunha.

Sem foro privilegiado, a expectativa era de que Cunha não escaparia das mãos da Justiça, que se autoproclama a salvadora da pátria nestes tempos estranhos em que vivemos. Mas não foi o que aconteceu! Cunha vai bem, obrigado. Chega a ser até curioso, em vez de tormento, a cassação do seu mandato, somada ao “não vem ao caso da Justiça”, tem lhe rendido tranquilidade. Os milhões continuam na Suíça, e, como se fosse um célebre escritor, está confinado preparando seu best-seller. E as panelas em silêncio diante de tantas provas, mas vibrando a qualquer factoide midiático ou “convicção” contra o Partido dos Trabalhadores, contra Lula, etc.

Chegamos a acreditar que algo aconteceria com Eduardo Cunha. Talvez, por algum lapso, é possível que tenhamos nos esquecido de quanto o Sistema de Justiça no Brasil é seletivo, assim como a mídia.

O combate à corrupção no país é recortado por um traço ideológico. Que digam Aécios, Serras, Cunhas e Jucás¸ esse último o pai do “acordão nacional” para tirar a Dilma, botar o Michel Temer e “estancar a sangria”. Quem não lembra?

O tempo mostra que Romero Jucá sabia muito bem o que dizia. De fato, o governo Temer conseguiu “estancar a sangria” e proteger os corruptos. Esse foi o acordo: o golpe em troca da impunidade de Cunha e de muitos do PMDB e do PSDB.

(*) Deputado federal (PT-RS)

Avante brasileiros, pra trás!

Uma ponte para o passado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Uma ponte para o passado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Ayrton Centeno

No alvorecer do milênio, Luis Fernando Veríssimo notou que estávamos ingressando em outro século mas ainda não sabíamos qual. Poderia ser o 21 ou o 19. Bem, demorou 16 anos, mas agora sabemos. Mesmo se não quiséssemos, acabaríamos sabendo. Bastaria contemplar a atual decoração do Planalto.

Na fachada governamental, reluz uma corja imperial abduzida no passado e que viajou mais de 100 anos através dos tempos. E que nos trouxe, além dos velhos e dos velhos costumes, a opressão estetizada através da mesóclise. Foder-vos-ei, brasileiros e brasileiras!

Outras vozes, porém, situam nosso regressismo em ponto mais remoto, a Idade Média, aquela que começou com a queda do Império Romano do Ocidente e que, supostamente, extinguiu-se com o advento da Idade Moderna no século 15. Estaríamos na era pré-cabralina.

Em 2016, os portugueses ainda navegam, tomando vinho, comendo bolacha, temendo as calmarias e o escorbuto e defecando na amurada. Ainda não existimos. Parece um tanto excessivo. Seja como for, o flash back é nossa sina.

Não mais que de repente, tudo se precipitou. Cata-se desesperadamente o atraso. Vê-se nele um charme que a agenda emancipatória ou libertária não parece possuir. Descabela-se o calendário em busca do tempo perdido. Há uma sofreguidão, quase uma luxúria pelo antiquado. O arcaico é sexy, quer nos convencer a não menos vetusta imprensa. Só não nos informa que a supressão de direitos e valores resume seu cobiçado objeto de prazer. Senão, vejamos:

1) Funda-se o governo dos Brancos, Velhos, Ricos, Reacionários e (dizem) Corruptos. Na popular, o BRAVERRC. Mulheres? Só uma como enfeite por causa “dessa história de gênero”, como admitiu o “presidente”. Negros? Nenhum. A exemplo das mulheres, eles são maioria no país mas estamos em falta. Nem no racista Alabama ocorre algo assim. Lá, o governo estadual, nas mãos do Partido Republicano, abriga Fitzgerald Washington, retinto afrodescendente que pilota a secretaria do trabalho.

2) BRICS? Nada disso. O BRAVERRC tem outras ideias. A propósito, para o chanceler José Serra, o nome correto é BRAICS. Os tolos esqueceram de incluir a Argentina na sigla… Serra namora de mãos dadas com os EUA e, portanto, BRICS, BRAICS ou que raio for não interessa. O que interessa, mesmo, é entregar essa chateação da Petrobras para os ianques. Sadia é aquela postura de subordinação perante o Grande Irmão do Norte, como sempre foi no passado. Afinal, já estamos acostumados com a posição em que Napoleão perdeu a guerra.

