Como o Rio Grande do Sul se tornou uma trincheira do atraso no Brasil

Ana Amélia Lemos, Aécio Neves e José Ivo Sartori. (Foto: Divulgação/Igo Estrela)

O Rio Grande do Sul não cansa de passar vergonha na cena nacional. O mais recente capítulo desta saga vexaminosa foi protagonizada pela senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS). A ex-colunista política e ex-chefe da sucursal da RBS em Brasília ficou incomodada com uma entrevista que a presidenta nacional do PT, a senadora Gleise Hoffmann (PT-PR), concedeu à rede Al Jazeera, onde, entre outras coisas, definiu a condição de Lula como a de um preso político, trancafiado na carceragem da Polícia (política) Federal, em Curitiba. “Que essa exortação não tenha sido para convocar o Exército Islâmico a vir ao Brasil proteger o PT!” – disse Ana Amélia Lemos em sua conta no Twitter. O imaginário da senadora não hesitou em associar a Al Jazeera ao Estado Islâmico.

Não se tratou de um deslize ou escorregão verbal. Em ano eleitoral, Ana Amélia Lemos vem flertando abertamente com a extrema-direita gaúcha que saiu definitivamente do armário. Recentemente, rasgou elogios, durante uma convenção estadual do PP (partido que, nunca é demais lembrar, é herdeiro da nada gloriosa Arena, principal sustentáculo da ditadura civil-militar criminosa instalada no país apos o golpe de 1964), Ana Amélia Lemos fez uma homenagem às cidades que “botaram a correr a caravana de Lula”. “Atirar ovo, levantar o relho, para mostrar onde estão os gaúchos”, bradou a patriótica senadora no encontro que definiu a pré-candidatura do deputado federal Luiz Carlos Heinze ao governo do Estado nas eleições (se é que ocorrerão) de 2018.

Heinze tem o mesmo DNA de Ana Amélia Lemos. Em uma audiência pública realizada em novembro de 2013 no município de Vicente Dutra, região norte do Estado, o atual pré-candidato do PP alinhou seus adversários na categoria do “tudo que não presta”: quilombolas, índios, gays, lésbicas…”. Na mesma ocasião, ele sugeriu a ação armada dos agricultores para enfrentar a turma do “tudo que não presta”. “O que estão fazendo os produtores do Pará? No Pará, eles contrataram segurança privada. Ninguém invade no Pará, porque a Brigada Militar não lhes dá guarida lá e eles têm de fazer a defesa das suas propriedades”, disse o parlamentar. Pará, Estado de Eldorado de Carajás, onde 19 sem terra foram assassinados pela Polícia Militar no dia 17 de abril de 1996.

Luiz Carlos Heinze e Ana Amélia Lemos não são pontos fora da curva. Fazem parte de um mecanismo (para usar uma palavra da moda) que ganhou espaço no Rio Grande do Sul nas últimas décadas, graças, entre outras coisas, à máquina de propaganda construída pela RBS, uma das corporações midiáticas filiadas à rede Globo, que se agigantaram durante a ditadura. Ana Amélia Lemos, aliás, foi Cargo em Comissão (CC) do próprio marido, já falecido, o senador biônico Octávio Omar Cardoso, em 1986, acumulando essa função com o cargo de chefe da Sucursal da RBS, em Brasília.  Na época, Ana Amélia era diretora da sucursal da RBS, em Brasília, assinando uma coluna no jornal Zero Hora. A jornalista mudou-se para Brasília em 1979, acompanhando seu então marido Octávio Omar Cardoso, suplente do senador biônico Tarso Dutra (falecido em 1983), e efetivado no cargo em 1983, exercendo-o até 1987. Na capital federal atuou como repórter e colunista do jornal Zero Hora, da RBS TV, do Canal Rural e da rádio Gaúcha. Em 1982, foi promovida à diretora da Sucursal em Brasília.

