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O “Plano Condor” judicial

“Este novo “Condor” tenta destruir a confiança não só na política, mas nas instituições básicas de nossas repúblicas e no próprio Direito”. (Foto: Télam/Agencia Nacional de Notícias)

Raúl Zaffaroni (*) 

Sem os (Ford) “Falcon” nem as sirenes, sem zonas “liberadas”e sem seqüestros, se extende pelo Cone Sul uma “operação Condor” juidicial. Uma prisão política como a de Milagro Sala e seus companheiros, parece anacrônica, fora de época e, justamente por isso, é um escândalo e uma vergonha internacional para todos os argentinos, porque compromete a própria imagem da nossa nação.

No lugar dessas medidas obsoletas – por serem próprias de etapas anteriores do colonialismo – se expande agora pelo Mercosul uma nova tática na usual estratégia de neutralizar quem quer que possa oferecer alguma séria resistência eleitoral ao avanço do totalitarismo corporativo em nossos países. Essa tática, ao mesmo tempo, é funcional para o desprestígio da política, objetivo não menor para que seu lugar seja ocupado pelos “chiefs executives officers” das transnacionais.

Trata-se de eliminar toda disputa eleitoral e, por vias judiciais, todo e qualquer líder ou dirigente popular capaz de ganhar uma eleição contra os candidatos das corporações ou outros entreguistas similares, empenhados em nos endividar com uma celeridade singular e nunca vista antes.

Para isso bastam alguns juízes obedientes, cujas motivações os serviços de inteligência e os gerentes e agentes das corporações sabem manipular, em especial as midiáticas, e que podem ser medo, servilismo, prebendas, promessas ou esperanças de acessar as cúpulas, comodidade, aspiração política ou simples desejo de estrelato.

São conhecidos os casos de Cristina (Kirchner), com uma alucinante acusação de “traição à Pátria”, que passa por alto da letra clara e expressa de nossa definição constitucional, por uma operação que acabou beneficiando amigos do oficialismo e prejudicou o Banco Central por imprudência do atual executivo (na melhor das hipóteses), ou por um imaginário superfaturamento no aluguel de um hotel.

Não menos absurdo é o caso de Lula, interrogado por um apartamento de reduzidas dimensões em um balneário de menor prestígio, que nunca esteve em seu nome nem visitou, mas que responde ao impulso do monopólio midiático mais forte da America do Sul, criador de uma estrela judicial favorita.

Menos conhecido é como está operando este “Plano Condor” judicial no caso de Fernando Lugo, o ex-presidente do Paraguai. A justiça eleitoral do Paraguai decidiu que, qualquer força política que proponha o nome de Fernando Lugo como candidato a presidente, estará incorrendo em “propaganda maliciosa”, com a estranha particularidade de que Lugo ainda não apresentou a sua candidatura.

Ou seja, a sua candidatura não foi impugnada porque ele não a apresentou, mas, por via das dúvidas, se condenará qualquer um que proponha seu nome como candidato. Para tanto, a justiça eleitoral se auto-atribuiu, indevidamente, a competência para interpretar a Constituição, o que, por certo, fez de uma maneira muito singular: o artigo 229 da Constituição paraguaia diz que o presidente não poderá ser reeleito em caso algum.

A leitura racional dessa disposição permite entender que se refere ao presidente em exercício, mas a curiosa interpretação da justiça eleitoral paraguaia é que, quem foi uma vez presidente, nunca mais poderá sê-lo em sua vida. Em outras palavras: Lugo, para a justiça do seu país, está incapacitado perpetuamente.

Ninguém se salva dos despropósitos deste novo “Plano Condor”, nem José (Pepe) Mujica, que vive em uma chácara onde ninguém jamais encontrou um peso ou bens. O personagem preocupa o novo totalitarismo dos “executives”, devido a sua popularidade nacional e internacional. Nem as reiteradas manifestações de “Pepe” garantindo que não quer voltar à presidência conseguem acalmá-los.

A questão começou a com a publicação de três panfletos chamados “livros”, desses que são escritos por “jornalistas” e que rapidamente começam a ser vendido nas livrarias, vinculando Mujica com assaltos cometidos por ex-tupamaros nos anos noventa, que acabaram presos e condenados na ocasião. Aos “livros”dos jornalistas se somaram as declarações de um ex-policial, chefe do equivalente a nossa seção de “roubos e furtos” nos tempos da ditadura, cujo auxiliar foi condenado, precisamente, por torturar tupamaros.

Este foi o material a partir do qual a minoria oposicionista quis criar uma comissão de investigação no Senado, disposição que acabou desbaratada pelo discurso do próprio Mujica, que nem seus inimigos se animaram a responder. Mas, com esses mesmos elementos, tenta-se convencer um promotor a reabrir causas fechadas há décadas.

Não se trata de dizer que o novo totalitarismo corporativo transnacional e seus aliados locais não estejam preocupados com o dano que esse “Plano Condor”pode trazer à democracia. Ao contrário, é justamente isso o que buscam, ou seja, a desmoralização da política. Mas, ao mesmo tempo, estão provocando uma desmoralização mais profunda, relacionada à Justiça. Não só ninguém levará a sério no futuro as decisões de juízes que se prestam a substituir funcionalmente os porta-malas dos “Falcon, como corremos o risco de estender a dúvida para a totalidade dos juízes.

Será difícil convencer nossos povos de que ainda há juízes em nossos países. Mais ainda: se os juízes devem “dizer o Direito”, a desconfiança pode se estender ao próprio Direito e à própria institucionalidade.

Os genocidas dos “Falcon” do velho plano Condor dizimaram uma geração de futuros dirigentes mais inconformados diante da injustiça social, mas este novo “Condor” tenta destruir a confiança não só na política, mas nas instituições básicas de nossas repúblicas e no próprio Direito.