3) A pedagogia de Paulo Freire está revogada. Para os ideólogos do BRAVERRC, é pura subversão como tão bem percebeu a ditadura militar. Que prendeu Freire, acusou-o de “traidor de Cristo” e o despachou para o exílio. No exterior, Paulo Freire tornou-se doutor honoris causa em 41 universidades, entre elas as inglesas Oxford e Cambridge e a norte-americana Harvard. Na Suécia – vejam só, a cabeça desses gringos… – ergueram-lhe uma estátua! No Brasil, a neopedagogia de Alexandre Frota deve tomar-lhe o lugar. É a Escola Sem Partido Mas Com Sacanagem que ninguém é de ferro.

4) Aposentadoria? Ora, querem moleza, não? Fiquem sabendo que no pretérito imperfeito em que vivemos agora – seja o século 15 ou o 19 – não existe esse trambolho. Doravante, aposentadoria somente aos 70 anos. E isso porque o BRAVERRC é generoso. Claro, muitos brasileiros vão se aposentar em adiantado estado de putrefação. Mas queriam o quê? Ganhar sem trabalhar, vendo Ratinho na TV e pegando remédio de graça na farmácia? “Aposentado é vagabundo”, como bem disse o grande FHC, o farol que jorra seu facho de escuridão na nossa claridade. Sejam patriotas: morram!

5) Questão social? Ora, como disse o velho (mais um) Washington Luis, último presidente da República Velha (outra) e grande inspiração do BRAVERRC, a questão social é um caso de polícia. Pau neles! O governo dos brancos velhos e bons vai capar as despesas da União por 20 anos. Dizem que, com isso, haverá um desastre na educação e na saúde. Bobagem. Além do mais, ter muita educação acaba em problema: muito protesto, reivindicação, greves…E ter muita saúde é sabotar as prioridades da nação. É querer durar muito, se aposentar e ficar mamando nas tetas da Previdência. Coisa de comunista.

6) Salário mínimo atualizado pela inflação? Onde é que vocês pensam que estão? No socialismo do molusco? Ou da dilmanta? Findou-se a mamata. Outro troço que não desce pela goela do BRAVERRC é o tal 13º. Salário. Onde já se viu? Só podia ser coisa daquele João Goulart, fazendeirinho vermelho que sempre foi. Bem que O Globo, na época, nos avisou dessa barbaridade. Depois, vieram os milicos e nem eles tiveram coragem de mexer nesse dinheirinho mal havido da plebe. Mas não contavam com o BRAVERRC. Deixem passar as eleições que virão mais novidades por aí.

Enfim, é um grande projeto que, para ser bem executado, necessita de homens corretos e capazes, devotados à causa pública, profundamente éticos, de elevada estatura moral e acima de qualquer suspeita. Seria uma temeridade desenvolvê-lo sem tais requisitos. Ainda bem que temos exatamente este tipo de gestores no timão da república. Podemos dormir em paz.

Porto Alegre vive quarta noite de protestos contra o golpe

Menor do que as duas anteriores, a manifestação desta sexta-feira (2) mobilizou algumas centenas de participantes e, provavelmente, o maior contingente de efetivos da Brigada Militar. (Foto: Maia Rubim)

Menor do que as duas anteriores, a manifestação desta sexta-feira (2) mobilizou algumas centenas de participantes e, provavelmente, o maior contingente de efetivos da Brigada Militar. (Foto: Maia Rubim)

Pelo quarto dia consecutivo, Porto Alegre viveu uma noite de protestos contra o golpe parlamentar que afastou a presidenta Dilma Rousseff e instalou no poder o governo do até então interino Michel Temer. Menor do que as duas anteriores, a manifestação desta sexta-feira (2) mobilizou algumas centenas de participantes e, provavelmente, o maior contingente de efetivos da Brigada Militar, que acompanhou a manifestação desde o início da caminhada pela avenida Borges de Medeiros. Convocada individualmente por alguns manifestantes por meio do Facebook, a manifestação reuniu estudantes secundaristas e universitários, professores e representantes de outras categorias que não conseguiram participar dos atos realizados na quarta e na quinta-feira.

Desde a Borges de Medeiros, os manifestantes foram acompanhados por um pelotão do choque da Brigada que ia acompanhando toda a caminhada. Após o viaduto da Borges, um morador de um prédio foi para a sacada com uma bandeira dos Estados Unidos para provocar os manifestantes e foi saudado com os gritos de “sem noção, sem noção”. A caminhada tomou a direção da Cidade Baixa, sempre acompanhada por um pelotão de Choque e por um helicóptero da Brigada Militar que, voando a baixa altura, lançava um facho de luz sobre os manifestantes.

O momento mais tenso ocorreu quando os manifestantes ingressaram na avenida João Pessoa. Em frente à sede do PMDB, dois pelotões do batalhão de choque aguardavam a passagem dos manifestantes. A ação era coordenada pelo tenente-coronel Mario Ikeda, do Comando de Policiamento da Capital. Quando a manifestação se aproximava da Venâncio Aires, um oficial da Brigada deu um comando pelo rádio e as luzes dos postes daquele trecho na João Pessoa imediatamente se apagaram. Mas a marcha passou pela sede do PMDB sem qualquer problema e ingressou na Venâncio Aires.

