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Impacto ambiental de projeto de mineração de titânio preocupa comunidade de São José do Norte

Banhado ao mesmo tempo pelo Oceano Atlântico e pela Lagoa dos Patos, São José do Norte tem mais de 100 quilômetros de praias na costa do Atlântico. (Foto: Luiz Bravo Gautério/Divulgação)

Um projeto de mineração de titânio, matéria prima para a indústria bélica e espacial, e de outros metais pesados em São José do Norte, litoral sul do Rio Grande do Sul, está mobilizando a comunidade dessa região, que tem na pesca e na produção de cebola duas de suas principais atividades econômicas, e está preocupada com os possíveis impactos ambientais do empreendimento. O projeto “Retiro”, encabeçado pela empresa Rio Grande Mineração S.A, pretende explorar cerca de 600 mil toneladas de minerais pesados em uma área de aproximadamente 30 quilômetros de extensão por 1,6 quilômetros de largura.

Em fevereiro de 2016, a procuradora Anelise Becker, do Ministério Público Federal, emitiu uma recomendação ao Ibama, apontando “graves deficiências” no EIA-RIMA do empreendimento, solicitando que a empresa corrigisse as deficiências e lacunas desse estudo e pedindo a realização de uma nova audiência pública. As recomendações feitas pelo MP Federal, no entanto, não foram respondidas pelo Ibama. No dia 14 de junho deste ano, a presidente do Ibama, Suely Araújo, emitiu uma licença prévia, válida por quatro anos, para a Rio Grande Mineração iniciar o empreendimento, mas o MP Federal ainda vai se pronunciar a respeito dessa liberação.

A Comissão Permanente de Educação, Saúde, Ação Social, Serviços, Obras Públicas  e Meio Ambiente da Câmara de Vereadores do município convocou uma audiência pública para o dia 11 de agosto, no salão da Igreja Matriz, para debater com a comunidade os possíveis impactos ambientais do projeto para a região. Na avaliação do biólogo e vereador Luiz Bravo Gautério (PT), presidente da Comissão, os projetos de mineração que vem sendo projetados para São José do Norte e para a região do rio Camaquã trazem sérios riscos de impactar os ecossistemas do território e a produção de suas comunidades urbanas e rurais.

As ambições do setor minerador sobre São José do Norte vêm de longa data. Desde o final da década de 60, relata Gautério, alguns grupos de pesquisa começaram a descobrir minerais pesados na região sedimentada do litoral sul do Estado. “De lá para cá, houve três projetos. Na década de 70, época em que não havia política de licenciamento ambiental, a empresa RTZ iniciou uma exploração na região. Nos anos 2000, veio um segundo projeto, chamado Bujuru, já com um processo de EIA-Rima e consulta popular, que era da empresa Paranapanema. De lá para cá, essa ideia ficou adormecida até meados de 2011, quando a RGM lançou o projeto Atlântico Sul, que reavivou o projeto da Paranapanema de uma forma supostamente menos impactante”, diz o biólogo.

A RGM está em São José do Norte desde 2012 e já foram realizadas duas audiências públicas – uma em Rio Grande e outra em São José do Norte – para debater o projeto de mineração. A audiência em São José do Norte ocorreu no dia 4 de dezembro de 2014, cerca de quatro dias depois da reunião realizada em Rio Grande, recorda Gautério. “Houve uma participação muito grande da comunidade e o projeto foi repudiado pela maioria da população. Desde essa audiência a procuradora Anelise Becker, do Ministério Público Federal, identificou uma série de problemas no projeto. No dia 18 de fevereiro de 2016, ela expediu uma recomendação ao Ibama para que esse exigisse da empresa o suprimento das deficiências encontradas no EIA-RIMA e que essas novas informações fossem submetidas a novas audiências públicas”, assinala.

A empresa vem tentando acelerar a liberação do empreendimento e conta, entre outros, com o apoio político do senador Lasier Martins (PSD) que, no dia 22 de fevereiro, esteve em audiência com o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, para tratar da liberação do licenciamento ambiental para a exploração de minérios pesados em São José do Norte. Também participaram dessa audiência o Secretário de Modernização Administrativa e Recurso Humanos do Estado do Rio Grande do Sul, Raffaele Di Cameli, e o presidente da Rio Grande Mineração S.A, Luiz Augusto Bizzi. Na ocasião, o ministro Sarney Filho disse que “os seis anos de espera serão resolvidos em seis meses”. De fato, no dia 14 de junho, o Ibama expediu uma licença prévia que pode ser contestada pelo Ministério Público Federal.

