Arquivo da tag: Cuba

O legado e a atualidade de Che Guevara: “ele acreditava no melhor do humano”

Santiago Feliú: “Essa atualidade tem a ver, não com o Che heróico e guerrilheiro da luta armada, mas sim o Che ético, que acreditava no melhor do humano”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

No ano do cinquentenário de sua morte, a figura de Ernesto Che Guevara segue influenciando jovens no mundo inteiro, seja como inspiração política, seja como um símbolo pop de rebeldia. Mas qual é o mesmo legado e a atualidade desse jovem argentino que, após ser um dos líderes da Revolução Cubana junto com Fidel Castro, trocou os postos que ocupava em ministérios do governo revolucionário, para se engajar na luta antiimperialista no Congo e, mais tarde, na Bolívia, onde acabaria por ser morto aos 39 anos de idade?

Pesquisador da vida de Che, o jornalista e professor cubano Santiago Feliú vem reunindo desde a década de 90 canções compostas em homenagem à memória do jovem médico argentino que virou revolucionário. Mais do que simples homenagem, a preocupação central de Feliú é resgatar o que chama de face ética de Che Guevara, da exemplaridade com que este exerceu a sua luta política. Em entrevista ao Sul21, Feliú fala sobre a atualidade da figura de Che e de seu legado. “Essa atualidade tem a ver, não com o Che heróico e guerrilheiro da luta armada, mas sim o Che ético, que foi ministro em várias pastas no início da Revolução Cubana e que acreditava em determinados valores e, em especial, no melhor do humano”.

Santiago Feliú veio a Porto Alegre a convite da Associação Cultural José Martí para o lançamento da segunda edição do seu livro “Canto épico a la ternura” em homenagem à obra e ao pensamento de Che Guevara. Na entrevista, ele também fala sobre o presente de Cuba e sobre os desafios colocados para o país após a morte de Fidel Castro e aposentadoria de Raúl Castro. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Centro Cultural da CEEE suspendeu evento sobre Che Guevara por razões políticas, diz associação

O lançamento do livro e o espetáculo musical, previstos, anteriormente, para o Centro Cultural Érico Veríssimo, ocorrerão dia 6 de junho, às 19 horas, no Solar dos Câmara. (Divulgação)

A Associação Cultural José Martí/RS foi obrigada a mudar o local do lançamento do livro “Canto épico a la ternura”, do jornalista e professor cubano Santiago Feliú, que estava marcado para ocorrer no Centro Cultural Érico Veríssimo. A transferência do local, segundo a associação, ocorreu pelo rompimento do contrato assinado pelo centro cultural. Segundo o vice-presidente da Associação José Martí, Ricardo Haesbaert, a CEEE suspendeu o contrato “por ordem do Secretário Estadual de Minas e Energia”, o que caracteriza “uma retaliação e oposição ideológica dignas de um estado de exceção”.

O rompimento do contrato, disse ainda a entidade, ocorreu no dia 26 de maio, “após as entidades realizadoras assumirem gastos, como de publicidade e divulgação, causando problemas e indignação pelo fato de o Centro Érico Veríssimo ser até então um espaço democrático de expressão cultural no Estado”. O lançamento do livro e o espetáculo musical, previstos, anteriormente, para o Centro Cultural Érico Veríssimo, ocorrerão dia 6 de junho, às 19 horas, no Solar dos Câmara, localizado na Rua Duque de Caxias, 968, na Assembleia Legislativa do Estado.

Santiago Feliú está em Porto Alegre para o lançamento da segunda edição do seu livro em homenagem à obra e ao pensamento de Che Guevara, assassinado na Bolívia, há 50 anos. Com 285 páginas, a obra tem 158 canções, de autoria de 100 músicos de 17 países íbero-americanos, compostas e interpretadas após a morte do guerrilheiro. A segunda edição do livro está sendo publicada no Brasil pela Associação Cultural José Martí/RS, com o apoio do Coletivo dos Jornalistas Brasileiros Amigos de Cuba/RS, e faz parte das atividades realizadas em todo o mundo para lembrar o ideário de Che, que ocorrerão durante 2017, com a passagem de 50 anos da sua morte.

O lançamento do livro contará com a apresentação dos músicos gaúchos Leonardo Ribeiro, Ernesto Fagundes, Paulinho Fagundes, Liane Schuler, Demétrio Xavier, Marisa Rotemberg, Ciro Ferreira, Mário Falcão e Pablo Lanzoni, que interpretarão canções de compositores brasileiros e outros latino-americanos, registradas na obra de Feliú. Ainda no mês de junho, a obra será lançada em Florianópolis, Baixada Santista e Belo Horizonte, pelas entidades estaduais de solidariedade a Cuba.

