Movimentos sociais e sindicatos querem ampliar ocupações e greves por Lula livre

Caminhada em direção à vigília Lula Livre reuniu milhares de pessoas em Curitiba. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O início das mobilizações do dia 1o de Maio em Curitiba, no início da manhã desta terça-feira, foi marcado por uma caminhada que reuniu milhares de pessoas e se dirigiu para as imediações da Superintendência da Polícia Federal, onde Lula está preso desde o dia 7 de abril. A caminhada percorreu cerca de um quilômetro e meio até o local onde ocorre diariamente o ato “Bom dia, presidente Lula”. Nesta terça, o bom dia foi entoado pelos manifestantes em, pelo menos, quatro línguas diferentes. Além do “bom dia” em português, o ex-presidente também recebeu saudações em espanhol, francês e inglês, vindas de representantes de outros países que também participaram da caminhada e da manifestação.

Acompanhada por algumas viaturas da Polícia Militar do Paraná, a caminhada transcorreu sem qualquer incidente. Ao longo do percurso, os manifestantes receberam manifestações de apoio, por meio de acenos de janelas de prédios e de buzinas de automóveis, e também alguns xingamentos que partiram de alguns moradores de prédios localizados no trajeto. No cômputo geral, não houve um clima de hostilidade aos participantes da marcha. Na chegada ao bairro Santa Cândida, onde está localizado o prédio da PF, uma verdadeira multidão tomou as ruas em direção ao local da vigília. Todo mundo queria chegar perto e formou-se uma massa humana, no meio da qual era difícil transitar. Manifestantes de outros estados perguntavam onde estava localizado o prédio da Polícia Federal. Queriam ao menos dar uma olhada onde Lula está preso.

O ato de bom dia ao presidente Lula contou com a manifestação de parlamentares e lideranças sindicais do Brasil e de outros países. A fala mais importante foi de Roberto Baggio, coordenador estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Paraná e integrante da direção nacional do MST. Baggio propôs três compromissos aos movimentos sociais, partidos, sindicatos, centrais sindicais e demais organizações que participam da mobilização pela libertação de Lula. O primeiro deles é manter a mobilização para garantir a libertação e a candidatura de Lula às eleições presidenciais deste ano.

O segundo compromisso é a ampliação das ocupações, greves e outras formas de luta por todo o país até que Lula seja libertado. Baggio propôs a organização de uma greve geral no dia em que o Supremo Tribunal Federal julgar o recurso para a libertação do ex-presidente. O terceiro compromisso apresentado pelo dirigente do MST é de natureza organizativa. Ele propôs a criação de comitês populares em todos os municípios do Brasil para organizar as lutas da cidade, se preparar para eleger Lula e para, a partir de 2019, governar junto com ele. Esses comitês, detalhou Baggio, devem funcionar sob um regime de democracia participativa e priorizar não só as tarefas de mobilização, mas também de formação política dos participantes. Por fim, defendeu que esses comitês estimulem a militância a mandar cartas para o ex-presidente.

Após a caminhada e o ato de bom dia a Lula, ocorreu um culto ecumênico com a participação de representantes de várias confissões religiosas. A próxima etapa da mobilização é o ato do 1o. de Maio na praça Santos Andrade que, após muito tempo, reunirá representantes de todas as centrais sindicais do país. Além da defesa dos direitos que vêm sendo atacados pela reforma trabalhista aprovada no Congresso Nacional, essa unidade pretende aprofundar, dentro do movimento sindical, a luta pela libertação de Lula. O desafio que está colocado para as direções das centrais sindicais é fazer com que a mobilização que ocorre em Curitiba e em outras cidades do Brasil neste 1de Maio se amplie por todo o país a partir de quarta-feira (2).

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Golpe recrudesce no Brasil com o desejo de aniquilar a esquerda

O acampamento Marisa Leticia, no bairro Santa Cândida em Curitiba, foi alvo de ataque a tiros na madrugada deste sábado (28). Duas pessoas ficaram feridas e uma delas está hospitalizada. Foto Gibran Mendes

Por Katarina Peixoto

Tem muita gente com certeza a respeito da própria bondade e bom caráter, que acredita que estamos em uma democracia. Para muitos, enquanto não houver OBAN e DOPS, não há ditadura. Um juízo generoso sobre essas crenças depende da atribuição de ignorância e ou de uma certa complacência quanto às próprias certezas sobre si mesmos. Está claro que os fascistas são ignorantes.

Fascismo é isto: uma grande ignorância irascível, mortal, organizada militarmente e inimiga de toda institucionalidade. O que muita gente não vê ou se recusa a ver, é que não estamos diante da violência estatal, transmutada em golpistas clássicos, fardados, vociferando as imbecilidades paranoides de sempre.

O processo de desestabilização brasileiro começou e depende do veneno na sociedade, da paranoia insidiosa e da mentira. Com esse expediente, as famílias midiáticas cevaram o ódio que se alastra, armado, com a certeza psicótica de que estão a extirpar um furúnculo, enquanto disseminam uma septicemia.

Hoje, uma mulher e um homem foram baleados. O homem teve uma bala atravessada em seu pescoço. Lula segue preso acusado e condenado por uma mentira na qual é preciso uma dose cavalar de imbecilidade e ódio de classe para acreditar.

A justiça do inimigo disseminou censura, paranoia, perseguições, demissões, crise política e agravamento da crise econômica. Só entregam miséria moral, violência, impunidade e falta de perspectiva. Ruíram com o arcabouço constitucional e comandam um governo sem voto, sem apoio, sem legitimidade, que acredita se sustentar nos seus canais de propaganda televisivos e radiofônicos.

Já há dezenas de mortos na conta do golpe. O campo está um açougue. Marielle e Anderson segue insepultos na impunidade e Marisa Letícia, idem. Quem não está pior, para quem não piorou? Quem, em sã e tranquila consciência, pode afirmar que haverá eleição para presidente no Brasil, neste ano?

O que os fascistas adestrados pela mídia familiar e protegidos pelo aparato golpista querem é uma reação. Querem uma desculpa, querem que alguém, com indignação o suficiente e nervos, de menos, mostre-lhes, na sua linguagem, o que eles são. Querem um sacrifício ainda maior que aquele a que submeteram o Lula. Não lhes é suficiente dilacerar a sociedade e marcar gerações com ódio e desconfiança mútua, um expediente que nem o stalinismo mais militante foi capaz de promover. Não lhes é suficiente desempregar aos milhões e aniquilar com o investimento estatal. Não lhes é suficiente transformar o campo em um açougue impune. Não lhes é relevante a próxima geração de famintos que está com um ano.