Dali em diante, alguns manifestantes lançaram pedras em vidraças de agências bancárias e viram containers de lixo, como ocorreu na noite anterior. A Brigada Militar lançou bombas de gás para dispersar os manifestantes que seguiram pela José do Patrocínio e depois para o Largo Zumbi dos Palmares, onde o ato terminou por volta das 22 horas.

Após o término do ato, alguns manifestantes levantaram a suspeita, na página do evento no Facebook, sobre a presença de infiltrados para provocar atos de violência, suspeita esta que foi objeto de conversas no início da concentração na Esquina Democrática. Os atos de quarta, quinta e sexta foram convocados por pessoas e coletivos diferentes, indicando que há uma disposição em permanecer na rua contra o governo de Michel Temer. No início da concentração para a manifestação desta sexta, algumas pessoas disseram que estavam ali porque não tinham conseguido participar dos protestos nos dias anteriores. E, no final da noite desta sexta, na página que convocou o evento, algumas pessoas perguntavam: amanhã vai ter de novo?

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Golpe e impacto da agenda Temer sobre cidades marcam debate e campos em disputa em Porto Alegre

Debate promovido pelo SIMPA entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre lotou o Teatro Dante Barone. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Debate promovido pelo SIMPA entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre lotou o Teatro Dante Barone. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O debate entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre, realizado no início da noite desta quinta-feira (1°) pelo Sindicato dos Municipários (Simpa), na Assembleia Legislativa, evidenciou a complexa equação política que cerca a eleição municipal na capital gaúcha e em muitas outras cidades do país. Todos os nove candidatos inscritos para a disputa participaram do debate no Teatro Dante Barone, que ficou praticamente lotado e expressou a conjuntura política que o país vive após a derrubada da presidenta Dilma Rousseff, eleita pelo voto popular em 2014. Organizado um dia após a confirmação do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, o debate entre os candidatos foi marcado, do início ao fim, pelos gritos de “Fora Temer!” e “golpista”, dirigidos por militantes do PT e do PSOL principalmente contra os candidatos Sebastião Melo (PMDB) e Nelson Marchezan Junior (PSDB).

Carmen Padilha, diretora de Comunicação do Simpa, conduziu o debate com constantes pedidos ao público para que só se manifestasse após a fala de cada candidato. O golpe contra Dilma Rousseff sobrevoou as mais de duas horas de debate. No início do encontro, ela deixou clara a posição do Sindicato sobre o tema: “A posição da diretoria do Simpa é que, ontem, vivenciamos um golpe de Estado no país, por meio do qual foi retirada do governo uma presidenta legitimamente eleita. O governo que assume tem a clara intenção de colocar sobre as costas dos trabalhadores o ônus da crise, por meio de uma Reforma da Previdência e de uma Reforma Trabalhista que retiram direitos. Neste contexto, a Prefeitura de Porto Alegre deve ser um bastião em defesa das liberdades democráticas e dos direitos dos trabalhadores”.

O peso dessa conjuntura nacional ajudou a organizar o debate com nove candidatos, quatro blocos de intervenções e dois grandes grupos de propostas. As apresentações das candidaturas no primeiro bloco delinearam essas fronteiras e os seus respectivos subgrupos. João Carlos Rodrigues, do Partido da Mobilização Nacional (PMN), abriu sua fala dialogando com os pedidos de “Fora Temer” e defendendo a realização de eleições gerais no país. No plano municipal, defendeu mais respeito às entidades de classe dos servidores que, enfatizou, “tem um conhecimento mais profundo das engrenagens da cidade”. “Governos de conchavos políticos”, defendeu Rodrigues, “não levam à cidade a lugar nenhum”.

Luciana Genro lembrou as recentes denúncias de corrupção e desvio de recursos envolvendo DEP e FASC como uma fonte de sangria de recursos públicos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Luciana Genro lembrou as recentes denúncias de corrupção e desvio de recursos envolvendo DEP e FASC como uma fonte de sangria de recursos públicos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Luciana Genro iniciou sua participação dizendo que se preparou ao longo de 30 anos para este momento, para colocar em prática tudo o que defendeu neste período. “Tenho orgulho em estar em primeiro lugar nas pesquisas. Isso mostra a confiança da população de Porto Alegre na possibilidade de construir um governo diferente, com uma lógica diferente da política tradicional. É possível governar com as mãos limpas, combatendo a corrupção e impedindo que ocorram problemas como os que vimos recentemente no Dep (Departamento de Esgotos Pluviais) e na Fasc (Fundação de Assistência Social e Cidadania)”. A candidata do PSOL também prometeu “fazer um governo de enfrentamento com o governo Temer, que pretende implementar políticas que já vinham sendo implementadas pelo governo Dilma”.