A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) apontou uma série de problemas no estudo de impacto ambiental realizado pelo empreendimento, entre eles a ausência de previsão para a recuperação do solo e dos aquíferos. Além disso, a chefia do Parque Nacional da Lagoa do Peixe avaliou que, mesmo que o projeto tivesse uma previsão para a recuperação da área atingida, isso seria impossível devido à complexidade do ambiente e à falta de conhecimento científico sobre os reais impactos da exploração na área.

Luiz Gautério chama a atenção para o fato de a licença prévia ter sido expedida pelo Ibama sem que as dezenas de apontamentos feitos pelo Ministério Público Federal fossem respondidas. “Eles querem empurrar o projeto de cima para baixo. Por isso, chamei essa audiência pública para o dia 11 de agosto. Estou convidando todas as instituições que tratam de questões socioambientais no Estado. A audiência tratará do impacto dos projetos de mineração para São José do Norte e região. O projeto de mineração de chumbo previsto para o rio Camaquã também vai impactar a bacia da Lagoa dos Patos. Queremos discutir o tipo de progresso que estão propondo para a Metade Sul do Estado e o impacto desses projetos que entram em conflito direto com sistemas de produção e saberes locais. A licença emitida pelo Ibama agora não atesta, por exemplo, a tradicionalidade do cultivo de cebola em São José do Norte, uma história que tem mais de um século”.

O biólogo fala sobre o plano original do projeto e aponta as mudanças anunciadas pela licença do Ibama que não foram debatidas com a população:

“Estamos a poucos metros do nível do mar e o terreno é sedimentar, não possui rochas, só camadas de conchários, barro, areia e argila. O lençol freático é composto por bolsões. Temos bolsões de água mineral, inclusive. A água aqui das dunas é muito boa para consumo. O processo de mineração prevê a construção de uma grande piscina e o uso de uma draga flutuante que fará a extração do material. Eles vão criar essa piscina para poder dragar. A proposta inicial previa uma piscina de um tamanho entre 15 e 30 hectares, que se estenderia ao longo de mais de 20 quilômetros de área de lavra. A profundidade média das lagoas costeiras é de um metro e meio. Eles querem fazer uma lagoa de oito metros de profundidade para dar conta do déficit de volume em metros cúbicos no final do processo”.

Agora, prossegue Gautério, o Ibama emitiu a licença dizendo que pode haver um rebaixamento topográfico ao longo da lavra para evitar a piscina no final. “Serão milhares e milhares de metros cúbicos a menos ao longo do ecossistema. Essas questões não estão no EIA-Rima, o que demonstra como eles estão fugindo do debate com a população. Se mudou o método de manejo do projeto, isso precisa ser rediscutido com a comunidade atingida”.

Segundo o vereador, a maior parte da população da cidade está contra o projeto. “Há uma semana, começamos um abaixo-assinado que já tem 1.500 assinaturas. A estimativa é que cheguemos à audiência pública com mais de 3 mil assinaturas. Não vamos nos limitar à audiências. Temos grupos de trabalho na FURG (Universidade de Rio Grande), no Campus da FURG em São Lourenço e com a juventude de movimentos sociais aqui de São José do Norte. O professor Paulo Brack criou um grupo de estudos na UFRGS. Queremos fazer esse debate de forma qualificada”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Pesquisador gaúcho faz perícia independente sobre impacto ambiental do desastre em Mariana

Antônio Philomena: “Boa parte da população de Mariana rejeita as pessoas de Bento Rodrigues, atribuindo a elas a responsabilidade pelo fechamento da Samarco”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Antônio Philomena: “Boa parte da população de Mariana rejeita as pessoas de Bento Rodrigues, atribuindo a elas a responsabilidade pelo fechamento da Samarco”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Após mais de um ano do rompimento da barragem da empresa mineradora Samarco, na localidade de Bento Rodrigues, distrito do município de Mariana (MG), que causou 19 mortes, as pessoas que tiveram suas vidas atropeladas pela lama seguem lutando por seus direitos e pela reparação dos danos que sofreram. As reclamações de quem teve a vida arrasada pelo rompimento da barragem são muitas e vão desde o acordo que deu à própria Samarco a atribuição de definir quem são os atingidos pela tragédia até a resistência da empresa em atender demandas básicas como o custeio de passagens de ônibus de R$ 3,50 para crianças irem à escola. “A Justiça brasileira não está preparada para lidar com esse tipo de situação. Não existem sequer leis que se apliquem a situações como esta”, diz Antônio Liborio Philomena, oceanógrafo, professor aposentado da Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e Ph.D em Ecologia pela Universidade da Geórgia (EUA).

