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‘Perder as ilusões não é perder a esperança. É aprender que tem pedras pelo caminho’

Olívio Dutra: “Os partidos do campo democrático-popular tem um problemão para resolver. A natureza desse problema não é eleitoral e tem raízes mais profundas”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Para muita gente, Olívio Dutra é hoje uma espécie de Mujica brasileiro. A referência ao líder político uruguaio não é gratuita. A melhor maneira de testar essa comparação é ouvir as suas falas e conversas políticas. Não são estritamente políticas, ao menos no maltratado sentido comum que a palavra “política” adquiriu. Mas ambos são seres políticos por excelência, na mais alta acepção que esse termo pode alcançar. Ao falar da política, falam da vida e da condição humana no presente. Alçado por muitos à condição de referência moral do PT e da esquerda brasileira de modo geral, Olívio Dutra é respeitado por pessoas de todos os espectros políticos, inclusive por aqueles que acreditam viver fora desse espectro. Mas ele recusa essa condição de salvador da pátria. Essa, aliás, é uma das razões pelas quais ele não pretende concorrer a qualquer cargo na eleição de 2018. Ele tem a convicção de que as raízes dos problemas a serem enfrentados pelo “campo democrático-popular” são mais profundas e não serão resolvidas fundamentalmente pela via eleitoral.

Olívio Dutra recebeu o Sul21 em seu apartamento-biblioteca na Avenida Assis Brasil para uma conversa sobre esses temas. Nos recebeu com um avental do Internacional, seu clube do coração. Antes de iniciar a conversa, registrada também com fotos e vídeo, assinalou: “Acho melhor me desaparamentar, né? – retirando o avental. Por mais de uma hora, Olívio falou sobre sua decisão de não concorrer, sobre a conjuntura nacional e estadual, o sentido da experiência do governo que encabeçou no Rio Grande do Sul e, principalmente, sobre aqueles que considera ser os principais desafios da esquerda hoje: não se deixar consumir pelo eleitoralismo, retomar o trabalho de base e de formação e promover um amplo debate sobre o funcionamento da sociedade e do Estado brasileiro.

Crítico de longa hora dos erros e desvios do PT, ele, porém, não abraça a política da terra arrasada ou do desânimo. Pelo contrário, cita versos de Carlos Drummond de Andrade e de Mário Quintana para falar da importância de se permanecer juntos em meio às agruras do presente, perder as ilusões, mas não perder a esperança. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

A estranha pedagogia da Lava-Jato, e o futuro por armar

“Passa da hora, portanto, a formação de uma grande Mesa de Diálogo Nacional pela Democracia, que ofereça uma alternativa contra-hegemônica ao país.” (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marcelo Danéris

Em tempos de raciocínios binários e julgamentos sumários, o país, em estado de transe coletivo, procura entender o que ocorre nas entranhas da política nacional. O filtro do “Grande Irmão”, no entanto, turva a vista. A criminalização indistinta do mundo da política e o maniqueísmo simplista que orienta as condenações instantâneas, a partir das listas Janot-Fachin e de vídeos de delações cuidadosamente selecionados por empresas de comunicação em nada desinteressadas, encobre ambições políticas e econômicas, e procura direcionar a indignação popular.

Veja um exemplo, entre tantos. Em recente editorial o jornal O Globo procurou tratar o tema com pretensa profundidade, “Uma ideologia a serviço da corrupção”, anunciava o título. Deduziria um incauto tratar-se do capitalismo, ao lembrar que um dos seus grandes representantes nacionais, Emílio Odebrecht, afirmou nas delações que o pagamento de propinas é prática usual no país há mais de trinta anos.

Mas para surpresa geral, a ideologia em questão era o “lulopetismo” (?), seja lá o que isso signifique no arcabouço das ideologias correntes. Dizia o editorial: “a proliferação de empresas estatais e a ideologia lulopetista estão na base do maior assalto já praticado aos cofres públicos”. Um exercício extraordinário de seletividade jornalística e dissimulação política. O periódico sublimou solene, e propositalmente, tanto o dito pelo patriarca Odebrecht, quanto as inúmeras delações que remontam a Era FHC, passando por Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, Paulo Skaf e Michel Temer, apenas para citar alguns dos próceres de patos e paneleiros.

