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Stédile e Boulos apontam cenários e riscos da crise e os desafios para a esquerda

A natureza das crises econômica e política, a confluência das mesmas e a agenda do governo de Michel Temer e seus aliados colocou o Brasil em uma encruzilhada que aponta basicamente para dois caminhos. O primeiro: as forças de esquerda e do campo democrático conseguem construir uma sólida unidade e manter mobilizações massivas de rua, como ocorreu na greve geral do dia 28 de abril e na jornada de Curitiba, dias 9 e 10 de maio, para derrotar o governo golpista e a agenda de destruição de direitos que este vem implementando no país, via eleições diretas este ano ou em 2018. O segundo: o governo Temer consegue aprovar seu pacote de reformas que provocarão um retrocesso de décadas em termos de direitos, aumentando a repressão contra as forças de esquerda e do campo democrático e promovendo um fechamento político ainda maior que aumentará a radicalização social no país.

Esse foi o cenário apresentado, sexta-feira à noite, em Porto Alegre, pelos dirigentes de dois dos principais movimentos sociais do Brasil. João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) participaram de um debate promovido pela Associação Juízes para a Democracia (AJD), em parceria com o coletivo A Cidade que Queremos, no auditório do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa). Além do debate com Stédile e Boulos, o encontro teve uma mesa que tratou da criminalização de ativistas e movimentos sociais, que contou com a presença do jornalista Matheus Chaparini (Jornal Já), de Isaías Vedovato (MST) e da arquiteta Claudia Favaro (MTST).

Em suas falas, João Pedro Stédile e Guilherme Boulos fizeram uma caracterização sobre a natureza das crises econômicas e política, identificando os seus protagonistas e setores sociais envolvidos. Além disso, desenharam cenários possíveis e hipóteses acerca do desdobramento dessas crises e apontaram os desafios que o campo de esquerda e democrático têm hoje para evitar um gigantesco retrocesso social que pode mergulhar o Brasil em um ambiente de convulsão social e de maior fechamento político que poderá levar décadas para ser revertido.

A natureza da crise

A sociedade brasileira vive uma grave crise econômica que iniciou por volta de 2008 e cujos impactos foram amortecidos, no governo Lula, por políticas públicas financiadas pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), disse Stédile. “O Lula deu um tranco na crise em 2008, mas ela voltou com força em 2013, em meio a uma cenário econômico internacional mais adverso. Essa crise é uma crise do modo de produção capitalista internacional. Sempre que o capital entra em crise, ele aumenta a exploração sobre a periferia para recuperar seus prejuízos”. Quando há uma crise econômica dessa natureza, há uma desarrumação da relação entre as classes sociais, acrescentou o dirigente do MST.

Guilherme Boulos: “A natureza da atual crise econômica reduz muito a possibilidade de uma nova política de conciliação de classe”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O tamanho dessa desarrumação, assinalou Stédile, foi resumido pelo general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, que, em um longo artigo no jornal Valor Econômico, disse que o Brasil estava à deriva e sem comando. “É aí que estamos. O navio está afundando e as classes, como aconteceu no Titanic, estão em um jogo de salve-se quem puder. Cada um quer pegar o seu bote”. Foi neste cenário de desarrumação, apontou, que se deu o golpe contra o governo de Dilma Rousseff. “Eles já tinham o controle do Judiciário e da Mídia, mas ainda não tinham o controle do Congresso. Em 2014, gastaram R$ 6 bilhões para eleger este Congresso que está aí, o mais conservador da história. E quase venceram a eleição para a presidência da República. Quando a Dilma colocou o Joaquim Levy na Fazenda, esta já era uma medida para salvar a burguesia. Em abril de 2015, nós dissemos a ela, em um assentamento do MST aqui no Rio Grande do Sul, que se ela não mudasse esse caminho, o governo ia afundar. E foi o que aconteceu”.

Quando a Rede Globo, “o único partido ideológico da burguesa brasileira”, percebeu que essa política econômica tinha afastado a classe trabalhadora da Dilma, eles deram o golpe, prosseguiu Stédile. O objetivo desse golpe, resumiu, é um só: recuperar a taxa de lucro e de acumulação, por meio do aumento da exploração da classe trabalhadora. “Em um ano de governo Temer, mais de 3 milhões de trabalhadores de carteira assinada perderam o emprego. Isso é deliberado. Outra via para recuperar a taxa de lucro e acumulação é a do assalto aos cofres públicos. Só via DRU (Desvinculação de Receita Orçamentária), Temer deslocou R$ 180 bilhões das áreas de saúde e educação para os cofres do grande capital. A PEC que congelou os investimentos nestas áreas por 20 anos foi outra medida com o mesmo objetivo. Essa estratégia de recuperação do capital inclui ainda a apropriação dos recursos naturais do Brasil, como água e petróleo. Por fim, no plano geopolítico, o objetivo é realinhar o Brasil com os Estados Unidos”.

O esgotamento dos pactos da Nova República

Guilherme Boulos também caracterizou o atual momento histórico como gravíssimo, com retrocessos sociais e democráticos que podem ser ainda maiores que os já provocados. Para ele, a confluência das crises econômica e política é uma crise da Nova República, iniciada no período pós-ditadura. Nos governos Lula e Dilma, afirmou o dirigente do MTST, no mínimo os retrocessos foram freados por políticas implementadas a partir de um acordo de conciliação de classes. Esse período, acrescentou, além de bloquear retrocessos, trouxe ganhos reais para a classe trabalhadora, mas chegou ao fim. “A crise política atual vai além da instabilidade do governo Temer. Ela é uma crise da Nova República, uma crise de representatividade e de legitimidade de todo o sistema político”.

Para Boulos, essa crise se traduz também em uma crise de hegemonia que coloca para a própria burguesia a necessidade de uma transição. “Isso não é, necessariamente uma boa notícia, pois pode levar a um fechamento democrático ainda maior”. A natureza da atual crise econômica, sustentou ainda, reduz muito a possibilidade de uma nova política de conciliação de classes, como a que ocorreu nos governos Lula e Dilma. “Isso foi possível, porque o país estava crescendo a uma média de 4% ao ano. Agora, estamos indo para três anos consecutivos de recessão. No período anterior, era possível fazer política pública para os mais pobres só com ajuste orçamentário. Isso não é mais possível”.

Boulos também chamou a atenção para o fato de que não foi a esquerda que rompeu com essa política de conciliação de classes, mas a própria burguesia. “Saiu a conciliação e entrou a exploração. A política do governo Temer envolve uma profunda repressão social. A PEC do congelamento dos gastos sociais. Nem os governos mais neoliberais que tivemos na América Latina, incluindo o de Pinochet no Chile, chegaram a esse atrevimento. Com essa medida, definiu-se a política econômica dos próximos quatro governos. Uma das conseqüências disso é que não basta mais eleger outro governo. É preciso também ter três quintos do Congresso para reverter isso”.

Os atores e os possíveis caminhos do golpe

Stédile e Boulos apresentaram também algumas contradições existentes dentro do bloco que conduziu Temer ao poder e possíveis desdobramentos da situação atual. O dirigente do MST observou que, ao contrario do que ocorreu no golpe de 1964 e no período do governo Fernando Henrique Cardoso, a burguesia não tem hoje uma sólida unidade política. Ele identificou três grandes blocos que articularam o golpe: o bloco do poder econômico (representado por Henrique Meirelles e pelo capital financeiro), o bloco da lumpen-burguesia (representado por figuras como Michel Temer, Romero Jucá, Eliseu Padilha e Renan Calheiros) e o bloco ideológico (representado pela Globo, pelo Ministério Público Federal, liderado procurador Rodrigo Janot, e pelo juiz Sérgio Moro). Esse último bloco, enfatizou, é o mais perigoso de todos.

Stédile apontou alguns ruídos que aconteceram recentemente na relação entre esses blocos. “A Operação Carne Fraca foi um tiro no pé, provocando um prejuízo de R$ 300 milhões para a JBS, quando os problemas mais graves se concentravam em três frigoríficos do Paraná ligados ao atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio. Se a Polícia Federal fosse séria, ela teria que prender o seu chefe. Estamos diante de um governo ilegítimo e instável que ninguém sabe quanto tempo vai durar. Gilmar Mendes parece que abandonou o bloco ideológico e foi para o bloco do poder econômico. Ele virou o primeiro-ministro do poder econômico no Judiciário”.

“Se conseguirmos manter a classe trabalhadora na rua, algo com que eles não contavam, com uma grande mobilização no próximo dia 24 e uma possível greve geral por tempo indeterminado, poderemos acelerar a renúncia do Temer, conseguindo uma passagem para ele para Miami, que é o refúgio preferido de todos os canalhas do mundo”, disse ainda Stédile, desenhando quatro hipóteses para o futuro próximo:

“Na primeira hipótese, a crise se aprofunda, Temer renuncia e a Carmen Lucia convoca eleições diretas ainda este ano. Essa é a hipótese mais otimista. Na segunda, Temer renuncia e eles formam um governo de transição com o Nelson Jobim, o que só não aconteceu ainda porque os tucanos não aprovam. Na terceira, o governo Temer vai se arrastando até o ano que vem, com um desgaste cada vez maior, e o Lula é eleito no primeiro turno. E na quarta, a pior de todas, o governo Temer se mantém e eles prendem o Lula. Aí se abriria um terreno de completa de radicalidade, onde, nós do MST ao menos, recusaríamos a legitimidade do processo eleitoral”.

