O novo navio negreiro

“Navio negreiro”, de Rugendas (1830)

Flávio Aguiar

Pedindo permissão a Castro Alves

‘Stamos no Planalto Central…
Doudo no Palácio, Urubutemer
Planeja suas ações do mal
E quer nisto ajuda obter.

Conjura sua quadrilha
Para dar-lhe uma mão,
Chefiada por um tal Pandilha,
A por temperos no caldeirão!

Vejamos… aqui dança a Previdência,
Ali, o direito à saúde, à educação…
Agora cortamos os fundos da ciência
E também da luta contra a escravidão!

Queremos dar aos senhores de engenho
O poder sobre os destinos da nação!
Devolver-lhes com todo o empenho
O lucro no preço do pão!

Que deve ser pago pelos escravos,
Sem apelo, nem comiseração!
São responsáveis pelos agravos
Que oprimem nossa nação!

Quiseram ir aos aeroportos
Pra voar bem longe ao léu…
Deviam saber que só mortos
Voam escravos, e para o céu!

Mas aqui estamos nós, guardiões
Dos direitos da Casa Grande,
De pôr na Senzala os grilhões
Porque a rebeldia se expande!

Nisto, seguimos o exemplo do mundo!
É só ver como a ordem se mantém.
Nem precisa pensar profundo
Pra ver o que passa além.

A Grécia, à beira do mar Egeu,
Tentou criar uma rebelião.
Sucumbiu ao Banco Central Europeu
Ajudado pelo fraterno Alemão.

O navio da Inglaterra virou
Movido pelo ressentimento
Da Europa se desancorou
E soltou-se pelo firmamento.

A Espanha, meu Deus, que unha
Encravada que nos dedos dói!
Padece entre o grito da Catalunha
E a Guardia Civil de Rajoy!

A Itália, parece um spaghetti,
Passado num estreito cone:
Todo mundo pergunta, e repete:
Afinal, vai ou volta o Berlusconi?

E que desastre na Alemanha!
Ninguém sabe se vai ter coalizão!
Merkel não sabe se bate ou se apanha
E o SPD nada em contradição!

Olhemos pro outro lado, o Japão.
A Coreia do Norte lança mais um foguete
E Trump promete sua reação
E Shinzo Abe não sabe onde se mete!

Diante deste mundo inseguro
O melhor é voltarmos à escravidão
Diz o Presidente em apuro
Sem saber se dorme ou não.

Façamos leis que garantirão
Que fique na canga o povo,
E façamos da multidão
Um pinto que não sai do ovo!

Urubutemer, com sua coroa láurea,
Fechou seu discurso de apresentação.
Decretou o fim da Lei Áurea
E a volta da escravidão!

É verdade que teve ajuda
Pra exterminar os empregos no ato.
Foi a destruição, sem que ninguém acuda,
Da economia pela Operação Lava Jato.

Aqui o novo poeta se cala
E pede ajuda ao antigo:
Recebamos em nossa sala
O que declamava de improviso.

Abro espaço para a palavra direta,
A tua, poeta, que nos salves
Desta maldita sina incorreta,
Meu irmão Castro Alves!

“Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!
E a deixa transformar-se nesta festa
Em manto impuro de bacante fria…
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Auri-verde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança!
Estandarte que a luz do sol encerra
Co’as divinas promessas da esperança!
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis à lança,
Antes te houvessem roto na batalha
Que servires a um povo de mortalha!”

Poeta! Fecha as esteiras destes mares!
Poeta! Arranca este pendão dos ares!

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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