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‘Perder as ilusões não é perder a esperança. É aprender que tem pedras pelo caminho’

Olívio Dutra: “Os partidos do campo democrático-popular tem um problemão para resolver. A natureza desse problema não é eleitoral e tem raízes mais profundas”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Para muita gente, Olívio Dutra é hoje uma espécie de Mujica brasileiro. A referência ao líder político uruguaio não é gratuita. A melhor maneira de testar essa comparação é ouvir as suas falas e conversas políticas. Não são estritamente políticas, ao menos no maltratado sentido comum que a palavra “política” adquiriu. Mas ambos são seres políticos por excelência, na mais alta acepção que esse termo pode alcançar. Ao falar da política, falam da vida e da condição humana no presente. Alçado por muitos à condição de referência moral do PT e da esquerda brasileira de modo geral, Olívio Dutra é respeitado por pessoas de todos os espectros políticos, inclusive por aqueles que acreditam viver fora desse espectro. Mas ele recusa essa condição de salvador da pátria. Essa, aliás, é uma das razões pelas quais ele não pretende concorrer a qualquer cargo na eleição de 2018. Ele tem a convicção de que as raízes dos problemas a serem enfrentados pelo “campo democrático-popular” são mais profundas e não serão resolvidas fundamentalmente pela via eleitoral.

Olívio Dutra recebeu o Sul21 em seu apartamento-biblioteca na Avenida Assis Brasil para uma conversa sobre esses temas. Nos recebeu com um avental do Internacional, seu clube do coração. Antes de iniciar a conversa, registrada também com fotos e vídeo, assinalou: “Acho melhor me desaparamentar, né? – retirando o avental. Por mais de uma hora, Olívio falou sobre sua decisão de não concorrer, sobre a conjuntura nacional e estadual, o sentido da experiência do governo que encabeçou no Rio Grande do Sul e, principalmente, sobre aqueles que considera ser os principais desafios da esquerda hoje: não se deixar consumir pelo eleitoralismo, retomar o trabalho de base e de formação e promover um amplo debate sobre o funcionamento da sociedade e do Estado brasileiro.

Crítico de longa hora dos erros e desvios do PT, ele, porém, não abraça a política da terra arrasada ou do desânimo. Pelo contrário, cita versos de Carlos Drummond de Andrade e de Mário Quintana para falar da importância de se permanecer juntos em meio às agruras do presente, perder as ilusões, mas não perder a esperança. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Civilização ou barbárie: o namoro do capitalismo com a democracia terminou?

Luiz Gonzaga Belluzzo: “No Brasil, estamos vendo uma tentativa de voltar para trás, com essas reformas ridículas e grotescas”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A construção de Marx é uma catedral. Ele não persegue propriamente a crise do capitalismo como objeto em si, mas sim a dinâmica endógena desse sistema, dentro da qual as crises têm um papel fundamental. A regra metodológica materialista que ele adota em O Capital consiste em tomar o capitalismo tal como ele existe, já com todas as suas formas, e voltar para trás. É preciso ter essa regra em mente para entender que o modo de investigação e o modo de exposição são diferentes na obra de Marx. A natureza do esclarecimento feito pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), na abertura de sua participação no debate “A Crise do Capitalismo – Civilização ou Barbárie?”, na noite de segunda-feira (29), no auditório da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do Rio Grande do Sul (Fetrafi-RS), ultrapassou a esfera meramente metodológica, apontando um elemento essencial da lógica do pensamento do autor de O Capital, ao analisar o funcionamento e as crises do sistema capitalista.

Parte da programação do seminário sobre os 100 anos da Revolução Russa, o debate sobre o tema da barbárie, levantado por Rosa Luxemburgo no início do século XX, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, analisou a atualidade da advertência levantada pela revolucionária alemã: diante de uma nova crise do capitalismo, o mundo está, mais uma vez – e, talvez, da forma mais perigosa de todas – diante de uma encruzilhada onde a barbárie é um dos caminhos a nos espreitar. Além de Luiz Gonzaga Belluzzo, essa questão foi analisada pelos economistas Renildo de Souza, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Gentil Corazza, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob a mediação da historiadora Sônia Ranincheski, da UFRGS.

