Chamem a Carol

Carol, fazendo cara de quem procurou e nu00E3o achou o  outro  lado Ayrton Centeno

A mídia entortou de vez. Nem mesmo cuida do que lhe resta de crédito. Olha para um lado só, caolha e obsessivamente. Verdade que sempre foi assim mas o desespero parece ter agravado o estrabismo. Por este padrão, todo dia é dia de malhar o Judas. No papel, o governo federal, o PT ou, mais frequentemente, ambos. O linchamento virou esporte nacional, proposto, incentivado e justificado pelas grandes corporações de mídia. Que cevam, diuturnamente, um país de justiceiros.

Que a Petrobras perdeu muito dinheiro devido à gatunagem não há dúvida. Tampouco que os ladrões devem ser implacavelmente punidos. Porém, dentro da lógica do confronto, quase sempre se esquece que as perdas se devem muito mais à queda do valor do petróleo no mercado internacional – caiu à metade – do que à mão grande de Paulo Roberto Costa e de outros baruscos. E que a estatal, presumidamente “quebrada” pela gatunagem, vale seis vezes mais em 2015 do que no dia 31 de dezembro de 2002, quando Fernando Henrique Cardoso limpou suas gavetas e foi ser palestrante na vida.

Uma das modalidades de manipulação da mídia é o superdimensionamento dos fatos que lhe interessam e a proscrição às masmorras para aqueles que não lhe interessam. Exposição versus ocultação. Muito além da mitologia sobre isenção e o “dever de bem informar” está interessada em seus próprios interesses. Deste modo, interessam-lhe escândalos reais ou fictícios vinculados à dinheirama repassada aos partidos da situação nas campanhas eleitorais. Mas não lhe interessa o fim do financiamento privado.

Há exatamente 365 dias, os glúteos do ministro Gilmar Mendes amornam a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4650, travando o fim da votação no STF para banir o financiamento privado. Quando pediu vistas e sentou-se na ADI, havia seis votos favoráveis à demanda do Conselho Federal da OAB. Que a grana repassada por empresas para políticos está na origem da corrupção do passado, do presente e estará na do futuro se a proposta for derrotada, até a estátua vendada diante do Supremo sabe. É obsceno que uma imprensa – que aspire ser digna deste nome – não tenha questionado severamente o comportamento do ministro. Ocorre que, embora dedique abordagem apocalíptica aos escândalos, é jogo para a torcida. Não pretende arrancar–lhes a raiz. Quer apenas podar galhinhos aqui e ali, notadamente aqueles que vão além do seu muro. Em contrapartida, roída de angústia, gritou ao mundo como a pintura de Munch quando o novel Mendes foi suposta vítima de suposto grampo, cujo áudio ser humano jamais ouviu. Interésses, diria o Brizola.

Durante a campanha de 2014, o Brasil foi informado pelo publicitário João Santana que o país erguera duas torres do tamanho da Eiffel, uma em cada margem do Amazonas. Para transportar as linhas de transmissão de energia sobre o maior rio do mundo. Goste-se ou não do governo Dilma é inescapável tratar deste assunto. Ignorá-lo não é jornalismo. É agredí-lo. No entanto, foi o que a mídia fez. Existe algo profundamente errado quando a propaganda faz jornalismo e o jornalismo faz propaganda.

No final de fevereiro, soube-se pelo pequeno e valente Já Porto Alegre que o Brasil estava ganhando o maior complexo de energia eólica da América Latina, o dos Campos Neutrais. Distribui-se entre Santa Vitória do Palmar – seis usinas e 129 cataventos gigantes, mais Chuí – 79 aerogeradores em começo de construção – e Hermenegildo. Foi planejado, erguido, batizado e inaugurado em condição praticamente de clandestinidade. Como se fosse um aparelho da resistência durante a ditadura. Passou em nuvens mais brancas do que aquelas que emolduram as altas torres. Dilma foi inaugurá-lo e Zero Hora dedicou um quarto de página ao empreendimento. Um quarto! O restante foi para a crise dos caminhoneiros. Ficou a impressão de que Dilma viera ao Estado para inaugurar a crise.

A relação das corporações do setor com os fatos lembra a piada dos pais que jogaram a criança fora e criaram a placenta. Algo semelhante acontece quando a mídia joga o jornalismo fora e publica a política.

Mas porque, afinal, tenta-se enfiar 200 milhões de brasileiros na caverna de Platão? Procurando fazê-los acreditar nas sombras e desprezando a realidade? Creio que dona Judith Brito matou a charada lá em 2010. Presidente da poderosa Associação Nacional dos Jornais, que reúne a fina flor do baronato midiático, dona Judith produziu, ao mesmo tempo, algo elogiável e repulsivo. Elogiável por ousar dizê-lo. Repulsivo pelo seu conteúdo.