Auditório do Simpa ficou lotado para ouvir debate sobre a atual conjuntura política do país. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Riscos e desafios para a esquerda e o campo democrático

Guilherme Boulos também falou sobre possíveis desdobramentos da crise, apontando para os principais riscos que estão no horizonte. “Uma crise dessa natureza não deixa vácuo. Estamos falando de uma crise do pacto da Nova República potencializada por um processo de desmoralização profunda da classe política. Neste cenário, a Globo já está pensando em como canalizar o discurso da anti-política para a sua agenda. Já fizeram isso nas eleições municipais, elegendo figuras como o Dória em São Paulo e o próprio Marchezan aqui em Porto Alegre que surfaram neste discurso da anti-política”.

Este quadro, acrescentou, abre espaço para um fechamento democrático ainda maior, como alternativa de superação da crise. “A Lava Jato se afirma cada vez mais como um projeto político. Ninguém tenta criar um herói nacional para deixá-lo mofando em um tribunal de primeira instância em Curitiba. Dias atrás, a ministra Carmen Lucia promoveu um café da manhã no STF com o G13 do empresariado. A ordem é acelerar o seu programa. Em apenas um ano, querem desmontar três pactos: o inaugurado pelo governo Lula, o pacto da Constituição de 1988 e o pacto varguista firmado nas décadas de 30 e 40”.

Para Boulos, o que permite o governo Temer bancar essa destruição é justamente a sua ilegitimidade. “Apenas um governo não eleito, com apenas 5% de aprovação, pode implementar um tamanho programa de destruição nacional. Ele não tem nada a perder. A única chance de ele permanecer no governo até 2018 é entregar o pacote inteiro. E parte desse pacote é o aumento da criminalização e da repressão, com o aprofundamento das medidas de exceção. A brecha de crise entre eles, acrescentou, está no fato de que os deputados e senadores que apóiam esse governo têm sim, ao contrario de Temer, algo a perder, já que terão que enfrentar uma eleição para serem reeleitos.”

Considerando esse contexto, o dirigente do MTST apontou três grandes desafios para a esquerda e para o campo democrático como um todo. “Chegamos a um ponto que, quem defende a Constituição, já é de esquerda. E não estamos falando da Constituição bolivariana de Chávez, mas sim da Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães”, ironizou Boulos. Esses três desafios são:

(1) “Construir uma ampla unidade de todos os setores que resistem ao golpe e à sua agenda. Não podemos nos dar ao luxo de nos dividirmos. Se isso acontecer, cada um vai ser derrotado no seu canto. Talvez eles consigam executar o programa do golpe mesmo com a gente unido. Mas a nossa única chance de vitória é construir essa unidade. Se o golpe seguir na velocidade atual, a radicalidade nas ruas pode aumentar muito. Nosso papel é canalizar essa radicalização de massa para a derrubada deste governo”.

(2) “Alem da unidade, precisamos começar a pensar em um programa contra-hegemônico da esquerda brasileira. Não dá para pensar só nas eleições de 2018. Precisamos pensar em um programa para as próximas décadas, com a consciência de que não há mais espaço para avançar sem conflito e enfrentamento. Se não for por opção, é por sobrevivência mesmo, uma vez que não há mais espaço para conciliação. Pensar esse programa é uma condição para disputar o próprio discurso da anti-política, como fizeram recentemente Sanders, nos Estados Unidos, Melenchon, na França e o Podemos, na Espanha. A anti-política tem uma base real, a saber, a percepção de que o sistema político não representa o povo, mas sim o poder econômico. Não podemos entregar esse discurso de bandeja para a direita”.

(3) “Não adianta ter um programa, sem capacidade de mobilização social e de capilaridade social da esquerda. Para isso, é preciso retomar aquilo que foi abandonado: o trabalho de base, pisar no barro, ouvir o povo e construir vínculos estruturais mais fortes com ele. Quando tivemos que resistir ao golpe, pagamos o preço por ter abandonado isso. Só quem conseguiu colocar povo na rua foram os movimentos que tinham trabalho de base”.

Por fim, Boulos estabeleceu uma hierarquia entre esses desafios, dando primazia ao primeiro. “As diferenças existentes entre nós em relação `ao programa não podem ameaçar a ampla unidade que precisamos construir”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

 

Lula e Dilma apontam rede Globo como direção política do golpe no Brasil

Lula e Dilma participaram juntos do ato em defesa do pólo naval que reuniu milhares de pessoas na praça central de Rio Grande. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta eleita em 2014, Dilma Rousseff, apontaram, na tarde de sábado, em Rio Grande, a Rede Globo como direção política do golpe que depôs Dilma em 2016 e vem implementando medidas de desmonte de direitos e de políticas de desenvolvimento como a de fortalecimento da indústria naval brasileira. Lula e Dilma participaram juntos do ato em defesa do pólo naval que reuniu milhares de pessoas na praça central de Rio Grande, um dia depois da greve geral que paralisou o país. A identificação da Globo como condutora do golpe foi enfática e acompanhada de um desafio.

“Este país sofreu um golpe. Eu fui afastada sem crime de responsabilidade por um bando de corruptos. É um golpe que tem na rede Globo o seu principal partido político e que possui um objetivo muito claro: enquadrar o Brasil social, política e economicamente no neoliberalismo”, disse Dilma. Lula falou sobre o tema ao relatar quais são os seus dois principais desejos hoje. “Estou pedindo a Deus para fazer o meu depoimento dia 10 em Curitiba. Será a primeira chance que eu terei de dizer tudo o que penso sobre o que está acontecendo no país. Em segundo lugar, desejo que a Globo escolha logo o seu candidato para 2018. Terei o maior prazer em derrotar o escolhido da rede Globo. A Globo não se presta mais a transmitir informações, mas em tentar destruir o PT, Dilma e Lula. Eles devem ficar com uma azia desgraçada, porque, depois de meses tentando me destruir, cada pesquisa eleitoral nos mostra a frente de todos os outros candidatos”, ironizou o ex-presidente.

A reação do público foi imediata e sacudiu a praça central de Rio Grande. Milhares de pessoas passaram a gritar “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Ao lado da carroceria de um caminhão improvisada como espaço para a imprensa acompanhar o ato, uma mulher aparentando ter mais de 80 anos de idade, pediu que a carregassem para um ponto mais alto, junto com a sua cadeira de rodas. “Eu quero ver o Lula e a Dilma”, explicou. Em cima do caminhão, fotógrafos e cinegrafistas disputavam cada centímetro de terreno para tentar captar imagens do clima apoteótico que foi se criando ao longo da fala de Lula.

Moro, Dallagnol e Fidel

Em seu pronunciamento, ele denunciou o processo de destruição de infra-estrutura e de direitos em curso no país e identificou os adversários e os desafios políticos a serem enfrentados nos próximos meses. “Se eu tiver mais um minuto ou mais vinte anos de vida, esse tempo será dedicado a recuperar a democracia e o direito do povo mais pobre ter três refeições por dia”. “Eu continuo sendo o Lulinha Paz e Amor. Não estou radicalizando. Só estou me virando para não apanhar tanto. A Polícia Federal foi na minha casa e, depois que eu já tinha saído, viraram o meu colchão. Acharam que eu tinha dinheiro escondido embaixo do colchão. O Moro e o Dallagnol não estão tentando me julgar por corrupção, mas sim pelo modo como eu governei o país. Estou tranqüilo. Como disse o Fidel, a história me absolverá”.

Didático, o ex-presidente se preocupou em contextualizar historicamente o que está acontecendo no Brasil hoje, lembrando a importância que o Rio Grande do Sul tem na história do país pelas lideranças e movimentos nacionais que surgiram no Estado. “Eu visitei o Rio Grande do Sul pela primeira vez em 1975, convidado pelo então presidente do Sindicato dos Bancários, Olívio Dutra. Ali conheci também o Tarso Genro, que era o advogado do sindicato. Depois de passar dois dias aqui, fiquei fascinado com o grau de discussão política que encontrei. Fiquei pensando. O Rio Grande do Sul já teve lideranças como Brizola, Jango, Getúlio e Júlio de Castilhos. Já lá em São Paulo, nós tivemos Jânio, Ademar e Maluf. Mas hoje, sinto que aqui houve um certo retrocesso, como aconteceu também em nível nacional. A direita tem avançado para destruir tudo aquilo que construímos”.

Delegações de várias cidades do Estado foram a Rio Grande participar do ato em defesa do Polo Naval.
 (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Lula também falou sobre o clima de ódio que foi se criando no Brasil contra ele, contra Dilma, o PT, sindicatos e movimentos sociais. “Por que tanto ódio? No início eu achava que era preconceito pelo fato de eu ser nordestino e não ter formação. Mas depois veio a Dilma, uma mulher de classe media, bem formada, com mestrado na Unicamp e tudo, e eles conseguiram ter mais ódio dela. Aí eu descobri que o motivo desse preconceito era porque a elite desse país trata a mulher como um objeto de cama e mesa”, assinalou, numa das várias referências que fez ao machismo e às desigualdades de gênero no Brasil. Ele defendeu o aumento da participação e da representação política das mulheres, destacando que os partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais devem dar o exemplo, fazendo isso internamente e combatendo o machismo que existe dentro deles.