Por aproximadamente 15 anos, Antônio Philomena foi chamado por órgãos federais, estaduais e municipais para realizar perícias em acidentes e desastres ambientais como o que ocorreu em Bento Rodrigues. Impressionado pela dimensão e pelos impactos do rompimento da barragem da Samarco, o pesquisador resolveu, com o apoio de professores da Universidade de Ouro Preto, realizar uma perícia independente sobre o impacto ambiental da tragédia. Em entrevista ao Sul21, Philomena fala sobre o que viu nas quatro viagens que já fez à região atingida pelo desastre e aponta a existência de uma caixa-preta de informações que não são disponibilizadas ao público sobre a real dimensão do impacto social e ambiental do rompimento da barragem.

“A valoração econômica, em geral, não abarca 10% do dano provocado, pois ela só reconhece o que tem valor no mercado, coisas como peixe, galinha ou porco. Existem várias metodologias para definir essa valoração. Umas vão mais fundo que outras. É uma tarefa muito complexa, pois trabalhamos com coisas que são consideradas incomensuráveis”, diz o pesquisador. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Projeto de mineração ameaça uma das últimas áreas preservadas do Pampa, advertem entidades

Rincão dos Francos, rio Camaquã, perto de Bagé. Votorantim quer minerar chumbo, zinco e cobre nesta região, considerada uma das sete maravilhas naturais do Rio Grande do Sul. (Foto: União pela Preservação Rio Camaquã-Palmas, Reprodução/Facebook)

Rincão dos Francos, rio Camaquã, perto de Bagé. Votorantim quer minerar chumbo, zinco e cobre nesta região, considerada uma das sete maravilhas naturais do Rio Grande do Sul. (Foto: União pela Preservação Rio Camaquã-Palmas, Reprodução/Facebook)

A luta contra um projeto de mineração de chumbo, zinco e cobre em Caçapava do Sul, às margens do rio Camaquã e numa das raras áreas ainda preservadas do Bioma Pampa, está mobilizando comunidades de várias cidades da região que questionam os possíveis impactos ambientais e sociais do empreendimento planejado pelas empresas Votorantim Metais e Mineração Iamgold Brasil. No último dia 6 de novembro, mais de 400 pessoas participaram, na localidade de Palmas, de um ato em defesa do rio Camaquã. Organizada pela Frente de Autodefesa do Camaquã, a manifestação contou com a presença de moradores e entidades de várias cidades da região, preocupados com o impacto do projeto, pois a mina, a céu aberto, e os seus rejeitos, ficarão localizados às margens do Camaquã, no limite dos municípios de Bagé e Caçapava do Sul, logo abaixo da nascente do rio.

Na manifestação, foi lançado o Manifesto de Palmas que declara “resistência total e absoluta à instalação de uma mineradora de chumbo, cobre e zinco nas margens do rio Camaquã”. O documento será encaminhado ao governador José Ivo Sartori que, no dia 14 de junho deste ano, recebeu em audiência o diretor-presidente da Votorantim Metais, Tito Martins, que apresentou o “Projeto Caçapava do Sul”, que prevê a implantação de uma mina para a produção de 36 mil toneladas de chumbo contido, 16 mil toneladas de zinco e cinco mil toneladas de cobre contido, por ano. O prefeito de Caçapava do Sul, Otomar Vivian (PP), também participou da audiência e defendeu a proposta da retomada da mineração no Estado, definindo o projeto como “estratégico para o Rio Grande do Sul”.

As empresas garantem que o projeto é sustentável e não oferece nenhum risco para o meio ambiente. Integrante da Frente de Autodefesa do Camaquã, a advogada Ingrid Birnfield observa que a mineração não é uma atividade 100% segura, ainda mais depois do que aconteceu em Mariana, e que o Comitê Gestor do Plano da Bacia do Rio Camaquã apontou a necessidade de se estabelecer áreas de restrição à mineração nesta região.