Com suposta isenção, sentenciou: “o conteúdo da videoteca da Odebrecht aponta para a conclusão de que a ideologia foi usada para a rapinagem de dinheiro do Tesouro”. O uso cínico dos fatos no texto tropeçou na matemática e se equivocou na história. Nos mais de 30 anos de relações promíscuas entre Estado e capital, pelo menos da parte delatada pela Odebrecht, o tal “lulopetismo” foi responsável por um terço deste tempo. O mesmo ocorrendo com as estatais, que conforme o próprio jornal, apoiado em estudo do Instituto tucano, Teotônio Villela, desde o início do governo Lula foram criadas 41 estatais, diga-se, das mais de 150 existentes, sendo que destas, 34 foram de responsabilidade do então príncipe das privatizações, Fernando Henrique Cardoso.

Se é verdade que o PT não detinha o monopólio da ética – uma dolorosa realidade para seus militantes –, para infelicidade do reacionarismo, também não detinha o monopólio da corrupção – histórica, endêmica, e ao que tudo indica, sistêmica. Inerente ao capitalismo sem risco afiançado pelo Estado, um produto tipicamente nacional, tristemente mantido nos governos Lula e Dilma.

De todo modo, a cobertura e a análise tendenciosas não são privilégios de um jornal, mas uma tácita orientação política da aliança conservadora replicada na grande mídia. Interessa, então, reconhecer as intenções inconfessas dos que roteirizam a narrativa pública e detém o monopólio das versões publicáveis. Reconhecer a escalada da crise que justifica a excepcionalidade política e naturaliza processos judiciais de exceção, prenunciando perigosas soluções antidemocráticas futuras. Como largamente testemunhado pela história, a política, na sua pior acepção, sobrevive sem democracia, sem partidos, sem liberdades.

Interessa, ainda, identificar a subordinação do Estado aos interesses do capital, seja pelas formas lícitas – privatizações, entrega de ativos, renúncias fiscais; seja pela sujeição aos organismos financeiros internacionais, que determinam políticas macroeconômicas a favor do rentismo, por cima dos estados nacionais e por fora da democracia; seja pelos canais criminosos da corrupção. Em todos os casos o capital acumula contra Estado e sociedade.

A cada novo capítulo do thriller político da crise brasileira as alternativas da cruzada conservadora oscilam entre o elitismo reacionário e midiático do prefeito João Dória, embalado por tucanos, e a violência protofascista do deputado Jair Bolsonaro, escudado pelo MBL. O neoliberalismo ilustrado com verniz modernizador, antes representado por Fernando Henrique Cardoso, não está atualmente na estante de opções da direita brasileira.

Enganam-se, assim, os que imaginam que o corpo agonizante exposto à execração pública seja o da política, lato sensu, esta sobrevive sob outra forma, em endereços nobres distantes do teatro de operações. A política como dimensão da manifestação humana, como serão tantas outras, reflete a medida das forças dos interesses conflitantes de diferentes comunidades e suas visões de mundo, sejam esses interesses lícitos ou não. A política é ideológica e economicamente motivada, em permanente tensão entre grupos, entre as partes da sociedade partida. A democracia é seu epifenômeno, não sua essência, muito menos condição para sua realização. Como tal, as condições para a qualificação e eficiência da democracia são determinadas pela política, não o contrário.

Logo, sob grave ameaça, figura de fato a democracia, ou mais precisamente, o Estado Democrático de Direito. E com ele, os partidos, sindicatos, movimentos sociais, a imprensa livre e independente, o devido processo legal, as conquistas civilizatórias, a política tal qual a idealizamos.

Pois, se não estamos em uma ditadura clássica, é certo que não vivemos mais uma democracia plena. E o histórico recente de politização da justiça e criminalização da política é motivo suficiente para guardarmos severas reservas quanto ao futuro. Há pouco mais de um ano as eleições de 2014 foram golpeadas por um impeachment sem crime; em 2016, as eleições municipais foram vergonhosamente manipuladas quinze dias antes do seu término por uma onda de delações vazadas, prisões, conduções coercitivas e coletivas de imprensa espetacularizadas da Lava-Jato; e hoje, especula-se a própria realização das eleições de 2018, em que condições e sistema.

Enquanto a direção petista tateia a conjuntura, dedicada a própria sobrevivência, a esquerda sangra em movimentos desconexos sem perceber a perigosa aproximação de uma longa diáspora. Cientes de que o tempo das conciliações se esgotou, passa da hora, portanto, a formação de uma grande Mesa de Diálogo Nacional pela Democracia, que ofereça uma alternativa contra-hegemônica ao país, com o objetivo de restaurar o pacto democrático, formular um novo programa de desenvolvimento soberano para o Brasil e constituir uma ampla frente de forças progressistas e de esquerda. Uma Frente que reúna os mais diversos quadros políticos de diferentes matizes com grande representatividade social, a partir do ativo preservado em meio a barbárie.