O golpe brasileiro recrudesce com o desejo irrefreável de aniquilar a todos e a cada um de nós, da esquerda. É disso que se trata e é isso o que está em jogo. Por trás da carcaça dos delinquentes golpistas e de seus protetores togados e do aparato judicial e corporativo, está uma necessidade cada vez mais evidente: a sua sobrevivência depende da nossa aniquilação. Seria um jogo da galinha não estivéssemos fora de qualquer jogo.

Nem sei por que estou escrevendo isso. Não adianta, mas eu preciso. Eu só queria que minhas amizades e anexades saíssem da zona perceptiva que nos protege, nas classes médias para cima, para perceber que o veneno é ecumênico. E que é preciso resistir, em cada consciência, em cada minuto de atenção, em cada aperto de mão, em cada notícia que se lê. Em cada juízo que fazemos.

Eu pensava, em fins de 2015, que um cenário chileno 73′ era a fantasia golpista. Eu estava errada. O que estamos vivendo, ceteris paribus (que ironia, como se cláusulas houvesse), é um cenário muito parecido com o argentino, nas vésperas de 76. E, com um agravante: a partir de setores organizados dentro da sociedade, com o cinismo e a proteção do aparato golpista, que repudia no atacado e protege no varejo, o extermínio e a perseguição dos inimigos do regime. Em um cenário como esse, OBAN e DOPS não são requeridos. E ninguém está protegido, por incrível que pareça. Está em curso uma guerra suja.

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PT critica omissão e silêncio de autoridades e da mídia “ante a barbárie crescente”

Foto: Gibran Mendes

Além de ferir duas pessoas, disparos atingiram um banheiro químico dentro do acampamento. (Foto: Gibran Mendes)

A direção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou nota, na manhã deste sábado (28) denunciando o ataque a tiros contra o acampamento Marisa Letícia como “mais um episódio de violência política contra a democracia”. Esse ataque, assinala a nota, acontece um mês depois de tiros terem atingido ônibus da caravana Lula Pelo Brasil no interior do Paraná. “Até agora não foram presos os autores dos disparos feitos no mês passado e tampouco os desta madrugada”, diz ainda a nota que critica a “omissão conivente das autoridades e da mídia golpista que silencia ante a barbárie crescente”. E acrescenta:

“Depois do golpe de Estado que derrubou a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff, aumentaram os ataques e assassinatos contra lideranças sociais no campo e na cidade (…) O assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro continua impune”.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Paraná, os disparos de arma de fogo contra o acampamento Marisa Letícia foram feitos com uma pistola 9mm, arma de alto poder letal. Os peritos encontraram cápsulas de pistola 9mm no local. Um manifestante foi atingido no pescoço e está em estado grave na UTI. Outros disparos atingiram um banheiro químico dentro do acampamento.

O secretário nacional de Comunicação da Central Única dos Trabalhadores CUT), Rotina Barbosa, informou que a programação da Vigília Lula Livre e do 1o. de Maio unificado em Curitiba está mantida, apesar do ataque desta madrugada ao acampamento. “O objetivo desse ato fascista era desmobilizar nossas manifestações democráticas. Não conseguiram”.

Barbosa disse ainda que ocorrerá ainda neste sábado uma reunião com a governadora do Paraná, Cida Borgheti, para exigir a investigação do crime e cobrar o cumprimento do acordo assinado entre a Frente Brasil Popular e autoridades paranaenses, para a mudança de local do acampamento, que incluía rondas da Polícia Militar nos arredores.

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Acampamento Lula Livre é atacado a tiros. Duas pessoas ficam feridas, uma em estado grave

Acampamento Marisa Letícia, em Curitiba. (Foto: Neudicleia de Oliveira/Brasil de Fato)

As organizações que coordenam a vigília Lula Livre, em Curitiba, divulgaram nota, na manhã deste sábado (28), repudiando o ataque a tiros contra o acampamento Marisa Letícia, ocorrido nesta madrugada. O ataque deixou duas pessoas feridas, uma delas de forma grave, com um tiro no pescoço. A nota cobra da Secretaria Estadual de Segurança do Paraná uma investigação para identificar os autores do ataque e garante que o ocorrido não intimidará os movimentos que estão organizando um ato massivo para o dia 1o. de maio na capital paranaense. Segue a íntegra da nota:

A vigília Lula Livre e as diversas organizações que a integram repudiam de forma veemente o ataque a tiros contra o acampamento Marisa Letícia, ocorrido na madrugada de hoje (28) e que resultou em duas pessoas feridas, uma delas de forma grave, com um tiro no pescoço.

 A sorte de não ter havido vítimas fatais não diminui o fato da tentativa de homicídio, motivada pelo ódio e provocação de quem não aceita que a vigília é pacífica, alcança três semanas e vai receber um Primeiro de Maio com presença massiva em Curitiba. Não nos intimidarão!

 No fundo, é uma crônica anunciada. Desde o dia quando houve a mudança de local de acampamento (17), cumprindo demanda judicial, integrantes do movimento social haviam sido atacados na região. Desde aquele momento, a coordenação da vigília já exigia policiamento e apoio de viaturas, como foi inclusive sinalizado nos acordos para mudança no local do acampamento.

 “Nós desmanchamos o acampamento cumprindo ordem oficial. Fizemos a opção de ir para um terreno e seria garantida a segurança. Agora o que cobramos da Secretaria de Segurança Pública é investigação, que identifique o atirador”, enfatiza Dr Rosinha, presidente do PT estadual e integrante da coordenação da vigília.

Seguiremos com nossas atividades, lutas, programação e debates da vigília. A cada dia vai se tornando cada vez mais impressionante como, mesmo preso, a figura do ex-presidente Lula, a força moral que ganha, as denúncias contra a injustiça de sua prisão, tudo isso causa desespero nos seus algozes.

 Por isso, estamos no caminho certo e venceremos! Em repúdio contra a violência, realizamos o trancamento da rua na região e seguiremos lutando.

Convocamos a sociedade e as pessoas que prezam pela democracia, pelo livre direito à expressão, pela diversidade de vozes na política, que somem-se a nós na vigília. Não aceitaremos tentativas de retrocesso que já nos custaram muitas lutas e vidas. 

Vigília Lula Livre, 28 de abril de 2018.