“Projeto é uma ameaça ao Bioma Pampa”

Mas essa avaliação está longe de ser um consenso na região. Em artigo publicado no jornal “O Minuano”, diz 7 de novembro, o prefeito eleito de Bagé, Divaldo Lara, manifestou-se contra o projeto dizendo que apesar de ser apresentado como um grande investimento estratégico, na verdade, ameaça o Bioma Pampa e, em especial, o rio referência de Palmas. No artigo, Lara assinala ainda que houve um subdimensionamento no relatório de impacto ambiental protocolado em janeiro deste ano na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam).

Além disso, não teria sido realizado um estudo adequado do impacto do projeto sobre a fauna e a flora da região, que é considerada a região mais preservada do Bioma Pampa. Esses problemas na avaliação do impacto ambiental motivaram uma representação junto ao Ministério Público Federal que acabou determinando a realização de novas audiências públicas nos municípios de Bagé, Pinheiro Machado e Santana de Boa Vista.

Os autores da representação assinalaram que, conforme o próprio EIA/RIMA apresentado na Fepam, Caçapava do Sul é o município que tem a menor porcentagem do seu território (menos de um terço) na Bacia Hidrográfica do Rio Camaquã e está localizado há cerca de 90km do empreendimento. Já o município de Bagé possui mais da metade (50,28%) do seu território na bacia e está localizado a cerca de 800 metros do local onde estão projetadas para ficar as pilhas de rejeitos, que ficariam localizadas próximas ao rio. Do mesmo modo, o município de Pinheiro Machado possui 57,65% do seu território localizado na bacia, sendo o segundo município com maior percentual territorial inserido na bacia do Alto Camaquã.

Além disso, sustentou ainda a representação, a área do empreendimento está situada na cabeceira do rio, um ponto critico no caso de um acidente com eventual contaminação. O documento lembra o acidente ocorrido em 1981, na mesma região, nas instalações da antiga Companhia Riograndense do Cobre, que deixou vestígios até a cidade de Cristal.

“Uma das sete maravilhas naturais do Estado

A representação destaca ainda que a área onde a Votorantim pretende instalar uma mineradora possui dois sítios considerados de alta relevância em termos de patrimônio geológico, que figuram na lista “Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil” e fazem parte do patrimônio Geológico Brasileiro. Essa mesma área faz parte do polígono Palmas/Bagé-Rincão do Inferno-Santana da Boa Vista, considerada de relevância extremamente alta para o Ministério do Meio Ambiente, que já possui indicação de criação de unidades de conservação. A beleza cênica dessa região já serviu de cenário para vários filmes como “Valsa para Bruno Stein”, “Anahy das Missões”, “Neto perde sua alma” e várias cenas da série “O Tempo e o Vento”.

“Toda a região das Guaritas, onde pretende se instalar o empreendimento, há muitos anos é reconhecida pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Sul como uma das sete maravilhas naturais do estado, de forma que faz parte do patrimônio cultural e histórico de todos os gaúchos, e não apenas dos cidadãos de Caçapava do Sul”, defendem os autores da representação.

Qual modelo de desenvolvimento?

A polêmica envolvendo o projeto de mineração está ligada também ao debate sobre qual a melhor opção para o desenvolvimento da região. As formações rochosas e a prevalência do chamado “campo sujo”, onde campo e pedras se misturam, fizeram dela a área mais preservada do Bioma Pampa no Rio Grande do Sul. Hoje, no Estado, apenas 3% do Bioma Pampa está em unidades de conservação. As condições do relevo e do solo acabaram impedindo o avanço da agricultura sobre a região, ao contrário do que ocorre em outras regiões do Pampa, que vem sofrendo o avanço de lavouras de soja principalmente. Ao invés dessas lavouras tradicionais, prevaleceu na região uma estratégia de desenvolvimento da pecuária familiar.

A Associação para o Desenvolvimento Sustentável do Alto Camaquã (ADAC), que abrange oito municípios da parte superior da bacia do Rio Camaquã (Lavras do Sul,   Encruzilhada do Sul, Canguçu, Bagé, Caçapava do Sul, Pinheiro Machado, Piratini e Santana da Boa Vista), tem promovido a organização social dos pecuaristas familiares da região em torno da Rede Alto Camaquã Essa rede é formada por 24 associações e opera em defesa de uma estratégia de desenvolvimento que tem na valorização dos recursos locais (naturais e culturais) e na promoção de produtos com as marcas da sustentabilidade e da exclusividade a sua principal estratégia.