Em agosto de 2003, em um artigo profético, o então deputado estadual Flavio Koutzii afirmou: “a extrema-direita brasileira mora nos Pampas”. Em sua introdução, o artigo lembrou uma antiga (e atual) lição de Albert Camus: “denominar incorretamente alguma coisa aumenta o grau de infelicidade no mundo”. Em tempos, onde o absurdo se combina com o surrealismo e a mentira, é saudável o esforço por denominar corretamente as coisas. O hino rio-grandense, entoado nos estádios de futebol do Estado com um ufanismo irrefletido e catatônico, diz “sirvam as nossas façanhas de modelo à toda terra”. Quais são as nossas façanhas mesmo? Fazer apologia do racismo, do escravagismo, do machismo, da homofobia, da xenofobia?

Neste mesmo momento, o Rio Grande do Sul é governado por um governador e um partido obscurantistas que propõem como caminho para o desenvolvimento do Estado a extinção de todas as fundações responsáveis pela produção de inteligência. Então, não parece exagero dizer, a partir desta combinação de obscurantismo, preconceito, intolerância e ignorância, que o RS se tornou a vanguarda do atraso no Brasil.

Os “gordos de caminhonete” – na feliz expressão cunhada por Vanessa Patriota – que abundam no Rio Grande do Sul e em outros estados onde o agronegócio deitou suas raízes, gostam de apontar os estados do Nordeste e do Norte como expressão do atraso no país. Na verdade, é a expressão de um mundo invertido. O lugar mais atrasado e retrógado do Brasil situa-se hoje no extremo sul do País. Não expressa, necessariamente, a consciência da maioria da população, mas é o reflexo de uma cultura de autoritarismo, oportunismo e ignorância quem vem sendo alimentada com regularidade nas últimas décadas. Essa cultura não é motivo de orgulho nem de comemorações. As verdadeiras façanhas desta terra ainda estão soterradas por um entulho de ignorância, truculência, machismo e racismo.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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21 respostas para Como o Rio Grande do Sul se tornou uma trincheira do atraso no Brasil

  1. Janlo da silva disse:

    Os gaúchos não pode se representados por estes indivíduos!!!

  2. Navilio disse:

    Essa matéria é agressiva ao RS e parece estar sendo colocada propositalmente numa época de distúrbios, promovendo mais ainda as “diferenças” entre os gaúchos e outros estados. Inapropriada para o momento.

    • Lisa Siqueira disse:

      Meu caro, o que agride o RS é o comportamento completamente sem noção dessa senadora da República, que pega uma fofoca enviada pelo MBL, através do whatsapp e sequer toma o cuidado de refletir sobre o que estava recebendo, antes de falar as bobagens que falou, na tribuna do Senado. Os outros estados veem isso e devem perguntar: se esta é a que representa os gaúchos, o que será então dos próprios? E não é a primeira vez que ela nos faz passar vergonha nacional. Aliás, ela e Lasier Martins, assim como o piadista Sartori, são de nos fazer enfiar a cara num buraco.

  3. ALEXANDRE MARTINS FERREIRA disse:

    um pouco radical nas expressões, porém muito bem colocado. há anos que o RS está caminhando para o atraso e alienação de deu povo… infelizmente.

  4. Oto Lindenbrock Neto disse:

    Prezado Marco Aurélio. O Rio Grande do Sul não está só nessa vergonhosa trincheira. O meu estado, o Paraná, também engrossa as fileiras do atraso. E com o agravante de que a classe média paranaense fecha os olhos para a gigantesca corrupção local. A famigerada “República de Curitiba, aqui se cumpre a lei” é um álibi para a oportunista cegueira da elite local. Eu costumo dizer e escrever que o Paraná é o “Maranhão do Sul” ou “Paranhão”.( o Maranão antes do Flávio Dino, bem entendido). Só que os “Sarneys” paranaenses usam roupa de griffe e acham que falam inglês. Mas a política do meu estado é um negócio de umas poucas famílias. A atual governadora é esposa do ex-ministro da saúde, Ricardo Barros. O irmão do ministro é secretário do planejamento. A filha do casal Barros é deputada estadual (com apenas 20 anos). A “moderna” política paranaense em nada difere do coronelismo nordestino do século 19. E a corrupção, o compadrio, o nepotismo são tão naturais à paisagem política do Paraná quanto o pinheiro araucária faz parte da paisagem natural do estado. Nem se percebe mais. E é aceito sem qualquer questionamento. Portanto aos gaúchos progressistas, resistentes e resilientes, a solidariedade dos paranaenses idem. Resistir é preciso!