“Para eles, pobre tem que comer pescoço de frango”

O clima de ódio que foi sendo alimentado no país tem ainda um outro componente, acrescentou: o ódio de classe. “O PT iniciou um processo de mudanças no país. Foi isso que irritou os nossos adversários. Quando surgiu a ocasião, eles perceberam nossa fragilidade e mandaram a gente para fora do governo. Hoje, nós temos a existência cotidiana de uma luta de classes que muita gente achou que tinha acabado. Tem gente que não suporta ver uma menina negra se formando em odontologia. Tem gente que não suporta ver uma menina de periferia se formando em medicina. Outros não suportam ver pobre andando de avião e querendo comer peito de frango e picanha. Para eles, pobre tem que comer pescoço de frango. Esse é o limite”.

Lula defendeu ainda a política de fortalecimento da indústria naval e de valorização do conteúdo local que tornaram Rio Grande em um dos principais pólos navais do Brasil. “A Petrobras é um patrimônio cultural, tecnológico e empresarial deste país. A Dilma é testemunha de quantas brigas tive durante a campanha, quando decidi assumir um compromisso com a reconstrução da indústria naval brasileira. Hoje, estão tentando destruir essa indústria. Não dá para aceitar ter um navio mais barato construído lá em Singapura e aqui ter riograndinos pobres dormindo na sarjeta”. Para o ex-presidente, as políticas que estão sendo implementadas por Temer estão destruindo o país:

“Eles não estão fazendo reformas. Estão demolindo o país”

“Deram um golpe na Dilma dizendo que iam melhorar o Brasil. Mas o país só piorou. Agora, estão destruindo tudo o que Getúlio fez em termos de legislação trabalhista. Quando a gente diz que vai fazer uma reforma em nossa casa é para melhorá-la. Eles não estão fazendo reformas, mas sim demolindo o Brasil. Estamos regredindo a uma situação quase de trabalho escravo. Não sei o que vai acontecer comigo, mas eles podem se preparar. Nós vamos voltar e recuperar a indústria naval deste país. A Petrobras vai voltar a ser do povo brasileiro. O petróleo pertence ao povo brasileiro e não às multinacionais. O BNDES vai voltar a ser um banco de desenvolvimento, o Banco do Brasil vai voltar a abrir as agências e nós vamos regular os meios de comunicação”, prometeu. Por fim, mandou um recado a Temer e seus aliados:

“Quem está desempregado não pode esperar até 2018. Ou devolvem o mandato a quem foi eleita pelo povo com mais de 54 milhões de votos ou tenham coragem de convocar eleições diretas já. Esse país não pode ficar de quatro para os americanos como quer a nossa elite”.

Dilma: “o golpe não acabou”

Dilma Rousseff disse que ficou extremamente triste ao ver a situação do pólo naval de Rio Grande. “Eu vi ele nascer. Vi o Estaleiro Rio Grande sair do chão nesta região que era considerada sem vocação. Estávamos construindo estaleiros por todo o país. Na década de 1980, o Brasil tinha uma indústria naval forte. Os governos Collor e FHC trataram de enterrar a nossa indústria naval. Hoje, tentam fazer isso de novo. Temos uma plataforma 60% construída aqui que hoje está parada, quando já poderia estar produzindo, gerando emprego, renda e riqueza. Eles têm uma visão de entregar o país”.

Ela também chamou a atenção para o caráter continuado do golpe e de sua agenda. “Eu vivi na pele dois golpes. Em 1964, tivemos um golpe militar que tirou direitos de toda a sociedade. O golpe parlamentar, midiático e judicial de hoje tem uma característica mais perversa ainda. Ele não acabou, continua sendo aplicado por meio de várias medidas. Uma delas é o fim do pólo naval, um golpe contra a soberania nacional. Outra é a Reforma Trabalhista. Outra ainda é a Reforma da Previdência. Nenhum brasileiro ou brasileira votaria a favor dessa perda de direitos e de soberania. Cada uma dessas medidas é uma parte do golpe.”

Dilma apontou ainda aquela que considera a principal tarefa política do presente. “De hoje até outubro de 2018, temos que ter um pensamento na cabeça: a luta pelo voto direto para a presidência da República. Eles não consolidaram todas essas medidas. Para evitar isso, não podemos deixar que eles se consolidem no poder. Não podemos deixar que eles ganhem no tapetão, impedindo Lula de ser candidato. Isso seria uma afronta ao nosso direito de voto. A democracia é o nosso caminho para o Brasil voltar a crescer, gerar empregos e para pegarmos os nossos direitos de volta.”

Alexandre Lindenmeyer: “tivemos um crescimento sem precedentes

O prefeito de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer (PT), agradeceu a presença de Lula e Dilma no município e as políticas que seus respectivos governos implementaram para o desenvolvimento do pólo naval. “A Metade Sul ficou mais de três décadas estagnada, sendo meramente um corredor de exportação. Os governos Lula e Dilma investiram no pólo naval e em energia eólica e tivemos um crescimento sem precedentes, que chegou a 12%. Hoje, tudo isso está sendo destruído. Estão desmontando o pólo naval e fechando a usina de Candiota. Já tivemos 20 mil trabalhadores aqui no pólo naval. Hoje, temos 3 mil, somando os de Rio Grande e os de São José do Norte. Não podemos permitir que o nosso pólo vire sucata”.

Em nome das frentes parlamentares municipal, estadual e nacional em defesa do pólo naval, o deputado estadual Nelsinho Metalúrgico (PT) entregou a Lula e Dilma um documento agradecendo pelos investimentos feitos na indústria naval e se comprometendo a lutar pela mesma.

Também participaram do ato o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, do Trabalho e da Previdência, Miguel Rossetto, a bancada gaúcha de deputados federais do PT e do PCdoB, deputados estaduais, o presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, Paulo Cayres, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, o integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo, a senadora Gleise Hoffmann (PT) e o líder da bancada do PT na Câmara, Carlos Zarattini (PT-SP), além de autoridades locais e representantes de sindicatos e movimentos sociais de várias regiões do Estado.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

O Globo e os golpes: uma história de amor

globo

Ayrton Centeno

Todo mundo viu a saia justa em que as Organizações Globo se meteram com a mídia internacional depois que esta chamou o golpe pelo seu verdadeiro nome: golpe. Todo mundo soube da carta de João Roberto Marinho a The Guardian depois que o jornal britânico descreveu o papel da Globo – e do resto da imprensa hegemônica – na produção do impeachment de Dilma Rousseff. Todo mundo acompanhou os faniquitos dos globais – Mônica Waldvogel, Jorge Pontual e Lúcia Guimarães entre eles – perante o desnudamento no exterior da sua narrativa doméstica dos fatos. Escancarada inclusive pelo maior diário do mundo, The New York Times que, como se sabe, é aquele jornaleco editado em Havana. Não foi um ponto fora da curva. Como faz agora com Temer, O Globo comprou briga com o NY Times em defesa de outro governo parido por um golpe: a ditadura de 1964.

Foi em 1969, logo depois da edição do Ato Institucional 5, o golpe dentro do golpe que ampliou a censura, suspendeu o habeas corpus, disseminou a tortura e serviu como carta branca para prisões e execuções à margem das próprias leis ditatoriais. Naquele momento, como agora, o Brasil era governado por uma gerontocracia a serviço da plutocracia. Com a mídia acumpliciada ou amordaçada – no caso de O Globo, cúmplice – o jornal norte-americano tocaria na ferida ao publicar o editorial “As notícias encarceradas na América Latina” na edição de 4 de janeiro de 1969, expondo a censura e a violência no Brasil e na Argentina, dois regimes militares. Setenta e duas horas depois, O Globo brandiu seu tacape em editorial atacando não só o NY Times mas incluindo na diatribe os franceses Le Monde e L`Express. Tornou-se, na primeira página, advogado de defesa das duas ditaduras.

“A crise política brasileira está tendo lá fora um tratamento vexatório para o país, marcado pela apresentação exagerada dos fatos e a inteligente ainda que pérfida exploração da meia verdade”, atacou. O NY Times denunciara prisões de jornalistas e pedira que Washington intercedesse junto ao aliado latino-americano. Convertendo sinuosamente o questionamento humanista do NY Times em uma afronta ao Brasil e não à violência praticada por um poder de fato, legitimado pelas armas, o matutino dos Martinho contra-atacou, além do diário, os próprios Estados Unidos – de resto, mentor e apoiador dos militares. Descreveu-o como um país “onde presidentes e líderes eminentes são caçados e abatidos nas ruas como bichos”.

Critica o NY Times como “fonte da campanha antibrasileira”. Ao qual acusa de ter “sabidamente, grande responsabilidade na promotion – e consequente fortalecimento – da ditadura sanguinária de Fidel Castro”.

Debaixo da mesma perspectiva xenófoba, O Globo dá-se ao desplante de debochar da democracia. Critica a “imaturidade política” da França e sua “hilariante democracia parlamentarista”. Ainda reclama que plebiscitos “montados sobre o monopólio estatal da televisão” desmoralizam as instituições francesas. Convenhamos: para um jornal parceiro de uma autocracia assassina seria perfeitamente normal achar “hilariante” a democracia ou considerar que eleições livres – plebiscitos – servem para desmoralizar…

Mas porque a França entrou na roda? Acontece que O Globo, na condição de órgão oficioso do despotismo, ficara fulo com L`Express. A revista francesa mencionara a censura no Brasil às palavras do Papa Paulo VI. O editorial dos Marinho desprezou tal afirmação mas Paulo VI fora mesmo vítima da tesoura. Ocorreu no Correio da Manhã que, ao contrário de O Globo, não se acumpliciara à tirania.