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Flávio Koutzii: ‘Há uma engrenagem de destruição física e psíquica de Lula na PF em Curitiba’

Flavio Koutzii: “A estrutura dela (da cela de Lula) é exatamente igual a do sistema prisional que a ditadura argentina usou para destruir seus opositores. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Flávio Koutzii passou quatro anos preso, entre 1975 e 1979, em cinco prisões da ditadura argentina. Foi preso por integrar a Fracción Roja do PRT e do ERP (Partido Revolucionário dos Trabalhadores – Exército Revolucionário do Povo), que participou da resistência armada à ditadura. Após sair da prisão, Koutzii foi para a França, onde se diplomou em Sociologia na “École des Hautes Études en Sciences Sociales”, onde defendeu a tese “Système et contre-système carceral pour les prisonniers politiques en Argentine” – 1976-1980”, que serviu de base para o livro “Pedaços de Morte no Coração”, publicado no Brasil em 1984 pela L&PM. Koutzii citou essa pesquisa, durante debate realizado segunda-feira (23) à noite no auditório do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, para falar da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Promovido pelos mandatos da deputada estadual Stela Farias e do deputado federal Henrique Fontana, do PT, o debate, que lotou o auditório do SindBancários, reuniu Flávio Koutzii e Lenio Streck, convidados para falar sobre o “colapso da democracia e a ascensão do conservadorismo no Brasil”. Koutzii lembrou do estudo baseado na vivência direta que teve nas prisões da ditadura argentina, para falar da prisão de Lula.

“Tenho uma certa experiência sobre isso. Passei quatro anos preso na Argentina e depois, em liberdade, escrevi um trabalho sobre o sistema prisional em que vivi. Passei por cinco prisões e procurei sistematizar o modelo que cada uma usava para tentar coagir e destruir física e psiquicamente os prisioneiros. Quando olhei o desenho da cela onde Lula foi colocado na Polícia Federal em Curitiba, que é apenas um pouquinho maior daquelas em que fiquei na Argentina, vi que a estrutura dela é exatamente igual a do sistema prisional que a ditadura argentina usou para destruir seus opositores, uma ditadura, cabe lembrar, que ‘desapareceu’ 30 mil pessoas”.

Flávio Koutzii disse que ficou pasmo com o que os meios de comunicação estavam reproduzindo sobre os supostos “privilégios” que Lula estaria usufruindo no prédio da Polícia Federal em Curitiba. “Havia coisas que tínhamos, como um período para tomar sol, que não está claro se Lula está tendo. Estou cada vez mais convencido que há uma engrenagem de destruição física e psíquica de Lula em Curitiba”.

O diagnóstico de Koutzii acerca do tratamento ao qual Lula vem sendo destinado foi acompanhado de uma advertência sobre a duração desse processo: “Isso não vai se resolver em seis meses. É preciso ter isso em mente na luta de resistência. Eles não conseguiram a imagem que queriam na prisão de Lula. Pelo contrario, a imagem que ficou foi ele sendo carregado nos braços do povo”. Para o ex-deputado estadual e ex-chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra, a prisão de Lula representa uma virada na história do Brasil. “Parece o momento de uma derrota, mas não é uma derrota irreversível”. Mais uma vez, ele lembrou da Argentina, mais especificamente do peronismo. “Desde os anos 50, com tudo o que aconteceu, é impossível fazer política na Argentina sem o peronismo. Resguardadas todas as diferenças, não tenho dúvida em dizer que não haverá política no Brasil sem Lula. Eles têm a Globo, o Moro e aquele dono de puteiro, mas nós temos uma figura gigantesca”.

Para Lenio Streck, o sistema judicial dos azembe, na África do Sul, ofereceria maiores chances de justiça a Lula do que o sistema brasileiro. No sistema azembe, assinalou, os pajés preparam um veneno que é ingerido por um pintinho. “Se o pintinho morre, o réu é condenado; se ele vive, é absolvido. Neste sistema, Lula teria pelo menos 50% de chances de ser absolvido”. Streck classificou como extremamente grave o que em acontecendo no sistema judicial brasileiro. O item 9 do acórdão da sentença contra Lula, assinalou, diz que não se pode exigir do Ministério Público uma postura isenta no processo. “Adverti meus colegas do MP que eles não poderiam aceitar isso, mas descobri que eles próprios eram os autores dessa formulação”.

Lenio Streck: “Aquilo que nós desprezamos está nos destruindo”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Essa situação, ressaltou, se fortaleceu graças à postura da própria esquerda brasileira que negligenciou coisas que não deveria ter negligenciado. “Aquilo que nós desprezamos está nos destruindo. Uma parcela da esquerda desdenhou o Direito e agora que precisa dele ele não está mais lá”. Lenio Streck disse acreditar, por outro lado, que o STF está metido em uma ‘sinuca de bico’, especialmente apos a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC), impetrada pelo PCdoB, pedindo a declaração de constitucionalidade do artigo 283 do Código de Processo Penal e a proibição da execução antecipada da pena. Essa ADC, observou Streck, tem a ver com um ponto levantado por Gilmar Mendes, segundo o qual, o voto do falecido ministro Teori Zavaski apontou a possibilidade de prisão após decisão em segunda instância e não obrigatoriedade.

Lenio Streck ironizou o caminho adotado pelo ministro Edson Fachin, dizendo que ele está fazendo exatamente o percurso contrario de São Paulo. “Fachin faz o caminho inverso ao feito por Saulo, faz o caminho contrário de Damasco”. E apontou a parcela de responsabilidade da esquerda em relação ao que está acontecendo hoje.

“A ministra Rosa Weber aplicou o drible da vaca em seu voto ao adotar a tese da colegialidade, mas é bom lembrar que essa tese foi defendida em passado recente pela esquerda. A tese de que você tem que ser coerente mesmo no erro e que a soma dos votos de um colegiado vincula o seu voto. Esse foi o fator principal da prisão de Lula e de várias outras pessoas. Nós deixamos passar batido muitas coisas que não deveríamos ter deixado passar, inclusive em episódios como os da prisão do Delcídio do Amaral e do Eduardo Cunha, esta última uma prisão para esquentar o golpe. Caímos na armadilha do discurso fácil contra o foro privilegiado. Primeiro aconteceu isso, depois aconteceu aquilo e depois não tem mais nada. O objetivo maior de todo esse processo é a criminalização da política”, alertou.

