O reaprender da batalha

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Renato Dalto

Hoje me deu vontade de falar de alguma coisa que não sei direito o que é. Mas é apenas isso de estar vivo, inteiro e lutando. De estar neste tempo, neste agora, com tanta gente legal do lado. Rosas e sangue mas também abraços e partilhas. Vejo os dentes ensarilhando ódios antigos, desdéns seculares de quem acha que a ostentação da Casa Grande é a ordem natural das coisas. Vejo que muita coisa se perdeu pelo caminho e, apesar de cínico, Nelson Rodrigues tinha razão quando falava de complexo de vira-lata.

As liturgias do poder fizeram com que se assumisse uma lógica de Casa Grande sim. O vira-lata achou que seu jeito simples não merecia tudo aquilo. E se fantasiou pateticamente de Senhor. Muito triste ver que um ex-operário tirou pra amigos os compradores do rei. Triste ver que nos pequenos gestos – na roupa, na fala, no olhar e no consumo – muita gente repetiu a empáfia descomprometida da classe dominante. E navegou com ela embriagada na nau dos sabujos, nos afagos para ganhar conta, no frisson publicitário que servia clericot com ouro em mansões bregas de novos ricos. Eu vi um pouco esse espetáculo do canto da sereia. E vi que por aí nos perdemos.

De certa forma, agora, todos tivemos que baixar o tozo ( é isso mesmo, baixar a cabeça com humildade em busca de sabedoria) e perguntar de novo de onde viemos, o que somos e que país queremos. Venho à exaustão repetindo onde posso e orando pra mim mesmo que as ideias são maiores que os nomes, inspirado no mestre Mujica. O problema é que aceitamos, internamente, que os altos dirigentes eram os senhores  e a base que os sustentava era de apenas serviçais. Sim, mea culpa, nossa culpa. E quando se aceita o senhor e sua vontade se abdica também da capacidade de pensar. E de questionar. E de se rebelar. E de lutar.

A verdade é que houve um caldo complacente que se criou nos gabinetes de presidentes, governadores, prefeitos, deputados e assim por diante onde se ergueu o totem pra quem manda e o tarefismo pra quem obedece. Cansei de ver gente correndo pelos corredores dos palácios dizendo: “Faz assim porque o chefe quer assim”. E quando a vontade particular do chefe, num cargo público, vale mais do que tudo, o pecado original está plasmado. O privado venceu o público. E se o chefe pode, imagina o que o presidente não pode.

Pode ser até simplório esse parágrafo aí de cima, mas ele exige a outra reflexão mais profunda, aquilo que Gramsci chamou de hegemonia. Ou seja, o dominado que repete infinitamente o comportamento do dominador internalizando que essa é a ordem natural das coisas. E quanto mais se achar que isso é natural, maior está sendo a eficiência do dominador sobre você. Gramsci chamou isso de causa eficiente da ideologia. A dominação sem dor, na subliminaridade de sentimentos como o autoritarismo, a insegurança e a propriedade privada de um segredo ou a força de um cargo.

O poder nos tirou a capacidade de pensar e elaborar, O pragmatismo nos surrupiou a mais doce poesia da vida, que é a da partilha, da generosidade e da igualdade. E se nos tornamos menores e mesquinhos ficamos do tamanho de tudo aquilo que contestamos. E a guerra vai para a planície do plenário, pra estratégia do toma lá da cá, pro achincalhamento dos nossos melhores sentimentos. E a política torna-se o vazio do vale tudo.

Não sei o que será dessa batalha que é quase guerra civil. Não sei o que será de tanta gente que deu a vida por um país melhor e mais justo. Foram sinceros nos propósitos, acredito. Mas em muitos deles a prática os traiu. As mãos do pragmatismo puxando o gatilho pra abater a utopia. Talvez estivéssemos surdos. E quando ouvimos o estampido era tarde.

Por isso só posso declarar nesta tarde cinza é que a gente precisa aprender de novo. Humildemente tirar o mofo das roupas da batalha que deixamos lá no fundo. E reaprender, entre restos e rubores, que o trunfo é tão somente este: estar vivo, estar inteiro, estar pronto. E, urgentemente, reaprender a lutar.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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