Na mensagem natalina de 1969 aos católicos do mundo, o pontífice citava os “povos oprimidos”. Como “povos” e “oprimidos” separados já pareciam palavras suspeitas, juntas eram algo simplesmente intolerável. E Paulo VI não escapou da tesoura da censura prévia, aboletada na redação. Depois disso, alguém afixou um cartaz com uma recomendação de muito bom senso no banheiro masculino do Correio. Dizia: “Não faça xixi com os censores: eles cortam tudo”.

Sobrou ainda para o também francês Le Monde, acusado de ser brando com Fidel Castro e Che Guevara… Tratando o NY Times e Le Monde como bisbilhoteiros, o editorial sustentou que o Brasil deveria resolver seus problemas sem pedir “as bênçãos” das duas publicações…

No fantástico editorial – insatisfeito por representar somente sua prepotência predileta — O Globo patrocina também a causa da ditadura argentina, pilotada pelo general Juan Carlos Ongania. Relata que a Argentina, a exemplo do Brasil, vai atingindo “o ponto da decolagem industrial” e está buscando “novas soluções políticas”. Lá e cá, a “nova solução política” era a mesma: a tirania. A de Ongania terminaria no ano seguinte, destronada pelo golpe de outro general, Alejandro Lanusse. A outra, que arrebatou o coração dos Marinho, iria estender suas trevas por mais 16 anos.

Não seria, jamais, uma paixão inútil. É muito mais a história de um amor plenamente correspondido. Em 1969 – ano em que o jornalismo dos Marinho peitou o NY Times contra o jornalismo e em prol da ditadura — o grupo Globo tinha três emissoras de TV. Em 1973, já possuia 11…

A Rede Globo e os “Panama Papers” – O que só foi divulgado na Holanda

pimenta

Por Paulo Pimenta (*)

Veio à tona um novo escândalo de corrupção global. O que a mídia brasileira esconde é que a Globo está envolvida nele

 Fraudes, evasão de divisas, sonegação de impostos, superfaturamento, trafico de influência. Os “Panama Papers” dizem respeito aos quatro terabytes de documentos vazados sobre a Mossack Fonseca – matriz internacional de offshores, que criou centenas de empresas de papel pelo mundo com o fim principal de ocultação de patrimônio.

    Repórteres de todo mundo estão agora investigando o conteúdo desses papéis.  No Brasil, Fernando Rodrigues, membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, revelou que esquemas envolvem Chefes de Estado de diversos países. Centenas de bancos registraram mais de 15 mil offshores com a panamenha. Sete partidos brasileiros – PDT, PMDB, PP, PSB, PSD, PSDB e PTB – têm membros com envolvimento com essas empresas.

 Mas, assim como a famosa lista dos implicados no escândalo do HSBC não foi integralmente trazida ao conhecimento dos brasileiros, com os “Panamá Papers” provavelmente ocorre o mesmo.  A mídia tem protegido o maior conglomerado de comunicação da América do Sul: o Grupo Globo.

  As atividades Mossack Fonseca são objeto das Operações Lava Jato e Ararath. Carolina Auada e Ademir Auada, representantes da Mossack Fonseca no Brasil, foram interceptados pelos investigadores da PF destruindo provas.  Por isso eles foram presos mas, pouco depois, o juiz Federal Sérgio Moro mandou soltá-los, com uma justificativa violadora dos princípios da lógica elementar, publicada na Folha de São Paulo: “Apesar do contexto de falsificação, ocultação e destruição de provas, (…) na qual um dos investigados foi surpreendido, em cognição sumária, destruindo quantidade significativa de provas, a aparente mudança de comportamento dos investigados não autoriza juízo de que a investigação e a instrução remanescem em risco”.

A parcialidade se explica.

Como revelaram reportagens posteriores do “Diário do Centro do Mundo”, “Tijolaço”, “Viomundo”, “Rede Brasil Atual”, “O Cafezinho”, “Revista Fórum”, “Conversa Afiada” e “GGN”, a mansão dos Marinho em Paraty (a Paraty House), o heliponto que fica nessa mansão e o helicóptero que a dinastia usa são ou foram, todos, de propriedade de uma dessas empresas de papel criadas pela Mossack Fonseca. Em 25 de fevereiro e em 02 de março eu e outros deputados já havíamos pedido investigações criminais a respeito ao Ministério da Justiça e à Procuradoria Geral da República.

Mas agora os “Panama Papers” revelam mais.

O portal holandês trouw.nl e o “Het Financieele Dagblad” (ou “A Tribuna Financeira”), um jornal de alta circulação na Holanda, fizeram uma análise minuciosa dos documentos vazados. No artigo ”Het balletje rolt” (“Bola Rolando”) , o que se retrata é o vazamento de documentos que colocam a Rede Globo no centro de um esquema de fraudes e sonegação de impostos em uma parceria criminosa com instituições ligadas ao futebol como a CONMEBOL e a FIFA e alguns de seus dirigentes, por meio de contratos falsos e garantias de exclusividades em transmissões.

 Os contratos, segundo as reportagens, dizem respeito aos jogos da Copa Libertadores, cujos direitos de transmissão foram cedidos pela Conmebol “mediante pagamentos extras”. Os contratos seriam muito enxutos, com objetos excessivamente amplos, e sem cláusulas de exclusividade  – tudo incomum para acordos desse tipo. Isso, aliado aos valores altíssimos, levantam suspeita sobre sua veracidade. O marqueteiro de esporte holandês Frank van den Wall Bake, um dos entrevistados, é categórico: “todos os contratos que envolvem esses atores são falsos”. O artigo ainda cita diversas empresas holandesas envolvidas nos esquemas. Dentre elas, duas com nome T&TSM. Uma, com sede nas Ilhas Caymann, responsável por negociar os direitos de transmissão no continente à Rede Globo, outra, com sede na Holanda, que recebeu todos os repasses.

Reiterei ao Ministro da Justiça o pedido de que as operações da Mossack Fonseca no Brasil sejam investigadas. Esperamos que esse não seja mais um caso de impunidade de crimes de colarinho branco, em que indivíduos, empresas e famílias extremamente poderosos saem ilesos de seus crimes financeiros. Os negócios da Globo – não bastasse o mal político que faz ao país, com seu monopólio de opinião que hoje novamente trabalha por um golpe de Estado – precisam ser investigados, porque sobre eles há sérias suspeitas de ilicitude. Se a grande mídia poupa os Marinho, que pelo menos a Polícia Federal faça seu trabalho de forma isenta e responsável.

Paulo Pimenta, jornalista e deputado federal pelo PT-RS. 

A Globo acusou a resposta das ruas, mas segue manipulando a favor do golpe

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(*) Caco Schmitt, jornalista que cita a jornalista Hildegard Angel: “serviçais do golpe não merecem ser chamados de jornalistas”.

Agora, a estratégia dos golpistas capitaneados pela Globo é tentar convencer a população que as pedaladas fiscais justificam o impeachment (GOLPE!). No Jornal Nacional dessa quarta-feira, 30 de março, ela chegou ao cúmulo do ridículo de destacar na manchete a falácia do jurista do golpe na Comissão da Câmara que afirmou: “as pedaladas prejudicam os mais pobres”… Inacreditável! Mas, na golpista Globo, tudo é pensado. Eles sabem que a massa está do lado da Dilma e tenta jogá-la contra a presidenta. É o último recurso dos golpistas que passaram a semana inteira tentando manipular dizendo que impeachment não é golpe, quando todos sabem que sem crime é GOLPE. E, agora, tentam qualificar as razões deste golpe travestido de impeachment.

Estamos chegando ao ápice da estratégia dos golpistas que só pode ser desmontada e barrada nas ruas. Recapitulando: um dia após a eleição, a Globo começou a dar voz aos que pediam recontagem dos votos. Depois, defendeu a tese de que a urna eletrônica não era confiável (Brizola deve estar se revirando…). Antes de o segundo governo Dilma completar um mês já diziam que ela “mentiu” na campanha e não estava, vejam só, fazendo o que prometeu… Quando chegou a hora de eleger o presidente da Câmara dos Deputados, fez campanha e comemorou quando Eduardo Cunha (que usou milhões para conseguir votos) derrotou o candidato do governo. Criaram o monstro! Usou a Operação Lavajato pra vazar o que bem entendesse, contra quem quisesse. Misturou as cartas, tentou arrastar o Lula e editou a página mais trágica da história do jornalismo brasileiro até hoje, tristemente já famosa edição de uma hora no JN contra o ex-presidente Lula que chocou o Brasil. Só tirou o pé do acelerador porque no meio do caminho encontrou aliados seus envolvidos  na corrupção em listas nas quais não aparecem os nomes de Lula e Dilma. Tarde demais, o formigueiro já fora atiçado…

Nos últimos dias, o editorial golpista foi concentrado na manipulação de que impeachment não é golpe. A estratégia de tentar explicar o inexplicável surgiu porque correu o mundo nas redes sociais o  #NãoVaiTerGolpe. A golpista (e sua corja) ficou assustada com a reação das ruas e de todos os segmentos da sociedade. Aí passou a dizer que todos “defendem o governo e o PT”, em tom debochado, quando sabe que todos defendem a democracia, são contra o golpe. E que, generosamente, pessoas com divergências em relação ao governo estão se somando ao movimento por acreditarem que só na democracia a civilidade é possível.