Na avaliação das entidades que estão se mobilizando pela defesa do rio Camaquã, os prejuízos que poderão ser causados pela instalação do projeto de mineração, extrapolam a esfera da destruição dos recursos naturais e paisagens, comprometendo também esse modelo de desenvolvimento diferenciado.  Além dos problemas ambientais, uma das principais preocupações dessas entidades é que se repita o panorama registrado a partir de 1996, quando ocorreu o enceramento das atividades da mineração de cobre na região, deixando para trás um passivo de impactos ambientais até hoje presentes, abandono social e declínio econômico individual e coletivo na região.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Após décadas de mineração de areia, Jacuí mostra marcas da exaustão

Ação Civil Pública diz que extração de areia nas margens do rio Jacuí, da forma que vem ocorrendo, tem causado sérios prejuízos ao meio ambiente, com solapamento das margens e destruição da mata ciliar, entre outros problemas. (Foto: Caroline Ferraz/Sul21)

Ação Civil Pública diz que extração de areia nas margens do rio Jacuí, da forma que vem ocorrendo, tem causado sérios prejuízos ao meio ambiente, com solapamento das margens e destruição da mata ciliar, entre outros problemas. (Foto: Caroline Ferraz/Sul21)

Antônio da Silva mora na ilha dos Dorneles há cerca de dez anos. Localizada no rio Jacuí, encravada entre os municípios de Charqueadas e Triunfo, a ilha é testemunha de uma história de degradação ambiental causada pela extração de toneladas de areia utilizadas pela construção civil. Uma história que já tem cerca de 100 anos e que nas últimas décadas se intensificou em virtude do desenvolvimento de barcos com mecanismos capazes de extrair toneladas de areia do rio em um tempo muito menor que era no passado. O “seu Antônio”, como é conhecido na região, vive sozinho na ilha com sua esposa e tornou-se uma espécie de Dom Quixote do Jacuí, que luta, não contra moinhos imaginários, mas contra empresas de mineração que transformaram a paisagem do rio nas últimas décadas.

No dia 17 de novembro deste ano, Antônio se acorrentou ao portão de entrada do prédio da Justiça Federal, em Porto Alegre, segurando um cartaz onde aparecia o nome da juíza Clarides Rahmeier e um apelo: “Salve o nosso Jacuí! Quase 100 anos de extração de areia acabou com todas as praias do Jacuí. Até quando Justiça Federal?”. A juíza deve decidir sobre a Ação Civil Pública que a Associação para Pesquisa de Técnicas Ambientais (APTA), organização não-governamental sediada em Canoas, move contra a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), a Sociedade dos Mineradores de Areia do Rio Jacuí (Smarja), a Sociedade Mineradora Arroio dos Ratos (Somar) e a ARO Mineração, pedindo o cancelamento, de forma definitiva, das licenças concedidas pelos órgãos governamentais autorizando essas empresas a extrair areia do Jacuí. Além disso, pede a reparação das áreas degradadas, por parte das empresas que operam no rio.

Desaparecimento de peixes e ilhas

Na ação, a APTA alega que a extração de areia nas margens do rio Jacuí, da forma que vem ocorrendo, tem causado sérios prejuízos ao meio ambiente, com solapamento das margens e destruição da mata ciliar, sem que ocorra uma fiscalização adequada pelos órgãos competentes. Seu Antônio garante que a sua ilha está sendo literalmente devorada pela extração de areia. “Há dez anos, essa ilha tinha em torno de 468 hectares. 416 da minha parte que eu comprei e o restante do governo. Hoje não tem 300 hectares. Se acusar os barcos, eles vão dizer que é erosão. Eles vão na Justiça e dizem que a erosão comeu a terra, mas isso não existe. Essa ilha quase encostava na ilha das Cabras. Hoje você vai ali e tem uma distância de 900 metros”.

O desaparecimento das praias, de ilhas e dos peixes do rio Jacuí são algumas das principais reclamações de Antônio e de moradores da região. “Quando eu cheguei aqui, há mais ou menos dez anos, tinha um pescador que chegava a pegar 350 piavas por dia. Hoje, quando ele pega dez piavas por semana, dá graças a deus. Estes “chupão” (apelido das máquinas instaladas nas barcaças que extraem a areia do leito do rio por meio de um cano de sucção) danificam tudo. Os peixes subiam aqui para desovar, na região do Vale Verde, mas os alevinos não se criam mais. Hoje encontra-se carpas de 18, 20 quilos mortas no rio. Quem é que matou? Doze ilhas já desapareceram nesta região. Quem é que comeu? O magnata vem aqui, come a ilha e depois diz que foi a erosão. Se erosão comesse ilha, existiria ilha?” – pergunta.

