Arquivo mensal: julho 2014

PT promove debate sobre o legado das manifestações de junho

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Um ano depois, as manifestações de junho seguem sendo um tema que provoca polêmica e opiniões divergentes sobre os seus significados, legados e quais os desafios que se colocam para a esquerda em geral. Os diretórios da 1º e 2º zonais do PT de Porto Alegre promovem nesta quinta-feira (31) o debate “Qual o legado das Jornadas de junho?” (31). A atividade inicia às 18h30 no bistrô Alho Poró (Sindbancários – Rua General Câmara, 424).

Participarão do debate Clarissa Cunha (vice-presidente nacional do PT); Marcelo Branco (ativista do software livre) e Marcelo Sgarbossa (vereador do PT-POA). Após o debate, haverá um show com Mari Martinez (voz) e Lucas Hanke (violão).

A atividade será transmitida ao vivo pela internet. Maiores informações na página do evento no Facebook

 

Desgaste de Aécio com escândalo do aeroporto preocupa apoiadores do tucano no RS

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Setores ligados ao PP gaúcho estão preocupados com possíveis respingos do escândalo do aeroporto envolvendo Aécio Neves na campanha da senadora Ana Amélia Lemos para o governo do Estado. A preocupação é que o alinhamento entre a campanha da senadora gaúcha e do senador mineiro possa virar um problema a partir do caso do aeroporto de Claudio. A denúncia do aeroporto construído na fazenda que pertencia ao tio de Aécio Neves com dinheiro público teria atingido negativamente a candidatura do tucano, segundo informes publicados na imprensa. A Folha de S.Paulo dedicou um editorial ao assunto neste domingo.

O senador deve vir a Porto Alegre no próximo dia 2 de agosto para um ato político da campanha de Ana Amélia que está sendo chamado de “Encontro da Esperança”. A senadora comemora a vinda do candidato tucano em sua página no Facebook:  “Aécio Neves confirmou que estará comigo no dia 2 de agosto no Gigantinho”.

O discurso do “modelo de gestão” apregoado pelos partidários do senador mineiro, e repetido no RS pela campanha da senadora, sofreu um baque com a divulgação das notícias envolvendo a construção do aeroporto de Claudio em uma fazenda que pertencia a um parente de Aécio, a apenas 50 quilômetros de um outro aeroporto já construído em Divinópolis.

Foto: Orlando Brito (Fotos Públicas)

RBS entra na campanha eleitoral. Panfleto de Paulo Santana dá o tom

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O que já era esperado está se confirmando. Com dois de seus principais formadores de opinião concorrendo ao governo do Estado e ao Senado, o grupo midiático direciona suas baterias contra os adversários de seus colunistas candidatos. A tática usada para intervir na campanha também é conhecida. Aparenta uma suposta isenção nos espaços de reportagem e afunda o pé nos seus inúmeros espaços de opinião em jornais, rádios, televisões, sites e redes sociais. Na edição deste domingo do jornal Zero Hora, o colunista Paulo Santana mostra que o nível dessa intervenção será baixíssimo, ofensivo e irresponsável. Irresponsável no sentido literal da palavra, pois faz graves acusações sem apresentar uma única prova e sem dar o direito de voz e de resposta a quem está sendo acusada.

Não se trata de uma coluna propriamente, mas sim de um panfleto que acusa o governo do Estado de “mentir, iludir e falsificar dados para ludibriar a opinião pública”. Além disso, levanta a suspeita de que um “dinheiro bilionário” teria sido “desviado para a construção de estádios para a realização da Copa do Mundo. Acusações gravíssimas, certamente, para as quais o funcionário da RBS que conta com vários canhões midiáticos para divulgar suas posições não apresenta uma prova sequer. Paulo Santana acusa o governo do Estado de “mentir, iludir e falsificar dados” com base apenas em dois comunicados divulgados “numa emissora de rádio” e “na imprensa” por duas entidades: o Simers e o Cremers, cujas posições e intervenções políticas são bem conhecidas e muito questionadas por outras entidades e entes governamentais que trabalham com saúde pública.