Em 1995 Feliú recebeu o Prêmio Ibero-americano de Ética pela investigação jornalística sobre Che Guevara, e pela importância das suas obras audiovisuais foi selecionado, em 2010, para fazer parte da União de Escritores e Artistas de Cuba – UNEAC. Ainda sobre Che, publicou a obra “Latinoamérica le Canta al Che Guevara” (1995), e realizou oito documentários sobre a vida e o pensamento do guerrilheiro.

Além de participar de programas e entrevistas em Porto Alegre, o jornalista Santiago Feliú terá encontros com estudantes da comunicação da Unisinos, com cartunistas, educadores e comunicadores que atuam em movimentos sociais. Ele participará também da Convenção Estadual de Solidariedade a Cuba, viajará a Gramado para a inauguração da Associação José Martí do Município e participará de um debate no Sindicato dos Jornalistas do RS, com os jornalistas Moisés Mendes e Celso Schröder. Feliú também ministrará uma aula aos alunos da turma de cooperativismo Fidel Castro, no Instituto de Educação Josué de Castro, em Veranópolis, a convite do MST.

Além de jornalista e professor, Santiago Feliú é escritor e repórter da Revista Tricontinental – Órgão oficial da Organização de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina – OSPAAAL. Fez parte da equipe de imprensa de Fidel Castro em suas viagens oficiais, e foi fundador da primeira Escola no Campo de Cuba (ESBEC) “8 de octubre”, en 1969. É graduado no Instituto Pedagógico Enrique José Varona, com ênfase em Historia e Marxismo, com pós – graduação e mestrado em Movimiento Obrero Internacional, e foi diretor de Vocacional LENIN e outras ESBEC, em Havana. Como diplomata representou Cuba nos seguintes países: Panamá (1987); Colombia. (1994); Bolivia. (1999/2003) e na Guatemala (2005 /2010).

O Sul21 entrou em contato com o Centro Cultural Érico Veríssimo e com a assessoria de imprensa da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) para ouvir a posição das instituições sobre o ocorrido, mas até o fechamento dessa matéria não obteve retorno.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Bloqueio dos EUA causou prejuízo bilionário a Cuba mas não atingiu objetivo principal

As medidas punitivas contra a ilha começaram poucas semanas depois do triunfo da Revolução Cubana, em 1959. Objetivo principal era derrotar o processo liderado por Fidel Castro. Bloqueio viu a aposentadoria de Fidel, mas não sua derrubada. (Foto: CubaDebate)

As medidas punitivas contra a ilha começaram poucas semanas depois do triunfo da Revolução Cubana, em 1959. Objetivo principal era derrotar o processo liderado por Fidel Castro. Bloqueio viu a aposentadoria de Fidel, mas não sua derrubada. (Foto: CubaDebate)

No dia 26 de outubro, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou, pela 25ª vez, a resolução pedindo o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba há mais de 50 anos. Como ocorreu em anos anteriores, a resolução foi aprovada quase por unanimidade: 191 votos a favor e duas abstenções: Estados Unidos e Israel. Essas abstenções foram uma novidade. Foi a primeira vez que os EUA e seu mais fiel aliado deixaram de votar favoravelmente à manutenção do bloqueio, decisão que representou mais um passo na direção da normalização das relações entre Washington e Havana. Em dezembro de 2014, o presidente Barack Obama defendeu o fim do bloqueio contra Cuba, mas essa decisão precisa ser aprovada pelo Congresso norte-americano, onde a maioria republicana segue rejeitando essa medida.

Em março de 2016, durante sua visita a Cuba, Obama classificou a política de bloqueio como “obsoleta” e voltou a defender o seu término. Em discurso feito no Grande Teatro de Havana, o presidente dos EUA renovou o pedido ao Congresso de seu país para que colocasse um fim a essa política. Apesar deste novo cenário, em setembro de 2015, Obama voltou a renovar as sanções contra Cuba abrigadas sob a Lei de Comércio com o Inimigo, de 1917, que constitui a peça básica sobre a qual repousam as leis e regulações que compõem a política de bloqueio. Essas normas, entre outras coisas, impõem multas milionárias a bancos e instituições financeiras que mantenham relações com Cuba. Ainda não se concretizou a anunciada autorização do uso do dólar nas transações internacionais de Cuba, nem a possibilidade de que os bancos dos EUA disponibilizem linhas de crédito a importadores cubanos de produtos estadunidenses autorizados.

