No postão da Cruzeiro, moradores repudiam demissões: ‘passam na tua casa com guarda-chuva na mão. Quem faz isso?’

Zilda Vieira Felício: “Deus me livre, o que tive foi pra lá de ajuda. Nem tenho palavras”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

No dia 17 de setembro, o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), anunciou que pretende demitir 1.840 mil funcionários do Instituto Municipal de Estratégia de Saúde da Família (IMESF), em função de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou a atuação do instituto ilegal por se tratar de uma fundação pública de direito privado. Contestada por servidores, entidades de classe e usuários do serviço de saúde, a decisão do prefeito ganhou na última quinta-feira (26), um novo opositor. O plenário do Conselho Municipal de Saúde aprovou, por unanimidade, que todos os servidores do IMESF sejam absorvidos pela Prefeitura de Porto Alegre. Aprovada por votação, a medida se torna uma recomendação ao prefeito da capital.

Para além das tecnicalidades jurídicas envolvendo o estatuto do instituto, as comunidades atingidas pela possível demissão das equipes que trabalham hoje nos postos de saúde têm outra preocupação: o desmonte dessas equipes significaria a ruptura de vínculos entre profissionais e comunidades que vêm sendo construídos há anos e que estão diretamente relacionados à qualidade dos serviços prestados. O Sul21 esteve esta semana no postão da Vila Cruzeiro, em Porto Alegre que atende cerca de 30 mil pessoas em uma área de grande vulnerabilidade social. Profissionais das equipes de saúde e moradores da comunidade foram unânimes em alertar sobre os graves problemas decorrentes da quebra desse vínculo para a saúde da população.

Daniela Aguiar Martins Domingues, médica de família e comunidade, trabalha há um ano e meio na Unida Básica de Saúde Moab Caldas. Seguindo a rotina no nono mês de gravidez, ela relata que os cerca de 40 funcionários do IMESF que trabalham na unidade estão vivendo uma situação de tensão e incerteza a partir da notícia das demissões. “Nós não recebemos ainda os avisos prévios, mas está todo mundo muito tenso. Isso foi anunciado de uma maneira que não nos deixou respaldados de nenhum jeito para saber se seremos recontratados ou não, se ficaremos nas mesmas comunidades ou não. Essa situação está acabando com a saúde mental dos funcionários”. A doutora Daniela enfatiza o impacto para a comunidade da descontinuidade do serviço que é prestado atualmente.

Essa incerteza sobre o presente e sobre o futuro, acrescenta, é uma das piores coisas para o trabalho dos profissionais e para a comunidade como um todo. “A gente trabalha com o vínculo e com a longitudinalidade do cuidado, o que significa acompanhar os mesmos pacientes, as mesmas famílias ao longo do tempo. Quebrar esse vínculo, de uma hora pra outra, da equipe inteira, é algo muito grave, tanto para a gente que é profissional de saúde quanto, principalmente, para a comunidade que perderá esse vínculo”, diz Daniela. Além dela, a equipe com que trabalha tem uma enfermeira, duas técnicas de enfermagem e três agentes de saúde.

Dra. Daniela Aguiar Martins Domingues: a gente trabalha com o vínculo e com o acompanhamento das famílias ao longo do tempo. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

“Quem e o que virá no lugar deles?”

Bruna Rodrigues é moradora na comunidade há 32 anos e também destaca a importância dos vínculos estabelecidos com os profissionais do posto de saúde para a qualidade do atendimento recebido pela população. “Esse ano minha filha completa 15 anos. Neste tempo todo, fomos integralmente atendidas pelo posto de saúde. Esse formato das equipes de saúde da família que vão na casa da gente acabou se revelando o melhor modelo, pois temos um contato real com os profissionais. Há uma relação de troca e uma interação muito real. Em todo esse tempo, essa equipe que está aqui há cerca de sete anos, é a melhor que já tivemos. Ela estabeleceu um vínculo com a comunidade muito grande”.

Bruna conta que, quando ficaram sabendo pela TV da possibilidade de fechar o posto ou perder esses profissionais, todos ficaram muito preocupados. “Quem e o que virá no lugar deles? A gente não sabe. Não queremos isso. Nossa luta é pela permanência desses profissionais e pela manutenção do posto e do atendimento que temos hoje”.

O cuidado com o pé da Dona Zilda

A história de Dona Zilda Vieira Felício é um exemplo da importância e do valor do atendimento prestado pelas equipes de saúde da família na comunidade. No início do ano, ela fincou um parafuso no chinelo, o que acabou provocando uma lesão séria em seu pé. O diabetes afetou a sensibilidade da perna e ela acabou não percebendo o parafuso machucando seu pé. “Tem dias que sinto, tem que dias que não. Fiquei semanas com o parafuso fincado no chinelo. Meu neto pediu o chinelo emprestado para tomar um banho e viu o parafuso. Minha perna ficou vermelha como um tomate”. Após um tratamento com antibiótico durante algumas semanas, Dona Zilda teve que operar o pé para retirar toda a parte infeccionada. Após a operação, passou a receber, a cada dois dias, a visita de uma técnica de enfermagem da equipe de saúde da família para limpeza e troca do curativo no pé operado. Ela define como “maravilhoso” o atendimento que vem recebendo: “Deus me livre, o que tive foi pra lá de ajuda. Nem tenho palavras. É nota dez. São maravilhosos”.

