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Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo dizem que PM e Forças Armadas servem a um governo moribundo

Milhares de pessoas participaram da caminhada que pediu a renúncia de Temer e a realização de Diretas Já. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

As frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo condenaram, durante ato realizado no início da noite desta quarta-feira (24), em Porto Alegre, o aparato militar utilizado para reprimir os milhares de manifestantes que participaram de uma caminhada em Brasília em defesa da renúncia de Michel Temer e da realização de Diretas Já. A condenação se estendeu às Forças Armadas que foi chamada por Temer para cercar o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios na tarde desta quarta. Em nota, as organizações que integram as duas frentes afirmaram que as Forças Armadas “rebaixaram seu papel para servir a um governo moribundo”.

No início da concentração do ato, por volta das 18 horas, na Esquina Democrática, praticamente todas as atenções estavam voltadas para os acontecimentos da tarde em Brasília. Como estão as coisas? Notícias sobre feridos? É verdade que Aécio foi preso? – essas eram algumas das perguntas que se ouviam no local. Enquanto as pessoas iam chegando para a manifestação, representantes de organizações que integram a Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo se alternavam em intervenções em um caminhão de som, falando sobre os últimos acontecimentos e sobre os desafios colocados para o futuro próximo.

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Edegar Pretto (PT) esteve no local para levar sua solidariedade aos manifestantes. Ele destacou o caráter de resistência da manifestação e defendeu o afastamento de Michel Temer, a convocação de eleições diretas e a interrupção da votação das reformas da Previdência e Trabalhista no Congresso Nacional.

Representando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Via Campesina, Cedenir de Oliveira defendeu que não há outra saída para a crise a não ser a realização de eleições diretas. “Esse Congresso, que está enlameado pela corrupção, não tem a mínima condição de oferecer uma saída para a crise política”, afirmou. Na mesma linha, o ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, criticou os ensaios que começam a ser feitos em Brasília para a substituição de Temer pela via de uma eleição indireta no Congresso. “Qualquer saída indireta, representará uma traição ao povo brasileiro”, resumiu Pont.

Por volta das 19 horas, a manifestação ganhou o reforço de um grupo de estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que tinham se concentrado na Faculdade de Direito. As faixas e cartazes pediam o afastamento imediato de Michel Temer da Presidência da República e a realização de Diretas Já, como forma para o país superar a crise política que atravessa. Cerca de meia hora depois, os manifestantes iniciaram a caminhada subindo a Borges de Medeiros. Desta vez, porém, ao contrário de atos anteriores que seguiram pela Borges rumo ao Zumbi dos Palmares, a caminhada dobrou à esquerda na Salgado Filho, provocando um pequeno alvoroço entre um destacamento da Brigada Militar que acompanhava o início da manifestação.

A caminhada, que reuniu milhares de pessoas, seguiu pela Salgado Filho em direção à João Pessoa, acompanhada de perto por um helicóptero da Brigada Militar. A ausência do caminhão de som, que acompanhou as últimas manifestações, deu outra dinâmica à caminhada, animada por vários grupos de percussão que embalaram os cânticos e gritos pedindo Fora Temer e Diretas Já. Ao longo da João Pessoa, várias pessoas manifestaram apoio das janelas e sacadas de seus apartamentos, piscando as luzes ou acenando bandeiras improvisadas com panos e toalhas.

Um pouco antes do cruzamento da João Pessoa com a Venâncio Aires ocorreu o momento de maior tensão da caminhada. A Brigada Militar postou um pequeno exército no Parque da Redenção, com pelotões do Batalhão de Choque, acompanhados por cães, viaturas e o recém adquirido “caveirão”, uma viatura anti-distúrbios que ficou na esquina da José Bonifácio com a João Pessoa, quase em frente à antiga sede do PMDB, aguardando a passagem dos manifestantes.

A caminhada pegou a Venâncio Aires e foi obrigada a entrar na Lima e Silva, pois uma nova barreira do choque da Brigada estava postada na quadra seguinte. A marcha seguiu pela Lima e Silva até a Perimetral e chegou ao fim no Largo Zumbi dos Palmares, sem qualquer incidente. Mesmo com a dispersão da caminhada, o helicóptero da Brigada Militar seguiu circulando a área e sobrevoando os manifestantes à baixa altitude.

Como no início, as conversas finais tiveram Brasília como centro das atenções. A entrada das Forças Armadas nas manifestações de rua sinalizou o ingresso em um novo período. Em resposta à disposição do governo Temer de aprovar as reformas da Previdência e Trabalhista a qualquer custo, manifestantes e representantes das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo sinalizavam que a forma de luta para enfrentar à crescente repressão que acompanha essa tentativa pode ser uma grave geral por tempo indeterminado no país.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

No centro de Porto Alegre, milhares pedem “Fora Temer” e eleições diretas já

Novo ato Fora Temer reuniu milhares de pessoas no centro de Porto Alegre, após a divulgação das gravações onde o presidente dá aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Assim como aconteceu em outras capitais e cidades brasileiras na noite desta quinta-feira (18), o centro de Porto Alegre foi palco de um protesto que reuniu milhares de pessoas defendendo a renúncia de Michel Temer (PMDB) e a convocação de eleições diretas já. A revelação das gravações envolvendo um executivo do frigorífico JBS, o ex-vice-presidente da República, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB) e o senador Aécio Neves (PSDB), candidato derrotado por Dilma Rousseff nas eleições presidenciais de 2014, acrescentaram combustível às já tradicionais manifestações contra o golpe que, há mais de uma ano, tem a Esquina Democrática como ponto de concentração.

Claudir Nespolo, presidente da Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (CUT-RS) falou em 10 mil pessoas reunidas no centro de Porto Alegre. Guimar Vidor, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), também destacou a presença de milhares de pessoas na Esquina Democrática e convocou para um novo ato, no mesmo horário, nesta sexta-feira (19). A estratégia das centrais sindicais, dos movimentos sociais e populares, após a divulgação das gravações de conversas não muito republicanas entre Michel Temer, Aécio Neves e executivos do frigorífico JBS, é uma só: intensificar as mobilizações de rua nos próximos dias para apressar a derrubada de Temer e abrir um processo para a convocação de eleições diretas no Brasil ainda este ano.

O ato desta quinta-feira foi convocado na noite de quarta pelo Facebook, com um sucesso estrondoso. A ordem agora dos movimentos que convocaram a manifestação é intensificar ao máximo a presença nas ruas.

