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Entrevista ao Sul21 em 2016: ‘Se elites brasileiras derrubarem Dilma, vai se abrir um fosso social profundo’

Carlos Araújo: “É 2018 que informa todos os movimentos. Os conservadores não admitem, de forma nenhuma, uma nova vitória do Lula”. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

(*) Entrevista concedida por Carlos Araújo ao Sul21 em abril de 2016, em seu escritório, em Porto Alegre.

Marco Weissheimer

Um aparente paradoxo ronda a atual crise política no Brasil. As raízes dessa crise estão no futuro. “Tudo o que está ocorrendo neste momento, desde as eleições passadas, tem como referência 2018. É 2018 que informa todos os movimentos. Os conservadores não admitem, de forma nenhuma, uma nova vitória do Lula, que é um candidato, quer se queira ou não, bastante expressivo e com chance de se eleger em 2018”, assinala Carlos Franklin Paixão de Araújo, político, advogado trabalhista e ex-marido da presidenta Dilma Rousseff. Em entrevista ao Sul21, Carlos Araújo fala sobre a ofensiva conservadora no país para derrubar a presidenta eleita em 2014 e para inviabilizar a possibilidade de uma nova vitória de Lula em 2018.

Araújo reconhece que a situação política e social do país é muito delicada, mas acredita que o governo Dilma tem fôlego para superar a crise atual. E adverte: “Se ocorrer de eles derrubarem a Dilma, acho que vai ficar um fosso social mais profundo do que o que ocorreu após a derrubada de Jango e do suicídio de Getúlio”. Para ele, as elites brasileiras e seus braços midiáticos têm uma postura idealista similar a de grupos de extrema esquerda: “Eles imaginam que a realidade é o que eles pensam que é. Por isso, nunca conseguem traçar uma estratégia mais eficiente. Eles sempre estão anunciando para daqui a pouco uma coisa que não ocorre. Estão nesta aventura de querer derrubar a Dilma, mas derrubar a Dilma é uma aventura inconsequente para eles mesmos. O povo está olhando tudo isso que está acontecendo”, assinala. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Passaporte para o Inferno (I)

“O Zé do Passaporte ficava aberto a noite inteira, e era clássico, naqueles tempos em que a gente vestia paletó e gravata para ir a reuniões dançantes particulares ou aos bailes na Reitoria da Universidade, encerrar lá a madrugada”.

Flávio Aguiar
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ (…) E [o Tempo], afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança faz de mor espanto:/Que não se muda já como soía”.

Luiz Vaz de Camões

Instado pelo Marco Aurélio e pela Katarina, passo a escrever uma série de crônicas rememorando tempos antigos de Porto Alegre. Não se trata de “sessão nostalgia”. Trata-se de evocar a vertiginosa passagem do tempo, coisa necessária hoje para se contrapor a estes arautos do “eterno retorno” às agruras do conservadorismo empedernido que faz questão de manter nosso país, nossa gente, mergulhados na injustiça e na condição subalterna no mundo e a suas vontades.

Chamei estas crônicas, presuntivamente, de “Passaporte para o Inferno”, evocação de cachorro-quente vendido na imortal banca do “Zé do Passaporte”, sita num trailer na esquina da José Bonifácio com a Osvaldo Aranha, perto de onde ficava a entrada do “Parque Shangai”, um parque de diversões com montanha russa, roda gigante e o escambau. Também por ali havia um campo de futebol amador, onde, ainda nos anos sessenta tardios, vi um combinado (!) de veteranos do Internacional e do Grêmio (!!!!) dar um baile num time de recrutas do CPOR, com Elton e Milton Kuelle (do Grêmio) jogando no meio-campo e Larry/Bodinho (do Inter) no ataque, acabando com a defesa adversária.