A origem do bloqueio

O bloqueio total do comércio com Cuba foi decretado formalmente mediante uma ordem executiva do então presidente John F. Kennedy, no dia 3 de fevereiro de 1962. No entanto, as medidas punitivas contra a ilha começaram poucas semanadas depois do triunfo da Revolução Cubana, em 1959. No dia 12 de fevereiro daquele ano, o governo dos EUA negou a concessão de um pequeno crédito solicitado por Cuba para manter a estabilidade da moeda nacional. Posteriormente, foram sendo aplicadas outras medidas como a restrição do fornecimento de combustível pelas empresas estadunidenses, a paralisação de plantas industriais, a proibição de exportações a Cuba e a supressão parcial, e depois total, da quota de açúcar. Todas essas medidas tinham como objetivo central asfixiar economicamente a recém nascida revolução cubana. Em 1996, a Lei Helms-Burton aumentou os efeitos do bloqueio, estabelecendo sanções para quem decidisse investir em Cuba e autorizando o financiamento de ações hostis contra a ilha.

Em março de 2016, durante sua visita a Cuba, Obama classificou a política de bloqueio como “obsoleta” e voltou a defender o seu término. (Foto: Ismael Francisco/Cubadebate)

Em março de 2016, durante sua visita a Cuba, Obama classificou a política de bloqueio como “obsoleta” e voltou a defender o seu término. (Foto: Ismael Francisco/Cubadebate)

Segundo estimativas do governo cubano, a política do bloqueio, que vem sendo aplicada há mais de 50 anos, já causou prejuízos superiores a 125 bilhões de dólares, bloqueando o desenvolvimento da ilha e trazendo prejuízos inestimáveis à qualidade de vida da população. A partir de 2015, os departamentos do Tesouro e do Comércio dos Estados Unidos realizaram várias emendas às regulações que pesam sobre Cuba. O governo cubano considerou tais emendas passos positivos, mas ainda insuficientes. Passaram a ser autorizadas visitas de estadunidenses a Cuba mediante licença especial nas 12 categorias permitidas pela lei. Além disso, foram restabelecidos os vôos regulares entre os dois países, assim como o transporte marítimo de passageiros, segundo 12 categorias especiais, e viagens educacionais a titulo individual.

No setor das telecomunicações, foram autorizadas as exportações de produtos e serviços para Cuba, o financiamento para a criação de infraestrutura e a possibilidade de estabelecer empresas mistas com entidades cubanas. Essas medidas ainda não foram estendidas a outros setores da economia cubana que seguem sofrendo as restrições impostas pelo bloqueio. A lista de produtos estadunidenses que, a partir das novas medidas, podem ser exportados para Cuba se limita a produtos e serviços de telecomunicações, materiais de construção e ferramentas para o uso do setor estatal da economia, incluída aí a atividade agrícola. Por outro lado, a autorização para a importação, pelos Estados Unidos, de produtos e serviços cubanos exclui setores fundamentais para a economia cubana, como os do tabaco, rum, níquel, produtos biotecnológicos e serviços médicos e educacionais.

Outra importante limitação que persiste é a proibição a instituições financeiras cubanas para abrir contas em bancos dos Estados Unidos, o que impede o estabelecimento de relações bancárias diretas entre os dois países e encarece as operações comerciais de Cuba com esse país, em função da necessidade de fazer triangulações e pagar comissões a intermediários neste processo. Segundo o governo cubano, os efeitos negativos do fortalecimento das restrições que pesam sobre as transações cubanas e seu caráter extraterritorial durante os últimos sete anos, seguem manifestando-se na recusa de bancos estadunidenses e de outros países em realizar transferências relacionadas com Cuba, inclusive em outras moedas que não o dólar.

Mesmo possuindo indicadores reconhecidos internacionalmente, a área da saúde pública cubana também é duramente afetada pelo bloqueio. Os prejuízos se manifestam, por exemplo, na impossibilidade de adquirir, nos mercados estadunidenses, medicamentos, reagentes, peças de reposição para equipamentos de diagnóstico e tratamento, instrumental médico e outros insumos necessários para o funcionamento do setor. Na maioria dos casos, esses produtos precisam ser adquiridos em mercados geograficamente distantes, a um custo muito maior e representando também uma demora maior no tratamento dos pacientes.