O candidato do PSDB, Nelson Marchezan Junior, foi um dos recebidos com os gritos de “golpista”. O deputado tucano enfrentou essa recepção dizendo que a sua ideia para Porto Alegre é “avançar e não repetir o passado, nem o presente”, repetindo uma clássica estratégia de se apresentar como sendo o representante de algo jovem e novo, espaço discursivo também disputado pelo deputado estadual Mauricio Dziedrick, do PTB, e Fábio Ostermann, do PSL. Para Marchezan Junior, Porto Alegre tem hoje um déficit de serviços públicos. “Temos 22 mil colaboradores para trabalhar em um novo projeto para a cidade. Não tenho nenhum preconceito contra CCs, mas acho que eles estão em um número exagerado”, disse o candidato do PSDB, que defendeu ainda a necessidade de uma reforma administrativa emergencial e a busca de isonomia da distribuição de recursos entre servidores.

No extremo oposto ao discurso do candidato do PSDB, Julio Flores apresentou-se dizendo que sentia muito orgulho de fazer parte da classe trabalhadora e da categoria dos municipários. Em seguida, repetiu a consigna do “Fora Temer”, indo mais longe e defendendo o “Fora Todos”, “todos aqueles que roubaram o nosso país”. “O capitalismo tem uma vocação no mundo inteiro, que é a corrupção. As prefeituras das capitais precisam enfrentar este governo que está aí e temos que aprender uma lição: não podemos nos aliar com os partidos da burguesia como fez o PT”, acrescentou Julio Flores, prometendo fazer um governo apoiado em conselhos populares.

Raul Pont convocou luta contra o golpe e advertiu para impacto de projeto do governo Temer que congela por 20 anos investimentos em saúde e educação. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Raul Pont convocou luta contra o golpe e advertiu para impacto de projeto do governo Temer que congela por 20 anos investimentos em saúde e educação. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marcelo Chiodo, candidato pelo Partido Verde (PV), apresentou-se como alguém que “não vive da política”. “Não sou político de carreira, sou cabelereiro. Fui secretário adjunto do Trabalho e vi a importância da presença na memória no serviço público, que garante a continuidade da prestação de serviços de qualidade entre diferentes governos”. Assim como outros candidatos, Chiodo prometeu diminuir o número de CCs, caso eleito. O candidato do PTB, Mauricio Dziedrick, defendeu, por sua vez, um projeto de revisão da máquina pública, com enxugamento de secretarias e a discussão, junto com o Sindicato dos Municipários, de um plano de carreira para a categoria e de uma estratégia para diminuir a disparidade entre o piso e o teto salarial entre os servidores.

Raul Pont, candidato do PT à prefeitura de Porto Alegre, chamou a atenção para o impacto do golpe contra Dilma Rousseff na vida dos municípios e dos futuros prefeitos e prefeitas. “O que ocorreu ontem foi um golpe parlamentar e midiático, com a participação de um setor do Judiciário, que conspira contra os interesses populares e terá um impacto nas cidades. Temos projetos que tramitam no Congresso, como a Emenda Constitucional 251, que congelam por vinte anos os gastos públicos em educação e saúde, por exemplo. Esse projeto atinge em cheio o trabalho das prefeituras. O golpe foi feito para garantir uma política anti-povo e anti-nação, uma vez que também prevê a destruição de empresas como a Petrobras e a entrega dos nossos recursos naturais. É contra essas políticas que a nossa cidade tem que resistir”, defendeu Pont.

Candidato do PMDB, o vice-prefeito Sebastião Melo foi recebido aos gritos de “golpista” no debate. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Candidato do PMDB, o vice-prefeito Sebastião Melo foi recebido aos gritos de “golpista” no debate. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O atual vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (PMDB), foi recebido aos gritos de “Fora Temer!” e “golpista” e chegou a ameaçar a se retirar do debate. “ Um dos grandes males do mundo hoje é a intolerância, é não saber respeitar as indiferenças. Eu fui convidado para debater o tema dos servidores. Se o debate não é esse, eu vou embora”, afirmou. Mas Melo ficou, admitiu que a cidade tem vários problemas para resolver, mas defendeu o legado dos últimos 12 anos. “Estou neste governo há 12 anos e tenho orgulho disso, ao contrário de alguns aqui”, provocou, fazendo referência às candidaturas de Marchezan Junior e Dziedrick, cujos partidos, PSDB e PTB, estão na base do governo Fortunati.

Ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato pelo Partido Social Liberal (PSL), Fábio Ostermann abriu sua participação no debate com uma “pegadinha”. Ele abriu sua fala dizendo que queria ler uma declaração explicando por que o impeachment não era golpe, leu e foi muito vaiado.  Logo em seguida, disse que a autora da declaração era Luciana Genro. Na mesma linha de Marchezan, Ostermann defendeu uma redução do número de secretarias na prefeitura. “Pretendo rever essas estruturas para fazer com que os servidores públicos façam jus ao seu nome. A ideia é reduzir o número atual para 6 macrosecretarias que articulariam o trabalho de secretarias afins. A Prefeitura não tem condições de abraçar o mundo. O cobertor é curto e os recursos são escassos”, disse.

Em outro bloco, o Sindicato dos Municipários questionou os candidatos sobre o que eles pensavam sobre temas como terceirizações, privatizações, política salarial, meritocracia e direito de greve. Neste ponto, dois grandes blocos apareceram. De um lado, as candidaturas simpáticas às práticas de terceirizações, privatizações e meritocracia. “Temos um modelo de estado paquidérmico que quer alcançar tudo e todos”, criticou Ostermann. “A meritocracia é uma forma de valorizar o bom profissional”, emendou Marchezan. “Não vou fazer concurso público para alguém podar árvore”, disse Melo.

Do outro lado, com diferentes inflexões, Raul Pont, Luciana Genro e Julio Flores criticaram as terceirizações e as privatizações como caminho para resolver os problemas da cidade. “Essas práticas têm como objetivo precarizar as relações de trabalho e enriquecer os amigos dos governos”, disparou Julio Flores. Na mesma linha, Luciana Genro disse que, nos últimos 12 anos, Porto Alegre viveu um processo de desmonte do setor público, com um “processo de terceirização brutal”. Raul Pont, por sua vez, lembrou que, quando o PT esteve na Prefeitura, a Carris foi considerada a melhor empresa de transporte coletivo do país e hoje há quem pense em privatizá-la, como sugeriu o candidato do PSDB. “Nós criamos a EPTC para que ela tivesse o controle da caixa de compensação que, nos governos Fogaça e Fortunati foi entregue para a ATP (Associação de Transportadoras de Passageiros)”, acrescentou.

Com diferentes inflexões, Melo, Marchezan, Ostermann e Dziedrick defenderam a meritrocracia, o empreendedorismo e as práticas de terceirizações e privatizações como caminhos para enfrentar os problemas da cidade. No outro campo, também com diferentes inflexões, Luciana Genro, Raul Pont e Julio Flores defenderam o fortalecimento das carreiras dos servidores públicos e a participação popular como forma de qualificar a gestão e a fiscalização dos serviços públicos prestados à população. A agenda de projetos defendida pelo governo Temer, como a Emenda Constitucional 251 mencionada por Raul Pont, atravessa esse debate sobre as possíveis políticas para enfrentar os problemas das cidades brasileiras nos próximos anos.

As diferenças ficaram bem marcadas. Questionado por um servidor da Secretaria Municipal do Meio Ambiente sobre o favorecimento da especulação imobiliária em detrimento de uma visão mais sustentável de cidade, Marchezan respondeu: “A burocracia está afastando os empreendedores de Porto Alegre. Os imóveis têm que valer bastante mesmo para que o nosso patrimônio se valorize. Vocês precisam abrir mão das pautas de seus umbigos”. Vaiado mais uma vez, o candidato do PSDB se dirigiu a um dos manifestantes. “Deixa eu me eleger, depois tu vai lá gritar ‘Fora Marchezan’ e me incomodar com os teus panfletinhos”.

No debate, uma das perguntas feitas por integrantes da plateia questionou recentes declarações feitas por Marchezan em Brasília, referindo-se a servidores públicos como vagabundos. Pelo sorteio, coube a Raul Pont responder a questão. “Essa conversa da meritocracia no serviço público geralmente se transforma em arbítrio de chefias. A aprovação em concurso público já é um grande mérito e é preciso garantir um processo de formação continuada aos servidores como fizemos com os professores da rede municipal de educação que hoje é uma das mais qualificadas do país”. A falta de segurança na cidade foi outro tema questionado por vários servidores que denunciaram a insegurança nas escolas e as más condições de trabalho da Guarda Municipal que, segundo um servidor, estava trabalhando com coletes à prova de bala vencidos.