O Zé do Passaporte vendia todo tipo de cachorro-quente. Usava de tudo: purê de batata, ervilha, maionese, mostarda, ketchup, etc., e tinha um molho de pimenta feroz que deu nome ao predileto do cardápio: “Passaporte para o Inferno”. Ficava aberto a noite inteira, e era clássico, naqueles tempos em que a gente vestia paletó e gravata para ir a reuniões dançantes particulares ou aos bailes na Reitoria da Universidade, encerrar lá a madrugada. Naquela Porto Alegre de então, afora as boates, alguns puteiros e os inferninhos, havia quatro recantos que nunca fechavam, inverno e verão: além do Zé, havia o restaurante Mateus, no centro, uma farmácia na Borges de Medeiros, no térreo do edifício onde ficava o recém-aberto Cinema Continente (onde vi pela primeira vez – das cinquenta que se seguiram – “O Leopardo”, de Visconti/Lampedusa, com Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon e grande elenco de apoio), e, em frente ao Zé, na esquina da Felipe Camarão com a Osvaldo Aranha, o Bar do Fedor.

O Bar do Fedor, na esquina da Felipe Camarão com a Osvaldo Aranha, nunca fechava – simplesmente porque não tinha portas.

O Fedor nunca fechava – simplesmente porque não tinha portas. Servia de tudo: churrasco, sanduíches, cerveja, cachaça, Melhoral (naquele tempo ainda não havia Engov) pra quem precisasse. E ali, em frente ao Fedor, se passou um dos grandes dramas daquela Porto Alegre dos anos 50, ainda antes do Passaporte abrir as janelas do seu trailer.

Como narrativa em primeira pessoa, minha vida começa em 1954,  no dia 24 de agosto. Bateram na campainha de nossa casa, na rua Demétrio Ribeiro, ex-rua da Varzinha. Como era costume, fui abrir. A vizinha, Dona Wanda, nem me cumprimentou. Embarafustou casa adentro, aos gritos: “Dona Elsa” (minha mãe), “acenda o rádio. O doutor Getulio se matou!”

Corremos para o rádio, eu, minha mãe, minha avó Henriqueta, a empregada, Audes Maria, e a vizinha. Rogério, meu irmão mais velho e Nilo, meu pai, estavam fora de casa. Deviam ser umas nove horas da manhã. Emocionado, o locutor do Repórter Esso (seria o Heron Domingues?) lia a Carta Testamento: no fim, “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. Como um repentino flash, me veio à mente cena do ano anterior: eu sobre os ombros de meu pai, na praça da Matriz, no meio de uma multidão incalculável, foguetes espoucando por todo lado, e na rua em frente a nós, passando em carro aberto e acenando, de terno branco, o doutor Getulio, incólume e eterno. No banco de trás, um negro enorme: Gregório.

Reação popular ao suicídio de Getúlio Vargas, no centro de Porto Alegre. (Foto: Revista do Globo)

Seguimos colados ao rádio. Havia multidões derramadas pelas ruas de Porto Alegre, e também chegavam notícias iguais do Rio de Janeiro. No centro da cidade, a multidão enfurecida invadia as sedes dos partidos anti-getulistas e quebravam o que encontrassem pela frente. Uma parte subia pelos prédios, e jogava pelas janelas tudo: mesas, cadeiras, armários, arquivos. Embaixo, na rua, outra parte tocava fogo naquilo tudo. A multidão passou a atacar também os jornais e rádios da oposição, sobretudo dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, o Chatô, antigo aliado de Getulio, que se voltara violentamente contra o benfeitor. (Seria porque Getulio tivesse favorecido a concorrente Última Hora, de Samuel Wayner?).

Ouvimos, no rádio, ao vivo, o locutor da Rádio Farroupilha, dos Diários, narrando a invasão e o incêndio do prédio, que ficava nos altos do Viaduto da Borges de Medeiros, esquina com a rua Duque de Caxias. No segundo piso do prédio ficava a rádio Difusora, também do grupo. Alguém ficou preso por lá, e pulou pela janela, quebrando a espinha, o que, naquele tempo, equivalia a ficar paralítico (a palavra “paraplégico” foi entronizada depois) pelo resto da vida.

Neste meio tempo, eu vestira o guarda-pó para ir à escola, no Colégio Paula Soares, na rua General Auto. Mas logo ficou claro que eu não iria: as escolas fecharam, pura e simplesmente, mandando crianças e professoras ou professores para casa. Outra vizinha bateu na porta e também embarafustou, aos prantos, casa adentro. O marido pusera um revólver na cintura e saíra para a rua.