Pessoas como Guilherme Boulos, Marcelo Freixo, Olívio Dutra, Luíza Erundina, João Pedro Stédile, Jean Willys, Tarso Genro, Alessandro Molon, Roberto Amaral, Roberto Requião, Jandira Feghali, Bresser Pereira, Randolfe Rodrigues, Ciro Gomes, mas também, os milhões de militantes e simpatizantes da esquerda, parlamentares, intelectuais e artistas, sindicatos e movimentos sociais, e a nova juventude engajada nas diversas lutas por direitos, contra o golpe. Uma gente libertária e democrática, “animada e inspirada pela perspectiva da igualdade” – nas palavras de Bobbio –, e com um “futuro por armar”, nas de Tarso Genro.

“O golpe não terminou. A segunda etapa pode ser muito mais radicalizada e repressora”

Dilma Rousseff: “O que está em jogo hoje é o que vai ser a eleição de 2018. Essa será a pauta a partir da metade do ano (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Dilma Rousseff: “O que está em jogo hoje é o que vai ser a eleição de 2018. Essa será a pauta a partir da metade do ano (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Quase seis meses depois da votação da última etapa do impeachment no Senado Federal, Dilma Rousseff olha para esse período não como uma página virada na sua história de vida ou na história política do país, mas sim como um processo em andamento. “O golpe não acabou”, afirma, advertindo para os riscos que a democracia brasileira corre com o desenrolar do processo golpista. Em entrevista ao Sul21, concedida em seu apartamento em Porto Alegre, Dilma Rousseff fala sobre as raízes profundas e aparentes do golpe, denuncia o desmonte de políticas sociais e de setores estratégicos para o país, como as indústrias naval e petrolífera, e aponta as tarefas que ela considera prioritárias para a esquerda e para todas as forças progressistas do país:

“A questão democrática é fundamental para nós. Sempre ganhamos quando a democracia se aprofundou e sempre perdemos quando ela foi restringida. O que está em jogo hoje é o que vai ser a eleição de 2018. Essa será a pauta a partir da metade do ano. Acho que o Lula, nesta história, cumprirá um papel muito importante, concorrendo ou não. A segunda etapa do golpe pode ser muito mais radicalizada e propensa à repressão. Nossa missão é garantir o maior espaço democrático possível, denunciar todas as tentativas de restrição das liberdades democráticas e tentar garantir em 2018 um processo que seja construído por baixo”, defende. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Encontro debate como experiência da Frente Ampla uruguaia pode inspirar esquerda brasileira

Debate ocorrerá nesta quinta (8), às 18 horas, na Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do RS, em Porto Alegre. (Divulgação)

Debate ocorrerá nesta quinta (8), às 18 horas, na Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do RS, em Porto Alegre. (Divulgação)

O Instituto Comunidade promove nesta quinta-feira (8), às 18 horas, na Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do RS, o debate “Ampliar os caminhos da esquerda: a experiência uruguaia”. O palestrante será Sebastián Valdomir, da Frente Ampla do Uruguai, coordenadora da Bancada de Esquerda no Parlasul e deputado suplente na Câmara uruguaia. O debate contará também com a presença do ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, que comentará a fala de Valdomir.

O objetivo do encontro é resgatar a história de formação da Frente Ampla do Uruguai e debater em que medida ela pode ser uma fonte inspiradora para a construção de uma experiência frentista no Brasil, no momento em que a esquerda atravessa um dos momentos difíceis de sua história no país. O encontro tem apoio do SindBancários, Fetraif-RS e Sul21 e é aberto ao público.

Debate: Ampliar os Caminhos da esquerda: a experiência uruguaia

Palestrante: Sebastián Valdomir (Frente Ampla do Uruguai – Coordenador da Bancada de Esquerda no Parlasul e deputado suplente na Câmara uruguaia).
Comentários: Raul Pont.
Data: Quinta, 8/12
Horário: 18h
Local: Sede da FETRAFI-RS (Rua Fernando Machado, 820, Centro Histórico de Porto Alegre).
Promoção: Instituto Comunidade
Apoio: SindBancários, Fetrafi-RS e Sul Vinte Um

Seminário internacional debaterá construção de novas frentes políticas na América Latina

O encontro tratará dos desafios colocados pela atual conjuntura política para a esquerda latino-americana.

