Ostentação

Ostentação é a palavra. Nunca se ostentou tanto. Na Câmara, o presidente Eduardo Cunha agiliza uma agenda regressista que promete depositar o país no século XIX. Desaforo Ostentação. Mesmo século, a propósito, em que viveu, estudou e escreveu o teórico italiano Cesare Lombroso.

Ostentação é a palavra. Nunca se ostentou tanto. Na Câmara, o presidente Eduardo Cunha agiliza uma agenda regressista que promete depositar o país no século XIX. Desaforo Ostentação. Mesmo século, a propósito, em que viveu, estudou e escreveu o teórico italiano Cesare Lombroso.

Ayrton Centeno

Ostentação é a palavra. Nunca se ostentou tanto. Nunca se deu tanta importância ao continente em detrimento do conteúdo. Tanto mais à casca do que ao miolo. À superfície do que subsiste abaixo dela. Chama a atenção a celebração que a acompanha. “Na garagem um Camaro, uma Hornet/ Cordão de ouro, Armani e Juliet”, canta o MC Nego Blue, expoente do movimento Funk Ostentação. “Eu tô que tô/ Eu tô na pista/ Eu tô ostentando/ Mais do que o Eike Batista”, ecoa o Mega Funk Ostentação. “Infelizmente na sociedade você vale o que tem/ Se tá de hornet é tudo/ Se tá de a pé num é ninguém”, esclarece o MC Guimê. São guris pobres da periferia paulistana que se jactam daquilo que conquistaram. Nas letras, odes ao sexismo, individualismo e consumismo, um universo de carros, mulheres, jóias, champanhe, roupas e tênis de grife. É a face mais notória – e benigna — do fenômeno.

Há mais marra fora do funk. A ostentação que grassa e impressiona transcende os limites da poesia crua e imodesta dos marrentos dos subúrbios. Muito além do hedonismo ingênuo dos arrabaldes, ostenta-se em muitas camadas e classes sociais, mesclando outros interesses. Tipos e grupos mostram-se envaidecidos de vitórias muito mais toscas e duvidosas. Ou de infâmias impunes.

É possível pensar, por exemplo, na Violência Ostentação. Nunca houve, no Congresso, um deputado como Jair Bolsonaro que faz do brutalismo ostensivo um modo de ser. Em 1946, afagado na sua presunção e iludido pelo repórter David Nasser, de O Cruzeiro, o deputado Edmundo Barreto Pinto, do PTB, deixou-se fotografar de fraque e cuecas. Nasser e a revista o destruíram em 11 páginas escandalosas. Fulminado pela própria tolice ostentatória, Barreto Pinto foi o primeiro parlamentar do Brasil a ser cassado por quebra de decoro. Quando pais e mães clamavam pelos restos de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar, Bolsonaro pendurou um cartaz na porta de seu gabinete com os dizeres “Quem gosta de osso é cachorro”. Ultraje Ostentação. As pernas peludas e as alvas cuecas de Barreto Pinto envergonharam seus pares contudo a sordidez nada custou a Bolsonaro. Tampouco lhe custaram todas as ofensas expelidas e reiteradas contra colegas deputadas. Seu filho, o policial Eduardo, guindado ao parlamento por São Paulo calcado na fama paterna, ostentou ainda mais. Em 2014, discursou em cima de carro de som na avenida Paulista com pistola ostensivamente atravessada no cinto. Fascismo Ostentação.

Na Petrobras, o ex-gerente de serviços, Pedro Barusco, recebeu ilegalmente RS 157 milhões. Mais comedido, ao seu chapa de gerência, Paulo Roberto Costa, couberam míseros R$ 68 milhões. Gatunagem Ostentação. Dizem as delações premiadas junto ao Ministério Publico Federal que as ostentatórias campanhas eleitorais dos grandes partidos foram, legalmente ou não, irrigadas pelo propinoduto das empreiteiras. Porém, as baterias da imprensa corporativa concentram sua barragem de fogo no PT e no governo federal. Todo dia é Sábado de Aleluia para malhar quem inventou a corrupção. E o governo quieto que nem guri mijado. Judas Ostentação. Quem investiga, levanta e, dizem, vaza informações são policiais federais que, na campanha de 2014, notabilizaram-se no Facebook pelas agressões à Dilma Rousseff e a cabala de votos para Aécio Neves. Caradura Ostentação.

Com o expressivo sobrenome Balas, outro agente da PF fez pior. Em 2014, Marcelo Balas achou-se no direito de postar na página da Polícia Federal no FB sua foto ao lado de um desenho de Dilma perfurado por dezenas de balaços, sobretudo no rosto e no tórax. E comentou: “assim fica fácil treinar …rs”. Neste mês de maio veio a, digamos, punição: quatro dias de suspensão. Deboche Ostentação.

Escândalos mais coxudos, como o da compra de absolvições e outras bondades no balcão do CARF, o Conselho Administrativo da Receita Federal, praticada por grandes empresas, inclusive de comunicação, dormitam no limbo. São 74 processos que, juntos, somam R$ 19 bilhões, ou seja, o triplo da Lava Jato. Silêncio Ostentação. Mesmo caso das contas de ricaços na sede suíça do HSBC envolvendo, também, nomes de proa do baronato midiático. Hipocrisia Ostentação.

São tempos marrentos. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Gilmar Mendes segue inabalável – em meio ao silêncio obsequioso dos confrades — na tarefa de decalcar a exata feição de suas nádegas sobre o projeto que barra o financiamento empresarial das campanhas políticas. Como o processo, que deveria ser de 30 dias, prolonga-se há mais de ano, já cunhou seus traços para o usufruto da posteridade. Abuso Ostentação. Também no Judiciário, o juiz Flávio Roberto de Souza resolveu se ressarcir da árdua vida de magistrado. Achando-se mais do que devia achou por bem tratar como seu o carrão confiscado ao empresário Eike Batista e mostrar-se naquele flamejante Porsche Cayenne pelas ruas do Rio. Futilidade Ostentação.

Na Câmara, o presidente Eduardo Cunha agiliza uma agenda regressista que promete depositar o país no século XIX. Desaforo Ostentação. Mesmo século, a propósito, em que viveu, estudou e escreveu o teórico italiano Cesare Lombroso, autor de caudalosa obra que aproxima a zoologia da ciência penal. A quem a fisionomia de Cunha bem poderia servir como fonte de inspiração e convencimento.

E a ostentação das caixas de comentários nos portais da web? No meio da gritaria, percebe-se que a maior parte das pessoas se lixa para o fato de estar opinando peremptoriamente a respeito de algo do qual, com freqüência, não tem a menor idéia do que se trata. Como os nostálgicos da ditadura militar, período no qual julgam, candidamente, que “não havia corrupção”. Ou os paspalhos que querem ver a mãe entre quatro velas “se o Lulinha não for dono da Friboi”. Como a horda de bocós que ainda acreditam na capa fake da Forbes onde Lula aparece na condição de sujeito mais abonado do Brasil. Também juram que o PCC é o braço armado do PT, que o partido importou milhares de haitianos para votar em Dilma, que cotas aumentam o racismo etc. É a Burrice Ostentação.

“Ostentação, Ostentação/ Tudo isso que nóis fala é poder da Ostentação!”, canta o funkeiro McHc. Pelo menos, a turma do boné virado tem certo engenho e arte: “Na rima nóis é doido/ Os muléque tem o dom/ Comprei o Polo Norte/ Pra gelar o meu chandon”.

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