A chave, no pensamento de Marx, para a resposta ao tema levantado pelos organizadores do debate está, fundamentalmente, nas páginas de O Capital, uma leitura enfrentada por poucos. A menção à figura de uma catedral, feita por Belluzzo para descrever esse obra, dá uma ideia da dimensão do desafio. A leitura de partes separadas da obra não dá a visão da catedral que está sendo construída e dos caminhos conceituais seguidos nesta obra. Marx começa sua análise a partir da mercadoria, assinalou Belluzzo, definindo a sociedade como um arsenal de mercadorias. Ele analisa a passagem da mercadoria para o dinheiro e do dinheiro para o capital. “Marx analisa uma dinâmica que leva necessariamente à crise, uma dinâmica que está inserida em seu modo de funcionamento”. As crises do capitalismo, portanto, são parte constitutiva do mesmo e sua análise é importante não só para debater a possibilidade de superação desse sistema, mas o seu próprio funcionamento.

A questão envolvendo o dilema entre civilização e barbárie, assinalou Belluzzo, está relacionada às possibilidades de liberdade do ser humano, um tema central em toda a obra de Marx. Para ele, o avanço do progresso tecnológico do capitalismo acabaria por tornar o trabalho cada vez mais redundante. “É o que estamos vendo hoje, com o sistema financeiro financiando a sua própria expansão, girando em torno de si mesmo, com o trabalho humano se tornando uma base miserável de valorização. Isso impõe dores e possibilidades para a sociedade. Por um lado, amplia-se desmesuradamente o numero de despossuídos na sociedade; por outro, amplia-se a possibilidade de tempo livre, um elemento central para o objetivo principal do projeto político de Marx: a busca da liberdade”, observou Belluzzo.

Esse cenário, acrescentou, indica uma das contradições centrais do sistema. O capital oprime e subordina, mas, ao mesmo tempo, cria as condições para os homens se libertarem dessa opressão. Civilização, para Marx, destacou o economista da Unicamp, é a realização da autonomia do indivíduo, livre e responsável na sua inserção social, um projeto caro ao idealismo alemão e à obra de Kant, em particular. Marx, destacou Belluzzo, não quer retornar ao comunismo primitivo, mas sim perseguir a emancipação dos indivíduos das cadeias do trabalho e do capital.

Seguindo a lógica do pensamento de Marx, entre os caminhos da crise atual estão a possibilidade do seu aprofundamento e a possibilidade de libertação dos grilhões que ela coloca. A recente eleição nos Estados Unidos, assinalou ainda o economista, aponta algumas contradições e dilemas que atravessam essas possibilidades. “Os que votaram em Trump foram os abandonados pelo capitalismo e pela globalização, embora ele não vá cumprir as promessas que fez para eles. Hoje, cerca de 40% dos novos empregos nos Estados Unidos são precários e temporários”. Mas, junto com essa precariedade, surge outra coisa: “o tempo livre está à espreita, mas usufruir esse tempo exige uma grande reformulação social”, observou Belluzzo, apontando aí um dos grandes desafios que está colocado para a esquerda hoje no mundo.

Países como a Irlanda e a Islândia estão discutindo a implantação de uma renda mínima cidadã universal, ou seja, uma renda a qual todo indivíduo teria direito independente de sua relação com o mundo do trabalho e do capital. Esse fato, para o economista, deve ser acompanhado com atenção, pois aponta para uma quebra da subordinação da liberdade humana à lógica do sistema capitalista e para a possibilidade de um Estado de Bem Estar Social fora das regras econômicas do capitalismo.

Renildo de Souza: “Crise fez aflorar as entranhas dos problemas estruturais do capitalismo contemporâneo”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O capítulo brasileiro do atual estágio do capitalismo mundial, disse Belluzzo, é marcado pelo retrocesso. “Estamos vendo uma tentativa de voltar para trás, com essas reformas ridículas e grotescas, como são as propostas de Reforma da Previdência e Reforma Trabalhista. Robert Reich, ex-ministro do Trabalho nos Estados Unidos, já mostrou como o mercado de trabalho está diminuindo no mundo inteiro, o que faz com que os sistemas de Previdência não possam mais ser sustentados exclusive à base de contribuições dos trabalhadores e dos empresários, necessitando de um imposto geral baseado no princípio da solidariedade. As propostas de reformas que estão sendo feitas no Brasil hoje partem de um bloco regressivo sob todos os pontos de vista.