Em novembro de 2015, especialistas em neurofisiologia clínica do Instituto de Neurologia e Neurocirurgia Dr. José Rafael Estrada González contataram a empresa General Electric, que comercializa equipamentos para o estudo do sistema nervoso periférico, manifestando interesse na compra de um equipamento desse tipo e no treinamento de um especialista cubano para o seu manejo. Em fevereiro de 2016, um representante da empresa respondeu que ela não estava autorizada a comercializar seus produtos com Cuba em função da política de bloqueio econômico.

Cuba conta com um dos programas de proteção social mais reconhecidos do mundo por ter, entre outras coisas, conseguido erradicar a desnutrição crônica e a desnutrição infantil entre sua população. No entanto, o setor da alimentação segue sendo um dos mais afetados pela política de bloqueio. Os prejuízos se manifestam, por exemplo, no aumento do preço das sementes, dos fertilizantes, peças de reposição para máquinas agrícolas e outros insumos que precisam ser comprados em mercados geograficamente distantes. Também contribui para a elevação dos custos a necessidade de utilizar intermediários para efetuar essas compras. Esta política também provoca o aumento do tempo para armazenamento de matérias primas e insumos necessários para a produção de leite, ovos e carne, de modo a evitar um desabastecimento inesperado destes produtos. Segundo o governo cubano, se esses produtos pudessem ser adquiridos nos Estados Unidos, esse tempo de armazenamento seria de apenas 15 dias e não 90 como ocorre hoje, representando outro fator de aumento de custos.

Desde o início do governo Obama, o governo dos Estados Unidos emitiu 49 multas, num valor superior a 14 milhões de dólares, a empresas locais e estrangeiras por não obedecer o bloqueio. Desde o início da reaproximação histórica de 2014, que incluiu a reabertura de embaixadas, os EUA multaram oito empresas (cinco locais e três estrangeiras) em um valor que chegou a 3 milhões de dólares. Segundo o chanceler cubano Bruno Rodríguez, somente em 2015, o bloqueio causou um prejuízo de 4,68 bilhões a Cuba. Apesar de todo esse prejuízo, em seus mais de 50 anos de vigência, o bloqueio não atingiu seu objetivo principal que era destruir a Revolução Cubana.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

ONU volta a aprovar fim do bloqueio a Cuba. Pela primeira vez, EUA se abstém

Segundo estimativas do governo cubano, a política do bloqueio, aplicada há mais de 50 anos, já causou prejuízos superiores a 125 bilhões de dólares. (Foto: Cubadebate)

Segundo estimativas do governo cubano, a política do bloqueio, aplicada há mais de 50 anos, já causou prejuízos superiores a 125 bilhões de dólares. (Foto: Cubadebate)

Estados Unidos e Israel se abstiveram de votar, nesta quarta-feira (26), na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a resolução “Necessidade de por fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”. A resolução que é votada há 25 anos na ONU teve 191 votos a favor, nenhum contra e somente duas abstenções. É a primeira vez que os EUA e seu mais fiel aliado deixaram de votar favoravelmente à manutenção do bloqueio, decisão que representa mais um passo para a normalização das relações entre Washington e Havana.

Desde que essa aproximação iniciou, em dezembro de 2014, o presidente Barack Obama tem defendido a suspensão do bloqueio comercial contra Cuba imposto há mais de meio século. O fim do embargo precisa ser aprovado pelo Congresso norte-americano que, até aqui, tem se recusado a votar tal medida.

Apesar dos pedidos de Obama ao Congresso, controlado pelos republicanos, para por um fim ao bloqueio, as medidas seguem vigentes e Cuba continua sem poder exportar e importar livremente produtos e serviços para ou desde os Estados Unidos, manter relações bancárias diretas com esse país nem receber investimentos estadunidenses, com exceção da área das telecomunicações.

Segundo estimativas do governo cubano, a política do bloqueio, que vem sendo aplicada há mais de 50 anos, já causou prejuízos superiores a 125 bilhões de dólares.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Pela 25ª vez ONU vota a resolução que condena o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba

Em 2015 191 países membros da ONU votaram contra o bloqueio, e apenas os Estados Unidos e Israel decidiram pela manutenção da sanção. (Foto: Bill Hackwell)

Em 2015 191 países membros da ONU votaram contra o bloqueio, e apenas os Estados Unidos e Israel decidiram pela manutenção da sanção. (Foto: Bill Hackwell)

Por Vânia Barbosa (*)

Pela vigésima quinta vez, a Assembleia Geral das Nações Unidas vota, em 27 de outubro, o fim do bloqueio econômico, financeiro e comercial, que há 54 anos é aplicado pelos Estados Unidos contra Cuba, com o objetivo de asfixiar os avanços econômicos e sociais defendidos após a Revolução na ilha socialista.