Dentro da estratégia de enfraquecer a base de apoio, a Globo ficou um mês noticiando o rompimento do PMDB com o governo, pressionando, a bem da verdade, os políticos do PMDB para deixarem o governo. Comemorou a saída e anunciou que todos os ministros entregariam os cargos. Como a maioria ficou, passou a criticá-los. Agora, partiu pra cima dos outros partidos da base, dizendo que todos vão sair e que o governo está desesperado e oferecendo cargos para mantê-los, como se não fosse normal a troca devido à saída do PMDB. Sai um; entra outro, ora. Enquanto os partidos aliados não deixam a base do governo e pensam em ficar: a Globo critica. Na edição dessa quarta, 31, o JN falou assim do PP: “o partido com maior número de indiciados na Lava Jato”. Agora, se o PP sair da base do governo, essa condição será apagada e seus parlamentares se transformarão em exemplares.

Portanto, devemos seguir pressionando nas ruas, nas redes sociais, nos atos em teatros, anfiteatros, auditórios de universidades, bares, quadras, esquinas, becos, praças e avenidas. E explicando para a população porque não há base legal para o impeachment e que, por isto é golpe. Vamos desmontar a estratégia e falar para a população que “pedalada fiscal” não é crime para impeachment, que elas foram feitas pra ajudar os pobres do Bolsa Família, para evitar a parada dos programas sociais, a favor do povo brasileiro… Então, só o povo na rua pra derrotar os golpistas capitaneados pela Globo que estão jogando suas últimas cartadas.

Não Vai Ter Golpe

Globo muda estratégia pra dizer que golpe não é golpe

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(*) Caco Schmitt, jornalista que cita a jornalista Hildegard Angel: “Serviçais do golpe não merecem ser chamados de jornalistas“.

Os golpistas, capitaneados pela Globo, agora mudam a tática e tentam dizer que impeachment não é golpe. Nos últimos dias, começaram a colocar no ar entrevistas com “juristas” dizendo que impeachment não é golpe. Usam a velha tática de manipulação das palavras muito conhecida de todos que trabalham na imprensa. Perguntam ao entrevistado: “impeachment é golpe, vossa excelência?”. Resposta: “Não, está na Constituição…” E aplicam esta resposta a uma pergunta genérica nos telejornais em meio a frases da presidente Dilma denunciando o golpe. Passam a ideia de que os “juristas” estão contestando a presidente e toda a sociedade que está nas ruas (e fazem repetida e nazistamente como mandava Joseph Goebbels – ver artigo “Por que a Globo é golpista”).

Esta tática é o recurso dos assustados que viram nas ruas que a maioria do povo brasileiro é contra o golpe. O que o Brasil assistiu desde a emblemática sexta-feira, dia 18, marco da forte reação da sociedade civil, é um número impressionante de manifestações espontâneas contra o golpe. A maioria do povo brasileiro está dando seu recado: respeitem os 55 milhões de votos; respeitem a democracia. Em todo País, artistas, religiosos, jornalistas, trabalhadores, intelectuais, universitários, juristas e… o povo, que começou a invadir shoppings da classe alta e mostrar a cara contra o golpe apoiado pela elite branca. Até nas baladas da juventude… Manifestações grandiosas, atos públicos, marchas, caminhadas alegres e sem ódio.

A resposta da maioria dos brasileiros forçou um recuo tático nas edições dos telejornais da Globo dessa semana, que ficaram um pouco menos virulentos, especialmente depois da divulgação do listão da Odebrecht que coloca os também articuladores do golpe José Serra e Aécio Neves com doações polpudas de R$ 1 milhão e R$ 1,6 milhão, respectivamente. E como os juristas afirmam que a base legal do pedido de impeachment da presidenta não tem consistência, a Globo golpista mudou a tática pra dizer que o golpe não é golpe.

Mas não adianta: o impeachment é golpe porque não tem base legal, como já afirmaram os especialistas, do contrário 15 governadores deveriam ser “impichados” pelos mesmos argumentos das pedaladas fiscais. O impeachment é golpe porque é revanchismo dos inconformados que já no primeiro dia depois das eleições queriam invalidar as eleições e assumir o poder. O impeachment é golpe porque a golpista Globo mistura as investigações da Lava-jato (apesar de até agora não terem achado pelo em ovo contra a Dilma) com o processo de impeachment, de forma vergonhosa e nazista (… sempre repetindo Goebbels) nas edições dos telejornais, tentando criar a “impressão” que a presidenta está sendo processada não por causa de umas pedaladas sem base legal e sim por causa da corrupção generalizada da qual os julgadores do processo estão atolados até o pescoço.

Vamos todos denunciar esta manobra nas redes sociais e no dia a dia das conversas e manifestações contra o golpe, como a desta quinta-feira, 24 de março, quando mais de 30 mil brasileiros caminharam do Largo da Batata até a porta da Rede Globo São Paulo, avisando: a próxima manifestação vai ser aí dentro…

Por que a Globo é golpista…

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Por Caco Schmitt, jornalista que cita a jornalista Hildegard Angel: “serviçais do golpe não merecem ser chamados de jornalistas”.

1 – PORQUE TROCOU O JORNALISMO PELA PROPAGANDA NAZISTA: a Globo usa táticas nazistas de propaganda para manipular a verdade. O ministro da Propaganda do Reich de 1933 a 1945, Joseph Goebbels, dizia: “de tanto repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade”, ou seja: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. A Globo, por deter a maior audiência do Brasil, usa seus veículos para criar a “verdade que lhe interessa”. Manipula fatos, esconde manifestações contrárias a sua ideologia e usa uma concessão pública não a favor do interesse público e a favor da verdade como estabelece a concessão de um canal de tevê, e sim a favor dos seus interesses e da sua verdade.

2 – PORQUE CRIA ARTIFICIALMENTE FATOS PARA TUMULTUAR O PAÍS: ardilosamente, a Globo usa táticas grosseiras para confundir o telespectador e jogar a opinião pública contra quem ela quer. Repete, repete (Goebbels…) uma série de gravações ilegais, que nada de ilegal revelam, criando artificialmente uma impressão (tevê é basicamente uma impressão do que fica registrado) que ali existe algo de errado. E, na sua tática de propaganda nazista, usa o videografismo, as artes na tela, para aumentar a impressão. Usa de fundo das gravações a mesma arte que caracteriza a cobertura da Lava jato, onde aparecem os dutos sujos de petróleo, parecidos com canos de esgoto, estabelecendo uma falsa ligação entre dois fatos.

3 – PORQUE É CRIMINOSAMENTE PARCIAL NAS COBERTURAS “JORNALÍSTICAS”: na sua lógica de propaganda nazista, a Globo usa os fatos como bem quer e sempre a serviço do golpe. Planeja suas coberturas “jornalísticas” (propaganda nazista) de modo a repetir a sua verdade. Exemplo: se a manifestação é de direita, é o “Brasil”; se é pela legalidade, “defensores de Dilma e Lula” vão às ruas. Se alguém é contra o golpe aparece na edição como petista; se for a favor do golpe é uma pessoa responsável ou um brasileiro “revoltado”. Nas recentes manifestações de rua, cobriu até meia dúzia de gatos pingados em uma esquina qualquer desde que eles fossem contra o governo; já grandes manifestações contra o golpe como Porto Alegre (60 mil pessoas nas ruas) sequer foram mostradas ou apenas notinhas jogando sempre pra baixo o número de manifestantes. Quando na rua pessoas portam cartazes ofensivos contra as autoridades, a imagem é em close, bem pertinho e com áudio; quando é contra o golpe, não existe close nem áudio. Cabe aqui citar, porque bombou nas redes sociais, o post da artista Leandra Leal: “GloboNews estou trabalhando e assim como domingo e ontem queria acompanhar as manifestações, cadê a cobertura ao vivo?”

4 – PORQUE USA UMA CONCESSÃO PÚBLICA PRA INSUFLAR GOLPE CONTRA OS PODERES CONSTITUÍDOS: nos últimos meses a Globo transformou-se na maior propagandista das manifestações golpistas, insuflando o golpe, chamando as pessoas às ruas e manipulando. Interrompe a programação normal e seus jornalistas (jornalistas?) fazem apelos: “é cedo, ainda não tem muita gente, mas dá tempo pra vir, venham…”. Como agora, quando meia dúzia acampa na calçada em frente à Meca dos golpistas de São Paulo, a FIESP, mostra e diz que este número vai crescer… É que o governo foi democraticamente eleito por 55,4 milhões de votos, portanto, as ruas têm ter muita gente contra, ou, pelo menos, aparentar…. Cabe aqui citar o jornalista Glenn Greenwald, do The Guardian, que denuncia a tentativa de golpe no Brasil.

“Ao contrário da descrição romantizada e mal informada (para dizer o mínimo) do Chuck Todd e Ian Bremmer de protestos sendo levantados “pelo Povo”, esses são, na verdade, incitados pela mídia corporativa intensamente concentrada, homogeneizada e poderosa …, mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. Os perfis no Twitter de alguns dos repórteres mais influentes (e ricos) da Rede Globo contém incessantes agitações anti-PT. Quando uma gravação de escuta telefônica de uma conversa entre Dilma me Lula vazou essa semana, o programa jornalístico mais influente da Globo, Jornal Nacional, fez seus âncoras relerem teatralmente o diálogo, de forma tão melodramática e em tom de fofoca, que se parecia literalmente com uma novela distante de um jornal, causando ridicularização generalizada nas redes.

Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos”.