O professor Renildo de Souza visitou a encruzilhada entre civilização ou barbárie a partir da natureza e de alguns resultados da recente crise de 2007-2008. Essa crise, afirmou, não sepultou o neoliberalismo, mas abriu uma oportunidade para a contestação de algumas, até então, “verdades sacrossantas” do capital, que hegemonizaram a cena mundial nas últimas décadas. Mas, alem dessa possibilidade de contestação, a crise também provocou uma reação brutal por parte dos detentores do capital. “Depois dessa crise, o neoliberalismo veio mais radicalizado, sem mediações ou concessões, como estamos vendo acontecer hoje no Brasil”, assinalou o economista da Universidade Federal da Bahia.

Por outro lado, acrescentou, essa crise fez aflorar as entranhas dos problemas estruturais do capitalismo contemporâneo. Retomando um tema destacado por Belluzzo, Renildo de Souza observou que a crise é algo normal e mesmo necessário dentro do capitalismo, que é movido pela acumulação de capital, um processo que não é marcado exatamente pela tranqüilidade. O economista contestou a visão dominante nos meios de comunicação que falam da crise de 2007-2008 como uma crise financeira. “Não foi apenas uma crise financeira, mas sim uma crise do sistema como um todo. Como ocorreu em crises anteriores, o sistema aproveita essas situações para se reestruturar, destruindo excedentes de capital”. Mas não são apenas excedentes de capital que são destruídos, observou Renildo. “O capitalismo é uma máquina extraordinária de produção, mas é também o sistema mais destrutivo que já existiu”.

Gentil Corazza: “Há quem diga que o namoro do capitalismo com a democracia acabou com o fim do Estado de Bem Estar Social”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Seguindo a linha de Luiz Gonzaga Belluzzo e Renildo de Souza, Gentil Corazza defendeu que tanto as crises como a barbárie são inerentes ao capitalismo. A partir dessa afirmação, o professor da UFRGS levantou algumas questões que interrogaram diretamente o tema central do debate: Assim como as crises no capitalismo, a barbárie também é algo inevitável? Até que ponto o capitalismo ainda pode reforçar o seu lado civilizatório e afastar a ameaça da barbárie? O capitalismo democrático esgotou seu potencial civilizatório? Há quem diga que o namoro do capitalismo com a democracia acabou com o fim do Estado de Bem Estar Social. É isso mesmo?

Corazza lembrou que essas questões também fizeram parte de alguns dos debates teóricos, no campo da esquerda, que marcaram as crises capitalistas que antecederam as duas grandes guerras mundiais no século XX, especialmente na Alemanha e na Rússia. Nestes debates que envolveram Rosa Luxemburgo, Bernstein e Lênin, entre outros, as possibilidades civilizatórias do capitalismo sempre estiveram em xeque. E essas crises, assinalou o economista, acabaram se resolvendo por grandes processos de destruição de capital e por guerras. Estamos diante de um cenário similar no presente?

Os três debatedores assinalaram que a resposta a essa questão passa, não apenas pelo entendimento da lógica interna do capitalismo, mas também pela dinâmica da luta política na sociedade. Gentil Corazza reivindicou uma formulação feita por Carlos Nelson Coutinho como um princípio e uma tarefa que deveriam ser assumidos integralmente pela esquerda. “Carlos Nelson Coutinho defendeu a democracia como valor universal e foi criticado por setores da esquerda por fazer isso. Após apresentar essa formulação, ele esclareceu que o que estava defendendo não era propriamente a democracia liberal burguesa, mas sim a democratização como um valor universal, a democratização do poder, algo que o socialismo real não fez. As reformas liberais de hoje reduzem o horizonte da democracia e da participação e aí está o campo onde a esquerda deve atuar”, defendeu o professor da UFRGS.

Para Corazza, o grito de Rosa Luxemburgo por socialismo ou barbárie é dramaticamente atual e coloca, à frente da esquerda, a necessidade de consolidar uma aliança política conceitual entre socialismo e democracia, ou, como reformulou Carlos Nelson Coutinho, entre socialismo e democratização. No quadro atual, concluiu, “não haverá socialismo sem democracia, assim como não haverá democracia sem socialismo”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Não há alternativa?