A votação vem sendo precedida de uma forte campanha internacional visando a denunciar as consequências do bloqueio na economia e na vida dos cubanos. Em todo o Brasil entidades de solidariedade a Cuba realizam atividades e divulgam manifestos contra a medida terrorista aplicada pelos governos dos Estados Unidos desde 1962. O Coletivo dos Jornalistas Amigos de Cuba – grupo formado por profissionais de todos os estados brasileiros – divulgou um manifesto condenando a sanção, e apresenta, no dia 26 de outubro – véspera da votação na ONU –, o filme Apesar de Todo, dirigido pelo cubano Juan Carlos Travieso, que aborda os problemas causados à população da Ilha em consequência do bloqueio. Posteriormente o filme será debatido pelo jornalista Max Altman, o escritor Lúcio Lisboa e a cônsul cubana Ivette Martinez.

Foto: Divulgação/Coletivo dos Jornalistas Amigos de Cuba

Foto: Divulgação/Coletivo dos Jornalistas Amigos de Cuba

Entidades estudantis com representação no Brasil e na América Latina também divulgaram um manifesto, e fortaleceram a campanha com a frase: “Sou estudante, sou contra o bloqueio”.

Na votação deste ano o Informe a ser apresentado pelo governo cubano destaca as perdas sociais e econômicas da Ilha caribenha, no período entre os meses de abril de 2015 a abril de 2016. Com a manutenção desta longa e criminosa medida na atual administração do presidente Barak Obama, o bloqueio permanece causando prejuízos apesar da promessa de “uma nova era de relações” entre os dois países, acordada a partir do restabelecimento diplomático ocorrido em dezembro de 2014.

Considerando a desvalorização do dólar frente ao valor do ouro no mercado internacional, e o período anteriormente citado, as perdas do povo cubano com o bloqueio sobem para 753 mil 688 milhões de dólares, apesar da redução do preço do ouro em comparação com o período anterior. E desde que essa sanção começou a ser aplicada contra a Ilha, o bloqueio econômico, financeiro e comercial tem provocado prejuízos que chegam a mais de 125 mil 873 milhões de dólares, a preços atuais.

Apesar das expectativas geradas tanto pelo governo cubano, quanto pela comunidade internacional, na última votação em 2015, os Estados Unidos – apoiados por Israel – votaram contra a resolução condenatória ao bloqueio, ignorando o voto favorável de 191 dos 193 estados-membros que compõem a Organização.

Na época a Assembleia da ONU se pronunciou, pela primeira vez, após os governos de Cuba e dos Estados Unidos iniciarem o processo de aproximação. Uma grande expectativa levou os países a acreditar na possibilidade de o governo de Washington se abster na votação. No entanto, o voto contrário foi mantido mais uma vez, com a justificativa de que a resolução apresentada pela vigésima quarta vez “não representava” o processo de aproximação já iniciado.

O autoritarismo e a mesquinharia política do auto – denominado imperialismo do Norte, ignoram a decisão ascendente do Conselho da ONU em votar a favor da resolução que condena o bloqueio. Lamentavelmente, mesmo sendo aprovada pela maioria, a matéria não poderá ser aplicada enquanto os Estados Unidos mantiver o poder de vetar a decisão soberana dos países membros. Ocorre que o veto é assegurado apenas aos cinco países membros do Conselho de Segurança da ONU, entre eles os estados Unidos. Não é sem motivo que muitas nações esbravejam e pedem urgência para uma forte reforma na estrutura do Órgão.

Apesar de o levantamento do bloqueio econômico, financeiro e comercial não ser atribuído apenas ao Poder Executivo estadunidense, o presidente tem condições para utilizar com determinação suas atribuições para minimizar as políticas do bloqueio, mesmo que para extingui-lo necessite do apoio final do Congresso norte-americano.

Sem considerar a forte pressão internacional e isolado nas Nações Unidas, os Estados Unidos insiste em rejeitar a resolução condenatória, talvez apostando que a economia cubana se mantenha em dificuldades, e que o governo da Ilha sujeite o Estado à iniciativa privada para resolver a crise. É para isso que Washington mantêm o rigor das leis que justificam o bloqueio, mesmo quando afrontam os princípios de não intervenção e dos direitos humanos dos cubanos.