Streck criticou a lógica que vem imperando nas faculdades de Direito. “As faculdades de Direito não estão formando apenas analfabetos funcionais, estão formando fascistas. O professor de Direito Constitucional, hoje, é um subversivo. Ao dar aula de Direito Constitucional ele pode ser acusado de obstrução de justiça”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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‘Todas as opressões estão conectadas. Veganismo é uma extensão lógica da luta anti-opressão’

Sandra Guimarães: todas as formas de opressão têm uma coisa em comum: a exploração, discriminação e violência contra o ser mais vulnerável. (Foto: Anne Paq)

Existe uma hierarquia da opressão? Deve existir uma hierarquia entre as diferentes lutas contra diferentes formas de opressão? Essas questões entraram na vida de Sandra Guimarães desde cedo. Nascida em uma família vinda do Sertão nordestino, ela nasceu e cresceu em Natal, Rio Grande do Norte. O seu pai entrou no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) quando ela tinha 12 anos de idade e a reforma agrária passou a fazer parte de seu cotidiano. Estudar no exterior era o seu maior sonho e, desde os 14 anos, passou a economizar dinheiro para realizá-lo. Aos 20 anos, foi estudar em Paris onde morou por seis anos, formando-se em Linguística. Em 2007, decidiu fazer um trabalho voluntário de duas semanas na Palestina. Acabou ficando cinco anos lá trabalhando como voluntária no campo de refugiados de Aida, em Belém. Ao longo dessa trajetória, Sandra tornou-se chef vegana, escritora, ativista e guia política na Palestina.

Editora do blog Papacapim, Sandra Guimarães vem levando, desde 2004, grupos de brasileiros para tours político-ativista-veganos na Palestina. Para ela, o veganismo não é uma escolha alimentar, mas sim política. “Embora a opressão tenha várias faces”, assinala, “cada uma com as suas particularidades, todas elas tem uma coisa em comum: a exploração, discriminação e violência contra o ser mais vulnerável pelo ser que tem mais poder”. Em entrevista concedida por e-mail ao Sul21, Sandra Guimarães fala sobre essas escolhas, suas raízes e implicações políticas, e sobre o trabalho que vem realizando na Palestina. Os valores principais do veganismo, defende, são os mesmos pelos quais a esquerda luta: justiça, solidariedade e igualdade. “Se dizer vegana e de direita me parece uma contradição”, afirma. (Leia aqui a íntegra da entrevista)

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Como o Rio Grande do Sul se tornou uma trincheira do atraso no Brasil

Ana Amélia Lemos, Aécio Neves e José Ivo Sartori. (Foto: Divulgação/Igo Estrela)

O Rio Grande do Sul não cansa de passar vergonha na cena nacional. O mais recente capítulo desta saga vexaminosa foi protagonizada pela senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS). A ex-colunista política e ex-chefe da sucursal da RBS em Brasília ficou incomodada com uma entrevista que a presidenta nacional do PT, a senadora Gleise Hoffmann (PT-PR), concedeu à rede Al Jazeera, onde, entre outras coisas, definiu a condição de Lula como a de um preso político, trancafiado na carceragem da Polícia (política) Federal, em Curitiba. “Que essa exortação não tenha sido para convocar o Exército Islâmico a vir ao Brasil proteger o PT!” – disse Ana Amélia Lemos em sua conta no Twitter. O imaginário da senadora não hesitou em associar a Al Jazeera ao Estado Islâmico.

Não se tratou de um deslize ou escorregão verbal. Em ano eleitoral, Ana Amélia Lemos vem flertando abertamente com a extrema-direita gaúcha que saiu definitivamente do armário. Recentemente, rasgou elogios, durante uma convenção estadual do PP (partido que, nunca é demais lembrar, é herdeiro da nada gloriosa Arena, principal sustentáculo da ditadura civil-militar criminosa instalada no país apos o golpe de 1964), Ana Amélia Lemos fez uma homenagem às cidades que “botaram a correr a caravana de Lula”. “Atirar ovo, levantar o relho, para mostrar onde estão os gaúchos”, bradou a patriótica senadora no encontro que definiu a pré-candidatura do deputado federal Luiz Carlos Heinze ao governo do Estado nas eleições (se é que ocorrerão) de 2018.

Heinze tem o mesmo DNA de Ana Amélia Lemos. Em uma audiência pública realizada em novembro de 2013 no município de Vicente Dutra, região norte do Estado, o atual pré-candidato do PP alinhou seus adversários na categoria do “tudo que não presta”: quilombolas, índios, gays, lésbicas…”. Na mesma ocasião, ele sugeriu a ação armada dos agricultores para enfrentar a turma do “tudo que não presta”. “O que estão fazendo os produtores do Pará? No Pará, eles contrataram segurança privada. Ninguém invade no Pará, porque a Brigada Militar não lhes dá guarida lá e eles têm de fazer a defesa das suas propriedades”, disse o parlamentar. Pará, Estado de Eldorado de Carajás, onde 19 sem terra foram assassinados pela Polícia Militar no dia 17 de abril de 1996.

Luiz Carlos Heinze e Ana Amélia Lemos não são pontos fora da curva. Fazem parte de um mecanismo (para usar uma palavra da moda) que ganhou espaço no Rio Grande do Sul nas últimas décadas, graças, entre outras coisas, à máquina de propaganda construída pela RBS, uma das corporações midiáticas filiadas à rede Globo, que se agigantaram durante a ditadura. Ana Amélia Lemos, aliás, foi Cargo em Comissão (CC) do próprio marido, já falecido, o senador biônico Octávio Omar Cardoso, em 1986, acumulando essa função com o cargo de chefe da Sucursal da RBS, em Brasília.  Na época, Ana Amélia era diretora da sucursal da RBS, em Brasília, assinando uma coluna no jornal Zero Hora. A jornalista mudou-se para Brasília em 1979, acompanhando seu então marido Octávio Omar Cardoso, suplente do senador biônico Tarso Dutra (falecido em 1983), e efetivado no cargo em 1983, exercendo-o até 1987. Na capital federal atuou como repórter e colunista do jornal Zero Hora, da RBS TV, do Canal Rural e da rádio Gaúcha. Em 1982, foi promovida à diretora da Sucursal em Brasília.

Em agosto de 2003, em um artigo profético, o então deputado estadual Flavio Koutzii afirmou: “a extrema-direita brasileira mora nos Pampas”. Em sua introdução, o artigo lembrou uma antiga (e atual) lição de Albert Camus: “denominar incorretamente alguma coisa aumenta o grau de infelicidade no mundo”. Em tempos, onde o absurdo se combina com o surrealismo e a mentira, é saudável o esforço por denominar corretamente as coisas. O hino rio-grandense, entoado nos estádios de futebol do Estado com um ufanismo irrefletido e catatônico, diz “sirvam as nossas façanhas de modelo à toda terra”. Quais são as nossas façanhas mesmo? Fazer apologia do racismo, do escravagismo, do machismo, da homofobia, da xenofobia?