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Por Lauro Almeida (*)

Os dois primeiros acontecimentos políticos que marcaram a minha vida foram a queda do muro de Berlim e as primeiras eleições diretas para Presidente da República depois da Ditadura, ambos em 1989. Os jovens que nasceram depois de 1985 não teriam como lembrar as intensas discussões sobre o fim da história após o desmoronamento da União Soviética, nem da propaganda eleitoral do Silvio Santos na TV. Mas, como fui testemunha ocular, posso assegurar que ambas existiram ainda que hoje pareçam surreais.

Os anos 1980 foram duros no Brasil. Ali conhecemos a voracidade do capital que devorava o salário da classe trabalhadora por meio de um violento mecanismo inflacionário. Foi a época em que se popularizou o uso da expressão “rancho” para as compras de início de mês, já que esperar alguns dias para gastar o salário significava perda do valor de compra.

Mas, apesar dessas mazelas próprias do capital, a burguesia brasileira soube levar a cabo uma operação ideológica de grandes proporções no final dos anos 1980 para desviar o foco dos problemas nacionais. Como vivíamos o final da Ditadura Militar, que havia começado em 1964, a burguesia teve a sabedoria de identificar todos os problemas vividos naquela época como heranças da Ditadura. Os mesmos agentes históricos que haviam apoiado ativamente o golpe militar, como a família Marinho, agora argumentavam que era preciso superar a herança maldita da Ditadura. Só que essa herança era identificada, sobretudo, na excessiva presença do Estado na nossa vida econômica e na frágil presença dos mecanismos de mercado. Nesse cenário, evidentemente que a democracia não era um valor sagrado para a burguesia, e por isso coube às forças de esquerda pautá-la com centralidade naquele momento.

Foi com esse espírito que Fernando Collor de Mello venceu as eleições de 1989. Como bem resgata o filme mais recente de Silvio Tendler, Privatizações: A distopia do capital, buscava-se incutir na mentalidade popular a imagem de um Estado gordo e desengonçado, na figura de um elefante. Esse foi o espírito neoliberal não só no Brasil, mas em toda a América Latina. O lema dos estadistas da época era “Não há alternativa!”, frase imortalizada pela dama de ferro inglesa Margaret Thatcher. E, aqui no Brasil, aqueles que ousavam criticar tal operação ideológica eram acusados de serem defensores do aparelho burocrático-militar da Ditadura.

Dessa forma, os anos 1990 foram marcados pelo avanço avassalador dos mercados no Brasil. A ideia básica era a de que o país precisava abrir-se para o mercado mundial e colocar abaixo as barreiras comerciais que mantinham artificialmente em funcionamento uma indústria nacional defasada. Junto a isso, as empresas estatais eram vistas como ineficientes, gastadoras e corruptas. Por isso, era necessário privatizá-las, uma vez que as transnacionais eram muito mais competentes para atender os serviços públicos básicos como telefonia, transporte, abastecimento de energia e de água e até mesmo a extração de minério de ferro.

Este foi o modelo hegemônico dos anos 1990 no Brasil. O seu legado foi extenso e profundo. Do ponto de vista ideológico, perdurou a ideia de que o Estado não funciona, de que as empresas públicas são ineficientes e corruptas por natureza. Da mesma forma, enraizou-se a ideia de que a iniciativa privada é eficiente, rápida, universalizante e presta serviços de qualidade. Já do ponto de vista econômico, colocou-se em operação o maior desmonte da história do Estado brasileiro e o correlato avanço do domínio privado nas mais diversas áreas da vida coletiva: estão aí os planos de saúde e as previdências privadas para prová-lo.

No entanto, por um breve momento da nossa história parecia que este modelo estava prestes a ser superado. Durante os dois governos de Lula alguns começaram a acreditar que desta vez havia um caminho alternativo. Através das políticas compensatórias como o Fome Zero e o Bolsa Família iniciou-se uma distribuição de renda significativa, foram descobertas as reservas de petróleo no pré-sal que impulsionou o fortalecimento da Petrobrás, e o BNDES voltou a atuar estrategicamente para o desenvolvimento do Brasil. O número de empregos formais e o setor industrial pareciam viver um novo surto de crescimento e passou-se a investir de novo na educação técnica e na construção de novas universidades públicas.