Essa foi a tônica das falas no ato desta quinta-feira, no centro de Porto Alegre. Cristiano Moreira, diretor do Sindicato dos Trabalhadores no Judiciário Federal do Rio Grande do Sul (Sintrajufe-RS), disse que a estratégia para os próximos dias é não sair das ruas até atingir o objetivo principal: a renúncia de Temer, a convocação de eleições diretas já e a retirada das reformas da Previdência e Trabalhista da pauta do Congresso Nacional. O sindicalista convocou todos os presentes a trabalharem para construir uma grande mobilização nacional no dia 24 de maio que deve ser um preparativo para uma nova greve geral nacional, talvez por tempo indeterminado.

Além dos sindicatos, centrais sindicais e movimentos sociais, a mesma reivindicação foi feita por representantes do movimento estudantil. Giovani Culau Oliveira, diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE), definiu o governo Temer como “inimigo do povo e da juventude”. “Não arredaremos pé das ruas até acabar com esse governo e conseguirmos a convocação de eleições diretas para a presidência da República”, afirmou.

Representando a Intersindical, a professora Neiva Lazaroto, afirmou que a revelação das gravações feitas por executivos da JBS fizeram “cair a máscara dos golpistas”. “Nos últimos dias, estavam dizendo que a economia do Brasil estava melhorando e que eles iriam colocar o país nos trilhos. Tudo mentira. O que vimos nos últimos dois dias mostra que o pato da Fiesp vai explodir”, assinalou. Na mesma linha, Érico Correa, da CST Conlutas, enfatizou que não resta outro caminho aos trabalhadores e seus movimentos que não as ruas do país, numa luta até a derrubada do atual governo.

“Não podemos permitir que um governo ilegítimo leve em frente essas reformas que retiram direitos dos trabalhadores e da população em geral”, acrescentou Guiomar Vidor, da CTB-RS. “Amanhã (sexta-feira) estaremos aqui, neste mesmo horário e local, em um número maior, e no domingo ocuparemos parques da cidade para manifestarmos nosso repúdio a esse governo espúrio. No dia 24, ocuparemos as ruas de Porto Alegre, Brasília e de outras capitais para darmos um pontapé em Temer”, disse ainda o dirigente da CTB, destacando a ampla unidade que está sendo construída entre movimentos sociais e o movimento sindical.

Claudir Nespolo, presidente da Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (CUT-RS), estimou em 10 mil pessoas a concentração na Esquina Democrática no início da noite, assinalando que, naquele mesmo momento, outras manifestações estavam ocorrendo em cidades como Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Rio Grande  e Pelotas. “Temos hoje cerca de 14 milhões de trabalhadores no Brasil que não podem esperar 20128. Não será essa corja de ladrões de direitos e de ladrões propriamente ditos que interromperam o ciclo de avanços sociais no país. Nada substitui a população nas ruas como estratégia para derrotar esse governo usurpador”, disse ainda Claudir Nespolo.

Após a fala de representantes de centrais sindicais e de outras organizações na Esquina Democrática, milhares de manifestantes saíram em caminhada pela avenida Borges de Medeiros até o Largo Zumbi dos Palmares, na Cidade Baixa. Na esquina da rua Jerônimo Coelho com a Borges, um pelotão do batalhão de choque da Brigada Militar estava postado para impedir que os manifestantes se dirigissem para o Palácio Piratini, localizado na Praça da Matriz. O trajeto entre a Esquina Democrática e o Largo Zumbi dos Palmares transcorreu sem incidentes. Após o término dessa caminhada, um grupo de manifestantes se dirigiu para a esquina da avenida Ipiranga com a Érico Veríssimo, onde está localizado o prédio do jornal Zero Hora e da rádio Gaúcha, do grupo RBS. O choque da Brigada impediu a aproximação desse grupo e chegou a lançar algumas bombas de gás contra os manifestantes. Até o final da noite,  não havia registro de detidos ou feridos neste episódio.

No final da noite, em meio às notícias sobre os áudios das gravações envolvendo Michel Temer e Aécio Neves, os manifestantes combinavam a participação no ato desta sexta-feira, atendendo ao chamamento das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo que anunciaram a intensificação dos atos de rua nos próximos dias para acelerar a queda do governo de Michel Temer e interromper a tramitação das reformas que ele vem tentando implementar no país.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

O Brasil acabou, mas parece que ficou grávido

"As vinte primeiras filas eram de meninas, gurias com menos de 23 anos. Faixas feministas. Muitas palavras de ordem em defesa dos direitos das mulheres e da resistência feminina".

“As vinte primeiras filas eram de meninas, gurias com menos de 23 anos. Faixas feministas. Muitas palavras de ordem em defesa dos direitos das mulheres e da resistência feminina”.

 Katarina Peixoto

(Laudo ecográfico em 3D da marcha contra a PEC 55 em Porto Alegre, em novembro de 2016)

Quando cheguei na Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre, o primeiro sentimento foi do peso da derrota. Uma consideração geográfica: começamos a nos reunir aqui quando o frio estava chegando. O cheiro era de quentão e nós achávamos reconfortante caminhar durante horas sem suar. Naqueles dias de maio e junho deste ano horrível, gritávamos contra o golpe e afirmávamos nosso compromisso com a democracia. Agora o verão se aproxima e cá estamos, suando, com menos roupa e também mais clareza política, menos idade e mais barulho. Há também mais disposição, uma espécie de espírito. Há mais sorrisos, não sei dizer por que.

Olho para o lado e vejo uma placa. Eram cientistas, reclamando contra o corte brutal no financiamento das pesquisas e das Fundações Estaduais de pesquisa. Levanto os olhos e leio “UFRGS”. Em muitas faixas: veterinária, filosofia. A universidade estava ali, as fundações de pesquisa. “Vamos para a rua, porque os pesquisadores e cientistas estão ameaçados”, foi este o meu impulso de escrever. Aí a marcha saiu. E começou a alegria.

Fomos para a parte da frente. As vinte primeiras filas eram de meninas, gurias com menos de 23 anos. Faixas feministas. Muitas palavras de ordem em defesa dos direitos das mulheres e da resistência feminina. Estou convencida de uma relação imaginativa e racional. Essa gurizada entendeu o caráter misógino do golpe de estado de maneira muito mais nítida que a imensa, senão toda, a esquerda partidária do país. Mesmo que irrefletidamente, o avanço do movimento feminista nos últimos anos deriva de avanços políticos e representativos que estão aí, ecoando, gritando, pulando, cuidado umas das outras, nas ruas. Antes que algum guru das multidões, esses místicos que predam o nome de Spinoza sem jamais o terem lido seriamente, digam que as multidões são um bem em si – coisa que o filósofo jamais cometeria -, vale dizer que a relação característica da imaginação sempre é normativa, porque expressa o conatus, não uma dinâmica estéril. Numa palavra: o signo é signo de algo que quer viver e, como signo, é aberto e imerso na multiplicidade das águas turvas e eventualmente contaminadas, da vida.