Bruna Rodrigues: há uma relação de troca e uma interação muito real. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Agente comunitária de saúde, Elisangela de Fátima Lima Rosanelli destaca a dedicação dos profissionais neste atendimento à população. Ela conta que o postão da Cruzeiro atende cerca de 400 pacientes por dia. O atendimento a domicílio é dividido entre as micro-equipes que trabalham dentro do posto. Cada território recebe uma visita por semana. “Atendimentos médicos, são geralmente 12 de manhã e 12 de tarde. Além disso, há o acolhimento por livre demanda. Quem chegar vai ser ao menos escutado e, se não conseguir uma consulta no dia, ser direcionado ou agendado. Há um número de atendimentos e acolhimentos determinados que o médico pode fazer todo dia. Mas, além disso, tem as demandas espontâneas. A doutora sempre dá um jeito”.

“As doutoras tiram dinheiro do salário delas pra comprar uma folha ou caneta”

Aneliese Santos dos Santos mora há 43 anos na região e também é contrária à saída das atuais equipes do posto da Cruzeiro. “Qual é o lugar que vai ter um posto e, no dia em que tu precisa tomar a tua injeção, eles ligam pra tua casa pra lembrar disso? Em dia de chuva, passam na tua casa, com guarda-chuva e as fichinhas na mão. Quem é que faz isso? Em vez de tirar, deveriam dar melhores condições financeiras para eles trabalharem. Muitas vezes, as doutoras tiram dinheiro do salário delas pra comprar uma folha ou caneta. É raro o ser humano que faz isso. Agora querem tirar umas pessoas assim para colocar uns espantalhos pra nos atender? Não queremos”.

Olívia Gomes da Cruz e Sebastião Pereira da Cruz: “nos tratamos há mais de 30 anos aqui no postão”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Olívia Gomes da Cruz e Sebastião Pereira da Cruz têm a mesma posição. “Nós nos tratamos há mais de 30 anos aqui no Postão. Somos a favor do pessoal que trabalha aqui. Isso é um relaxamento do governo. Eles mentem pro povo para poder passar na eleição. Depois que passam, querem usar e abusar. É um abuso o que querem fazer”, diz Sebastião. Ele conta que a doutora Daniela e as enfermeiras sempre os visitam e estão junto deles. “O atendimento é muito bom. A gente toma remédio pra dor, para as mãos, pra pressão, pra tudo que é coisa. Como é que vão fechar uma coisa que a comunidade precisa. Não é só pra nós. Se eles saírem, vai fazer falta pra muita gente”, lamenta.

Morador da Vila Santa Teresa, Eder Fabis Torres ficou sabendo da notícia da demissão dos funcionários do IMESF durante uma consulta no posto de saúde. “Achei uma palhaçada. Vão demitir o pessoal que a gente já conhece, colocar outras pessoas e começar tudo de novo? Isso não dá certo. Para que tirar o pessoal que já está trabalhando há tanto tempo aí? Essa Prefeitura parece que não tem mais o que fazer. Eles querem que o povo consulte onde? Na rua?”, questiona indignado.

“A comunidade não tem para quem se dirigir”

Célia Maria Albuquerque, moradora da comunidade há 45 anos, engrossa o coro de indignação com o anúncio feito pela Prefeitura. “Fiquei muito triste em saber. O atendimento só melhorou depois que colocaram esse pessoal do IMESF com o acompanhamento de saúde da família. Eu sou depressiva e tomo medicamento controlado. Sempre fui muito bem atendida todas as vezes que precisei. O trabalho do pessoal aqui do posto é excelente. Sem esse pessoal vai ficar muito ruim pra nós. Tem pessoas acamadas, pessoas que não caminham e é muito difícil pra elas chegar ao posto”. Célia reclama também da falta de informação sobre o que vai acontecer. “A comunidade não tem para quem se dirigir. O pessoal que está trabalhando também não sabe o que vai acontecer com eles. Médicos, enfermeiros, tá todo mundo perdido. É muito triste”.

Dentro do posto, muitos usuários do sistema não sabem o que está acontecendo e ficam surpresos quando são informados que os profissionais do posto estão ameaçados de demissão. Ao saber da notícia pela doutora Daniela, em um corredor do posto, um paciente da médica pergunta atônito: “mas e eu, como é que vou ficar?” Essa pergunta vem sendo repetida por muitos moradores que prometem ir para as ruas protestar contra a ameaça de perda de um vínculo e de um cuidado que faz toda diferença na vida deles.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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