Devemos ter extremo cuidado com isso porque, quando se despreza o Direito, não resta outro caminho que o da violência. Por sorte, nossos povos são intuitivos e pacíficos, ainda que conscientemente não acreditem muito no Direito – porque suas promessas foram quase sempre enganosas -, sabem que o caminho da violência é uma armadilha e que, ao final, os mortos são sempre os que estão de seu lado. Nossa principal tarefa deve ser a de reforçar esta convicção.

(*) Jurista e magistrado argentino. Professor emérito da Universidade de Buenos Aires. Foi ministro da Suprema Corte Argentina de 2003 a 2014. Artigo publicado originalmente no jornal Página12.

Tradução: Marco Weissheimer

A crise brasileira e a depressão da inteligência

Além do aumento do desemprego, denúncias contra o presidente e retiradas de direito, golpe de 2016 fez com que a população entrasse em estado de desânimo e desesperança. (Foto: Erviton Quartieri)

Flávio Aguiar (*)

De repente se espalhou o vírus – dentro e fora do Brasil, em parte da mídia internacional e até em comentários de articulistas de esquerda – que nega a existência de um “povo” em nosso país. Ou que “o povo” está completamente apático e anestesiado diante da crise. Cheguei a ler um comentário afirmando que a greve geral do dia 30 de junho não aconteceu de fato, porque “greve que não ocupa a Esplanada dos Ministérios ou a frente do palácio presidencial, não é greve”. Outro comentarista internacional argumentava que a greve do dia 30 protestava contra as reformas trabalhista e da previdência, mas não contra o governo. Ainda outro perguntava por que as multidões que protestaram contra Dilma não estavam protestando nas ruas contra Temer. E mais outro  afirmava que a greve seria articulada apenas “pelos sindicatos”, sem “povo”.

Penso que a situação é muito mais complexa do que essas visões simplificadas querem fazer crer.

Há protestos, sim, continuados e massivos, em todas as grandes cidades brasileiras. Há também uma repressão brutal, como a que se fez contra a marcha sobre Brasília. Na greve do último dia 30 houve repressão generalizada por toda parte. A própria cobertura internacional atestou isto. Pode-se ver, por exemplo, a excelente e ampla cobertura feita pelo site RT.com (Russia Today). Há ainda o forte elemento depressivo provocado pela falta de emprego e pela própria recessão econômica que abatem o país.

É verdade que a parcela embasbacada e ressentida da classe média que saiu às ruas contra o governo petista a partir da virada à direita das manifestações de 2013 está mais perplexa do que apática. Pude vivenciar (sem dados de pesquisa científica) o sentimento ou impressão de que esta parcela da classe média hoje se divide em diferentes “facções”.

A primeira fatia, pouco numerosa, mas ativa em redes sociais, se aferra à ideia de que “no tempo da ditadura era tudo melhor” e vai votar, provavelmente, em Bolsonaro. Tal camada – ou crosta – pode muito bem apoiar uma solução do tipo “suspender até mesmo as eleições de 2018”.

Uma segunda fatia, mais ampla, está com o rabo no meio das pernas, se sentindo lograda e “traída” pelas circunstâncias. Não queriam Dilma, não engolem Temer, mas não querem dar o braço a torcer. Preferem reduzir suas panelas e matracas a um “silêncio obsequioso”.

Ainda uma terceira fatia, mais numerosa, sai pela tangente do “é tudo igual”, “os políticos são todos farinha do mesmo saco”. Esse grupo viu em Doria e seu marketing de “gestor não político” uma solução fácil, mas vai se desiludindo com a camaçada de erros desencontrados que o novo prefeito vai cometendo. Daqui pode sair uma guinada que favoreça algum juiz ou procurador açodado que queira se candidatar a algo.

Finalmente, uma quarta camada, ainda incipiente, mas crescente, sacou o erro cometido e agora remói um sentimento amargo em relação ao ciclo petista: “Eu era feliz e não sabia”. As três últimas parcelas acima enumeradas curtem brava ressaca. E ressaca não convida a grandes movimentos. Esse sentimento do “eu era feliz e não sabia” anima também uma grande parte do eleitorado mais à esquerda.

Essa parcela da população viu-se durante muito tempo ofuscada pela campanha do “todo petista é ladrão e todo ladrão é petista”. Essa ofuscação passou, mantida que era pelo jornalismo provinciano e reacionário que segue igual, mas teve de mudar o refrão diante da completa derrocada do governo que sobreveio do golpe jurídico, parlamentar e midiático construído a partir de 2013, ampliado em 2014 e 2015, e desferido em 2016.

O sentimento do “eu era feliz e não sabia”, cada vez mais amplo, predomina nesse segmento, que se amplia sensivelmente, como atesta recente pesquisa do Datafolha que conclui pela “leve ida para a esquerda” do eleitorado potencial no Brasil. Ainda assim, não se deve menosprezar o sentimento de desilusão que atingiu muito militante de esquerda ao deparar com a ideia de que políticos petistas se enrolaram em práticas que antes condenavam em outros partidos.

Mas no lado esquerdo do cenário brasileiro também existem divisões. Uma parte quer Dilma de volta pela anulação do impeachment. Outra, mais numerosa, quer Lula de volta. Ainda nesse bolo há os que querem Lula de volta por ser ele a liderança inconteste que é e também há aqueles que o querem de volta por não verem outra solução.

Entretanto, há uma parcela grande desse lado esquerdo – muito da juventude mais jovem está aí – que não engoliu o impeachment, que aceita uma eventual volta de Lula, mas que no fundo está à espera de alguma nova construção à esquerda. Não se deve esquecer tampouco que a população que passou a amadurecer por volta de 1988 (ano da nova Constituição, que a direita sempre combateu e que é, no fundo, o alvo do golpe de 2016) e que hoje está abaixo dos 45 anos de idade só teve, até então, ganhos em matéria de direitos. Agora estão vendo de perto, pela primeira vez, o que é “perder direitos”. Não raramente o primeiro sentimento que isso provoca é de frustração, desencanto, medo e descrença, em vez de revolta e rebeldia.