Essas entidades e o colunista em questão, obviamente, tem todo o direito de ter e emitir suas opiniões políticas, mas, cabe a elas e a ele, apresentar provas quando acusam alguém de mentir, iludir, falsificar dados e desviar quantias bilionárias de dinheiro. No caso em questão, não são as entidades que fazem essas acusações, mas sim o colunista que usa sua visibilidade e exposição midiática como um escudo protetor de impunidade. E, ao final de seu panfleto, com a sutiliza de um hipopótamo ingressando num batizado, ele dispara: “os eleitores precisam ver quem os está enganando. E votar contra os que os enganam”. Poderia ter dado seguimento à sua total ausência de sutileza e apontado os nomes dos candidatos apoiados pela empresa em que trabalha.

O estilo panfletário de Santana e da RBS vale-se de algumas verdades e de muitas omissões para, usando as palavras do colunista, “ludibriar a opinião pública”. É verdade que há problemas na saúde pública em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul e no Brasil. Problemas históricos que tem a ver com o desmantelamento do Estado brasileiro operado durante décadas pela ideologia fundamentalista do Estado Mínimo que a RBS sempre defendeu e segue defendendo. A empresa e seus funcionários escalados para dar opiniões não assumem a responsabilidade pelas posições políticas que defendem. A empresa e os seus candidatos para o governo do Estado e o Senado apoiaram editorialmente, por exemplo, o fim da CPMF (que tirou cerca de R$ 40 bilhões da Saúde), a posição contra o desarmamento no plebiscito nacional, a posição contra o programa Mais Médicos (aliando-se ao corporativismo de algumas entidades médicas), contra a mudança do modelo de pedágios, apenas para citar alguns exemplos.

Se é verdade que seguem existindo problemas na Saúde, também é verdade (e isso é completamente omitido no panfleto em questão) que, pela primeira vez, o Estado do Rio Grande do Sul está cumprindo o que determina a Constituição e investindo 12% da receita na Saúde. Ao todo, entre 2011 e 2014, serão R$ 9,53 bilhões investidos na construção e ampliação de casas de saúde, na atenção básica e em equipamentos. Os avanços na área da saúde pública no Estado foram reconhecidas pela própria candidata Ana Amélia Lemos em um debate de rádio realizado esta semana. É certo que ainda existem muitos problemas e o setor precisa de pesados investimentos. Mas esses pesados investimentos não virão das mãos dos defensores do Estado mínimo, das demissões e arrocho salarial de servidores, da criminalização da política e de tudo que venha do setor público. O panfleto de Paulo Santana é um capítulo emblemático do engajamento ideológico e da irresponsabilidade política desse grupo midiático que se autodesignou porta-voz dos interesses da população do Rio Grande do Sul e omite sistematicamente os reais interesses econômicos com os quais opera. Isso sim é ludibriar a opinião pública.

Quando a ocupação de terra é a única saída

jacquesalfonsin200 (*) Jacques Távora Alfonsin

No dia 07 deste julho, um juiz federal devolveu para o foro de Cruz Alta o processo nº 5003011-04.2014.404.7116, na Justiça Federal e nº 011/1.14.0001672-6 , na Justiça Estadual, relativo a uma ação de reintegração de posse lá proposta contra dezenas de famílias de sem-terra, que haviam ocupado parte de um imóvel rural situado naquele município. Ele recebera o tal processo por força de o INCRA, uma autarquia da União legalmente encarregada de promover a reforma agrária no país, ter manifestado interesse na aquisição da área em litígio.  Como se sabe, sempre que um ente público da União intervém num processo judicial que corre perante a Justiça Comum, esse processo tem que ser julgado pela Justiça Federal (art. 109, inc. I da Constituição Federal).

As famílias de sem-terra, então, voltaram a estar sob o risco de serem desapossadas. Por mais que este tipo de acontecimento se repita em todo o país, e algumas execuções de reintegração de posse terminem matando gente, as ordens judiciais de desapossamento das famílias sem-terra protagonistas dessas ocupações, são ainda bem raras as liminares, as sentenças, os acórdãos dos tribunais, as providências administrativas interessadas em investigar as causas de um fenômeno social dessa magnitude. Mesmo que ela revele uma injustiça social conservada e reproduzida por mandados judiciais desse tipo.