Barack Obama optou por manter a política criminosa contra o povo cubano, e entre outras medidas em 11 de Setembro de 2015 renovou as sanções contra Cuba, considerando a Lei de Comércio com o Inimigo de 1917, a base das leis e regulações que compõem o bloqueio, alegando a “proteção aos interesses de política externa”.

A política genocida dos sucessivos governos estadunidenses também está exemplificada no caso dos enfermos cubanos que são impedidos de se beneficiar dos diagnósticos, tecnologias e medicamentos que tenham qualquer componente procedente dos Estados Unidos, mesmo que deles dependam para sobreviver. Tudo porque segundo as leis do bloqueio, independentemente destes recursos serem produzidos ou estarem disponíveis em outros países, é proibido a sua aquisição por Cuba.

Para o governo cubano o avanço no processo para normalizar as relações bilaterais com os Estados Unidos deverá considerar a disposição em garantir a base de igualdade soberana, e não ingerência nos assuntos internos e o respeito absoluto a sua independência. Neste sentido “é necessário o levantamento unilateral e incondicional por parte do governo dos estados Unidos, do bloqueio aplicado contra Cuba”.

(*) Leia mais sobre o bloqueio no site: www.cubavsbloqueo.cu

Ex-agente duplo cubano conta como a CIA promove ‘guerras não violentas’ para implodir governos

A missão da CIA para Raúl Capote era formar líderes universitários e criar o projeto “Genesis”, com o objetivo de estabelecer em Cuba a estratégia do “golpe suave”, elaborada por autores como Gene Sharp. ( Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A missão da CIA para Raúl Capote era formar líderes universitários e criar o projeto “Genesis”, com o objetivo de estabelecer em Cuba a estratégia do “golpe suave”, elaborada por autores como Gene Sharp. ( Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Entre 2004 e 2011, o escritor e professor cubano Raúl Antonio Capote Fernández atuou, a pedido da inteligência cubana, como agente duplo infiltrado na CIA. Raúl Capote foi contatado muito jovem por pessoas ligadas à agência de inteligência norte-americana e convidado a participar de um projeto que pretendia criar uma “oposição de novo tipo” em Cuba, capaz de, após o desaparecimento de Fidel Castro, iniciar uma “revolução suave” que acabasse por derrubar o governo de Havana. A sua missão era formar líderes universitários e criar o projeto “Genesis”, com o objetivo de estabelecer em Cuba a estratégia do “golpe suave”, elaborada por autores como Gene Sharp.

Em entrevista ao Sul21, Raúl Capote conta essa experiência, relata como ela fracassou em Cuba e diz que ela já foi aplicada em países como Venezuela, Irã e Líbia e que segue sendo implementada em diversas regiões do mundo. “A ideia da guerra não violenta consiste em ir solapando os pilares de um governo até que ele imploda. O objetivo não é fazer com que um governo renuncie. Se isso acontecer, o projeto fracassou. A ideia é que o governo imploda e que isso cause caos. Com o país em caos, é possível recorrer a meios mais extremos”, assinala.

Raúl Capote veio a Porto Alegre a convite da Associação Cultural José Martí/RS para participar de uma série de encontros e debates. Ele mantém o blog El Adversário Cubano, onde conta outros detalhes sobre essa história e sobre outras “guerras não violentas” em curso no planeta. (Clique aqui para ler a íntegra da entrevista)

Médicos cubanos começam a chegar ao Rio Grande do Sul neste sábado

medicoscubanos2 Os profissionais do programa Mais Médicos que virão trabalhar no Rio Grande do Sul começam a chegar ao Estado neste final de semana. A chegada do primeiro grupo, com 32 médicos(as) está prevista para este sábado (por volta das 10h25min) e a do segundo na segunda-feira, em dois horários: 70 profissionais às 10h30min e outros 31 às 23 horas. Fazem parte desses grupos os médicos cubanos e de outras nacionalidades formados na Universidade de Cuba. A Associação Cultural José Marti está preparando uma recepção aos médicos no aeroporto Salgado Filho, como uma demonstração de agradecimento por sua participação no programa do governo federal. A recepção quer ser também um contraponto às agressões feitas por médicas cearenses contra o primeiro grupo cubano que chegou em Fortaleza.