Ou seja, em muitos casos há mais perplexidade do que apatia; em outros, mais hesitação do que alienação; em outros, mais confusão do que abulia. E o que há também é enorme complexidade desse “trem” chamado Brasil. Sem falar que há, com certeza, mais à direita, os que pensam que agora sim o país entrou “nos trilhos”; e outros, bem mais à esquerda, que continuam pensando que tudo, durante os governos petistas, não passou de uma “ilusão” ou “desilusão”, que não houve melhora de fato nas condições de vida da ampla maioria da população. Esses últimos são minoria, é verdade, mas nem por isto menos barulhentos.

Não surpreende, diante dessa complexidade de um país de mais de 200 milhões de habitantes, do tamanho de meio continente, e diante do labirinto em que a armação do golpe de 2016 o enfiou, que a inteligência sinta-se comprimida pelo desânimo e deprima, tomada de assalto pela desesperança, pelo desalento e pelo ressentimento diante do “povo” que não é “povo” e sua “apatia”.

Para muitos comentaristas internacionais, esse país de 5.570 municípios e 27 unidades federativas guarda ainda a imagem de um condomínio unitário e administrado em bloco por um síndico e alguns zeladores sediados em Brasília, Rio e São Paulo. Esses observadores ainda têm dificuldade em reconhecer, por exemplo, as injunções geopolíticas que também cercam e condicionam a política interna brasileira. Para tais visões simplistas, é fácil falar em “primavera árabe” ou em “revoluções florais ou coloridas” nos países do antigo Leste Europeu. O mundo – e nele o Brasil não é exceção – é muito mais complexo do que isto. Por isto mesmo – e o Brasil também não é exceção – deve ser um convite ao exercício da inteligência no lugar de sua depressão

(*) Publicado originalmente no Blogue Velho Mundo, da Rede Brasil Atual.

O golpe é paraguaio…e a embaixadora dos EUA é a mesma

Liliana Ayalde, embaixadora dos Estados Unidos no Brasil. Seu posto anterior foi na embaixada dos EUA no Paraguai. Coincidência?

Liliana Ayalde, embaixadora dos Estados Unidos no Brasil. Seu posto anterior foi na embaixada dos EUA no Paraguai. Coincidência?

Por Caco Schmitt (*)

“O controle político da Suprema Corte é crucial para garantir impunidade dos crimes cometidos por políticos hábeis. Ter amigos na Suprema Corte é ouro puro”.

A afirmação não é de agora e nem de quem critica o STF por não prender o Cunha, por enrolar a posse do Lula etc. Foi feita há cinco anos pela pessoa que hoje é a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Liliana Ayalde. A diplomata exercia o cargo de embaixadora no Paraguai (de 2008 a 2011) quando se reportou ao governo norte-americano, relatando a situação do país. Ela deixou o cargo poucos meses antes do golpe que destituiu o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, mas deixou o caminho azeitado. Aqui no Brasil, no cargo desde outubro de 2013, esta personagem é cercada de mistérios e sua vinda pra cá, logo após o golpe parlamentar paraguaio, não foi gratuita.

Liliana Ayalde assumiu seu posto no Brasil cinco meses antes da Operação Lava Jato começar a fase quente. Chegou discretamente, sem entrevistas coletivas, em meio à crise provocada pela denúncia do Wikleaks de que os norte-americanos espionavam a presidenta Dilma, o governo brasileiro e a Petrobras. Segundo Edward Snowden, “a comunidade de espionagem dos USA e a embaixada norte-americana têm espionado o Brasil nos últimos anos como nenhum outro país na América Latina. Em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”, afirmou o ex-funcionário da CIA e ex-contratista da NSA. A mídia brasileira, por óbvio, já preparando o golpe, de modo totalmente impatriótico, não divulgou para o povo brasileiro. E esconderam a grave denúncia de Snowden, que afirmou: “NSA e CIA mantiveram em Brasília equipe para coleta de dados filtrados de satélite. Brasília fez parte da rede de 16 bases dedicadas a programa de coleta de informações desde a presidente Dilma, seus funcionários, a Petrobras até os mais comuns cidadãos, foram controlados de perto pelos Estados Unidos”.

Liliana Ayalde veio ao Brasil comandar a embaixada de um país que fortalecia o bloco chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), contrário aos interesses do grande capital norte-americano; e de um país que exerce forte influência sobre os países sul-americanos com governos populares, todos contrários aos interesses militares dos Estados Unidos na América do Sul. A vinda da embaixadora pode ser mera coincidência?

Não. Segundo informações oficiais da própria Embaixada norte-americana, Ayalde chegou ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático. Trabalhou na Guatemala, Nicarágua, Bolívia, Colômbia e, recentemente, como subsecretária de Estado adjunta para Assuntos do Hemisfério Ocidental, com responsabilidade pela supervisão das relações bilaterais dos Estados Unidos com Cuba, América Central e Caribe. Anteriormente serviu como vice-administradora sênior adjunta da USAID no Bureau para América Latina e Caribe. Entre 2008 e 2011 ela serviu como embaixadora dos Estados Unidos no Paraguai”. Ou seja: sabe tudo de América Latina…

As “pegadas” reveladas

Na internet encontramos vários textos e análises feitas depois do golpe no Paraguai de 2012 que hoje ficam mais claros e elucidam os fatos. Vejam o que escreveu o jornalista Alery Corrêa , no Brasil em 5 Minutos: “O golpe de Estado contra Fernando Lugo, presidente paraguaio, começou a ser orquestrado em 2008, mesmo ano de sua eleição, a qual colocou fim ao reinado de 60 anos do partido Colorado, mesmo partido do antigo ditador Alfredo Stroessner… A mesma Ayalde assumiu em agosto de 2013, sem muito alarde, a embaixada brasileira. Segundo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, ‘a embaixadora Liliana Ayalde vem ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático’. Em um momento de intenso acirramento político e disputa de poder. O impeachment entra em pauta. A imprensa mais agressiva do que nunca. Não se tratasse de política, diríamos que foi mero acaso. Mas sabemos que não existe falta de pretensão quando se trata dos interesses norte-americanos. Na verdade, eles veem crescer a oportunidade de colocar as mãos no pré-sal brasileiro e estão conscientes da chances reais que possuem com e sem o PT em cena. E certamente, todas as possibilidades já foram avaliadas pelo imperialismo norte-americano”.