Embora não falte ao ordenamento jurídico do país disposições expressas sobre a forma e o conteúdo dos direitos que identificam o uso lícito e socialmente legítimo da posse sobre terra, seja ela urbana seja rural, a superficial visão de uma certidão fornecida pelo Registro de Imóveis que ateste domínio ou outro direito sobre uma determinada fração desse bem, tem sido julgada suficiente para fundamentar a expedição do mandado liminar de reintegração contra as/os sem-terra.

O fato mais do que notório da pobreza e até da miséria de que padecem milhões de brasileiras/os pobres no meio rural do Brasil provocou mudança significativa do nosso ordenamento jurídico, ainda em 1964, em pleno regime militar, por improvável que pareça, com o Estatuto da Terra e depois, em 1988, com a Constituição Federal. Para a implementação da política pública de reforma agrária, então, detalhada também por outras leis, ficou encarregado o INCRA. Não por outra razão, a tal política figura na própria denominação dessa autarquia.

Assim, que motivo poderia existir para o juiz federal devolver o processo para a Justiça Comum, em Cruz Alta? – No seu despacho ficou registrado o seguinte: “… a simples intenção do INCRA em adquirir o imóvel por meio de compra e venda permite, no máximo, o reconhecimento da existência de interesse patrimonial, social ou econômico, mas não jurídico, o qual pressuporia, ao menos, a demonstração da efetiva aquisição do bem, nos termos do art. 42, § 2º, do CPC.”

Observe-se o tamanho desse absurdo. O juiz não reconhece nem interesse social (isso para o dito despacho nem é “jurídico”…) para uma autarquia da União, cujo principal encargo público é o de garantir, justamente, o tal interesse jurídico sim e por força de lei, para promover a reforma agrária. Não é interesse jurídico o interesse social de garantir o acesso à terra? E mais: ele só reconheceria legitimidade para a mesma autarquia se ela já tivesse adquirido a terra em disputa.

Mas será que não dá para perceber que, se isso tivesse acontecido, a própria ação possessória nem teria sido ajuizada??

Não dá para perceber que o INCRA, com poder legal, jurídico sim, até para desapropriar imóveis rurais, está se propondo adquirir a terra pagando em dinheiro, tal a parafernália burocrática que enfrenta, no país inteiro, em centenas de ações de desapropriação de terra? Sujeitas a um tipo de defesa latifundiária, muitas vezes sustentada apenas na lerdeza histórica do devido processo legal que, como se sabe, protege bem mais a propriedade de um, mesmo ao custo da vida de multidões? A repressão ao descumprimento da função social da propriedade por ser “social” também não é jurídica?

Não dá para perceber que uma decisão dessas proíbe ao INCRA conferir um mínimo de eficácia aos primeiros artigos da Constituição Federal (o 1º, em seus incisos II (cidadania) e III (dignidade da pessoa humana) e o 3º em seu inciso III (erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais)?

O tal despacho procura apoio também em precedentes jurisprudenciais do próprio Superior Tribunal de Justiça. O que causa espanto, entretanto, a juízes/as com um mínimo de sensibilidade social, é o fato de que, exatamente pela repetição trágica das sucessivas ocupações de terra, que não ocorrem somente aqui no Estado, estão elas a exigir, como muito bem previu o PNDH-3 aquilo que a hermenêutica constitucional costuma identificar como necessária “interpretação de reajuste”.

No caso – e aí está o incrível paradoxo -, esse reajuste pode ser fundamentado até em jurisprudência anterior à própria criação do STJ e emissão de suas Súmulas, das quais se socorreu o infeliz despacho.

A história comprova: quando o ordenamento jurídico do país admitia a escravidão (leia-se em Lenine Nequete, O Escravo na jurisprudência brasileira, Porto Alegre: 1988, p.261, o seguinte precedente judicial em favor da liberdade dos escravos): “as disposições endereçadas ao bem de algumas pessoas, por utilidade pública, humanidade ou outro motivo semelhante, impunha-se interpretá-las com a extensão adequada a favor desses motivos (…) e quando houvesse obscuridade na lei, o remédio era entendê-la no sentido mais conforme com a intenção do legislador”. Isso aconteceu em pleno Brasil Império (1876).