Entramos numa avenida larga de Porto Alegre e o vento do Rio Guaíba entrou em nossos corpos e rostos e nos encheu de uma esperança. Pensei, dialogando com meu cinismo interior: “a gente vem para cá não para lutarmos por uma maioria que não somos. Nunca seremos maioria, pensando bem. Aqui estão feministas, gays, cientistas e intelectuais. Platão é Platão, ora essa”. Segui me perguntando, e gritando e admirando. Perguntei a mim mesma, de novo: “Por que estamos aqui?”. Esta não é uma pergunta cínica, nem sei se é cética.

Michel Temer, o despachante de alvarás fraudulentos que é protegido pela joint-venture golpista, não cairá porque nós estamos nas ruas. O ignorante e inepto do Sartori não deixará de rifar o estado e trucidar o seu futuro porque nós estamos aqui. Essa gente golpista não quer saber da democracia. Nunca quis. Eles só aceitaram disputar eleições três vezes, em cem anos. Por isso, e ainda assim, eles nos reprimem. Não nos escutam nem respeitam, mas se organizam para nos reprimir, perseguir, ameaçar e destruir. Por que?

Um guri autonomista tinha uma mochila de primeiros socorros e eu o vi usando. A explicação começava a ficar evidente. O batalhão de choque da polícia começava a nos cercar. Eles enviavam batedores para nos bloquearem, adiante. Armados, protegidos, estavam ali para nos ameaçar, caso ousássemos, vejam só, chegar na Praça da Matriz, na frente do palácio do governo, atualmente predado por uma horda de hunos golpistas. O que tinha nos primeiros socorros do guri? Vinagre e coisas para tratar ferimentos. Eu disse que ele tomasse cuidado e tentasse ficar misturado com a multidão. Que a polícia ia gostar de ver a mochila dele e maltratá-lo. Ele não gostou, acho que se sentiu violado pelas minhas observações.

Precisam, muitos deles, esconder-se heroicamente em suas convicções. São muito verdes e estão aprendendo tudo. Ainda não da pior maneira, mas isso é uma questão de tempo, cada vez menor, parece. Infelizmente, embora eu não tenha certeza se não é meu cinismo.

Vivemos num país, hoje, em que a violência comum se tornou extraordinária, entre outras coisas, porque as polícias estão dirigidas por golpistas. Com o golpe consumado há seis meses, temos mais polícias políticas, em todas as esferas (militares, civis e federal), que polícias em funcionamento. Não temos segurança ao andar na rua, o desemprego e o déficit público aumentam, mas temos segurança que, numa passeata, nosso percurso depende de onde a polícia nos deixar ir, sem atirar, bater, espancar, prender e humilhar.

Não há legalidade, nem responsabilidade, no poder instituído via golpe. É o que ocorre quando se viola o sufrágio. Levamos vinagre na mochila, para não desmaiar em caso de bomba na calçada. Nesta, calçada, aliás, calçadas, aumenta o número dos moradores de rua. Aumenta, também, na gurizada, a indisposição a negociar.

Ontem, éramos milhares. A polícia, obedecendo a ordens do golpista que destrói o estado e se aloja no palácio do governo, deslocou microonibus, caminhonete, helicóptero, para nos seguir e ameaçar.

É preciso não se ter legitimidade, autoridade e segurança alguma, para tamanho autoritarismo. Não há o direito de fechar vias públicas para interditar protestos de circularem pelas ruas.

Por que marchamos? Podemos ser milhares e nem numa praça, gritar contra um governador oligofrênico, constrangedor, perverso, podemos chegar? De que adianta isso? Nem trânsito havia para prejudicarmos. Nenhuma desculpa. Só repressão, medo, ameaça.

Quando chegamos na frente do Instituto de Artes, da UFRGS, encontramos estudantes que estão na ocupação, dentro do prédio. Eles nos aplaudiram e pediram para não ser fotografados. Olhei para dentro do prédio e vi a organização física do lugar. As gurias gritavam: “Ocupa tudo!”.

Duas gurias estavam com camisetas no rosto e, como dirigentes imaginárias, comandavam a marcha. “Atrás da faixa, atrás da faixa!”. Um sentimento de triunfo, certeza e domínio imaginativo as imuniza do que a nossa geração está sentindo. Olhamos para elas e sorrimos. Chegam dois guris, correndo, puxam um terceiro. “Na frente estão elas, decidimos na assembleia, volta!”.

“Te cuida, imperialista, a América Latina vai ser toda feminista!”
“Preste atenção, a PEC 55 é vinte anos sem educação!”
“Nós somos um povo e essa PEC nós vamos derrubar!”

Professores, orientandos e orientadores, pesquisadores e colegas de laboratórios, a gurizada, juntos, marchando, sambando, cantando e denunciando a barbárie. Muitos trabalhadores mal assalariados estão assistindo com cada vez mais simpatia a esses cortejos de jovens e pessoas de classe média, que denunciam um governo que, também já entenderam, está piorando as coisas.

Ontem, pela primeira vez, havia pobres, ainda em minoria, na marcha. “Vai piorar, porque o salário vai baixar. Agora, não tem mais ninguém por nós”. Conversamos com dois garis que trabalham no serviço municipal de reciclagem. “A gente saiu do trabalho e se juntou na marcha”. Ficamos conversando e, quando me despedi, eu lhes disse: “não maltratem nunca uma mulher”. “Ah, não, pode deixar. Se não tem a Maria da Penha!”, disse, pra me dizer que sabia de onde eu estava falando, parece.

Saímos para tomar uma cerveja gelada. Um Brasil acabou, mas parece que ele ficou grávido de um bebê, chamado imaginação democrática. Ela caminha entre poucos, mesmo quando são milhares. Está sufocada pela repressão, mas está viva, e crescendo. Quando nascer, vai chorar, e saberemos, sem muita dúvida, que a rua, as ocupações, as discussões e a resistência, nesse lugares, ela foi fecundada.