TVE exibe neste domingo animação cubana premiada

Vampiros_en_La_Habana A TVE exibe neste domingo (22), às 23 horas, a animação cubana “Vampiros em Havana”, de 1985, dirigida por Juan Padrón e premiada em diversos festivais no mundo. O desenho, de 75 minutos de duração, conta a história do vampiro e cientista Berndhart Amadeus Von Drácula que cria o Vampisol, um elixir que permite aos vampiros passear sob a luz do sol. Von Drácula decide que o produto será distribuído gratuitamente entre os vampiros, mas a notícia provoca comoção nas máfias vampirescas dos Estados Unidos e da Europa, que querem se promover com a fórmula de Vampisol. A conspiração que essas máfias empreendem acaba com a vida de Berndhart Amadeus. A partir desse momento seu sobrinho, Joseph Emmanuel Von Drácula, também conhecido como Pepito, guardará a fórmula secreta.

De volta para o passado

elizabethayrtoncenteno480

Por Ayrton Centeno (*)

Quando a História quer nos mostrar onde exatamente estamos ela cumpre este papel com uma precisão e uma extraordinária capacidade de rir de si mesma. Nem que tenha de repetir-se enquanto farsa. E onde exatamente estamos? Ou, melhor dizendo, onde está exatamente uma classe média (e médica) preconceituosa, insensível, egoísta e amamentada semanalmente com doses cavalares de arsênico pela revista Veja? Obviamente não está no Brasil, país odiado em que as empregadas domésticas agora tem — imagine só!  — até carteira de trabalho e em que a ralé elege os presidentes. Supostamente deveria estar no futuro, onde está sua imaginação de carrões, mansões, bugigangas hightech e férias em Miami. Mas está, que pena, em Little Rock, Arkansas, na frente do ginásio central da cidade. É o dia 4 de setembro de 1957 e brancos e brancas de todas as idades vaiam Elizabeth Eckford, 15 anos: “Dá o fora, macaca”, gritam. “Volta pro teu lugar!”, exigem. E mais: “Vai pra casa, negona!” e “Volta para a África!”

É o primeiro dia de aula de Elizabeth e ela encontra uma muralha de caras hostis, crispadas, injetadas de ódio. Nervosa, abraçada a sua pasta, procura resguardar-se junto a uma mulher mais velha, que deveria ser mais tolerante. Erro: ela lhe cospe no rosto. Elizabeth e mais oito colegas negros são os “Nove de Little Rock”. Foram os primeiros escolhidos para iniciar a dessegregação racial do ambiente escolar no recalcitrante Sul da Klu Klux Klan. Elizabeth tenta entrar na escola mas, por três vezes, barreiras da polícia estadual travam seus passos. Negros não devem frequentar escolas de brancos, entende o governador Orval Faubus, do Arkansas. Pouco importa que a Suprema Corte tenha decidido pela integração racial.

medicoscubanosayrtoncenteno480

No dia 27 deste mês, a foto de um médico cubano negro cercado por jovens médicas brancas sendo vaiado em Fortaleza, Ceará, trouxe inevitavelmente à memória a iconografia da demolição do apartheid no Sul dos Estados Unidos em meados da década de 1950 e começo dos 1960. Cinquenta e seis anos separam — e unem — as vaias de Little Rock e de Fortaleza. Nos dois casos, quem empurrou as vozes gargantas afora foi a intolerância, o medo e a mesquinharia. Com uma diferença: em Little Rock, os alunos incomodados teriam que conviver com os novatos de outra cor. Que ocupariam assentos que poderiam estar acomodando bundas brancas e não negras. Um horror, portanto.

No Brasil, não há este problema. Os médicos brasileiros insultados pela chegada dos forasteiros não precisam nem mesmo olhar as suas caras. Cubanos, argentinos, uruguaios, espanhóis, etc., vão trabalhar e viver num Brasil à parte. Vão trabalhar num Brasil precário que não lhes interessa absolutamente. Vão ocupar as vagas e receber os salários que rejeitaram como indignos de seu profundo saber e do seu projeto de vida saudável. Vão atuar em 701 municípios que não possuem shopping centers. Vão atuar na periferia das grandes cidades onde os profissionais nativos não necessitarão entrar e embarrar os pneus do carro do ano. Ficará para os estrangeiros a missão primordial de botar o pé na lama e se aproximar daqueles brasileiros que não merecem a atenção dos brasileiros que se formam nas melhores faculdades de medicina do Brasil, aquelas custeadas pelo dinheiro público e sustentadas inclusive por parte da renda dos mais pobres. Estes, enfim, conhecerão talvez seu primeiro médico. Que não será um brasileiro.