À espera do zoneamento ambiental

Nos últimos anos, Antônio já fez inúmeras denúncias sobre essa situação e relata ter sofrido várias ameaças também. “O pobre não tem direito a ter uma praia para tomar um banho. Só quem tem dinheiro tem direito a ir para uma praia. Moro só eu e minha mulher aqui na ilha. Já me disseram: sai daí que vão te matar. Mas nenhum de nós vai ficar pra semente. Alguém precisa dar uma força para os pequenos”. Ele pretende retornar a Porto Alegre no dia 15 de dezembro, quando a juíza Clarides Rahmeier, da 9ª Vara Federal, realizará uma nova audiência informativa com os envolvidos no caso. No início de 2013, a Justiça Federal chegou a suspender a extração de areia no Jacuí a partir de uma ação movida pelo Ministério Público Federal. A atividade foi retomada em julho de 2013, depois de um acordo com a Justiça Federal que previa, entre outras coisas, a realização de um zoneamento ambiental na área, que deveria ser contratado e supervisionado pela Fepam.

O processo licitatório para a contratação de uma empresa para fazer o zoneamento do Jacuí chegou a ser iniciado, mas parou por falta de recursos. Segundo Clovis Braga, presidente da APTA, o acordo firmado em 2013 para retomar a extração de areia no Jacuí não foi cumprido. “Nós não concordamos com esse acordo que autorizou a retomada da extração de areia. Nada foi cumprido e as empresas continuam fazendo tudo o que faziam antes. Temos notícias, vindas de moradores da região, de que segue ocorrendo mineração à noite e nos finais de semana. A situação no Jacuí é cada vez mais grave”. A destruição das margens do rio, acrescenta, está colocando em perigo inclusive torres de alta tensão da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), instaladas na Ilha das Cabras. A CEEE fez uma contenção com cimento nas margens da ilha, mas ela está cedendo.

Clovis Braga defende que já estudos técnicos suficientes apontando a exaustão do Jacuí e a necessidade de suspender a mineração na área, mas ele não é muito otimista a respeito. “Vamos participar da audiência do dia 15, mesmo achando que, por todo o quadro que se apresenta, há poucas chances de a Justiça determinar a suspensão da extração de areia”.

Degradação e consumo: 600 mil toneladas de areia por mês

Os sinais de degradação do Jacuí nas áreas de extração de areia são plenamente visíveis. As praias do rio desapareceram e deram lugar a barrancos instáveis e margens – quando existem – repletas de lama resultante dos dejetos lançados no rio depois da extração da areia. Na região entre Charqueadas e Triunfo, belas e históricas ilhas do Jacuí, como a Ilha do Fanfa, cenário de uma das principais batalhas da Revolução Farroupilha, em 1836, estão cercadas hoje pelos barcos que extraem a areia do rio e também por usinas e empresas ligadas à mineração do carvão. Pequenos barcos de pescadores ainda são vistos parados em alguns locais, como a sinalizar um tempo passado que apresenta seus últimos vestígios.

A recuperação das áreas degradadas, se ocorrer, levará algumas décadas. Mas, se a extração de areia do Jacuí fosse totalmente suspensa, de onde sairia a areia para a construção civil? – perguntaram os empresários do setor em 2013, quando a atividade foi temporariamente interrompida pela Justiça Federal. Segundo a Sociedade dos Mineradores de Areia do Rio Jacuí (Smarja), o Rio Grande do Sul é hoje responsável por quase 10% da areia produzida no país e consome mais de 600 mil toneladas por mês. Com a interrupção da mineração no Jacuí, uma alternativa seria passar a extrair areia do Guaíba, em uma área próxima à Lagoa dos Patos. A Justiça Federal diz que só autorizaria a abertura de novas frentes de extração a partir de estudos ambientais prévios para evitar a repetição do que ocorreu no Jacuí. Além disso, quer que o Estado faça o zoneamento ambiental para determinar o quanto de areia ainda existe no Jacuí e se ela ainda pode seguir sendo explorada.

A satisfação da demanda de 600 mil toneladas de areia por mês deixaram suas marcas no rio e em suas margens. “Porto Alegre foi construída com a areia do Jacuí”, assinala Antônio da Silva, cobrando da capital do Estado um gesto de gratidão e, principalmente, de reparação para com o rio. Por enquanto, a degradação vem ganhando de goleada da reparação.

(*) Publicado originalmente no Sul21.