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O sentimento de exílio e a metástase que se espalha pelo Brasil

La vuelta del exilio, de Rafael Arozarena. (Reprodução)

No início deste ano, em um debate realizado no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, Flavio Koutzii falou do retorno de alguns sentimentos incômodos vivenciados no período pós-golpe de 64 no Brasil: o sentimento de sentir-se exilado dentro do próprio país e o de um profundo estranhamento em relação ao que nos cerca. A palavra “cerca” aqui tem um duplo sentido: o que nos rodeia e o que nos prende a um pequeno espaço, como se fosse a ante-sala de um matadouro.

O nível de degradação, cinismo, mentira e corrosão de qualquer coisa que possa ser chamada de estado de direito e de justiça hoje no país parece alimentar esses sentimentos de exílio e estranhamento nos corações e mentes de muita gente. A sensação de estranhamento em relação aos cenários para os quais fomos empurrados nos últimos meses é crescente. Há cenários e personagens bizarros circulando com uma naturalidade tal que parece configurar a invasão de uma realidade paralela, uma versão tupiniquim do clássico “Invasores de Corpos”.

O que se viu na Câmara dos Deputados hoje foi mais um capítulo dessa bizarrice. Nada surpreendente. Tudo previsível. E é por isso mesmo que parece mais grave. Muito se falou hoje da apatia da população em relação ao que acontecia no Congresso. Talvez não tenha sido apatia, mas uma desistência mais profunda em relação aquele ambiente pútrido protegido por uma polícia militar que, cada vez mais, assume a função de guarda pretoriana dos destruidores da democracia e do país. Um tímido protesto ocorreu no final da tarde e início da noite. Os zelosos policiais lá estavam, para evitar que os invasores de corpos fossem perturbados. Cercar o Congresso hoje significaria o que mesmo?

A perda progressiva do sentido de pertencimento a uma nação, o crescimento dos sentimentos de exílio e de desistência são sintomas da metástase que vai tomando conta do Brasil. Na Itália, o resultado da Operação Mãos Limpas foi a ascensão de Berlusconi ao poder. Aqui, a Operação Lava Jato e suas ramificações políticas, jurídicas e midiáticas podem superar essa marca e transformar o Brasil numa grande Líbia.

“Há uma metástase sequestrando as células vivas que ainda restam da Constituição”

"Guido Mantega tem um filho menor de idade e uma companheira que enfrenta um câncer. Foi preso no hospital, enquanto acompanhava um procedimento para tratamento da mulher. Mantega tem residência fixa e não tem antecedentes."

“Guido Mantega tem um filho menor de idade e uma companheira que enfrenta um câncer. Foi preso no hospital, enquanto acompanhava um procedimento para tratamento da mulher. Mantega tem residência fixa e não tem antecedentes.”

Katarina Peixoto

“Quebraram o país. São uns delinquentes. Albertinho já tinha xingado o sujeito no hospital, ele viu antes. Disseram que era barbárie. Tá aí, agora, a polícia foi lá. Tem de ser assim, tem de enjaular tudinho, e o estrago que eles fizeram não vai ser consertado. Pelo menos fica claro, agora, que quebrar o país não é um crime impune. Temos ainda duas semanas antes da eleição, para as pessoas perceberem com o que estamos lidando. Dizem que ela é inocente, vão vendo. O ministro da Fazenda dela está preso! São todos ladrões! E ainda tem gente que acredita neles!”.

Guido Mantega tem um filho menor de idade e uma companheira que enfrenta um câncer. Foi preso no hospital, enquanto acompanhava um procedimento para tratamento da mulher. Mantega tem residência fixa e não tem antecedentes. Não há prova contra Mantega e não há risco de fuga. De novo: ele tem um filho menor de idade e tem uma mulher com câncer, em tratamento.

Não é Lula e ainda não chegou o fim das eleições municipais.

Tem muita gente querida dizendo que está tudo bem e que não estamos nem perto dos anos mais sombrios, passados há pouco.

O câncer é pior que o pau de arara e ele tem essa prerrogativa, de se estender e contaminar quem ama alguém que está doente. O pau de arara, ele se espalha, se vocês entendem. Enjaular, a fim de obter manchetes e notícias de tevê, um marido que acompanha a mulher num procedimento para tratar desse monstro, é vil, odioso.

Qual a ameaça que fundamenta e pode justificar o enjaulamento de Guido Mantega? Em que Estado de Direito essa conduta é referida?

O intento é este: ser vil, ser odioso, promover o linchamento, o ódio, o desejo de morte. O espalhamento do desejo de morte.

É a metástase parasitando o processo penal e sequestrando as células vivas que ainda restam da Constituição. Incurável ferida.