Elizabeth e os oito de Little Rock somente entraram na escola apoiados pelo governo federal. O presidente Dwight Eisenhower, general que havia combatido o nazismo na condição de comandante dos aliados na Europa, decidiu cumprir a ordem judicial contra o apartheid de Faubus. Mandou a 101ª Divisão Aerotransportada do Exército assegurar o ingresso dos estudantes. E a força ajudou o direito a se impor. Que não falte — se for preciso — a mesma determinação a Dilma Rousseff.

(*) Jornalista

Mariela Castro participa de seminário sobre educação e saúde sexual

marielacastro O Centro de Estudos e Orientação em Relações de Vida (CEORVI), coordenado pelas psicólogas Lúcia Pesca e Andréa Alves, promove dia 5 de abril, no auditório do Ministério Público do Rio Grande do Sul (Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, 80) o seminário internacional “Educação e Saúde Sexual: Experiências do Brasil e Cuba”.

Participará do seminário a presidente do Centro Nacional de Educação Sexual de Cuba (CENESEX), Mariela Castro Espín. Mariela Castro, que é filha do presidente Raul Castro, já ganhou vários prêmios internacionais por suas cartilhas contra a homofobia e é uma das principais lideranças de forte movimento político e social em Cuba que, desde 2004, se manifesta contra qualquer tipo de discriminação. O Centro Nacional de Educação Sexual vem impulsionando a luta sobre esse tema, com apoio da Federação Nacional de Mulheres cubana. Também estará presente no encontro, como convidado especial, o diretor científico do CENESEX, Ramón Rivero Pino, pesquisador na área de gênero e paternidade.

Do Brasil, participarão, entre outros, Ricardo Cavalcanti (do Centro de Sexualidade de Brasília e consultor da ONU e do projeto de Educação Sexual do Ministério de Educação), e Sidney Glina, presidente da Sociedade Latinoamericana de Medicina Sexual.

O objetivo é do encontro é debater temas como educação e prevenção em saúde sexual, luta contra a homofobia, as DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis), principalmente os altos percentuais de AIDS registrados no RS, a gravidez precoce e as disfunções sexuais.

Programação e inscrições na página do encontro.

 

Faculdade de Economia da UFRGS promove palestra sobre economia cubana

 O Grupo de Estudos Marxianos da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) promove quinta-feira (29), às 19 horas, uma palestra sobre a economia cubana com o professor Al Campbell, da Universidade de Utah (EUA). Campbell é marxista e pesquisador especializado em temas cubanos. A atividade ocorre no auditório da Faculdade de Economia (Avenida João Pessoa, 52), com entrada livre.

“Os brasileiros não se sentem latino-americanos”

 O desconhecimento que a maioria da população brasileira tem em relação à cultura latino-americana não chega a ser uma novidade. Mas ele fica mais gritante e absurdo quando referido por artistas e intelectuais de língua espanhola que tem grande conhecimento da cultura brasileira. Em 1986, o jovem escritor cubano Reinaldo Montero, vencedor do prêmio Casa de las Américas naquele ano com a novela Donjuanes, foi convidado para a Bienal do Livro em São Paulo. Quando chegou ao hotel, em São Paulo, viu em um mapa que estava muito perto da esquina da Ipiranga com a São João. “Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim…,” comenta.

Convidado para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, Montero concedeu entrevista à Carta Maior e falou sobre a influência da cultura brasileira na literatura, cinema e música cubana. Escritor, dramaturgo e roteirista de cinema, Reinaldo Montero foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras (As afinidades, 1999). Na entrevista, realizada no Memorial do Rio Grande do Sul, ele também fala sobre a relação entre inspiração e transpiração no ato de escrever, sobre o impacto da internet e das redes sociais na literatura e na relação dos autores com críticos e público, e sobre o atual momento da vida cultural cubana. Ao final, aponta uma relação de escritores e dramaturgos, cujo trabalho ajuda a refletir sobre o atual estágio da civilização. Montero não é muito otimista: “Vivemos um momento adolescente como espécie. E tenho dúvida se vamos amadurecer algum dia”.

Além do Casa de las Américas, em 1986, Montero ganhou prêmios em Cuba, Espanha e França, já teve três roteiros filmados, várias peças encenadas e é autor de novelas, poesias e ensaios. (Leia aqui a íntegra da entrevista)