Neste mesmo momento, o Rio Grande do Sul é governado por um governador e um partido obscurantistas que propõem como caminho para o desenvolvimento do Estado a extinção de todas as fundações responsáveis pela produção de inteligência. Então, não parece exagero dizer, a partir desta combinação de obscurantismo, preconceito, intolerância e ignorância, que o RS se tornou a vanguarda do atraso no Brasil.

Os “gordos de caminhonete” – na feliz expressão cunhada por Vanessa Patriota – que abundam no Rio Grande do Sul e em outros estados onde o agronegócio deitou suas raízes, gostam de apontar os estados do Nordeste e do Norte como expressão do atraso no país. Na verdade, é a expressão de um mundo invertido. O lugar mais atrasado e retrógado do Brasil situa-se hoje no extremo sul do País. Não expressa, necessariamente, a consciência da maioria da população, mas é o reflexo de uma cultura de autoritarismo, oportunismo e ignorância quem vem sendo alimentada com regularidade nas últimas décadas. Essa cultura não é motivo de orgulho nem de comemorações. As verdadeiras façanhas desta terra ainda estão soterradas por um entulho de ignorância, truculência, machismo e racismo.

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Mineração: empresas e órgãos ambientais não vão à audiência pública debater com comunidades atingidas

Marcia Collares, moradora de Palmas: “Nós vamos lutar até o fim, enquanto tivermos uma gota de sangue, contra esse projeto”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O plenarinho da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul ficou quase lotado na tarde de segunda-feira (9) para a audiência pública que debateu projetos de mineração em curso no Estado. A maioria da audiência foi composta por moradores dos territórios impactados por esses projetos, em especial das regiões da Bacia do Camaquã e do município de São José do Norte. Algumas ausências, por outro lado, foram marcantes, como a das empresas mineradoras e dos órgãos ambientais responsáveis pelo licenciamento desses projetos. Convidados, o Ibama, a Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema-RS) e a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) não enviaram nenhum representante para debater com as comunidades envolvidas.

Coordenador da audiência pública, o deputado estadual Zé Nunes (PT), criticou a postura das empresas e dos órgãos públicos de se recusar a participar de um debate sobre empreendimentos que têm um forte impacto ambiental. As ausências, assinalou ainda o parlamentar, reforçam as reclamações das comunidades da bacia do Camaquã e de São José do Norte sobre o fato de não estarem sendo ouvidas pelos órgãos licenciadores. Vereador em São José do Norte, Luiz Bravo Gautério (PT) lembrou que essa ausência se repetiu na audiência pública realizada em 2017 naquele município. Naquela ocasião, relatou, o Ibama justificou sua ausência dizendo que não tinha como enviar representantes a São José do Norte em função de cortes orçamentários na instituição. “Se não tem recursos para participar de uma audiência pública, como é que eles vão fiscalizar depois as obras?” – questionou Gautério. Para o vereador, essa não participação é estratégica: “não querem conversar com a população”.

As ausências dos órgãos ambientais enfraqueceram um dos principais argumentos apresentados pelos dois defensores dos projetos de mineração que participaram da audiência: os prefeitos de Caçapava do Sul, Giovani Amestoy (PDT), e de Santana de Boa Vista, Ito Freitas (PT). Os dois municípios estão na área abrangida pelo projeto Caçapava do Sul, da Votorantim Metais, quer extrair chumbo, zinco, cobre, prata e talvez ouro em uma área localizada às margens do rio Camaquã.

Ambos os prefeitos apontaram os problemas econômicos enfrentados por seus municípios como justificativa para aprovar os empreendimentos de mineração. “Santana de Boa Vista tem 8.400 habitantes, o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Rio Grande do Sul e uma taxa de emprego negativa. Eu defendo a posição da ampla maioria da população que é favorável ao projeto. Em relação às outras questões, acredito nos órgãos ambientais”, disse Ito Freitas. Na mesma linha, Giovani Amestoy disse que a metade sul permanece uma região pobre e subdesenvolvida, ao contrário dos municípios do norte do Estado. “Temos que pensar o lado econômico. Precisamos gerar emprego e renda para a nossa população. Deixo o lado ambiental para os órgãos ambientais. A esfera técnica deve ser restrita a estes órgãos”.

No entanto, a confiança manifestada pelos prefeitos nos órgãos ambientais não se traduziu na presença dos mesmos na audiência pública para debater uma série de questionamentos e problemas técnicos apontados por moradores, pesquisadores de universidades e pelo Ministério Público Estadual.

Elizete Amorim, de São José do Norte: “não estamos na beira do oceano, somos parte do oceano”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Moradora de Palmas e integrante da União Pela Preservação do Camaquã, Márcia Collares questionou as promessas de progresso das mineradora, lembrando o que aconteceu recentemente em Mariana, Minas Gerais, e em Barcarena, no Pará. “Nós também conhecemos de perto o que significam essas promessas. Tivemos uma experiência direta. A CBC contaminou o Camaquã em 1988 e 1989 e o rio sofre até hoje os prejuízos. Foi uma tristeza ver os peixes desaparecendo. Nós vamos lutar até o fim, enquanto tivermos uma gota de sangue, contra esse projeto. Não queremos que o Rio Grande do Sul se torne um canteiro de mineração.

Elizete Amorim, da Cooperativa de Agricultores Familiares de São José do Norte, também fez um relato da posição contrária de agricultores e pescadores artesanais daquela região ao projeto da empresa Rio Grande Mineração S/A que pretende explorar titânio e outros metais pesados numa região de restinga localizada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico. “São José do Norte não quer essa mineradora. Vivemos em um solo oceânico. Não estamos na beira do oceano, somos parte do oceano. Não acredito que o estudo que acompanha esse projeto tenha saído de dentro das universidades. Para onde irão os pescadores, os agricultores, os nossos animais? Onde vamos plantar, pescar, colocar nossas vacas de leite e criações de galinhas?” – perguntou a agricultura.

Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Francisco Milanez, também questionou as promessas de desenvolvimento das empresas mineradoras. “Estamos muito preocupados com o que está acontecendo aqui no Estado. Empresas como a canadense I Am Gold são famosas piratas da mineração. A Votorantim está entre as empresas que mais provocaram destruição ambiental em São Paulo e agora quer vir destruir aqui. Nós queremos fornecer minérios para um mundo que está desperdiçando minérios? Esses projetos de mineração tem uma vida de 15 a 20 anos e depois vão embora deixando, muitas vezes, um rastro de contaminação e destruição ambiental”.

