A linguagem está ingressando na clandestinidade

(Público/Esquerda.Net, em “As histórias das mulheres na clandestinidade (durante a ditadura em Portugal)”

Está difícil falar abertamente sobre o que se tornaram as instituições que, em tese, deveriam zelar pela democracia e pelo chamado Estado Democrático de Direito no Brasil sem correr o risco de ser oprimido ou mesmo destruídos pelas mesmas. Associações de pessoas que afrontam a lei em nome de interesses privados escusos recebem, muitas vezes, a denominação de organizações criminosas, quadrilhas, entre outros nomes. Mas, na conjuntura atual, há que domar a vontade de esbravejar, colocar o fígado na mesa, dar nomes aos bois, na verdade, aos homens e mulheres que vêm operando para a destruição de algo que mereça ser chamado de país ou nação como preferem alguns. Muita gente está fazendo isso nas redes sociais e fora delas. Mas o solo por onde esses desabafos transitam está perigosamente minado.

Qual o espaço de interlocução que pode haver com quem despreza e conspira contra a Democracia, o Direito e a Justiça? O que esperar dessa gente? O que esperar quando juízes e integrantes da Polícia Federal, cinicamente, se sentem autorizados a não cumprir decisões do próprio Judiciário, utilizando-se dos subterfúgios mais escandalosos? O que dizer dessa gente? Que nome dar? Cabe lembrar aqui uma observação de Albert Camus. Ele disse, certa vez, algo mais ou menos assim: não chamar as coisas pelo seu nome correto aumenta o grau de infelicidade e de injustiça no mundo. Qual será a colheita de uma sociedade que semeia a infelicidade e injustiça?

Estamos sendo empurrados nesta direção, espremidos entre uma crescente e, em certo sentido, necessária auto-censura e o silêncio imposto pelo Estado de Exceção, capitaneado pelo Judiciário em parceria com uma grande mídia nefasta, na qual a Globo é a principal protagonista, mas não a única (a lista é extensa: Veja, Folha de S.Paulo, Zero Hora, Globo, Estadão, RBS, Bandeirantes, etc., conspiram contra as ideias mais generosas que o jornalismo pode carregar). Temos um jornalismo dominante (feito por jornalistas assalariados), paradoxalmente, alimentando silêncios, censura e injustiça.

Não chega a ser uma novidade. Esse silêncio, vale dizer, para não ser injusto, já é uma atitude bem conhecida por quem vive nas regiões de periferia, no campo e na cidade. Sobre esse ponto, recomendo uma entrevista que será publicada nesta segunda-feira no Sul21, feita pelo Luís Eduardo Gomes com o rapper Eduardo Taddeo, cujo titulo ilustra muito bem essa questão: “Quando a gente fala de democracia, a periferia nunca teve. Não conheço direitos humanos, ouvi falar”.

Chamar as coisas pelo seu nome correto hoje virou um ato subversivo. A linguagem, ela própria, está ingressando na clandestinidade e em uma situação de exílio dentro de seu próprio país. Virou uma condição de sobrevivência e de resistência para que ele possa seguir falando sobre o que está acontecendo sem ser trancafiada e/ou exterminada. Em uma conversa há alguns anos, em um Fórum Social Mundial, sobre uma possível hierarquia de direitos vítimas do neoliberalismo, o jornalista Bernardo Kucinski disse que a primeira vítima não eram os direitos humanos, mas sim a verdade. Desta violação, as demais se seguiam em um efeito dominó. É nisso que estamos.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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Uma resposta para A linguagem está ingressando na clandestinidade

  1. Nelson disse:

    “[…] em parceria com uma grande mídia nefasta, na qual a Globo é a principal protagonista, mas não a única (a lista é extensa: Veja, Folha de S.Paulo, Zero Hora, Globo, Estadão, RBS, Bandeirantes, etc., conspiram contra as ideias mais generosas que o jornalismo pode carregar)”.

    Muito bem observado, Marco. O que mais vemos as pessoas fazerem é se referirem à Globo como o “grande problema”, como “o câncer a ser estirpado” para que o Brasil possa viver uma democracia real.

    Até mesmo de gente de esquerda ouvimos ou lemos isto, quando o problema tem a ver com a mídia hegemônica em geral e seus comentaristas, supostos especialistas em tudo, que são, na verdade, deformadores de opinião.

    Assim, se devemos nos acostumar a chamarmos as coisas pelo que elas em realidade são, como apregoava Camus, é imprescindível citarmos também os demais órgãos da grande mídia, que não ficam muito atrás da Globo em matéria de manipulação e alienação das mentes e corações dos brasileiros.

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