Outro texto é da jornalista Mariana Serafini, no Portal Vermelho. “Em um despacho ao departamento de Estado do dia 25 de agosto de 2009 – um ano depois da posse de Lugo – Ayalde afirmou que ‘a interferência política é a norma; a administração da Justiça se tornou tão distorcida, que os cidadãos perderam a confiança na instituição’. Ou seja, apesar da agilidade do processo de impeachment, a embaixadora já monitorava a movimentação golpista três anos antes do julgamento político. No mesmo despacho afirmou que o ‘controle político da Suprema Corte é crucial para garantir impunidade dos crimes cometidos por políticos hábeis. Ter amigos na Suprema Corte é ouro puro’. ‘A presidência e vice-presidência da Corte são fundamentais para garantir o controle político, e os Colorados (partido de oposição ao Lugo que atualmente ocupa a presidência) controlam esses cargos desde 2004. Nos últimos cinco anos, também passaram a controlar a Câmara Constitucional da Corte’, relatou a embaixadora dos USA no Paraguai”.

No Paraguai, a embaixadora não ficou indiferente ao processo de impeachment, como ela mesma disse no relatório confidencial: “Atores políticos de todos os espectros nos procuram para ouvir conselhos. E a nossa influência aqui é muito maior do que as nossas pegadas”.

E deixaram muitas pegadas, segundo artigo de Edu Montesanti: “No Paraguai, os golpistas agiam em torno da embaixadora. Em 21 de março de 2011, a embaixadora recebeu em sua residência blogueiros paraguaios a fim de ‘conversar’ sobre paradigmas e diretrizes para aqueles setores societários que já estavam desempenhando importante papel na sociedade local. Em tese, para conhecer melhor o trabalho deles, discutir a importância dos blogs na sociedade e a importância da aproximação deles com os governos”.

Laboratório de golpes

Blogs, movimentos de internet, Senado, Suprema Corte… qualquer semelhança entre o golpe em curso no Brasil e o golpe paraguaio não é mera coincidência. O golpe no Paraguai é considerado um dos mais rápidos da história, consumado em 48 horas. O presidente Fernando Lugo foi derrotado no Senado por 39 votos favoráveis ao impeachment e quatro contra. Caiu em 22 de junho de 2012. Uma queda rápida, mas que teve uma longa preparação… Assim como no Brasil, cujo golpe começou a ser gestado não no dia das eleições presidenciais de outubro de 2014, quando a oposição questionou a seriedade das urnas e queria recontagem de votos, mas bem antes. Quando? Depois que o modelo paraguaio de golpe deu certo, conseguindo afastar pela via parlamentar um presidente democraticamente eleito pelo voto.

No seu artigo de junho de 2015, o jornalista Frederico Larsen afirma: “a destituição de Lugo, em 2012, foi o melhor ensaio realizado a respeito do que se conhece como golpe brando, o golpe de luva branca. Trata-se de um método para desbaratar um governo sem a intervenção direta das Forças Armadas ou o emprego clássico da violência. Para alcançar isto, basta gerar um clima político instável, apresentar o governo em exercício como o culpado pela crise e encontrar as formas de dobrar a lei para derrubá-lo. Foi isto o que, três anos atrás, aconteceu no Paraguai”.

E José de Souza Castro, em artigo no blog O Tempo, em 5 de fevereiro de 2015, profetizou: “Dilma pode sentir na pele o golpe paraguaio”. E destacou o papel da embaixadora Liliana: “No Paraguai, ela preparou, com grande competência, o golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo”.

É o que acontece agora no Brasil: um golpe parlamentar, com apoio da mídia golpista. Um golpe paraguaio.

O Paraguai foi um dos países que mais sofreram com a ditadura militar patrocinada pelos Estados Unidos, nos 35 anos do general Alfredo Stroessner (1954 – 1989). Foi a primeira democracia latino-americana a cair. Depois caíram Brasil, Argentina Chile e Uruguai. No Paraguai foi testado o modelo do combate à guerrilha a ser usado, os métodos cruéis de tortura trazidos dos USA pelo sádico Dan Mitrioni e ali nasceu a famosa Operação Condor, um nefasto acordo operacional entre as ditaduras. A CIA transformou o Paraguai no laboratório que testou o modelo de golpe militar a ser seguido e que derrubou governos populares e assassinou milhares de pessoas. Agora, o Paraguai serviu novamente de laboratório de um novo tipo de golpe está em curso no Brasil.

O que nos aguarda

Se o golpe se concretizar, o Brasil “paraguaizado” terá um destino trágico. São raros os estudos sobre o que mudou no país vizinho pós-golpe parlamentar e jurídico, mas o artigo de um ano atrás de Frederico Larsen joga uma luz sobre as verdadeiras intenções do golpe: “Suas primeiras medidas se basearam em outorgar poderes especiais ao Executivo, especialmente em matéria de segurança. Deu vida à Lei de Segurança Interna, que permite ao governo, sem aprovação do Parlamento, a militarização e declaração de Estado de Sítio em regiões inteiras do país com a desculpa da luta contra a insurgência do Exército do Povo Paraguaio (EPP). Os movimentos camponeses denunciam que com esta lei, os militares efetuam despejos e violações aos direitos humanos, favorecendo ainda mais a concentração da terra. Conseguiu aprovar a lei de Aliança Público-Privada (APP), que permite a intervenção de empresas nos serviços que são providos pelo Estado, como infraestrutura, saúde e educação. Em especial, deu um estrondoso impulso à produção transgênica no setor agrícola”.