O debate se encaminhou ao seu final em um clima tenso, mas ao mesmo tempo esclarecedor, indicando que o debate sobre os problemas presentes e as possíveis soluções de futuro para a cidade está atravessado pela crise política nacional. A relação com o governo Temer e sua agenda política, explicitada com inclinações diferentes pelos três candidatos do campo da esquerda e silenciada especialmente pelos candidatos Sebastião Melo e Marchezan Junior, indicou o quadro mais geral da disputa eleitoral deste ano em Porto Alegre.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Dilma d’Arc na fogueira

"Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns dos seus torquemadas". (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

“Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns dos seus torquemadas”. (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

Ayrton Centeno

Sim, aconteceu o que se esperava. “De onde menos se espera é daí mesmo que não vem nada”, pontificou numa de suas tiradas o Barão de Itararé, nome de guerra debochado do gaúcho Aparício Torelli. Queriam o quê? Lisura? Perdão, estamos em falta. Mas temos impostura. É o inverso mas rima. Serve? Aproveite. Sai praticamente de graça. Nosso estoque vai até o teto e estamos em liquidação…

“Se fosse fácil não seria pra nós” costuma dizer outro gaúcho, Olívio Dutra. Não será fácil mas, com certeza, será nossa missão. Entre tanta vergonha, algo nos anima quando se esvai este agosto de maus e confirmados augúrios.

Acontece que uma figura desconhecida da maioria dos brasileiros reapareceu na manhã do dia 29. Veio da história para reentrar na política. Veio dos anos 1970, aqueles chamados, com justiça poética, de anos de chumbo. Veio, mais precisamente, do fundo dos abismos de dor, sangue e humilhação, dos porões da Operação Bandeirante, a Oban, onde fora recepcionada por uma tempestade de insultos – “Mata”, “Terrorista”, “Filha da puta”. Sob socos, pau de arara e choque elétrico, arrastara-se pelas masmorras de São Paulo, Juiz de Fora, Rio e novamente São Paulo.

Em determinado momento, compareceu a um tribunal de exceção – como todos eram, pode-se dizer. Após seis meses de cadeia, foi “legalizada”. Ou seja, passou a existir formalmente como prisioneira política. Um alívio. Era um indicador que não seria assassinada, como tantos companheiros o foram. No processo político-penal, recebeu a alcunha de “Joana d`Arc da Guerrilha”. Era, também, a “Papisa da Subversão”. Dois apelidos que lhe atribuíam importância no interior da sua organização, a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), nome que ecoava lendário levante de escravos no Brasil-Colônia. Era o longo e doloroso inverno de 1970.

Passaram-se 56 anos e Joana d’Arc voltou à cena. E novamente perante um tribunal de exceção. Onde mais vale ter maioria do que ter razão. Onde não importa que sua defesa desmantele a acusação e os acusadores: a sentença havia sido pronunciada antes do processo iniciar. Onde juízes são suspeitos ou acusados de crimes muito mais graves do que aquele imputado à ré: recebimento de propinas, lavagem de dinheiro, fraude em licitações, desvio de recursos, caixa 2 e, até, pedofilia. Onde o chefe de uma família feliz proprietária de um helicóptero carregado com meia tonelada de pasta de cocaína não se vexa de posar de julgador. Onde um processo é apenas um pretexto para o assalto ao poder.

Apesar de tantos pesares, Joana d’Arc engoliu, um a um, seus acusadores. Ao longo de 14 horas, digeriu-os primeiro no café da manhã. Depois no almoço, na janta e não abriu mão da ceia. Espalitou os dentes com seus ossinhos. Mas não arrotou. Manteve-se com contida indignação, elegância, às vezes, ironia.

Para muita gente deve ter sido um choque. Que Dilma era aquela? Não a imaginavam na versão Joana d’Arc. São vítimas – do mesmo modo que a presidenta – da construção arrevesada de um personagem. Com interesses opostos ao governo constitucional, os pet-colunistas do condomínio midiático que define o que Pindorama deve ler, ouvir, ver e pensar venderam ao país uma Dilma ficcional, dada à gafes, ignorante, estúpida até. Erro. Que Dilma tem perfil centralizador e gênio explosivo é sabido. Mas tola? Só mesmo quem não a conhece. Que o diga um de seus julgadores, o senador José Agripino (DEM/RN) que levará vida afora as sequelas de antigo e desagradável embate.