O encontro tratará dos desafios colocados pela atual conjuntura política para a esquerda latino-americana.

O Instituto Novos Paradigmas e a Fundação Friedrich Ebert promovem dia 2 de dezembro, no Hotel Windsor Leme, Rio de Janeiro, o seminário internacional “Frentes Políticas na América Latina”. O encontro tratará dos desafios colocados pela atual conjuntura política para a esquerda latino-americana e abordará também as experiências de frentes de esquerda realizadas em países como Chile e Uruguai.

Participarão do debate nomes como João Pedro Stédile, Guilherme Boulos, Camila Vallejo (Chile), Tarso Genro e Fernando Haddad, entre outros convidados do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai. Estarão presentes ainda convidados de diferentes agrupamentos políticos sul-americanos, além de intelectuais e representações de movimentos sociais e partidos de esquerda brasileiros.

Mais do que fazer um balanço sobre as distintas experiências de governo de partidos de esquerda e progressistas na América Latina, o seminário pretende debater a necessidade de uma renovação programática e organizativa da esquerda na América Latina. Na avaliação dos organizadores do encontro, os avanços sociais obtidos por esses governos nem sempre vieram acompanhados de um aumento da consciência política da cidadania, do fortalecimento das organizações sociais e dos partidos de esquerda.

A abertura do seminário ficará a cargo de Thomas Manz, representante da Fundação Friedrich Ebert no Brasil, e de Fernando Haddad, prefeito de São Paulo. O ex-ministro da Justiça e ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, fará uma apresentação geral dos objetivos do encontro.

O primeiro painel, “Frentes de Esquerda na América Latina”, terá como debatedores Carlos Ominami (Chile), Daniel Filmus (Argentina), Carlos Filizola (Paraguai). Juarez Guimarães (Brasil), Laura Carvalho (Brasil) e Javier Miranda (Uruguai).

Já o segundo painel, “A visão dos movimentos sociais após uma década de governos progressistas na América Latina”, reunirá João Pedro Stédile (Brasil), Guilherme Boulos (Brasil), Camila Vallejo (Chile) e Constanza Moreira (Uruguai).

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Perdemos todos, vamos renovar

“A lição das urnas mostra que a ausência de um partido hegemônico – pela esquerda, com um programa autêntico de construção da nação e capaz de consolidar o Estado Social de Direito – é a principal barreira que devemos superar”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“A lição das urnas mostra que a ausência de um partido hegemônico – pela esquerda, com um programa autêntico de construção da nação e capaz de consolidar o Estado Social de Direito – é a principal barreira que devemos superar”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Tarso Genro (*)

Um brilhante artigo do Professor Roberto Amaral, “Os desafios das esquerdas fragmentadas”, oferece um roteiro excepcional para o debate que devemos abrir, em defesa da democracia e da república, no momento em que as urnas sinalizam, não somente o fim da hegemonia petista, no âmbito da esquerda, mas eficácia das novas formas de luta – já assumidas em todo o mundo – pela direita conservadora rentista. Esta, aliada com os centros de inteligência neoliberais, pautada pelo oligopólio da mídia, que exige as “reformas” no Estado Social,  conta, de um lado, com a decadência das formas tradicionais de fazer política – assumidas pelo PT – como partido hegemônico, e, de outro, com o “cansaço” da democracia, que não consegue mais dar estabilidade a conquistas sociais, nem vitalidade às liberdades políticas.

O PT teve muitas candidaturas dignas e autênticas, como as de Raul Pont e Fernando Haddad – para mencionar apenas duas capitais – e outras tantas por este Brasil afora, mas, em regra, teve um desempenho pífio ou dissolveu-se em alianças regionais de conveniência, sem se dar conta que, na verdade, esta eleição seria um pleito de recomeço e não de continuidade da política de resistência contra o impedimento da Presidenta. Este, de resto, já era (e é) fato político consolidado, mesmo grande parte da população tendo consciência que foi enganada sobre os propósitos da sua derrubada, que ocorreu para que seja feito um “ajuste” profundo, na economia, não para combater a corrupção.

Toda a falência do nosso sistema de alianças pode ser sintetizada num dos exemplos, entre os vários dados pelo professor Amaral, no texto referido: como explicar que o PT, em Olinda, não tenha apoiado Luciana Santos, presidenta nacional do PCdoB, e este partido – em Recife – tenha apoiado o candidato da direita, contra João Paulo do PT, sabidamente um homem do campo da esquerda?  Quando se levanta esta perplexidade, não está se buscando “responsabilidades” locais, pois, de resto – em momentos eleitorais – as forças políticas locais se movem pragmaticamente, quando não ocorre uma intervenção de um centro dirigente legítimo. O que está se buscando é visualizar quais as estratégias nacionais, que estes partidos adotam, para “naturalizar” tal fragmentação, bem como o sentido de responsabilidade histórica, que definem na conjuntura atual, para permitir que os seus agentes políticos se movam com esta leveza sem estratégia.

