Quilombo do Sopapo: 11 anos de criação cultural, construção coletiva e resistência

Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo completou 11 anos de vida este ano. Foto: Luiza Castro/Sul21

Beatriz Rodrigues da Rosa conheceu o Quilombo do Sopapo pelas mãos da filha e essa descoberta acabou transformando sua vida. Ela começou se envolvendo com um trabalho de artes gráficas, mas não deu muito certo. “Sou uma negação com o computador”, conta, rindo. Mas ela se interessou pelo grupo de percussão Iyalodê Idunn (Senhora Felicidade), um dos vários coletivos que constituem o Quilombo, e decidiu participar do mesmo. “Aí eu me achei e começou a minha história aqui dentro. Aprendi a tocar tambor, que sempre foi um desejo meu. Nunca tinha tido oportunidade, pois a percussão é um mundo masculino, onde há uma distância entre a mulher e o tambor”. A história de vida de Beatriz é uma das tantas que fazem parte da história do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, um espaço cultural comunitário aberto, localizado no bairro Cristal, em Porto Alegre, que completou 11 anos de vida e trabalho este ano. 

Funcionando em uma casa cedida pelo Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Rio Grande do Sul (Sintrajufe), o Quilombo do Sopapo constituiu-se ao longo desse período como um espaço de criação cultural, de resistência e de construção coletiva que já transformou muitas vidas. Beatriz conta que foi dentro do Quilombo que assistiu pela primeira vez na vida a uma peça de teatro. Não só assistiu como participou da mesma com cantos, toques de tambor e textos. Agora, ela está auxiliando no setor financeiro da associação e começando um trabalho com plantas medicinais plantadas no quintal da casa. “Aqui dentro do Quilombo eu sinto que estou me realizando, na música, no cuidado com plantas que eu gosto muito. Esse espaço dá oportunidade para as pessoas terem algo mais do que trabalhar o dia inteiro”, diz Beatriz.

Beatriz Rodrigues da Rosa: “Aqui dentro do Quilombo eu sinto que estou me realizando”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

A experiência de uma escola social

Cristina da Rosa Nascimento estudava numa escola da região e ficou sabendo da existência do             Quilombo do Sopapo por meio de um cartaz sobre uma oficina de fotografia. Ela decidiu participar então de um curso de produção audiovisual ministrado pela Catarse e foi ficando. Começou a fazer essa oficina e produziu um vídeo de um minuto sobre perspectivas de vida que acabou sendo selecionado, junto com outros vídeos de várias regiões do país para ser exibido no Canal Futura. Hoje, Cristina integra a produtora Cristalizar Vídeo Produções, criada dentro do Ponto de Cultura, atuando como produtora e roteirista. Ela define o espaço como uma escola social e destaca o valor da interação com outros coletivos no aprendizado que teve na área de vídeo:

“Fomos aprendendo a dirigir, roteirizar, fazer decupagem e outras coisas junto com os coletivos daqui. Nosso primeiro trabalho profissional foi com uma galera do coletivo de teatro que queria ir para o Peru. Depois fizemos o Devaneios, um espetáculo coordenado pelo Leandro Silva, e seguimos fazendo outras coisas. A gente foi aprendendo e tendo mais segurança pra conseguir mostrar esses vídeos em outros espaços e até conseguir trabalhos mesmo”.

Cristina da Rosa Nascimento: “Fomos aprendendo a dirigir, roteirizar, fazer decupagem e outras coisas junto com os coletivos daqui”. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Leandro Silva trabalha com teatro de bonecos no Quilombo do Sopapo. Ele chegou em Porto Alegre, em 2013, vindo do Piauí, por meio de um programa de mobilidade de artistas, para fazer uma residência artística de formação em teatro de bonecos. Ele fez isso de janeiro a julho de 2013 e desse trabalho nasceu um grupo de teatro de bonecos: o Fuzuê Teatro de Animação. Leandro segue com esse trabalho até hoje, coordenando uma oficina de formação em teatro de bonecos que acontece aos sábados com um grupo de 20 pessoas. Desde 2013, seu trabalho envolve a construção de bonecos, a elaboração da dramaturgia e a criação de espetáculos.

Ele também trabalha em parceria com outros coletivos do espaço na produção de espetáculos híbridos. Leandro, que está terminando mestrado em Artes Cênicas na UFRGS, cita o exemplo do trabalho em conjunto que desenvolve com Beatriz: “Ela é da área de música e volta e meio criamos trabalhos que integram bonecos com música. Eu trabalho com bonecos de luva, o mamulengo, que é uma linguagem muito popular no teatro de bonecos no Nordeste. Minha formação autodidata vem dessa tradição. Desde que cheguei aprimorei outras linguagens como as do boneco gigante e do boneco geminado (bonecos que são acoplados ao corpo do ator). Em parceria com a Beatriz estamos trabalhando a linguagem dos bonecos gigantes”.

O piauiense Leandro Silva trabalha com bonecos de luva, o mamulengo, uma linguagem muito popular no teatro de bonecos no Nordeste. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

O projeto dos Pontos de Cultura

Criado em 2004 pelo governo Lula, durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, o projeto dos Pontos de Cultura representou uma iniciativa em escala inédita de promoção de atividades culturais estimulando o protagonismo das comunidades envolvidas. Naquele ano, quando foi lançado, com um orçamento de pouco mais de R$ 3 milhões, o programa incentivou a criação de 72 Pontos de Cultura. Em 2005, o orçamento do programa saltou para R$ 67 milhões. Ao final de 2006, já havia 470 Pontos de Cultura espalhados pelo país. Em 2010, esse numero chegou a 2,5 mil Pontos de Cultura instalados em 1.122 cidades brasileiras. Em 2014, a Política Nacional de Cultura Viva, instituída pela lei 13.018, transformou o Programa Cultura Viva e sua ação mais conhecida, os Pontos de Cultura, na Política Nacional de Cultura Viva.