Dilma e Joana são comparáveis por obra e graça do cognome embora não seja a mais precisa interpretação da protagonista atual. Joana, a donzela guerreira de Orleans, era uma menina de 19 anos ao ser julgada e condenada à fogueira por heresia. Foi queimada viva em 1431. As versões cinematográficas de seu julgamento mostram-na prostrada e sofredora. A mais notável de todas, a de Carl Dreyer, de 1928, o filme mudo A Paixão de Joana d’Arc, inova ao alternar as imagens em close do semblante sacrificado da ré com a exploração das faces de seus juízes. Espreita as rugas, esgares e sulcos do rosto sombrio dos algozes. É uma lição de cinema humanista, que distingue a vítima de seus verdugos. Pensa-se em Dreyer quando se sabe que quatro documentários estão sendo gravados no teatro senatorial. Pensa-se em Dreyer principalmente ao cotejar a altivez e o desassombro de Dilma com as panças, as papadas, os cabelos tingidos e os implantes capilares de seus escarrapachados juízes.

Também, ao contrário da jovem francesa, Dilma, aos 68 anos, não demonstrou medo algum. Não piscou. Mais constrangidos estavam alguns de seus torquemadas de ocasião. Não adiantou. A exemplo de Joana, foi condenada por injunções políticas.

O tempo passou e Joana tornou-se mártir, canonizada pela Igreja Católica e santa padroeira da França. Seus julgadores sumiram na poeira do passado.

Levada a sua fogueira, Dilma deveria arder, consumida pelas chamas até converter-se em cinzas. Vingança completa para que nada mais reste. Há controvérsias. Também sentenciados, humilhados e ofendidos, Getúlio e Jango ignoraram as labaredas. No transcurso das décadas, suas biografias só fazem crescer. No caso da Joana d’Arc de 2016 parece mais plausível que despreze o fogo, caminhe pelas brasas e siga em frente. Atrás de si, um Senado de pigmeus, ao contrário, continuará ardendo, mirrando e se decompondo até ser totalmente tragado como refugo da História.

“Governo Temer é profundamente antinacional. É pior que 64”, diz Wanderley Guilherme

“Há um trabalho que vem sendo realizado há alguns anos junto ao subconsciente da sociedade para cultivar a impressão de que tudo o que vinha sendo feito desde 2002 era algo paliativo, populista e maligno”. Foto: Thiago Ripper/RBA

“Há um trabalho que vem sendo realizado há alguns anos junto ao subconsciente da sociedade para cultivar a impressão de que tudo o que vinha sendo feito desde 2002 era algo paliativo, populista e maligno”. Foto: Thiago Ripper/RBA

“O governo de Michel Temer dá as primeiras passadas, acelerando para o grande salto para trás e a grande queima de estoques. A massa assalariada brasileira está sendo vendida a preços de saldo, com as liquidações iniciais dos programas educativos e sociais. O patrimônio de recursos materiais, como antes, será oferecido como xepa. A repressão à divergência não será tímida. Não há nada a esperar”. Esse é o resumo da obra que será exibida no Brasil nos próximos meses, talvez anos, na avaliação do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, professor aposentado de Teoria Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). Em um artigo intitulado “O grande salto para trás de Michel Temer”, publicado em seu blog “Segunda Opinião”, o cientista político prevê dias sombrios para o país e aponta algumas características do bloco que apoia Temer e que pretende implantar uma nova agenda política e econômica no país, sem ser referendada pelo voto popular, com a confirmação da derrubada da presidenta Dilma Rousseff.

Em entrevista ao Sul21, Wanderley Guilherme dos Santos fala sobre essa agenda, destacando o seu caráter profundamente antinacional. Para ele, o movimento golpista pretende recolocar o Brasil no fluxo normal das relações do capitalismo que havia sido interrompido com a eleição de Lula em 2002. “O que vai acontecer agora, e já começou a acontecer, como tem ocorrido em várias democracias sociais no mundo inteiro, uma redefinição programática drástico dos contratos de solidariedade social com uma hegemonia desabrida da lógica do interesse do capital”, assinala. Para tanto, acrescenta, a esquerda foi expulsa do jogo político legal por algum tempo. “Eles não deixarão Lula ganhar a eleição em 2018 em hipótese alguma. Não sei como vão fazer, mas não deixarão”, diz, advertindo que a tentativa de prisão do ex-presidente Lula é uma possibilidade real neste cenário. (Leia aqui a íntegra da entrevista ao Sul21)

Trinta anos num só golpe: a segunda morte da bossa nova

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Katarina Peixoto

Acabou a bossa nova, de novo. Saímos dos anos sessenta para o início dos anos zero e agora voltamos aos trinta anos de instabilidade, no Brasil. Estamos nos últimos dias da segunda bossa nova. Há uma novidade imensa, que nos invade qual uma experiência de ubiquidade das trevas, uma ficção científica distópica: fomos expulsos de novo de uma possibilidade, mesmo que, desta feita, real, e regredimos a um estado posterior, ao ajuste de contas histórico, de décadas. Em 2016, o Brasil afundou na soma de todas as trevas. É a segunda morte da bossa nova.