Ainda que seja temperada a parte final dessa decisão judicial já que, modernamente, em vez de intenção do legislador, a doutrina constitucional se preocupa em dotar a interpretação das leis nos próprios princípios constitucionais, ao juiz que redigiu esse despacho faltou julgar o quanto de “utilidade pública” e “humanidade” (!) deveria ter sido cogitado para que “a extensão adequada a favor dos motivos” da intervenção do INCRA no processo estava presente.

Parece não restar nenhuma dúvida. Um despacho judicial, como o prolatado nesse caso de Cruz Alta, confirma o que já era sabido há muito tempo.  Em 1987, durante uma conferência da OAB nacional realizada em Belém do Pará, justamente com o objetivo de se agilizar o respeito devido aos direitos humanos fundamentais do povo pobre, aí se incluindo as/os sem terra com direito à reforma agrária, transitava no auditório a seguinte tese: “é preciso garantir-se que a reforma agrária, atualmente impedida pela interpretação da lei, seja inviabilizada também pela sentença.”

É o que está acontecendo agora quando um juiz julga da forma como aconteceu neste caso. Não é que ele ataque a causa dos conflitos que lhe foram submetidos e, sobre os mesmos, faça justiça. Na medida em que impede a ação pública tendente a garantir o acesso à terra de quem à ela faz jus, em vez de dar solução legal e justa a um conflito social, ele não oferece outra saída as vítimas desse conflito senão a de fazer justiça pelas próprias mãos.

(*) Procurador do Estado aposentado, Mestre em Direito pela Unisinos, advogado e assessor jurídico de movimentos populares.

(**) Foto: CDES-RS

Sobre anões diplomáticos e pigmeus morais

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Nota oficial do Ministério de Relações Exteriores do Brasil, divulgada quarta-feira, dia 23:

O Governo brasileiro considera inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina. Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças.

O Governo brasileiro reitera seu chamado a um imediato cessar-fogo entre as partes.

Diante da gravidade da situação, o Governo brasileiro votou favoravelmente a resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre o tema, adotada no dia de hoje.

Além disso, o Embaixador do Brasil em Tel Aviv foi chamado a Brasília para consultas.

Diante dessa nota, a Chancelaria de Israel respondeu com a arrogância e a truculência que lhe são características qualificando o Brasil como irrelevante na diplomacia internacional.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Luiz Alberto Figueiredo, rebateu afirmação do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor (foto), que, segundo o jornal The Jerusalem Post, classificou o Brasil de “anão diplomático”, apesar de sua posição econômica e cultural.  “O que eu li é que o Brasil é um gigante econômico e cultural, e é um anão diplomático. Palmor ainda alfinetou o Brasil por conta da derrota para a Alemanha na Copa do Mundo; “Desproporcional é 7×1”, disse o diplomata (sic).

Eu devo dizer que o Brasil é um dos poucos países do mundo, um dos 11 países do mundo, que têm relações diplomáticas com todos os membros da ONU [Organização das Nações Unidas]. E temos um histórico de cooperação pela paz e ações pela paz internacional. Se há algum anão diplomático, o Brasil não é um deles, seguramente”, reagiu o chanceler brasileiro.

A resposta do porta-voz israelense expõe com clareza a estatura moral do governo que representa.

RBS se frustra com debate que ela própria promoveu

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A editoria de Política do jornal Zero Hora não gostou do primeiro debate entre os candidatos ao governo do Estado, promovido pela própria RBS domingo à noite. Em um texto de avaliação do debate, o jornal fala de escassez de ideias e afirma: “nenhuma proposta concreta, viável ou inovadora foi apresentada. Apenas promessas e discursos genéricos”. A avaliação contradiz a própria cobertura do jornal que menciona uma série de propostas e ideias apresentadas e defenfidas pelas candidaturas. O jornal parece confundir a suposta escassez de ideias com uma certa frustração com o desempenho de certas propostas. Além disso, o debate poderia ter ficado menos “genérico” se a coordenação do mesmo não tivesse impedido, contrariando as regras estabelecidas, que o governador Tarso Genro fizesse perguntas à candidata do PP.