Confessou que, no Brasil, os meios de comunicação “estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”. Nenhum jornal pautou a ribombante declaração da patroa de todos os patrões. Do ponto de vista jornalístico, era tema obrigatório na pauta. Do ponto de vista do jornalismo empresarial, era material altamente tóxico e corrosivo, portanto rebaixado à esfera de não-notícia. Só caíram os butiás do bolso na blogosfera, onde os blogueiros fizeram sua a estupefação que deveria ser de todos.

Dona Judith e seus confrades tem desavença com aquilo que se chamam de “outro lado da notícia”, velha lição do jornalismo. A voz da sua vítima só aparece timidamente, em um box discreto, como subterfúgio para escapar da cena do crime recém cometido.

Mas nem tudo está perdido. Sobre a percepção do “outro lado” sempre há esperança para quem se dispõe a achá-lo. Às vezes, a resposta repousa onde menos se espera. Na contemplação da Carol, por exemplo. Cada vez que ela toma algo nas mãos, segue o mesmo procedimento, seja um boneco, um brinquedo, qualquer coisa. Repara na frente do objeto e, logo, insatisfeita, vira-o para saber o que tem por trás. Examina-o com atenção, procurando saber o que é realmente aquilo. Olha-o por baixo. Se descobre que é oco, enfia a mão ou os dedos naquele buraco. Vira-o de frente outra vez, observa-o e volta a olhar a parte traseira. Carol tem 11 meses e é neta do locutor que vos fala. Certo, milito na categoria dos babões irreversíveis, o que me agrada bastante. Mas o que faz a Carol outras crianças também fazem. O que as move é tentativa de compreender o mundo, a intuição de que toda coisa tem mais de um lado. Que precisa ser encontrado e levado em consideração. Senão nada se completa. E fracassa nossa compreensão.

São conjeturas que fazem lembrar de Rufus T. Firefly, mais um personagem destrambelhado e genial de Grouxo Marx. Em Diabo a Quatro, ao saber de um problema por um assessor responde: “Até uma criança de cinco anos entenderia isso”. E no instante seguinte: “Traga-me uma criança de cinco anos”.

Faria bem à biografia de dona Judith ser menos Judith e mais Rufus T. Firefly. Faria bem também aos donatários das capitanias hereditárias da informação. Abraçando o marxismo, embora da linha Grouxo, poderiam gritar:

“Chamem a Carol!”

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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3 respostas para Chamem a Carol

  1. Nelson disse:

    O que dizer do texto, já que qualificá-lo de magnífico é pouco?

    Vez em quando, Centeno faz pequena incursão em um linguajar um pouco mais erudito, digamos assim, que, parece, levará à incompreensão do palavrório pelo sortudo leitor. Porém, a habilidade do autor é tal que o efeito é o contrário: o texto vai se abrilhantando ainda mais e permanecendo inteiramente inteligível.

    Resta parabenizar o Marco e agradecê-lo por dar guarida em seu blog a gente do naipe de Ayrton Centeno e Jaques T Alfonsin.

    • Nelson disse:

      Do meu modo, ao debater com alguns colegas, eu explico assim a afirmação do Centeno de que “Uma das modalidades de manipulação da mídia é o superdimensionamento dos fatos que lhe interessam e a proscrição às masmorras para aqueles que não lhe interessam”:

      São dois partidos, o partido A e o partido B.
      As notícias que trazem denúncias envolvendo o partido A com corrupção, a mídia hegemônica divulga e repete 30 vezes ou mais por dia, por vários dias, semanas ou meses.
      As notícias que envolvem o partido B, a mesma mídia divulga uma duas ou três vezes e… “cala o bico”.
      Então, eu pergunto:
      – Por que essa mídia age assim?
      – Por que interesses ela é movida para fazer tamanha discriminação?
      – Dá para acreditar, piamente, como muita gente tem feito, em uma mídia que não apresenta qualquer resquício de isenção ou imparcialidade.

      Não nego que haja corrupção no PT e/ou em seus governos. Mas, baseado no raciocínio acima, eu chego à conclusão de que essa corrupção tem um nível bem menor, muitíssimo menor do que a que é alardeada insistentemente por essa mídia e seus comentaristas, verdadeiros deformadores de opinião.

  2. Ayrton Centeno disse:

    Obrigado Nélson. Mas há uma imprecisão no meio do artigo quando cito o tempo em que o Gilmar está sentado em cima da ADI. Na verdade, o ano de nádegas só fechará em abril. Um abraço.

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