5- PORQUE DEFENDE ILEGALIDADES PARA INSUFLAR O GOLPE: na sua decisão irresponsável de trocar o jornalismo pela propaganda golpista, a Globo não abre sequer espaço para discutir a legalidade de vários episódios, atropelando a ética jornalística (cadê a ABI – Associação Brasileira de Imprensa, cadê a Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas?). No caso do grampo de um presidente da República ser vazado sem autorização da Suprema Corte, silêncio.. porque interessa ao golpe confundir. Veicular repetidamente (Goebbels…) uma conversa entre presidente e ex-presidente, mesmo que não contenha ilegalidade, ajuda a criar a “impressão” de ilegalidade quando, em verdade, ilegal foi o ato. Tem divulgado há meses gravações ilegais, vazamentos seletivos e com falas editadas e manipuladas. Cabe aqui lembrar que o professor titular de Direito Penal da USP, Sérgio Salomão Shecaira, afirmou, na noite de quinta (17), que o juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, cometeu um crime ao divulgar os grampos envolvendo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta Dilma Rousseff e deve ser preso. Em uma fala repleta de críticas ao judiciário, ele participou, ao lado de outros juristas de ato em defesa da democracia, realizado em São Paulo, na Faculdade de Direito da USP.

6- ESCONDE DA OPINIÃO PÚBLICA A ILEGALIDADE DE SEUS ALIADOS PARA NÃO PREJUDICAR O GOLPE EM MARCHA: como a Globo abandonou o jornalismo para fazer propaganda ilegal do golpe, nada mais natural do que esconder as ilegalidades de quem está do seu lado ou a seu serviço. Caso do ex-presidente FCH, que salvou a Globo com empréstimos do BNDS, e cujo noticiário envolvendo o escândalo de mandar dinheiro para o exterior usando uma empresa que recebeu dele uma concessão para explorar aeroportos sumiu. Caso de todos os escândalos envolvendo o trensalão, merenda escolar etc. de seu aliado golpista Geraldo Alckmin, o governador que liberou as catracas do metrô no dia da manifestação golpista (já pensou se um governador petista fizesse algo parecido?). E a proteção ao candidato a presidente derrotado que até hoje não se conformou e, de modo revanchista, está ajudando a criar o clima de guerra civil no Brasil. Não vou nem falar de questões pessoais, só destacar a denúncia de parcialidade envolvendo o “casal do Aécio” na Globo de Brasília, formado por Andreia Sadi (jornalista que cobre as manifestações contra o golpe com ar sério e as golpistas com sorriso), da GloboNews, e Paulo Celso Pereira, coordenador de política do Globo em Brasília. O Pereira é primo do Aécio, passa tudo que os repórteres levam a ele para o primo, seu padrinho de casamento com a repórter Andreia.

8 – PORQUE USA NOTÓRIOS ACUSADOS DE CORRUPÇÃO PARA ATINGIR SEUS OBJETIVOS: um deles é o Cunha, presidente da Câmara, que por artimanhas apoiadas pela Globo mantém seu processo de cassação parado há cinco meses no Conselho de Ética e quer votar em um mês o processo ilegal (por não ter nenhum crime) de impeachment da presidenta Dilma. Porque usa acusados como Delcídio, execrado e que, agora, virou moço bom ao dar entrevistas com mentiras que serão repetidas (Goebbels…) à exaustão. Porque usa bandidos acusados o Paulinho da Força, réu no Supremo por desvios no BNDS, que diz em gravação “que tem muita gente para financiar o impeachment”. Ao invés de, jornalisticamente, investigar, ignora porque não faz jornalismo para mostrar fatos ao povo brasileiro. E deixa livre, por enquanto, 61% dos deputados federais escolhidos a dedo para formar a Comissão do Impeachment, públicos que receberam doações das empresas da investigadas na Lava jato, ou seja: 40 dos 65 deputados. Assim que eles conseguirem o que a Globo quer, serão dispensados…

9 – PORQUE ESCONDE (POR APOIAR) O CLIMA DE GUERRA CIVIL NO BRASIL: o papel de uma organização que detém uma concessão pública deve ser o bem-estar da população e a defesa das instituições democraticamente constituídas, em resumo, defender a ordem constitucional, mas a Globo golpista trata com desdém os sinais do fascismo e da guerra civil em curso no País: sedes do PT são invadidas, pichadas e atacadas; sedes de organizações sindicais como CUT são atacadas; a polícia dos golpistas invade locais onde são organizadas reuniões públicas e legais; pessoas contrárias ao golpe estão sendo agredidas por usarem roupas vermelhas e defenderem a DEMOCRACIA. A história vai cobrar…

10 – PORQUE, PASMEM, NO FUNDO A GLOBO DEFENDE O GOLPE PRA SOBREVIVER: a Globo é golpista porque coloca o Brasil no momento mais grave de sua história, coloca em risco a democracia, não só para impor sua ideologia de direita, não só para defender o capital financeiro internacional, não só para entregar as riquezas do País como petróleo (e ficar como sempre com as migalhas…), por trás de todo processo tem um objetivo escondido: manter-se viva. Em 2007, ano em que o processo de sonegação da Globo foi subtraído da Delegacia da Receita Federal em Ipanema, Rio de Janeiro, a emissora teve as cinco principais concessões do grupo vencidas – São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília e Distrito Federal. A Globo tinha sido autuada por crime contra a ordem tributária, por deixar de recolher o imposto de renda relativo à compra do direito de transmissão da Copa do Mundo de 2002. Seu débito, incluindo juros e multa, era à época de 615 milhões de reais. Apesar de devedora, a TV Globo teve as cinco concessões renovadas por um período de quinze anos (até 2022). Qual o medo da Globo?

O que aconteceu na Venezuela, onde o ex-presidente Hugo Chávez não renovou a concessão da RCTV golpista. A Globo tem medo de que mais um governo popular não renove sua concessão. Por isso, com apoio dos empresários, políticos fascistas travestidos de democratas e especuladores financeiros internacionais e organismos de espionagem norte-americanos, provoca o caos no Brasil para conseguir sobreviver. Quem sabe daqui alguns anos, a Globo faça novo editorial, como fez há pouco, se desculpando por ter apoiado o golpe militar e a Ditadura instalada em 1964.

Lutar contra a Globo é defender a democracia e evitar a guerra civil,

Se o capital está a favor do impeachment de Dilma, então é melhor contrariá-lo

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Jacques Távora Alfonsin

Manifestações públicas de organizações empresariais poderosas estão se pronunciando sobre a crise brasileira do momento, algumas de forma um pouco mais discreta, mas a maioria de forma explícita, em favor do impeachment da presidenta Dilma.

Um olhar sobre o passado recomenda bastante cuidado com o que estão dizendo. Não tanto pelo fato de não refletirem a unanimidade do empresariado do país, como se todo ele fosse favorável ao impeachment, mas principalmente pela semelhança que mostram com o apoio explícito dado ao golpe militar de 1964, quando grupos econômicos poderosos se apressaram em avalizar a supressão da democracia, então perpetrada contra a República e o seu povo.

Um exemplo mais do que lembrado e repetido disso forneceu a Rede Globo. Décadas depois do golpe, viu-se obrigada e constrangida a se desculpar por sua cumplicidade com a barbárie desencadeada então, mancha atualmente denunciada por todas as pessoas que voltam a identificar nesse grupo midiático a mesma recaída daquela época.

A Folha de São Paulo desta sexta-feira, 18 de março, dá um outro exemplo. O presidente da Riachuelo, “que comenda um dos maiores grupos de varejo do país”, segundo a notícia, “avalia que a convocação de novas eleições seria a melhor saída para o impasse que paralisa o Brasil, mas pondera que as saídas mais viáveis politicamente são a renúncia ou o impeachment de Dilma”.

Parece tão convicto de essa hipótese já constituir-se fato consumado ao ponto de “defender que o vice-presidente Michel Temer assuma o comando do país, apesar do seu envolvimento com a Operação Lava-Jato.”

Incrível não? As graves acusações contra políticos, investigados nessa operação, partidas de empresários como esse, tem esse tipo de dupla moral revelado da forma mais clara possível: se a Operação Lava-Jato alcançar a presidenta, prova a imoralidade desta e sua queda tem de ser decretada, mas se está investigando o seu vice, aí não! Mesmo processado, a “moralidade” deste é diferente, por gozar do prestígio e do apoio do empresário.

Ou seja, quem pode e deve impor o que seja moral ou não, é o empresário, Queiram e aguentem assim as leis, as instituições, as autoridades e o povo. Não foi bem esse o resultado do golpe de 1964?

Sob o título “Entidades empresariais pedem saída de Dilma”, a Zero Hora deste mesmo 18 de março, noticia serem favoráveis ao impeachment também a Fiesp, Firjan, a Fecomercio do Rio Grande do Sul, a Câmara da Indústria e Comércio de Caxias do sul, mais “22 sindicatos patronais filiados”.

Como não há possibilidade de impeachment para o capital, circunstância por si só demonstrativa da impossibilidade de ele ser responsabilizado pela sua imoralidade, essa diferença em relação ao Estado dá chance de a “economia da despossessão” por ele gerada, conforme a identifica David Harvey, ser avaliada pelo menos segundo o peso de sua expressão, no criar e reproduzir crises exponencialmente muito mais graves do que a do Brasil de hoje. Inclusive para se medir sua influência decisiva sobre a imoralidade política por ela própria impulsionada.

No conhecido estudo “O enigma do capital”, Harvey denuncia como a inconformidade contrária aos efeitos socialmente injustos dessa economia, está chegando com atraso, no hoje do mundo todo, exatamente pelo que está mais em causa na crise brasileira de agora pelo capital mesmo acusada como a sua principal causa: a moralidade.