Logo chegaram outras notícias. O quebra-quebra se espalhara pela cidade. Nos altos do Fedor ficava a sede de um partido da oposição (não lembro qual, seria o PRP?). A multidão se concentrara perto, para invadir o prédio. Do outro lado da rua ficava o Hospital do Pronto-Socorro. Talvez por isto havia ali um contingente da Brigada Militar, a PM sulina. Não se sabe muito bem como, o tiroteio começou. Na fuzilaria, dois civis morreram na hora. Um outro ficou ferido gravemente. Que me lembre, morreu algumas semanas depois.

O dia também morreu, e na manhã seguinte os jornais sobreviventes estampavam as fotos do quebra-quebra, mais as do Rio de Janeiro, com a multidão virando e incendiando caminhonetes de O Globo.

Depois, muito depois, criou-se a versão de que as multidões que saíam à rua para “comemorar” a queda de Getulio viraram a casaca ao ouvir a Carta Testamento lida no rádio. Uma ova. Não havia multidões comemorando a queda do presidente mais popular que o Brasil já teve, depois de D. Pedro II e antes de Lula. O Povo, assim com maiúscula, assistia, impotente, a queda do seu presidente. A notícia do suicídio e a leitura da Carta galvanizaram o descontentamento e a fúria. Que então, de fato, saiu às ruas. O Povo, assim,  com maiúscula, para desespero dos Lacerdas, os Temers de então.

Muitos anos depois li a biografia de Osvaldo Aranha, e de como ele disse a Getulio, naquela fatídica madrugada: “Manda todo mundo embora, fiquemos só nós dois aqui no Palácio do Catete, e resistiremos à bala”. Getulio lhe bateu no ombro, e disse: “Vai pra casa dormir, Osvaldo. Eu já pensei em tudo”.

O Velho (como também era chamado) ficou só e resistiu à bala. Uma única. E entrou pra História, tornando-se um mito.

Recentemente passei por aquele recanto da Osvaldo Aranha. De tudo, só resta o Pronto Socorro. Nem o Fedor, nem o Zé do Passaporte, nem o Parque Shangai, nem o campo de futebol estão lá (acho que no lugar de algum deles está o Auditório Araújo Viana).

O Fedor queimou. O Zé, o Parque e o campo viraram fumaça. Tudo o que é sólido desmancha no ar, dizia Marx.

Mas há certas coisas que não são sólidas, nem líquidas, nem mesmo gasosas. Estas não se desmancham nunca.

“Brasil está sem rumo. Presença da indústria no PIB regrediu ao estágio de 1910”

Marcio Pochmann: “Essa é a recessão mais grave do ponto de vista da desorganização do sistema de investimentos do país”. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

O aspecto mais grave da crise política e econômica vivida pelo Brasil hoje é que o país está completamente sem rumo, sem nenhum debate sobre um projeto nacional e contaminado pelo curtíssimo prazo. Os setores de petróleo e gás, construção civil, agronegócio e indústria automobilística, que foram importantes para viabilizar a recuperação da economia nos anos 2000, nos governos do PT, estão gravemente comprometidos e o país está cada vez mais dependente de uma pauta de exportação primarizada. Em 2014, a indústria representava cerca de 15% de todo o produto nacional. Em 2017, esse número deve chegar a algo em torno de 8% a 9% do PIB, o que equivale ao que era o Brasil na década de 1910. A avaliação do economista Marcio Pochmann, professor da Unicamp e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), não recomenda nenhum otimista sobre o futuro da economia brasileira nos próximos meses.