Por duas vezes, Tarso tentou estabelecer um debate com a senadora. Na primeira, foi impedido por uma interpretação equivocada das regras e, na segunda, por uma restrição imposta pelas próprias regras. A coordenação do debate reconheceu o erro no primeiro caso e pediu desculpas ao candidato Tarso Genro. A senadora, por sua vez, evitou fazer perguntas ao governador. A editoria de Política de ZH parece não considerar esses fatos ao manifestar sua frustração com o resultado do debate. Mas a própria cobertura do jornal expõe as diferenças envolvidas na disputa eleitoral deste ano. A candidata do PP repetiu um dos mais tradicionais discursos ideológicos que consistem em negar ter qualquer ideologia. Além disso, procurou negar qualquer vinculação com governos anteriores como os de Yeda Crusius e Antonio Britto, dos quais seu partido participou.

A RBS parece não ter decicido ainda como lidará com essas diferenças. O debate transmitido pela rádio Gaúcha e pela TV COM não permitiu que essas ideias fossem confrontadas diretamente pelas candidaturas que as representam. Em sua intervenção final, o governador Tarso Genro procurou suprir essa lacuna apontando o que considera ser a questão central na disputa eleitoral deste ano. De um lado a continuidade e o aprofundamento das políticas de recuperação do Estado, dos investimentos na economia gaúcha, das políticas de valorização do funcionalismo público, de realização de concursos, dos investimentos em saúde, educação e segurança, na inovação e na capacidade do povo gaúcho. Do outro, o choque de gestão e o encolhimento do Estado, que significa arrocho salarial, cortes nos investimentos, fim dos concursos públicos, planos de demissão voluntária e desmonte de políticas públicas, projeto que já foi governo no Rio Grande do Sul, com Antonio Britto e Yeda Crusius, com resultados desastrosos para o desenvolvimento do Estado e para a população que mais precisa de serviços públicos de qualidade.

Talvez a RBS fique menos frustrada com o resultado do debate se, no próximo, permitir que essas propostas sejam explicitadas pelos candidatos.

Curtir e compartilhar o RS: um trabalho desafiador

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Eu aceitei o convite que recebi para trabalhar na campanha majoritária da Unidade Popular pelo Rio Grande que buscará a reeleição de Tarso Genro para o governo do Estado, com Abigail Pereira de vice, e Olívio Dutra para o Senado. Além de compartilhar os valores e as políticas que acompanham essas candidaturas e achar importante que o RS siga no caminho que tomou nos últimos quatro anos, encaro esse trabalho também como um desafio pessoal e profissional. Vou trabalhar na equipe de comunicação da campanha na internet, em especial nas redes sociais, área que terá este ano, como se sabe, uma importância fundamental. É um terreno novo e trafegar por ele envolverá trabalho árduo e muita responsabilidade. E um aprendizado constante também. A ideia é compartilhar as ideias, valores e propostas das candidaturas e as mudanças que já se tornaram realidade no Estado, como por exemplo a construção do maior parque eólico da América Latina, como mostra a foto acima, uma obra arrojada e inovadora, que abre novos caminhos na busca por um modelo de desenvolvimento que não seja sustentável só no nome.

Decidi compartilhar essa notícia com quem me acompanha aqui no RS Urgente desde 2005 por duas razões: para dar uma satisfação a quem acompanha o blog que, provavelmente, diminuirá o ritmo de atualizações, e também para convidar quem tiver interesse a participar da rede presencial e virtual que pretendemos construir em todo o Estado para ajudar a divulgar e compartilhar essas ideias e as propostas para o futuro. Todos e todas estão convidados: blogueiros, tuiteiros, facebuqueiros, rádios comunitárias, militantes de direitos humanos, ambientalistas, movimentos sociais, sindicatos, entidades comunitárias e não militantes também que estão interessados em conversar sobre o presente e o futuro do Rio Grande do Sul. O objetivo é fazer esse debate em alto nível, sem baixarias, buscando divulgar e compartilhar ideias, realizações e propostas.