  5. Ceres disse:

    Apoiado. O Sartóri se elegeu na piada e Ana Amélia no discurso midiático. Agora só temos estado mínimo e alienação.

  6. rodrigo suita disse:

    Prezado. Há nas linhas que escreveste defesas politico partidárias, discurso contra aquilo que afronta sua ideologia. Enquanto ficarmos nesta enrolação da direita x esquerda, não só o sul mas todo o Brasil ficará no atraso. O RS está quebrado como muitos estados. Vamos conversar mais.

  7. Marcelo Schlindwein disse:

    “…façanhas de modelo a toda terra”. 🙄

  8. Cristiano Bastos disse:

    Sou gaúcho e concordo plenamente. Vergonha muito grande de ser gaúcho. Procuro até mesmo esconder minha ascendência.

  9. reiko miura disse:

    Assim como a Ana Amélia gaúcha existe tantas outras por aí, criadas a partir das redes de comunicação locais. Globo e suas retransmissoras à frente.

  10. Fábio disse:

    Parabéns senadora Ana Amélia, continue a defender a classe trabalhadora de nosso país.

    • Nelson disse:

      Meu caro Fábio. Você acredita, realmente, que a senhora Amélia Lemos defende a classe trabalhadora?

      Ela votou a favor da “reforma” trabalhista, que veio praticamente extinguir a maior conquista dos trabalhadores brasileiros em toda a história, a CLT.
      Não precisas acreditar em mim. Vá até o link a seguir e confira você mesmo: https://g1.globo.com/politica/noticia/saiba-como-cada-senador-votou-sobre-a-reforma-trabalhista.ghtml

      Ela votou a favor da absurda, da ignominiosa PEC 55. Essa PEC veio congelar por nada menos de 20 anos os investimentos em políticas públicas. Ou seja, a dona Lemos ajudou a trazer enormes prejuízos a uns 90% dos brasileiros, que não têm renda suficiente para pagar por serviços como saúde, educação e outros a empresas privadas.

      Outra vez eu te digo: não precisas acreditar em mim. Acesse o link a seguir e tu mesmo verás que ela votou contra os trabalhadores e o povo brasileiro como um todo https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/12/13/veja-como-votaram-os-senadores-na-aprovacao-da-pec-do-teto-de-gastos.

      A senhora Amélia Lemos se ausentou de uma votação de extrema importância para o povo brasileiro e o nosso país. Eu não encontrei o nome dela entre os senadores presentes. Foi na seção do Senado Federal que aprovou a concessão de isenção de impostos no montante de nada menos de R$ 1.000.000.000.000,00 [UM TRILHÃO DE REAIS] a petroleiras ESTRANGEIRAS até o ano de 2040. Uma média de quase R$ 50 bilhões em isenções a mega empresas.

      Na verdade, Fábio, as posições adotadas pela senhora Amélia Lemos são coerentes.
      Como ela é da classe dos grandes proprietários, no caso, uma grande ruralista, não poderia votar diferente.

      Ademais, você há de convir que a RBS-Zelotes não investiria na eleição dela para o Senado Federal, da mesma forma que investiu em Antônio Brito, Yeda Crusius e Lasier Martins, se não tivesse plena certeza de que, uma vez eleitas, suas crias votariam a favor da classe dominante no Congresso Nacional.

      Em tempo. Eu citei apenas três projetos. Deve haver muitos outros nos quais a dona Lemos votou contra os trabalhadores e a favor dos endinheirados, dos milionários, bilionários, do grande capital, enfim, do topo da pirâmide.