A ideia inicial do governo Lula, lembra Leandro Anton, geógrafo, fotógrafo e educador popular no Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, era construir casas de cultura em todos os municípios. No entanto, observa, a experiência de trabalho na base comunitária mostrou que o central não era construir estruturas, mas sim reconhecer a diversidade cultural brasileira e fomentá-la para salvaguardar o patrimônio cultural do país. “Havia a preocupação de fazer uma política transversal na cultura, dialogando com outras áreas, pensando-a dentro de um processo de construção da cidadania e potencializando um campo de trabalho para a cultura. A ideia era dialogar com áreas como educação e meio ambiente, por exemplo, mas com a cultura sendo a proponente do processo e não como se ela estivesse sendo chamada por esses setores para cumprir um determinado papel dentro, por exemplo, de uma política de prevenção à violência”.

Leandro Anton: O Quilombo do Sopapo funcionou como uma incubadora de vários coletivos culturais. (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Anton destaca ainda a importância desse programa para a salvaguarda do patrimônio imaterial, que está ligado aos fazeres e às pessoas. “Havia dois mecanismos muito fortes aí. Um era tornar a cultura um processo de direitos e descentralizar a ação , reconhecendo espaços comunitários como espaços de excelência e fazendo com que a cultura se relacionasse com outros campos da área social sem abrir mão de seu espaço estético, de sua linguagem. O outro era o de salvaguarda da diversidade cultural brasileira e de suas diferentes manifestações. As mudanças tecnológicas passaram a permitir que o registro e a sistematização desses processos fossem feitos por quem faz, com o barateamento de custo de equipamentos e de produção”.

A criação do Quilombo do Sopapo

O Quilombo do Sopapo, conta Leandro Anton, nasceu dessa síntese e de um trabalho feito pela Guaí, que trabalha com economia solidária, direitos humanos e democracia participativa, junto com a população do bairro Cristal, envolvendo coletivos culturais informais. “O Quilombo do Sopapo surgiu dessa articulação e da ideia de se pensar algo novo dentro do bairro. Inicialmente, usou-se tecnologia, música e território para constituir um estúdio multimeios, um espaço de inclusão digital e uma atuação, a partir da juventude, para formar um grupo aqui no Cristal para tocar adiante o projeto.

Em 2017, foi criada a Associação Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, formada predominantemente por jovens que entraram nos primeiros cursos de audiovisual, de inclusão digital, de fotografia, direitos humanos e economia solidária, por moradores que foram se aproximando dos cursos posteriores nas áreas da percussão, da produção cultural, de teatro de animação. Atualmente, a associação conta com o curso pré-vestibular Carolina de Jesus, que funciona à noite, de segunda à sexta, com o Projovem, que resulta de uma parceria com outra instituição, Esperança Cordeiro, e que faz a iniciação ao mundo do trabalho de jovens em situação de alta vulnerabilidade social. É um programa que existe desde 2009 e, pela primeira vez, ocorre no Cristal. Além disso, há um núcleo de produção audiovisual que se formou em 2009, a Cristalizar Vídeo Produções, que também faz oficinas. Há ainda um coletivo fotográfico que se formou em 2010, o Imagens Faladas, que, alem de já ter lançado livros, tem parcerias com escolas, oferece oficinas e cursos de fotografia uma vez por ano, no mínimo. Outros coletivos que se constituíram no ponto foram o Fuzuê, de teatro de animação, o de percussão, que trabalha com o sopapo (tambor que dá nome ao Ponto de Cultura).

O Quilombo do Sopapo, observa Leandro Anton, funcionou como uma incubadora de todos esses coletivos. “Assim como a Guaí e o sindicato (Sintrajufe), que cede a casa, incubaram a iniciativa, a própria associação incuba uma série de coletivos. É uma experiência muita rica que mostra a importância da política pública, não como uma prática assistencialista, mas como formadora e organizadora do mundo do trabalho. O Quilombo do Sopapo é uma afirmação de que a política pública não é um processo assistencialista, mas sim um processo de reparação e de fomento, quando feita dessa forma, com a participação direta das comunidades envolvidas”.

Essa participação se dá também pelo acesso a um conjunto de cursos, oficinas e equipamentos. Hoje o Ponto de Cultura funciona manhã, tarde e noite, de segunda à sexta, e no sábado pela manhã e tarde, com o cursinho pré-vestibular funcionando à noite e as demais atividades de manhã e de tarde. O Telecentro atende diariamente, possibilitando acesso à internet e outros serviços nesta área, e há uma biblioteca comunitária que agora está em reforma”.

Todo esse trabalho sobrevive com muitas dificuldades em função do desmonte das políticas públicas no setor da Cultura nos últimos anos. “Do Cultura Viva, que deu origem a esse espaço, ainda há alguns resquícios de processos inaugurados antes de 2016. No campo do Cultura Viva, pós-2016, o espaço ganhou alguns prêmios como o Culturas Populares, do extinto Ministério da Cultura. Hoje, não vislumbramos nenhum tipo de fomento ou continuidade de política pública, do final do ano passado para cá, nem no âmbito estadual nem no federal. As leis de incentivo à cultura são inacessíveis para esse tipo de organização porque eles não são ‘vendáveis’, segundo a lógica de eventos e marketing empresarial que predomina dentro desse sistema. Quanto ao município de Porto Alegre, ele não só nunca operou aqui, de 2004 até hoje, como desconstruiu uma coisa que foi inspiradora do Cultura Viva, que era a política de descentralização da Cultura”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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