Passaporte para o Inferno (VI): um outro Natal é possível

“O calor humano era tal – de todas e todos – que o manjar nos pareceu, com perdão da expressão, divino”.

Flavio Aguiar

Retomo a série porto-alegrense, mas para abordar um assunto natalino e muito distante: um Natal passado na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias. No ano que vem retornarei à memorialística  gauchesca.

A gente vive falando da necessidade de se compreender “o outro”, defender “a alteridade”, etc.  Quando a gente fala isto, a gente sempre acha que é o “eu” e que o “outro” é “outrem”. Um aprendizado muito importante é, em contrapartida, sentir-se como este “outro” em carne e osso.

Já me senti tal, por exemplo, quando dava aulas na Costa do Marfim, na África subsaariana. Mas o sentimento era contrabalançado pelo fato de ser “eu” o “Professor”. Tenho uma foto imorredoura deste momento: “eu”, de paletó e gravata, em meio às alunas e aos alunos com seus vistosos trajes africanos. Claro: dá para se dizer que ali “eu” sou o “outro”. Mas com a pose professoral mantenho a segurança (talvez pseudo-segurança) de meu “eu” face às “outras” e aos “outros”.

O que se passou em Tenerife foi algo completamente diferente. “Eu” era o “inteiramente outro”, para glosar título de livro da professora Olgária Matos, que durante muitos anos foi minha colega na USP (“Os arcanos do inteiramente outro”).

Ou melhor, “nós”, eu e a Zinka minha companheira, éramos os “inteiramente outros”.

Passávamos o Natal em Tenerife, terra natal do Padre Anchieta (cuja casa de família ainda existe), para fugir ao frio e à escuridão de Berlim. Logo depois da chegada, passamos algumas noites da cidade de Güímar, onde há o museu das expedições de Heyerdahl às Américas em barcos de junco para provar que a travessia fora possível antes da de Colombo.

Passamos um 24 muito agradável, com passeios, visitas a museus ainda abertos, etc. Na manha do 25 saímos a passear com nosso carro alugado, com material para um lanche. Mas depois… fomos surpreendidos. No hotel, o restaurante estava fechado. A recepção, idem. Tínhamos a chave da porta de entrada e a do quarto, mas isto não mata a fome. Carro guardado, saímos a pé. Fora, os mercados e mercadinhos, também fechados. Os restaurantes, todos fechados. A cidade, toda e tudo, fechada. E nós, os viajantes imprevidentes, sem nada, nem um pão, nem mesmo uma bolacha, para comer. A noite caindo, e a fome subindo. Tínhamos umas duas garrafas de vinho e água, mas isto se bebe, não se come. A cidade mais próxima ficava a trinta, quarenta quilômetros de distância, descendo a serra, e depois para voltar, subindo: nem pensar.

Não estávamos grávidos, mas foi inevitável pensar num certo casal: este mítico e místico, nós apenas prosaicos mortais do realismo crítico, ou melhor, já entrando em estado crítico. Nas ruas evanescentes pelas névoas que vagavam (poético, pensarão leitoras e leitores desavisados – mas com muita fome não há muita poesia que subsista) não havia vivalma que nos acolhesse. As casas nos miravam indiferentes e cerradas, com suas janelas sobranceiras e escuras parecendo juízes a nos condenar com seus olhares sem condescendência nem misericórdia. A cidade, antes tão alegre e acolhedora, com suas feiras buliçosas, agora nos parecia um deserto hostil e ameaçador, sem sombra de compaixão.

Foi então que encontramos um passante tardio. Ele tinha destino, mas lhe perguntamos pelo nosso. Ele disse, meio duvidoso, que talvez houvesse um bar aberto na mesma rua onde os ônibus viajores eventualmente paravam. Não era longe, e para lá fomos.

Alvíssaras! Onde ficava o tal de bar, havia portas abertas, luz e calor dentro! Entramos.

Deparamos com uma cena digna de Breughel ou Bosch. Quem estava lá? Deixemos, cara leitora ou caro leitor, os eufemismos de lado. Seria aquilo que um romancista do peso de Victor Hugo chamaria de “a plebe mais plebéia” da cidade: eram putas, bêbados, talvez rufiões, outras pessoas de roupa remendada, puída, pobre, os donos do bar – mas vejam só – compunham uma família, com crianças, uma mulher (seria a filha do dono?) grávida de vários meses, outra anciã, total, os párias daquela noite de Natal em que todos os outros e outras estavam recolhidos em seus lares. Enfim, havia aquela coleção de gente. E nós. Sim, nós, “os estrangeiros na fronteira deste bar”, para glosar conhecido tango cantado por Nelson Gonçalves, um dos prediletos de meu pai. Nós, os “inteiramente outros” naquele rincão dos, digamos, “rejeitados” na noite natalina. Éramos os “outros dos outros”, por isto chamei-nos de “os inteiramente outros”.

Entretanto, depois de uma breve hesitação necessária ao reconhecimento mútuo, fomos recebidos com um espírito de braços abertos. Por todas e todos. Nos ofereceram a melhor mesa. As crianças trouxeram o cardápio. A escolha era pouca: alguns sanduíches, o vinho da casa. Ou alguma cerveja. Pedimos. Fomos servidos com uma extrema dedicação, brindados também com perguntas interessadas: quem éramos, de donde vínhamos, o que fazíamos ali, para onde íamos… Brasil?! Nossa! Que interessante. A comida veio: sofrível. O vinho também veio: Balzac o chamaria de “medíocre”. Mas o calor humano era tal – de todas e todos – que o manjar nos pareceu, com perdão da expressão, divino. E vinham perguntas e mais perguntas, se estávamos nos sentindo bem, se precisávamos de mais alguma coisa… Dentro de um certo tempo deixamos de  nos sentir os estrangeiros, e passamos a nos sentir “em casa”, tanto quanto isto era possível. Nós, os filhos da intempérie e da imprevisão, encontramos nosso abrigo.

Passada a refeição, nos quedamos ainda um bom tempo no lugar, tomando o vinho da casa e desfrutando daquela acolhida que nos surpreendeu em todos os melhores sentidos, provando que a solidariedade humana pode saltar por sobre as mais irredutíveis fronteiras, aquelas da alma e dos preconceitos, de que todas e todos podemos ser os impacientes pacientes. E vítimas.

Um outro Natal foi possível.

E é possível.

Louvado seja o abraço humano.

Leia também:

Passaporte para o inferno (I)

Passaporte para o inferno (II): As longas sessões de cinema

Passaporte para o inferno (III): O Dia D

Passaporte para o inferno (IV): O folclore da Legalidade

Passaporte para o inferno (V) – Ainda a Legalidade. Tanques, aviões da FAB, canhões e metralhadoras anti-aéreas

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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