Na verdade, parece que estes partidos do campo da esquerda agem como se o país não transitasse por um processo político de “exceção”, como se o Estado Social de Direito não estivesse sendo desmantelado, como se a hidra do fascismo não estivesse levantando uma das suas cabeças, como se o “ajuste” em curso – que integra de forma definitiva o Brasil na tutela do “rentismo” global – (e faz a sua própria base social sólida), fosse um mero acidente de percurso. Na verdade, todavia, é sabido que estes ajustes só são aplicáveis quando as corrupções contingentes, de qualquer Estado, tornam-se modo estrutural definitivo de governabilidade, como está correndo no Brasil.

Não vou dar exemplos da falta de estratégia democrática de outros partidos, mais além do que pontuais, porque a finalidade deste artigo não é, neste momento, travar uma polêmica com os que se colocam “à esquerda”, desta aliança do PT com o PCdoB, que deveria informar um sistema de alianças mais amplo, tanto à esquerda como à sua “direita”. A ideia é refletir sobre os erros – principalmente do PT como partido hegemônico – no campo que defendeu a ilegitimidade do golpe contra a Dilma e foi o alvo principal de uma sistemática campanha de destruição, pelo oligopólio da mídia, inclusive nos dias próximos à eleição.

Coloco na minha breve abordagem a seguinte pergunta: o que faz o PT – por exemplo -lançar a candidatura  em Belém, de Regina Barata (1,71%) – paralela à candidatura de Edmilson, do PSOL (30%) – , numa eleição em que este, homem de esquerda e gestor excelente enfrentava, já no primeiro turno, um forte candidato do PSDB, que hoje é o principal repositório do golpismo pós-moderno, no país?  Reputo que com esta postura -independentemente das suas intenções nobres – o PT reflete a mesma concepção de fundo do PSOL (embora o faça com viés burocrático), pela qual ele se avoca o mais importante representante da esquerda,  deixando de lado a melhor candidatura, para enfrentar o adversário comum.

Esta posição exclusivista, seja do PT, que chega nela pela via burocrático eleitoral, seja do PSOL – que a defende em vários lugares como uma estratégia socialista – retira do centro do conflito eleitoral a questão democrática, que tinha sido superada na Constituição de 88, agora golpeada por um Congresso sem legitimidade. Se a questão democrática não for, hoje, no país, a questão mais decisiva a ser enfrentada por uma frente política novo tipo – que passe inclusive por dentro dos processos eleitorais – meu raciocínio está errado. Mas, se estou certo, os resultados eleitorais nos centros políticos mais importantes do país consolidaram o Governo Temer, reforçaram o PSDB e atrasaram a unidade popular para enfrentar a exceção.

Quero lembrar, ainda, outro aspecto que me parece extremamente relevante. Trata-se de um fato histórico de alta complexidade, através do qual a questão democrática e nacional, foi retomada pela direita por outra via, pela qual a suposta defesa da nação (contra o comunismo) não se tornou em nenhum momento dominante. Isso permitiu falsear ao extremo os interesses de classe tradicionais, que envolveram os surtos autoritários de períodos anteriores: a soberania popular foi revogada no país, em nome da luta contra corrupção, mas o seu propósito era e é – com ou sem corrupção – aplicar um programa claro de natureza econômica, para integrar de forma profunda o Brasil no domínio do “rentismo” global. Este faz e amplia a sua própria base social e política no processo de reformas, que tem o apoio de diversos partidos e frações de partidos e que tinha se aninhado inclusive dentro do próprio PT.

Em suma, a lição das urnas mostra que a ausência de um partido hegemônico – pela esquerda, com um programa autêntico de construção da nação e capaz de consolidar o Estado Social de Direito – é a principal barreira que devemos superar, para que o campo popular e democrático no país recupere a iniciativa e enfrente o golpismo amplamente vitorioso nas eleições deste ano.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Ruptura e simpatia na luta pela legalidade

“Quando você está numa batalha, contra um inimigo muito mais poderoso e forte que você, e descobre que tem um amigo, que nem sabia que você existia, este é o melhor sentimento do mundo”. (Do filme Pride (2014), uma comédia histórica sobre o encontro entre gays solidários aos mineiros ameaçados por Thatcher e os mineiros com gays e lésbicas militantes. Um filme sobre solidariedade, generosidade e as rupturas que a luta política pura é capaz de produzir.)