A publicação Diálogo – revista militar digital – Forum das Américas, de 14/05/2010, manchetou a exigência da embaixadora Ayalde: ““Devem ser repudiados todos os fatos que atentem contra a vida das pessoas e contra a propriedade privada”. Portanto, os deputados golpistas representantes da oligarquia rural, senhores da terra, e da UDR que pressionam o golpista Temer para que o Exército cuide dos conflitos de terra já estão adotando o modelo paraguaio contra os movimentos sociais.

Se o golpe paraguaio vingar no Brasil, retrocederemos em todas as áreas e, mais uma vez, gerações terão seus sonhos abortados, projetos adiados e a parcela fascista, preconceituosa e enfurecida da direita virtual sairá dos computadores e ganhará, de fato, poder nas ruas…

Estado de Sítio nunca mais

estadodesitio

Renato Dalto

No cárcere, sequestrado, Dan Mitrione, que veio ensinar a torturar nos porões das ditaduras do Cone Sul, olha o interlocutor e pergunta:

– Por que causa vocês lutam.

E recebe a resposta:

– Nós lutamos por um mundo onde não serão necessárias pessoas como você.

O diálogo acontece em “Estado de Sitio”, filme de Costa Gavras, que relata o sequestro do agente norte americano pelos tupamaros, no Uruguai. Sempre lembro dessa frase: “Um mundo onde não serão necessárias pessoas como você”.

Os partidários da força, da paulada, da tortura são muito parecidos com a torcida talibã pelo justiceiro, pela justiça fanática a qualquer preço, pelo linchamento de todo o contrário. “Um mundo onde não serão necessárias pessoas como você”.

Foi nesse país, onde Dan Mitrione foi sequestrado e morto pelos tupamaros, que se instalou a mais violenta ditadura da América Latina. No centro de Montevidéu, as pessoas eram abordadas na rua e obrigadas a deitar com o rosto no chão com um fuzil apontado pra nuca.

Os prisioneiros eram levados em caminhões do exército para serem interrogados nos tribunais militares acolherados por correntes nos pés. O país vivia em verdadeiro estado de sítio em um regime de justiça implacável – ser contra é estar morto, senão fisicamente, simbolicamente dentro da sociedade.

Não há mais espaço pra isso, mas me vem de novo a imagem de um estado de sitio. Os fuzis na nuca foram substituídos pela coerção civilizada, onde se prende para depois perguntar. A acusação prescinde de provas – basta por si só. Um juiz escolhe quem prender e quem soltar, quem investigar e quem livrar. Tentou sequestrar um ex-presidente, mas a Aeronáutica impediu. Hoje vazou o interrogatório. Nas entrelinhas, um delegado constrangido e educado interroga um homem que, sabe, significa sobretudo um país dos que lutam pra não morrer de fome. O interrogado poderia dizer que tentou erguer um país onde pessoas como ele não tivessem mais que lutar contra a fome. Mas não era isso que estava em jogo.

Hoje, no fim do dia, o estado de sitio a Lula rompeu o cerco. Como um exilado numa embaixada, Lula assumirá um ministério. Para ter garantias de defesa sem o risco eminente de prisão escorada num aberração jurídica – a prisão de um acusado sem provas. O rito do justiçamento. O estado de sitio decretado na caça a um homem.

Se errou ou não, se é corrupto ou não, só se saberá dentro da justiça, do amplo direito de defesa e da consistência de provas. Mas Lula já está julgado. O pré-julgamento é a decretação de um estado de sitio individual. Talvez um dia tenhamos que sair as ruas de novo, brigar de novo, construir um novo país que prescinda de justiceiros e perseguidores implacáveis. Senhor juiz implacável: um país precisa prescindir de pessoas como você.

O rosto de Dan Mitrione, o torturador, foi esquecido. Até hoje, em qualquer confim arrebalero do Uruguai, surge o rosto de Raul Sendic, líder tupamaro preso e torturado. Sendic tem o olhar triste, mas o brilho envolve a pupila com uma certa gravidade. Tem um ar meio índio, talvez traga o sangue dos charruas chacinados.

A história guarda esse rosto para sempre. Ninguém sabe a cara dos justiceiros que o capturaram.

Meu nome não é Adolfo

zumbinazi

Ayrton Centeno

Meus brancos e minhas brancas. Escrevo a vocês para dissipar um equívoco tão reiterado quanto aborrecido. É o seguinte: eu não morri. Agravou-se a miscelânea agora quando, a todo momento, citam os 70 anos da minha suposta morte… Sabe, aquela coisa da liberação para publicar a história da minha vida sem pingar nenhum na minha conta. O que só aumenta minha irritação. Sei, você aí, leitor incrédulo, não acredita… Mas aposto que, muito antes da derradeira destas mal traçadas, me dará razão.

Talvez seu ceticismo derive do uso do Português. Ora, mein guter freund, se quero conversar com os brasileiros obviamente não devo me manifestar em Alemão! Quiçá – vocês ainda usam quiçá? – olhe com suspeição o estilo tão contrastante com minha obra literária. Por favor, passaram-se 80 anos do lançamento daquele livro…Tanto tempo depois só mesmo um morto não mudaria! Viu só? Cá entre nós: algo já o leva a aceitar que este relato começa a fazer sentido, não é?