Mas de forma alguma houve uma superação das mazelas neoliberais. Mesmo com o espírito neodesenvolvimentista recente o Estado jamais se recuperou daquela fragilidade estrutural ao qual foi exposto nos anos 1990. Pior que isso, houve um elemento crucial, uma pedra fundadora, que não foi sequer tocada por essa suposta alternativa: o poder do mercado. Ao invés de se aproveitar esse novo ímpeto de recuperação estatal para se enfrentar os grandes interesses que assaltam o nosso país, ao invés de chamar essa multidão de brasileiros beneficiados com as políticas públicas para se mobilizar contra os agentes que sequestram quotidianamente a vontade da maioria, não, os nossos estadistas optaram por manter a médio e longo prazo uma coalizão. Essa coalizão foi muito claramente enunciada no lema “Brasil, um país de todos”, mas sem nenhum intento de superação, de enfrentamento, ou sequer de enfraquecimento do poder do mercado sobre o todo da sociedade.

Depois de muitas conquistas, ainda que parciais, mas onde abriu-se uma oportunidade histórica para enfrentar problemas estruturais e interesses estratégicos sobre os rumos do nosso país, os ímpetos privatistas começam a se recuperar e, mais uma vez, volta a prevalecer o espírito do “Não há alternativa!”. Os derrotados das eleições vão para cima do Governo dizendo que os brasileiros estão divididos. Uma direita reacionária pede impeachment da Presidenta, clama pela intervenção militar, e os nossos estadistas permanecem imóveis, confiando que essa moda não vai pegar. A base aliada pressiona a direção do governo e este cede. A mídia desmoraliza a maior empresa brasileira, que tem um papel estratégico para o desenvolvimento nacional, mas os nossos estadistas se reservam o direito de aguardar o resultado das investigações sem questionar uma vírgula daquilo que é dito na TV. O mercado financeiro chantageia, pede juros altos e um Ministério, ganha os dois. O agronegócio também exige o seu quinhão e ganha facilmente. Com tudo isso o Governo age bem ao espírito dos anos 1990 e dá um claro sinal: realmente não há alternativa!

Será mesmo que o bombardeio ideológico daqueles anos neoliberais sequelou irreversivelmente o campo progressista?

É claro que há alternativa! Afinal, o Brasil não sofre mais por falta de capitalismo e sim por seu excesso. Jamais tivemos um cenário tão favorável para mostrar o quanto está fadada ao fracasso essa economia de mercado. Não podemos ignorar que a burguesia, com seu aparelho midiático, tenta reeditar a sua ofensiva ideológica neoliberal em terreno pantanoso. É evidente que todas as mazelas que eles pretendem atribuir ao Estado, como a corrupção, a ineficiência na prestação dos serviços, a má gestão, nunca estiveram tão evidentes na iniciativa privada. É só dar uma olhada nas denúncias dos PROCONs e nos processos judiciais para confirmá-lo. É só refletir sobre o julgamento do sr. Eike Batista e sobre o envolvimento das maiores empreiteiras brasileiras no caso de corrupção mais recente. É só perguntar para qualquer cidadão na rua o que ele acha dos serviços prestados pelos Bancos e pelas empresas de telefonia. E isso não ocorre apenas aqui, mas tem uma dimensão global.

Ademais, se o Estado esta enredado numa série de escândalos, é muito difícil argumentar que isso decorre de seu caráter público, como sugerem as grandes agências de comunicação. Bem pelo contrário, depois dos anos 1990, o estado perdeu força, perdeu papel na gestão da economia nacional e na prestação dos serviços para a população. Se há alguma coisa errada com o Estado, está claro que é justamente o fato de que a lógica privada tomou conta de sua “alma”, de que os interesses empresariais nunca estiveram tão enraizados em sua estrutura, e de que a sua natureza pública está bastante fragilizada. Se há algo errado com o Estado é a sua mercantilização e o seu aburguesamento. E essa é exatamente a herança deixada pelos anos neoliberais.

Dizia Marx que a história se repete como tragédia ou como farsa. É algo desse tipo que a alta burguesia pretende fazer com o Brasil. Tentam repetir velhos argumentos num contexto completamente diferente e relativamente desfavorável para seus interesses. Essa é a sua fraqueza e o nosso trunfo. A lógica do privado jamais esteve tão desmoralizada quanto está agora e a população nunca esteve tão sedenta de projetos de natureza pública. Cabe a nós denunciar essa farsa para que ela não se torne tragédia. Resta saber se a esquerda, os progressistas e os nossos estadistas serão capazes de recuperar-se a tempo da lobotomia que a era neoliberal lhes causou.