Quando a imaginação democrática se tornar metáfora e organização com vistas ao poder, mais do que helicópteros e polícias, a direita terá de aprender algumas coisas. Essa gurizada não vai suplicar cotas para mulheres, porque nós estamos na direção, já. Já chegamos à presidência, podemos chegar de novo. Não vamos, de novo, tornar o financiamento do estado um tema contingente. Nem negociaremos posições diante das lições que estamos aprendendo sobre conflito distributivo e justiça. Gays não são núcleo concedidos por direções de machos brancos, em partidos, mas cidadãos. Bolsa não é favor, pesquisa não é luxo, universidade não é comércio. E mulher existe.

Cheguei em casa pensando que tínhamos o direito de nos sentir como pais que enxergam o nariz de bebê, em ecografia 3D, pela primeira vez. Talvez marchar seja ter essa experiência, no país, hoje.

Temer: “eu me sinto aqui como Carlos Magno”

Rei dos francos e imperador do Ocidente, Carlos Magno foi o primogênito de Pepino, o Breve.

Rei dos francos e imperador do Ocidente, Carlos Magno foi o primogênito de Pepino, o Breve.

A comparação que o presidente Michel Temer fez de si mesmo com o imperador francês Carlos Magno, em entrevista ao jornal O Globo, foi motivo de críticas e piadas nas redes sociais neste domingo. Na entrevista, Temer fala sobre seu cotidiano no Palácio do Planalto e diz que está se sentindo como Carlos Magno, ao sentar na cadeira da presidência. Ele afirmou:

“Eu me sinto aqui como Carlos Magno. Quando eu tinha 11 anos de idade, eu ganhei um livro chamado “Carlos Magno e os 12 cavaleiros da Távola Redonda” e eu li aquele livro e era assim: os doze cavaleiros”.

Além da comparação grandiloquente, Temer misturou referências históricas de séculos diferentes. O imperador católico francês viveu entre os anos de 742 e 814 depois de Cristo, enquanto a Távola Redonda é parte da história do rei Arthur, cujas primeiras referências datam do século XII.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Governo Temer prepara desmonte da Comissão da Anistia, denuncia Movimento por Verdade, Memória e Justiça

O Diário Oficial da União publicou duas portaria do Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, uma com a nomeação de 20 novos conselheiros e outra com a exoneração de 6 membros atuais que não haviam solicitado desligamento do órgão. (Valter Campanato/Agência Brasil)

O Diário Oficial da União publicou duas portaria do Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, uma com a nomeação de 20 novos conselheiros e outra com a exoneração de 6 membros atuais que não haviam solicitado desligamento do órgão. (Valter Campanato/Agência Brasil)

O Movimento por Verdade, Memória, Justiça e Reparação divulgou nota pública de repúdio ao desmonte da Comissão da Anistia patrocinada pelo governo de Michel Temer, que anunciou uma intervenção inédita na comissão responsável pelas políticas de reparação e memória para as vítimas da ditadura civil-militar. Desde a sua criação, durante o governo FHC, nunca um governo tinha afastado conselheiros como ocorreu agora. O Diário Oficial da União publicou duas portaria do Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, uma com a nomeação de 20 novos conselheiros e outra com a exoneração de seis membros atuais que não haviam solicitado desligamento do órgão. Além disso, um dos novos conselheiros seria um colaborador da ditadura. “O governo Temer coloca a perder quase uma década de memória e de expertise na interpretação e aplicação da legislação de anistia no Brasil”, afirma a nota. Confira a íntegra:

Nota pública do Movimento por Verdade, Memória, Justiça e Reparação

O governo Temer anunciou hoje uma intervenção inédita na Comissão de Anistia, órgão do Estado brasileiro responsável pelas políticas de reparação e memória para as vítimas da ditadura civil-militar. Pela primeira vez se efetivou uma descontinuidade de sua composição histórica.

Desde a sua criação pelo governo FHC, a comissão é composta por conselheiros e conselheiras com grande histórico de atuação na área dos direitos humanos, mantendo-se, ao longo do tempo, a integralidade dos seus membros e as composições integrais advindas dos governos anteriores. Os eventuais desligamentos de conselheiros(as)sempre ocorreram por iniciativas pessoais dos próprios membros, sendo substituídos(as) gradativamente.

Essa característica sempre assegurou a pluralidade em seu formato que, até pouco tempo atrás, abrigava inclusive membros nomeados para sua primeira composição ainda no governo FHC em 2001. Isto reflete a compreensão da Comissão de Anistia como um órgão de Estado e não de governo.

Além disso, novas nomeações sempre foram precedidas por um processo de escuta aos movimentos dos familiares de mortos e desaparecidos, de ex-presos políticos e exilados, além de organizações e coletivos de luta por verdade, justiça, memória e reparação.

Pela primeira vez na história da Comissão de Anistia foram nomeados novos membros sem nenhuma consulta à sociedade civil e pela primeira vez foram exonerados coletivamente membros que não solicitaram desligamento.

O Diário Oficial da União publicou duas portaria do Ministro Alexandre de Moraes, uma com a nomeação de 20 novos conselheiros e outra com a exoneração de 6 membros atuais que não haviam solicitado desligamento do órgão. Outros 10 atuais conselheiros foram mantidos. Não foram divulgados os critérios desta seletividade.

Os conselheiros desligados são Ana Guedes, do Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia e ex-presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia na Bahia; José Carlos Moreira da Silva Filho, vice-presidente e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUC-RS; Virginius Lianza da Franca, ex-coordenador geral do Comitê Nacional para Refugiados; Manoel Moraes, membro da Comissão Estadual da Verdade de Pernambuco e ex-membro do GAJOP; Carol Melo, professora do núcleo de Direitos Humanos da PUC-Rio; Marcia Elayne Moraes, ex-membro do comitê estadual contra a tortura do RS.

Ao dispensar esse grupo de Conselheiros, o governo Temer coloca a perder quase uma década de memória e de expertise na interpretação e aplicação da legislação de anistia no Brasil.

Uma outra portaria nomeou no mesmo dia, de uma só vez, 20 novos conselheiros e conselheiras. Alguns dos nomes anunciados são vinculados doutrinariamente ao polêmico professor de Direito Constitucional da USP Manoel Gonçalves Ferreira Filho, conhecido teórico e apoiador da ditadura civil-militar instaurada no Brasil em 1964, por ele denominada “Revolução de 1964” e escreveram um livro em sua homenagem. O jornal O Globo, por sua vez, trouxe uma outra grave denúncia de que pelo menos um dos novos membros é suspeito de ter sido colaborador da ditadura militar.

