Já estamos proibindo e rasgando livros. Quando começaremos a queimá-los?

Livros de direitos humanos da Biblioteca Central da UnB foram rasgados por viúvas da ditadura. (Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

Slavoj Zizek observou que o supremo desfecho da grande catarse moral-política, expressa na campanha Mãos Limpas na Itália, foi a chegada de Silvio Berlusconi no poder. “Sua vitória é uma lição deprimente sobre o papel da moralidade na política”, escreveu o filósofo esloveno em 2002. Mais de quinze anos depois, a Operação Lava Jato, a versão brasileira dessa grande catarse moral-política, ameaça lançar o Brasil num período de trevas. Seus protagonistas constituem uma mistura sinistra de juízes e procuradores subletrados, apaixonados pelos holofotes da mídia, ministros de tribunais superiores cuja vaidade compete com a cumplicidade na destruição do país. E uma mídia que atualiza de modo exemplar a advertência que Joseph Pulitzer fez há cerca de um século: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

E aí estamos: livros sendo proibidos nas escolas, livros sendo rasgados em bibliotecas de universidades, pessoas sendo agredidas nas ruas, cães mortos a tiros por uma horda de seguidores de um candidato de extrema-direita racista, machista, homofóbico, ignorante e totalmente comprometido com o sistema financeiro e o grande capital. Não há nenhum caráter panfletário em afirmar isso. São as manchetes da mídia desse capital que o afirma: o mercado vem comemorando com muito entusiasmo cada subida desse candidato nas pesquisas. Para o “mercado” uma ditadura como a de Pinochet no Brasil seria um ótimo negócio. Também não há nenhuma novidade nisso.

Qual é mesmo o legado da Lava Jato?

O Judiciário tem uma responsabilidade especial neste episódio. Em especial, os ministros do Supremo Tribunal Federal que assistem a tudo isso de modo impávido, com suas longas capas pretas e liturgias alienadas absolutamente dissociadas da realidade do povo brasileiro. Foi assim em 1964 também. O golpe civil militar que mergulhou o Brasil em um período de trevas contou com um misto de omissão e protagonismo do STF e do Judiciário de modo geral. Falta, entre outras coisas, coragem para romper esse ciclo. Uma mistura de vaidade, covardia e, em alguns casos, total cumplicidade com os projetos do grande capital, embalam a conduta do Judiciário no processo político brasileiro. Historicamente, o Judiciário brasileiro está de costas para seu povo.

Enquanto isso, a maior liderança popular que o Brasil já produziu está trancafiado em uma cela da Polícia Federal em Curitiba, acusado de receber um apartamento que nunca recebeu. O surrealismo brasileiro tem as marcas da crueldade e da perversidade que marcam a história da colonização deste país por uma elite racista que segue até hoje no poder. Enquanto isso, livros começam a ser proibidos em escolas e rasgados em bibliotecas. Só faltam começar as fogueiras, o que não deve demorar muito dada a ojeriza dos seguidores do candidato fascista à palavra, à linguagem e ao pensamento. Não por acaso, seu principal símbolo, é o gesto escroto de disparar uma arma. Uma horda de iletrados, homens brancos de classe média em sua maioria, adoradores de armas, carros e de seu grande líder que foge dos debates para não expor o seu vazio intelectual e espiritual.

É aí que estamos, esse é o legado da Lava Jato para o Brasil até aqui. Sobreviveremos a isso? Saberemos as chances nos próximos dias. Sempre é bom lembrar que o país que deu nomes como Kant e Goethe ao mundo, não sobreviveu e mergulhou numa espiral de loucura que custou a vida de milhões de pessoas. Há momentos na vida e na história em que somos convocados a tomar decisões que delimitam dois campos: o da coragem e o da omissão. Tod@s nós tomaremos uma decisão sobre isso neste domingo.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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