Doutor em educação ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e pesquisador do Observatório dos Conflitos Urbanos e Socioambientais do Extremo Sul do Brasil, Caio Floriano dos Santos chamou a atenção para os inúmeros problemas e erros técnicos envolvendo o projeto Retiro. Ele citou alguns exemplos: “Os dois processos (Camaquã e São José do Norte) têm erros graves e grosseiros. Precisaria de uns dois dias para falar de todos eles. Eles fizeram, por exemplo, uma amostragem de fauna em uma área de pinus, o que significa que não queriam encontrar nenhuma fauna. Além disso, a definição de área direta e área indireta a serem impactadas é totalmente aleatória. O projeto diz que os pescadores não serão afetados. O seu Dinarte, que está aqui na audiência, pode contar como a lavra vai chegar na porta da casa dele. Um princípio básico do licenciamento é ouvir a população, o que não aconteceu. Um senador deste Estado (Lasier Martins) se reuniu em um gabinete com o Ibama e, dias depois, saiu a licença prévia para a mineradora”.

Promotora Anelise Grehs: “Nossa posição é que tem que se começar tudo de novo”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Márcio Zonta, integrante da coordenação nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), veio a Porto Alegre participar da audiência pública e fez um relato de sua experiência de dez anos vivendo em zonas de conflito de mineração no Brasil, em outros países da América do Sul e na África. Zonta foi enfático em sua avaliação sobre a atividade das empresas desse setor. “A mineração tem implantado a barbárie em nível mundial. É a atividade econômica que mata quatro vezes mais do que qualquer outra no Brasil. Em geral são grandes empresas transnacionais que acabam seqüestrando os estados e seus órgãos ambientais como está ocorrendo agora com o Ibama. Como estamos vivendo um estado de exceção no Brasil, as mineradoras querem se aproveitar dessa situação para implementar seus projetos de qualquer jeito. Historicamente no Brasil, assim como em outros países da América do Sul e da África, sempre foi uma mineração de saque, sem a participação da população”.

A coordenadora do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais do MPE, Anelise Grehs, chamou a atenção para o Plano Estadual de Mineração que está sendo elaborado pelo governo José Ivo Sartori, sem a participação da sociedade até aqui. “Eu me convidei para participar para conseguir ter acesso a algumas informações. É um plano dividido em vários eixos que estão sendo construídos pelas próprias empresas. Seria bom que esse plano fosse objeto de audiências públicas como esta”, assinalou. A promotora relatou que, na última reunião sobre o Projeto Caçapava do Sul, realizada em dezembro de 2017, foi recomendada a reelaboração do termo de referência visando o licenciamento, em função de vários problemas.

“Nossa posição é que tem que se começar tudo de novo. Há um consenso entre o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal que a área de influência do empreendimento tem que abarcar todos os municípios que podem sofrer influências negativas indiretas deste empreendimento”, afirmou Anelise Grehs.

O deputado federal Henrique Fontana (PT) anunciou que encaminhará um requerimento para a convocação do presidente do Ibama e do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, para que eles apresentem e justifiquem os critérios técnicos que embasaram a concessão da licença prévia para o projeto de mineração em São José do Norte. “A mineração é uma atividade de altíssimo impacto ambiental e de risco. Por isso, recomenda que apliquemos ao limite o princípio da precaução. Compreendo o drama do gestor que luta para gerar empregos, mas isso não pode ser um vale conduto para qualquer atividade. Os empregos de Mariana se tornaram uma tragédia mundial”, disse o deputado.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Corra, Lula, corra…

A foto de Ricardo Stuckert não precisa de legenda.

A ideia de Lula ser preso torna-se, a cada dia, mais absurda. Qual foi seu crime mesmo? Está sendo acusado pelo juiz (sic) Sergio Moro de ocultação de bens (o famoso triplex da OAS) e “lavagem de dinheiro”. Na verdade, o verdadeiro “crime” de Lula foi, em primeiro lugar, ter chegado à presidência da República e, mais grave, ter implementado algumas políticas de distribuição de renda. Em certo sentido, essas políticas não tiveram nada de revolucionário. O Bolsa Família, por exemplo, não ”expropriou a burguesia” , ma sinalizou um caminho insuportável para a classe dominante racista e anti-povo que parasita o Brasil há séculos. Só o ódio de classe desse parasita explica essa obsessão em jogar Lula em uma cela.

Moro fixou um prazo para Lula “se entregar” nesta sexta-feira. A expressão é indicadora do que está em jogo. “Se entregar”? Lula é um assaltante de bancos? Um seqüestrador? Um terrorista? Não, ele é o suposto dono de um triplex que não é seu. Mas Lula não se entregou. Milhares de pessoas se juntaram a ele em todo o país numa jornada histórica de resistência protagonizada por sem terras, trabalhadores do campo e da cidade, estudantes, militantes de movimentos sociais e sindicatos. O prazo do juiz (sic) Moro se esgotou e Lula “não se entregou”. Por todo o país e no exterior, ocorreram atos, bloqueios de estradas, caminhadas e manifestações em apoio a Lula. A cada hora que passa, a prisão de Lula mostra-se cada vez mais absurda. Não, é claro, para os jornalistas (sic) da Globo e similares que se tornaram fervorosos militantes da prisão do principal líder popular do país nas últimas décadas.

Nas ruas, um governo de foras da lei aposta na tradição submissa de forças policiais e militares que não se cansam de voltar as costas para o povo do país que, supostamente, deveriam proteger. Essa combinação esdrúxula e macabra que alimentou, por exemplo, o suicídio de Getúlio Vargas, parece suficiente para recomendar a Lula um caminho distinto do “se entregar” para quem só tem compromisso com a elite racista e ignorante que parasita o país há décadas. A possibilidade de Lula ser preso por um governo habitado por criaturas como Michel Temer, Eliseu Padilha e Henrique Meirelles só diz em que estado civilizacional nos encontramos. A prisão de Lula é insuportável, sob qualquer desses pontos de vista.

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Moro é um digno representante da classe que parasita uma ideia de nação há séculos

(Divulgação/PR)

O dia de hoje mostra, como diria aquele locutor do interior, de forma cristalina, que um dos principais nós que estrangulam o Brasil é uma classe média branca ingorante, racista, machista, homofóbica e subserviente a um americanismo bocó que acha Miami, Puerto Madero e a Padre Chagas o máximo da modernidade. Bocozisse aliada com racismo, burrice e ódio de classe em relação aos “pobres”. O juiz Sérgio Moro é um digno representante dessa classe que parasita uma ideia de nação há séculos.

