A nova fase da luta que se abre no Brasil neste 28 de outubro

Foto: Guilherme Santos/Sul21

A campanha eleitoral de 2018 no Brasil abriu uma luta que não se encerra no dia 28 de outubro, independentemente do resultado favorável a Bolsonaro. Essa luta, na verdade, sempre esteve presente, de forma mais ou menos latente, na sociedade brasileira, cuja história está marcada por um passado colonial racista, anti-povo e extremamente violento com os povos indígenas que aqui viviam antes do “descobrimento” e com os povos africanos, trazidos para cá acorrentados e escravizados. Essa história, que ainda está para ser contada, emergiu com força inédita agora, na figura de Jair Bolsonaro, um candidato que assumiu como símbolos e práticas as armas de fogo, a morte, a intolerância, o preconceito e a propagação massiva de mentiras. A morte, como ameaça, está presente em praticamente toda a, se é possível chamar assim, construção discursiva e simbólica do ex-capitão do Exército.

Não por acaso, Bolsonaro escolheu como seu principal homenageado o coronel Carlos Brilhante Ustra, militar apontado como responsável pela tortura de diversos presos políticos durante a ditadura. Mais do que isso, defendeu abertamente a prática da tortura, disse que a ditadura deveria ter matado mais para limpar o país dos esquerdistas e recomendou a seus seguidores que “metralhassem a petezada”, conselho que, parece, já vem sendo posto em prática por apoiadores do candidato. O antropólogo Luiz Eduardo Soares definiu assim esse processo de autorização, em um texto publicado em sua página no Facebook, durante a campanha do primeiro turno:

“A mensagem já foi passada à sociedade. E a mensagem se resume a uma autorização. Autorização à barbárie. A morte foi convocada. A barbárie está autorizada. O horror saiu do armário. Os espectros do fascismo estão aí, entre nós, a nos assombrar e ameaçar. Estão aí porque já existiam inclusive no espírito de alguns sujeitos que não imaginavam que pudessem ser contaminados” (“A barbárie está autorizada. O horror saiu do armário”).

A luta demarcada pela simbologia do próprio Bolsonaro, portanto, é uma luta entre civilização e barbárie, entre a vida e a morte. Essa simbologia só floresceu e ganhou ampla expressão política porque havia solo fértil para ela ser semeada. Ao longo do processo de colonização do país, os traços de racismo, violência e intolerância foram sendo escondidos e transmutados em um suposto espírito de cordialidade e democracia racial que faria do Brasil um país único no mundo. Com Bolsonaro, esses espectros saíram do armário onde estavam trancados e tomaram ruas, corações e mentes. O discurso do anti-petismo foi utilizado para dar um suposto verniz moral a essa verdadeira infestação ideológica ultra-conservadora.

Essa luta não se encerra no dia 28 de outubro por várias razões. Uma delas é que a luta entre civilização e barbárie acompanha a humanidade desde seus primeiros passos. Vários povos já passaram por ela e, agora, cabe ao povo brasileiro enfrentá-la. Esse enfrentamento exigirá, entre outras coisas, que nos olhemos no espelho como indivíduos e como sociedade e vejamos qual é mesmo a nossa história. Não é só que o Brasil não acertou suas contas com a ditadura. Há um acerto de contas a ser feito com nosso passado colonial, com os crimes terríveis que foram cometidos nele contra povos indígenas e africanos, contra as mulheres também. Trazer esses fatos à luz causa repulsa a Bolsonaro, que vive nas sombras.

O crescimento da candidatura de extrema-direita e de sua agenda marcada pelo símbolo da morte e pelo discurso da intolerância teve, por outro lado, um efeito colateral inédito: a conformação de uma aliança de indivíduos e forças sociais da esquerda, do centro e mesmo de setores civilizados da direita em defesa da democracia, dos direitos e das liberdades. O cineasta Jorge Furtado definiu assim essa unidade, em um texto intitulado “Nada será esquecido” (publicado em sua página no Facebook):

“Esta foi diferente de todas as outras. Não foi uma escolha entre dois candidatos, ou dois partidos, ou dois programas de governo. Foi uma escolha entre duas maneiras diferentes de ver o mundo, de se relacionar com as pessoas, de sentir e pensar a vida. Não foi uma escolha política, foi uma escolha moral. A partir de segunda-feira, haja o que houver, precisaremos reconstruir nossa democracia, e o ponto de partida será a união das pessoas que votaram no Haddad no segundo turno”.

O desafio principal agora é manter essa unidade em defesa da democracia, dos direitos e das liberdades. Isso será necessário, entre outras razões, pelo fato de que todas as formas de opressão estão conectadas e Bolsonaro é a personificação dessa conexão. Isso quer dizer que todas as lutas por direitos estão conectadas também, exigindo uma sólida unidade, como a que se construiu nas últimas semanas. Militantes de movimentos sociais, lideranças políticas e sindicais vêm sendo criminalizados, atacados e mortos em todas as regiões do país, sem que o poder Judiciário atue para frear essa escalada de violência. Portanto, não há muito tempo para lamentações. O exemplo dado por Fernando Haddad e de Manuela D’Ávila que se entregaram de corpo e alma numa luta incansável na linha de frente do combate pela democracia e contra o fascismo está aí para nos inspirar. Esse é o ponto onde estamos e que nos toca viver.

 

 

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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