Caso a nova composição da Comissão de Anistia reflita o pensamento de Manoel Gonçalves Ferreira Filho e tenha entre seus membros simpatizantes ou colaboradores com a ditadura trata-se de uma desfuncionalidade e um sério risco à posição oficial do órgão sobre a devida responsabilização penal dos agentes públicos que praticaram crimes de lesa-humanidade na ditadura.

A Comissão de Anistia tem estimulado, como parte dos compromissos internacionais do Brasil, o debate público nacional sobre o alcance da lei de anistia e possui uma posição clara e oficial pela imprescritibilidade e impossibilidade de lei de anistia para os crimes da ditadura, bem como defende o cumprimento integral da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o caso Araguaia, sediada em São José da Costa Rica.

A atual composição da Comissão de Anistia foi responsável pela redução dos valores das indenizações milionárias concedidas no início da era FHC, ajustando-as a valores de mercado, e acelerou o julgamento dos pedidos de reparação, instituindo o pedido de desculpas às vítimas e as famílias.

A Comissão de Anistia também é conhecida internacionalmente por ter empreendido de maneira inovadora e sensível políticas públicas de memória e projetos vanguardistas como as Caravanas da Anistia, as Clínicas do Testemunho, o Projeto Marcas da Memória, e por ter iniciado a construção do Memorial da Anistia, realização de eventos e intercâmbios acadêmicos e culturais, e inúmeras publicações que aprofundam o sentido da Justiça de Transição no Brasil e na América Latina. Estes programas e projetos compõem hoje o Programa Brasileiro de Reparação Integral, reconhecido e celebrado internacionalmente, e fazem parte do rol dos direitos de todos aqueles que foram atingidos por atos de exceção durante a ditadura civil-militar e aos seus familiares. Esses direitos devem ser preservados, sob pena de ruptura com o dever integral de reparação.

Os movimentos de direitos humanos e cidadãos abaixo assinados repudiam a arbitrariedade destas exonerações e nomeações na Comissão de Anistia e denunciam o início da tentativa de desmonte destas políticas que marcam a nossa transição democrática e que são parte de obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. Do mesmo modo denuncia o absurdo de ter entre os membros da nova Comissão nomes de pessoas que não possuem posição de oposição enfática de condenação à ditadura e aos crimes militares ou, pior, que possam ter sido colaboradores da Ditadura.

O governo Temer com esta atitude arbitrária comete um erro histórico que afeta a continuidade da agenda pendente do processo de transição democrática, e com isso aprofunda as suas características de um governo ilegítimo, sem fundamento na soberania popular.

São iniciativas muito graves e unilaterais que sinalizam o início de um desmonte na Comissão de Anistia, conquista histórica da sociedade democrática brasileira, e uma ofensa aos direitos das vítimas da ditadura e os seus familiares.

Não aceitaremos retrocesso nas conquistas da Justiça de Transição no Brasil. Nem um direito a menos!

Porto Alegre vive quarta noite de protestos contra o golpe

Menor do que as duas anteriores, a manifestação desta sexta-feira (2) mobilizou algumas centenas de participantes e, provavelmente, o maior contingente de efetivos da Brigada Militar. (Foto: Maia Rubim)

Menor do que as duas anteriores, a manifestação desta sexta-feira (2) mobilizou algumas centenas de participantes e, provavelmente, o maior contingente de efetivos da Brigada Militar. (Foto: Maia Rubim)

Pelo quarto dia consecutivo, Porto Alegre viveu uma noite de protestos contra o golpe parlamentar que afastou a presidenta Dilma Rousseff e instalou no poder o governo do até então interino Michel Temer. Menor do que as duas anteriores, a manifestação desta sexta-feira (2) mobilizou algumas centenas de participantes e, provavelmente, o maior contingente de efetivos da Brigada Militar, que acompanhou a manifestação desde o início da caminhada pela avenida Borges de Medeiros. Convocada individualmente por alguns manifestantes por meio do Facebook, a manifestação reuniu estudantes secundaristas e universitários, professores e representantes de outras categorias que não conseguiram participar dos atos realizados na quarta e na quinta-feira.

Desde a Borges de Medeiros, os manifestantes foram acompanhados por um pelotão do choque da Brigada que ia acompanhando toda a caminhada. Após o viaduto da Borges, um morador de um prédio foi para a sacada com uma bandeira dos Estados Unidos para provocar os manifestantes e foi saudado com os gritos de “sem noção, sem noção”. A caminhada tomou a direção da Cidade Baixa, sempre acompanhada por um pelotão de Choque e por um helicóptero da Brigada Militar que, voando a baixa altura, lançava um facho de luz sobre os manifestantes.

O momento mais tenso ocorreu quando os manifestantes ingressaram na avenida João Pessoa. Em frente à sede do PMDB, dois pelotões do batalhão de choque aguardavam a passagem dos manifestantes. A ação era coordenada pelo tenente-coronel Mario Ikeda, do Comando de Policiamento da Capital. Quando a manifestação se aproximava da Venâncio Aires, um oficial da Brigada deu um comando pelo rádio e as luzes dos postes daquele trecho na João Pessoa imediatamente se apagaram. Mas a marcha passou pela sede do PMDB sem qualquer problema e ingressou na Venâncio Aires.

Dali em diante, alguns manifestantes lançaram pedras em vidraças de agências bancárias e viram containers de lixo, como ocorreu na noite anterior. A Brigada Militar lançou bombas de gás para dispersar os manifestantes que seguiram pela José do Patrocínio e depois para o Largo Zumbi dos Palmares, onde o ato terminou por volta das 22 horas.

Após o término do ato, alguns manifestantes levantaram a suspeita, na página do evento no Facebook, sobre a presença de infiltrados para provocar atos de violência, suspeita esta que foi objeto de conversas no início da concentração na Esquina Democrática. Os atos de quarta, quinta e sexta foram convocados por pessoas e coletivos diferentes, indicando que há uma disposição em permanecer na rua contra o governo de Michel Temer. No início da concentração para a manifestação desta sexta, algumas pessoas disseram que estavam ali porque não tinham conseguido participar dos protestos nos dias anteriores. E, no final da noite desta sexta, na página que convocou o evento, algumas pessoas perguntavam: amanhã vai ter de novo?