Bem, ainda existe a patranha surrada de que explodi a cachola com minha Luger naquele bunker em Berlim. Francamente, onde eu estaria com a cabeça…Outra dúvida: quem nasceu em 1889, meu caso, romperia o reveillon trazendo 126 anos no lombo, logo não é crível… Mein Gott! Me poupem desse materialismo, por favor! Vultos de estirpe notável sobrevivem sem a incômoda carcaça de carne, ossos e vísceras. Portanto, dispa-se de sua tosca percepção e não me procure na materialidade. Não seja antiquado. Hoje sou um ente virtual. O que não reduz em nada — pelo contrário, aumenta — minha capacidade de arregimentação dos melhores entre os melhores para salvar o Brasil. Mas porque o Brasil e não a Alemanha?, aporrinha o incréu. Porque aqui, neste momento, o chão é mais receptivo à semente — mas a Alemanha não perde por esperar. O momento é do Brasilien e ninguém tasca. Onde a safra está pronta e o tempo é de colheita.

Mas você quer saber onde topar comigo… Sei como é, São Tomé… Ver para crer. Simples, estou todo o tempo em todos os lugares. Certo, ouviu isso antes sobre outro personagem… Acredita nele ou não? Não importa. No meu caso, é bem mais fácil acreditar. Estou bombando na web, nas redes sociais, dia e noite. Nas caixas de comentários então nem se fala. É meu spa. Me sinto ali como um pinto no lixo. Alguns acham que sou estúpido, disfuncional, ressentido, violento. Mas muitos me consideram O Mestre. E me seguem. Mas não procure pelo seu querido Adolfo. Lá tenho diferentes nomes. E rostos, sexos, vozes, frases. Sou homem e sou mulher, sou rico ou pobre – embora muito classe média, admito que manobro bem essa clientela… – moço ou velho, militar ou civil. Esqueça o bigodinho quadrado, a boca crispada, a oratória convencional. Isso funcionou naquele período. Sabe, a era do rádio. Agora as ferramentas são outras. Só morto não muda, lembra?

Nesta semana, laborei pelo nosso supremo sonho nos portais do Globo, do Estadão, da Folha. Era preciso. Nasceu o segundo neto da búlgara bolchevique, a eslava Rousseff. Aliás, “eslavo“ e “escravo“ possuem a mesma raiz etimológica. Sacaram? Vocês escolheram ser governados por uma escrava! E quem afirma isso não é der seine liebe Adolfo mas a ciência…Nós, ao inverso, adequamos os eslavos a sua verdadeira natureza. De servos. Nossa mensagem não foi bem captada mas a incompreensão sempre rondou os grandes homens. Ah, que lição demos aos polacos, checos, húngaros e outros de sua laia. E aos judeus, comunistas, socialistas, homossexuais, ciganos, portadores de deficiência… “Lutemos pela Alemanha/Lutemos por Hitler/Os vermelhos nunca terão tranquilidade”… Perdão, leitores… É a velha canção que ainda me arrebata. Bons tempos aqueles. Mas deixemos de nostalgia e vamos relembrar alguns de meus posts aqui e agora:

“Pena que esse feto imundo não morreu”, postei na quinta, dia 7, com o nickname “Capitão Bueno” – ainda não resisto a uma farda, reconheço. “Nessas horas a microcefalia some…” foi outra das minhas frases, aqui assinando “Edgalia”. Cruzes, que nome é esse? Não estive muito inspirado, é verdade. Voltei à carga com o nick “Optimus” e uma pincelada de religiosidade na minha cólera: “Meu Deus…. o império das trevas proliferam (sic) no Brasil. Mais um corrupto acaba de nascer”. Apresentando-me como “Theodore Tbagbagwelllllll” – assim mesmo com essa grafia insana — desejei à criança “uma péssima e ligeira passagem pela Terra!”

Na primeira investida, articulei o ataque descrevendo o perfil do recém-nascido: “bandido”, “ladrão”, “terrorista”, “praga”, “menino diabo”, “anticristo”, acrescido de esconjuros e gritando-lhe o pior em caixa alta, como fiz sob a máscara de Leandro Silva: “TOMARA Q MORRA! NETO MAE E VÓ”.

Foi a senha para a segunda etapa: a negação da condição humana. “Credo, isso deve ser que nem rato, nascem aos milhares!”, adverti camuflado como Marcelo Ribeiro. “É o mal se (sic) proliferando”, atestei como João Antony. E Alexandre Duch: “E ainda deixam essa praga se (sic) proliferar”. Eu explico os sics: um tanto de ignorância mesclada à raiva sempre rendeu bem para nós. E a questão racial tinha, obviamente, que aflorar. Joel Guerin: “O problema é que essa raça se reproduz!” E Élcio, quase igual mas colocando a divindade no meio: “Deus do céu, era só o que faltava. Essa raça se reproduz!” Sentiram o déjà-vu?

No terceiro passo do processo, a solução final. Simulando ser Omar Wahed, propus: “Alguém precisa eliminá-lo pelo bem do Brasil. Carrega os genes de bandido”. Manoel Bispo – saquem minha ironia: bispo…kkkk – suplica “Já extermina pra que não pepetue (sic) essa espécie…” e Christian – mais sarcasmo – pede “alguém castra estes animais, por favor!” Vocês não imaginam quantas curtidas, quantos apoios, quantos polegares levantados eu recebi com esses posts. Perguntinha besta: Ei, alguém aí ainda acha que estou morto?

Os frouxos de sempre dirão que é somente ódio. Tolos. Não percebem que, a exemplo do amor, é ódio é uma construção que exige abdicação, paixão e desvelo diuturnos. Que odiando podemos depurar a humanidade, o que é uma forma superior de amá-la. De libertá-la daqueles que a enfeiam, sujam, envergonham. Tornar o mundo melhor, devotando-se amorosamente ao ódio. Odiar é amar o próximo. Altruísmo, vocês compreendem, não?

Porém, não posso levar o crédito sozinho. Os sentimentos sublimes que afloraram na internet só vingaram sobre camadas de rancor acumuladas ao longo de 13 anos. Ok, rancor é a minha praia mas, para ser justo – vejam como estou mudado, até quero ser justo…- seria desonesto desconhecer o aluvião de investigações seletivas, vazamentos seletivos, julgamentos seletivos, publicações seletivas e, acima de tudo, campanhas seletivas contra a esbórnia dos maximalistas – ainda chamam os vermelhos assim?