Se a moral, privada ou pública, não for capaz de empoderar mobilização coletiva, suficiente para bem identificar o verdadeiro alvo da sua indignação, ela pode ser enganada mais pelo alto-falante de quem se proclama seu porta-voz do que pela necessidade de mudanças muito mais profundas e estruturais do que as dos comportamentos econômico-políticos de agora:

“Na medida em que a indignação e o ultraje moral se constroem em torno da economia da despossessão que de modo tão claro beneficia uma classe capitalista aparentemente toda – poderosa, movimentos políticos necessariamente tão diferentes começam a se fundir, transcendendo as barreiras do espaço e do tempo. Entender a necessidade política disso exige em primeiro lugar que o enigma do capital seja desvendado. Uma vez que sua máscara é arrancada e seus mistérios são postos a nu, é mais fácil ver o que tem de ser feito e por que, e como começar a fazê-lo. O capitalismo nunca vai cair por si próprio. Tem de ser empurrado. A acumulação do capital nunca vai cessar. Terá de ser interrompida. A classe capitalista nunca vai entregar voluntariamente seu poder. Terá de ser despossuída. Fazer o que tem de ser feito exigirá tenacidade e determinação, paciência e astúcia, juntamente com compromissos políticos firmes originados da indignação moral em relação ao que o crescimento composto explorador faz com todas as facetas da vida humana e não apenas no planeta Terra. Mobilizações políticas suficientes para tal tarefa ocorreram no passado. Podem, e certamente virão outra vez. Estamos, penso, atrasados.” (“O enigma do capital e as crises do capitalismo”, São Paulo: Boitempo, p.209)

“Empurrar” o capital, “interromper” a sua acumulação, “despossuir” o seu poder de classe. Qualquer crítico identificará aí o pensamento marxista do autor, mas, se tiver algum senso verdadeiramente moral, terá de reconhecer, sem poder negar o quanto essa economia empurra gente para a pobreza e a miséria, interrompe antecipadamente vidas, despossui multidões de pessoas no mundo todo, não de dinheiro, coisas ou mercadorias, mas sim de dignidade, honra, cidadania, convivência fraterna, bem-estar, humanidade enfim.

Thomas Piketty, por exemplo, não é marxista, mas, em “O capital no século XXI” não diz coisa muito diferente. Se é o poder econômico, então, que está inspirando o impeachment da presidenta Dilma, a sua fonte ética está mais do que poluída e, por via de consequência lógica, a sua legitimidade também. De outra parte, se a história serve mesmo de aviso, não lhe basta nem o número de pessoas nem o volume do som que puxam o seu cortejo. À marcha multitudinária e militante por Deus, pátria, família e liberdade de 1964, seguiu-se uma procissão de tanques nas ruas, torturas nas cadeias, sangue, lágrimas e morte.

Hoje tudo é diferente e essa hipótese é alarmista? Pode até ser, mas, como Harvey previne, não se pode chegar atrasada/o para impedir que as mesmas, violentas e injustas consequências, violando direitos fundamentais das/os brasileiras/os, sejam impostas por outros meios, mesmo quando esses tenham o poder de manipular, a seu gosto, a interpretação da Constituição Federal e das leis.

Deputados pedem que MP Federal investigue relação de ‘offshores’ com Globo e FHC

Segundo Paulo Pimenta, há fortes indícios da prática de crimes como organização criminosa, lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, sonegação fiscal, além de outras ações criminosas contra a administração pública, contra o sistema financeiro nacional e contra a ordem tributária. (Foto: Divulgação)

Segundo Paulo Pimenta, há fortes indícios da prática de crimes como organização criminosa, lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, sonegação fiscal, além de outras ações criminosas contra a administração pública, contra o sistema financeiro nacional e contra a ordem tributária. (Foto: Divulgação)

Os deputados Paulo Pimenta (PT-RS) e Wadih Damous (PT-RJ) protocolaram nesta quarta-feira (2), no Ministério Público Federal, um pedido para que sejam feitas diversas investigações sobre as conexões entre a Rede Globo, a FIFA, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e offshores do Panamá que teriam sido utilizadas para cometer crimes contra o sistema financeiro, a ordem tributária e a administração pública. O documento é subscrito por mais de 30 parlamentares.

Segundo Pimenta e Wadih, “há fortes indícios da prática de crimes como organização criminosa, lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, sonegação fiscal, além de outras ações criminosas contra a administração pública, contra o sistema financeiro nacional e contra a ordem tributária”.

Na representação encaminhada ao MPF, Pimenta e Wadih Damous pedem que sejam investigadas e esclarecidas, entre outros, “a existência de eventuais bens da família Marinho em situação ilícita de ocultação patrimonial; as atividades das offshores vinculadas ao grupo Globo; e as relações entre a Globo, suas respectivas empresas e offshores e a FIFA”. As offshores aparecem como proprietárias de uma mansão da família Marinho, construída ilegalmente em área de proteção ambiental na ilha de Paraty (RJ) e de um helicóptero também usado pela família Marinho, dona da Rede Globo.

Os parlamentares cobram esclarecimentos também quanto ao uso de uma empresa, a Brasif, utilizada por FHC para enviar 100 mil dólares a jornalista Miriam Dutra, com quem o ex-Presidente tucano tem um filho. Miriam Dutra trabalhou para a Globo por 25 anos. Recentemente, Miriam contou que foi “exilada” na Europa pela Globo na década de 1990 para não prejudicar a imagem de FHC que seria candidato à presidência da República. Na época, FHC era casado com Ruth Cardoso.

A Brasif teria sido proprietária da Eurotrade Ltd, com sede nas Ilhas Cayman. A Eurotrade Ltd. firmou, em 2002, contrato com a jornalista Miriam Dutra, como ela mesma afirmou à “Folha de São Paulo”, e como admitido em nota pela própria Brasif. Segundo declarou Miriam Dutra à “Folha”, FHC usou essa empresa para “bancá-la no exterior”. A Brasif teria sido beneficiada em licitações durante o governo FHC. Também existem indícios que a Brasif tenha operações relacionadas às mesmas offshores de origem panamenha.

Em outra entrevista, Miriam disse que o diretor de jornalismo da Globo Alberico de Souza Cruz a “ajudou a sair do Brasil”. Ela sugere que Alberico ganhou concessão de TV em Minas Gerais como retribuição a esse favor que fez a FHC. Miriam também contou que uma forma de retribuição do governo FHC à Globo por seu “exílio” na Europa foram os muitos financiamentos a juros baixos concedidos à emissora via BNDES. Essa relação entre Globo e BDNES também foi incluída pelos deputados petistas no pedido de investigação ao MPF.

Na semana passada, o deputado Pimenta apresentou à imprensa um organograma demonstrando as conexões entre offshores/Globo/FHC e solicitou apuração por parte do Ministério da Justiça. Um inquérito foi aberto pela Polícia Federal para investigar. A íntegra da representação está disponível aqui: http://goo.gl/83vseH

‘Sartori está partindo o Rio Grande ao meio com uma política mais radical que a da Yeda’

“O governador Sartori tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“O governador Sartori tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Flavio Koutzii nos recebeu em seu apartamento, no Bom Fim, na tarde cinzenta e abafada do último dia de 2015. Uma data apropriada para falar sobre a conjuntura política de um ano extremamente conturbado e repleto de acontecimentos. A poucas horas da passagem de ano, diminuía a possibilidade de uma nova surpresa. O final de ano foi alucinante. Koutzii confessa que estava muito pessimista até o início de dezembro, quando a retomada da capacidade do campo de esquerda de levar gente para a rua, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o rito do processo de impeachment e a conduta de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, jogaram um balde de água fria na ânsia oposicionista de derrubar a presidenta Dilma Rousseff.

“Houve certa surpresa com algumas decisões muito recentes e essa surpresa precisa ter uma explicação”, diz Koutzii. Na entrevista ao Sul21, ele apresenta alguns elementos para construir uma explicação sobre o estado das coisas no cenário nacional e também no cenário estadual. Para tanto, utiliza com fio condutor comparativo uma realidade que acompanha de perto há décadas: a da política argentina. Além de lutar contra a ditadura brasileira, Flavio Koutzii participou também da luta armada contra a ditadura argentina, sendo preso em Buenos Aires, em 1975. Ficou quatro anos preso, sofrendo torturas físicas e psicológicas. A comparação com a situação da política argentina não é gratuita.

Para Koutzii, os governos Kirchner fizeram algo que faltou aos governos nacionais do PT, a saber, uma disputa mais sistemática do sentido político das realizações e dos conceitos do governo e a disposição para assumir alguns confrontos, como fizeram no tema da mídia, por exemplo. Mesmo com a derrota eleitoral agora, defende, essa postura produz outro tipo de educação política na sociedade, o que deverá dificultar os planos do novo presidente, Mauricio Macri.

No plano estadual, o ex-chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra enxerga o governo de José Ivo Sartori (PMDB) adotando a mesma lógica de “fazer todo o mal de uma só vez”, aplicada por Macri. E seguindo uma mesma agenda neoliberal também, de diminuição do papel do Estado e de ataque aos servidores públicos. Mas, para Koutzii, Sartori não tem apenas uma “cara de Macri”. “Ele também tem seu lado de Yeda. Ele não usava a expressão ‘déficit zero’, mas está atuando exatamente como se fosse, de um modo até mais radicalizado”. Essa política, afirma, “está partindo o Rio Grande ao meio”. (Leia aqui a íntegra da entrevista ao Sul21)

Nossa gênese tão bela que a glamourização torna tão pobre

gaucho190 Renato Dalto (*)

Auditório Araújo Vianna, Porto Alegre, noite de 26 de novembro de 2013. Bordoneios de gaita-ponto, violões e lengueros, vozes e versos entoaram um sentimento comum de amor à terra e afago às raízes. Falaram então no negro que abria a gaita e o livro da vida. De uma alma que, como um poço, embala a angustia e o sonho de ser um rio. De gente exilada tinindo esporas na periferia da capital. De um céu de pampa em forma de milonga. De pacholices e romances que, ao cair da tarde, ouviam a chuva como pingos de amor. Enfim, de tantas coisas assim, pinceladas na doce melancolia da solidão, no viajante que mal tem tempo de limpar os pesuelos.