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Manifestantes protestam em frente a sedes do PMDB e da RBS e prometem: “não sairemos das ruas”

Primeiro ato contra a consumação do golpe reuniu milhares de pessoas em Porto Alegre na noite desta quarta-feira. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Primeiro ato contra a consumação do golpe reuniu milhares de pessoas em Porto Alegre na noite desta quarta-feira. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A página do evento no Facebook já anunciava um ato de grandes dimensões. Em menos de 24 horas, cerca de seis mil pessoas confirmaram presença no ato contra o golpe que começou a se concentrar a partir das 18 horas, na Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre. Alguns minutos depois do horário marcado para o início da concentração, os primeiros gritos de “Fora Temer!” começaram a ecoar no centro da capital gaúcha. Em poucos minutos, centenas de pessoas começaram a se reunir na Esquina Democrática. A chuva, que prejudicou o ato chamado para o dia anterior, cessou e o céu chegou a exibir alguns minutos de sol no final da tarde de quarta-feira em Porto Alegre. Os gritos de “Fora Temer” se alternaram com os “Golpistas, fascistas, não passarão” e “Dilma guerreira, mulher brasileira”. Mas o grito mais repetido, desde o início do ato, foi mesmo o “Fora Temer”.

A concentração inicial foi marcada pelo enterro da democracia. Um caixão coberto de velas foi velado por um grupo de manifestantes no centro de Porto Alegre. E o ambiente foi de velório mesmo. Dezenas de pessoas cercaram o caixão depositado na Esquina Democrática em um clima de silêncio e gravidade que durou alguns minutos. O clima para o ato foi esquentando com a chegada de vários grupos de coletivos e organizações que, desde o primeiro semestre vem participando das manifestações de rua em Porto Alegre: Levante Popular da Juventude, Juventude do PT, União da Juventude Socialista (UJS), coletivos Kizomba e Mudança, do PT, União Nacional de Estudantes (UNE), União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), entre outros grupos, deram a dinâmica da manifestação que, pouco depois das 19 horas, saiu em caminhada pela Borges de Medeiros, pegando a Salgado Filho e depois a João Pessoa, aos gritos de “Olê, olê, olê, fora Temer”.

O papel da Rede Globo e da RBS no processo de derrubada da presidenta Dilma Rousseff também foi lembrado pelos milhares e manifestantes que ocuparam praticamente toda a avenida João Pessoa, desde o viaduto na conjunção com a Salgado Filho até as proximidades da Venâncio Aires. O clima era de muita indignação com os acontecimentos dos últimos dias no Senado. “Temer, ladrão, teu lugar é na prisão” foi uma das palavras de ordem mais repetidas pelos manifestantes, um público predominantemente muito jovem, com uma faixa etária média em torno de 22 anos, e com muitos estudantes secundaristas que participaram do movimento de ocupação das escolas no primeiro semestre.

Na descida da João Pessoa, os manifestantes passaram por um efetivo numeroso do Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar, postado sob às arvores do Parque da Redenção, ao longo da avenida. Um pouco antes da Venâncio Aires, a manifestação fez uma parada em frente à sede do PMDB, onde o caixão velado na Esquina Democrática foi colocado no meio da rua e incendiado em forma de protesto contra a violação da democracia no país. Logo em seguida, alguns manifestantes passaram a tentar derrubar uma grade de acesso à sede do PMDB, denunciando o protagonismo do partido de Michel Temer, do governador José Ivo Sartori e do vice-prefeito Sebastiao Melo, no processo de derrubada de Dilma Rousseff. A grade foi finalmente derrubada e um container que estava na calçada foi lançado dentro da sede do PMDB aos gritos de “lixo, lixo”.

este momento, a Brigada Militar começou a disparar bombas de gás da Redenção em direção a João Pessoa, em frente à sede do PMDB, com o objetivo de dividir a coluna de manifestantes que, aquela altura, somava alguns milhares de pessoas. Conseguiu provisoriamente seu objetivo, fazendo com  que algumas centenas de manifestantes corressem para a Lima Silva, na Cidade Baixa. Mas, logo, em seguida, o grupo se reagrupou e seguiu em direção à avenida Ipiranga e de lá para a frente do prédio da RBS, onde ocorreu o confronto mais sério com a Brigada Militar. A uma quadra do prédio da Zero Hora, cerca de dez viaturas da polícia militar correram para a frente da RBS com as sirenes ligadas. Logo, um destacamento do pelotão de choque se posicionou em frente ao prédio. Um grupo de manifestantes começou a queimar pneus na avenida Ipiranga, do lado oposto ao do prédio de ZH. Os brigadianos começaram a lançar bombas de gás e balas de borracha que atingiram as costas de uma manifestantes que ficou cerca de 20 minutos deitado no piso da avenida Érico Veríssimo até se recuperar dos ferimentos e conseguir voltar a andar.

Após um período de muita correria e asfixia provocada pelas bombas de gás, a manifestação se reagrupou na Érico Veríssimo e seguiu em direção à Cidade Baixa. O restante do trajeto foi tranquilo e recebeu muitos apoios de moradores e frequentadores de bares da região. Na esquina da República com a José do Patrocínio, um letreiro luminoso com os dizeres “Fora Temer!” foi exibido na lateral de um prédio. Por volta das 21h30min, a manifestação chegou à Perimetral, ao lado do Largo Zumbi dos Palmares, onde ocorreu uma rápida reunião transmitida boca a boca para todos os participantes.

“Hoje, mostramos ao PMDB que não vai ter arrego para golpistas e, para a Brigada Militar, que não temos medo. Nós não vamos sair das ruas”, disseram os organizadores da manifestação que convidaram para uma assembleia popular que ocorrerá neste domingo, às 16 horas, na sede do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS Sindicato). Essa assembleia definirá os próximos passos o movimento que promete intensificar as mobilizações de rua “contra o golpe e o governo ilegítimo de Michel Temer”. O escracho promovido em frente à sede do PMDB evidenciou que o resultado do processo de impeachment no Congresso Nacional provocou uma fratura na sociedade que, dificilmente, será resolvida pelas bombas de gás e balas de borracha da polícia militar.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

A abertura das olimpíadas e a bruxa

Foi uma espécie de “faz sentido gostar do show e vaiar Temer”. Faz sentido a metáfora e a vaia ao golpista.

Foi uma espécie de “faz sentido gostar do show e vaiar Temer”. Faz sentido a metáfora e a vaia ao golpista.