Por Katarina Peixoto

Estamos vivendo dias imensos, de aprendizado, rupturas e descobertas que a luta política pura faz emergir. O Brasil não vive um combate à corrupção do PT, isso já está mais do que claro. Vivemos uma tentativa de extermínio de uma força política, a esquerda brasileira, cujo enraizamento social e legitimidade procedimental passaram a ameaçar as condições de disputa política dentro das regras do jogo, para as forças escravocratas, racistas e parasitadas de traços residuais de nossa histórica e contagiosa desigualdade. Graças a uma campanha tão sórdida como covarde, o ódio político ganhou ares de seriedade e futuro.

Mas a reação veio, animada por legalistas, neste país tão católico e impregnado da tralha do jusnaturalismo, por jovens de classe media e por intelectuais sérios. Trabalhadores organizados e os desorganizados, profissionais que, weberianamente, observam o interesse profissional sobre as exigências estamentais, foram às ruas, estão nas redes, escrevem, não aderem ao golpismo, denunciam, expressam sua consciência: não vai ter golpe. Não vai se repetir esse expediente que nos destruiu a todos.

Nenhum dos males de nosso país, hoje, deixou de ser contemplado, constituído e fortalecido, durante a ditadura que depôs governo eleito legitimamente, há 50 anos. Nenhum.

Vivemos algo novo, hoje. Ao contrário do niilismo autoritário do “não me representa”, que marcou o junho de 2013, quando o governo atual passou a ser ameaçado, as ruas e os dias que se seguiram à tentativa de enjaulamento espetacular de Lula foram dias de reivindicação da representação e da democracia. Tirando um ou dois quadros da se dizente extrema esquerda, tão ignorantes como refratários à regra do jogo democrático, a esquerda, muito além do PT, reagiu. Sem uma demanda partidária para explicar o que está em jogo, ficou claro que o extermínio de uma sigla e da atual experiência do governo precisam de expedientes autoritários, para vingar o ódio de classe e a indignação escravocrata que nos assolam, ainda. E ficou claro, também, que essa sigla, a esquerda não partidária e os que reconhecem o avanço do país nos últimos anos sabem disso.

Muitos aprendizados em curso. Para muita gente, que nunca viveu sob a ditadura, que já nasceu sem inflação, que cresceu achando que não ter famílias com fome pelas ruas é normal, que ter escravos em casa, recebendo salários mínimos de miséria e fome, é um escândalo e uma indignidade, este é um momento divisor de águas. E as ruas ensinam, e a luta forma, e novos elos são constituídos. A direita, sempre escorada no ódio, não pode agregar coisa alguma, quando o que exige é somente destruição e aniquilação.

Tentaram isso em junho de 2013 e fracassaram. A luta pelo extermínio não forma, se não há a representação de algo, a mirada no dia seguinte, algo que explique ou deixe, como possibilidade de explicação, a experiência da luta política. A promessa do fascismo é a morte. A promessa da Política é a vida em comunidade. Porque faz sentido estarmos juntos. Não por um programa máximo, nem de transição. Pela lei, que seja. A nossa simpatia, a nossa generosidade e o nosso espírito público são suficientes, já dizia Adam Smith, para termos uma sociedade livre. É em uma sociedade na qual esses vínculos existem que são dadas as condições para a demanda por liberdade. Por isso, é preciso limitar o autointeresse, eventualmente romper com as demandas estamentais, e abrir-se à experiência que a simpatia oferece.

Basta!

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Basta de governos de esquerda, em todas as esferas, seguirem financiando, com milhões de reais de patrocínio, grandes corporação de comunicação que atuam como partidos políticos antidemocráticos com uma agenda vinculada aos negócios do grande capital nacional e internacional, especialmente nos setores financeiro, imobiliário, de telecomunicações e do agronegócio.

Basta de sindicatos de esquerda seguirem financiando programas de grandes corporações de comunicação e divulgando peças publicitárias em horários nobres de televisão destes grupos e em espaços nobres de seus jornais e rádios, sob o argumento de que é preciso “chegar à toda a base da categoria”. Esse método de comunicação é ineficaz, fortalece o que deveria ser enfraquecido e enfraquece o que deveria ser fortalecido.

