Arquivo da tag: Carlos Drummond de Andrade

‘Perder as ilusões não é perder a esperança. É aprender que tem pedras pelo caminho’

Olívio Dutra: “Os partidos do campo democrático-popular tem um problemão para resolver. A natureza desse problema não é eleitoral e tem raízes mais profundas”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Para muita gente, Olívio Dutra é hoje uma espécie de Mujica brasileiro. A referência ao líder político uruguaio não é gratuita. A melhor maneira de testar essa comparação é ouvir as suas falas e conversas políticas. Não são estritamente políticas, ao menos no maltratado sentido comum que a palavra “política” adquiriu. Mas ambos são seres políticos por excelência, na mais alta acepção que esse termo pode alcançar. Ao falar da política, falam da vida e da condição humana no presente. Alçado por muitos à condição de referência moral do PT e da esquerda brasileira de modo geral, Olívio Dutra é respeitado por pessoas de todos os espectros políticos, inclusive por aqueles que acreditam viver fora desse espectro. Mas ele recusa essa condição de salvador da pátria. Essa, aliás, é uma das razões pelas quais ele não pretende concorrer a qualquer cargo na eleição de 2018. Ele tem a convicção de que as raízes dos problemas a serem enfrentados pelo “campo democrático-popular” são mais profundas e não serão resolvidas fundamentalmente pela via eleitoral.

Olívio Dutra recebeu o Sul21 em seu apartamento-biblioteca na Avenida Assis Brasil para uma conversa sobre esses temas. Nos recebeu com um avental do Internacional, seu clube do coração. Antes de iniciar a conversa, registrada também com fotos e vídeo, assinalou: “Acho melhor me desaparamentar, né? – retirando o avental. Por mais de uma hora, Olívio falou sobre sua decisão de não concorrer, sobre a conjuntura nacional e estadual, o sentido da experiência do governo que encabeçou no Rio Grande do Sul e, principalmente, sobre aqueles que considera ser os principais desafios da esquerda hoje: não se deixar consumir pelo eleitoralismo, retomar o trabalho de base e de formação e promover um amplo debate sobre o funcionamento da sociedade e do Estado brasileiro.

Crítico de longa hora dos erros e desvios do PT, ele, porém, não abraça a política da terra arrasada ou do desânimo. Pelo contrário, cita versos de Carlos Drummond de Andrade e de Mário Quintana para falar da importância de se permanecer juntos em meio às agruras do presente, perder as ilusões, mas não perder a esperança. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

Mãos dadas

Foto: Mídia Ninja

Foto: Mídia Ninja

Por Renato Dalto

Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro/ Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças/ Entre eles, considero a enorme realidade/ O presente é tão grande, não nos afastemos/ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

Carlos Drummond de Andrade, “Mãos Dadas”

Dizem que o cortejo seguiu silencioso para o adeus de Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira, poeta do mundo. Homem de hábitos discretos, sua poesia era para o silêncio de uma janela, não para a apoteose de um sarau. Na vida tinha sido assim, porque na morte não seria? Mas lá pelas tantas, contam, um violeiro puxou a viola e entonou alguns versos. E do silencio respeitoso se encheu de palavras musicadas.

Drummond nos deixou rosas. A Rosa do Povo, aquela que nasce na lama ou na sarjeta. O discreto carmim do homem desesperado cujos ombros suportam o mundo. O José sem rumo que nem mesmo achava o mar para o direito de naufragar, sozinho, sua alma trôpega e errante. Foi ontem na Copacabana que adotou Drummond, como filho e como estátua, que a praia se encheu de uma multidão que, vista de longe, parecia um grande jardim de rosas vermelhas.

Elas sinalizavam homens, mulheres, trabalhadores, estudantes, uma massa que havia trocado a discrição dos dias iguais pela rua. Um grande cortejo na rua pela areia que um dia viu Drummond passar. Foi ali também que ele observou novas gerações, com seus biquínis e libido juvenil, e tentou entende-la  no que chamou de “admirável espirito dos moços”, assim: “a vida te pertence, os alvoroços….. são as rosas do tempo, inquietas, vivas”.

As rosas do tempo. No país mais pobre, já sem Drummond, amanhecem hoje tímidas, mas não murchas. Inquietas e vivas. Dizem que a multidão se deu as mãos em Copacabana, em Salvador, na Porto Alegre da legalidade, no democrático Anhangabau, na Esplanada. Ave, Drummond. É o jardim do povo que pede a chuva. Logo o tempo vira. E viramos junto com ele. De mãos dadas.