Dos anos 70 temos o ridículo e o despudor da sanha repressiva. Restaurado o GSI, ameaçada a inteligência civil como derivada de estrutura republicana, tem-se sumidades refratárias à pesquisa, ao conhecimento, em defesa do uso da força. E, sim, já há presos políticos e o retorno da censura, contra o cinema nacional, é claro, contra o melhor do cinema nacional, globos fora. Professores desempregados e perseguidos politicamente. O delírio do anticomunismo marchando célere para a alucinação desnuda, em extrema paranoia só superada pela capacidade de destruição de laços sociais e do bom funcionamento educacional.

É claro que isso não é tudo. Quando mataram a bossa nova, da primeira vez, levaram junto os anos 60. A vanguarda dos golpistas consistia em anteciparem, com a violação do sufrágio, então, as trevas que viriam e vieram, nos anos seguintes, sobretudo a partir dos 70.

Estas trevas, tanto na história como na arquitetura da atual destruição da bossa nova, não se sustentariam, hoje, sem o grande legado dos anos 80: o fisiologismo do PMDB. Responsáveis por todas as lacunas e ausências de regulamentação no projeto constituinte, operadores das grandes negociatas no setor midiático ultraconcentrado do país e, claro, da negociação de tudo e qualquer coisa, por valores igualmente flácidos, o PMDB, neste segundo assassinato, tomou à frente a decisão sobre os destinos da burocracia, financiamentos e entregas, do país.

Nada está garantido, tudo é negociável, é claro, como chefes negociam com colaboradores. E como colaboradores negociam entre si, povos fora. Nessa contingência tão brasileira, dirão os jornais amigos, os maiores, a única coisa capaz de estabilidade precisa ser a moeda.

E então é que vem o corte na jugular da bossa nova. A volta da agenda utópica, descarnada e financista, dos anos 90. Mas desta feita, esqueçam o Serra dos genéricos e os pudores de elegância bem nascida do Fernando Henrique. Com o apoio dos anos 70 e 80 assim, nessa tríade transcendental e macabra, quem é que precisa de mais do que um capanga togado, na alta corte, pronto para barrar os avanços republicanos da bossa nova agora a caminho do necrotério?

Serra é chanceler nesta chacina histórica, ora vejam. A aliança eleitoral e política da direita, que embalou aquela contingência dos anos 90, não é mais necessária, quando a Constituição embala o cadáver da bossa nova, pela segunda vez assassinada, após a descoberta e o investimento na tecnologia soberana do Pré-Sal, está claro.

A novidade desta segunda morte é o modo como, de novo, jogaram fora as urnas. É o peso da repetição, a soma de todas as trevas que empacaram, melaram, concentraram e destruíram o processo de redemocratização.

Enquanto esses trinta anos de golpe se anuncia, o país assiste a primeira mulher servir de desculpa (sombrio e repulsivo espetáculo misógino) para a segunda morte da bossa nova, A guerrilheira contra os anos 70, a economista nacionalista dos anos 80, a burocrata estatal competente, dos projetos de resistência democrática e populares dos anos 90, segue altiva para a forca política dos assassinos da nossa bossa, de novo.

É uma soma de trevas, de todas as trevas.

A primeira bossa nova era música e promessa, uma antecipação poética e política com pouca experiência e quase nenhum lastro social. Foi uma morte que feriu o país para sempre e produziu muitos monstros, em sua maioria ressuscitados, como tivessem nascido há pouco. Esta morte, não.

O Brasil ferido agora precisa da concentração de todas as trevas dos últimos 30 anos para ser destroçado, de novo, para a bossa nova ser finalmente sepultada, na história. Não é só bossa nova, nem é bossa, somente. É o fim da fome, e o fim da miséria. É a transferência de renda e o combate ao racismo. O respeito à democracia e ao papel do estado, no desenvolvimento social.

Saibam, os que sobreviverem a esta segunda morte, quem foi e quem é esta bossa. É este país em que ainda estamos vivendo, é este horizonte jurídico e político que decidimos, juntos, há menos de dois anos. É a nossa música e nosso tom. O nosso petróleo e a nossa democracia. Não há descanso em paz, como nunca houve, nem haverá, para os nossos cadáveres insepultos.

Que resistamos com o caráter dos que se deram quando a noite chegou dentro das trevas, nos anos 70. Que lutemos como os nacionalistas e estadistas lutaram, pelas regras e pelo reconhecimento dos direitos, nos anos 80. Que nos mantenhamos juntos, firmes, intransigentes e organizados, como conseguimos, nos anos 90.

Trinta anos num só golpe.

Diz que numa prece, que ela regresse. Vai, minha tristeza.