  11. sergio disse:

    Há mais de 15 anos recordo-me que fazendeiros bloquearam uma estrada para impedir que a inspeção do ministério da agricultura, ou órgão similar , visitassem suas propriedades para aferição dos índices mínimos de produtividade. O assunto se refere a desapropriação, reforma agrária se pertinente.
    Naquela ocasião, para mim se configurava, uma atitude reciproca aos bloqueios do MST. Nada aconteceu entretanto aos fazendeiros.
    Na recepção ofensiva a recente caravana de Lula ao estado, li que um dos lideres é um fazendeiro que recebera sentença judicial favorável a obstrução de inspeção dos órgão governamentais à sua propriedade.
    Desobediência civil com amparo judicial?
    A lei é para todos?
    O atraso é incentivado?

  12. O artigo reflete o meu pensamento. Somos uma terra de povo ignotante, racista, dinheirista, retrogrado, mas que se acha.

  13. Uma vergonha essa senadora ser gaúcha e esse governador que nunca fez nada! Graças a Deus não votei em nenhum deles, mas sou gaúcha e levo a pecha de ser reacionária e de direita, Credo! Deus me Livre! Lula Livre!

    • Nelson disse:

      Discordo, prezada Betânia. O Sartori fez sim, sempre fez. Ele sempre autou nos parlamentos e nos governos em prol dos interesses dos grandes proprietários, dos mi e bilionários e do grande capital.

      Na época do [des]governo de Antônio Brito, ele era o líder na Assembleia Legislativa. Já então, ele fez excelente trabalho para o grande capital. Sartori conseguiu a aprovação, pela AL, das privatizações da CEEE e da CRT, da renegociação da dívida do Estado [afundou muito mais o RS] e do PDV que debilitou ainda mais o serviço público gaúcho.

      Agora, governador, ele está fazendo de novo. Seu projeto de governo nada tem a ver com o saneamento e a recuperação do nosso Rio Grande do Sul, mas com a sua inviabilização talvez definitiva.

      O objetivo de Sartori, atendendo a seus financiadores de campanha, é destruir o aparato estatal gaúcho para que a iniciativa privada – apenas alguns grupos privados, na verdade – ocupe o seu lugar.

      Ou seja, as privatizações e a extinção de fundações ou outros órgãos públicos nada têm a ver com a recuperação do Estado. Seu objetivo é abrir espaços nos quais esses grupos privados poderão expandir seus negócios e, com isso, ampliar e acumular mais lucros.

      É óbvio, pois, que, como ocorre em qualquer privatização, alguém terá que pagar a conta. E esse alguém seremos nós.

  14. Antony disse:

    Ana Amélia me deixa sempre expectativa positiva quando está para discorrer sobre qualquer tema principalmente quando eu não estou familiarizado mas bha tchê depois de ouvia lá falar um calor se apronchega do meu peito enchendo me de orgulho e não importa neste assunto se fui farrapo ou maragato sempre em frente pra traz nem pra pegar impulso por adelante dalle dalle Sra Ana Amélia senadora da república

  15. Nelson disse:

    Os gaúchos nos arvoramos os mais inteligentes, os mais espertos e, por consequência, os mais politizados do país. Pois, ainda assim, conseguimos colocar, no posto máximo da política do nosso Estado, nos últimos 25 anos, não uma mas três coisas espúrias: Antônio Brito, Yeda Crusius e José Sartori.

    Em 2014, tínhamos a oportunidade de escolhermos, para o Senado Federal, entre duas trajetórias bem definidas. De um lado, um cidadão que tinha já uns 50 anos de dedicação às causas populares à luta pela construção de um mundo melhor para todos, Olívio Dutra. De outro, uma outra cria da RBS-Zelotes, Lasier Martins.

    Pois, por incrível que pareça, os mais inteligentes e politizados do país optaram por colocar no Senado a outra cria da RBS-Zelotes. O placar no Senado, hoje, poderia ser de 2×1 para nós, com dois lutadores do povo, Paulo Paím e o “Tio Olívio”. Está 2×1 para a RBS-Zelotes, para os grandes proprietários, os mi e bilionários, o grande capital, o topo da pirâmide.

    O que seria de nós se não fôssemos os mais espertos e politizados?

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