Por Katarina Peixoto

Os amigos dizem que a abertura das Olimpíadas do Rio foi poderosa, estupenda. Há quem critique, é claro, e pelas mesmas razões, parece, pelas quais outros elogiaram. Foi além das expectativas, foi “verde”, levou a sério a questão de gênero, teve Paulinho da Viola cantando o hino corretamente e teve Caetano, nos bastidores (antes ou após o show que fez), com plaquinnha de Fora Temer. Teve Lea T conduzindo a seleção olímpica brasileira. E teve vaia ao usurpador, aquele que responde pelo mal estar geral, para além de qualquer juízo de gosto, sobre o espetáculo hipócrita e bélico que nos assombra.

Assisti a pedaços da abertura, com as seleções entrando, algumas com uniformes bonitos, outras, horrorosos, como sempre. Vi muito plástico e crianças com mudas de plantas, uma ideia de compensação que passa muito longe da realidade, mas tudo bem, não temos mais tempo de ser chatos: o Brasil vive um golpe de estado e o mundo inteiro sabe. A exuberância da cerimônia de abertura, preparada com e apesar da crise do país, não vai resolver nem representar o que não tem governo, embora tenha tido. O Rio de Janeiro decretou calamidade pública e está rifando uma das melhores universidades do país e sua rede escolar e de saúde, entre outras coisas, para garantir esse espetáculo e o saque impune que o precedeu.

Não tem metáfora (mesmo que, parece, a abertura esplendorosa tenha mandado bem nas metáforas), que expresse o caráter bizantino do Brasil, hoje. O país teve sua metáfora interdita, pelos delinquentes comuns e estamentais que viabilizaram e viabilizam a consumação de um golpe de estado que tem por corolário o fechamento da democracia. A metáfora é aliás tão interdita que, das crianças com mudinhas nas mãos, muito poucas eram negras. Segundo os golpistas, ser negro hoje depende de uma banca de averiguação. Sem metáforas, por favor. Metáfora é uma coisa que prejudica as mesóclises da entrega do Pré-Sal.

Houve Copa e há Olimpíadas no Brasil porque Lula e o Itamaraty de um país soberano e ávido por soberania tornaram isso possível. O atual desarranjo e a degradação político-institucional que vivemos não desgraçou um show preparado há anos, mas furou muitas barreiras de plásticos e câmeras. Sabemos bem que absolutamente tudo o que provocou orgulho na abertura deriva de uma agenda democrática, escondida e sabotada pelos golpistas, dia sim e outro, também: o reconhecimento da dignidade dos LGBTS, a força do sertão brasileiro, de onde saiu a maior atleta de triatlon da nossa história, as bicicletas (cheias de plástico, mas bicicletas), conduzidas por todas as cores e tipos, muitas mulheres tratadas com respeito, crianças com mudas de plantas, a promessa de uma floresta futura, não encontram relação identitária mínima com o governo usurpador pós-golpe. É claro que isso não é tudo: há milhares de famílias demovidas, vidas destruídas, impacto ambiental severo, baixa qualidade das obras de infraestrutura, legado passivo mais que ganho em bem estar, etc, etc. Isso também entra na conta do lulopetismo, afinal, a aliança com o PMDB tornou ambas as coisas possíveis, numa bizarra balança garantida pelo maior dirigente popular da nossa história.

Como ia dizendo, não assisti a todo o show, e provavelmente serei pouco assídua no espetáculo que se inicia, embora goste de esportes, jogos, olimpíadas e Usain Bolt. Ontem à noite, depois de uma semana dedicada a mais um projeto que não sei se merecerá uma bolsa de pesquisa, decidi ver um filme de terror. Penumbra, Segunda Guerra, abrigos antibombas, crianças órfãs, casas abandonadas e uma bruxa fantasma, que mata criancinhas e aterroriza a quem a descobre. O enredo prometia uma série b certa, gratuita, para quem está em desapego dessas coisas já tão feias, lá fora, na televisão, e no mundo que resiste à televisão. Claro que o filme é ruim, mas seu argumento merecia um filme bom: a bruxa má, na verdade o fantasma de uma mãe que teve seu filho arrancado de si, por ser bastardo, assombra a todas as mães que abandonaram filhos, e mata uma criança a cada vez que for descoberta. Essa infeliz fantasma virou uma bruxa: devora inocentes e faz os culpados se enforcarem em culpa e desespero. O detalhe é que o enredo fundador do horror presente se deu na Primeira Guerra. É um recado para nós: as dores e o horror da Segunda Guerra são provocadas pelos fantasmas da Primeira. Os filhos não reconhecidos, os filhos abandonados, as crias largadas, os responsáveis enforcados, a destruição e o suicídio das nações, essa invenção tão bem arregimentada pelo útero, pela maternidade, nos filmes e narrativas sobre guerras.

Como o filme era muito ruim, acionava com frequência o telefone e acompanhava os amigos falando da abertura das olimpíadas. Alguns tiravam dúvidas que eu tinha. Outros estavam desconcertados com a própria alegria em ver o quanto estava bonito, o show. Voltava ao cemitério da Primeira Guerra, naquela ilha ao norte de Londres, a névoa, o roteiro lutando para se sustentar naquele filme tão ruim. Então, veio a notícia da vaia ao Temer, a festa que a irrupção da verdade é capaz de promover, antiespetacular, antimercantil, absolutamente espontânea, ineditável, inescondível pela televisão das famílias usurpadoras da mídia familiar, que dirige o golpe e comanda a agenda golpista. Foi uma espécie de “faz sentido gostar do show e vaiar Temer”. Faz sentido a metáfora e a vaia ao golpista.

Para quem foi criança durante a ditadura militar e cresceu e virou gente na redemocratização, hino nacional e bandeira do Brasil não são símbolos agradáveis. A marca de hipocrisia, saque ao erário, obscurantismo, ridículo, violência e militarismo parecem manchas que nunca sairão desses símbolos. Talvez por isso nunca tenha parado para aprender o hino, e nunca tenha levantado ou tido uma bandeira do Brasil. Nacionalismo costuma ser defendido por hipócritas, sejam militares, sejam civis. É incrível como nacionalismo consegue ser o avesso do interesse nacional, e a rifa do Pré-Sal pelos golpistas expressa de tal maneira isso que nem carece de metáfora. Na ditadura era o alinhamento bocó e a subserviência delinquente aos EUA, inclusive no quesito tortura de resistentes políticos.

A cerimônia das olimpíadas mostrou o Brasil com a sua cara, como aliás nenhuma aparência jamais engana. Ainda podemos vaiar, e a modelo trans escondida pela Rede Globo está a salvo. Enquanto a Bruxa, aquela, a nossa, das bandeiras e ordem e progresso, não levar as crianças e os que a denunciam, para as trevas.