Basta de parlamentares e dirigentes de esquerda, em todas as esferas, procurarem manter “relações privilegiadas” com formadores de opinião dessas grandes corporações de comunicação, alimentando uma relação promíscua de informações privilegiadas, futricas internas ou paroquiais e entrevistas especiais que fortalecem o que deveria ser enfraquecido e enfraquece o que deveria ser fortalecido.

Basta de os escassos veículos de comunicação de esquerda ou com uma pauta independente seguirem sendo tratados, na melhor das hipóteses, sob a rubrica da “ajuda” por parte daqueles que deveriam tratar a comunicação como uma questão absolutamente estratégica. Sem uma estrutura de comunicação forte, qualificada e profissionalizada, não há como enfrentar minimamente a potentíssima máquina que opera do outro lado.

Basta de tratar a comunicação como um tema separado de cada entidade, cada uma cultivando a sua horta, o seu jornal, o seu site, as suas contas nas redes sociais, o seu aparato próprio de comunicação, sem uma estratégia de caráter mais amplo e articulado para tratar das (muitas) questões que são disputadas diariamente na sociedade.

Basta de considerar, na prática, as grandes corporações de comunicação como algo dissociado da agenda do grande capital e de seus braços políticos.

Basta de reconhecer a pertinência de todas essas questões, mas seguir empurrando com a barriga a construção de soluções mais consistentes para as mesmas.

Entre a Redenção e o Parcão, a tal da luta de classes

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O dia 13 de março começou em Porto Alegre com amigos fazendo recomendações de cautela pelas redes sociais. “Olha, falando sério, vê se não ficar aí pelos arredores do Parcão com camisetas do PT. Não vale a pena bater boca com malucos, além do que pode rolar agressão. Vão pra Redenção”. A capital gaúcha, neste domingo que amanheceu cinzento, está dividida em dois territórios bem demarcados: Parcão, o enclave da direita porto-alegrense, e a Redenção, para onde foi programada a manifestação em defesa da democracia e contra o movimento golpista. Os atos “Fora Dilma” em Porto Alegre têm uma peculiaridade. O Rio Grande do Sul é o Estado que lidera o ranking de políticos investigados na Operação Lava-Jato: seis ao todo, todos da bancada federal do Partido Progressista (PP), que ajuda a organizar o protesto “contra a corrupção” no Parcão.

Mas o território do Parcão só tem olhos para denúncias envolvendo o PT. Essa obsessão foi retroalimentada por um anticomunismo raivoso que muita gente julgava extinto. O “vai pra Cuba” voltou com força, carregando junto tudo o que tenha “cara de esquerda”; do Bolsa Família ao Mais Médicos, de Cuba a Venezuela, do MST aos sindicatos. A velha luta de classes ressurgiu com todo seu esplendor para surpresa daqueles que já tinham decretado a sua extinção. Mas o DNA do dinossauro estava latente, esperando para dar as caras. E fez isso num contexto bem conhecido na história do Brasil. A associação entre discurso contra corrupção e anticomunismo foi usada contra Getúlio, contra Jango e Brizola e, agora, contra Lula e Dilma. Nas vezes em que esses discursos foram vitoriosos, curiosamente, a corrupção deixou de ser combatida e voltou a tudo como era dantes no quartel de Abrantes.

O fato é que a estrutura de classes no Brasil se moveu de seu leito habitual, mexendo junto com valores, imaginários e práticas sociais. A aglutinação de pautas conservadoras de direita, e mesmo de extrema-direita, como defesa da pena de morte, da ditadura militar, da prisão e morte de comunistas e gente de esquerda em geral, contra os “defensores de direitos humanos” e outras bizarrices do tipo, não é um fruto do acaso. As ideias e valores da direita que saiu do armário foram sintetizadas pelo deputado federal Luiz Carlos Heinze, um dos parlamentares do PP gaúcho investigados na Lava Jato, quando reuniu sob o guarda-chuva do “tudo que não presta” gays, lésbicas, índios e quilombolas. Esse conceito ajuda a demarcar a geografia política em Porto Alegre neste domingo: o pessoal do “tudo que não presta” reunido na Redenção, enquanto “tudo o que presta” está salivando no Parcão. Há quem não goste dessa polarização, mas ela tem uma característica peculiar: teima em existir. Talvez seja por alguma razão.