Neste domingo, quando começa oficialmente a campanha, será dado o pontapé inicial desse trabalho com o primeiro encontro #tarsonasredes, a partir das 14 horas, no CTG 35 (Avenida Ipiranga, 5300), em Porto Alegre. Entre outros temas, a atividade discutirá estratégias de comunicação e mobilização nas redes sociais e fora delas. Laércio Portella, da campanha Dilma Presidente, participará da reunião. Quem quiser, e puder, apareça. Encontros similares a este devem ocorrer em outras cidades também, ao longo dos próximos meses.

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Para quem já se definiu por outras candidaturas fica o convite para tentarmos construir um debate civilizado nesta campanha que coloque como horizonte estratégico a melhoria da qualidade de vida do povo gaúcho e o aprofundamento da democracia no Estado. Nestes dias em que todos curtimos e compartilhamos muitas informações todos os dias, buscaremos dar destaques às boas novas e boas ideias, sem esconder os problemas com os quais nos defrontamos nas nossas vidas. Quem quiser nos acompanhar nesta caminhada, está desde já convidado. Propostas, ideias e outras observações podem ser enviadas para o email gamarra@hotmail.com. Um abraço a todos e todas e mãos à obra. Que bons ventos nos acompanhem!

Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini

A Alemanha venceu, mas a Argélia nos deu a imaginação do triunfo

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Por Katarina Peixoto

Uma das partidas das oitavas de final desta Copa do Mundo, no Brasil, poderá ficar para sempre na memória e no coração de milhões de pessoas. A Alemanha, tri campeã mundial, sofreu para vencer um time magrebino, cuja grande vitória, pelo ineditismo, teria sido chegar às oitavas de final. A Alemanha venceu, mas a Argélia triunfou. Ao menos nos deu o triunfo como imaginação. A trajetória do time argelino, comandado por um técnico muçulmano bósnio, sobrevivente de guerra, deu-nos de presente, a milhões (ou bilhões?) de pessoas, a imagem real de uma possibilidade imensa. Os jogadores argelinos, em jejum, quase venceram os alemães. O jogo seguinte seria nada menos que a quarta de final, no Maracanã, entre Argélia e França, marcada para os dias, senão o dia, em que se festeja a independência argelina desta potência europeia.

Parecia um milagre. A palavra perplexidade não traduz à altura o que se via nas arquibancadas, na torcida alemã. Mais do que apostas colapsadas, e talvez mais do que um fenômeno sem explicação racional, o que se tinha era nada menos que, a estas alturas do andar das coisas no mundo islâmico, nas relações com Israel e com os EUA, com o pesadelo em curso no Iraque, com o racismo fasci a crescer desabridamente na França, neste Brasil de hoje, neste continente dirigido por sobreviventes das torturas perpetradas pela primeira vez contra os argelinos, por franceses, pois bem, a Argélia ofereceu-nos a possibilidade de, num jogo, no Maracanã, nas quartas de final, na Copa do Mundo que tem Dilma Rousseff como presidenta do país sede, vencer a França.

Ao contrário dos mexicanos, que amarelaram frente a Holanda, os argelinos não entregaram nem cederam. Quando agiram na defensiva, quando empacavam o jogo alemão, e mesmo quando erravam nas finalizações (e como erraram), foram valentes. Uma valentia que encheu os olhos e os corações de quem pôde e quis ver. Antes mesmo da prorrogação eles começaram a cair em campo, a literalmente despencar. Não era apenas câimbra, não era a malícia da falta cavada. Era jejum, segundo dia do Ramadã (seja este o significado da jihad em todos os mundos possíveis). O árbitro, lá pelas tantas, parou de interromper a partida. A coisa nunca ia ter fim – será que os alemães pensaram isso? E os valentes argelinos erguiam-se de novo, arrancando forças de um horizonte improvável, mas possível, de triunfo.