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‘Página da ditadura está longe de ser virada. Tortura, mortes e desaparecimentos seguem acontecendo’

Deborah Neves, historiadora, pesquisadora da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo e responsável pelo processo de tombamento do DOI-Codi, do II Exército. (Foto: Caroline Silveira Bauer/Divulgação)

A falta de difusão da memória sobre o que aconteceu na ditadura civil-militar implantada no país após o golpe de 1964 é um dos entraves que ameaçam a frágil democracia brasileira. Apesar do volume expressivo de pesquisas, documentários, livros e filmes já produzidos sobre o tema, essa memória ainda não tem a capilaridade necessária para que a sociedade não aceite mais práticas de violência do Estado contra seus próprios cidadãos e contra a própria ordem democrática. Um dos instrumentos para a construção e difusão desta memória é o tombamento de lugares que serviram como centros de tortura e repressão durante o período da ditadura.

Historiadora, pesquisadora da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo e responsável pelo processo de tombamento do DOI-Codi, do II Exército, Deborah Neves esteve em Porto Alegre na última semana participando de um debate sobre o tema promovido pelo Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (Luppa), em parceria com o Departamento de História e o Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em entrevista ao Sul21, Deborah Neves falou sobre o processo de tombamento do DOI-Codi em São Paulo e sobre o muito que ainda precisa ser feito no Brasil para difundir a memória do que aconteceu em um período recente da história do país. A fragilidade dessa memória, assinala a historiadora, pode custar muito caro para a sociedade brasileira:

“Muita gente diz que precisamos virar a página. No entanto, a página da ditadura está longe de ser virada. Ela ainda está presente em nosso cotidiano, se não por uma intervenção militar como a que está acontecendo agora no Rio, pela própria atuação das policias militares no país inteiro. As torturas, mortes e desaparecimentos continuam acontecendo. Quando a gente fala do patrimônio histórico não estamos falando do passado. Ainda estamos falando do presente. O reconhecimento desses lugares é necessário para que a gente também pense sobre que tipo de desaparecimentos e repressão o Estado está promovendo hoje contra os seus cidadãos”. (Leia aqui a entrevista na íntegra)

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A geração que nasceu na Feira dos Agricultores Ecologistas e fez da agroecologia um modo de vida

Amélia Lovatto e Franciele Belle participam da FAE desde os seus primeiros anos de vida. (Foto: Divulgação)

A Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE) está perto de completar 30 anos de vida. Instalada desde 1989 na rua José Bonifácio, tradicional rua que abriga o Brique da Redenção, em Porto Alegre, a feira consolidou-se como um espaço de comercialização de alimentos livres de agrotóxicos. Mas não só isso. Ela se tornou também um ponto de encontro e de convergência de pessoas, grupos sociais e entidades interessadas em agroecologia, agricultura familiar, gastronomia e defesa do meio ambiente. A feira tem uma história que já está perto de entrar em sua terceira geração. Quem vai à feira hoje, encontrará jovens produtores e produtoras que freqüentam as suas bancas desde bebês.

É o caso, por exemplo, de Franciele Menoncin Bellé, que começou a participar da feira ainda na barriga da mãe, Aldaci Menoncin Bellé. Depois que nasceu, a partir dos seis meses de idade, ela passou a ir à feira quase todos os sábados. “Fui criada dormindo embaixo da banca ou sentada em cima da banca quando ela estava sendo montada. As pessoas passavam e perguntavam brincando: Quanto é que custa essa mercadoria? Quero levar. Várias outras meninas também têm a mesma história”, lembra. Filha única, desde muito pequena, acompanhou seus pais para todos os lugares onde eles iam. Franciele Bellé faz parte de uma geração que praticamente nasceu dentro da feira e que decidiu seguir o trabalho dos pais, escolhendo a agroecologia não só como modo de produção, mas também como modo de vida.

As memórias que Franciele tem de sua infância na feira, na companhia de seu pai e sua mãe, indicam o papel que a agroecologia viria a ter em sua vida:

“Quando a gente ia colher frutas para mim era um momento muito mágico. Eu adorava comer aquelas frutas e isso gerou dentro de mim uma sensação e uma lembrança boa. A gente não lembra dos fatos, muitas vezes, mas lembra do sentimento e existem sentimentos bons e ruins. São esses sentimentos que, no futuro, vão nos guiar. Eu acredito que esses sentimentos bons que eu tinha quando íamos colher frutas ou participar de feiras fazem com que eu me sinta em casa quando estou na FAE. Eu me sinto muito melhor lá do que na minha própria casa. Essa é a razão pela qual a gente resiste. Às vezes é muito difícil e dá vontade de desistir. É esse sentimento que tenho dentro de mim que me motiva a continuar”.

Amélia Lovatto e Francielle Belle em sua própria banca quando pequenas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Essa relação familiar com a agroecologia é antiga. A família do pai de Franciele, Nelio Roberto Bellé, enfrentou problemas de saúde relacionados à participação do avô na Segunda Guerra Mundial. Esses problemas deram origem a uma busca que acabaria por desembocar na agroecologia. “O meu pai, em busca de um tratamento, conheceu a macrobiótica e a Colmeia em Porto Alegre. Na época, estavam começando a falar de agroecologia e de produção orgânica. Ele achou uma coisa muito interessante e trouxe aqui para Antonio Prado. Em 1988 foi criada a cooperativa Aecia que participou da primeira feira criada pela Colmeia”.

Nesta época, relata ainda Franciele, seu pai também levou para Antonio Prado uma loja de produtos naturais e, junto com seus irmãos, começou a plantar produtos agroecológicos. “A loja era muito pequena e ela não vingou. Aqui em Antonio Prado até hoje as pessoas não aceitam muito produto agroecológico. Neste período a gente morava na cidade e acabamos voltando para o interior onde começamos uma agroindústria. Minha mãe começou a fazer sucos, molhos, conservas e compotas. A agroindústria acabou se sobressaindo muito mais do que a loja. Sempre procuramos criar um produto diferenciado, o que permanece até hoje. Na feira, hoje, entre produtos industrializados e in natura, são comercializados perto de 400 produtos”.