Em meio a tudo isso, alguns vendedores ambulantes tratam de ganhar alguns trocos, vendendo a bandeira do Brasil ao lado de pequenos pixulecos de Lula, vestido de presidiário, o presidente que não fez nenhuma revolução no país, mas decidiu iniciar um processo de redistribuição de renda que fez milhões de brasileiros e brasileiras saírem da miséria.

“Se queremos um socialismo democrático precisamos de uma revolução democrática”

juarezguimaraes300 “Se defendemos uma transição democrática para o socialismo, precisamos de uma revolução democrática para fazer essa transição. Não podemos separar as ideias de revolução e de socialismo da ideia de democracia. Este é o grande desafio dos socialistas e marxistas hoje e essa revista pretende ser um espaço plural de reflexão sobre esse tema”. Foi assim que o cientista político Juarez Guimarães, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apresentou a revista Democracia Socialista no ato de lançamento da mesma, ocorrido quinta-feira (21) à noite, no Sindicato dos Bancários, em Porto Alegre.  A publicação, anunciou Juarez Guimarães, pretende ser um local onde todos que reconhecem a importância dessa agenda possam se encontrar, escrever e refletir sobre os desafios que estão colocados para a esquerda hoje no Brasil, na América Latina e no mundo.

A revista é uma publicação quadrimestral da Democracia Socialista, tendência interna do PT, mas pretende promover o de debate e a reflexão sobre os desafios e dilemas da esquerda para além das fronteiras do partido. O deputado estadual Raul Pont observou que durante muito tempo a DS manteve o jornal Em Tempo como espaço de informação e debate teórico. O jornal, porém, ressaltou, foi ficando muito defasado com a evolução de novas tecnologias de comunicação. “Hoje, temos notícias e análises de conjuntura disponibilizadas diariamente. Decidimos então produzir uma revista teórica plural e não sectária, que está aberta a outras correntes do partido e também de fora do PT”, explicou.

“Todos aqui temos orgulho de tudo o que já fizemos em nossa trajetória”, acrescentou Pont, “mas sabemos também que há muitas coisas que não conseguimos fazer em nossos governos. Essa autocrítica é o que nos move para continuar avançando”. Na mesma linha, Juarez Guimarães destacou a importância da revista como ferramenta teórica para enfrentar o contexto de crescente pragmatismo registrado no interior do PT.

“Identificamos há alguns anos já que o PT vem convivendo com uma cultura pragmática que arrisca, no limite, dissolver a sua identidade como partido socialista. Não podemos seguir cedendo em valores em nome meramente do cálculo eleitoral utilitarista. Esse pragmatismo rebaixa o horizonte utópico e nos resseca a todos”, enfatizou o cientista político e dirigente do PT em sua fala no auditório do Sindicato dos Bancários.

Juarez Guimarães utilizou a figura do labirinto para fazer uma comparação entre a situação vivida pela esquerda hoje e aquela vivida no período pós-golpe de 64. “Os jovens que começaram a militar no período pós-golpe, naquela situação agônica, tinham diante de si um labirinto que parecia não ter saída, onde se cruzavam dilemas antigos e novos da esquerda brasileira. Esses dilemas envolviam a caracterização do estágio e da natureza do desenvolvimento brasileiro, os limites do conceito de revolução democrática burguesa, defendido então pelo Partidão (PCB). As divergências em torno dessas questões fizeram com que as cisões das esquerdas adquirissem a forma de um labirinto. Dezenas de pequenos grupos de esquerda passaram a buscar a saída desse labirinto. A saída desse labirinto foi a fundação do PT muitos anos depois, após muitos erros, no sentido de errância mesmo”.

“Assim como a esquerda nos anos 60 viveu esse labirinto”, acrescentou, “hoje nós vivemos o nosso labirinto também, resultante de um processo de cisão e descontinuidade da cultura marxista que tem uma relação profunda com os impasses vividos pelo PT hoje”. Para Juarez Guimarães, a chave para buscar a saída desse labirinto encontra-se no próprio Marx, em especial na ideia de auto-emancipação.

“Essa ideia central de Marx o protege de qualquer elemento repressivo ou autoritário que se possa querer extrair de sua obra”, defendeu, apontando aquele que considera ser o caminho estratégico a ser seguido pela esquerda no Brasil e no mundo: não dissociar as ideias de socialismo, revolução e democracia. “Esse é o grande desafio dos socialistas e marxistas hoje: fazer uma revolução democrática. Nunca esqueci de algo que o Raul (Pont) disse certa vez: quando estivermos confusos sobre o que fazer, precisamos dar democracia às pessoas. Fazendo isso, as chances de errar serão muito menores”.