Imaginem este presente que nos foi ofertado como possibilidade real, modalidade mais robusta que um mero enunciado formalmente limpinho. Imaginem se a Alemanha não tivesse conseguido fazer o segundo gol e tivéssemos chegado à disputa por pênaltis. Imaginem, então, que o magnífico goleiro argelino pegaria bolas o suficiente, dos chutes cansados e colapsados, quando menos epistemicamente, dos alemães, e o país venceria Alemanha. Imaginem que no Maracanã, na semana em que a Argélia celebra a sua independência da França, dando começo ao fim de uma guerra sangrenta de mais de 40 anos, o país enfrentaria, nas quartas de final de uma copa do mundo, o seu carrasco histórico. Imaginem o sentido disso para um universo de muçulmanos – a sua maioria – cuja ambição é poder, vejam só, jogar o jogo, dentro das regras, dando tudo de si e, se preciso for, jejuando, mas com valentia e coragem, dentro do jogo. Imaginem a cara da direita fasci do Front National, dependendo dos pieds-noirs invertidos, que têm no Benzema o símbolo máximo da resistência, para não deixar que os noirs eles mesmos, afinal, vençam, nem que seja num jogo. Imaginem o espírito do Benzema, imaginem o coração, a memória e a mente de Zinedine Zidane. Imaginem o assombro de Hollande.

Imaginem, então, o que a esquerda do planeta, como diz a música da TeleSur, viveria, antes e durante este jogo épico. Imaginem a grandeza e o horizonte épico que os argelinos valentes e o seu técnico nos deram de presente, a nós, milhões, talvez bilhões, não como expressão delirante de um outro mundo possível, mas como possibilidade real, num campeonato, num jogo.

Vahid Halilhodzic é a figura mais grave e forte do universo futebolístico que comparece nas telas de tevê e nas fotos, desta Copa. Desde a primeira partida da Argélia, contra a Bélgica, a sua postura era de uma humildade intransigente em relação ao jogo que tinha diante de si e de uma raiva indisfarçada do derrotismo e da pequeneza midiática que insistiu em desrespeitá-lo. “Nós vamos sofrer e sabemos disso. O que temos diante de nós é muito duro, vamos sofrer, nossas chances são poucas, mas nós sabemos disso”. Quantos dos técnicos que chegaram às oitavas de final disseram algo parecido a essas palavras?

O capitão do time argelino, Madjij Bougherra, disse que Halihodzic lhes deu “uma imagem, disciplina e um valor grande”. O jogador que virou técnico e que tem no corpo, na casa perdida para o fogo e a destruição, as marcas do mais sangrento conflito europeu da segunda metade do século passado, deu ao mundo, mais do que à seleção e aos argelinos, uma imagem. A imagem da possibilidade real de vir a vencer a França, numa quarta de final, numa Copa do mundo. A imagem nada fantasística, mas real, de milhões de redenções possíveis. A imagem de heróis famintos e valentes, sabendo que essa imagem também era sua, de seu próprio triunfo.

Foi o mais bonito e prenhe de possibilidades históricas e épicas de todos os outros jogos, até agora. O mais bonito de todos os acontecimentos contra-factuais de que nossa imaginação é capaz, no futebol, que é sair de si, a partir de si mesmo. O triunfo do jogo sobre a barbárie, da valentia sobre as preferências, da fé e da confiança sobre os músculos e ossos, da memória e da consciência do sofrimento, sobre a opressão e a certeza da vitória do adversário. Foi um milagre, embora tenha sido, por mais de 90 minutos, uma possibilidade real. Cada segundo com a imagem dessa redenção que não ocorrerá mais, no Maracanã, nesta Copa, é de triunfo da imaginação sobre a ideologia, da imaginação sobre a mentira das cartas marcadas, da imaginação sobre o que parece e tantas vezes é vendido como destino e, claro, afinal, do triunfo sobre todos os monstros fascistas que Halihodzic expulsou de seus olhos inundados, na noite fria e úmida de Porto Alegre. Pela graça alcançada, argelinos, somos todos gratos, mesmo os que não sabem, nem imaginam, ainda, o quão miraculoso pode ser um jogo, um jogo de verdade.