“A gente tem uma qualidade de vida muito melhor aqui”

 A história de Maiara Marcon também está intimamente ligada à da feira. Seus pais começaram a participar da FAE em 1990, um ano antes dela nascer. No início, a família comercializava poucos produtos mas, com o passar do tempo, foi aumentando a diversidade de oferta. A viagem de cerca de 200 quilômetros, de Ipê a Porto Alegre, passou a ser semanal. Hoje, está na primeira banca da feira, “a banca dos feijões”, como é conhecida.

Maiara Marcon e seu pai Leoclides Antônio Marcon, que é guardião de sementes. (Foto: Arquivo pessoal)

Maiara tentou trilhar caminhos diferentes. “Tentei sair da colônia três vezes mas, nas três vezes, voltei. Saí de casa para trabalhar fora e trabalhei no comércio. Mas não rolou e acabei voltando pra casa de novo. A gente tem uma qualidade de vida muito melhor aqui. A alimentação é cem por cento melhor. As pessoas na cidade às vezes são muito preconceituosas com quem vive na colônia. Eu odiava fazer faculdade porque me chamavam de colona e coisas assim. Mas eu nunca tive vergonha de ser colona e nenhum dos jovens que vivem aqui tem vergonha. Ninguém tem vergonha de dizer: eu moro no interior e produzo alimento orgânico”, conta.

Hoje, além de agricultora ecológica, ela participa da coordenação da Rede Ecovida, uma articulação de famílias produtoras em grupos informais, associações ou cooperativas, que tem uma forte presença da juventude. A Rede Ecovida, entre outras atividades, explica Maiara, funciona como órgão fiscalizador da agricultura orgânica no Estado. Ela destaca que a agroecologia foi um fator decisivo para ela permanecer trabalhando no campo. “O diferencial foi o orgânico. Tu pode falar com qualquer um dos jovens do nosso grupo que eles vão dizer a mesma coisa. Eu acredito que a agricultura orgânica segura muito mais jovens na colônia do que qualquer outro tipo de trabalho no interior”.

Biodinâmica: “a agricultura orgânica com um tempero mais”

Gabriel Riva Matias, 18 anos, trabalha com agricultura orgânica e biodinâmica desde pequeno. A família de Gabriel trabalha há 22 anos com orgânicos no assentamento de Reforma Agrária “Integração gaúcha”, localizado no município de Eldorado do Sul. Também há 22 anos, eles participam da Feira de Agricultores Ecologistas, no parque da Redenção, em Porto Alegre. “Nós já trabalhávamos com orgânicos. Aí, Lutzenberger nos apresentou a Colmeia e iniciamos essa relação com a feira. Começamos a trazer a nossa produção excedente para a feira e também passamos a fazer algumas entregas lá em Eldorado. Hoje, além da feira da Redenção, estamos também há 19 anos na feira do Menino Deus e, mais recentemente, em feiras no Shopping Total, no IPA e no bairro Três Figueiras”, conta.

Gabriel Riva Matias: “a biodinâmica é a agricultura orgânica com um tempero a mais” (Foto: Laura Neis/Divulgação)

A Cooperativa Pão da Terra, da qual a família de Gabriel participa, trabalha com panifícios e horta. Ao todo, são 56 variedades, entre pães, bolos e biscoitos, e, na horta, 86 variedades ao longo do ano. Onde Gabriel mora, a maioria dos jovens trabalha na cidade. “De 40 jovens que vivem no assentamento, 35 preferem ir trabalhar na cidade”, relata, mas ele valoriza a escolha pelo trabalho na terra, com a família. “O campo é um pouco sofrido, é uma lida difícil. Na cidade, pode parecer um pouco mais fácil, mas não é tão mais fácil assim. No início, os amigos da cidade, até pegam um pouco no pé, mas eu acho muito legal a vida que levo tendo essa conexão com a terra”.

Gabriel trabalha com uma tecnologia orgânica de produção, a biodinâmica, que envolve conhecimentos, ao mesmo tempo tradicionais e sofisticados, que a maioria dos amigos que optaram pela cidade desconhece por completo. Esses conhecimentos envolvem áreas como astronomia, química e biologia, entre outras. A biodinâmica é agricultura orgânica com um tempero a mais, resume. “Ela trabalha com o calendário lunar, com as fases da lua, e também com as constelações e planetas. De dia a gente não vê, mas as estrelas e planetas seguem ali. Dependendo da sua movimentação, há dias melhores para um determinado plantio ou para fazer alguma mudança na horta. Tudo isso através da observação do céu.”

Parte do “tempero a mais” da biodinâmica é a sílica, um preparado à base de silício moído que é colocado na água, onde permanece por uma hora. Depois ele é aplicado na lavoura. “Logo depois de uma chuva, ou mesmo de uma tempestade, esse preparado traz luz para a lavoura, ajudando ela a se recompor”, exemplifica Gabriel. Além desse composto de silício, outro ingrediente da produção biodinâmica é o fladen, um preparado que também é diluído na água e depois colocado na lavoura. “É um preparado para a terra que ajuda a decompor matéria orgânica e as plantas a se enraizarem. Ele ajuda as plantas e a terra a trocarem informações entre si. Um vai complementando o outro”, explica.

Amanda Lovatto: “Se eu fico muito tempo sem vir me faz falta”. (Foto: Laura Neis/Divulgação)

 “Eu sei que nunca vou passar fome”

Amanda Lovatto, 23 anos, também participa da FAE desde que era um bebê. “As pessoas comentam ainda que lembram de mim desta época. A gente tem uma ligação muito forte com a feira. O meu pai sempre nos trouxe, eu e minha irmã, para cá. A gente gostava de ver o pessoal trabalhar e queria fazer a mesma coisa. Nós montávamos um banquinha ao lado da banca e ficava brincando de vender. O engraçado é que algumas pessoas compravam de nós mesmo. Posso dizer que me criei aqui, praticamente”, lembra. Para Amanda, a feira simboliza mais do que a comercialização de produtos. “Eu gosto muito daqui. Sinto um astral e uma energia. Se eu fico muito tempo sem vir me faz falta”.

Hoje cursando Agronomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Amanda sempre quis trabalhar com alimentos e pretende seguir nesta área e, nem de longe, vê a opção de trabalhar com a terra com algo associado ao atraso, em relação às escolhas oferecidas nas cidades. “Com um pedacinho de terra, você pode fazer muita coisa. Eu sei que nunca vou passar fome e que posso tirar uma renda segura dali. Mesmo se, algum dia, eu quiser ter outras experiências, fora de casa, sempre vou ter essa segurança de voltar para esse pedacinho de terra que a gente tem lá em Farroupilha”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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