(*) Professor

“Se queremos um socialismo democrático precisamos de uma revolução democrática”

juarezguimaraes300 “Se defendemos uma transição democrática para o socialismo, precisamos de uma revolução democrática para fazer essa transição. Não podemos separar as ideias de revolução e de socialismo da ideia de democracia. Este é o grande desafio dos socialistas e marxistas hoje e essa revista pretende ser um espaço plural de reflexão sobre esse tema”. Foi assim que o cientista político Juarez Guimarães, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apresentou a revista Democracia Socialista no ato de lançamento da mesma, ocorrido quinta-feira (21) à noite, no Sindicato dos Bancários, em Porto Alegre.  A publicação, anunciou Juarez Guimarães, pretende ser um local onde todos que reconhecem a importância dessa agenda possam se encontrar, escrever e refletir sobre os desafios que estão colocados para a esquerda hoje no Brasil, na América Latina e no mundo.

A revista é uma publicação quadrimestral da Democracia Socialista, tendência interna do PT, mas pretende promover o de debate e a reflexão sobre os desafios e dilemas da esquerda para além das fronteiras do partido. O deputado estadual Raul Pont observou que durante muito tempo a DS manteve o jornal Em Tempo como espaço de informação e debate teórico. O jornal, porém, ressaltou, foi ficando muito defasado com a evolução de novas tecnologias de comunicação. “Hoje, temos notícias e análises de conjuntura disponibilizadas diariamente. Decidimos então produzir uma revista teórica plural e não sectária, que está aberta a outras correntes do partido e também de fora do PT”, explicou.

“Todos aqui temos orgulho de tudo o que já fizemos em nossa trajetória”, acrescentou Pont, “mas sabemos também que há muitas coisas que não conseguimos fazer em nossos governos. Essa autocrítica é o que nos move para continuar avançando”. Na mesma linha, Juarez Guimarães destacou a importância da revista como ferramenta teórica para enfrentar o contexto de crescente pragmatismo registrado no interior do PT.

“Identificamos há alguns anos já que o PT vem convivendo com uma cultura pragmática que arrisca, no limite, dissolver a sua identidade como partido socialista. Não podemos seguir cedendo em valores em nome meramente do cálculo eleitoral utilitarista. Esse pragmatismo rebaixa o horizonte utópico e nos resseca a todos”, enfatizou o cientista político e dirigente do PT em sua fala no auditório do Sindicato dos Bancários.

Juarez Guimarães utilizou a figura do labirinto para fazer uma comparação entre a situação vivida pela esquerda hoje e aquela vivida no período pós-golpe de 64. “Os jovens que começaram a militar no período pós-golpe, naquela situação agônica, tinham diante de si um labirinto que parecia não ter saída, onde se cruzavam dilemas antigos e novos da esquerda brasileira. Esses dilemas envolviam a caracterização do estágio e da natureza do desenvolvimento brasileiro, os limites do conceito de revolução democrática burguesa, defendido então pelo Partidão (PCB). As divergências em torno dessas questões fizeram com que as cisões das esquerdas adquirissem a forma de um labirinto. Dezenas de pequenos grupos de esquerda passaram a buscar a saída desse labirinto. A saída desse labirinto foi a fundação do PT muitos anos depois, após muitos erros, no sentido de errância mesmo”.

“Assim como a esquerda nos anos 60 viveu esse labirinto”, acrescentou, “hoje nós vivemos o nosso labirinto também, resultante de um processo de cisão e descontinuidade da cultura marxista que tem uma relação profunda com os impasses vividos pelo PT hoje”. Para Juarez Guimarães, a chave para buscar a saída desse labirinto encontra-se no próprio Marx, em especial na ideia de auto-emancipação.

“Essa ideia central de Marx o protege de qualquer elemento repressivo ou autoritário que se possa querer extrair de sua obra”, defendeu, apontando aquele que considera ser o caminho estratégico a ser seguido pela esquerda no Brasil e no mundo: não dissociar as ideias de socialismo, revolução e democracia. “Esse é o grande desafio dos socialistas e marxistas hoje: fazer uma revolução democrática. Nunca esqueci de algo que o Raul (Pont) disse certa vez: quando estivermos confusos sobre o que fazer, precisamos dar democracia às pessoas. Fazendo isso, as chances de errar serão muito menores”.