Em entrevista ao Sul21, Pochmann analisa o momento econômico e político, contextualizando-o na história recente do país. Das quatro recessões que o capitalismo brasileiro já viveu, ele considera a atual a mais grave do ponto de vista da desorganização do sistema de investimentos no Brasil. Para Pochmann, o governo Temer é a “pedra que faltava para retirar as possibilidades da industrialização brasileira”. “O que temos hoje basicamente é a força do setor de produção agro-mineral e o setor de serviços. São setores importantes, mas sem capacidade de permitir um ritmo de expansão sustentável para um país com mais de 200 milhões de habitantes”, adverte. No plano político, Marcio Pochmann diz que só uma saída institucional para a atual crise política, as eleições em 2018, mas está preocupado com essa possibilidade: “A minha preocupação maior é se, de fato, nós teremos eleições em 2018”. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

A revolta dos Sem Voto

O problema do PSDB é idêntico ao da UDN: carência de votos. Chato, mas eleições implicam nessa equação desagradável: quem faz mais votos ganha, quem faz menos, perde. Este é o jogo.

O problema do PSDB é idêntico ao da UDN: carência de votos. Chato, mas eleições implicam nessa equação desagradável: quem faz mais votos ganha, quem faz menos, perde. Este é o jogo.

Ayrton Centeno

Pouco voto, muita mágoa. Esta é a marca que distingue o golpismo. Não é opinião. É história. É matemática mais do que discurso. E disso se sabe pelo tanto que se repete. Quem não reúne eleitores em número suficiente para, dentro das regras da disputa democrática, alcançar o poder que almeja, parte para uma solução alternativa. Que, mesmo botocada, maquiada e adornada com a indumentária mais atraente, não esconde sua natureza. É golpe.

Voto de menos e mágoa de mais levam à quebra do preceito constitucional, via sem povo e sem voto, como única ponte para o poder. É o quadro que se configura em seis cruciais momentos da história do Brasil dos últimos 70 anos. Em 1950, em 1954, em 1955, em 1961, em 1964 e, novamente, em 2016. É, portanto, novidade antiga.

Em 1950, o ex-revolucionário e ex-ditador Getúlio Vargas volta à ribalta política. Após longo auto-exílio em São Borja, seu avatar agora é o de condutor de massas. E o Brasil se depara com um novo Getúlio. E Getúlio também se depara com um novo Brasil. E se prepara para trazê-lo para o seu lado.

O final da II Guerra Mundial vai encontrar um país diferente daquele dos anos 1930, quando se resumia a uma confederação de morubixabas regionais que cabresteavam o eleitorado dos confins. Após a ditadura do Estado Novo, no hiato eleitoral das décadas de 1930 e 1940, algo se movera. O Brasil mudara.

No pós-guerra, os senhores feudais de terra, vida e voto são surpreendidos pelo crescimento da população urbana. Sob a qual seu controle é rarefeito. Em 1940, somam 12,8 milhões os brasileiros que vivem nas cidades. Em 1950, já são 19 milhões. É uma curva de crescimento que, em 20 anos, ultrapassará a população rural. Expulsos da terra e empurrados para o êxodo, grandes contingentes serão a mão de obra da indústria nas grandes cidades e regiões metropolitanas. Quem lhes dará atenção? A quem darão seu voto? Getúlio estava pronto para abraçá-los.

Na campanha presidencial de 1950, uma tirada de Carlos Lacerda, líder da direitista União Democrática Nacional (UDN) radiografaria o coração do golpismo. E estabeleceria o mantra implícito de gerações de golpistas, incluída a atual:

– O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.

Confesse: o pote cheio até aqui de mágoa – e parco em votos — de Lacerda e da UDN soa notavelmente familiar, não?

Para desconsolo da UDN, Getúlio vencerá as eleições de 1950 a bordo da sigla que forjou para enfrentar os novos tempos, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Aclamado pelos trabalhadores, fará 48,7% dos votos válidos contra 26,6% do udenista Eduardo Gomes, e os 21,5% de Cristiano Machado, do PSD. Na memória popular, é seu benfeitor que retorna.
Imediatamente, a UDN contesta a vitória no TSE. O Lacerdismo tenta barrar a posse do vencedor – e nós vimos isso não faz muito, não é mesmo? Alega que Getúlio deveria ter a maioria absoluta e não a relativa. Quer dizer, reclama que aquele que tivera votos de mais tem votos de menos…

Mas o TSE rejeita a ação e Getúlio é empossado em janeiro de 1951 em meio a uma grande festa popular.