Levante lança campanha de arrecadação coletiva para 3º Acampamento Nacional

O Levante Popular da Juventude lançou uma campanha de arrecadação coletiva no Catarse  para ajudar a financiar a realização do 3º Acampamento Nacional do movimento, que ocorrerá entre os dias 5 e 9 de setembro, no Ginásio Mineirinho, em Belo Horizonte. Neste encontro, o Levante pretende reunir 7 mil jovens de todos os estados brasileiros, do campo e da cidade, das periferias, universidades e escolas secundaristas, além de representantes de movimentos sociais de outros países.

O acampamento debaterá, entre outros temas, os desafios colocados pela atual conjuntura política brasileira e as alternativas existentes. Segundo o Levante, será um “encontro de formação política, mas também um momento de resgate da história de lutas dos povos latino-americanos, como forma de estímulo ao protagonismo dos jovens, um convite para a luta social organizada”. O Acampamento Nacional é a instância máxima de deliberação do Levante Popular da Juventude, onde são definidas as linhas de atuação e as bandeiras de luta prioritárias, além do aperfeiçoamento da forma organizativa.

Os recursos da campanha de arrecadação coletiva serão utilizados para garantir parte da alimentação dos 7 mil jovens durante os cinco dias do encontro.

As eleições municipais e a “normalização” do golpe

normalidadeDe desatenção também se morre. Nas últimas semanas, lenta e mais ou menos silenciosamente, o golpe patrocinado por Michel Temer e seus aliados começou a ser alimentado por um processo de “normalização” que, aos poucos, foi se alastrando também entre os combatentes do golpismo. Alguém já disse que, muitas vezes, os grandes acontecimentos são silenciosos e sutis. As massivas manifestações de rua para denunciar o governo ilegítimo e espúrio de Temer diminuíram de intensidade nas últimas semanas. Várias razões são apontadas para isso: ninguém aguenta tanta mobilização por tanto tempo, necessidade de uma reavaliação da conjuntura, bombardeio midiático em favor de uma retomada da “normalidade” no país, proximidade das eleições municipais, entre outros.

O fato é que os dias foram se passando e a denúncia do golpe começou a ser sutilmente substituída por propostas de novas eleições, plebiscito e, de maneira cada vez mais visível, pela agenda das eleições municipais deste ano. Aliados até há bem pouco tempo na denúncia do golpe nas ruas, começaram a trocar farpas e ofensas nas redes sociais como se o centro da conjuntura neste momento fosse, por exemplo, a disputa entre o PT e o PSOL nas eleições municipais. Há quem ache que seja mesmo, obviamente. Em páginas nas redes sociais convocando eventos contra o golpe, disputas eleitorais diretamente ligadas ao pleito deste ano começaram a minar a unidade que, até há bem pouco tempo, garantiu mobilizações massivas nas ruas. O culpado, é claro, é sempre o “lado de lá”, acompanhado de acusações de sectarismo, traição, etc.

O fato é que os dias foram se passando e a unidade contra o golpe e em defesa da democracia começou a ser minada por disputas relacionadas às eleições municipais deste ano, entre outras coisas. A dificuldade em perceber que o centro daquilo que está ameaçado é a democracia e um conjunto de direitos conquistados arduamente nos últimos anos ajuda a entender também a relativa facilidade com que o espúrio e ilegítimo governo de Michel Temer foi se instalando. A ausência de direção política sempre cobra o seu preço e a fatura pode ser bem alta. A dificuldade em entender que o centro da conjuntura política hoje não é a disputa envolvendo partidos como PT, PCdoB e PSOL, mas sim a defesa da democracia, de direitos humanos sociais e trabalhistas e de políticas públicas como o Mais Médicos ou o Bolsa Família é o maior indicador de ausência de uma direção política à altura dos problemas e desafios do presente.

Essa ausência é um dos principais trunfos com que Temer conta para dar continuidade ao seu governo espúrio e ilegítimo. Quanto mais as disputas eleitorais municipais dividirem aqueles que estavam juntos na rua contra o golpe, mais ganha a força o processo de “normalidade” que, a cada dia, ganha novos ingredientes. Quanto mais as disputas eleitorais centralizarem o debate e as energias dos envolvidos, mais “normalidade” teremos. É uma falsa normalidade, obviamente. Temos professores sendo afastados e demitidos pela expansão do embuste ideológico fascista chamado “Escola Sem Partido”, um físico argelino naturalizado francês sendo deportado do país por uma acusação de “terrorismo” extremamente frágil e duvidosa, para dizer o mínimo, militantes do MST sendo presos acusados de integrarem uma “organização criminosa”, jornalistas sendo presos e acusados por estarem realizando seu trabalho como aconteceu recentemente com Mateus Chaparini em Porto Alegre. Tudo isso, e muito mais, está acontecendo agora, por todo o país. Não há nenhuma normalidade, portanto, a não ser aquela que o governo espúrio de Temer e seus serviçais midiáticos tentam vender ao país.

O debate central, portanto, não é “a cidade que queremos” ou quem é o portador da novidade para as eleições deste ano, ou quem tem mais condições eleitorais de vencer. O que está em jogo é a democracia, a liberdade, a liberdade de expressão, a distribuição de renda, o combate à desigualdade social, a integração dos povos latino-americanos, as nossas empresas públicas e seu patrimônio, entre outros temas, não menos importantes. A dimensão de tudo isso é suficientemente grande e importante para subordinar disputas eleitorais e rivalidades que se tornam quase irrelevantes diante de tudo o que está em jogo. De desatenção também se morre. A arte da atenção não é simples, de fato. Ela exige práticas e valores que nem sempre encontram a desejável acolhida na política: visão de longo prazo, grandeza, generosidade, espírito de unidade e de agregação.

Muita gente que viveu 64 olha preocupado para o presente, identificando a presença de velhos fantasmas. Esses fantasmas também se alimentam da nossa desatenção que pode se manifestar de muitas maneiras. Uma delas é colocar aquilo que nos separa acima daquilo que nos une. É uma escolha simples que costuma ser feita silenciosamente. O que vamos privilegiar: o que nos separa ou o que nos une? A resposta a esta pergunta dirá o que pensamos sobre a natureza do enrosco em que estamos metidos. A trajetória da Frente Ampla, no Uruguai, já nos deixou alguns ensinamentos sobre isso. Nunca é demais ouvir e “reouvir”…

“Lo que importa es lo que nos une, no lo que nos separa” (Um dos lemas da campanha da Frente Ampla, no Uruguai, em 2009)