Não recordo em quantas ocasiões a imagem do saudoso doutor Goebbels, assaltou a minha memória. Tantas vezes uma lágrima furtiva traiu-me a compostura enquanto admirava as manchetes… Nelas via lampejos da genialidade do meu ministro. Lembro de seus Princípios 1, 2 e 3: criar um inimigo, exibi-lo como ameaça permanente e torná-lo origem de todos os males sociais, reais ou imaginários. Ou o princípio 9: “Ocultar toda a informação que não seja conveniente”. Como estaria orgulhoso de apreciar sua obra florescendo entre os bárbaros! Que poder possui a ciência, meine lieben volk!

Agora me deem licença porque preciso sair da história para entrar na vida. Vocês sabem qual. Aquela que dispensa a matéria mas preserva o espírito. Vejo vocês nas caixas de comentários. Até a vitória.

Com amor de seu Fuhrer.

Sieg Heil.

Sobre anões diplomáticos e pigmeus morais

pigmeumoral

Nota oficial do Ministério de Relações Exteriores do Brasil, divulgada quarta-feira, dia 23:

O Governo brasileiro considera inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina. Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças.

O Governo brasileiro reitera seu chamado a um imediato cessar-fogo entre as partes.

Diante da gravidade da situação, o Governo brasileiro votou favoravelmente a resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre o tema, adotada no dia de hoje.

Além disso, o Embaixador do Brasil em Tel Aviv foi chamado a Brasília para consultas.

Diante dessa nota, a Chancelaria de Israel respondeu com a arrogância e a truculência que lhe são características qualificando o Brasil como irrelevante na diplomacia internacional.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Luiz Alberto Figueiredo, rebateu afirmação do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor (foto), que, segundo o jornal The Jerusalem Post, classificou o Brasil de “anão diplomático”, apesar de sua posição econômica e cultural.  “O que eu li é que o Brasil é um gigante econômico e cultural, e é um anão diplomático. Palmor ainda alfinetou o Brasil por conta da derrota para a Alemanha na Copa do Mundo; “Desproporcional é 7×1”, disse o diplomata (sic).

Eu devo dizer que o Brasil é um dos poucos países do mundo, um dos 11 países do mundo, que têm relações diplomáticas com todos os membros da ONU [Organização das Nações Unidas]. E temos um histórico de cooperação pela paz e ações pela paz internacional. Se há algum anão diplomático, o Brasil não é um deles, seguramente”, reagiu o chanceler brasileiro.

A resposta do porta-voz israelense expõe com clareza a estatura moral do governo que representa.

A Copa e os nossos defeitos vistos ao contrário

Darcy Ribeiro com índios Kadiweu, no Mato Grosso do Sul. em 1947. (Foto: Berta Ribeiro).

Darcy Ribeiro com índios Kadiweu, no Mato Grosso do Sul. em 1947. (Foto: Berta Ribeiro).

O cheiro do café novo sendo feito e do louro que começa a dar sinal de vida no feijão que está na panela ajudam a aquecer a manhã deste domingo de quase inverno. Neste domingo, Porto Alegre recebe alguns milhares de franceses, hondurenhos e de muitos outros países para o primeiro jogo da Copa do Mundo na cidade. O céu está parcialmente nublado, mas não promete chuva. Temperatura na casa dos 16 graus. Ao longe, um helicóptero sobrevoa a orla do Guaíba. Tudo parece pronto para a estreia da Copa na cidade. Há protestos marcados também, mas a maioria da população parece ter entrado no clima da competição. Há ainda os que não gostam de futebol e da muvuca que acompanha grandes jogos. Para estes, há salas de cinemas, livros, restaurantes, parques e muitas outras opções para exercer seu direito de #aquinãovaitercopa.

Para além de todos os problemas econômicos e sociais relacionados à Copa, ela carrega consigo também uma oportunidade: um olhar sobre nós mesmos a partir de um lugar onde praticamente todo o mundo está representado, ao menos do ponto de vista de suas nacionalidades. Temos olhares de todo tipo: apocalípticos, ufanistas, pessimistas, nacionalistas, ufanistas críticos, pessimistas moderados, caóticos de resultados e várias outras combinações. Temos também alguns olhares feitos há anos que podem nos ajudar a ver o momento atual. Como o olhar de Darcy Ribeiro em “O Povo Brasileiro” (Companhia das Letras, 1995). Ao refletir sobre o que chama de “destino nacional”, ele toma o que Sérgio Buarque de Holanda escreveu sobre os mais variados defeitos e qualidades atribuídos ao povo brasileiro.

Darcy Ribeiro escreve: “Para Sérgio Buarque de Holanda seriam características nossas, herdadas dos iberos, a sobranceria hispânica, o desleixo e a plasticidade lusitanas, bem como o espírito aventureiro e o apreço à lealdade de uns e outros e, ainda, seu gosto maior pelo ócio do que pelo negócio. Da mistura de todos esses ingredientes, resultaria uma certa frouxidão e anarquismo, falta de coesão, a desordem, a indisciplina e a indolência. Mas derivariam delas, também, certo pendor para o mandonismo, para o autoritarismo e para a tirania”. Essa percepção é facilmente encontrável no senso comum, que repete diariamente expressões como “só no Brasil mesmo”, “esse país não é sério”, “brasileiro é preguiçoso” e outras coisas do gênero. Mas Darcy Ribeiro pergunta se não há virtudes a extrair desses supostos defeitos de origem.