Quem fechasse os olhos e se deixasse levar por essas canções, veria enfim crepúsculos como um fogaréu, potros engolfando distâncias e rebeldias, uma estrada, uma tropa, um rio correndo, um barulho de água e vento. Cantava-se a gênese, a beleza, o sentimento de ser de um lugar. Casualmente o sul. Poderia ser o norte ou qualquer latitude, pouco importa. Importa ser de um lugar do mundo e fazer dele espelho e reflexo. Porque tudo isso é a forja da mais pura poesia. A poesia de quem sabe o que é, de onde veio, e onde cabe o seu lugar no tempo e no espaço.

O que se celebrou ali, naquela noite de novembro, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, foi isso: as músicas que marcaram os festivais nativistas mas, mais que isso, o encontro de tantos marinheiros que levaram a nau de nossa gênese a tantos portos, a tantas gentes, a tantos corações. Ali estava a crueza campeira de um Gaúcho da Fronteira, a sanfona universal de Renato Borghetti, os diálogos com o mundo na canção de Mário Bárbara, o vocabulário cru e enraizado da composição de Telmo de Lima Freitas. Tanta coisa junta, tanta emoção pipocando, o auditório lotado e a noite se esvaindo assim, como se quizessse que o tempo não passasse.

Ali o público cantou junto e atirou na lua como Gaudêncio. Ali se entendeu que essa vida tão rude do homem do campo tem também a trajetória do herói mitológico, só que com outras cores e tintas. Diria que é a simplicidade, a singeleza, a sutil união que  ata barbarismo e ternura. A visão de silêncios profundos em vez de gritos ufanistas. Um confessionário de dores em vez de uma bravata de vitórias. Um ser muitas vezes sem terra, alegria ou destino ao qual chamaram de gaúcho mas lhe negaram sempre um lugar na história pintada pela bravata de discutíveis heróis. Diria que nossa gênese é isso – um longo hiato de silencio e distancia desafiando sempre o homem a domá-los.

De certa forma, os festivais e essas composições trazem isso de volta. A literatura, especialmente com Simões Lopes Neto e Érico Veríssimo, repõe essas marcas  em seus devidos lugares. Mas elas ficam no limite da palavra e, quando ganham outras linguagens, quase nunca a força é a mesma. Contraditoriamente, essa cultura, de uns tempos para cá, caiu nas graças sobretudo do universo global – aquela máquina registradora chamada Globo, que padroniza culturas ao olhar de Copacabana – e, enfim, se acenderam os holofotes do deslumbramento. Ai ai ai de mim, cantava um dos versos na noite do Araújo Vianna. Ai ai ai de nós quando a Globo chegou.

Temos visto um deslumbramento quase infantil – ou de índios recebendo espelhinhos de europeus – quando os “globais” aportam por aqui. E aí mostram ao mundo nossa gênese em forma de clichês e achincalhamento, desde batalhas farroupilhas nos canions de Aparados a estupendos sinais de desconhecimento de hábitos e traços culturais. Houve até um secretário de estado cujo maior objetivo de gestão foi colocar o Rio Grande do Sul na Globo. Foi quando a história de sete mulheres de telenovela mostraram tudo o que não somos e a Globo nos devolveu o lixo para que acreditássemos que o tinham transformado em ouro. Tem sido sempre assim.

O outro capítulo  é agora esse “O Tempo e o Vento” padrão novela das oito para a gênese fundadora de nossa melhor literatura, que tem arrancado da critica que se deslumbrava nos sets de filmagem respeitosos silêncios para não comprometer o negócio. Bom negócio, aliás, que levou até dinheiro público de um banco estatal de um governo que fala em igualdade e democratização da cultura. Sabe como é: todos são iguais mas a insígnia da Globo é mais igual que os outros. O refrão “A Globo te faz de bobo” segue em alta. E segue vindo gente de lá com a malinha na mão pra buscar ouro por aqui. Até governos inteligentes e discursos argutos se idiotizam diante do plim plim.

Nossa simplicidade tisnada de terra e labareda não é a simploriedade de um Jeca Tatu. Por isso, de certa forma, todos lavaram a alma nessa noite de novembro do Araújo Vianna. Ali se viu o quanto nossa gênese é bela, rica justamente pela sua singeleza, pelo seu calor de fogo e aperto de mão, pela sua ternura de aço e braseiro. Globo e globais aportam por aqui para dizer que nossa gênese vale muito pouco. No máximo, é um bom negócio. Mas o cancioneiro popular segue resistindo. Gaitas ainda se abrem nos dedos hábeis dos negros. Versos brotam do chão dos galpões. O pampa segue imenso e aberto, como deveria ser nossa alma. Nossa gênese, decididamente, não vale tão pouco. Apesar da Globo, dos globais e dos deslumbrados que pagam tão caro para serem tão ridicularizados.

Ainda bem que temos outras canções para ouvir.

(*) Renato Dalto é jornalista.

Petição condena defesa de assassinatos feita por comentaristas da Globo

Um grupo de jornalistas, professores e estudantes decidiu criar um abaixo-assinado ‘contra a defesa explícita da prática de assassinatos como meio de fazer política, perpetrada por comentaristas da Rede Globo’. No dia 15 de janeiro deste ano, o jornalista Caio Blinder defendeu abertamente no programa Manhattan Conection o assassinato de cientistas iranianos como um meio válido de fazer política. O comentário foi apoiado por Diogo Mainardi, outro comentarista da Globo. A petição que está circulando na interne afirma:

Srs. Diretores da Rede Globo

Causa profunda surpresa, indignação e perplexidade assistir a um programa de vossa emissora em que jornalistas, comentaristas e palpiteiros assumam a defesa explícita da prática de assassinatos como meio válido de fazer política.

Isso foi feito abertamente, no dia 15.01.2012, por Diogo Mainardi e Caio Blinder, ambos empregados da Rede Globo (o trecho em questão pode ser acessado no youtube.

Depois de fazer brincadeiras de gosto muito duvidoso sobre a sua suposta condição de agente do Mossad (serviço secreto israelense), Caio Blinder alegou que os cientistas que trabalham no programa nuclear iraniano são empregados de um “estado terrorista”, que “viola as resoluções da ONU” e que por isso o seu assassinato não constituiria um ato terrorista, mas sim um ato legítimo de defesa contra o terrorismo. Trata-se, é óbvio, de uma lógica primária e rudimentar, com a qual Mainardi concordou integralmente.

Parece não ocorrer a ambos o fato de que o Estado de Israel é liderança mundial quando se trata em violar as resoluções da ONU, e que é acusado de prática de terrorismo pela imensa maioria dos países-membros da entidade. Será que Caio Blinder defende, então, o assassinato seletivo de cientistas que trabalham no programa nuclear israelense (jamais oficializado, jamais reconhecido mas amplamente conhecido e documentado)?

Ambos, Caio Blinder e Diogo Mainardi – se associam ao evangelista fundamentalista estadunidense Pat Robertson, que, em abril de 2005, defendeu em rede nacional de televisão, com “argumentos” semelhantes, o assassinato do presidente venezuelano Hugo Chávez, provocando comentários constrangidos da Casa Branca.

Ao divulgar a defesa da prática do assassinato como meio de fazer política, a Rede Globo dá as mãos ao fundamentalismo – não importa se de natureza religiosa ou ideológica – e abre um precedente muito perigoso no Brasil. Isso é inaceitável.

Atenção: não defendemos, aqui, qualquer tipo de censura, nem queremos restringir a liberdade de expressão. Não se trata de desqualificar ideias ou conceitos explicitados por vossos funcionários. O que está em discussão não são apenas ideias. Não são as opiniões de quem quer que seja sobre o programa nuclear iraniano (ou israelense, ou estadunidense…), mas sim o direito que tem uma emissora de levar ao ar a defesa da prática do assassinato, ainda mais feita por articulistas marcadamente preconceituosos e racistas. Em abril de 2011, o mesmo Caio Blinder qualificou como “piranha” a rainha Rania da Jordânia, estendendo por meio dela o insulto às mulheres islâmicas. Mainardi é pródigo em insultos, não apenas contra o Islã mas também contra o povo brasileiro.

Se uma emissora do porte da Globo dá abrigo a tais absurdos, mais tarde não poderá se lamentar quando outros começarem a defender, entre outras coisas, a legitimidade de se plantar bombas contra instalações de vossa emissora por quaisquer motivos, reais ou imaginários – por exemplo, como forma de represália pelas íntimas relações mantidas com a ditadura militar no passado recente, pela prática de ataques racistas contra o Islã e o mundo árabe, ou ainda pelos ataques contumazes aos movimentos sociais brasileiros e latino-americanos.

Manifestações como essas de Caio Blinder e Diogo Mainardi ferem as normas mais elementares da convivência civilizada. Esperamos que a Rede Globo se retrate publicamente, para dizer o mínimo, tomando distância de mais essa demonstração racista de barbárie.

Agradecemos a atenção.