Em 1954, com o trabalhismo fragilizado, o partido de Lacerda, forte nos quartéis, está prestes a aplicar o xeque mate no presidente. Mas, no xadrez violento da disputa, o último lance é de Getúlio e é ele quem destrói, novamente, as ilusões da UDN. Mesmo à custa da própria vida.

Durante os seis anos que se seguirão, o colossal trauma do udenismo seguirá inabalável: não dispor de suficientes sufrágios para alcançar o poder pelo caminho do direito e da lei.

Americanófilo, elitista e privatista, desfralda a bandeira eleitoral do combate à corrupção e à subversão. Uma plataforma que fascina a classe média, enraivecida com a primeira e assustada com a segunda. Frustrada no esforço para alcançar os de cima e atemorizada com o avanço dos de baixo. Antecipa o programa mínimo que seu simulacro, o PSDB, reproduzirá no século 21. Outro déjà vu.

Aliás, poderíamos apelidar de Movimento dos Sem Voto este rio de bílis que não trafega pela Geografia mas que fende o tempo. Dos anos 1950 do século passado até o presente. Há quem pressuponha que o MST representa um risco à ordem democrática e dele tenha medo. Erro. É, antes, uma demanda de direitos no campo da democracia. Já o MSV opera no sentido contrário: é um contínuo produtor de crises institucionais. E uma ameaça real e provada.

Pois o MSV atacará novamente em 1955. Quando a chapa Juscelino Kubitschek (PSD) e João Goulart (PTB), próxima ao getulismo, vence as eleições presidenciais com 35,6% dos votos, impondo nova derrota à UDN – desta vez Juarez Távora, que obteve 30,2% — o golpe ressurge no horizonte. De novo, a alegação é de que JK não conseguira maioria absoluta. De novo, tenta-se anular o pleito. Parte dos quartéis – que já canhoneava o mandato de Getúlio – agrada-se da ideia.

Entre os civis, Lacerda, para quem JK é “o condensador da canalhice nacional”, pilota a conspirata. Defende a adoção do parlamentarismo – com um militar de primeiro-ministro – o adiamento do pleito e, na antevéspera das eleições, divulga uma carta dirigida a João Goulart supostamente escrita pelo deputado argentino Antonio Brandi. É um método que, convenhamos, muito ilustrará o modus operandi da revista Veja nos dias que correm.

No documento, relatam-se entendimentos de Jango com o presidente Juan Perón para instituir no Brasil “uma república sindicalista”, além do contrabando de armas da Argentina. Foi um choque na opinião pública. Mesmo assim, a chapa PSD-PTB venceu. Somente depois das eleições, através de sindicância, o Brasil saberia que a carta era uma completa fraude.

Com JK e JG eleitos, a pressão do complô não arrefece. Então, o marechal Henrique Lott, da corrente legalista das Forças Armadas, se insurge contra a direita fardada. Que conseguira a adesão do presidente da Câmara, Carlos Luz, e do presidente Café Filho (vice que assumira a presidência após o suicídio de Getúlio) ambos fechados com a UDN. Lott bota suas tropas na rua, manda os conspiradores para casa e assegura a posse dos vitoriosos.

Finalmente em 1960, apoiando um candidato farsesco, demagogo e conservador porém fora de suas fileiras, a UDN consegue os votos imprescindíveis para subir a rampa do Palácio do Planalto. Vinculado ao minúsculo PTN, Jânio Quadros irrompera na política como um clown que encenava dramalhões nos palanques: tomava injeções, simulava desmaios, os ombros nevados de caspa. Na sua oratória incendiária, vinha “varrer a corrupção”. Chegaram a defini-lo como um híbrido de Lenin com Carlitos. “Jânio é a UDN de porre”, retratou-o com precisão o udenista Afonso Arinos.

Mas Jânio renunciaria, apunhalando os udenistas pelas costas. Apesar do veto dos três ministros militares, seu vice, João Goulart, do PTB, assumiria a vaga em 1961. Com o apoio do governador gaúcho Leonel Brizola que mobilizou o país em defesa da legalidade. O que foi crucial para o enfrentamento da quartelada que se desenhava. O acaso pregava outra peça na UDN: estava novamente alijada do poder. Pior: o mando e o comando regressavam ao execrável trabalhismo. De pronto recomeçaria a conjuração. Que teve sucesso em 1964.