Não seria pior se tivéssemos o contrário de nossos defeitos? – pergunta o antropólogo. E responde: “Muito pior para nós teria sido, talvez, e Sérgio o reconhece, o contrário de nossos defeitos, tais como o servilismo, a humildade, a rigidez, o espírito de ordem, o sentido de dever, o gosto pela rotina, a gravidade, a sisudez. Elas bem poderiam nos ser ainda mais nefastas porque nos teriam tirado a criatividade do aventureiro, a adaptabilidade de quem não é rígido mas flexível, a vitalidade de quem enfrenta, ousado, azares e fortunas, a originalidade dos indisciplinados”. Nós, brasileiros, acrescenta Darcy, somos um povo em ser, um povo mestiço na carne e no espírito, na dura busca de seu destino. Esse povo, com cheiro de café, feijão e louro, torce com orgulho pelo Brasil e pelo seu destino, sem rigidez, sem muita ordem e com uma certa esculhambação. É aí que estamos e é esse Brasil que está se mostrando ao mundo neste momento, sem maquiagens, com todos os seus defeitos e as virtudes que os acompanham.

Brasil, Argentina e Venezuela: uma conjuntura internacional preocupante

brasileomundo Na América do Sul, a Argentina e a Venezuela estão sob ataque especulativo e desvalorizaram suas moedas numa tentativa de tentar conter a sangria da fuga de capitais. O Brasil também está na linha de tiro do mercado financeiro especulativo e tenta evitar ser a próxima vítima deste ataque. Na Europa, a ideologia da austeridade fiscal (leia-se: transferência de renda de políticas públicas para o pagamento de juros aos bancos) segue a todo vapor, com aumento da pobreza, desemprego e desigualdade social.

Uma das principais consequências políticas dessa receita é o crescimento da extrema-direita e da xenofobia em vários países. Na França, a Frente Nacional, de extrema-direita, já aparece em primeiro lugar nas pesquisas. O governo de François Hollande parece cada vez mais ser um parêntesis para a volta da direita. A Suíça aprovou neste final de semana, em plebiscito, uma nova proposta, defendida pela extrema-direita, contra o ingresso de imigrantes no país. A Bósnia, mergulhada na crise econômica e no desemprego, tem protestos contra o fechamento de fábricas que foram privatizadas. As tendências dominantes hoje na Europa são a direitização, a supressão de direitos e a xenofobia.

É neste cenário de crescentes restrições econômicas e políticas que as duas maiores economias da América do Sul, Brasil e Argentina, irão às urnas em 2014 e 2015, respectivamente. Após uma década de pesadas derrotas eleitorais, a direita latino-americana aproveita esse cenário de instabilidade para tentar reagrupar suas tropas e recuperar terreno perdido. Possivelmente seus dirigentes olhem para a Argentina como o elo mais fraco da corrente de governos de esquerda e centro-esquerda que começou a constituir uma nova hegemonia política na região. A eleição na Argentina é no ano que vem e o kirchnerismo, além dos problemas econômicos do país, não tem um candidato confiável até agora.

No Brasil, a recuperação de terreno parece mais difícil para a direita que olha para os acontecimentos envolvendo a Copa do Mundo como um possível fator de desestabilização. Secundariamente, mas não de modo menos importante, o novo cenário econômico internacional também é um fator de preocupação.

Dilma segue ampla favorita nas eleições presidenciais deste ano, mas, nos próximos meses, se moverá em um terreno potencialmente minado. Enfrentará uma conjuntura internacional adversa, parceiros estratégicos como Argentina e Venezuela enfrentando problemas econômicos, movimentos contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, protestos e mobilizações de diversas categorias que enxergam na Copa o momento ideal para a conquista de alguma reivindicação. O ambiente parece longe, portanto, de constituir um céu de brigadeiro.

Um grupo de intelectuais argentinos divulgou uma carta aberta denunciando que um punhado de grandes empresas do setor agropecuário (Cargill, Noble Argentina, Bunge Argentina, Dreyfus, Molinos Rio de la Plata, Vicentin, Aceitera General Deheza, Nidera y Toepfer), responsáveis pela exportação de mais de 90% dos grãos, azeite e farinha de soja do país, organizaram um cerco financeiro sobre o governo argentino, obrigando-o a tomar “medidas difíceis e comprometedoras para o futuro do país”, como a desvalorização do peso.

“É grave. Não é um simples episódio mais da história econômica nacional. As grandes organizações agropecuárias têm todas elas fortes vínculos internacionais, financeiros, midiáticos, e sempre estão preparadas para produzir a ilusão de que seus interesses coincidem com os de uma grande parte das desconcertadas classes médias argentinas”, diz o documento.

Na Venezuela, o governo de Nicolas Maduro está em guerra contra setores do empresariado. Termina nesta segunda-feira o prazo dado pelo governo para que empresários e comerciantes venezuelanos se adaptem à Lei Orgânica de Preços Justos, que estabelece um lucro máximo de até 30%. Criada para combater a especulação financeira, a lei prevê multa, expropriação de empresas e até prisão para os comerciantes que a descumprirem. O governo alega que a medida é necessária porque há produtos vendidos no país com preços até 2.000% acima do valor real. Desde o ano passado, o governo venezuelano adotou uma série de medidas para enfrentar a inflação, a escassez de alimentos e a especulação financeira. A inflação acumulada em 2013 superou a casa dos 50% e o dólar no mercado paralelo chega a ser comercializado por mais de 50 bolívares.

Essa conjuntura, além de tensionar internamente países como Argentina, Venezuela e Brasil, colocam obstáculos adicionais ao processo de integração regional, jogando água no moinho dos defensores de acordos bilaterais e mecanismos protecionistas. Não é o caso de prever cenários catastrofistas para a região, mas os sinais amarelos estão todos ligados. As soluções para os problemas citados acima são, fundamentalmente, de natureza política. A pior coisa a se fazer parece ser fechar os olhos para os problemas e ficar repetindo para si mesmo que está tudo bem. Outro caminho para o atoleiro é tomar esta ou aquela árvore como se fosse a floresta. Tem muita gente apertando o botão do “que se dane” e fazendo de sua luta particular o centro da conjuntura. Já aconteceu antes, muitas vezes, e o resultado costuma ser o mesmo: derrota política, social e econômica.

(*) Publicado originalmente no Sul21.