Acalentando a fantasia de que os generais removeriam Jango do Planalto e lhes devolveriam o governo, as facções civis do golpe – oposição, empresários, latifundiários e donos de jornais – açularam a conspiração na caserna. Era o MSV em pleno devaneio. Nesta quimera, haveria eleições em 1965 e com o espectro que vai da esquerda à centro-esquerda banido enfim da vida política nacional – via prisões, cassações e exílios – o embate seria travado entre conservadores. Parecia perfeito. Com Lacerda, a UDN desembarcaria em Brasília.

Mas os militares tinham outros planos. O de acabar com a UDN e todas as demais siglas. E o de escolher, sem voto algum, os cinco generais que comandariam o país nos 21 anos seguintes. Na redemocratização, as forças que reverberam o ideário udenista foram melhor sucedidas.

Tiveram muitos votos e poucas mágoas. Com o respaldo da mídia, da banca e do empresariado, estiveram fielmente representadas nos oito anos de FHC. Ao final dos dois mandatos, o PSDB, que nascera social-democrata, tornara-se indistinguível de seu parceiro neoliberal, o PFL, filho da Arena e neto da UDN. Inclusive quanto ao moralismo de fachada. De 1995 a 2003, enquanto a dupla esteve alojada no Planalto, tudo parecia fluir no melhor dos mundos, embora o país tivesse quebrado três vezes.

Seu problema ressurgirá em 2002 com o primeiro triunfo de Lula. Volta o drama da penúria de votos. Mas há um consolo. Pensam no fiasco da gestão de outro operário, Lech Walesa, na Polônia, e apostam que o torneiro-mecânico também fracassará. Como fecho dessa projeção, o PSDB retomará a presidência em 2006. Mas a História, essa ingrata, tem outros desígnios.
Embasbacado, o MSV percebe que Lula supera os obstáculos e começa a se viabilizar. Mais surpreso ainda fica quando, após a tempestade do Mensalão, emplaca um segundo mandato.

Contudo, 2010 é uma esperança. Afinal, com José Dirceu e Antonio Palocci fora da briga, o governo não possui candidatos viáveis. A tolerância despenca quando constata o tamanho de sua miséria eleitoral: seus votos não bastam sequer para bater alguém que jamais disputara uma eleição. É o que acontece em 2010 quando Lula elege sua ex-chefe da Casa Civil. Inadmissível, porém, é o que se dá em 2014 quando, apesar do implacável bombardeio midiático, a presidente se reelege.

Um ano e meio após derrotar nas urnas a UDN rediviva, Dilma não tem um minuto de sossego. Os Sem Voto querem surrupiar-lhe no tapetão a vitória que obteve em campo. Nas legiões do MSV, marcham Torquemadas de arrabalde, xerifes de bibocas, a velha, venal e venenosa mídia, sonegadores patriotas, ladrões honrados, respeitáveis corruptos, jovens arcaicos, odiadores sem buçal, os espertalhões de sempre e abobados sortidos e surtados.

Todos os recursos são válidos para o MSV: acusações vagas ou falsas, grampos telefônicos ilegais, justiça caolha, investigações, prisões, vazamentos e publicações seletivas, ignomínia vendida como se fosse notícia, ameaças à vida.

“No Brasil não basta vencer a eleição, é preciso ganhar a posse!” dizia Getúlio. É possível que o acossado Getúlio, antes de desfechar o tiro no coração, pensasse em outra e mais abrangente frase. Algo como “não bastam a eleição e a posse, é preciso ganhar cada dia”. É uma tragédia que perpassa a biografia do Brasil.

O problema de Getúlio, Juscelino, Jango, Lula e Dilma é o mesmo: excesso de votos. O problema do PSDB é idêntico ao da UDN: carência de votos. Chato, mas eleições implicam nessa equação desagradável: quem faz mais votos ganha, quem faz menos, perde. Este é o jogo. Antes, todos devem aprendê-lo. E quem não quer respeitá-lo não pode jogar. Seu nome é Democracia.